Surge o “sangue artificial”
Este artigo não constitui endosso do substituto do sangue PFC (emulsões perfluoroquímicas). Apresenta informações quanto ao seu desenvolvimento e certas vantagens que possui sobre muitos outros substitutos do sangue. Também sublinha que ainda é preciso haver muita pesquisa antes que o PFC possa ser aceito como sendo completamente seguro. Ainda se acha no estágio experimental, e existe um risco calculado em seu emprego. Seus efeitos a longo prazo ainda não são conhecidos.
DESDE o começo de 1979, novo líquido começou a fluir nas veias e artérias de certos pacientes hospitalares que precisavam muito de sangue. Foi primeiramente no Japão que se empregou este surpreendente fluido que transporta oxigênio, e, daí, nos Estados Unidos, em situações de emergência em que, por motivos médicos ou religiosos, os pacientes não podiam receber transfusões de sangue humano. Muitos destes casos apresentavam tipos raros de sangue, para os quais não havia nenhum sangue prontamente disponível. Várias Testemunhas de Jeová, porém, que não aceitaram transfusões por causa da ordem bíblica de ‘abster-se de sangue’, também receberam este “sangue sintético”. — Atos 15:20, 29.
Um de tais casos foi de uma Testemunha de Minnesota, EUA, com 67 anos, que, segundo Science News, “recebeu dois litros [4,2 pintas] das emulsões, constituindo cerca de 25 por cento de seu volume sangüíneo total. Depois disso, seu estado clínico melhorou, o sangue artificial sendo lentamente excretado do corpo . . . e sua medula óssea produziu suficiente sangue natural para corrigir a anemia”. Segundo os últimos dados, ele passava muito bem. Na Califórnia, um senhor de 65 anos recebeu 1,4 litros (3 pintas) do mesmo “sangue sintético” quando sofria extensiva operação estomacal. Teve alta hospitalar cinco dias depois.
Já no fim do ano, dezenas de tais casos de emergência, no Japão e nos Estados Unidos, tinham sido tratados com esse novo substituto do sangue. As notícias destes acontecimentos abriram manchetes na imprensa pública e nos periódicos médicos ao redor do mundo. Por que isto é considerado um grande avanço médico? Para entendermos a razão, é necessário conhecermos alguns dos problemas ligados ao emprego de transfusões de sangue humano.
Em todo o mundo, milhares de toneladas de sangue humano são empregadas, cada ano, para satisfazer as demandas dos hospitais e dos centros de pesquisas médicas. Apenas na Suécia, com cerca de oito milhões de habitantes, os hospitais consomem anualmente cerca de 220.000 litros de sangue. Conservar este enorme rio fluindo gera problemas em toda a parte. A escassez de doadores torna necessário que muitos países importem grandes quantidades de sangue, não raro dos países subdesenvolvidos. Tais doadores podem ser pessoas pobres, subnutridas e até mesmo doentes. Os preços são elevados.
Daí, há as complicações resultantes do uso do sangue humano em transfusões, tais como a hepatite e vários distúrbios imunológicos. Ademais, é difícil lidar com o sangue sem danificá-lo, e o sangue só pode ser conservado por tempo limitado, normalmente de três a cinco semanas. Até um terço poderá ser desperdiçado por ficar com data vencida.
Não É Tarefa Fácil
Em vista de tais problemas, as autoridades médicas acham mui desejável ter um substituto adequado para o sangue natural. Mas não é tarefa fácil copiar um líquido tão complicado. Eis aqui uma lista parcial da constituição e das funções mui complexas dos componentes sangüíneos:
Estes são apenas alguns dos muitos componentes conhecidos do sangue humano. E mesmo as funções destes componentes não são plenamente entendidas. Muitos outros componentes, ainda desconhecidos, podem existir, visto que a fórmula precisa do sangue humano ainda é um segredo guardado pelo nosso todo-sábio Criador. Certo pesquisador norte-americano, destacado no campo do “sangue sintético”, admite prontamente que jamais poderá haver um verdadeiro substituto do sangue.
Apesar de sua complexidade, os cientistas têm-se empenhado em imitar o sangue humano, ou, pelo menos, em produzir um substituto que possa assumir temporariamente algumas das funções do líquido real. Exemplos de tais produtos, agora em uso, são a dextrana, o Haemaccel, a hidroxietila de amido, o lactato de Ringer, e a solução salina comum. Tais soluções, contudo, só podem assumir algumas das funções do sangue, e servem primariamente como expansores do volume do plasma. Como tais, enchem o sistema de vasos sangüíneos após a perda de sangue, assim impedindo a lise dos glóbulos do sangue, até que o próprio corpo possa substituir o que falta.
Desenvolvimento do “Sangue Artificial”
Uma das maiores desvantagens dos expansores do volume do plasma é sua total incapacidade de transporte de oxigênio para as células, e de levar delas o bióxido de carbono, como fazem as hemácias do sangue natural. No entanto, nos últimos 10 anos, cientistas no Japão, na Suécia e nos Estados Unidos têm desenvolvido um grupo de substâncias chamadas perfluoroquímicas, ou perfluorocarbonos (PFC) que deveras têm a capacidade de transportar oxigênio e bióxido de carbono.
Os fluorocarbonos são inertes. Não parecem reagir com outras substâncias do corpo humano, e parecem dissipar-se do corpo num tempo relativamente curto. Não só podem absorver mais de duas vezes mais oxigênio do que o sangue, mas também podem absorver ou liberar oxigênio e bióxido de carbono em apenas alguns milésimos de segundo.
Por isso, os cientistas conseguem agora produzir uma solução que, em sentido limitado, pode ser chamada de “sangue artificial”. Visto que os perfluorocarbonos não se misturam com o sangue, é preciso preparar emulsões, pela dispersão de gotículas de PFC (de menos de 1/10.000 mm ou de 1/250.000 polegadas) em água, quase do mesmo modo que o creme é disperso em leite homogeneizado. Tal líquido é então misturado com antibióticos, vitaminas, nutrientes e sais. O produto final contém cerca de 80 componentes diferentes, que parecem conseguir assumir um bom número das funções vitais do sangue natural.
Extensas experiências com animais, utilizando-se emulsões de PFC, têm sido feitas nos anos recentes. A pesquisa nipônica revelou que os ratos sobrevivem com 90 por cento de seu sangue sendo substituído pelo PFC. Na Suécia e nos Estados Unidos, houve roedores que sobreviveram confortavelmente com a substituição de seu inteiro volume sangüíneo. Os cientistas nipônicos afirmam que houve macacos que sobreviveram com apenas 2 por cento de seu próprio sangue. (Veja Despertai! de 8 de fevereiro de 1980, página 30.)
Muitas Vantagens
Segundo os cientistas, as emulsões de PFC apresentam muitas vantagens. Em contraste com o sangue natural, são conservadas facilmente em condição estéril e podem ser estocadas durante meses ou até mesmo anos. Nenhuma tipagem é necessária (o que é valioso em emergências), e não se conhecem riscos de transmissão de doenças infecciosas, tais como a hepatite, a malária e a sífilis.
Outras vantagens incluem a capacidade de as pequenas partículas de fluorocarbono atingirem os vasos capilares contraídos pelo choque, tal como no caso de queimaduras. As partículas têm cerca de um milésimo do tamanho das hemácias e, assim, podem transportar oxigênio até áreas que normalmente ficariam privadas dele. Os cientistas também verificaram que os fluorocarbonos parecem estimular maior atividade dos glóbulos brancos que combatem as doenças.
Numa recente entrevista, o professor-adjunto Lars-Olof Plantin, do centro de pesquisas do Instituto Karolinska, do Hospital da Universidade de Huddinge, Suécia, apresentou a seguinte lista dos usos prospectivos do PFC: casos de emergência; grandes cirurgias; envenenamento pelo monóxido de carbono; hemorragias agudas; quimioterapia; septicemia; remoção das toxinas, vírus, tóxicos, etc.; infecções anaeróbias; terapia imunológica; substituição sangüínea. E o químico pesquisador norte-americano, Robert E. Moore, acrescenta: “[Os fluorocarbonos] poderiam ser usados para o tratamento de várias anemias, inclusive a anemia Falciforme. Poderiam ser usados para sobrepujar os efeitos dum ataque cardíaco. Por causa de sua condição neutra, poderiam ser perfeitos na condução de pesquisas biológicas, no sentido que eliminariam as variáveis.”
Existe, contudo, a necessidade de muito mais pesquisa, antes que este substituto possa ser lançado para uso normal nos hospitais. Lars-Olof Plantin e sua co-pesquisadora, Vera Novácová, declaram que todos os órgãos vitais do corpo precisam ser examinados cuidadosamente para se ter certeza de que nenhum é prejudicado pelo PFC. Precisa-se de mais pesquisa, também, para certificar-se de que o PFC não interfira nos vários sistemas orgânicos do corpo. É também importante desenvolver a melhor fórmula para a emulsão.
Entre as remanescentes incógnitas acha-se a de se o corpo pode livrar-se do PFC de modo natural, pela exalação e através da pele, na mesma taxa em que se produzem as hemácias. O alvo é descobrir emulsões estáveis de PFC que sejam eliminadas em questão de 30 dias. Embora se façam atualmente grandes esforços para equacionar tais problemas, poderiam passar anos antes de se examinarem suficientemente todos os possíveis efeitos colaterais. Assim, o uso do “sangue artificial” é um risco calculado.
Na atualidade, as agências governamentais, tanto no Japão como nos EUA, restringem o uso dos “substitutos sangüíneos”, de fluorocarbonos apenas aos casos de emergência. Com efeito, certa autoridade da Administração de Alimentos e Drogas dos EUA (FDA), o Dr. Joseph Fratantoni, disse alegadamente que a única razão que ele conseguia imaginar para que a FDA permitisse seu uso seria a recusa religiosa de permitir o emprego de sangue, como no caso das Testemunhas de Jeová. No entanto, segundo o Times de Nova Iorque, o êxito dos fluorocarbonos empregados na Testemunha, do estado de Minnesota, mencionada antes neste artigo, “exerceu um efeito catalítico sobre a pesquisa estadunidense”.
Tais casos podem fornecer aos cientistas mais informações sobre os efeitos de tais substâncias químicas sobre o corpo humano. Observando o potencial de pesquisa de tais pacientes, o Times de Los Angeles observa: “O fato de que muitos deles provavelmente sejam Testemunhas de Jeová significa que sua convicção religiosa poderá, com o tempo, resultar benéfica para pessoas de todas as crenças.”
[Tabela na página 14]
Constituição e Funções dos Componentes Sangüíneos
Glóbulos Transportam o oxigênio para as células e o bióxido de
vermelhos carbono de volta para os pulmões
Glóbulos Combatem infecções, produzem anticorpos
brancos
Plaquetas Promovem a coagulação
Proteínas (cerca Ajudam a manter o volume do plasma; transportam
de 30 tipos, tais gorduras e ácidos graxos, anticorpos, etc.
como albumina,
globulinas
Sódio, potássio Ajudam a manter uma concentração constante de sais
e outros íons
Enzimas Promovem as reações químicas
Hormônios Modificam as reações enzimáticas
Fatores Impedem a perda de sangue
coagulantes