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A maior felicidade de dar — sente-a também?Despertai! — 1987 | 22 de novembro
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amo” — uma simples caixa de bombons, ou um buquê de flores. Existem presentes que os filhos dão aos pais. E que pais amorosos não estão sempre dando algo a seus filhos? Existem presentes que amainam o coração partido, que animam a alma deprimida, que dizem “fique bom depressa”, que demonstram apreço por alguma bondade ou pela hospitalidade demonstradas, ou apenas para dizer: “Passei momentos muito agradáveis.”
Oferecem-se dádivas a necessitados, a vítimas de desastres que talvez jamais vejamos e das quais talvez jamais recebamos uma expressão de gratidão. Uma cesta de frutas para os doentes, plantas de interior para os que não podem sair de casa, uma jóia para uma amiga querida — pequenas coisas que significam muito. É o dar com alegria que provém do coração. Estes são presentes que, muitas vezes, são os mais apreciados.
Dentre todas as ocasiões que se tem para dar, nenhuma delas é tão evidente como o espetáculo mundial do Natal. É uma profusão de presentes, arraigada também no passado remoto. Trata-se duma celebração que traz receios a muitos, e que é aguardada ansiosamente por outros. Pode significar a diferença entre o desastre financeiro e um mar de abundância. Muito embora haja uma troca de presentes entre amigos, esse ritual pode torná-los mais achegados, ou afastá-los por completo. Este paradoxo dos presentes de Natal será considerado no próximo artigo.
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Os presentes de Natal — época de alegria ou de depressão?Despertai! — 1987 | 22 de novembro
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Os presentes de Natal — época de alegria ou de depressão?
A SEGUINTE carta, dirigida a Papai Noel, é bem representativa das muitas que as criancinhas escrevem e dão aos pais e aos professores, sob a promessa de que tais cartas serão devidamente enviadas para o Pólo Norte:
“Querido Papai Noel:
“Como vai? Eu estou bem. Espero que o senhor tenha um bom Natal. Espero que tenha um montão de ótimos brinquedos, porque há uma porção de coisas lindas que eu desejo. Primeiro, gostaria de ter um irmãozinho. Papai diz que o senhor não tem bebês no Pólo Norte, de modo que pode me trazer um cachorrinho, em lugar dele. Eu quero uma espingarda, uma metralhadora, uma bicicleta de dez marchas, e um gravador. Oh!, já ia me esquecendo, Papai Noel, esta será a última carta que eu lhe escrevo, visto que não vou acreditar mais em Papai Noel no próximo ano. Mas acredito em Papai Noel este ano.”
Está reconhecendo esta carta? Parece-lhe familiar? Soa-lhe, talvez, como uma carta que você escreveu quando era criança? Milhões de tais cartas são recebidas, todo ano, nas agências dos Correios de muitos países, de crianças cheias de esperança, sendo dirigidas àquele místico provedor de presentes que elas, as crianças, conhecem mui carinhosamente como “Papai Noel”.
Poucas crianças incluem as palavras “por favor”, e ainda menos incluem um “obrigado”. Algumas cartas tocam o coração, outras cheiram a ganância. Quanto menor a criança, menos ela pede. Quanto mais velha for a criança, maior é o número de presentes que é preciso para satisfazê-la, suscitando assim suas expectativas de presentes maiores e mais ostentosos no ano seguinte.
Há brinquedos para todo período da vida da criança. Há brinquedos que ensinam, que testam as perícias, que movem os pensamentos no sentido da violência. Há brinquedos duráveis, com que se pode brincar por muito tempo, e há aqueles que se desfazem em pedaços com apenas alguns dias de uso. Há brinquedos seguros, e brinquedos tão perigosos que as autoridades lutam para removê-los do mercado. Há brinquedos que parecem ser inspirados pelos demônios em seu design — bolas com faces grotescas, tão temíveis que poderiam provocar pesadelos, todavia, foram as coisas mais vendidas no ano passado em alguns países, apesar da objeção dos pais. Por mais de dois meses antes do acontecimento, as crianças são condicionadas para o Natal. Supostamente, a alegria de dar e de receber permeia o ar.
Cair em Depressão
Mas, ora essa, em poucos dias a emoção desaparece. A criança já extraiu todo o divertimento e prazer de seus presentes, sejam eles muitos ou poucos. A realidade ficou muito aquém das expectativas. O enfado toma conta dela. O falso brilho do Natal e de todos os presentes recebidos não eram o ‘cura-tudo’ que ela esperava. Comentando isto, a psicóloga infantil, Dra. Nancy Hayes, afirma que a época do Natal “é um período da maior taxa de depressão e de suicídio entre as crianças”. Ela observa que muitos jovens ficam deprimidos quando o Natal não lhes provê as “soluções mágicas para os problemas”. Imagine, também, a devastação adicional que sofrem ao ficar sabendo que Papai Noel é apenas um mito, que seus pais fizeram grandes esforços para perpetuar uma mentira.
Assim, é desde a infância que se ensina às crianças a pedir presentes, a escrever pedindo-os, e a esperá-los na época do Natal — e isto não se limita às crianças. A amizade entre adultos é, por vezes, medida pelo valor dos presentes trocados. Não raro tal vínculo é esticado ao ponto de romper-se porque uma pessoa deu um presente de maior valor do que o recebido. É possível que, em nenhuma outra época do ano, a expressão “O que vale é a intenção” signifique tão pouco.
Os cartões de crédito chegam perto do limite de seu poder de compra. Os cheques emitidos fazem com que as contas bancárias fiquem no vermelho. Correrias em lojas apinhadas de compradores deixam os nervos abalados. Cenas de compradores enfiando as unhas, e apoderando-se das mercadorias, literalmente brigando pelos itens à venda, que logo desaparecem, podem fazer com que até os mais resolutos recuem. Pés doloridos, além do dilema de decidir o que comprar, tornam este rito do verão austral [inverno setentrional] uma provação de abalar os nervos. Isso colhe seu tributo dos compradores do Natal.
Disse um balconista: “Você vê pessoas correndo de um lado para o outro, comprando um presente para fulano de tal, e ficam muito rabugentas. As pessoas não dão presentes com alegria.” Será de admirar, então, que um clérigo tenha chamado o Natal de “a época anual da depressão e da neurose”?
O que agrava essa frustração é que muitos presentes são comprados e dados por obrigação, não raro com motivos egoístas. Disse um professor de sociologia: “O dador não só sente a ansiedade de tentar adivinhar o que o recebedor gostaria de receber, mas também a ansiedade adicional de projetar uma imagem adequada de si mesmo.”
Qual é o dia mais movimentado da temporada? Não raro, é o dia depois do Natal. Algumas lojas ficam então apinhadas ao máximo de pessoas que receberam presentes e que desejam trocá-los, muitas delas pelo seu valor em dinheiro. Todavia, caso tivessem recebido um presente em dinheiro, teriam ficado ressentidas, como se isto fosse um presente vulgar. Assim, a completa frustração, os nervos abalados, os ossos cansados, as multidões resmungonas, a escolha demorada dentre literalmente centenas de peças de mercadoria, os empacotamentos, os embrulhos,
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