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Já na velhice encontrei verdadeiro refúgioA Sentinela — 1977 | 15 de maio
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Já na velhice encontrei verdadeiro refúgio
Conforme narrado por Louisa Gregorio
JÁ TENHO vivido quase cento e dois anos — muito mais do que os setenta anos que se nos atribuem. (Sal. 90:10) Mas, foi só depois de eu ter passado dos setenta anos de idade que pude encontrar o que sempre quis — verdadeiro refúgio e esperança.
Sou descendente de refugiados, que procuravam a liberdade de adoração, há muitos anos atrás. Logo cedo no reinado da Rainha Vitória, que governou a Inglaterra de 1837 a 1901, os moradores da ilha portuguesa da Madeira sofreram perseguição religiosa dos católicos romanos. Queimaram-se suas Bíblias e sofreram outros maus tratos. Com o tempo, a Rainha Vitória enviou um navio à ilha, para que todos os que quisessem partir pudessem fazer isso.
Entre os que embarcaram naquele navio havia duas moças. O navio destinava-se às Índias Ocidentais Britânicas. Alguns dos refugiados desembarcaram na ilha de Antígua. Os outros, inclusive aquelas duas moças, vieram para cá, a Trinidad. Eram um grupo diligente e sincero. Carregaram pedras do vizinho Rio Seco do Leste e construíram a igreja de Santa Ana, da Igreja da Escócia, que está de pé até o dia de hoje.
Uma dessas moças refugiadas era minha bisavó. Ela deu à luz uma filha, Marceliana, que era minha avó. Quando Marceliana se casou e teve filhos, nasceu minha mãe Maria. Com o tempo, esta se casou com Manuel Pereira, que se tornou meu pai. Nossa família veio a ter três meninas e um menino, o qual morreu cedo na vida. Papai também faleceu, de modo que minha mãe foi achar emprego numa loja para cuidar de sua família e do lar.
EDUCAÇÃO INICIAL E CASAMENTO
Morávamos na esquina das ruas Henry e Duke, no que é agora o centro de Porto de Espanha. Não muito longe deli, na Rua Victória, estava a Escola Modelo Para Moças, onde recebi minha educação. Quando eu tinha dezesseis anos da idade, dois jovens da vizinhança começaram a tomar interesse em mim. Um deles pertencia a uma família abastada; o outro era um jovem pobre. Minhas afeições começaram a fixar-se em Albert Gregorio, o pobre. Casamo-nos quando eu atingi os vinte anos de idade, e nunca lamentei esta escolha.
Albert e eu éramos felizes e trabalhávamos arduamente para prover um bom lar para a nossa crescente família. Tivemos três meninos e três meninas. Albert mantinha cavalos e carruagens como meio de ganhar a vida para nós. Nosso lar, em Belmont, era modesto, mas éramos uma família feliz e unida.
Depois de alguns anos, Albert abriu uma pequena agência funerária em Belmont, e por muito tempo a Funerária do Gregorio era um ponto de referência na Rua do Observatório. Meu marido ficou conhecido como amigo dos pobres, pois, mesmo que alguém não pudesse pagar o enterro, Albert ainda assim cuidava dele.
SEM DESEJO DE COISAS ESPIRITUAIS
Durante a Primeira Guerra Mundial, veio a Trinidad um homem chamado Evander J. Coward, que atraía grandes multidões com seus discursos bíblicos. Ele era um dos Estudantes da Bíblia, agora conhecidos como Testemunhas de Jeová. Minha irmã Annie e seu marido Wilfred Ferreira, bem como minha mãe, passaram a associar-se com os Estudantes da Bíblia. Willie, como nós chamávamos o Wilfred, tornou-se estudante muito zeloso da Bíblia, e passou a viajar para as outras ilhas, na sua pregação. Embora eu escutasse Willie falar, não aceitei nada.
Em 1931, meu marido contraiu pneumonia. Até o último instante, ele tentava levantar-se e fazer alguma coisa, mas, em pouco tempo, sofreu um colapso e faleceu no nosso lar. Ele nunca se tornara Estudante da Bíblia, mas foi para mim um marido muito bom. Senti muita falta dele. O peso da manutenção do lar recaiu então inteiramente sobre mim. Eu costurava blusas, saias e outros artigos, e vendia-os a preços módicos. Foi assim que me sustentei por muitos anos.
ACEITEI AS VERDADES DA BÍBLIA
Foi em fins da década de 1940 que finalmente aprendi onde se encontrava o verdadeiro refúgio e esperança, embora pudesse ter aprendido isso muito mais cedo, se minha atitude tivesse sido diferente. As Testemunhas de Jeová haviam aberto uma escola especial, nos Estados Unidos, chamada Gileade, para treinar missionários, a fim de irem a outras terras e ensinarem gratuitamente a Bíblia a todos os que quisessem aprendê-la. Em 1946, alguns destes missionários foram enviados a Trinidad.
Uma das missionárias era uma jovem chamada Ann Blizzard. Eu gostava dela e aceitei sua oferta de estudar a Bíblia comigo, e passei a apreciar as verdades que aprendia. Certo dia, estudamos 2 Pedro 3:13, que diz: “Mas, há novos céus e uma nova terra que aguardamos segundo a sua promessa, e nestes há de morar a justiça.” Pensar nestes justos céus e terra deva-me grande felicidade. Eu queria estar naquele arranjo justo. Naquele tempo, eu tinha cerca de setenta e seis anos de idade.
Animei minha neta, Joy Hearn, que morava comigo, a participar em nosso estudo. Ela tinha prazer nisso e, em pouco tempo, aceitou as verdades bíblicas que aprendíamos. Por fim, comecei a freqüentar todas as reuniões das Testemunhas de Jeová na Rua Norfolk, 6-B, em Belmont, e as apreciei muitíssimo.
Eu também gostava de falar aos outros sobre as coisas maravilhosas que aprendia. Tive muitas experiências interessantes em visitar as pessoas de casa em casa e em dirigir estudos bíblicos, domiciliares. Lembro-me de ter tido um estudo bíblico com Alma Ford. Ela acolheu a verdade com bom coração e tornou-se testemunha ativa de Jeová.
Animei minha filha Ivy, que morava em San Fernando, a uns cinqüenta quilômetros ao sul de Porto de Espanha, a estudar com os missionários ali. Ela fez isso, e tanto ela como sua filha Jean aceitaram as verdades bíblicas que aprenderam, e, por fim, também seu marido Jack. Meu neto Peter também passou a escutar e crer. Posso lembrar-me de quão feliz me senti naquele dia 25 de novembro de 1950, quando minha filha Ivy e minhas duas netas Joy e Jean foram todas batizadas numa assembléia das Testemunhas de Jeová.
OS INIMIGOS: A VELHICE E A MORTE
Durante toda a década de 1950 e no começo da de 1960, eu freqüentava as reuniões e participava na pregação e no ensino das verdades da Bíblia a outros, perto da minha casa. Daí, as fraquezas da velhice passaram a ser coisa corriqueira para mim. Eu conhecia bem a verdade do Salmo 90:10: “Os dias dos nossos anos são em si mesmos setenta anos; e se por motivo de potência especial são oitenta anos, mesmo assim a sua insistência é em desgraça e em coisas prejudiciais.”
O que contribuiu para as minhas dificuldades foi que um de meus filhos adoeceu e não se restabeleceu. Justamente quando parecia ficar melhor, sofreu uma recaída e faleceu. Embora eu soubesse da promessa bíblica da ressurreição e da terra paradísica, ainda assim lamentei Cecil.
Então, certo dia, quando eu já tinha passado dos noventa e seis anos de idade, abri uma janela na nossa sala de estar. De repente, escorreguei e caí, sofrendo muitas dores. Chamou-se um médico e ele logo me internou numa casa de saúde. Eu havia fraturado a bacia e precisava duma operação.
Os médicos e as enfermeiras exerceram pressão para que eu aceitasse transfusões de sangue, dizendo que certamente morreria, se não as recebesse. Recusei-as, porque a Palavra de Deus proíbe tomar sangue. (Gên. 9:4; Lev. 17:10; Atos 15:20, 29) Agradeço a Jeová que pude sobreviver à operação e restabelecer-me. Ao mesmo tempo, duas senhoras idosas, de mais de oitenta anos, na mesma casa de saúde, também haviam sofrido fratura da bacia. Ambas aceitaram transfusões de sangue e ambas faleceram.
Pois bem, depois de curada, eu tinha uma perna mais curta do que a outra. Fizeram para mim um sapato especial e recebi uma espécie de andadeira. Com estes consigo locomover-me no meu lar e fazer a maior parte do serviço doméstico, e cozinhar. Foi um tempo difícil, mas os membros da congregação local foram muito bondosos e animadores para comigo. Continuei com o desejo forte de sobreviver à batalha do Armagedom para a nova ordem de Deus.
Então faleceu meu filho Vívian, e pouco depois, também Kenneth, deixando-me sem filhos. Minhas três irmãs também haviam falecido. Todos estes falecimentos de meus entes queridos eram difíceis de aceitar, mas eu sei que os verei na ressurreição. Espero também ver de novo meu marido, na nova ordem justa de Deus. Esta esperança baseada na Bíblia deu-me muita coragem. Gosto de ler o Salmo 56:11: “Tenho posto a minha confiança em Deus. Não temerei.”
Atualmente, estou numa condição física muito fraca, não podendo mais sair sozinha. Às vezes digo que é um pouco difícil de viver nesta idade. Sempre desejei sobreviver ao Armagedom, mas, na minha idade, isso talvez não seja possível. Por isso, aguardo retornar à vida na ressurreição, num tempo em que todas as minhas alegrias serão alcançadas e a atual condição infeliz não será mais lembrada. — Rev. 21:3, 4.
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A qualidade provada da fé produz perseverançaA Sentinela — 1977 | 15 de maio
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A qualidade provada da fé produz perseverança
“Esta qualidade provada da vossa fé produz perseverança.” — Tia. 1:3.
1. O que é fé, conforme definida na Bíblia?
O QUE é fé? A definição ou descrição mais completa é encontrada no capítulo onze do livro bíblico de Hebreus. Lemos ali: “A fé é a expectativa certa de coisas esperadas, a demonstração evidente de realidades, embora não observadas.” — Heb. 11:1.
2, 3. (a) Qual é o significado da expressão “expectativa certa” na definição da fé? (b) De que modo é a fé “a demonstração evidente de realidades, embora não observadas”?
2 “Expectativa certa” traduz o termo grego que significa “substância”. (Interlinear do Reino, em inglês) Significa fundo, base, suporte, fundamento, confiança e também realidade e substância, em contraposição àquilo que é irreal ou imaginário.
3 Jesus disse a uma mulher samaritana: “Deus é Espírito, e os que o adoram têm de adorá-lo com espírito e verdade”, não segundo fábulas ou imaginações. (João 4:24) O escritor da carta aos hebreus também passou a dizer que a fé é “a demonstração evidente de realidades, embora não observadas”. A fé, pois, faz com que a pessoa aja como se as coisas invisíveis fossem reais, como se as visse. O motivo é que as coisas são positivamente reais, e aquele que tem genuína fé sabe disso, embora estas coisas, na ocasião, sejam invisíveis. O que talvez seja chamado “fé”, mas que não se baseia na realidade, na verdade não é fé, mas credulidade. — Veja Hebreus 11:27.
4. Apresente uma ilustração dos assuntos cotidianos quanto ao que é fé.
4 Por exemplo, você, leitor, tem fé em que certas cidades, tais como Moscou e Pequim, realmente existem, embora provavelmente nunca tenha estado lá. Talvez nem mesmo tenha visto uma fotografia daquelas cidades. Mas ouviu falar delas e leu notícias, e viu também o lugar destas cidades em mapas. Por causa da firmeza de sua fé, não fundada em suposição ou imaginação, não hesitaria em tomar um avião para voar a qualquer dessas cidades, se achasse necessário fazer tal viagem. Teria a certeza de que a sua esperança, de ver aquela cidade, seria satisfeita quando o avião aterrissasse. Ou, se tiver um amigo amado e de confiança, que nunca o enganou, então crerá
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