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    Anuário das Testemunhas de Jeová de 1975
    • durante meus sete anos de custódia protetora no inferno dos campos de concentração nazistas em Sachsenhausen, Flossenburgo e Mauthausen — fiquei na prisão até ser liberto pelos Aliados — que o acesso de ira de Hitler não era apenas uma simples ameaça. Nenhum outro grupo de prisioneiros dos citados campos de concentração ficou exposto ao sadismo da soldadesca SS de tal modo como ficaram os Estudantes da Bíblia. Era um sadismo marcado por infindável série de torturas físicas e mentais, as quais nenhuma linguagem no mundo pode expressar.”

      Depois de termos enviado nossas cartas a Hitler, ocorreu uma onda de prisões. Hamburgo foi a cidade mais duramente atingida, pois ali, apenas alguns dias depois de 7 de outubro, a Gestapo prendeu 142 irmãos.

      ORGANIZADA A OBRA ÀS OCULTAS

      Tendo então avisado a Hitler, em nossa carta de 7 de outubro, de que, apesar de sua proscrição, continuaríamos a obedecer às ordens de Deus com exclusividade, empenhamo-nos em organizar todos os irmãos e irmãs corajosos e dispostos em pequenos grupos, sob a direção de um irmão maduro, cuja obrigação era cuidar de todo o coração das ovelhas do Senhor e pastoreá-las.

      O país foi dividido em treze regiões, e um irmão, com boas qualidades de pastoreio, foi designado em cada região para servir como diretor regional de serviço, como era então chamado. Estes tinham de ser irmãos que, sem considerar os perigos envolvidos, estavam dispostos a entrar em contato com pequenos grupos a fim de lhes fornecer o alimento espiritual, apoiá-los em sua atividade de pregação e fortalecê-los na fé. Exceto algumas, as posições foram ocupadas por servos inteiramente desconhecidos dos irmãos até então. Haviam provado, contudo, desde a ascensão de Hitler ao poder, que estavam dispostos a subjugar seus próprios interesses pessoais aos do Reino.

      MIMEOGRAFA-SE E DISTRIBUI-SE “A SENTINELA”

      Os irmãos mimeografavam e distribuíam cópias de A Sentinela em muitos locais diferentes por toda a Alemanha. Em Hamburgo por exemplo, Helmut Brembach continuou a fornecer aos irmãos em Schleswig-Holstein e Hamburgo cópias que ele e sua esposa faziam à noite. A irmã Brembach relata a seguinte experiência, dentre as muitas que ela e o marido tiveram:

      “Era de manhã quando a campainha da porta subitamente tocou, mas muito mais alto do que de costume. Quando abri a porta, encontrei três homens em pé ali. Suspeitei quem eles eram. ‘Gestapo’ disse um deles, e todos os três já estavam dentro do apartamento. Meu coração quase me subiu à garganta, ao pensar em todas as coisas escondidas na casa. Tremendo interiormente de medo, orei a Jeová.

      “Do ponto de vista humano, não teria sido nenhum problema encontrar as Sentinelas empacotadas e o equipamento inteiro que usávamos para produzi-las. Visto que nossa casa era uma em que moravam várias famílias, inclusive as de dois oficiais de polícia, não havia nenhum lugar para esconder as coisas, especialmente em vista de que o material necessário — papel, o mimeógrafo, a máquina de escrever e a tinta, bem como o material para embrulhos — eram todos grandes. Não sabendo como esconder tais coisas dos olhos que não deviam vê-las — precisávamos delas a cada duas semanas — decidimos amontoar tudo em nosso depósito de batatas, que ficava no meio do porão, onde poderiam chegar quaisquer dos outros ocupantes do prédio. Cada vez que acabávamos de produzir A Sentinela, colocávamos tudo cuidadosamente de novo neste depósito, cobríamos o mesmo com sacos vazios, e então empilhávamos caixotes vazios de tomates por cima, até o teto, esperando que, se acontecesse o pior, os que tentassem descobrir algo deixassem de notá-lo ou fossem preguiçosos e indiferentes demais para querer tirar tudo de cima do depósito de batatas. Confiávamos em Jeová; não havia nada mais que pudéssemos fazer.

      “O oficial me perguntou se possuíamos qualquer publicação proscrita na casa. Para evitar mentir, eu disse: ‘Pode olhar à vontade o Sr. mesmo.’ Deram busca no apartamento, abrindo a porta do armário de tal modo que deixaram de ver a máquina de escrever, que esquecêramos de colocar no depósito, e que teriam reconhecido como sendo a máquina necessária para datilografar A Sentinela, caso a descobrissem. Mas, Jeová os cegou. Depois de não encontrar nada no apartamento, perguntaram se podiam examinar o porão. Pensei então que era inevitável a descoberta de todos os materiais e registros. Tentei ocultar deles o meu medo embora meu coração batesse cada vez mais alto. Para piorar as coisas, uma mala cheia de Sentinelas mimeografadas que meu marido deveria levar numa viagem no dia seguinte estava bem atrás do depósito. Mas, o que aconteceu? Os três oficiais se puseram no meio do cômodo, vejam bem, bem ali, onde estava o depósito com a mala cheia de Sentinelas atrás dele. Mas, nenhum deles parecia notá-la; era como se tivessem sido cegados. Nenhum deles fez nenhum esforço de qualquer espécie de examinar o depósito ou até mesmo ver o que havia na mala. Por fim, um dos oficiais perguntou sobre nosso sótão; ali encontraram várias publicações mais antigas, que pareceram satisfazê-los, e assim se foram embora. Mas, as coisas mais importantes, graças à ajuda de Jeová e a dos seus anjos, permaneceram escondidas de seus olhos.”

      Poder-se-ia relatar muitos casos similares, que mostravam a orientação de Jeová em manter intatas estas operações com o mimeógrafo por longos períodos de tempo, e assim suprir Seu povo de publicações.

      OBRA DE PREGAÇÃO ORGANIZADA

      Nem todos os associados conosco se empenhavam na atividade de pregação. Pelo contrário, em algumas congregações, apenas a metade o faziam. Em Dresden, por exemplo, em certa ocasião, a congregação alcançara um auge de cerca de 1.200 publicadores, mas, depois da proscrição, estes caíram rapidamente para 500. Todavia, talvez tenha havido pelo menos dez mil por toda a Alemanha que se declararam dispostos a pregar, sem considerar o perigo envolvido.

      De início, a maioria só trabalhava com a Bíblia, ao passo que folhetos e livros mais antigos que haviam sido salvos das garras da Gestapo eram colocados ao se fazerem revisitas. Outros fizeram cartões de testemunho. Ainda outros escreviam cartas a pessoas que conheciam, aproveitando-se de alguma ocasião especial. A atividade de porta em porta continuou, embora estivessem envolvidos grandes perigos. Toda vez que alguém abria a porta, poderia ser um homem das SA ou SS. Depois de falar a uma porta, os publicadores em geral iam para outro prédio de apartamentos ou, em casos onde o perigo era extremo, até mesmo para outra rua.

      Pelo menos por dois anos foi possível, em quase toda parte da Alemanha — em alguns lugares até por mais tempo — pregar de casa em casa. Não há dúvida de que isto só era possível graças à proteção especial de Jeová.

      A pequena quantidade de publicações disponíveis para a atividade de pregação logo se esgotou. Por conseguinte, verificamos as possibilidades de obtermos publicações dos países estrangeiros. Ernst Wiesner, de Breslau, nos informa de alguns pormenores interessantes sobre como isso era feito:

      “Publicações nos eram enviadas da Suíça através da Tchecoslováquia. Eram estocadas na fronteira, com pessoas de fora, e então trazidas de lá pelas Montanhas Riesen, para a Alemanha. Esse trabalho, feito por uma equipe de irmãos maduros e dispostos, era perigosíssimo e extremamente cansativo. Atravessávamos a fronteira à meia-noite. Os irmãos estavam bem organizados e estavam equipados com grandes mochilas. Faziam a viagem duas vezes por semana, embora tivessem de apresentar-se a seus empregos cada dia, além disso. No inverno, usavam tobogãs e esquis. Conheciam cada trilha e atalho, dispunham de bons faroletes, binóculos e sapatos próprios para longas caminhadas. Ser cauteloso era a lei suprema. Ao chegarem na fronteira alemã, por volta da meia-noite, e mesmo depois de cruzá-la, ninguém ousava falar uma palavra por muito tempo. Dois irmãos iam na frente e, sempre que encontravam alguém, logo faziam sinais com seus faroletes. Este era um sinal para que os irmãos com suas mochilas pesadas, que os seguiam uns 100 metros atrás, se escondessem no mato pelo caminho, até que os dois irmãos que iam na frente deles voltassem e mencionassem certa senha, que era mudada de semana em semana.

      “Isto podia acontecer várias vezes numa noite. Uma vez o caminho estivesse livre de novo, os irmãos se dirigiam a certa casa num povoado do lado alemão, onde os livros eram colocados em pequenos pacotes nessa mesma noite ou bem cedo na manhã seguinte, eram endereçados e então eram levados de bicicleta à agência dos correios em Hirschberg ou outras cidades vizinhas. Os irmãos por toda a Alemanha recebiam suas publicações dessa forma. . . . Esta equipe de irmãos zelosos e de extraordinária perícia, conseguiu trazer grande quantidade de publicações para dentro da Alemanha, num período de dois anos, sem ser apanhada, destarte fortalecendo a muitos por todo o país.” Arranjos similares também foram usados nas fronteiras com a França, o Saar, a Suíça e a Holanda.

      De interesse, neste particular, é uma carta escrita por certa irmã: “Quando lerem o relatório do Anuário sobre a Alemanha perguntarão a si mesmos como é possível que tantas publicações fossem colocadas sob tais condições. Fazemos a nós próprios a mesma pergunta. Se Jeová não estivesse conosco, isso seria impossível. Muitos dos irmãos estão sendo vigiados constantemente pela polícia sempre que saem de casa. . . . Mas, Jeová está a par disso e, apesar de tudo, permite nos ser fortalecidos vez após vez pelo abundante alimento que usufruímos.”

      Tivemos tempo suficiente para ocultar as publicações em vários lugares antes de ser anunciada a proscrição. A fim de entender o que ocorreu, contudo, é importante ter presente que os irmãos jamais tinham tido qualquer experiência em estocar publicações quando sob proscrição. Assim, ao invés de dividi-la entre muitos irmãos, a tendência de início era depositá-la em grandes depósitos, pensando que isso era mais seguro, em especial em vista de que os encarregados achavam que a proscrição seria apenas temporária. Alguns dos depósitos tinham espaço de estocagem para de trinta a cinqüenta toneladas de publicações. Ao passar o tempo, contudo alguns dos irmãos começaram a preocupar-se, pensando no que aconteceria se os inimigos descobrissem e confiscassem estes grandes depósitos. Por esse motivo, os encarregados dos depósitos começaram a dar os livros para serem usados no ministério, sem considerar se seriam colocados por uma contribuição ou não.

      Uma vez evidente que a perseguição continuaria, e que manter os esconderijos se tornava cada vez mais perigoso, os irmãos começaram a dar gratuitamente tantos livros e folhetos quantos fossem possíveis. Ao participarem no ministério de campo, simplesmente os colocavam dentro da porta, quando ninguém estava observando, ou os enfiavam debaixo do capacho da porta, esperando que, em alguns casos, caíssem em mãos de pessoas sinceras, desejosas da força e da esperança que lhes podiam transmitir.

      COMEMORAÇÃO DA MORTE DE CRISTO

      Visto que estávamos determinados a não deixar de reunir-nos em harmonia com a ordem de Jeová, era óbvio que estávamos extremamente cônscios quanto a celebrar a Comemoração da morte de Cristo. Em tais dias, a Gestapo ficava especialmente ativa, determinando, na maioria dos casos, a data da Comemoração, quer pelas publicações impressas fora da Alemanha, quer da Sentinela mimeografada, que às vezes lhe caía nas mãos. Sua ira especialmente se concentrava nos ungidos, que eram mencionados, não só em relação com a Comemoração, mas também em relação com as campanhas especiais. Viam neles os “cabeças” da organização, que teriam de ser esmagados primeiro a fim de destruir a organização.

      A Comemoração em 17 de abril de 1935, foi especialmente estimulante. Várias semanas antes, a Gestapo já sabia da data e já tivera muito tempo para alertar a todos os seus escritórios. Uma circular secreta, datada de 3 de abril de 1935 dizia:

      “Um ataque de surpresa, lançado nesta ocasião contra os líderes conhecidos dos Estudantes da Bíblia, teria muito êxito. Queiram relatar quaisquer informações a respeito do êxito até 22 de abril de 1935.”

      Mas, a maioria dos oficiais só puderam mencionar muito poucas “informações a respeito do êxito”, como o de Dortmund, que só conseguiu relatar que as casas daqueles que se cria serem líderes da Associação dos Estudantes da Bíblia foram postas sob observação, mas que, em nenhum caso realizaram-se reuniões. Como um apaziguador, acrescentaram que “os membros liderantes e ativos dos Estudantes da Bíblia neste distrito já se acham em custódia, de modo que não sobrou ninguém para organizar tais reuniões”.

      No entanto, a polícia secreta estava enganada, pois, pouco depois de esta circular secreta ser enviada, recebemos uma cópia dela dum amigo da verdade que tinha acesso a tais informações secretas. Os diretores regionais de serviço avisaram a todos os servos, com bastante tempo, e lhes deram o conselho apropriado sobre como evitar a detenção e ainda assim obedecer às instruções de nosso Senhor e Mestre.

      Assim, aconteceu que muitos se reuniram logo depois das 18 horas, ao passo que outros esperaram até que a Gestapo viesse e se fosse, antes de saírem para se reunir com seus irmãos em pequenos grupos, alguns celebrando a Comemoração nos meados da noite. De qualquer forma, a maioria dos departamentos da Gestapo enviaram relatórios similares ao enviado de Dortmund.

      Willi Kleissle relata que os irmãos em Kreuzlingen celebraram a Comemoração logo às 18 horas. Foram instruídos para que, antes de saírem do prédio, fossem à loja situada nele, cujo dono era um irmão, onde podiam comprar açúcar, café ou outros itens similares. Daí, poderiam sair pela porta regular da loja. A “turma do porrete”, como o irmão Kleissle a chamava, realmente apareceu, mas só depois de todos os irmãos terem ido para a loja, de modo que não conseguiram provar nada. Mas, as perguntas feitas pela Gestapo, bem como os vários comentários feitos pela polícia, indicavam claramente que haviam obtido informações por meio de A Sentinela, quanto à data da Comemoração.

      Os irmãos sempre estavam preparados para surpresas, contudo, e isto era bom. Tentavam ligar, não só sua assistência às reuniões semanais, mas, acima de tudo, seu comparecimento à Comemoração, com alguma atividade diária inofensiva, e isto amiúde os salvava da prisão. Franz Kohlhofer, da vizinha Bamberg, relata:

      “Neste determinado dia, os espiões ficaram especialmente ativos em vigiar as casas das testemunhas de Jeová, na esperança de apanhar algumas delas em atividade ilegal e então prendê-las. . . . Havíamos decidido, vários dias antes, reunir-nos para a celebração na casa dum irmão que criava porcos. Todo mundo deveria trazer uma cesta cheia de cascas de batatas e outros lixos. Tudo isso tinha de ocorrer apressadamente, porque a Gestapo poderia surgir a qualquer momento. Como precaução, levávamos juntos nossos baralhos, de modo a poder enganar a polícia caso nos surpreendesse. E adivinhem o que aconteceu! Assim que o irmão terminara sua oração final, ouviram-se batidas à porta. Mas já então nós quatro estávamos sentados ao redor da mesa inofensivamente empenhados num jogo de cartas. Dificilmente podiam crer no que seus olhos viam, ao fixarmos os olhos neles quieta e candidamente. Visto que não nos conseguiram apanhar na hora certa, viram-se obrigados a ir embora sem terem realizado aquilo que se propuseram fazer.”

      BATISMO

      Não foram poucos os que aprenderam a verdade, durante este tempo, que foram batizados sob as circunstâncias mais provadoras. Logo muitos dos recém-batizados foram lançados na prisão ou em campos de concentração, e vários deles perderam a vida da mesma forma que aqueles que lhes trouxeram as boas novas.

      Paul Buder já tivera sua atenção voltada para o discurso “Milhões” lá atrás, em 1922, mas não entrou em íntimo contato com a verdade até 1935, quando uma jovem empregada no mesmo lugar que ele, e a respeito da qual tinha sido avisado pelos outros, lhe deu o livro Criação. “Isso foi em 12 de maio de 1935”, escreve ele em suas memórias, “e era aquilo que eu procurava. Em 19 de maio de 1935, deixei de ser membro da igreja e disse à jovem que eu gostaria de me tornar uma das testemunhas de Jeová. Quão feliz ela ficou! Ela já estivera presa por seis semanas, sendo acusada de ser colportora. Daí, entrei em contato com o irmão e a irmã Woite, da congregação de Forst. Apesar de ser tido como espião dos nazistas naquela congregação, ia regularmente de casa em casa em todos os povoados com minha pequena Bíblia de Lutero. Em 23 de julho de 1936, fui batizado no Rio Neisse em Forst, presentes o irmão e a irmã Woite, e também um irmão mais idoso que proferiu o discurso.”

      Os batismos amiúde eram realizados em pequenos grupos, em casas particulares. De tempos a tempos, eram realizados ao ar livre, às vezes, com apenas alguns candidatos, outras vezes com mais. Heinrich Halstenberg nos conta sobre um batismo no Rio Weser.

      “Em 1941, vários interessados expressaram seu desejo de ser batizados. Quando descobrimos que havia vários que tinham o mesmo desejo na vizinhança, começamos a procurar um local apropriado e o encontramos em Dehme, no Rio Weser. Depois de tudo ter sido bem considerado e cuidadosamente planejado, o batismo foi fixado para 8 de maio de 1941. Os irmãos e os candidatos ao batismo já estavam lá bem cedo de manhã. Para outros, parecia como se fôssemos um grupo que se divertia em nadar. Daí, de modo que ninguém nos pudesse surpreender, alguns foram enviados para ficar vigiando e, depois de se falar da importância do batismo, oramos a Jeová. Então, sessenta candidatos ao batismo foram imersos no rio. Outros, que eram idosos ou doentes demais para mergulhar na água fria, foram batizados em particular numa banheira, perfazendo um total de 87 batizados naquela dia.”

      COMEÇA UMA CAÇADA HUMANA

      Albert Wandres tinha sido um dos diretores regionais de serviço muito antes de 7 de outubro de 1934, e seu nome logo se tornou bem conhecido da Gestapo, em especial pela constante corrente de julgamentos nas várias cidades do Ruhr em que ele trabalhava. Em resposta à pergunta sobre onde os réus obtiveram suas publicações, o nome “Wandres” era ouvido com freqüência. A Gestapo fez todo esforço para colocá-lo sob custódia. Astutamente, contudo, ele pedira a todos os irmãos que tinham retratos dele que os devolvessem ou que os destruíssem. O resultado foi que, embora a Gestapo soubesse seu nome, não tinha idéia de sua aparência. Não caiu nas mãos de seus perseguidores senão depois de uma caçada humana de três anos e meio. Ouçamos o irmão Wandres nos contar algumas de suas experiências em sua atividade às ocultas.

      “Por certo tempo, encontrei vários irmãos em Düsseldorf numa mercearia dum irmão. Achamos que, se entrássemos e saíssemos da loja pouco antes da hora de fechar, isso seria menos notado. Certa vez já estávamos juntos por cerca de uma hora quando a Gestapo de súbito exigiu entrar. Bem na hora, fugi do depósito de armazenagem, onde realizamos nossa palestra, para a loja, que distava apenas alguns passos. Felizmente, as luzes já tinham sido apagadas. Instantes depois, entraram como um relâmpago no depósito de armazenagem e prenderam todos os irmãos presentes. Deram buscas no inteiro depósito e encontraram minha pasta cheia de Sentinelas. Subitamente, um dos agentes gritou alegremente: ‘Eis o que procuramos! A quem pertence a pasta?’ Ninguém respondeu. Então ele exigiu saber onde eram os alojamentos do dono da loja. ‘No terceiro andar’ foi a resposta. ‘Saiam’, bradou o agente da Gestapo, e todos os irmãos subiram as escadas até o apartamento, com os agentes da Gestapo perseguindo-os com ardor, esperando encontrar no apartamento do irmão aquele a quem procuravam.

      “Entrei então de novo com cautela no depósito de armazenagem, coloquei meu casaco e chapéu, apanhei minha pasta e verifiquei se não havia ninguém do lado de fora, na rua. Daí, parti apressado. Quando os cavalheiros voltaram lá de cima, descobriram, para tristeza deles, que seu “pássaro” escapara da gaiola, e já estava a caminho de Elberfeld-Barmen.” Adiciona o irmão Wandres: “Isto é muito divertido e bom de se contar, mas, passar a pessoa mesma por tudo isso é outra história.”

      “Certa vez”, continua o irmão Wandres, “eu levava duas malas pesadas, cheias dos livros Preparação, para Bonn e Kassel. Haviam sido enviadas através da fronteira perto de Trier. Cheguei em Bonn em fins da noite e deixei as malas num lugar seguro no porão do servo de congregação. Na manhã seguinte, por volta das 5,30, tocou a campainha. A Gestapo viera de novo dar buscas no apartamento. O irmão Arthur Winkler, naquele tempo servo de congregação, bateu à minha porta e trouxe à minha atenção as visitas indesejadas. Visto que não havia possibilidade de escapar, decidimos preparar-nos para o que desse e viesse. Quando a polícia entrou no meu quarto, perguntaram o que fazia ali e respondi brevemente que fazia uma excursão pelo Rio Reno e desejava visitar o Jardim Botânico de Bonn. Examinaram cuidadosamente meus documentos e, embora um pouco inseguros, os devolveram então a mim. O irmão Winkler teve de ir com eles até a chefatura de polícia, onde um dos agentes disse a seu superior — segundo o irmão Winkler me contou mais tarde — ‘Havia outra pessoa lá.’ ‘Vocês não o trouxeram? Não resta dúvida que foram as pessoas bem indicadas para se mandar até lá.’ ‘Por quê?’ um deles perguntou. ‘Devemos voltar e pegá-lo?’ ‘Pegá-lo? Acha que está esperando a sua volta?’ Na realidade os agentes mal acabaram de sair da casa quando eu também parti com uma das duas malas (eles não as encontraram), que levei junto para Kassel.

      “Chegando em Kassel, o servo de congregação, o irmão Hochgräfe, me contou: ‘Não pode ficar aqui. Precisa partir imediatamente. A Gestapo está vindo toda manhã a esta casa, já por uma semana.’ Concordamos que ele deveria andar uns 50 metros na minha frente, e me mostrar o caminho até um lugar onde pudesse deixar as publicações. Mal tínhamos andado mais de duzentos metros pela linda Kastanienallee quando os agentes da Gestapo, que conheciam bem o servo de congregação, se aproximaram de nós. Visto que eu o seguia a uns cinqüenta metros de distância, pude ver o sorriso zombeteiro deles, mas não o detiveram. Alguns minutos depois, as publicações por meio das quais os irmãos podiam ser fortalecidos em sua fé mais uma vez tinham sido levadas a um lugar seguro.

      “Outra vez, eu levava duas malas pesadas de publicações para Burgsolms, perto de Wetzlar. Eram 23 horas e tudo estava escuro como o breu. Dificilmente alguém poderia verme, mas ainda assim tinha a estranha sensação de estar sendo vigiado. Depois de chegar a meu destino, avisei aos irmãos que escondessem as malas num local seguro. Por volta das 5,30 da manhã seguinte, veio o sargento de polícia da cidade. Eu estava em pé no meio do quarto, preparando-me para me lavar, quando ele se voltou para a irmã e disse: ‘Ontem à noite um homem com duas malas pesadas veio aqui. Sem dúvida obtiveram publicações novamente. Onde as colocaram?’ A irmã respondeu: ‘Meu marido já foi trabalhar. E não sei o que aconteceu ontem à noite porque não estava em casa!’ O sargento replicou: ‘Se não entregar voluntariamente as malas, então teremos de dar buscas na casa à procura delas. Eu vou procurar o prefeito, pois sem ele não posso realizar a busca. Mas, até que eu volte, está proibida de sair da casa.’ Durante esta inteira palestra, eu estava em pé no meio do quarto, imaginando por que agente tinha aquele olhar vidrado e por que nem seque falara comigo. Só podia concluir que ele fora como que cegado. Depois de ele sair para procurar o prefeito, aprontei-me para partir imediatamente. Fui para o lado de fora e esperei atrás da casa até que o prefeito e o sargento de Polícia entrassem na casa pela frente. Nesse momento, saí sorrateiramente lá de trás. Os vizinhos, que por acaso viram isto, ficaram evidentemente contentes por eu ter escapado. Terminei de me vestir no meio do mato e então corri tão rápido quanto pude para a seguinte estação de trem e continuei a viagem.”

      Os outros diretores regionais de serviço tiveram experiências similares.

      PROVAÇÃO DE OUTRA ESPÉCIE

      Durante os anos de 1934 a 1936, os pastores fiéis apoiavam seus irmãos por toda a Alemanha, encorajando-os a freqüentar as reuniões e, se possível, participar em todos o, ramos de serviço, apesar da perseguição. No ínterim, realizou-se um julgamento em Halle, em 17 de dezembro de 1935, contra Balzereit, Dollinger e sete outros considerados irmãos “destacados”. Pelo menos para a metade deles, isso foi o fim de sua carreira cristã.

      Muitos irmãos, nos numerosos julgamentos que ocorriam na Alemanha, naquele tempo, admitiam abertamente o que fizeram na promoção dos interesses do Reino sob condições provadores. Em contraste, estes homens sob julgamento em Halle negavam ter feito qualquer coisa proibida pelo Governo. Balzereit, quando o presidente lhe perguntou o que tinha a dizer, afirmou que logo que a proscrição fora anunciada na Baviera, ele enviara instruções para não se trabalhar ali, e que o mesmo se dera em todos os demais estados. Disse que jamais enviara instruções que encorajassem qualquer pessoa a desconsiderar a proscrição.

      Quando o presidente lhe perguntou sobre a Comemoração anual da morte de Cristo, Balzereit respondeu que ele também tinha ouvido dizer que os irmãos planejavam reunir-se para celebrá-la, apesar da proscrição. Ele os avisara sobre isto, contudo, visto que sabia que a polícia planejava uma ação especial para esse dia.

      Naturalmente, a atitude pessoal do réu com respeito ao serviço militar veio à tona, assim como acontecera em todos os julgamentos naquele tempo. Ele se declarou completamente satisfeito com a explicação do Führer, a saber, que a própria guerra era um crime, mas que todo país tinha o direito e o dever de proteger a vida de seus cidadãos.

      Pouco depois, o irmão Rutherford escreveu a seguinte carta aos irmãos alemães:

      “Ao povo fiel de Jeová na Alemanha:

      “Apesar da perseguição iníqua sobre os irmãos, e a grande oposição levantada pelos agentes de Satanás nesse país, é animador saber que o Senhor ainda dispõe de alguns milhares nesse país que têm fé nele e que persistem em proclamar a mensagem do Seu reino. Sua fidelidade em fazer frente aos perseguidores e em permanecer fiéis ao Senhor se acha em notável contraste com a ação tomada por aquele que anteriormente era o encarregado da Sociedade na Alemanha, e outros associados com ele. Recentemente, uma cópia do testemunho dado no julgamento desses homens em Halle me foi fornecida, e fiquei atônito de verificar nela que nem um só dos julgados naquela ocasião deu um testemunho fiel e verdadeiro do nome de Jeová. Cabia especialmente ao anterior encarregado, Balzereit, levantar bem alto o estandarte do Senhor e declarar-se a favor de Deus e seu reino, no meio de toda a oposição, mas nem uma palavra sequer foi proferida que mostrasse sua completa confiança em Jeová. Vez após vez, eu trouxera à atenção dele o fato de que certas coisas poderiam ser feitas na Alemanha e ele me assegurou de que fazia todo esforço para encorajar os irmãos a prosseguir com o testemunho. Mas, no julgamento ele declarou com ênfase que não se fizera nada. É desnecessário que eu considere mais esse assunto aqui. Basta dizer que a Sociedade, daqui em diante, não terá nada que ver com ele, nem com aqueles que, nessa ocasião tiveram oportunidade de dar testemunho do nome de Jeová e do Seu reino e deixaram de fazê-lo. A Sociedade não fará nenhum esforço de procurar libertá-los da prisão, mesmo se tivesse poder de fazer algo.

      “Que todos que agora amam o Senhor voltem seus rostos para Ele, Jeová, e seu Rei, e permaneçam fiéis e firmes do lado do reino, sem considerar toda oposição que talvez lhes sobrevenha. . ..”

      O assunto foi considerado no número em alemão da Sentinela de 15 de julho de 1936, como aviso para aqueles que desejavam sinceramente ser testemunhas fiéis de Jeová, sob todas as circunstâncias.

      Em contraste com muitos dos irmãos fiéis da Alemanha, que foram sentenciados a termos de até cinco anos de prisão, Balzereit foi condenado a dois anos e meio e Dollinger a dois anos. Depois de cumprir sua sentença na prisão, Balzereit foi enviado ao campo de concentração de Sachsenhausen, onde foi obrigado a desempenhar um papel extremamente inglório. Assinara a declaração em que renunciava à associação com os irmãos e evitava todo contato com eles. Devido à sua conduta, foi liberto cerca de um ano depois, mas, no ínterim, viu-se obrigado a suportar muitas humilhações, pois, basicamente, as SS também odiavam os traidores. Foram as próprias SS que lhe deram o nome “Belzebu”, e um dos homens das SS exigiu que certa vez ficasse em pé na frente de todos os seus irmãos — havia cerca de 300 no campo, nessa época — e repetisse sua declaração assinada, renunciando à associação com as testemunhas de Jeová, e ele fez isso!

      Em 1946, tempo em que Balzereit já se tornara violento opositor da verdade, ele escreveu uma carta às autoridades de reparação, revelando a atitude hostil que tinha até mesma antes do julgamento. Assim findou um capítulo obscuro na história do povo de Deus na Alemanha, cujas primeiras linhas já tinham sido escritas na década de 1920.

      A GESTAPO GOLPEIA — 28 DE AGOSTO DE 1936

      Passaram-se dois anos de zelosa atividade, durante os quais a Gestapo deixou de exercer qualquer influência real sobre a organizada atividade às ocultas, apesar de sua cuidadosa vigilância sobre todas as testemunhas de Jeová conhecidas. Mas, com o tempo, ficaram sabendo cada vez mais sobre nossa atividade e em breve estavam bem informados do que fazíamos. Para ajudar a combater-nos, um “Comando especial da Gestapo” foi formado, segundo um aviso confidencial enviado à prussiana Polícia Secreta do Estado, datado de 24 junho de 1936.

      Na primeira metade de 1936, a Polícia Secreta do Estado compilou vasto arquivo que continha os endereços de pessoas que eram suspeitas de ser testemunhas de Jeová, ou, pelo menos, de ser amigáveis para com elas. Este arquivo se baseava, em grande grau, nos endereços encontrados no livro Maná Celeste Diário, confiscado nas buscas às casas. Cursos especiais foram então ministrados aos agentes da Gestapo. Foram instruídos a dirigir o estudo da Sentinela; tinham de estudar cuidadosamente os artigos mais recentes da Sentinela, de modo que pudessem responder às perguntas como se fossem irmãos. Por fim, tinham até mesmo de aprender a orar. Tudo isto visava, se possível, penetrar bem no meio da organização e destruí-la de dentro.

      Anton Kötgen, de Münster, relata que, depois de entregar as publicações a uma senhora “amigável”, foi prontamente detido e lançado na prisão. Ao mesmo tempo, o irmão Kötgen prossegue dizendo: “Os agentes da Gestapo visitaram minha esposa, que estava do lado de fora, no jardim. Apresentaram-se como irmãos, mas apenas visando descobrir os nomes dos outros irmãos. Minha esposa logo percebeu sua tramóia, e os revelou como sendo agentes da Gestapo.” Mas, não foi em todo o caso que a Gestapo foi reconhecida a tempo.

      No ínterim, o irmão Rutherford planejava uma viagem à Suíça e desejava, se possível, falar com os irmãos da Alemanha. Foram feitos arranjos para um congresso em Lucerna, de 4 a 7 de setembro de 1936. o escritório central na Suíça sugerirá que compilássemos vários relatórios dos irmãos, de toda a Alemanha, a respeito de suas detenções, os maus tratos sofridos às mãos da Gestapo, de serem despedidos de seus empregos por se recusarem a fazer a “saudação alemã”, e também relatórios de casos em que os irmãos morreram em resultado de maus tratos, e assim por diante. Tais relatórios deveriam ser levados secretamente para a Suíça antes de o congresso se iniciar de modo que o irmão Rutherford tivesse a oportunidade de examiná-los.

      Mas, de súbito, em 28 de agosto de 1936, a Gestapo deu um golpe impiedoso conjugado, lançando em operação uma campanha em que as testemunhas de Jeová foram caçadas como bestas feras. Todas as forças disponíveis foram mobilizadas, tanto de dia como de noite, mas principalmente à noite, na tentativa de capturar as testemunhas de Jeová. Todas as informações que a Gestapo reunira nos meses precedentes se provaram então de grande ajuda para eles. Pessoas insuspeitas inclusive algumas que jamais pretenderam ser testemunhas de Jeová, foram apanhadas na rede. Tais pessoas, naturalmente, estavam mais do que dispostas a contar à Gestapo tudo que sabiam sobre as testemunhas de Jeová, de modo que pudessem recuperar sua liberdade; e, embora amiúde parecesse bem pouco o que sabiam, todavia, estes retalhos de informações ajudaram a completar o quadro que a Gestapo até então já conseguira montar. Em audiências posteriores, a Gestapo amiúde se jactava de que tais informações os ajudaram a capturar milhares de pessoas, a maioria das quais foram lançadas em prisões e, mais tarde, em campos de concentração.

      Quando a campanha da Gestapo atingiu por fim a máxima velocidade, grande ofensiva teve êxito em colocar sob custódia o irmão Winkler, que naquele tempo era o encarregado de toda a obra na Alemanha, e a maioria dos diretores regionais de serviço, cujos nomes e territórios, na maioria dos casos, já eram conhecidos. A Gestapo julgava que esta “campanha” era de tamanho importância que a inteira rede polícial ficou envolvida em golpear as testemunhas de Jeová, deixando os elementos criminosos do submundo sem serem molestados.

      O trabalho pormenorizado da Gestapo, num período de vários meses, levara à descoberta de que se realizavam importantes reuniões entre o irmão Winkler e outros servos responsáveis de toda a Alemanha no jardim zoológico de Berlim. Isto se dava especialmente na parte mais quente do ano. Tais reuniões puderam ser camufladas por muito tempo por meio da agência de alugar cadeiras do irmão Varduhn ali. Sem ser notado, podia dizer aos irmãos que chegavam onde é que um irmão os esperava no jardim zoológico, e levá-los a um local seguro, onde se dava a palestra. Sempre que havia perigo pairando no ar, avisava-os simplesmente por se dirigir aos irmãos e receber o pagamento pelas cadeiras que eles “alugaram”. Mas, este maravilhoso arranjo não permaneceria secreto por muito tempo. De uma forma ou de outra, a Gestapo descobrira os pormenores, e isso resultou ser lhes de ajuda em seu astucioso plano de ataque. O irmão Klohe, que estava ele mesmo envolvido, conta-nos o que aconteceu naqueles dias excitantes em Berlim:

      “Eu aguardava o congresso de Lucerna, tinha boas oportunidades de poder comparecer, visto que já conseguira obter um visto suíço. Mas, antes disso, queria ir a Leipzig considerar assuntos de organização com o irmão Frost, cujo território eu deveria assumir como diretor regional de serviço, visto que surgira uma vaga com a prisão do irmão Paul Grossman. Não consegui alcançar o irmão Frost, contudo e no lugar onde esperava encontrá-lo fui recebido ao invés pela Gestapo. Fiquei completamente paralisado, de início pois logo quando iria iniciar tal serviço animador, eu seria privado da associação com meus irmãos e levado pela Gestapo para Leipzig. [Dali foi levado para Berlim.]

      “No ínterim, a Gestapo ficara sabendo que tínhamos um local de reunião no jardim zoológico e descobriram muitas outras coisas sobre a nossa organização. Estas informações foram obtidas por vários modos, inclusive por chantagem.

      “Alguns dias depois, cinco oficiais, armados de pistolas carregadas, apareceram subitamente, me mandaram pôr minhas roupas civis, e me levaram ao local próximo do lago de peixes dourados onde o irmão Varduhn alugava suas cadeiras de jardim. Não suspeitavam, contudo, que ele fosse uma das testemunhas de Jeová. Agora eu deveria servir de ‘isca’ para meus irmãos, que por fim apareceriam para a reunião planejada, sobre a qual a Gestapo obtivera então informações.

      “Mal acabara de me sentar onde me mandaram quando vi nossa irmã Hildegard Mesch vir-se aproximando de mim. Ela ficara imaginando por que eu não me dirigira até eles visto que era esperado, e queria então saber por que não viera. Visto que minhas canelas inchadas estavam muito doloridas devido aos golpes que eu recebera, os oficiais não suspeitaram de nada quando subitamente me curvei, fazendo uma careta de dor, no momento exato em que ela passava do outro lado da alameda, e eu tentava ao mesmo tempo fazer-lhe um sinal, com os olhos, de que a Gestapo estava no jardim zoológico. Ela entendeu, hesitou por um segundo apenas, e então retornou ao irmão Varduhn, a quem informou desta nova situação. Isto significava o maior dos perigos para o irmão Winkler, que realmente chegou pouco depois, e, sem suspeitar, sentou-se numa cadeira vazia. Logo depois o irmão Varduhn se aproximou dele, pedindo o pagamento do aluguel da cadeira, e ao mesmo tempo avisou-o de que os agentes da Gestapo estavam no jardim zoológico. O irmão Winkler logo se levantou, deixando sua pasta para trás e fugiu — segundo parecia — passando pelo círculo de agentes da Gestapo. Descobri mais tarde, que em fins da noite ele apareceu no apartamento do irmão Kassing, onde um grupo de agentes da Gestapo, que o esperava, o levou imediatamente sob custódia.”

      Dentro de poucos dias, pelo menos a metade dos diretores regionais de serviço na Alemanha, junto com milhares de outros irmãos e amigos, tinham sido presos. Isto incluía o irmão Georg Bär, que relata:

      “A cada noite, por volta das 22 horas, ouvia os presos serem levados de suas várias celas. Pouco depois, eu os ouvia serem espancados no porão, ouvia seus gritos e seus soluços. Cada noite, ao ouvir as portas das celas serem abertas, eu costumava pensar: Chegou a minha vez. Mas, não me incomodaram até que, por fim, no quarto ou quinto dia, por volta das 6 horas, fui chamado para interrogatório. Desta vez, era um homem das SS que me levou ao seu quarto e me mandou sentar. Então, disse: ‘Sabemos que nos poderia contar muito mais do que desejaria.’ Ficou em pé, apanhou um lápis que afiou na beirada da cesta de papel, e continuou seu pequeno discurso: ‘Não vou tornar as coisas difíceis para você, venha cá.’ Ele me pediu que chegasse até sua mesa mostrou-me várias páginas datilografadas e me deixou lê-las. Era uma lista de todos os servos viajantes da Alemanha, com meu nome no fim. Li os nomes das congregações que havíamos visitado, bem como os nomes dos irmãos ali. Preto no branco, li quantas publicações, fonógrafos e discos havíamos pedido. Também, as contribuições e outros fundos que havíamos entregue estavam alistados. Mal pude crer no que via. A nossa inteira organização subterrânea estava ali nas mãos da Gestapo. Na verdade, precisei de alguns minutos até conseguir pesar inteiramente a situação. Onde é que a Gestapo conseguira estes registros? Eu me perguntava. Se a minha própria atividade não estivesse alistada com tal exatidão, teria duvidado da veracidade do relatório. O homem da Gestapo-SS de Dresden, Bauch, que dirigia o interrogatório me deu tempo para ajuntar as idéias. Receio ter apresentado uma cara um tanto apavorada quando me sentei. Ele então disse: ‘Bem, realmente, não há motivo de permanecer em silêncio.’

      “Por meses me atormentava a idéia de onde é que a Gestapo conseguira nossos registros. Mais tarde descobri que todos os nossos pedidos, relatórios e os fundos que havíamos entregue tinham sido cuidadosamente registrados num arquivo e guardados em Berlim. Mais tarde, este foi encontrado e confiscado pela Gestapo.”

      ATIVIDADE INTRÉPIDA CONFUNDE A POLÍCIA

      O congresso cuidadosamente planejado de Lucerna, de 4 a 7 de setembro de 1936, assumiu subitamente novo aspecto como resultado da prisão em massa que ocorrera duas semanas antes. Talvez o congresso, sobre o qual a Gestapo também tinha informações, determinasse a data de sua campanha contra nós. Pelo menos, fizeram tudo que podiam para tornar impossível o comparecimento dos irmãos alemães. Pode-se ver isto duma circular confidencial da Polícia Secreta do Estado, datada de 21 de agosto de 1936, que diz com respeito aos irmãos que viajariam para o congresso: “Tais pessoas devem ser impedidas de deixar o país. O passaporte é confiscado em tais casos.”

      Na realidade, dentre as mais de mil pessoas que planejaram fazer a viagem, apenas trezentas conseguiram fazê-la. Mas, a maioria delas tiveram de atravessar ilegalmente as fronteiras e muitas foram presas ao voltar.

      O irmão Rutherford naturalmente aproveitou a oportunidade de falar aos servos da Alemanha que estavam presentes sobre os problemas deles. Estava especialmente interessado em como cuidar espiritualmente dos irmãos. Heinrich Dwenger estava presente, e relata, a respeito da continuação da palestra:

      “Pediu-se então aos diretores regionais de serviço que fizessem sugestões. Eles recomendaram que o irmão Rutherford me enviasse de volta à Alemanha. Haviam pedido que eu mesmo fizesse essa sugestão, mas eu lhes disse que não poderia fazê-la, visto ter sido enviado a Praga, e não podia dizer que desejava retornar à Alemanha. Pareceria dessatisfeito com minha designação. Assim aconteceu que, por certo tempo, o irmão Frost foi designado para assumir a responsabilidade. Então o irmão Rutherford perguntou: ‘O que acontecerá se for preso?’ No caso da prisão do irmão Frost, o irmão Distei foi recomendado pelos irmãos para substituí-lo.’

      Adotou-se uma resolução, e cerca de duas a três mil cópias delas foram enviadas a Hitler e a seus escritórios governamentais na Alemanha. Uma cópia adicional foi enviada ao papa em Roma. A confirmação da entrega tanto ao Vaticano, em Roma, como à Chancelaria do Reich, em Berlim, foi recebida por Franz Zürcher, de Berna, que, segundo o desejo expresso no congresso, enviara as resoluções em 9 de setembro de 1936. A resolução, que continha três páginas e meia datilografadas, incluía as seguintes idéias:

      “Levantamos fortes objeções ao tratamento cruel das Testemunhas de Jeová pela Hierarquia Católica Romana e seus aliados na Alemanha, bem como em todas as outras partes do mundo, mas deixamos o resultado do assunto inteiramente nas mãos do Senhor, nosso Deus, que, segundo sua Palavra, recompensará plenamente. . . . Enviamos sinceras saudações aos nossos irmãos perseguidos na Alemanha e lhes pedimos que permaneçam corajosos e que confiem completamente nas promessas do Deus Onipotente, Jeová, e em Cristo. . . .”

      Foram feitos arranjos para se distribuir a resolução adotada ali a um grande número de pessoas na Alemanha, por meio de uma campanha relâmpago. Das 300.000 cópias impressas em Berna, 200.000 foram enviadas a Praga, de onde foram levadas através da fronteira, perto de Zittau e outros lugares nas montanhas Riesen. As outras 100.000 cópias deveriam ser levadas dos Países-Baixos para a Alemanha mas, triste é dizê-lo, foram confiscadas nos Países-Baixos. Assim, vários diretores regionais de serviço tiveram de fazer suas próprias cópias para Berlim e a Alemanha setentrional. A data para a distribuição seria 12 de dezembro de 1936, das 17 às 19 horas.

      Segundo relatórios posteriores, cerca de 3.450 irmãos e irmãs tomaram parte. Cada um tinha vinte, ou, no máximo quarenta cópias, e a idéia era livrar-se deles tão rápido quanto possível no território a que a pessoa fora designada. Deviam ser simplesmente colocados nas caixas do correio ou metidos debaixo das portas.

      Deixava-se uma cópia em cada casa; nos grandes prédios de apartamentos, em geral não mais de três cópias. Daí, os que distribuíam os panfletos corriam para uma rua vizinha e faziam o mesmo, de modo que se distribuíssem cópias por uma área tão grande quanto possível. O efeito sobre os opositores era devastador! Erich Frost, que estava em íntimo contato com o escritório em Praga durante os oito meses em que estivera encarregado da obra na Alemanha, entregou o seguinte relatório sobre esta campanha, durante uma de suas viagens a Praga:

      “A distribuição da resolução resultou ser tremendo golpe no governo e na Gestapo. Foi distribuída num repentino impulso de atividade, em 12 de dezembro de 1936. Tudo foi preparado até nos mínimos pormenores, todos os trabalhadores fiéis foram avisados e cada um recebeu seu território e seu pacote de resoluções vinte e quatro horas antes de o trabalho ser iniciado, às 17 horas em ponto. Em questão de uma hora, a polícia e os homens das SA e SS estavam patrulhando as ruas na tentativa de pegar alguns dos corajosos distribuidores. Mas, só pegaram uns poucos, dificilmente mais de uma dúzia no país inteiro. Na seguinte terça-feira contudo, os oficiais surgiram em muitas das casas dos irmãos e os acusaram diretamente de participarem na distribuição. Nossos irmãos naturalmente, não sabiam nada sobre isso, e foram feitas poucas prisões.

      “Agora, segundo a imprensa, há uma sensação não só de ira horrorizado por causa de nossa intrepidez, mas também de crescente temor. Ficaram inteiramente surpresos de que depois de quatro anos de terror por parte do governo de Hitler, ainda fora possível efetuar tal campanha com tanto segredo e em tão ampla escala. E, acima de tudo, têm medo da população. Muitos se queixaram à polícia, mas, quando os oficiais de polícia e outras autoridades fardadas iam até às casas e indagavam dos moradores se estes receberam os não tal folheto, eles negavam. Isto se dava porque, com efeito, apenas duas ou, no máximo, três famílias em cada prédio receberam tal resolução. A polícia não sabia disso naturalmente, e pensava que um deles tinha sido deixado em cada porta.

      “Assim, acham que a populaça recebeu nossa resolução mas, por certos motivos, recusa admitir isso quando indagada pela polícia, e isto lhes causa extrema confusão e temor.”

      A Gestapo ficou muitíssimo desapontada, pois pensava ter esmagado por completo nossa atividade com sua extensiva campanha de 28 de agosto. E, agora, encaravam a distribuição de nossa resolução, que consideravam ter sido mais ampla do que foi na realidade! Era inegável que o inimigo tivera êxito em abrir graves brechas nas fileiras do povo de Deus, mas jamais tivera êxito em parar por completo a obra. Os irmãos continuavam a cumprir sua comissão de pregar, como se depreende do relatório dos diretores regionais de serviço para o irmão Rutherford, que abrangia o período de 1.º de outubro a 1.º de dezembro de 1936. Os resultados eram como se segue: (todos os números são aproximados) 3.600 trabalhadores, 21.521 horas, 300 Bíblias, 9.629 livros e 19.304 folhetos. Isto se comparava favoravelmente com o último relatório mensal antes da onda de prisões (de 16 de maio a 15 de junho): 5.930 trabalhadores, 38.255 horas 962 Bíblias, 17.260 livros e 52.740 folhetos.

      DENÚNCIA POR “CARTA ABERTA”

      Em praticamente toda audiência de instrução e todo julgamento realizados depois de a resolução ser distribuíra, em 12 de dezembro de 1936, fez-se menção dela. As autoridades tornavam ainda mais difícil a situação para muitos irmãos porque, afirmavam, tais declarações não eram verídicas e não poderíamos oferecer provas de nossas afirmações. Os irmãos encarregados, portanto, sugeriram ao irmão Rutherford que uma “carta aberta” fosse distribuída numa “campanha relâmpago”, tal como tinha sido feito com a própria resolução. Daria à Gestapo uma resposta que provava serem inverídicas suas afirmações. O irmão Rutherford concordou e pediu ao irmão Harbeck, na Suíça, que redigisse a “carta aberta”, visto que tinha acesso a toda a matéria ajuntada até 1936 sobre a perseguição.

      O seguinte parágrafo, citado dela, mostra claramente a espécie de argumentação dura que os irmãos usavam para responder de público a seus inimigos:

      “A paciência e a vergonha cristãs nos restringiram já por suficiente tempo de trazer à atenção do público, tanto na Alemanha como em outras partes, estes ultrajes. Temos em nosso poder esmagadora quantidade de documentos que provam que os maus tratos cruéis mencionados acima, contra as testemunhas de Jeová, realmente ocorreram. Especialmente destacado na responsabilidade por tais maus tratos tem sido certo Theiss, de Dortmund, e Tennhoff e Heimann da polícia Secreta em Gelsenkirchen e Bochum. Não se restringiram de maltratar as mulheres com chicotes de cavalos e cassetetes de borracha. Theiss, de Dortmund, e um homem da Polícia do Estado em Hamm são especialmente famosos por sua crueldade sádica em maltratar as mulheres cristãs. Estamos de posse de nomes e pormenores de dezoito casos em que testemunhas de Jeová foram violentamente mortas. No início de outubro de 1936, por exemplo, uma das testemunhas de Jeová, chamada Peter Heinen, da Rua Neuhüller, Gelsenkirchen, Vestfália, foi espancado até morrer por oficiais da Polícia Secreta na prefeitura de Gelsenkirchen. Este trágico incidente foi comunicado ao Chanceler do Reich, Adolf Hitler. Cópias foram também enviadas ao Ministro do Reich, Rudolf Hess, e ao chefe da Polícia Secreta, Himmler.”

      Depois de a “carta aberta” ter sido redigida, o texto inteiro foi escrito em estênceis de alumínio em Berna e enviado a Praga. De tempos a tempos, Ilse Unterdörfer, que trabalhava de perto com o irmão Frost na atividade subterrânea, foi por ele instruída que levasse relatórios e apanhasse informações ali. Em uma dessas viagens a Praga, a irmã Unterdörfer recebeu os estênceis com os quais seria mimeografado a “carta aberta” num mimeógrafo Rotaprint que se acabara de comprar. Em 20 de março de 1937, a irmã Unterdörfer chegou a Berlim com seu precioso pacote.

      “Aceitei o pacote”, relata o irmão Frost, “e então passei este material ‘perigoso’ para outra irmã, que se certificou de que fosse colocado num lugar seguro. Essa noite, eu e a irmã Unterdörfer, que trouxera estes valiosos estênceis, fomos ambos presos no lugar em que pousávamos. Embora fosse difícil aceitarmos o fato de ter perdido nossa liberdade durante o resto da ditadura nazista, ainda nos sentíamos felizes de saber que garantíramos a segurança da nova campanha de folhetos.”

      Mas, o irmão Frost estava equivocado. Ao ser transportada para a prisão, descobriu que o mimeógrafo Rotaprint estava bem ao lado dele no carro de polícia. A Gestapo o encontrara numa de suas buscas. Ademais, os estênceis, que não podiam ser usados em nenhuma outra máquina, aparentemente desapareceram e jamais foram encontrados.

      Ida Strauss, a quem o irmão Frost dera os estênceis, e que estava bem a par dos pormenores da campanha pensava a mesma coisa. “Eu tinha os estênceis de alumínio em minha bolsa”, ela se lembra, “e os levava ao local onde o mimeógrafo estava. Já era tarde da noite e estava escuro; o dono da casa, uma pessoa interessada, estava em pé nas escadas e bradou: ‘Fuja imediatamente, procure um local seguro. A Gestapo confiscou o mimeógrafo, prendeu os irmãos e até alguns instantes atrás esperava por você, mas então os agentes finalmente desistiram.’ O que aconteceria agora? Nos próximos dias, descobri que muitos irmãos tinham sido presos naquela noite e não encontrei ninguém entre os irmãos que tivesse qualquer ligação com a organização.

      “Comecei a procurar um irmão e várias irmãs destemidas o bastante para se dedicarem mais aos interesses da obra de Jeová. Sabia que estava na lista negra da Gestapo, e tinha de pensar que podia ser presa a qualquer hora. Quando isso aconteceu, senti-me feliz de que os interesses da obra estavam em mãos fiéis.”

      No que diz respeito aos estênceis da “carta aberta”, a irmã Strauss também estava equivocada. Os estênceis não mais podiam ser usados, visto que o mimeógrafo fora confiscado, e não se achava disponível outro.

      Agora que o irmão Frost tinha sido preso, Heinrich Dietschi ficou encarregado da obra, como se havia decidido em Lucerna, na palestra com o irmão Rutherford. Seu primeiro objetivo foi despachar esta “carta aberta”. Por conseguinte entrou em contato com o irmão Strohmeyer em Lemgo. Tanto o irmão Strohmeyer como o irmão Kluckhuhn acabavam de ser soltos da prisão, depois de cumprirem seis meses, por imprimirem o Anuário de 1936. Mas, o irmão Strohmeyer concordou em ajudar.

      O problema era obter de novo os estênceis da Suíça. Desta vez, conseguimos matrizes de cartolina, que primeiro de tudo tinham de ser transformadas em estereótipos pelos irmãos, de modo que pudessem fazer as chapas para as prensas. O irmão Dietschi obtivera as matrizes da Suíça, depois de 200.000 cópias da “carta aberta” terem sido impressas ali, mas as tentativas de atravessar a fronteira com elas para a Alemanha tinham falhado.

      Resolvida a questão da impressão, decidiu-se que a “carta aberta” seria distribuída numa “campanha relâmpago” a ser realizada em 20 de junho de 1937. A irmã Elfriede Löhr relata: “O irmão Dietschi organizou a campanha. Éramos todos corajosos, tudo tinha sido maravilhosamente arranjado e cada região possuía suficientes cartas. Apanhei uma grande mala cheia delas na estação de trem, para o território em torno de Breslau, e as levei aos irmãos em Liegnitz. Também tinha os meus próprios exemplares, que no tempo designado distribuí como todos os demais irmãos.”

      A distribuição da “carta aberta” deve ter apanhado a Gestapo desprevenida, porque se jactavam durante meses de que tinham destruído por completo a organização. Isto apenas aumentou sua excitação. Era como se alguém subitamente mexesse num formigueiro. Como que em frenesi sem nenhum alvo claro diante deles, corriam em círculo na maior das confusões, especialmente as pessoas tais como Theiss, em Dortmund.

      Mas, o tempo de triunfo de Theiss também chegara ao fim. Visto que Theiss cria não dever mostrar misericórdia alguma ao lidar com as testemunhas de Jeová, mandou que certo dia se desse busca numa casa de um ex-irmão chamado Wunsch, que, no ínterim, se desviara da verdade e servia como sargento-ajudante da força aérea de Hitler. Quando Wunsch voltou para casa, sua esposa lhe contou que a casa sofrera uma busca. Imediatamente se dirigiu a Theiss, em Dortmund, e lhe perguntou por que fizera isso. Surpreso de ver um sargento-ajudante da força aérea diante dele, Theiss gaguejou: “Faz parte dos Estudantes da Bíblia?” Replicou Wunsch: “Ouvi alguns dos seus discursos, mas eu ia a todo lugar em que pudesse ouvir algo.” Daí, a Sra. Theiss o interrompeu. Excitado, Theiss então se amansou e disse: “Caso soubesse, jamais teria tentado destruir os Estudantes da Bíblia. Isso pode fazer uma pessoa ficar maluca. A pessoa imagina que prendeu um dos animais e de súbito há outros dez que aparecem. Sinto ter começado todo esse negócio.”

      Não é de se supor que a consciência deste agente do Diabo jamais se tivesse acalmado. Pelo contrário, o livro Kreuzzug gegen das Christentum (Cruzada Contra o Cristianismo), no subtítulo “Você ganhou, Galileu!”, concluía dizendo:

      “Ouvimos dizer que Theiss, de Dortmund, que foi repetidas vezes mencionado, já por algum tempo sofre terríveis dores de consciência por causa dos seus atos criminosos e que os demônios o estão levando devagarzinho à insanidade. Há vários meses atrás, jactou-se de ter ‘feito em pedacinhos’ 150 das testemunhas de Jeová. Foi ele quem disse desafiadoramente: ‘Jeová, eu te declaro desprezo eterno, viva o rei de Babilônia.’

      “Agora, contudo, procura tais pessoas, promete não atormentá-las e suplica-lhes que lhe digam o que precisa fazer para escapar da ameaçadora punição e para livrar-se do terrível tormento mental que está sofrendo. Afirma que recebera a ‘ordem de cima, de maltratá-las’, e que agora deseja parar, porque surgem novas testemunhas de Jeová a todo o tempo. Como Judas, depois de ter traído o Mestre ao inimigo, Theiss procura o arrependimento e não consegui achá-lo. Embora sejam poucos, ainda assim há casos em que os agentes da Gestapo e outros membros do partido ficaram tão abalados pela firmeza das testemunhas de Jeová que notaram o erro de seu proceder e deixaram seus empregos

      A distribuição da “carta aberta” provocou grande ansiedade na Gestapo, e logo depois estenderam uma rede. Foi somente uma questão de dias até que uma pista os levo direto a Lemgo, e aos irmãos Strohmeyer e Kluckhuhn, que imprimiram a “carta aberta”. Conseguiram provar que haviam impresso pelo menos 69.000 exemplares. Ambos foral sentenciados a três anos de prisão, e, depois de terem cumprido sua sentença, a Gestapo os colocou em custódia protetora, chamando-os de “incorrigíveis”.

      Visto que a maioria dos diretores regionais de serviço tinham sido presos, irmãs foram chamadas para preenche as lacunas e a manter contato entre o irmão Dietschi e a congregações. Uma delas era Elfriede Löhr, que tentou entrar em contato com o irmão Dietschi, depois de o irmão Frost e a irmã Unterdöfer terem sido presos. Ela viajou para Württemberg e, depois de procurá-lo, encontrou o irmã Dietschi em Stuttgart. Ele a levou junto para familiarizá-lo com os vários métodos de manter contato com os irmãos Preparativos extensivos foram também feitos para que um transmissor portátil fosse construído nos Países-Baixos e colocado em operações em algum tempo no outono setentrional de 1937. A Gestapo já tinha informações disso e ficou, furiosa com o irmão Dietschi, cujo nome conheciam, mais que se provou tão esquivo como o irmão Wandres.

      Deve ter sido por volta desse mesmo tempo que a irmã Dietschi foi presa pela Gestapo e levada para o infame “Steinwache” em Dortmund. Tentaram obrigá-la a contar onde seu marido se escondia, mas ela se recusou a falar. Foi tão maltratada que uma de suas pernas ficou, depois disso, mais curta do que a outra. Além disso, teve de se completamente envolvida em ataduras embebidas de álcool por várias semanas depois de sua soltura.

      RESULTADOS DO CONGRESSO EM PARIS DE 1937

      O congresso de 1937 em Paris, como o do ano anterior em Lucerna, seria assistido pelo irmão Rutherford. Desta vez só alguns poucos irmãos conseguiram ir da Alemanha. O inimigo criara grandes lacunas nas fileiras dos irmãos. O irmão Riffel, um dos poucos que puderam assistir ao mesmo, contou mais tarde que, apenas em Lörrach e na vizinhança, quarenta irmãos e irmãs tinham sido presos, dez dos quais foram enforcados, submetidos à câmara de gás ou fuzilados, ou morreram de fome ou morreram devido aos resultados das “experiências médicas” dos campos de concentração.

      Outra resolução foi adotada em Paris, mais uma vez delineando nossa posição clara e inquebrantável com respeito a Jeová e a seu reino sob a regência de Jesus Cristo e trazendo abertamente à atenção a perseguição brutal na Alemanha, avisando aos responsáveis de que receberiam o julgamento justo de Deus.

      Durante a ausência de duas semanas da Alemanha do último diretor regional de serviço, ocorreram coisas. A irmã Löhr, que em geral estava presente nas reuniões semanais realizadas pelo irmão Dietschi, com cerca de quinze irmãos e irmãs para considerar os problemas de serviço, tinha sido presa. Aconteceu dessa forma:

      Visto que as reuniões, na maioria dos casos, começavam por volta das 9 horas e amiúde duravam até às 17 horas, os irmãos e as irmãs perguntaram se não podiam almoçar juntos. A irmã Löhr fora convidada a cozinhar. Por motivos de segurança, os irmãos mudavam o local de reunião de semana em semana, destarte tornando necessário transferir de um local para o próximo o grande caldeirão usado para preparar a refeição. Ninguém sabe se a Gestapo descobriu isso por meio dos irmãos recentemente presos ou por algum outro meio, mas realmente descobriu onde fora realizada a última reunião antes do congresso de Paris. A Gestapo manteve esse apartamento sob observação, e, quando a irmã Löhr veio apanhar o caldeirão, cerca de três ou quatro dias antes da seguinte reunião, foi seguida pela Gestapo até o novo local de reunião e prontamente presa. A Gestapo logo descobriu que não só encontrara o novo local de reunião mas também o esconderijo secreto do irmão Dietschi. Depois do congresso de Paris, ele voltou direto para Berlim e, sem verificar se havia qualquer possível perigo, dirigiu-se ao apartamento. O irmão Dietschi caiu na armadilha e foi preso ali mesmo. Naturalmente, as reuniões com o grupo então menor de servos viajantes tiveram de ser mudadas quanto à ocasião e o local.

      O irmão Dietschi servira incansavelmente por muitos anos na atividade subterrânea e não recuara em face de perigo. Foi sentenciado a quatro anos, mas, diferente da maioria de seus irmãos, não foi colocado num campo de concentração depois de ter cumprido sua sentença.

      Em 1945, quando a obra começou a ser reorganizada, ele foi um dos primeiros a começar a servir as congregações como “servo aos irmãos”. Mas, infelizmente, anos depois começou a desenvolver suas próprias teorias e se desviou da organização de Jeová.

      Mas, retornemos a 1937. Depois de perigosas lacunas na fileiras de nossos irmãos terem sido de novo abertas, o irmão Wandres tentou fechá-las, pelo menos temporariamente, de modo a assegurar aos irmãos seu alimento espiritual. Depois da prisão do irmão Franke, ele assumira seu território, mas agora se sentia responsável também por outros territórios desocupados, assim, pediu à irmã Auguste Schneider, de Bad Kreuznach, que entregasse o alimento espiritual aos irmãos em Bad Kreuznach, Mannheim, Kaiserslautern, Ludwigshafen, Baden-Baden e o inteiro território do Saar. Com todos os irmãos que tinham de viajar nesta época de extrema dificuldade, ela recebeu outro nome; dali em diante ela era “Paula”.

      O irmão Wandres, compreendendo que o inimigo estava especialmente furioso na Saxônia, pediu a Hermann Emter de Friburgo, que cuidasse deste território. Em 3 de setembro ambos viajaram a Dresden. Embora o irmão Wandres jamais tivesse estado ali, a Gestapo os aguardava. Terminara uma caçada humana que durara três anos!

      Perto de meados de setembro, em harmonia com arranjos feitos com o irmão Wandres, a insuspeitosa “Paula” esperava na estação ferroviária em Bingen, com duas grandes malas cheias de publicações. Subitamente, um cavalheiro se aproximou dela e disse: “Bom dia, Paula! Albert não vem, e você terá de me acompanhar!” Era inútil tentar resistir, pois o estranho era um agente da Gestapo. Acrescentou: “Não precisa esperar por Albert; já o agarramos e tomamos todo o seu dinheiro. . . . O Sr. Wandres disse que você estaria aqui, com duas grandes malas, e que você é Paula!” Até o dia de hoje constitui um mistério onde é que a Gestapo conseguiu tais informações. Mas, este era um método popular da Gestapo, isto é, afirmar que certos irmãos diziam certas coisas, de modo a minar a confiança entre os irmãos, fazendo com que se afastassem de tais “traidores”.

      PLANO DE DETENÇÃO PERPÉTUA

      Com esta série de prisões, findava importante era para os irmãos alemães. O período da atividade bem organizada se acabara. Tudo agora apontava para o início de nova fase na luta. O alvo da Gestapo era então: Cada pessoa suficientemente corajosa para se apegar a Jeová tinha de ser destruída, destarte destruindo a organização.

      Segundo uma circular expedida pela Gestapo de Düsseldorf, em 12 de maio de 1937, os Estudantes da Bíblia deveriam ser dali em diante colocados nos campos de concentração, mesmo nos casos em que não existia nenhum mandado de prisão, mas à simples base de suspeita. Avisos similares foram enviados por toda a Alemanha. Ademais, os Estudantes da Bíblia deviam ser colocados automaticamente em campos de concentração, depois de cumprirem suas sentenças de prisão. Esta decisão se tornou mais severa e foi ampliada em abril de 1939. Dali em diante, apenas os dispostos a assinar uma declaração, dissociando-se de Jeová e de sua organização, deveriam ser libertos. Muitos irmãos nem sequer tiveram a oportunidade de decidir se assinariam a declaração.

      Quando Heinrich Kaufmann, de Essen, terminou de cumprir sua sentença, e punha suas roupas civis, um agente criminal simplesmente lhe disse que seria colocado sob custódia protetora. Primeiro, levaram-no até a casa dele, que ele não visitava já por um ano e meio, e lhe perguntaram: “Deseja rescindir sua fé e seguir a Hitler?” Ao mesmo tempo, mostraram-lhe as chaves de sua casa e um pacote de 9 quilos de comestíveis, prometendo-lhe que sua esposa também retornaria do campo de concentração de Ravensbrück. O irmão Kaufmann rejeitou a oferta.

      Às vezes se faziam tentativas para engodar os irmãos, como relata Ernst Wiesner. Pouco tempo antes de ser solto, colocaram um documento na sua frente. A declaração era de natureza tão geral que, depois de lê-la cuidadosamente, ele decidiu que poderia assinada. Mas, então veio o engodo. O irmão Wiesner deveria colocar sua assinatura no fim da página, mas a metade de baixo estava em branco. Não havia dúvida de que a Gestapo mais tarde adicionaria outras coisas que o irmão Wiesner não poderia subscrever com boa consciência. Mas, ele compreendeu de imediato o que desejavam e, antes de poderem impedi-lo, assinou seu nome logo abaixo do texto datilografado. O resultado foi que, apesar de sua assinatura, não foi liberto, mas foi informado pela polícia secreta, três semanas antes de terminar sua sentença, de que estava sendo transferido de imediato para um campo de concentração.

      OS CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO — ABISMOS ESCANCARADOS

      No Vierteljahresheft für Zeitgeschichte (Publicação Trimestral de História), Hans Rothfels escreve em seu segundo panfleto para 1962: “Ser lançados nos campos de concentração era, para os Fervorosos Estudantes da Bíblia, a última e mais difícil fase de seu período de sofrimento sob os Nacionais-Socialistas. . . .”

      O que consolava a maioria era que já havia irmãos fiéis encarcerados que estavam enrijecidos pelo calor da perseguição. Estar com eles e sentir seus cuidados amorosos era confortador e avivava os corações de cada novo “interno”.

      Mas, sempre que a firmeza de nossos irmãos era observada e relatada ao governo, o único pensamento deste era com podia aumentar os sofrimentos dos irmãos. Assim, aconteceu que, por certo tempo, as testemunhas de Jeová recebiam, como questão de rotina, 25 chicotadas com um chicote de aço, além de muitos outros meios brutais de tortura, ao chegarem aos campos. Seu trabalho escravo começava a 4,30 da manhã, quando a campainha do campo soava para despertar a todos. Pouco depois, irrompia um tumulto: fazer as camas, lavar-se, beber café, atender a chamada — e tudo isso a toque de caixa. Não se permitia que ninguém fizesse nada em seu passo normal. Marchavam para responder à chamada, daí saíam para juntar-se às várias equipes de trabalho. O que se seguia então era um verdadeiro drama: carregar cascalhos, areia, pedras, postes, inteiras seções das barracas, e isto o dia inteiro — tudo a toque de caixa. Os capatazes, que gritavam com os presos sem cessar, e os obrigavam a chegar aos limites do que podiam suportar, eram os piores que Hitler poderia oferecer.

      Lembrar que Jesus sofrera coisas similares era confortador e encorajador, e lhes dava força para perseverar sob o tratamento desumano.

      A bem da variedade, “exercícios de castigo” às vezes eram ordenados sem nenhum motivo em especial. Os irmãos eram amiúde forçados a passar sem alimento. Poderia ser um verdadeira prova quando, ao invés de poder sentar-se e comer uma refeição, um irmão cansado era obrigado a fica em pé, em posição de sentido, por outras quatro ou cinco horas no pátio, e isto apenas porque no casaco de um do irmãos faltava um botão, ou ele cometera outra insignificante infração das regras.

      Por fim, permitia-se que dormissem, se a fome deixasse. Mas, as noites não eram sempre só para se dormir. Amiúde um, ou, às vezes, vários dos infames “líderes do bloco” apareciam no meio da noite para aterrorizar os presos. Estes episódios às vezes começavam com tiros de revólver no ar ou nos caibros dos barracões. Daí, os presos eram forçados a correr em volta dos barracões, ou, às vezes, até mesmo a subir neles, de pijamas, isto enquanto os “líderes do bloco” desejassem. É compreensível que os irmãos mais idosos sofressem mais sob tais tratamentos, e custou a muitos deles a própria vida.

      Em março de 1938, uma proscrição absoluta de correspondência entrou em vigor para as testemunhas de Jeová nos campos de concentração. Esta durou nove meses, durante os quais os irmãos não podiam entrar em contato com seus parentes, nem vice-versa. Mesmo depois de ser levantada esta proscrição, a limitação de que cada uma das testemunhas de Jeová só escrevesse cinco linhas por mês a seus parentes permaneceu em vigor por entre três e meio a quatro anos — em alguns campos durou ainda mais. O texto era preparado e rezava: “Recebi sua carta, muito obrigado. Estou bem, com saúde e vigor. . . .” Mas, há casos em que o aviso de morte chegou antes da carta que rezava: “Estou bem, com saúde e vigor.” No espaço em branco da carta, carimbava-se o seguinte texto: “O preso continua como antes, sendo um teimoso Estudante da Bíblia, e se recusa a rejeitar os falsos ensinos dos Estudantes da Bíblia. Por esta razão, foram-lhe negados os privilégios comuns de correspondência.”

      “TRONCUDO” ENCONTRA UM ADVERSÁRIO À ALTURA

      A vida num campo de concentração estava repleta de suas ansiedades diárias, amiúde causadas pelo próprio comandante do campo. Por certo tempo, o comandante de Sachsenhausen era um homem chamado Baranowsky, e, por causa de sua constituição forte, os presos logo o apelidaram de “Troncudo”.

      Em geral recebia pessoalmente cada nova leva de prisioneiros e proferia seu “discurso de boas-vindas” a eles. Usualmente começava com as palavras: ‘Sou o comandante do campo e me chamam de “Troncudo”. Agora, ouçam bem todos vocês! Podem conseguir o que quiserem de mim — um balaço na cabeça, um balaço no peito, um balaço no estômago! Poderão cortar o pescoço se quiserem, ou rasgar suas veias! Poderão atirar-se contra a cerca eletrificada se quiserem. Simplesmente se lembrem de que meus rapazes são bons atiradores! Eles os mandarão direto para o céu!’ Jamais perdia uma oportunidade de zombar de Jeová ou de seu santo nome.

      Mas, no início da proscrição sobre as testemunhas de Jeová, um rapaz de cerca de 23 anos, de Dinslaken, aprendera a verdade. Seu nome era August Dickmann. Embora não tivesse ainda sido batizado, a Gestapo o prendera e o levara a julgamento. Depois de cumprir sua pena, deixara que a Gestapo o pressionasse a assinar a “declaração”, sem dúvida na esperança de que isto o libertasse de mais perseguição. Apesar disto, foi lançado em Sachsenhausen em outubro de 1937, logo depois de cumprir sua pena. Os irmãos ali usavam toda oportunidade para manter palestras alegres e encorajadoras uns com os outros, e agora, estando entre eles, ele compreendeu que transigira com o inimigo devido à fraqueza. Arrependeu-se e pediu que fosse anulada a declaração que assinara.

      No ínterim, seu irmão carnal, Heinrich, também fora lançado no campo de Sachsenhausen. August lhe contou que tinha assinado a declaração, mas que, no ínterim, mandara que fosse anulada.

      As próximas semanas correram rápido. Quando irrompeu a Segunda Guerra Mundial, na última metade de 1939, o comandante do campo, Baranowsky, começou a executar seus planos. Viu a oportunidade chegar quando a esposa de August Dickmann lhe enviou sua folha de convocação militar, que havia sido enviada à casa deles em Dinslaken. Três dias depois de irromper a guerra, Dickmann foi chamado ao “departamento político”. Antes de se fazer a chamada, Heinrich, a quem August informara deste novo acontecimento, avisou-o de que, agora que irrompera a guerra devia preparar-se para tudo. Devia estar inteiramente certo do que queria fazer. August respondeu: “Podem fazer o que quiserem comigo. Não vou assinar e não vou transigir de novo.”

      O interrogatório foi feito naquela tarde, mas August não voltou ao convívio dos irmãos. Como se soube mais tarde não só recusara assinar a folha de convocação militar, mas dera excelente testemunho. Foi lançado na solitária, numa masmorra, enquanto o comandante do campo avisou a Himmler do caso, pedindo permissão para executar Dickmann publicamente, na presença dos irmãos e do inteiro campo. Estava convicto de que grande número de testemunhas de Jeová assinariam a declaração se realmente se vissem confrontadas com a morte. A maioria até então se recusara a fazê-lo, mas apenas se tinham feito ameaças. Himmler respondeu, na volta do correio, que Dickmann fora sentenciado à morte e devia ser executado. Agora se abrira o caminho para que “Troncudo” realizasse seu ‘grande espetáculo’.

      Era uma sexta-feira. Havia uma lúgubre quietude pairando sobre todo o campo, quando, de súbito, um grupo de comando apareceu e, num curto tempo, armou um estande de tiro no pátio. Isto, naturalmente, levou a toda espécie de rumores. A excitação foi ficando mais intensa quando foram dadas ordens para se largar o trabalho uma hora antes do usual. Paul Buder ainda se lembra de como, quando a turma de trabalho estava marchando de volta, um homem das SS lhe disse rindo: “Hoje é o Dia da Ascensão! Um de vocês irá para o céu hoje.”

      Quando entrou a turma a que Heinrich Dickmann estava designado, o capataz do campo se aproximou dele e perguntou se ele sabia o que se passava. Quando respondeu que não, foi-lhe dito que seu irmão August seria fuzilado.

      Mas, não havia tempo para longas palestras. Foram dadas ordens para que todos os presos marchassem para o campo. As testemunhas de Jeová foram colocadas bem na frente do local onde ficaria o pelotão de fuzilamento. Todos os olhos se fixavam nesse ponto. Os guardas das SS entraram marchando; as medidas de segurança eram quatro vezes maiores do que de costume. A tampa das metralhadoras foi retirada e as armas foram carregadas para uso imediato. Os homens das SS se empoleiravam no muro alto, aguardando ansiosamente o que iria acontecer — tantos deles que a pessoa pensaria que o grupo inteiro recebera ordens de estar presente a este espetáculo sanguinário. O portão principal era construído de fortes barras de ferro redondas, e os homens das SS, que amavam as sensações, estavam em pé sobre ele e pendurados nele como se fossem um cacho de uvas. Alguns deles até mesmo subiram nas barras transversais a fim de poderem ver melhor. Seus olhos estavam cheios, não só de curiosidade, mas de sede de sangue. Algumas faces revelavam certo horror, pois todos sabiam o que em breve aconteceria.

      Acompanhado de vários altos oficiais das SS, August foi trazido, com as mãos atadas em sua frente. Todo o mundo ficou impressionado com sua calma e tranqüilidade, como se fosse alguém que já tinha vencido a batalha. Aproximadamente seiscentos irmãos estavam presentes, seu irmão carnal Heinrich estando em pé a apenas alguns metros.

      Subitamente, houve um ruído dissonante nos alto-falantes ao serem ligados os microfones. Podia-se ouvir a voz de “Troncudo”: “Prisioneiros, ouçam!” Houve um silêncio imediato. Havia apenas a respiração ligeiramente asmática deste monstro, ao continuar:

      “O preso August Dickmann, de Dinslaken, nascido em 7 de janeiro de 1910 recusa-se a fazer o serviço militar, afirmando ser um ‘cidadão do reino de Deus’. Ele disse: Quem derramar o sangue humano, terá o seu sangue derramado. Ele se colocou fora da sociedade e, segundo instruções do líder das SS, Himmler, deve ser executado.”

      Ao passo que mortífero silêncio reinava sobre todo o pátio, “Troncudo” continuou: “Avisei a Dickmann, há uma hora atrás, que sua miserável vida seria eliminada às 18 horas.”

      Um dos oficiais se aproximou e perguntou se se devia perguntar mais uma vez ao preso se mudara de idéia e estava disposto a assinar os documentos de convocação, no que “Troncudo” respondeu: “Isso não adiantaria.” Voltando-se para Dickmann, ordenou: “Vire-se, seu porco”, e então deu a ordem para atirar. Nisso, Dickmann foi baleado pelas costas por três homens das SS. Um destacado líder das SS mais tarde avançou e lhe deu um tiro na cabeça, fazendo o sangue escorrer-lhe pela bochecha. Depois de um dos homens de baixa patente das SS ter tirado as algemas, quatro irmãos foram instruídos a colocá-lo num caixão preto e levá-lo para a enfermaria.

      Ao passo que todos os demais presos puderam então debandar, e ir para suas barracas, as testemunhas de Jeová tiveram que ficar. Chegara a hora de “Troncudo” fazer valer suas afirmações. Com grande ênfase, perguntou quem estava disposto agora a assinar a declaração — não só a rejeição da fé da pessoa, mas também indicando a disposição de se tornar soldado. Ninguém respondeu. Daí, dois foram à frente! Mas, não foi para assinar a declaração. Pediram que a assinatura de ambos, que apuseram aproximadamente um ano antes, fosse anulada!

      Isto era demais para “Troncudo”. Furioso, deixou o pátio. Como seria de se esperar, os irmãos passaram maus momentos naquela noite e nos próximos dias. Mas, permaneceram firmes.

      A execução de Dickmann foi anunciada várias vezes pelo rádio, nos dias seguintes, pelo que parece na esperança de intimidar outras Testemunhas ainda livres.

      Três dias mais tarde, seu irmão Heinrich foi chamado ao “departamento político”. Dois altos agentes da Gestapo vieram de Berlim verificar qual tinha sido o efeito sobre ele da execução de seu irmão. Segundo seu próprio relatório ocorreu a seguinte conversação:

      “‘Viu como seu irmão foi fuzilado?’ Minha resposta foi: ‘Vi.’ ‘O que aprendeu disso?’ ‘Eu sou e continuarei a ser uma das testemunhas de Jeová.’ ‘Então será o próximo a ser fuzilado.’ Pude responder a várias perguntas bíblicas, até que, por fim, o agente gritou: ‘Não quero saber o que está escrito, quero saber o que você pensa.’ E, ao passo que tentava mostrar-me a necessidade de se defender a pátria, continuava entremeando sentenças tais como: ‘Você será o próximo a ser fuzilado . . . a próxima cabeça a rolar . . . o próximo a cair.’ Até que o outro agente disse: ‘É inútil. Tome, complete os registros.’”

      A declaração foi mais uma vez colocada diante do irmão Dickmann para que ele a assinasse. Recusou-se, dizendo: “Se eu reconhecesse o estado e o governo, por assinar isto, significaria que eu concordava com a execução de meu irmão. Não posso fazer isto.” A resposta: “Então poderá começar a calcular por quanto tempo ainda viverá.”

      Mas, o que aconteceu com “Troncudo”, que zombava de Jeová e o desafiara como poucos humanos jamais o fizeram? Só foi visto no campo poucas vezes depois disso, e, daí, não foi mais visto. Os presos descobriram, contudo, que pouco depois da execução de August Dickmann, foi atacado de terrível moléstia. Morreu cinco meses depois, sem ter a oportunidade de zombar de novo de Jeová ou de suas testemunhas. “Comprei uma briga com Jeová. Veremos quem é mais forte, eu ou Jeová”, dissera “Troncudo”, em 20 de março de 1938, quando colocou os irmãos na “turma do isolamento”. A batalha fora decidida. “Troncudo” perdera. E ao passo que nossos irmãos foram soltos da “turma de isolamento” meses depois, e, em certos casos, obtiveram certa dose de alívio, continuava a circular por todo campo o rumor de que “Troncudo” ficara gravemente enfermo e que, quando os oficiais o visitavam em seu leito de doente, dizia em tom de lamúria: “Os Estudantes da Bíblia oram para que eu morra, porque deixei que seu homem fosse fuzilado!” Era também um fato que, depois de sua morte, a filha dele, quando se perguntava a causa da morte do pai, sempre respondia: “Os Estudantes da Bíblia oraram para que meu pai morresse.”

      DACHAU

      O irmão Friedrich Frey, de Röt, relata sobre o tratamento recebido pelo “grupo de isolamento” em Dachau: “Dificilmente se pode descrever a fome, o frio, os tormentos. Um oficial certa vez me deu uma botinada no estômago, provocando sério ferimento. Outra vez, minha espinha nasal ficou tão deformada pelos espancamentos repetidos que até o dia de hoje tenho dificuldades em respirar. Certa vez, um homem das SS me pegou comendo um punhado de migalhas secas de pão durante as horas de trabalho, para remediar a fome. Deu-me uma botinada no estômago e me derrubou no chão. Como punição adicional, fui pendurado num poste de três metros, com os braços algemados atrás. Esta posição anormal do corpo e seu peso provocavam um bloqueamento da circulação do sangue e cruciante dor. Um homem das SS pegou em ambas as minhas pernas e as moveu de um lado para o outro, gritando: ‘Ainda é testemunha de Jeová?’ Mas, eu não conseguia responder, visto que o suor da morte já escorria da minha testa. Adquiri disso um tique nervoso até o dia de hoje. Não podia deixar de pensar nas últimas horas de nosso Senhor e Mestre, com as mãos e pés atravessados por pregos.”

      Em Dachau, pouco antes do “Natal”, foi erguida grande árvore de Natal, decorada com velas elétricas e outros enfeites. Os 45.000 presos do campo, inclusive mais de cem testemunhas de Jeová, esperavam ter alguns dias de paz. Mas, o que aconteceu? Às 20 horas da véspera do Natal, quando todos os detentos estavam em suas barracas, as sirenas do campo subitamente soaram; os presos deveriam marchar para o pátio tão rápido quanto pudessem. Podia-se ouvir a banda das SS tocando. Cinco companhias de tropas das SS, plenamente equipadas, entraram marchando. O comandante do campo, acompanhado de oficiais das SS, fez breve discurso, dizendo aos detentos que eles queriam celebrar o Natal com os presos essa noite de seu próprio modo especial. Então retirou uma lista de nomes de sua pasta e, por quase um hora, leu os nomes dos presos recomendados para castigo nas últimas semanas. Foi trazido e montado o tronco, e o primeiro preso foi amarrado a ele. Depois disso, dois homens das SS, equipados com um chicote de aço, tomaram seu lugares à direita e à esquerda do tronco, e começaram a espancar o preso, enquanto a banda tocava “Noite Silenciosa”; esperava-se que todos os presos cantassem também. Ao mesmo tempo, o preso que recebia as 25 chibatadas era obrigado a contá-las em voz alta. A cada vez que um preso era amarrado ao tronco, dois outros homens das SS vinham à frente para administrar o castigo. Deveras essa era uma forma digna de uma “nação cristã” celebrar o Natal!

      Em face de tal tratamento, nossos irmãos precisavam ter forte fé, fortalecida pelo cuidadoso estudo da Palavra de Deus. Como deixar de estudar pode ser perigoso e deixar a pessoa sem preparo para tais provas foi sentido por Helmut Knöller. Deixemo-lo contar sua própria experiência:

      “Meus primeiros dias em Dachau foram dificílimos. Com 20 anos, era o mais jovem dos recém-chegados. Fui designado a uma turma especial que tinha de trabalhar até mesmo aos domingos. Meu supervisor era especialmente duro comigo. Tinha de cumprir as tarefas mais difíceis, às quais não estava acostumado, a toque de caixa. Desmaiei repetidas vezes, mas voltava a mim cada vez por ser colocado no porão, com água até os quadris, e então derramavam água sobre a minha cabeça.

      “Quase cheguei ao completo esgotamento físico. Isto prosseguia dia após dia e estava quase ao ponto de ficar desesperado, sabendo que poderia durar semanas a fio, sim, até meses. . . . Mas, as dificuldades se tornaram tão grandes que por fim eu me dirigi aos líderes do campo e assinei a declaração, indicando que não tinha mais nada que ver com os Estudantes Internacionais da Bíblia. Ter eu assinado a mesma foi resultado direto de insuficiente estudo de minha parte em casa. Meus pais estudavam muito pouco eles mesmos, e nós, os filhos, recebêramos apenas instruções falhas da parte deles. . . . Fora-me dito que eu poderia assinar tal declaração, visto que, primeiro de tudo, não se dizia nada nela sobre as testemunhas de Jeová, mas apenas sobre os Estudantes da Bíblia, e em segundo lugar, não era errado enganar o inimigo, se isto resultasse em sermos libertos a fim de podermos servir melhor a Jeová lá fora.” Foi somente mais tarde, em Sachsenhausen, que irmãos maduros o ajudaram a avaliar o significado da integridade cristã e edificar sua fé.

      MAUTHAUSEN

      Muito embora muitas pessoas fossem mortas nas câmaras de gás ou fossem cruelmente mortas em Dachau, todavia, Mauthausen era um campo regular de destruição. O comandante do campo, Ziereis, repetidas vezes disse que só estava interessado em atestados de óbito. Com efeito, num período de seis anos, 210.000 homens foram cremados nos dois modernos fornos que dispunham lá, uma média de cem por dia. Quando se fazia com que os presos trabalhassem de alguma forma, era em geral na pedreira. Um rochedo íngreme ali localizado era chamado de “muro de pára-quedistas” pelos desumanos homens das SS. Centenas de presos eram empurrados desse rochedo e então ficavam imóveis lá embaixo. Eram mortos pela queda ou se afogavam no buraco cheio de água da chuva. Muitos presos desalentados até mesmo se jogavam no abismo por sua livre vontade.

      Outra atração era a chamada “escada da morte”. Uma pilha de 186 blocos soltos de vários tamanhos, empilhados um sobre o outro, era chamada de escada. Depois de os presos terem carregado pesadas pedras nos ombros até o topo, os homens das SS gostavam de provocar deslizamentos em massa por chutá-los ou lhes dar coronhadas com seus fuzis, destarte derrubando-os de costas sobre as “escadas”. Isto resultava em muitas mortes, o número de mortos aumentando devido às pedras que caíam de cima. Valentin Steinbach, de Francforte, lembra-se de que grupos de 120 homens ajuntados pela manhã, amiúde voltavam à noite com apenas cerca de 20 ainda vivos.

      CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO PARA MULHERES

      Os campos de concentração foram construídos não só para os homens, mas também para as mulheres. Um deles entrou em operação já em 1935 em Moringen, perto de Hannover. Quando se tornou grave a pressão contra as testemunhas em 1937, o campo de Moringen começou a ser evacuado. Em dezembro, cerca de 600 detentas, inclusive várias irmãs foram levadas para o campo de Lichtenburgo. Visto que os esforços de fazer com que nossas irmãs mudassem de seu firme proceder haviam falhado, uma “equipe penal” foi formada. Seus supervisores lhes davam muito pouco o que comer, e constantemente tentavam encontrar motivos para dar-lhes castigos. O comandante do campo lhes disse: ‘Se quiserem continuar vivas, então venham a mim e assinem.

      Um método usado na tentativa de fazer com que nossas irmãs violassem sua integridade é relatado por Ilse Unterdörfer: “Certo dia a irmã Elisabeth Lange, de Chemnitz, foi convocada a falar com o diretor. Ela se recusou resolutamente a assinar a declaração, no que foi levada a uma cela do porão deste velho castelo. Como qualquer pessoa familiarizada com velhos castelos e suas masmorras pode imaginar, isto foi extremamente provador. As celas eram buracos escuros, com pequena janela com barras de ferro. A cama era de pedra e a maioria do tempo a pessoa se via obrigada a ficar deitada nesta “cama” fria e dura, sem nem mesmo um saco de palha. A irmã Lange passou meio ano na solitária, neste buraco do porão. Embora sofresse fisicamente, não abalou sua determinação de permanecer fiel.”

      Outro método empregado para tentar romper a firmeza de nossas irmãs era o árduo trabalho físico. Por este motivo, várias irmãs foram levadas a Ravensbrück. Foi em 15 de maio de 1939 que o primeiro grupo chegou, seguido de perto por outros. O campo logo cresceu a ponto de incluir 950 mulheres, cerca de 400 das quais eram testemunhas de Jeová. Todas elas recebiam ordens de fazer o trabalho mais difícil de construção e de limpeza, tarefas normalmente só exigidas de homens. O novo comandante do campo, especialmente famoso por sua brutalidade, pensou que conseguiria desgastar as irmãs por fazê-las desempenhar árduo trabalho físico.

      Tal tratamento resultou naturalmente em muitas mortes. Daí, também grupos completos foram levados a Auschwitz, campo que como Mauthausen, estava especialmente equipado para a destruição em massa. As mulheres idosas, com saúde ruim ou que não satisfaziam os padrões dos homens das SS para as mulheres que pudessem produzir uma “raça superior” viam-se confrontadas com a morte. Berta Mauerer nos conta o que se passava ali:

      “Éramos obrigadas a ficar nuas na frente duma comissão que fazia a seleção. Imediatamente depois, o primeiro grupo partiu para Auschwitz. Entre elas havia um número de irmãs que foram tapeadas em pensar que estavam sendo levadas para um campo em que as coisas seriam mais fáceis, embora todos soubessem que Auschwitz era ainda mais insuportável. Aquelas que constituíam o segundo grupo ouviram dizer a mesma coisa. Entre este grupo havia muitas irmãs fracas e doentias.” Logo depois, seus parentes foram notificados de suas mortes. Na maioria dos casos ‘doenças circulatórias’ foram alistadas como a causa da morte.

      Outra coisa que poderia ter representado uma prova para as irmãs é relatado por Auguste Schneider, de Bad Kreuznach:

      “Certo dia, uma prisioneira veio até mim e disse: ‘Sra. Schneider, eu vou-me embora daqui!’ Perguntei-lhe para onde ia e ela respondeu: ‘Há tantos homens aqui que um prostíbulo está sendo montado para os presos. Foi-nos indagado, e cerca de vinte a trinta mulheres se ofereceram. Dão-nos boas roupas e nos embelezam!’ Perguntei a ela onde iria ser isso, e ela respondeu: ‘No campo dos homens.’

      “Dificilmente se pode descrever o que acontecia ali. Mas, certo dia um líder das SS me contou: ‘Sra. Schneider, a senhora já deve ter ouvido falar no que acontece no campo dos homens. Eu apenas queria que soubesse que nenhuma das testemunhas de Jeová tomou parte nisso!’”

      Ravensbrück se tornou amplamente conhecido como o mais famoso de todos os campos de concentração para mulheres. Quando irrompeu a segunda guerra mundial, o número de irmãs ali já subira para cerca de quinhentos.

      Certo dia, várias irmãs receberam súbitas ordens de deixar suas celas e foram postas a deixar brilhando todo o prédio, visto que Himmler indicara que viria fazer uma inspeção ali. Mas, o dia passou e ele deixou de aparecer. Nossas irmãs já se tinham preparado para deitar-se, isto é, já tinham tirado os sapatos, que serviam de travesseiro, mas, devido ao frio, dormiam com suas roupas de uso comum. Deitavam-se tão perto umas das outras quanto possível, de modo a se manterem aquecidas. De tempos a tempos, mudavam de posição, de modo que todas ficassem do lado de fora uma vez, pois ali era naturalmente mais frio. Subitamente, houve grandes ruídos nos corredores e as portas das celas começaram a se abrir. Nossas irmãs ficaram então em pé diante do homem que, na Alemanha, tinha o poder de vida ou morte. Himmler examinou criticamente as irmãs, lhes fez algumas perguntas e viu-se obrigado a reconhecer que não se dispunham a fazer quaisquer concessões.

      Essa mesma noite, depois de Himmler e seus ajudantes terem partido, grande número de detentas foram chamadas e as outras detentas podiam ouvir seus gritos. Himmler introduzira o castigo “intensivo” também para as mulheres; recebiam 25 chibatadas com o chicote de aço em suas nádegas descobertas.

      Uma irmã fala da coragem com que muitas enfrentaram seus problemas: “Em meu bloco havia uma mulher judia que aceitara a verdade. Certa noite, ela também foi despertada. Ouvi quando ela se levantou e tentei dizer-lhe uma palavra de conforto. Mas, ela disse: ‘Sei o que me espera. Mas, sinto-me feliz de ter aprendido sobre a maravilhosa esperança da ressurreição. Espero calmamente a morte.’ E, corajosamente, ela saiu.”

      DIVISÕES AUMENTAM AS DIFICULDADES

      Separados de seus irmãos de fora, os que estavam nos campos sentiam grande ânsia de alimento espiritual. Os recém-chegados eram inquiridos para se saber o que tinha sido publicado em A Sentinela. Às vezes, a informação era corretamente transmitida, e às vezes não era. Havia também irmãos que tentavam usar a Bíblia para fixar a data em que seriam libertos, e, embora os argumentos fossem fracos, alguns esperançosamente se apegavam a estas “insignificâncias”.

      Durante essa época, um irmão dotado de excepcional memória foi mandado para Buchenwald. De início, sua habilidade de lembrar e de partilhar com os outros as coisas que aprendera foram uma fonte de encorajamento para os irmãos. Mas, com o tempo, tornou-se um ídolo, “a maravilha de Buchenwald”, e suas declarações, até mesmo suas opiniões pessoais, eram tidas como finais. De dezembro de 1937 até 1940, proferiu um discurso toda noite, cerca de mil ao todo, e muitos deles eram taquigrafados, a fim de serem mimeografados. Embora houvesse muitos irmãos mais idosos no campo que eram capazes de proferir discursos, este irmão era o único que fez isso. Quaisquer pessoas que não estivessem de pleno acordo com ele eram mencionadas como “inimigas do Reino”, e “da família de Acã”, a serem evitadas pelos “fiéis”. Quase quatrocentos irmãos mais ou menos dispostos seguiram este arranjo.

      Aqueles assim rotulados de “inimigos” eram também irmãos que estiveram dispostos a arriscar sua vida para promover os interesses do Reino no melhor de suas habilidades. Eles, também, tinham sido mandados para o campo por causa de sua determinação de provar sua integridade, mesmo até à morte. Alguns deles não aplicavam plenamente os princípios bíblicos, é verdade. Todavia, quando procuraram estabelecer contato com os responsáveis, de modo que também pudessem beneficiar-se de qualquer alimento espiritual que se tornasse disponível em Buchenwald, estes consideravam como “abaixo de sua dignidade” considerar os assuntos.

      Wilhelm Bathen, de Dinslaken, que ainda serve a Jeová, relata como ele pessoalmente foi atingido: “Quando compreendi que eu também tinha sido desassociado, fiquei espiritualmente tão abalado e deprimido que me perguntei como era possível tal coisa. . .. Amiúde ficava de joelhos e orava a Jeová para que me desse um sinal. Perguntava a mim mesmo se eu era culpado da situação, e se Ele também me havia desassociado. Eu tinha uma Bíblia e a lia à luz fraca e encontrava grande dose de conforto na idéia de que isto me acontecia como prova, de outra forma, eu já teria sido destruído, pois ser cortado do convívio dos irmãos era uma tremenda dor.”

      Assim, imperfeições humanas e um conceito exagerado da própria importância, levaram a divisões entre o povo de Deus, resultando em severas provas para alguns.

      VENCIDOS PELA PREOCUPAÇÃO DE “SOBREVIVER”

      Alguns que foram colocados nos campos, determinados a não transigir, mais tarde permitiram que a preocupação com sua “sobrevivência” eclipsasse seu amor a Jeová e aos seu irmãos. Se a pessoa conseguia atingir alguma posição responsável na organização do campo, sendo-lhe confiada, supervisão de alguma esfera de atividade, não mais teria que esgotar sua força pelo trabalho árduo. Mas, isto era perigoso. Em muitos casos, exigia que trabalhasse de perto com as SS, que obrigasse os presos a trabalhar num ritmo mais acelerado e que denunciasse os detentos — até seu próprios irmãos — para castigo.

      Certo irmão chamado Martens encontrou-se nessa situação quando estava no campo de Wewelsburgo. De início, tinha a supervisão sobre 250 Estudantes da Bíblia. Constantemente se empenhou em ser um excelente “ancião do campo” aos olhos das SS. Com o tempo, muitos presos políticos e outros foram acrescentados ao campo. Martens não queria perder sua posição, de modo que teve de patrocinar os interesses das SS e empregar seus métodos.

      Não demorou muito até que proibia os irmãos de considerar o texto diário ou de orar juntos. Logo começou a revistá-los e a espancar com uma mangueira de borracha aqueles com quem encontrava uma cópia do texto diário. Certa manhã, quando vários irmãos oravam juntos, pulou no meio deles e interrompeu a sessão, dizendo: “Não conhecem as regras do campo? Acham que vou querer dificuldades só por causa de vocês?” Assim, muitos sofrimentos adicionais foram trazidos sobre grande número de irmãos fiéis devido a alguns poucos que perderam de vista seu alvo.

      O PROBLEMA DA FOME

      Depois de começar a Segunda Guerra Mundial, o alimento disponível era enviado às frentes. As refeições nos campos de concentração consistiam principalmente de um tipo de nabo que, em geral, só era usado para alimentar animais. Tudo era preparado com tamanha falta de amor que amiúde se ouvia os detentos dizer que até mesmo os porcos teriam recusado tal alimento. Mas, não era a questão de dispor de alimento apetitoso, era simplesmente uma questão de sobrevivência. Muitos morreram de fome. “Minha maior prova era a fome”, escreve o irmão Kurt Hedel, e explica por que, dizendo: “Tenho 1,87 de altura e normalmente peso uns 104 quilos. Mas, no inverno de 1939/1940, pesava apenas 40 quilos e até mesmo menos. Não era nada mais do que pele e ossos. Apesar do meu tamanho, não me davam mais o que comer do que davam aos menores do que eu. Amiúde apertava o meu estômago com os punhos, de dor, até que um irmão maduro me aconselhou a levar o problema a Jeová em oração, e pedir ajuda a ele para suportar a dor. Logo compreendi que grande ajuda é a oração em tais situações.” Outro irmão se lembra de que amiúde punha um punhado de areia na boca para combater as dores da fome.

      Quão confortadora era a associação fraternal em tais situações. Sim, era muito comovedor ver irmãos, que estavam marcados para morrer, dar parte de suas reduzidíssimas rações de pão para aqueles que passavam momentos piores do que eles. Amiúde eram apenas migalhas que secretamente escondiam sob os travesseiros daqueles que, por uma ou outra razão, não haviam recebido nada para comer, e que foram obrigados a ficar em pé no pátio, em cortante frio, tendo muito pouco o que vestir. Quão suavizante era, para aqueles a quem o inimigo quase “abatera”, ouvir dum irmão maduro palavras encorajadoras que gotejavam como óleo sobre uma ferida e davam novo alento, numa ocasião em que sentiam que sua situação era intolerável! E quão poderosa resultou ser a oração unida! Com freqüência, nas noites, quando as barracas eram trancadas e tudo estava quieto nos dormitórios, os problemas eram unicamente apresentados a Jeová em oração. Não raro eram assuntos que tinham que ver com todos eles, mas, com igual freqüência, eram problemas de irmãos individuais. Sempre que Jeová — como fez em tantos casos — trazia imediata mudança para melhor, isto era causa para oração unida de agradecimentos no dia seguinte. Enfrentando uma situação que uma pessoa não poderia suportar sozinha, os irmãos compreendiam mais uma vez que “nunca estamos sós”.

      O QUE ACONTECEU AOS QUE TRANSIGIRAM

      É interessante que o pessoal das SS, que não raro usavam os truques mais sujos para tentar fazer com que alguém assinasse a declaração, com freqüência se voltavam contra tais pessoas uma vez tivessem assinado, e as fustigavam mais ainda depois do que antes. Karl Kirscht confirma isto: “Mais do que ninguém, as testemunhas de Jeová eram as vítimas das chicanices nos campos de concentração. Pensava-se que, desta forma, podiam ser persuadidas a assinar a declaração. Pedia-se-nos repetidas vezes que assim o fizéssemos. Alguns assinaram, mas, na maioria dos casos, tiveram de esperar mais de um ano antes de serem soltos. Durante esse tempo, amiúde eram vituperados pelo pessoal das SS como sendo hipócritas e covardes, e eram obrigados a dar o chamado ‘passeio de honra’ ao redor de seus irmãos, antes de se lhes permitir deixar o campo.”

      Wilhelm Röger relembra que um irmão assinou a declaração quando sua esposa e sua filha foram visitá-lo, mas não disse aos irmãos que fizera isso. “Várias semanas depois foi informado de que devia aprontar-se para o livramento. (Tais pessoas em geral tinham de ficar em pé junto ao portão até que seus nomes fossem chamados.) Este irmão ficou em pé no portão o dia inteiro, e ainda estava em pé ali naquela noite, de modo que voltou para junto dos irmãos nas barracas. Depois da chamada noturna, dirigida por um capitão muito temido, de nome Knittler, este irmão recebeu ordem de buscar uma banqueta no alojamento e então foi obrigado a subir nela no pátio, em frente dos irmãos que marchavam: Knittler então dirigiu a atenção para o irmão, e, olhando-o de forma acre, disse: ‘Olhem para o seu covarde; ele assinou sem dizer nada a nenhum de vocês!’ Na realidade, os homens das SS gostariam que todos nós assinássemos a declaração. Mas, o respeito que secretamente tinham por nós ia por água abaixo uma vez que alguém a assinava.”

      A irmã Dietrichkeit lembra de duas irmãs que assinaram a declaração. Ao voltarem, contaram à irmã Dietrichkeit que haviam assinado porque tinham receio de que iriam morrer de fome. Não ocultaram que os homens das SS lhes perguntaram: “Agora que negaram a seu Deus, Jeová, a que Deus servirão?” As duas irmãs logo foram soltas, mas, quando os russos invadiram o país, ambas foram presas de novo por uma razão ou outra, e levadas pelos russos para a prisão onde realmente morreram de fome. Em outro caso, uma irmã que assinara a declaração foi estuprada pelos russos nos últimos poucos dias da guerra e então foi morta por eles.

      Grande número de irmãos que assinaram a declaração foram convocados para as forças militares e levados para a frente, onde a maioria deles perdeu a vida.

      Muito embora haja suficiente prova de que aqueles irmãos que assinaram assim se colocaram fora da proteção de Jeová, não aconteceu que, na maioria dos casos, fossem “traidores”. Muitos mandaram anular sua assinatura antes de serem soltos, uma vez que irmãos maduros, com entendimento, os ajudaram a compreender o que tinham feito. Suplicando arrependidos, que Jeová lhes desse outra oportunidade de provar sua fidelidade, muitos destes, depois do colapso do regime de Hitler, espontaneamente se juntaram às fileiras dos publicadores e começaram a trabalhar como publicadores de congregação, com o tempo, como pioneiros, superintendentes, até mesmo como superintendentes viajantes, promovendo de forma exemplar os interesses do reino de Jeová. Muitos foram confortados pela experiência de Pedro, que tinha negado a seu Senhor e Mestre também, mas que foi recebido de volta em seu favor. — Mat. 26:69-75; João 21:15-19.

      TRAIÇÃO

      Ao passo que alguns temporariamente perderam seu equilíbrio espiritual, devido aos métodos astutos usados, ou por causa de fraqueza humana, houve outros que viraram traidores e fizeram com que seus irmãos sofressem muito.

      Julius Riffel relata que, em 1937/1938 “certo irmão Hans Müller, de Dresden, veio até o Betel de Berna e tentou entrar em contato com os irmãos na Alemanha, alegadamente visando ‘reconstruir a organização subterrânea na Alemanha, depois de tantos irmãos terem sido presos’.

      “Naturalmente declarei minha disposição de cooperar, como o fizeram vários outros irmãos. É triste dizê-lo, mas não sabíamos naquela ocasião que este ‘irmão’ Müller trabalhava para a Gestapo na Alemanha. Sem suspeitar de nada, fizemos planos em Berna e começamos nosso trabalho. Eu devia assumir Baden Württemberg. Em fevereiro de 1938, atravessei a fronteira da Alemanha, e tentei reorganizar a atividade por entrar em contato com os irmãos ainda livres. Duas semanas depois, fui preso. . . . A Gestapo sabia de nossa atividade nos mínimos detalhes e isto por meio deste falso irmão, que ajudou a reconstruir a organização subterrânea, apenas para depois traí-la à Gestapo. Tal ‘irmão’ fez a mesma coisa um ano depois nos Países-Baixos e também na Tchecoslováquia. . . .

      “Em 1939, fui levado no caminhão de presos para Coblenz, onde deveria testemunhar no julgamento de três irmãs com as quais trabalhara às ocultas em Stuttgart. Ali, eu mesmo ouvi um agente da Gestapo dizer a um oficial do tribunal como sabiam todos os pormenores sobre a nossa obra, coisas tais como endereços e nomes pretensos, bem como a estrutura da organização. Certa vez, quando esperávamos do lado de fora, no corredor, este mesmo agente da Gestapo me disse que não teriam conseguido colocar-se no rastro de nossa atividade tão facilmente se não fosse pelo fato de haver pessoas que não valiam nada em nossas fileiras. É triste dizê-lo, mas não pude negar isso. De tempos a tempos, pude avisar os irmãos, lá da prisão, sobre este ‘irmão’ traidor mas o irmão Harbeck ignorou o aviso, simplesmente não podendo crer nisso. Segundo minha opinião, este tal de Müller foi responsável pela prisão de centenas de irmãos.”

      A CORRENTE CONTINUA A FLUIR

      Muito embora o inimigo repetidas vezes abrisse novas lacunas nas fileiras do povo de Deus, e dizimasse o número dos que ainda estavam livres, sempre havia outros que reconheciam a necessidade de se fornecer o alimento espiritual aos irmãos. Faziam isto apesar do perigo que representava para suas vidas. Um dos irmãos que refez o sistema de distribuição da Sentinela entre os irmãos, enquanto Müller continuava a fazer seu trabalho sujo em Dresden, foi Ludwig Cyranek. Fez isto até ser preso e condenado a dois anos de prisão. Daí, logo que deixou para trás as portas da prisão, o irmão Cyranek voltou direto ao trabalho.

      Muitas irmãs preencheram com alegria os lugares vagos pelas prisões dos irmãos, embora compreendessem que, de acordo com as leis mais severas do tempo de guerra, poderiam perder a vida se fossem apanhadas. Entre as usadas para distribuir A Sentinela, por exemplo, achavam-se a irmã Neuffert, em Holzgerlingen, a irmã Pfisterer, em Stuttgart, e a irmã Franke, em Mainz. O irmão Cyranek escrevia a estas irmãs algumas cartas contendo informações inofensivas, cartas que as irmãs passavam a ferro, de modo a poderem ler a mensagem secreta que ele escrevera por baixo, com suco de limão, dizendo-lhes onde podiam levar as Sentinelas e quantas.

      De tempos a tempos, o irmão Cyranek ia a Stuttgart, onde Maria Hombach trabalhava com ele como secretária. Ditava relatórios a ela sobre a obra na Alemanha, que ele então enviava a Arthur Winkler nos Países-Baixos, que cuidava da Alemanha e da Áustria. A irmã Hombach escrevia tais cartas com suco de limão, de modo que importantes informações não caíssem em mãos desautorizadas.

      Ter esta atividade às ocultas funcionado por pelo menos um ano só pode ser atribuído à orientação de Jeová. Amiúde ele se certificava de que seu povo fosse conduzido por meios estranhos, para que pudesse ser suprido de alimento espiritual na época devida. Müller logo sentiu que a época era oportuna para trair a inteira equipe de organização perante a Gestapo. Todos os envolvidos foram presos em questão de dias. No julgamento em Dresden, o irmão Cyranek foi sentenciado à morte e outros receberam longas sentenças. Em 3 de julho de 1941, poucas horas antes de sua execução, escreveu a seus parentes a seguinte carta:

      “Meu querido irmão, minha cunhada, meus pais e todos os outros irmãos incluídos,

      “Temam a Deus e atribuam-lhe a honra! Tenho de escrever-lhes as dolorosas notícias de que, quando receberem esta carta, não mais estarei vivo. Por favor, não fiquem tristes demais. Lembrem-se de que é uma questão muito simples para o Deus Onipotente me levantar dentre os mortos. Sim, ele pode fazer todas as coisas e, se ele me permite beber este cálice amargo, então certamente deve servir para algum propósito. Saibam que foi minha tentativa de servi-lo, apesar de minha fraqueza, e estou completamente convencido de que Ele tem estado comigo e estará até o fim. Confio-me à sua guarda. Meus pensamentos, durante estas últimas horas se voltam para vocês, meus queridos. Que seus corações não fiquem desanimados, mas, antes, que mantenham seu equilíbrio, pois é muito melhor do que saberem que estou sofrendo na prisão, que seria contínua preocupação para vocês. E agora, minha querida mãe e meu querido pai, quero agradecer-lhes por todas as coisas boas que fizeram por mim. Mal consigo gaguejar um fraco muito obrigado. Que Jeová lhes retribua tudo que fizeram. Minha oração é que Ele os proteja e abençoe, pois é apenas a Sua bênção que enriquece. Querido Toni, só posso mesmo crer que você teria feito todo o possível para me livrar da ‘cova dos leões’, mas isto foi em vão. Recebi hoje à noite o aviso de que o pedido de clemência foi rejeitado, e que minha sentença será executada amanhã de manhã. Não fiz nenhum tipo de apelo, nem pedi misericórdia das mãos do homem. Aprecio sua boa vontade, contudo, de ajudar-me e lhe agradeço, bem como a Luise, do fundo do meu coração, por todas as boas coisas que me deram. Suas linhas de condolência me fizeram bem. Muitas saudações a vocês todos e permitam-me enviar um beijo a todos. Especialmente reservei um lugar no meu coração para Karl. Que Jeová esteja com vocês até nos encontrarmos de novo. Eu vos abraço em despedida. [assinado] Ludwig Cyranek.”

      Julius Engelhardt, que mimeografou Sentinelas junto com a irmã Frey, em Bruchsal, trabalhara intimamente ligado com o irmão Cyranek, na parte meridional da Alemanha. Foi planejado que, no caso da prisão do irmão Cyranek, ele continuaria o seu trabalho. É triste ter que dizer que Müller também o traiu perante a Gestapo, e logo descobriram seu esconderijo na sua cidade natal de Karlsruhe. Mas, o irmão Engelhardt sempre encorajara as irmãs por lhes dizer que ‘não pode custar-nos mais do que nossas cabeças’, e estava determinado a só vender sua liberdade pelo maior preço possível. Embora o agente da Gestapo já o tivesse levado em custódia, subitamente conseguiu soltar-se e correu escada abaixo, onde desapareceu nas multidões da rua mais rápido do que a polícia pôde impedi-lo. É interessante o que os historiadores seculares, no livro Widerstand und Verfolgung in Essen 1933 — 1945 (Oposição e Perseguição em Essen 1933 — 1945), dizem sobre a atividade do irmão Engelhardt, conforme tirado dos arquivos da Gestapo:

      “Com a prisão de Cyranek, Noernheim e outros, a distribuição de publicações ilegais de jeito nenhum cessou, pois Engelhardt, que de início era ativo no sudeste, se vira obrigado a fugir para o território do Ruhr em 1940, quando ameaçado de prisão em sua anterior base em Karlsruhe. Depois de breve estada em Essen, encontrou um lugar ilegal para morar em Oberhausen-Sterkrade, onde, desde o começo de 1941 a abril de 1943, produziu 27 números diferentes da Sentinela, numa edição de 240 e mais tarde, de 360 exemplares. Do território do Ruhr, fez arranjos para bases em Munique, Mannheim, Speyer, Dresden, bem como em Freiberg, na Saxônia, e serviu como tesoureiro para o inteiro país. . . . Em 18 de setembro de 1944, o tribunal superior em Hamm proferiu altas sentenças contra os membros do grupo de Essen, que realizava reuniões e distribuía regularmente a Sentinela em conexão com a atividade de Engelhardt. . . . Muitos foram mortos.”

      Christine Hetkamp também nos fornece encorajador relatório sobre a atividade do irmão Engelhardt: “Meu marido, que era batizado, tornou-se maligno opositor. . . . Eu não perdia nenhuma das reuniões, que eram realizadas alternadamente na casa de minha mãe, na minha casa e na do meu irmão. Eu podia tê-las em minha casa porque meu marido partia às segundas-feiras e ficava na casa de sua irmã até sábado; ela morava um pouco fora da cidade. Sua família era uma família fanaticamente nazista, e ele encontrava abrigo ali, visto que não podia mais suportar nosso espírito, o que é compreensível. Assim, durante a ausência dele, imprimia-se A Sentinela em nossa casa por quase três anos. Certo irmão (o irmão Engelhardt), que morava conosco por três anos, primeiro de tudo cortava os estênceis numa máquina de escrever e então os usava para mimeografar cópias de A Sentinela. Depois disso, viajava com minha mãe para Berlim, Mainz, Mannheim, etc., onde entregava as revistas a pessoas fidedignas que então as distribuíam ainda mais. O irmão Engelhardt e mamãe estavam encarregados de todo o arranjo, ao passo que eu cozinhava e lavava. Quando minha mãe foi presa, eu assumi a tarefa de entregar A Sentinela em Mainz e Mannheim. . . Em abril de 1943, mamãe foi presa pela segunda vez, desta vez para sempre. Pouco depois, o irmão Engelhardt, que por tanto tempo estivera encarregado, e que dirigia a obra às ocultas, também foi preso.”

      Mais tarde, a filha da irmã Hetkamp, seu cunhado, sua irmã, sua cunhada, e sua tia, foram presos. Todos eles foram julgados em 2 de junho de 1944. O irmão Engelhardt e sete outros réus, inclusive a mãe da irmã Hetkamp, foram condenados à morte. Foram todos decapitados pouco depois disso.

      Dali em diante, as condições na Alemanha continuaram a se tornar mais confusas. Não mais era possível determinar com certeza onde as Sentinelas eram mimeografadas, mas estavam sendo produzidas.

      FIÉIS ATÉ À MORTE

      As numerosas execuções que ocorreram no Terceiro Reich assumem um lugar especial na história da perseguição. Pelo menos 203 irmãos e irmãs, segundo relatórios incompletos, foram decapitados ou fuzilados. Este número não inclui aqueles que morreram de fome, de doenças ou de outros maus tratos brutais.

      A respeito dum irmão que foi sentenciado à morte, relata o irmão Bär: “Todos os detentos e também as autoridades carcerárias ficaram surpresos com ele. Era serralheiro e fazia consertos por toda a prisão. Ele executava seu trabalho diário sem qualquer sinal de abatimento ou tristeza; pelo contrário, enquanto trabalhava, entoava cânticos de louvor a Jeová.” Certo dia, por volta do meio-dia, foi removido da oficina, e foi morto naquela noite.

      O irmão Bär continua seu relato, dizendo: “Minha esposa certa vez viu uma irmã na prisão em Potsdam que ela não conhecia. Passou por ela no pátio da prisão. Quando a irmã viu minha esposa, ergueu ambos os braços algemados e fez uma saudação alegre. Embora sentenciada a morte, não havia aparência de dor nem de tristeza em seu semblante.” Esta calma e paz irradiadas pelos irmãos e irmãs sentenciados à morte adquire maior valor quando a pessoa se lembra do que tiveram de enfrentar em suas celas.

      Ao passo que nossos irmãos e irmãs eram resolutos e resignados, com efeito, até mesmo alegres às vezes em face da vereda difícil que foram obrigados a percorrer, outros que não eram Testemunhas amiúde desmaiavam ou, por causa do seu intenso temor da morte, soltavam altos brados até serem restringidos à força.

      Jonathan Stark, de Ulm, contudo, não cedeu a tal temor. Na verdade, só tinha dezessete anos quando foi preso pela Gestapo, e, sem formalidades legais, foi mandado para Sachsenhausen, onde foi colocado nas barracas da morte. Qual era sua ofensa? A recusa de fazer o serviço pré-militar. Emil Hartmann, de Berlim, ouviu dizer que Jonathan estava confinado a estas barracas e, embora pudesse resultar em severa punição para ele, o irmão Hartmann conseguiu entrar ali para falar com este jovem irmão e fortalecê-lo. Para ambos, estas breves visitas foram muitíssimo encorajadoras. Jonathan sempre se sentia muito feliz. Embora encarasse a morte, confortava sua mãe com a maravilhosa esperança duma ressurreição. Quando conduzido pelo comandante do campo ao local de execução apenas duas semanas depois de sua chegada, as últimas palavras de Jonathan foram “A favor de Jeová e de Gideão”. (Gideão foi um servo fiel de Jeová que prefigurou Jesus Cristo.) — Juí. 7:18.

      Elise Harms, de Wilhelmshaven, lembra-se que se pediu várias vezes a seu marido que voltasse atrás depois de ser sentenciado, e, quando ele recusou, foi oferecida a ela a permissão de visitá-lo sob a condição de que fizesse tudo a seu alcance para persuadi-lo a mudar de idéia. Mas, ela não podia fazer isto. Quando ele foi decapitado, ela se sentiu feliz de ele ter permanecido fiel a Jeová e de que não estava mais sob a pressão para se tornar infiel. No ínterim, o pai dele, Martin Harms, foi preso pela terceira vez e lançado em Sachsenhausen. Profundamente comovente é a carta que o filho dele lhe escreveu pouco antes de sua execução em 9 de dezembro de 1940:

      “Meu querido pai,

      “Ainda temos três semanas até 3 de dezembro, o dia em que nos vimos pela última vez há dois anos atrás. Ainda consigo ver seu querido sorriso ao trabalhar no porão da prisão e quando eu andava no pátio da prisão. Nas primeiras horas da manhã não suspeitávamos que eu e minha querida Lieschen (sua esposa) seríamos soltos naquela tarde, nem que o senhor, meu querido pai, para nosso pesar, seria levado nesse mesmo dia para Vechta, e dali então para Sachsenhausen. Aqueles últimos instantes, quando estávamos a sós no parlatório da prisão de Oldenburgo ainda se acham indelevelmente inculcados em minha memória, como eu o abracei e lhe prometi que cuidaria da mamãe, e do senhor fazendo tudo que estivesse a meu alcance. Minhas últimas palavras foram: ‘Permaneça fiel, meu querido pai!’ Durante esse último ano e nove meses (21 meses ao todo) de ‘escravidão em liberdade’, cumpri minha promessa. Ao ser colocado sob custódia, em 3 de setembro, passei a responsabilidade a seus outros filhos. Tenho encarado o senhor com orgulho, durante esse tempo, e também com surpresa, pela forma em que tem levado sua carga em fidelidade ao Senhor. E agora eu, também, obtive a oportunidade de provar minha fidelidade ao Senhor até a morte, sim, em fidelidade não só até à morte, mas até mesmo na morte. Minha sentença de morte já foi anunciada e estou algemado tanto de dia como de noite — as marcas (sobre o papel) são das minhas algemas — mas ainda não venci plenamente. Permanecer fiel não é fácil para uma das testemunhas de Jeová. Ainda tenho oportunidade de salvar minha vida terrestre, mas somente por perder assim a verdadeira vida. Sim, uma das testemunhas de Jeová recebe a oportunidade de violar seu pacto até mesmo quando contempla a força. Portanto, ainda estou no meio duma luta e ainda tenho que obter muitas vitórias antes de poder afirmar que ‘travei a luta excelente, observei a fé, acha-se reservada para mim a coroa da justiça que Deus, o justo juiz, me dará.’ A luta é deveras difícil, mas sinto-me grato de todo o coração ao Senhor, não só por Ele me ter dado a força necessária para suportar tudo até agora, em face da morte, mas também por me dar uma alegria que gostaria de compartilhar com todos os meus entes queridos.

      “Meu querido pai, o senhor ainda está preso, também, e não sei se esta carta chegará ou não até o senhor. Caso consiga alguma vez ficar livre, contudo, então permaneça tão fiel como é agora, pois sabe que quem tiver posto sua mão no arado e olhar para trás não é digno do reino de Deus. . . .

      “Quando o senhor, meu querido pai, estiver de novo em casa, certifique-se então de cuidar muito bem de minha querida Lieschen, pois a situação será especialmente difícil para ela, sabendo que seu amado não voltará mais. Sei que o senhor fará isto e lhe agradeço de antemão. Meu querido pai, em espírito eu lhe digo, permaneça fiel, assim como tentei permanecer fiel, e então nos veremos de novo. Estarei pensando no senhor até o último instante.

      “Seu filho Johannes

      “Auf Wiedersehen!” (Até à vista!)

      PALAVRAS DE ENCORAJAMENTO AOS DE FORA

      Não aconteceu apenas de os candidatos à morte serem encorajados pelos irmãos de fora; os de fora, em liberdade, amiúde eram encorajados ainda mais pelos seus irmãos presos. A irmã Auschner, de Kempten, confirma isto. Ela recebeu uma carta de seu filho de 21 anos, em 28 de fevereiro de 1941, que continha as seguintes breves linhas dirigidas ao irmão dele de 18 anos e meio: “Meu querido irmão. Em minha última carta, trouxe à sua atenção um livro, e espero que tenha levado a peito o que eu disse, pois isto só lhe pode trazer benefícios.” Dois anos e meio depois, a irmã Auschner recebeu deste filho caçula uma carta de despedida. Ele havia levado a peito o que seu irmão mais velho havia escrito e o tinha seguido fielmente até à morte.

      Os dois irmãos, Ernst e Hans Rehwald, de Stuhm, Prússia Oriental, também ajudaram um ao outro de forma similar. Depois de Ernst ter sido levado às barras dum tribunal militar e sentenciado à morte, escreveu de sua cela de morte uma carta a seu irmão Hans, na prisão em Stuhm: “Querido Hans. Em caso de a mesma coisa lhe acontecer, então se lembre do poder da oração. Não sinto nenhum medo, pois a paz de Deus está dentro do meu coração.” Pouco tempo depois, seu irmão se achava na mesma posição e, embora só tivesse dezenove anos nessa ocasião, foi executado.

      TESTE DE LEALDADE PARA OS CÔNJUGES

      Era impressionante ver como os parentes íntimos encorajavam seus entes queridos a não vacilar em sua integridade. A irmã Höhne, de Francforte sobre o Oder foi uma das pessoas que acompanharam o marido dela até a estação ferroviária, quando recebeu sua ordem de incorporação, para jamais vê-lo de novo. As últimas palavras dela foram: “Seja fiel” — palavras que o irmão Höhne tinha em mente até sua morte.

      Em muitos casos, os irmãos eram recém-casados e, caso seu amor a Jeová e a Cristo Jesus não fosse tão forte, certamente não teriam conseguido suportar o rompimento dos vínculos da comunicação com seus entes queridos. Duas irmãs, que já são viúvas por mais de trinta e dois anos, rememoram aqueles tempos turbulentos, gratas pela ajuda que Jeová lhes deu. As irmãs Bühler e Ballreich, de Neulosheim, perto de Speyer, ambas se casaram perto do início da proscrição e aprenderam a verdade por volta dessa mesma época. Em 1940, ambos os maridos receberam sua chamada para incorporação e, ao recusarem fazer o serviço militar, foram presos.

      A irmã Ballreich se dirigiu aos oficiais de recrutamento do distrito, em Mannheim, onde soube que os dois irmãos foram enviados para Wiesbaden, para compareceram perante um tribunal militar. A irmã Ballreich obteve permissão de visitar seu marido, sob a condição de tentar persuadi-lo a mudar de idéia. A irmã Bühler obteve permissão de visitar seu marido sob a mesma condição. Ambas as irmãs de imediato se dirigiram a Wiesbaden. Relata a irmã Bühler:

      “Dificilmente posso descrever quão triste foi o reencontro. Ele (o marido dela) perguntou: ‘Por que você veio?’ Respondi-lhe que devia supostamente tentar influenciá-lo. Mas, ele me confortou, me deu conselhos bíblicos e me disse que não ficasse triste como os demais que não têm esperança, mas que pusesse minha inteira confiança em nosso grande Deus, Jeová. . . . Um jovem funcionário do tribunal, que nos acompanhara até à prisão, aconselhou-nos a ficar em Wiesbaden até terça-feira, que era o dia em que o processo seria julgado. Se estivéssemos ali, com certeza obteríamos permissão de comparecer ao mesmo. Assim, ficamos até terça-feira. Esperamos do lado de fora, na rua, até que nossos maridos, acompanhados de dois soldados com armas carregadas, foram conduzidos pela rua como se fossem criminosos profissionais. Era um verdadeiro espetáculo para homens e anjos. Eu e a irmã Ballreich fomos andando junto. Conseguimos assistir ao julgamento. Durou menos de uma hora, terminando com dois homens inculpes e bravos sendo sentenciados à morte. Depois disso, só conseguimos ficar com eles por cerca de duas horas num quarto no andar térreo. Mas, depois de sairmos do tribunal, andamos pelas ruas de Wiesbaden como duas ovelhas perdidas.”

      Pouco depois disso, as duas irmãs jovens receberam a notificação de que seus maridos tinham sido fuzilados em 25 de junho de 1940, com as palavras nos lábios “Jeová para sempre!”

      PAIS E FILHOS PUSERAM A JEOVÁ EM PRIMEIRO LUGAR

      Um caso que deteve as atenções, não só dos tribunais, promotores distritais e advogados de defesa, mas também do público, envolvia os dois irmãos Kusserow, de Paderborn. Baseados nas boas instruções nos modos de Jeová que haviam recebido em casa, estavam dispostos a dar suas vidas sem ter medo. E sua mãe usou a morte deles como oportunidade adicional de falar a outros na sua comunidade sobre a esperança da ressurreição. Um terceiro irmão, Karl, foi preso três meses depois e levado a um campo de concentração; morreu quatro semanas depois de ser solto. Havia treze membros nesta família; doze foram presos, sentenciados a um total de 65 anos, dos quais serviram 46.

      Similar ao caso dos Kusserows em que, não só os pais, mas também os filhos puseram os interesses do Reino à frente de si mesmos, era a família Appel de Süderbrarup. Possuíam pequena gráfica ali. Ouçamos como a irmã Appel nos conta o que aconteceu:

      “Em 1937, quando a grande onda de prisões já rolava sobre a Alemanha, eu e meu marido fomos levados para longe de nossos quatro filhos na noite de 15 de outubro. Oito pessoas (da Gestapo e oficiais de polícia) entraram em nossa casa e deram busca em toda a casa, desde o porão até o sótão. Daí levaram-nos junto com eles. . .. Depois de sermos sentenciados, meu marido foi levado para Neumünster e eu para a prisão de mulheres em Kiel. . . Em 1938, depois de uma série de anistias, fomos soltos. . . . Quando irrompeu a segunda guerra mundial, contudo, sabíamos o que estava à nossa espera, pois meu marido estava determinado a manter neutralidade. Falamos a nossos filhos sobre o assunto inteiro e trouxemos à atenção deles as declarações bíblicas com respeito à perseguição.

      “No que foi possível, fizemos arranjos para termos suficientes roupas para os filhos, de modo que fossem cuidados neste sentido. Depois de meu marido ter exposto aos oficiais de recrutamento suas razões bíblicas para não poder empenhar-se na guerra, pôs o restante de seus assuntos em ordem. Apresentávamos diariamente todos os nossos problemas a Jeová em oração. Em 9 de março de 1941, às 8 horas da manhã, tocou a campainha da porta, e vieram dois soldados apanhar meu marido. Esperaram do lado de fora e lhe concederam quinze minutos para se despedir de nós. Nosso filho Walter já tinha ido para a escola. Pedimos aos outros três filhos e à irmã Helene Green, que trabalhava em nossa gráfica, que viessem de imediato ao apartamento. A última solicitação de meu marido foi para entoarmos o cântico ‘Quem é leal e fiel não se deixa nunca atemorizar.’ Embora as palavras ficassem presas em nossas gargantas, cantamos. Depois duma oração, os soldados entraram e levaram meu marido. Essa foi a última vez que os filhos viram seu pai. Foi levado para Lübeck, onde alto oficial conversou longamente com ele de modo paternal, tentando persuadi-lo a colocar o uniforme. Mas, a lei imutável de Jeová estava tão firmemente ancorada no coração do meu marido que não havia jeito de ele voltar atrás. . . .

      “Foi cedo na manhã de 1.º de julho de 1941 que as autoridades policiais me apresentaram uma carta . . . notificando-me de que nosso carro estava sendo confiscado como propriedade comunista e que a gráfica estava sendo fechada pela polícia. Daí, entregou-me outra carta que dizia: ‘Deve levar seus filhos à prefeitura na manhã de 3 de julho de 1941. Deve trazer suas roupas e seus sapatos.’ Este foi um golpe duro.

      “Assim aconteceu que, na manhã de 3 de julho, supervisores de dois lares para jovens vieram apanhar as crianças. A senhora que ficou cuidando de minhas filhas de quinze e de dez anos, Christa e Waltraud, disse-me: ‘Já sabia há várias semanas que eu iria pegar suas filhas, e não consegui dormir uma noite desde então, sabendo que estou levando filhas de uma família bem-organizada. Mas, tenho de fazer isso.’

      “Alguns dos vizinhos não se refrearam de mostrar seu desagrado pela ação tomada, mas as autoridades responsáveis logo fizeram circular um aviso de que ‘qualquer pessoa que fale sobre o caso Appel está cometendo sedição nacional!’ Para certificar-se, três oficiais de polícia foram enviados para superintender o assunto da remoção dos filhos. . . . Meu marido foi, naturalmente, avisado pelas autoridades dos passos que foram dados no tocante à firma e aos filhos. Esperavam que isto o abrandasse. Foi acusado de ser desonesto e inescrupuloso em ter deixado sua família na lama. Meu marido me escreveu uma carta muito amorosa, dizendo como se levantara bem cedo na manhã seguinte, ficara de joelhos e, em oração, confiara o cuidado de sua família a Jeová. . . .

      “No mesmo dia em que os filhos foram levados, recebi notificação do tribunal militar de Berlim-Charlottenburgo para comparecer ali. Compareci perante o principal promotor-público, que me pediu que tentasse influenciar meu marido a por o uniforme. Quando lhe disse a razão bíblica de não poder fazer isto, ele gritou, cheio de raiva: ‘Então, vamos cortar-lhe a cabeça!’ Apesar disso, pedi permissão de falar com meu marido. Ele não deu nenhuma resposta, mas apertou uma campainha que chamava um soldado, o qual me levou ao andar de baixo, onde vários oficiais me saudaram com olhares gelados e acusações. Quando fui embora, um deles me seguiu, segurou minha mão e disse: ‘Sra. Appel, sempre permaneça firme como agora. Está fazendo o que é certo.’ Eu fiquei deveras surpresa. O que importava contudo, era que pude falar com meu marido.

      “Enquanto estava em Berlim, os nazistas já tinham vendido nossa firma. Fui obrigada a assinar a declaração de venda porque — foi-me dito — de outro modo seria enviada para um campo de concentração.

      “Depois de ter visitado meu marido em Berlim, várias vezes, ele foi condenado à morte. O advogado que o ‘defendeu’ observou: ‘Seu marido teve uma oportunidade excepcional de sair disso, mas recusou-se a fazer uso dela.’ Ao que meu marido respondeu: ‘Fiz minha decisão a favor de Jeová, e seu reino, e isso é o fim da questão.’

      “Em 11 de outubro de 1941, meu marido foi decapitado. Em sua última carta, que lhe foi permitido escrever poucas horas antes de sua execução, dizia: ‘Quando receber esta carta, minha querida Maria e meus quatro filhos, Christa, Walter, Waltraud e Wolfgang, tudo já terá terminado e terei obtido a vitória por meio de Jesus Cristo, e minha esperança é que tenha sido vitorioso. Do fundo do meu coração, desejou lhes feliz entrada no reino de Jeová. Permaneçam fiéis! Três irmãos jovens, que irão seguir o mesmo caminho que eu seguirei amanhã de manhã, estão aqui ao meu lado. Seus olhos brilham!’

      “Pouco tempo depois, fui obrigada a sair de minha casa em Süderbrarup. A mobília ficou guardada em cinco lugares diferentes. Pessoalmente acabei sem um centavo na casa de minha mãe.”

      “Meu filho Walter foi tirado da escola, pelo lar para jovens, e enviado a Hamburgo, onde faria um aprendizado como gráfico. Em 1944, foi convocado, embora só tivesse 17 anos. Da forma mais maravilhosa, viera a possuir o livro A Harpa de Deus antes disso e aprendera muita coisa dele nas noites de bombardeios em Hamburgo, em seu quartinho no sótão. Seu desejo era dedicar-se a Jeová. Depois de muitas dificuldades, conseguiu ir a Malente, na época do Ano Novo de 1943/1944, onde, numa lavanderia escura, um irmão o batizou secretamente. . .

      “Conseguiu entrar em contato comigo em segredo e eu esperei nas ruas de Hamburgo várias horas até que ele veio, porque me era proibido ver meus próprios filhos, sob quaisquer circunstâncias.

      “Para encorajamento dele, pude contar-lhe que recebera uma carta dos irmãos em Sachsenhausen, que haviam ouvido falar de nosso quinhão. O irmão Ernst Seliger escreveu que, depois de o campo silenciar à noite, várias centenas de irmãos, de várias nações, se ajoelhavam perante Jeová e faziam menção de nós em suas orações. Daí, meu filho foi levado à força para a Prússia Oriental, para o grupo militar a que foi designado. No frio gélido, tiraram-lhe as roupas e colocaram o uniforme na frente dele, mas ele se recusou a colocá-lo. Demorou dois dias até que ele recebeu algo quente para comer. Mas, permaneceu firme.

      “Em Hamburgo, havíamo-nos despedido um do outro. Ele me disse que iria pelo mesmo caminho que seu pai. Uns sete meses depois, após terem sido alterados seus documentos a fim de fazê-lo parecer mais velho, foi realmente decapitado, sem ter jamais sido julgado. Segundo a lei, ainda era menor de idade e estava sob jurisdição juvenil.

      “Um policial de Süderbrarup me visitou e leu para mim um relatório policial da Prússia Oriental. Eu mesma não recebi nada. Embora eu não esperasse realmente que meu rapaz tivesse de seguir o caminho do pai, visto ser ele tão jovem e o fim da guerra estar tão perto, todavia, apesar da grande dor que senti, ofereci uma oração de agradecimentos a Jeová. Podia então dizer: ‘Sou grata, Jeová, por ele ter caído no campo de batalha em teu favor.’

      “Daí veio a convulsão de 1945. Alegremente acolhi em meus braços novamente meus três filhos restantes. Os dois mais jovens tinham sido tirados dos lares para jovens e estavam morando com um diretor do escritório trabalhista nos últimos três anos, onde eram criados no sentido do nacional-socialismo. Eu tinha permissão de visitá-los apenas uma vez a cada quatro meses e de conversar com eles por várias horas, mas sempre com alguém presente. Apesar disso, minhas duas meninas certa vez conseguiram sussurrar-me que tinham um pequeno testamento que mantinham cuidadosamente oculto. Quando estavam a sós, uma delas ouvia à porta para certificar-se de que ninguém vinha e a outra lia alguns versículos. Quão feliz me senti!

      “Agora, em 1945, os irmãos fiéis começaram a voltar de seu encarceramento. Em Flensburg chegou um navio com muitos irmãos e irmãs, principalmente do leste. Naquele tempo, iniciou-se um período de intensa atividade. Foi ali que conheci meu marido atual, o irmão Josef Scharner. Ele, também, tinha sido privado de nove anos de liberdade. Na verdade, ambos tínhamos passado por momentos difíceis e ambos tínhamos o mesmo desejo de gastar nossos últimos anos em servir a Jeová com toda a nossa força.”

      FAZER DISCÍPULOS MESMO NUMA CELA DE MORTE

      Que seria possível fazer discípulos até mesmo em celas de morte poderia parecer difícil de se crer, mas o irmão Massors relata tal experiência numa carta dirigida à sua esposa, datada de 3 de setembro de 1943:

      “Durante 1928/30/32, fui pioneiro em Praga. Eram proferidos discursos e a cidade estava coberta de publicações. Naquele tempo, eu encontrei um orador político do governo, chamado Anton Rinker. Conversei bastante tempo com ele. Aceitou a Bíblia e vários livros e explicou que não tinha tempo de estudar tais coisas, visto que tinha de cuidar da família e ganhar a vida. Disse, contudo, que seus parentes tinham todos inclinações religiosas, embora não freqüentassem a igreja.

      “Deve ter sido em 1940/41 quando novo companheiro foi mandado para minha cela, como amiúde costumava acontecer. Sentia-se muito deprimido, mas todos se sentem assim de início. Apenas quando a porta se fecha atrás é que a pessoa subitamente compreende onde está. ‘Meu nome é Anton Rinker, e sou de Praga’, disse-me meu novo colega de cela. Reconheci-o de imediato e lhe disse: ‘Anton, sim, Anton, está reconhecendo-me?’ ‘Sim, parece que o conheço, mas . . .’ Só levou algum tempo para que ele se lembrasse de que visitara seu lar em 1930/32 e que ele ficara com uma Bíblia e vários livros naquele tempo. ‘O quê!’, disse Anton, ‘está aqui por causa de sua fé? Não posso compreender; nenhum dos ministros fazem nada parecido a isso. Em que realmente crê?’ Ele logo iria descobrir.

      “‘Mas, por que o clero não nos diz tais coisas?’ era sua pergunta. ‘Esta é a verdade. Agora sei porque tinha de vir para esta prisão. Devo dizer, meu caro Franz, que antes de entrar nesta cela orei a Deus para que me enviasse um crente, de outra forma eu pensava em cometer suicídio. . . .’

      “Passaram-se semanas e meses. Daí, Anton me disse: ‘Antes de eu partir desse mundo, que Deus ajude minha esposa e meus filhos a encontrar a verdade, de modo que possa partir em paz.’ . . . Certo dia, ele recebeu uma carta de sua esposa, em que ela escrevia:

      “‘ . . . Quão felizes ficaríamos se apenas você pudesse ler a Bíblia e os livros que comprou daquele senhor alemão há alguns anos. Tudo veio a ser exatamente como os livros diziam. Esta é a verdade para a qual nunca tínhamos tempo.’”

      ALIMENTO ESPIRITUAL NOS CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO

      Naqueles anos em que os irmãos, em especial os que estavam nos campos de concentração, estavam “isolados”, tinham muito pouca oportunidade de obter uma Bíblia ou outras publicações. Ainda mais esforço era gasto em lembrar-se do conteúdo de importantes artigos da Sentinela, quando tinham de ficar horas a fio no pátio, ou às noites, quando tinham um pouco de sossego em suas barracas. Sua alegria era especialmente grande quando era possível, de algum modo, obter uma Bíblia.

      Jeová às vezes usava modos interessantes de fazer com que uma Bíblia chegasse às mãos de seus servos. Frank Birk, de Renchen (Floresta Negra), lembra-se de que, certo dia em Buchenwald, um preso mundano lhe perguntou se gostaria de ter uma Bíblia. Ele encontrara uma na fábrica de papel em que trabalhava. Naturalmente que o irmão Birk aceitou com gratidão a oferta.

      O irmão Franke também se lembra de como, em 1943, um idoso senhor das SS, que se juntara a esta organização apenas pressionado pelos tempos, dirigiu-se a vários clérigos em seu dia de folga e solicitou uma Bíblia. Todos eles disseram que lamentavam não ter mais uma Bíblia. Foi à noitinha quando por fim encontrou um clérigo que lhe disse ter uma pequena Bíblia de Lutero que havia guardado por motivos especiais. Ficou tão contente por ver um homem das SS manifestar interesse na Bíblia, contudo, que disse que a Bíblia poderia ser dele. Na manhã seguinte, este homem das SS, de cabelos grisalhos, deu a Bíblia ao irmão Franke, obviamente contente de poder dar este presente a um preso sob seus cuidados.

      Com o tempo tornou-se possível introduzir novos artigos das Sentinelas nos campos de concentração. No campo de concentração de Birkenfeld, isto era feito da seguinte forma: Dentre os presos havia um irmão que, devido ao seu conhecimento de arquitetura, trabalhava com um civil amigável para com as testemunhas de Jeová. Através deste senhor amigável, o irmão entrou em contato com os irmãos de fora do campo que logo lhe supriram as Sentinelas mais recentes.

      Nossos irmãos no campo de Neuengamme tiveram oportunidades similares. A maioria dos aproximadamente setenta irmãos ali foram colocados na limpeza, depois dos ataques aéreos sobre Hamburgo. Ali, em Hamburgo, puderam obter Bíblias, certa vez encontrando três em questão de alguns minutos Willi Karger, que teve esta experiência pessoal, relata: “Gostaria de contar sobre o alimento espiritual adicional que uma irmã de Döbeln nos trouxe. Que isto jamais seja esquecido. O irmão dela, Hans Jäger, pertencia a nosso grupo de trabalho em Bergedorf, perto de Hamburgo, e foi designado a trabalhar na siderúrgica de Glunz. Nosso quinhão era o trabalho árduo e estrita vigilância. O irmão Jäger, todavia, teve êxito em enviar furtivamente uma carta e avisar a irmã dele onde estaria durante sua hora de almoço. Sua irmã tomou um trem para Hamburgo e ‘sondou’ cuidadosamente como chegar ao local em que nós trabalhávamos. Teve êxito em colocar as revistas solicitadas em nossas mãos, assim, apesar dos guardas das SS, e devido à supervisão de Jeová, as valiosas revistas foram trazidas ao campo sem serem vistas.”

      Todos imaginavam modos diferentes, e, com o tempo, havia várias Bíblias no campo. Um irmão escreveu à esposa em Danzig que apreciaria comer um pouco de “bolo de melaço e gengibre Elberfelder”, e no seguinte pacote de comida (que os irmãos podiam receber neste campo naquele tempo) recebeu uma Bíblia Elberfelder cuidadosamente oculta no meio do bolo de melaço e gengibre. Certas pessoas tinham contato com presos que trabalhavam no crematório. Estes relatavam que muitos livros e revistas eram queimados ali, de modo que os irmãos fizeram arranjos secretos de receber as Bíblias e revistas, em troca de alguns de seus suprimentos de comida.

      Em Sachsenhausen, algumas Bíblias chegaram ás mãos dos irmãos quando eles ainda estavam no “isolamento”. Estranho como pareça, o isolamento resultou ser uma proteção neste caso, visto que um irmão não só fora designado para cuidar do portão que levava à área de isolamento, mas também possuía a chave, e, portanto, tinha de abrir e fechar o portão. Havia sete mesas grandes numa sala que acomodava 56 irmãos sentados. Por bom tempo, um irmão fornecia um comentário de 15 minutos, abrangendo o texto, enquanto que os outros comiam seu desjejum. Fazia-se um rodizio então entre as mesas, bem como entre os irmãos que se sentavam nelas. Este comentário era então o típico de palestra quando os irmãos eram obrigados a ficar em pé por horas a fio no pátio.

      No rigoroso inverno de 1939/1940, as Testemunhas fizeram uma petição a Jeová, em oração, quanto a este assunto de publicações, e eis que aconteceu um milagre! Jeová colocou sua mão protetora sobre um irmão, que conseguiu introduzir três Sentinelas no “isolamento”, dentro de sua perna de madeira, e isto apesar de cuidadosa revista. Muito embora os irmãos tivessem de arrastar-se para debaixo de suas camas e ler a luz dum farolete, enquanto outros ficavam vigiando à direita e à esquerda, isso era prova da maravilhosa orientação de Jeová. Como bom Pastor’ não abandona Seu povo.

      No inverno de 1941/42, quando os irmãos tinham sido soltos do “isolamento”, sete Sentinelas que consideravam Daniel capítulos 11 e 12, o primeiro número que considerava Miquéias, um livro intitulado “Kreuzzug gegen das Christentum” (Cruzada Contra o Cristianismo) e um Boletim (agora Ministério do Reino) chegaram todos ao mesmo tempo. Tratava-se realmente duma dádiva do céu, pois, junto com seus irmãos em outros países, podiam então ter entendimento claro do “rei do sul” e do “rei do norte”.

      Graças ao fato de que os presos que não estavam em “isolamento” tinham as tardes de domingo livres, e que o capitão do bloco político ia a outras barracas visitar seus amigos naquela tarde, era possível os irmãos dirigirem um estudo da Sentinela todo domingo durante vários meses. Em média, 220 a 250 irmãos participavam neste estudo, ao passo que 60 a 70 ficavam vigiando por todo o caminho até a entrada do campo, e, sempre que surgia perigo, davam certo sinal. Foi assim que jamais foram pegas de surpresa por um homem das SS durante seu estudo. Os estudos dirigidos em 1942 permanecem inesquecíveis para os presentes a eles. Os irmãos ficaram tão impressionados pelas maravilhosas explicações a respeito da profecia em Daniel, capítulos 11 e 12 que, na conclusão, em alegre tempo de marcha, cantavam canções folclóricas entremeadas de cânticos do Reino assim não fornecendo motivo de suspeita ao guarda de ronda a alguns metros, das barracas, em uma torre, antes, ele se alegrava de ouvir o lindo coral. Imagine só: A voz de 250 homens que, embora presos, na realidade estavam livres, entoando de todo o coração cânticos de louvor a Jeová. Que espetáculo! Estariam os anjos do céu cantando junto também?

      DIMINUI A PRESSÃO SOBRE OS NOS CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO

      Embora o sangue de testemunhas fiéis de Jeová continuasse a fluir nos centros executores nazistas até bem o completo colapso do regime, todavia, as armas daqueles que juraram vez após vez que as testemunhas de Jeová só deixariam os campos de concentração pelas chaminés do crematório começaram a enfraquecer. Havia também os problemas que a Guerra apresentava. Assim, em especial a partir de 1942/1943, houve períodos em que as testemunhas de Jeová ficaram em relativa paz.

      A guerra, que era agora uma guerra total, havia mudado ao ponto em que todas as forças disponíveis tinham sido mobilizadas. Por este motivo, em 1942, começaram a incluir, na medida do possível, os prisioneiros em projetos produtivos para a economia. Neste sentido, um comentário feito pelo líder das SS, Pohl, a seu chefe, Himmler, a respeito da “situação dos campos de concentração” é interessante:

      “A guerra produziu visível mudança na estrutura dos campos de concentração, e, basicamente, mudou sua função com respeito ao uso dos detentos.

      “O encarceramento de presos unicamente por motivos de segurança, de educação ou preventivos, não predomina mais [a destruição em massa não é nem sequer mencionada]. A ênfase foi mudada para o aspecto econômico do assunto. A mobilização de todos os detentos, em primeiro lugar, para tarefas relacionadas com a guerra (aumento da produção de armamentos) e, em segundo lugar, para assuntos relacionados a paz, torna-se cada vez mais o fator predominante.

      “As medidas necessárias que são tomadas resultam desta avaliação, que exige a transferência gradual dos campos de concentração de seu objetivo anterior, unilateralmente político, para uma organização que satisfaça as necessidades econômicas.”

      Tal transformação, naturalmente, exigia que os detentos fossem melhor alimentados, se haviam de ser usados mais para o trabalho. Isto trouxe maior alívio aos irmãos. As autoridades também foram bastante judiciosas, tirante algumas exceções, para não tentar colocar os irmãos em fábricas de armamentos, mas de usá-los de acordo com suas habilidades vocacionais nas várias oficinas.

      No ínterim, Jeová fizera sua parte, pois ele pode dirigir os corações dos humanos — mesmo os dos seus inimigos — como correntes de água. Notável exemplo é Himmler. Por anos ele cria que apenas ele podia decidir quanto à vida dos servos fiéis de Jeová, mas subitamente começou a mudar de idéia a respeito dos “Estudantes da Bíblia”. Seu médico pessoal, um médico finlandês chamado Kersten, desempenhou importante papel.

      O massagista Kersten começou a exercer forte influência sobre Himmler, que estava sempre muito doente. Ouviu falar em as testemunhas de Jeová serem cruelmente perseguidas, e certo dia pediu a Himmler que lhe desse algumas das mulheres para trabalhar em sua propriedade em Harzwalde, cerca de setenta quilômetros ao norte de Berlim. Depois de hesitar, Himmler concordou, e, mais tarde, concedeu um pedido adicional de Kersten, libertando uma irmã dum campo de concentração, de modo que pudesse trabalhar na segunda casa de Kersten, na Suécia. Foi por meio destas irmãs que Kersten ouviu a verdade sobre as condições nos campos de concentração e sobre o indescritível sofrimento inflingido em especial sobre as testemunhas de Jeová durante anos. Ficou tremendamente surpreso, sabendo que suas massagens repetidas vezes restauravam este demônio a suficiente saúde para continuar seus negócios assassinos. Por conseguinte, decidiu usar sua influência para, pelo menos em certa medida, amainar o sofrimento de todos estes presos. Pode-se assim atribuir à influência dele que dezenas de milhares deles, em especial perto do fim da guerra, não foram exterminados. Em especial para as testemunhas de Jeová, sua influência resultou ser muitíssimo benéfica. Pode-se ver isto de uma carta que Himmler escreveu a seus mais íntimos associados, os mais altos líderes das SS, Pohl e Müller. Tal carta, carimbada “Secreta”, incluía os seguintes trechos:

      “Acha-se anexo um relatório sobre as dez Estudantes da Bíblia que trabalham na fazenda do meu médico. Tive oportunidade de estudar o assunto dos Fervorosos Estudantes da Bíblia de todos os ângulos. A Sra. Kersten fez uma sugestão muito boa. Ela disse que jamais teve empregadas tão boas, dispostas, fiéis e obedientes como essas dez mulheres. Tais pessoas fazem muita coisa por amor e bondade. . . Uma das mulheres recebeu certa vez 5 marcos do Reich como gorjeta dum convidado. Aceitou o dinheiro, visto que não desejava lançar nenhum vitupério sobre o lar e o entregou a Sra. Kersten, visto ser proibido ter dinheiro no campo. As mulheres voluntariamente faziam qualquer trabalho que era exigido delas. Às noites, tricotavam, aos domingos se ocupavam de alguma outra forma. No verão, não deixaram passar a oportunidade de levantar-se duas horas mais cedo e juntar cestas cheias de cogumelos, muito embora se exigisse que elas trabalhassem dez, onze e doze horas por dia. Tais fatos completam meu quadro sobre os Estudantes da Bíblia. São pessoas incrivelmente fanáticas e dispostas, prontas a sacrificar-se. Se pudéssemos pôr tal fanatismo a trabalhar pela Alemanha, ou instilar tal fanatismo em nosso povo, então seríamos mais fortes do que somos hoje. Naturalmente, visto que rejeitam a guerra, seu ensino é tão detrimental que não podemos permiti-lo, a fim de não causarmos o maior dos danos a Alemanha. . . .

      “Não se consegue nada punindo-as, visto que somente falam disso depois com entusiasmo. . . . Cada castigo serve qual mérito para o outro mundo. É por isso que todo verdadeiro Estudante da Bíblia se deixará executar sem hesitação. . . . Todo confinamento no calabouço, toda dor da fome, todo período de congelamento é um mérito, todo castigo, todo golpe é um mérito perante Jeová.

      “Caso surjam problemas no campo, no futuro, envolvendo os Estudantes da Bíblia, proíbo então o comandante do campo de declarar qualquer punição. Tais casos devem ser relatados a mim, com breve descrição das circunstâncias. De agora em diante planejo fazer o oposto e dizer a respectiva pessoa: ‘É-lhe proibido trabalhar. Será melhor alimentada do que os outros e não terá que fazer nada.’

      “Pois, de acordo com a crença destes lunáticos de natureza pacata cessa o mérito, sim, pelo contrário, os méritos anteriores serão deduzidos por Jeová.

      “A minha sugestão agora é de que todos os Estudantes da Bíblia sejam designados a trabalhar — por exemplo, a trabalhar na lavoura, que nada tem que ver com a guerra e toda a sua loucura. Se devidamente designadas, pode-se deixá-las sem vigilância; não fugirão. Podem ser-lhes dados serviços sem controle, provarão ser os melhores administradores e trabalhadores.

      “Outro uso delas, conforme sugerido pela Sra. Kersten: Podemos utilizar as Estudantes da Bíblia em nossos ‘Lebensbornheime’ (orfanatos erguidos para criar filhos gerados pelos homens das SS para produzir uma raça superior), não como enfermeiras, mas como cozinheiras, arrumadeiras, ou para trabalhar na lavanderia ou em tarefas similares. Onde ainda tivermos homens trabalhando como serventes de limpeza, podemos usar mulheres fortes dentre as Estudantes da Bíblia. Estou convencido de que, na maioria dos casos, teremos pouca dificuldade com elas.

      “Também concordo com as sugestões de que se designem Estudantes da Bíblia às famílias grandes. Estudantes da Bíblia habilitadas, dotadas da necessária capacidade, devem ser encontradas e relatadas a mim. Então as distribuirei pessoalmente entre as famílias grandes. Em tais casas, não devem usar uniformes da prisão, mas roupas civis, e sua permanência deve ser arranjada de forma similar às Estudantes da Bíblia livres e internadas em Harzwalde.

      “Em todos estes casos em que detentas ficam parcialmente livres e têm sido designadas a tal trabalho, queremos evitar registros escritos ou assinaturas, e fazer tais acordos apenas com um aperto de mão.

      “Queiram enviar suas recomendações para dar início a esta atividade e um relatório sobre ela.”

      Assim aconteceu. Dentro de curto tempo, um bom número de irmãs foram enviadas para trabalhar nas casas, nas hortas para o mercado, nas propriedades das SS e nos “Lebensbornheime”.

      Havia outras razões, contudo, de os homens das SS estarem dispostos a aceitar as testemunhas de Jeová em suas casas. Os homens das SS sentiam o ódio secreto que crescia entre o povo comum. Compreendiam que não zombavam deles apenas em particular. Muitos nem mais confiavam em suas criadas e tinham medo que elas pusessem veneno em sua comida ou os matassem de algum outro modo. Com o tempo, altos oficiais das SS não ousavam mais ir a qualquer barbeiro, temendo que este lhes cortasse o pescoço. Max Schröer e Paul Wauer foram designados a fazer regularmente a barba dos altos oficiais das SS, visto que estes sabiam que as testemunhas de Jeová jamais se vingariam, nem matariam seus inimigos humanos.

      Tais irmãos e irmãs que trabalhavam fora dos campos até mesmo obtiveram permissão de receber visitas de seus parentes ou podiam eles mesmos visitar seus parentes em casa. Alguns obtiveram férias de várias semanas para este fim. Isto por fim significava que os irmãos e as irmãs obtinham mais comida, que resultava na melhora rápida de sua saúde e reduzia o número de mortes devido à fome e aos maus tratos.

      Até que ponto a atitude nos campos de concentração mudou para proveito das testemunhas de Jeová, pode ser visto de uma experiência de Reinhold Lühring. Em fevereiro de 1944, foi subitamente chamado de sua equipe de trabalho e lhe mandaram apresentar-se ao escritório do campo. Era ali que tantos tinham recebido maus tratos e se fizeram tentativas de persuadi-los de renunciar à sua fé em Jeová. Quão surpreso ficou o irmão Lühring quando os oficiais sentados à sua frente lhe pediram que supervisionasse uma propriedade, orientando devidamente o trabalho e os trabalhadores. Respondendo a todas as perguntas deles na afirmativa, foi mais tarde levado para a Tchecoslováquia, junto com quinze outros irmãos, para tomar conta da propriedade da Sra. Heydrich.

      Outra equipe de trabalho, composta de 42 irmãos todos bons artífices, foi levada para o Lago Wolfgang, na Áustria, a fim de construir uma casa para um alto oficial das SS. Embora o trabalho nas encostas da montanha não fosse fácil, os irmãos passaram muito melhor em outros sentidos. Por exemplo, Erich Frost, que pertencia a este grupo, obteve permissão de lhe mandarem de casa o seu acordeão. Depois de recebê-lo, ele e os outros irmãos amiúde tinham permissão de ir às noitinhas até o lago, onde tocava músicas folclóricas e peças de concerto, que eram apreciadas, não só por seus irmãos, mas também por aqueles que moravam junto ao lago, inclusive os homens das SS, sob cuja supervisão trabalhavam.

      Também continuou a ser mais fácil suprir o alimento espiritual aos irmãos nos campos de concentração. O Dr. Kersten desempenhou um papel nada pequeno nisso, visto que amiúde viajava entre sua casa na Suécia e sua propriedade em Harzwalde. Sempre permitia que as irmãs que Himmler lhe dera para trabalhar em sua propriedade e em sua casa na Suécia arrumassem suas malas. Silencioso acordo fora feito entre elas, de que a irmã na Suécia colocaria várias Sentinelas na mala de Kersten, quando a arrumasse. Ao chegar em Harzwalde, ele mandava a irmã que trabalhava para ele ali que desfizesse a mala, o que ele sempre deixava que ela fizesse sozinha. Depois de as irmãs terem estudado cuidadosamente estas Sentinelas, passavam-nas para o campo de concentração vizinho.

      A propriedade do Sr. Kersten em Harzwalde estava numa localização ideal, a cerca de 35 quilômetros ao sul do campo de mulheres de Ravensbrück e a cerca de 30 quilômetros ao norte do campo dos homens em Sachsenhausen. Coisas eram transportadas constantemente de Harzwalde para ambos os campos, de modo que não era difícil introduzir alimento espiritual nos campos, para os irmãos e irmãs.

      Havia assim um contato cada vez mais íntimo entre os vários campos e casas particulares em que nossas irmãs foram designadas trabalhar para as famílias dos SS. Ilse Unterdörfer relata a respeito desta época interessante:

      “Visto que gozávamos de considerável liberdade onde trabalhávamos, tínhamos êxito em enviar cartas a nossos parentes sem que fossem censuradas. Também conseguíamos corresponder com nossos irmãos que trabalhavam na parte externa ou a quem os homens das SS confiaram posições, destarte gozando de maior liberdade. Sim, tivemos até êxito em entrar em contato com os irmãos que viviam em liberdade e obtivemos Sentinelas. Depois de muitos anos de viver à base das coisas anteriormente aprendidas, e das novas verdades trazidas pelos recém-chegados, era maravilhosamente revigorante poder ler pessoalmente de novo A Sentinela. Fui designada a uma fazenda das SS perto de Ravensbrück, sob a jurisdição do oficial das SS, Pohl. Como detenta supervisora, era responsável pelo trabalho de nossas irmãs. Algumas de nas até dormiam ali, e não tinham mais de ir de forma alguma ao campo. Era-me então possível, segundo os arranjos feitos numa carta entregue por uma irmã, entrar em contato com Franz Fritsche, de Berlim, com quem encontrei-me numa noite numa seção arborizada da fazenda. Sempre me fornecia várias Sentinelas. Além disso, sempre recebíamos alimento espiritual de outra forma. Duas irmãs trabalhavam numa fábrica, e também traziam exemplares de A Sentinela para o campo. Desta forma, Jeová cuidava amorosamente de nós num tempo em que isso era muitíssimo urgente.”

      Jeová abençoava os irmãos que tinham acesso mais fácil ao alimento espiritual e que se empenhavam em torná-lo disponível a outros, como se pode ver do relato de Frank Birk. Achava-se entre os trazidos à propriedade de Harzwalde. Logo ouviram dizer que outros irmãos encarcerados, trabalhando sob a supervisão dum soldado, erguiam um prédio na floresta, a cerca de dez quilômetros. Visto que os irmãos de Harzwalde já gozavam de certa medida de liberdade, procuravam uma oportunidade de encontrar-se com tais irmãos na floresta.

      “Certo domingo de manhã”, relata o irmão Birk, “eu e o irmão Krämer pegamos nossas bicicletas e partimos para achar nossos irmãos. Ao rodarmos para dentro dos bosques, vimos logo uma clareira em que se erguia novo prédio. Vendo um preso surgir na clareira, acenamos para ele, e começou a vir em nossa direção no meio do mato. Logo que vimos o triângulo lilás em sua roupa, sabíamos que era um irmão. Depois de lhe dizermos que éramos do grupo de Harzwalde, ele nos levou ao prédio novo. Visto que tínhamos Sentinelas novas, sentamo-nos e começamos a estudar. Depois disso, visitávamos nossos irmãos todo domingo. Estavam sob a supervisão dum sargento-ajudante de Friburgo, que era bondoso para com os irmãos. Pouco antes do Natal, perguntei-lhe: ‘O que acharia se o Sr. e nossos irmãos fizessem uma visita a Harzwalde nesses feriados?’ Ele respondeu, pensativo, que desejava ir a algum lugar com seus homens para cortarem o cabelo. Quando soube que tínhamos um barbeiro em Harzwalde, concordou de imediato. E, assim, bem cedo na manhã de Natal, nossos irmãos, acompanhados por este oficial, vieram até à fazenda. A irmã Schulze, de Berlim, que trabalhava na cozinha, cuidou especialmente bem do oficial, de modo que ninguém nos perturbasse em nossa associação mútua. Essa noite, os irmãos voltaram para casa cheios de alegria, por causa da reunião abençoada que tivemos juntos. Imagine só, isto ocorrera bem no meio de nossos inimigos!”

      Com o tempo, houve crescentes possibilidades de se introduzir o alimento espiritual em todos os campos de concentração. Gertrud Ott e dezoito outras irmãs encarceradas em Auschwitz foram enviadas para trabalhar num hotel em que as famílias dos homens das SS moravam. Visto que outras pessoas também vinham comer e beber ali, não demorou muito até que as irmãs ainda livres descobriram suas irmãs presas lavando as janelas. “Somos irmãs também”, sussurraram ao passar, sem olhar para cima. Três semanas depois, fizeram arranjos de reunir-se no lavatório. Dali em diante, as irmãs de fora vinham regularmente e traziam Sentinelas e outras publicações para as irmãs que trabalhavam no hotel, que eram então enviadas para Ravensbrück.

      No início de dezembro de 1942, surgiu uma oportunidade especialmente maravilhosa para que cerca de 40 irmãos, deixados em Wewelsburgo, cuidassem dum serviço especial ali. Embora fossem ainda tratados como detentos, gozavam certa medida de liberdade, pois não havia mais qualquer cerca de arame farpado, nem sentinela, para mantê-los dentro do campo.

      O irmão Engelhardt ainda estava livre nessa época e tentara enviar instruções aos irmãos que moravam perto para encontrarem um meio de introduzir Sentinelas no campo. Depois de vencer vários problemas, Sandor Beier, de Herford, e Martha Tünker, de Lemgo, investigaram a situação simplesmente por atravessarem uma seção como um casal de jovens talvez o fizesse. Logo estabeleceram contato com os irmãos e lhes forneceram regularmente Sentinelas, depois disso. Na primeira vez, encontravam os irmãos num cemitério, em certo túmulo; da seguinte vez, escondiam as revistas num monte de palha, ou as entregavam pessoalmente aos irmãos à meia-noite, num local predeterminado. Novo local de encontro era arranjado para cada entrega. Depois de o irmão Engelhardt e as irmãs que produziam e distribuíam as revistas serem presos, surgiu a pergunta de como aqueles que ainda estavam livres seriam supridos do alimento espiritual.

      Desta vez, os irmãos em Wewelsburgo tentaram encontrar por si mesmos a solução. Conseguiram uma máquina de escrever, que um dos irmãos usava para cortar estênceis. Outro irmão construiu um mimeógrafo primitivo de madeira. Irmãs de fora, com as quais ainda tinham contato, traziam aos irmãos os suprimentos necessários para o mimeógrafo. Tantas cópias de A Sentinela eram por fim produzidas aqui que grande parte da Alemanha setentrional podia ser suprida. Elisabeth Ernsting se lembra de como recebia 50 cópias para suprir o território sob seus cuidados. Assim, por quase dois anos, até o colapso do regime em 1945, foi possível prover A Sentinela para os irmãos que moravam na Vestfália e em outros distritos.

      O suprimento do alimento espiritual para os irmãos e irmãs que estavam nos campos de concentração melhorou tão grandemente que, em 1942, em Sachsenhausen, podia ser comparado a um pequeno riacho. Condenado à morte pouco antes do colapso do regime nazista, mas não sendo executado, o irmão Fritsche, de Berlim, conseguiu, por um período de um ano e meio, fornecer aos irmãos, não só todas as revistas novas, mas também vários números antigos, bem como todos os livros e folhetos que haviam sido lançados no ínterim. Era como se os irmãos tivessem sido levados a ricos pastos, pois todo irmão possuía um exemplar de uma das publicações da Sociedade para estudar toda noite. Que mudança! Mas, isso não era tudo. A organização funcionava tão bem que o irmão Fritsche conseguia enviar cartas aos parentes dos irmãos, ou cartas para outros campos, ou a filiais no exterior. Assim, era possível, numa questão de um ano e meio, retirar sorrateiramente 150 cartas, e introduzir quase o mesmo número no campo. As cartas enviadas testificavam a excelente condição espiritual dos irmãos. Compreensivelmente, muitas cópias destas cartas eram feitas. Algumas foram até mesmo mimeografadas e serviam de encorajamento para os irmãos de fora, e em especial para os parentes daqueles que estavam presos.

      A UNIDADE TEOCRÁTICA É DECLARADA COM INTREPIDEZ NOS CAMPOS

      Tudo correu bem por cerca de um ano e meio, até o outono setentrional de 1943, quando o irmão Fritsche foi preso. Encontraram-se, em buscas domiciliares, relatórios sobre Sachsenhausen que chamavam a atenção para ele. A polícia encontrou em seu poder, não só Sentinelas, e outras publicações, mas também algumas cartas dos irmãos que ele deveria entregar. A polícia, ao descobrir que se trocava correspondência numa escala quase internacional, tornou-se suspeitosa quanto à habilidade ou a disposição dos líderes do campo de desincumbir-se de suas obrigações. Himmler por conseguinte, ordenou imediata busca a ser feita em todos os campos de concentração sob suspeita

      A campanha começou no fim de abril. Certa manhã, alguns dos oficiais da Polícia Secreta vieram a Sachsenhausen. O ataque de surpresa sobre os irmãos havia sido bem planejado. Os que trabalhavam dentro do campo foram chamados de seus locais de trabalho e se lhes mandou ficar em pé no pátio, onde foram interrogados sobre os textos diários, e revistados. Encontraram-se algumas publicações. Tudo isso foi acompanhado pelos espancamentos usuais. Mas, a Gestapo não conseguiu fazer com que os irmãos retrocedessem pois Jeová os nutrira ricamente no meio de seus inimigos. Tinham clara visão de sua comissão e não temiam tomar sua posição unicamente a favor da regência teocrática.

      Ernst Seliger tornou-se conhecido como o elo de ligação com o irmão Fritsche, de modo que recebeu “atenção” especial. Esforçara-se em pensar, não só as feridas carnais, mas também as espirituais, e seus humildes modos paternais contribuíram grandemente para a união usufruída neste campo. Mas, ficou muitíssimo perturbado quanto ao resultado de seus primeiros interrogatórios e orou a Jeová para que ele pudesse transformar sua “derrota”, como a considerava, numa vitória. Mas, não se tratava duma prova para uma pessoa apenas. Wilhelm Röger, de Hilden, descreve a situação como segue: “Agora tinha de ser ‘Um por todos e todos por um!’” Todos os irmãos comprovaram a declaração do irmão Seliger, de que ele distribuía textos diários para seu encorajamento. Confirmaram que haviam lido as publicações que o irmão Seliger trouxera ao campo e que continuariam a encorajar-se uns aos outros e a falar sobre sua esperança no futuro.

      Passaram-se quatro dias. Domingo de manhã, o irmão Seliger compareceu perante a administração do campo, de modo que pudessem registrar o protocolo. Descreve suas experiências: “Primeiro, testemunhei em três quartos de hospital [onde trabalhava como auxiliar] . . . Então, cheio de alegria, dirigi-me à cova dos leões. Um médico e um farmacêutico estudavam as cartas que enviáramos ilegalmente para fora do campo. Seguiram-se duas horas de debates acalorados. Quando se devia concluir o protocolo, o oficial interrogador disse: ‘Seliger, o que irá fazer agora? Tenciona continuar a escrever textos diários e encorajar seus irmãos? E tenciona continuar pregando a mensagem aqui no campo entre outros detentos?’ ‘Sim, é exatamente isso que vou continuar a fazer, e não só eu, mas também todos os meus irmãos!’ . . . Às 14 horas o interrogatório terminou e a declaração feita em nome de todos os irmãos lhes foi apresentada no que todos foram alegremente fazer a obra de pregação” — nas barracas do campo.

      Os irmãos se lembravam de que já se haviam passado quase dez anos desde 7 de outubro de 1934, quando Hitler fora informado, por uma carta, que as testemunhas de Jeová não deixariam de reunir-se e de pregar, apesar das ameaças. Agora, depois de quase dez anos, a Gestapo compreendia que o espírito combativo do povo de Deus não havia sido desfeito, sem considerar se estavam dentro ou fora dos campos de concentração. As cartas testemunhavam isto.

      A Gestapo examinou então os outros campos de concentração para ver se a muito anunciada ‘unidade teocrática’ também prevalecia ali. O seguinte campo foi o de Berlim-Lichterfelde, um ramo de Sachsenhausen. O irmão Paul Grossmann, que servia como elemento de ligação entre Sachsenhausen e Lichterfelde, mais tarde mencionou a investigação:

      “Em 26 de abril de 1944, a Gestapo deu novo golpe. Às 10 horas dessa manhã, dois oficiais da Gestapo vieram a Lichterfelde investigar-me cabalmente como elemento de ligação entre Sachsenhausen e Lichterfelde. Mostraram-me duas cartas ilegais que eu escrevera aos irmãos em Berlim. Estas cartas mostravam claramente nossos métodos de operação. [Podemos ver quão insensato é escrever cartas que contenham tais informações, porque é de se esperar que mais cedo ou mais tarde as autoridades as descubram quando fazem prisões ou dão buscas.] Os oficiais ficaram assim informados sobre todos os pormenores de organização e, em adição, que havíamos recebido regularmente alimento de nossa ‘mãe’.

      “Apesar de virarem tudo de pernas para o ar, tudo que encontraram foi uma Sentinela. Tive de ficar em pé junto ao portão enquanto outros irmãos eram trazidos do trabalho. Também foram revistados e tiveram de ficar em pé junto ao portão. Isto causou grande sensação, visto que Já por muito tempo não se fazia uma grande batida policial como esta. Houve muitos espancamentos e palavras abusivas durante o interrogatório, e encontraram-se algumas Sentinelas e textos. Um relatório extenso sobre as experiências em Sachsenhausen, uma Bíblia e outros documentos não caíram nas mãos deles. Os irmãos não esconderam que trabalhavam ativamente em prol dos interesses da Teocracia e que liam as Sentinelas. Tivemos de ficar em pé junto ao portão até às 23 horas daquela noite. No ínterim, um caminhão da polícia chegou para transferir os doze líderes do grupo para Sachsenhausen. Isto significava que seriam enforcados. Tiveram de entregar suas colheres e pratos, e assim por diante. Mas, a transferência não se materializou. Nem no dia seguinte, tampouco, embora os avisos de morte, para os parentes, já tivessem sido escritos. Houve uma surpresa no terceiro dia. Os doze irmãos não foram executados, mas os mandaram voltar ao trabalho.”

      Dos irmãos em Lichterfelde se exigiu então que assinassem uma declaração, dizendo: “Eu, ________________________, uma das testemunhas de Jeová, que já estou no campo desde ______________________, professo pertencer à ‘unidade teocrática’ que existe no campo de concentração de Sachsenhausen. Tenho obtido textos diários e publicações que tenho lido e passado adiante.” Todos estavam mais do que felizes de assiná-la.

      Similares batidas políciais foram realizadas, com os mesmos resultados, em outros campos, uma delas sendo realizada em Ravensbrück, em 4 de maio de 1944, porque era evidente pelas cartas que havia contato entre Sachsenhausen e Ravensbrück. Várias medidas foram tomadas contra as “líderes” deste campo. Mas, não demorou muito para que as irmãs fossem recolocadas em suas antigas tarefas aqui também, depois de solicitações terem sido feitas pelos responsáveis pelos departamentos. Isto era prova adicional de que o poder do tirano, por volta dessa época, já tinha sido razoavelmente rompido.

      As derrotas sofridas pelo exército alemão na frente oriental, em 1944, ceifaram tantas vidas que não só os homens idosos e até a juventude hitlerista foram convocados para a guerra, mas até mesmo detentos receberam a oportunidade de provar-se na frente oriental. Por este motivo, vieram comissões aos campos e ofereceram aos presos políticos a oportunidade de juntar-se a divisão destituída do General Dirlewanger. Se se provassem ali, então seriam considerados alemães livres. Era interessante, contudo, que todos os presos que portavam o triângulo lilás eram sempre enviados para suas barracas antes de tal oferta ser feita aos outros. Sabiam qual seria a resposta das testemunhas de Jeová e, portanto, deixaram de lhes perguntar.

      EVACUAÇÃO APRESSADA DOS CAMPOS

      Em 1945, a incessante chuva de bombas por parte das forças aéreas estadunidense e inglesa de dia e de noite, e o recuo do exército alemão, que por fim se transformou em fuga aberta, indicavam a todos que o fim da Segunda Guerra Mundial estava próximo. As SS haviam parado de demonstrar seu mando. Que não se achavam em posição invejável pode ser depreendido quando nos lembramos de que centenas de milhares de pessoas nos campos de concentração aguardavam nervosamente a libertação. Essas massas eram material imprevisível, sim, explosivo, o que deixava muitos homens das SS com medo dos detentos. Mas, Himmler continuava a seguir as ordens do Führer e enviara o seguinte telegrama aos comandantes de Dachau e Flossenburgo: “A rendição é inconcebível. O campo deve ser imediatamente evacuado. Nenhum detento deve cair vivo nas mãos do inimigo. (Assinado, Heinrich Himmler)” Instruções similares foram enviadas a outros campos.

      Este era o último plano demoníaco, mais uma vez pondo em perigo a vida dos servos fiéis de Deus detidos nos campos. Mas, não estavam preocupados demais. Punham sua confiança em Jeová, sem considerar qual pudesse ser para eles, pessoalmente, o resultado imediato.

      Os oficiais das SS, que tinham o dever de liquidar os presos, viam-se confrontados com insolúvel tarefa. O irmão Walter Hamann, designado a trabalhar na cantina das SS, ouviu interessante conversa entre os oficiais das SS. Relata: “Os oficiais falavam de matar com gás os detentos, mas as instalações eram pequenas demais, nem dispunham de suficiente gás. Daí, ouvi uma conversa telefônica a respeito de um carregamento de óleo para as fornalhas; mas este não pôde ser entregue. Mencionou-se então fazer explodir os campos e seus presos. Caixas de dinamite já haviam sido colocadas nas várias barracas, especialmente na ala do hospital. Mas, este plano também foi abandonado. Por fim, decidiu-se evacuar os 30.000 detentos; foi-lhes dito que seriam enviados a um campo maior — que não existia — mas, em realidade, tencionavam dar-nos um túmulo em massa na Baía de Lübeck. Nenhum gás, petróleo ou dinamite seriam necessários para isso.”

      No ínterim, aumentava a velocidade com que as forças dos Aliados se aproximavam pelo leste e oeste. As tropas das SS começaram então a preocupar-se com sua própria vida e se tornavam cada vez mais confusas, em especial depois de se tornar conhecida a decisão do governo de liquidar os campos. Confrontadas com problemas intransponíveis, simplesmente levaram os detentos para as estradas e os fizeram marchar com pouquíssimas rações. Qualquer pessoa que seguisse a rota dessas marchas posteriormente, chamadas corretamente de “marchas da morte”, notaria que todas se dirigiam ao mesmo destino. Seu alvo era levá-las à Baía de Lübeck, ou ao mar aberto no norte, onde poderiam então ser colocados em navios a serem afundados antes de chegarem as forças inimigas.

      Logo não restavam alimentos e, às vezes, nem sequer uma gota d’água. Todavia, os presos famintos foram obrigados a marchar o dia inteiro, por dias sem fim, debaixo de chuva torrencial, com a temperatura média de apenas 4 graus centígrados. À noite, permitia-se-lhes que se deitassem nos bosques, no chão ensopado de água da chuva. Os incapazes de manter a velocidade prescrita eram baleados no pescoço, sem misericórdia, pela retaguarda das SS. A extensão da perda de vidas nestas marchas pode ser depreendida do exemplo de Sachsenhausen. Dos 26.000 presos ainda vivos no tempo da evacuação, 10.700 ficaram estendidos pela estrada de Sachsenhausen a Schwerin, sendo abatidos à bala.

      Os poucos irmãos deixados em Mauthausen também estavam em posição perigosa. Haviam-se cavado grandes túneis na montanha, em que os temíveis foguetes “V-2” eram construídos. Certo dia, um destes túneis foi lacrado e colocaram-se minas dentro dele. O plano era fingir um ataque aéreo, destarte empurrando os 18.000 presos para dentro do túnel, que então seria dinamitado. Mas, a administração do campo foi surpreendida pelo rápido avanço dos tanques russos, e as SS preferiram abandonar os presos e tentar salvar sua própria vida, se possível. Mas, não conseguiram ir muito longe. Apenas alguns dias depois, o comandante do campo, que era conhecido por ter dito: ‘Só quero ver certidões de óbito’, foi reconhecido pelos presos e pisoteado até a morte. Os presos políticos procuraram então vingar-se de seus colegas de prisão que, como anciãos do campo, anciãos dos blocos e capatazes, haviam trazido muita culpa de sangue sobre si mesmos.

      A marcha de morte dos detentos de Dachau os levou através de florestas, e os que não conseguiram manter o passo foram baleados pelas SS. Seu alvo era os Alpes Ötztaler, onde todos que por fim alcançassem seu destino seriam mortos à bala, de qualquer modo. Os irmãos se mantiveram unidos, e ajudaram uns aos outros, assim impedindo que alguns fossem baleados, até chegarem em Bad Tölz, onde foram libertos. O irmão Ropelius se lembra de que passaram a última noite sob um lençol de neve na floresta de Waakirchen. Ao amanhecer o dia, a Polícia do Estado da Baviera chegou e lhes disse que estavam livres e que as SS haviam fugido. Ao prosseguirem sua jornada, encontraram armas encostadas nas árvores, mas nenhum homem das SS.

      As tropas das SS levaram a sério as ordens governamentais de liquidar todos os presos. Apenas alguns dias antes da capitulação, ajuntaram-se grupos em Neuengamme e foram colocados a bordo dum cargueiro que deveria levá-los então para o ‘Cap Arcona’, um transatlântico de luxo, que estava ancorado na Baía de Neustadt. Cerca de 7.000 presos já estavam neste navio de 200 metros de comprimento. As tropas das SS planejavam zarpar no ‘Cap Arcona’ para alto mar, onde então o afundariam junto com os presos. Mas, o navio ainda arvorava sua bandeira e, portanto, foi afundado em 3 de maio de 1945 por bombardeiros ingleses. O cargueiro ‘Thielbeck’, com de 2.000 a 3.000 detentos a bordo, também foi afundado. Cerca de 9.000 presos tiveram um túmulo aquoso na Baía de Neustadt. É compreensível que os sobreviventes sintam arrepios de frio quando se lembram desse evento. Até o dia de hoje, de doze a dezessete esqueletos destes presos afogados são encontrados cada ano na praia de Neustadt por banhistas e durante escavações.

      A mesma sorte fora determinada para os presos de Sachsenhausen, inclusive 220 irmãos. Numa marcha assassina, cobriram aproximadamente 200 quilômetros em duas semanas.

      As Testemunhas reconheceram logo o perigo que as ameaçava, de modo que consertaram seus sapatos e ajuntaram algumas carrocinhas para transportar os parcos pertences dos mais fracos, aos quais então colocaram sobre elas. De outra forma tais irmãos, caso tivessem de caminhar por todo o caminho, estariam entre os mais de 10.000 mortos. Mas, desta forma, os irmãos que fisicamente não estavam tão mal podiam puxá-los pelo caminho. No trajeto, outros foram colocados nas carroças, quando sua força se esvaiu. Depois de alguns dias de descanso, ao terem recuperado suficiente força, cumpriam sua vez em puxar as carroças de novo. Assim, mesmo durante esta marcha de morte, todos permaneceram juntos como uma grande família, usufruindo a proteção de Jeová até o fim.

      Daí, certa tarde, quando este grupo de presos que fugiam só estava a três dias de viagem de Lübeck, as tropas das SS ordenaram que todos acampassem numa floresta perto de Schwerin. Durante a caminhada, os irmãos formaram pequenos grupos e construíram tendas improvisadas com seus cobertores. Cobriram o chão com pequenos ramos, de modo a afastar o frio da noite. Essa noite, enquanto as balas russas zuniam sobre suas cabeças, e os estadunidenses continuavam a avançar, esta parte da frente alemã entrou em colapso. Havia indescritível sensação nos presentes, quando, subitamente, no meio da noite, um brado ecoou, sendo repetido milhares de vezes: “ESTAMOS LIVRES!”. Os aproximadamente 2.000 homens que até então haviam comandado os presos haviam secretamente tirado seus uniformes, de modo a parecer civis, alguns até mesmo pondo uniformes de presos para esconder sua identidade. Poucas horas depois, alguns deles foram reconhecidos, contudo, e mortos sem misericórdia.

      Deveriam os irmãos aceitar a oferta dos oficiais estadunidenses que agora tinham chegado até eles, e levantar acampamento no meio da noite? Depois de considerarem o assunto, com oração, decidiram esperar o alvorecer. Mas, mesmo então permaneceram por mais algumas horas, visto que um sitiante entre os refugiados dera aos irmãos mais de 90 quilos de ervilhas. Maravilhosa refeição foi preparada e saboreada. Oh, quão apreciativos se sentiam os irmãos! Por quase duas semanas, praticamente não comeram nada exceto um pouco de chá, que ajuntavam pelo caminho e preparavam às noitinhas, nos bosques, quando havia água disponível.

      Quão gratos ficaram quando descobriram que nenhum deles estava faltando! Mas, conforme compreenderam mais tarde, ainda tinham outro motivo de ser gratos a Jeová, pois, durante sua marcha para o norte, certa vez ficaram detidos pelas tropas das SS numa floresta por vários dias, visto estarem incertas quanto a onde estava exatamente a frente. Estes poucos dias foram a quantidade exata de tempo que precisariam para alcançar Lübeck antes de a frente por fim entrar em colapso.

      Agora não mais se achavam com grande pressa de continuar. Bem ali, nesta floresta, perto de Schwerin, começaram a escrever um relatório de suas experiências numa máquina de escrever que os soldados jogaram fora dum escritório montado num carro-reboque. Tal relatório incluía uma resolução escrita com indescritível emoção de sentir-se livres por várias horas, mas, também, com apreço pela proteção de Jeová durante os muitos anos de sua permanência na “cova dos leões” profundamente inculcado em suas mentes. Eis aqui a resolução:

      RESOLUÇÃO!

      “3 de maio de 1945

      “A resolução de 230 das testemunhas de Jeová, de seis nacionalidades, reunidas numa floresta perto de Schwerin, em Mecklenburgo.

      “Nós, testemunhas de Jeová aqui reunidas, enviamos calorosas saudações ao povo fiel e pactuado de Jeová e seus companheiros em todo o mundo, nas palavras do Salmo 33:1-4 e 37:9. Que se torne conhecido que nosso grande Deus, cujo nome é Jeová, cumpriu sua palavra a seu povo, em especial no território do Rei do Norte. Longo período de prova sobre nós já passou, e aqueles que foram preservados, tendo sido como que arrancados da fornalha ardente, não têm sobre si nem o cheiro de fogo. (Veja-se Daniel 3:27.) Pelo contrário, estão cheios de vigor e de poder da parte de Jeová, e aguardam ansiosamente novas ordens do Rei para adiantar os interesses teocráticos. Nossa resolução e nossa disposição de trabalhar são expressos em Isaías 6:8 e Jeremias 20:11 (Tradução de Menge). Graças à ajuda do Senhor e de seu gracioso apoio, os desígnios do inimigo de fazer com que violássemos nossa integridade falharam, muito embora tentasse isto por empregar inúmeros planos diabólicos violentos bem como milhares das práticas inquisitoriais, copiadas diretamente da Idade Média, tanto físicas como mentais, e muitas lisonjas e engodos. Todas essas experiências variadas, que encheriam muitos volumes, se acham descritas brevemente nas palavras do apóstolo Paulo em 2 Coríntios 6:4-10, 2 Coríntios 11:26, 27 e, acima de tudo, no Salmo 124 (tradução Elberfelder). Satanás e seus agentes demoníacos mais uma vez foram marcados como mentirosos. (João 8:44) A grande questão, mais uma vez, foi decidida em favor de Jeová, para Sua honra. — Jó 1:9-11.

      “Para nossa alegria e a sua, saibam que o Senhor, Jeová, nos abençoou com ricos despojos, trinta e seis homens de boa vontade, os quais, ao partirmos de Sachsenhausen . . . declararam voluntariamente: ‘Iremos convosco, pois ouvimos que Deus está convosco.’ Zacarias 8:23 já se cumpriu! Por causa de nossa saída apressada, muitos amigos da Teocracia não puderam juntar-se a nós, mas Jeová dirigirá os assuntos de modo que logo encontrem o caminho que os traga a nós.

      “Nós, testemunhas de Jeová, declaramos nossa completa fé em Jeová e nossa completa dedicação à sua Teocracia.

      “Prometemos solenemente que só temos um desejo, a saber, em vista de nosso profundo apreço pela infindável cadeia de evidências de sua maravilhosa preservação, e da libertação que nos concedeu de milhares de dificuldades, conflitos e aflições durante nossa permanência na cova dos leões, que nos seja permitido servir a Jeová e a seu grande Rei, Cristo Jesus, com corações dispostos e alegres por toda a eternidade. Isso, em si, seria nossa maior recompensa.

      “Concluímos nossa resolução com as palavras do Salmo 48, na alegre convicção de uma reunião em breve.

      “Seus conservos a favor do santo nome de Jeová.”

      Assim, depois de primeiro expressarem seus agradecimentos a Jeová por sua bondade imerecida, sua proteção, e, então, por sua liberdade restaurada, os irmãos levantaram acampamento. Embora entre 900 e 1.000 detentos tenham morrido naquela primeira noite de liberdade, os irmãos alcançaram Schwerin inteiramente ilesos. Visto que as pontes sobre o Rio Elba haviam sido destruídas, contudo, não puderam partir por dois a três meses. Encontraram alojamento nos estábulos dum quartel do exército, onde puderam mimeografar Sentinelas e realizar cada manhã um estudo da Sentinela, a fim de se prepararem espiritualmente para a obra adiante. Ao mesmo tempo, começaram de novo o ministério de campo, embora as circunstâncias os obrigassem a fazer isso nos seus uniformes de prisão. Por fim, puderam seguir viagem para o oeste, para mais uma vez entrarem em contato com seus parentes e ver o que poderia ser feito em reorganizar-se a obra do Reino.

      REGISTRO DE INTEGRIDADE

      Este relatório foi um empenho em reconstituir-se importante fase da história moderna do povo de Jeová. Mas, apenas pequena parte das coisas interessantes que os irmãos e as irmãs na Alemanha experimentaram durante o regime nacional-socialista de terror puderam ser relatadas. Muitos e muitos livros seriam necessários para se relatar tudo que aconteceu por terem as Testemunhas se apegado à adoração verdadeira e sustentado o nome de Jeová. Que as experiências que foram relatadas representem as muitas que também seriam dignas de menção, não para que os humanos, mas, antes, para que Jeová seja louvado e honrado por meio delas. Foi Ele que deu os passos no tempo devido para libertar seu povo como grupo, muito embora permitisse que muitos deles dessem suas vidas pelo seu santo nome.

      Qualquer pessoa que conversou com aqueles que foram libertos da tirania, em 1945, lembrar-se-á de quão freqüentemente louvavam de forma unida a Jeová nas palavras do Salmo 124. Refletiam sobre os maravilhosos artigos da Sentinela que apareceram no início da perseguição, por meio dos quais Jeová os preparara para aquele tempo difícil. Compreendiam então o que Jesus queria dizer ao afirmar que não deviam temer os que podem destruir o corpo. Sabiam o que significava ser lançado numa fornalha ardente ou, como Daniel, numa cova de leões. Mas, também compreendiam que Jeová é mais poderoso, tornando as suas testas mais duras do que a de seus inimigos. Mesmo pessoas de fora reconheciam isto e é amiúde destacado quando os historiadores falam desta parte da história da Alemanha. Por exemplo, Michael H. Kater, em seu Zeitgeschichte (Publicação Trimestral de História), 1969, panfleto 2:

      “O ‘Terceiro Reich’ sabia como lidar com a resistência interna apenas pela força bruta e até mesmo nesse caso não conseguiu vencer as forças da rebelião entre o povo alemão, e não conseguiu dominar o problema dos Fervorosas Estudantes da Bíblia, de 1933 a 1945. As testemunhas de Jeová emergirem, em 1945, de seu período de perseguição, enfraquecidas, mas não com espírito abatido.”

      Também, numa crítica literária do livro Kirchenkampf in Deutschland (Luta das Igrejas na Alemanha), de Friedrich Zipfel, lemos:

      “Dificilmente se tem feito uma análise, ou se tem escrito um livro de memórias, a respeito dos campos de concentração, em que não haja uma descrição da forte fé, da diligência da prestimosidade e do martírio fanático dos Fervorosos Estudantes da Bíblia. Isto se contrasta com as publicações de oposição em geral, escritas antes da luta que as testemunhas de Jeová tiveram antes de seu encarceramento, e que não as mencionam de forma alguma, ou apenas de passagem. A atividade dos Estudantes da Bíblia e a perseguição contra eles, contudo, é um caso muito estranho. Noventa e sete por cento dos membros deste pequeno grupo religioso foram vítimas da perseguição nacional-socialista. Um terço deles foram mortos, quer sendo executados, quer por outros atos violentos, pela fome, pela doença, quer pelo trabalho escravo. A severidade desta sujeição não tinha precedentes e era resultado da intransigente fé, que não se podia harmonizar com a ideologia nacional-socialista.”

      Quão humilhado estava agora o Führer do derrotado Reich alemão! Göbbels dissera sobre ele, em 31 de dezembro de 1944: “Quem dera que o mundo realmente soubesse o que ele gostaria de lhe dizer e de lhe dar, e quão profundo é seu amor por seu próprio povo e por toda a humanidade, então abandonaria de imediato seus deuses falsos e o louvaria . . . um homem cujo propósito era libertar seu povo. . . . Jamais uma palavra falsa ou uma idéia degradada passou pelos seus lábios. Ele é a própria verdade.” Mas, este homem que procurou ser um deus cometeu suicídio.

      Quão humilhados, também, ficaram aqueles que puseram sua confiança nele — por exemplo, Himmler, que também considerava Hitler como uma divindade e que inescrupulosamente executava as ordens dele. Foi Himmler que tornara dificílima a vida dos servos fiéis de Jeová por muitos anos. Por quanto sangue derramado tinha ele de assumir a responsabilidade? Em 1937, jactanciosamente disse às nossas irmãs em Lichtenburgo: “Vocês também capitularão, nós vamos reduzi-las ao seu verdadeiro tamanho, vamos agüentar muito mais tempo que vocês!” E quão deprimido estava depois do colapso do regime nazista, quando fugia e se encontrou com o irmão Lübke em Harzwalde e lhe perguntou: “Bem, Estudante da Bíblia, o que acontecerá agora?” O irmão Lübke lhe deu um testemunho cabal e lhe mostrou que as testemunhas de Jeová sempre contavam com o colapso do regime nazista e com sua libertação. Himmler se foi sem dizer uma só palavra, e pouco depois se envenenou.

      Mas, apesar das condições difíceis, como se regozijavam os que adoravam a Jeová! Tiveram o privilégio de provar sua integridade ao Regente Soberano do universo. Durante o regime de Hitler, 1.687 deles perderam seus empregos, 284 seus negócios, 735 os seus lares e 457 não obtiveram permissão de exercer sua profissão. Em 129 casos, sua propriedade foi confiscada, a 826 pensionistas se negou o pagamento de suas pensões, e 329 outros sofreram outras perdas pessoais. Houve 860 crianças que foram retiradas do convívio dos pais. Em 30 casos, dissolveram-se casamentos devido à pressão por parte de autoridades políticas, e, em 108 casos, foram concedidos divórcios quando solicitados por cônjuges opostos à verdade. Um total de 6.019 foram presos, vários deles duas, três ou até mesmo mais vezes, de modo que, somando-se tudo, 8.917 prisões foram registradas. Juntando-se tudo, foram sentenciados a 13.924 anos e dois meses de prisão, duas e um quarto de vezes o período desde a criação de Adão. Um total de 2.000 irmãos e irmãs foram lançados nos campos de concentração, onde gastaram 8.078 anos e seis meses, uma média de quatro anos. Um total de 635 pessoas morreram na prisão, 253 tendo sido sentenciadas à morte e 203 delas tendo realmente sido executadas. Que belo registro de integridade!

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