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Como a religião conduz?Despertai! — 1972 | 8 de outubro
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Poderia o comunismo ter subido ao poder na Rússia se a Igreja ali não apoiasse os ricaços senhores de terra e outros elementos opressivos, ao ponto de ser inevitável a reação? Poderia o comunismo ter-se apoderado da China não fora o tratamento que o povo ali recebera das mãos das nações da cristandade?
Alguns dos clérigos mais radicais chegam agora até mesmo a recomendar a revolução. Mas, ao fazerem isto, mudam realmente de proceder? Não estão apenas orientando o povo para outra forma de regência egoísta, ao invés de lhe mostrar a verdadeira libertação ensinada na Palavra de Deus, a Bíblia?
Também, o que dizer da moral? Que acontece aos membros das igrejas que praticam fornicação, adultério e a perversão sexual? Não se permite na maioria dos casos, que continuem sendo membros de boa posição? Não é este fracasso das igrejas em ministrar a disciplina e a orientação moral uma das principais causas do aumento alarmante de doenças venéreas, filhos ilegítimos e abortos por toda a cristandade?
A situação hodierna é exatamente como a que havia antes de Israel ir para o exílio em Babilônia, e sua capital Jerusalém ser destruída. A Bíblia afirma sobre essa época: “Tanto o próprio profeta como o sacerdote ficaram poluídos. — Jer. 23:11.
Que espécie de condições resultaram disso? A Bíblia responde: “Irrompeu o proferimento de maldições, e a prática do engano, e assassinato, e furto, e adultério, e atos de derramamento de sangue têm tocado em outros atos de derramamento de sangue.” — Osé. 4:2.
A verdade é que o clero religioso não manteve a fé em Deus hoje, como não fez no antigo Israel. Não ensinou a seus rebanhos as verdades da Palavra de Deus, nem eles mesmos a obedeceram. Interessaram-se mais em fazer o que bem queriam, ao invés de fazer o que Deus diz que deveriam fazer.
Isto não significa que não exista nenhum clérigo que desaprove as coisas repugnantes feitas em nome de Deus. E os homens honestos nos governos tentam remediar a situação. Mas, o espírito dominante de transigência e egoísmo, e o sistema que se tem desenvolvido através dos séculos, de ignorar os princípios retos, ataram as mãos dos que tentam reformar a cristandade.
Talvez as conseqüências mais trágicas do fracasso da religião do mundo seja no que tange às guerras da humanidade. É esclarecedor examinar o registro. Por exemplo, qual é o histórico da religião com respeito à guerra do Vietnã?
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A guerra do Vietnã — para onde conduziu a religião?Despertai! — 1972 | 8 de outubro
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A guerra do Vietnã — para onde conduziu a religião?
MILHARES de jovens católicos, protestantes e membros de outras religiões lutaram no Vietnã. Muitos ainda lutam. Os clérigos ministram aos homens bem no campo de batalha. Teve a religião uma parte em conduzir os homens para esta guerra?
Qual é a posição das religiões protestantes para com o conflito agora? O jesuíta Robert Drinan, em seu livro recente, Vietnã and Armageddon aponta para “o sentimento quase unânime entre os teólogos protestantes de que a guerra do Vietnã é moralmente indefensível”2. Diversas denominações protestantes publicaram recentemente declarações opostas à guerra.
As organizações religiosas judaicas, também, opuseram-se recentemente à guerra. Uma manchete do Post de Washington, de dezembro passado, dizia: “RESOLUÇÃO DO TEMPLO KENSINGTON INSTA QUE TERMINE A GUERRA DO VIETNÃ.” A resolução instava com o Presidente Nixon, dos EUA, a “fixar e anunciar a completa retirada de todas as forças estadunidenses que operam em e sobre o Vietnã, Laos e Cambódia”.3
A Posição Católica
O que dizer da posição católico-romana? Em novembro passado, os bispos estadunidenses se reuniram num conclave nacional, e o Times de Nova Iorque noticiou em manchete de primeira página “BISPOS CATÓLICOS DOS EUA EXIGEM FIM DA GUERRA DA INDOCHINA.”4 A resolução adotada pelos bispos apontava para “a destruição da vida humana e dos valores morais”, e dizia: “É nossa firme convicção, por conseguinte, de que o fim rápido desta guerra é um imperativo moral da mais alta prioridade.”5
O Bispo-Auxiliar Thomas Gumbleton, de Detroit, explicou que a resolução “significa que a guerra é injusta”.6 Por conseguinte, afirmou, quem concordar com a posição católica talvez não participe nesta guerra”.7
À base de tal evidência, talvez se conclua que a religião tem conduzido a humanidade para longe da guerra. Mas, por que centenas de milhares de jovens católicos e protestantes lutam no Vietnã já por anos? Agiram contra a orientação que receberam de sua religião?
Orientação Confusa
Em realidade, a oposição da religião à guerra do Vietnã não é tão explícita como o acima poderia indicar. Exemplificando, o Arcebispo Philip Hannan, de Nova Orleans, disse que se achava entre “considerável número de bispos que não apóiam plenamente a resolução” adotada recentemente pelos bispos norte-americanos.8 Assim, os católicos talvez estejam, compreensivelmente, confusos quanto à orientação dada até mesmo agora!
Dá-se quase o mesmo com as religiões protestantes. Em 1968, a Igreja Luterana nos EUA adotou uma posição que aprovava oficialmente a objeção de consciência ao serviço seletivo. Não obstante, desde então os luteranos também têm falado em apoio da luta no Vietnã. Por exemplo, no número da primavera setentrional de 1970 da publicação luterana, o Springfielder, o professor-capelão Martin Scharlemann, escreve:
“Ouvimos ser dito que temos de amar o próximo como a nós mesmos. Naturalmente, isso é certo. Quem poderia disputá-lo, visto que é ordem do Senhor? Mas, há outro passo relacionado. . . . Minha relação com o soldado norte-vietnamita não é um assunto de um para o outro. No meio acham-se dois grupos de lealdades: A minha ao meu país e a dele ao seu. Tenho uma responsabilidade para com meu país que ultrapassa minha preocupação por ele; e isto também se dá com o outro lado. Então, quando é ferido e quando precisa de minha ajuda, então, mais uma vez, ele se torna meu próximo no sentido ético do Novo Testamento. Retorna a relação de um para com o outro.”9
Assim, este ministro argüiu que a lealdade ao país anula a ordem de Cristo de amar o próximo. Certamente deve confundir as pessoas quando sua igreja aprova a objeção de consciência e, ainda assim, um ministro incentiva a luta na guerra!
Poder-se-ia concluir que os conceitos deste ministro luterano sejam a exceção hoje, e que a religião agora orienta as pessoas a deixar de lutar no Vietnã. Mas, dava-se isso há cinco ou seis anos atrás?
Conceito Anterior da Guerra
Há mais de cinco anos, os sacerdotes católico-romanos em todos os EUA foram interrogados pela “Catholic Polls, Inc.” (Enquêtes Católicas, Inc.) Perguntou-se-lhes: Devem os EUA adotar uma política firme de vencer a guerra do Vietnã?
Os sacerdotes responderam: Sim — 2.706; Não — 371.10
Os sacerdotes amiúde falaram e agiram em pleno apoio ao esforço de guerra. Por exemplo, um jornal noticiou que certo sacerdote e dois outros clérigos tentaram “convencer um grupo de estudantes de Brooklyn que a injunção bíblica contra o matar não se aplicava à guerra no Vietnã”. Rotert J. McNamara, o sacerdote, argumentou: “O que fazemos ali é necessário para impedir a oligarquia.”11
Alguns sacerdotes tomaram uma parte ainda mais ativa na guerra. Uma grande foto de página e meia de um sacerdote apareceu na revista Life, com a legenda em negrito, “Um Bravo Sacerdote Lutando Sozinho”. O artigo dizia: “No meio da guerra, a figura acima, com capacete e portando um rifle, é um fenômeno estranho e acalentador — um sacerdote católico que trava sua própria guerra particular contra o Vietcong.”12
Por que os sacerdotes quase que unânimes eram a favor do empenho pela vitória dos EUA no Vietnã? Forte influência, sem dúvida, era a orientação dada por seus bispos. Em novembro de 1966, os bispos estadunidenses numa declaração oficial, disseram: “É razoável argumentar que nossa presença no Vietnã é justificada. . .. Elogiamos o valor de nossos homens nas forças armadas, e expressamo-lhes nossa dívida de gratidão. . . . podemos apoiar em sã consciência a posição de nosso país nas atuais circunstâncias.”13
Alguns bispos quase que falaram como se a guerra fosse uma santa cruzada. O falecido Cardeal Francis Spellman disse que as tropas dos EUA eram “soldados de Cristo”14 que travavam uma guerra em prol da civilização, e que “menos que a vitória é inconcebível”.15 Para as pessoas que talvez questionassem a justeza da causa dos EUA, Spellman respondia: “Meu país, certo ou errado.”16
Sobre o clamor de “vitória” de Spellman, George R. Davis, ministro da Igreja Cristã da Cidade Nacional, em Washington, D. C., disse: “Eu concordo.”17 Outros ministros protestantes mostraram sua concordância de várias formas.
Robert Mummey, ministro da Ciência Cristã, argumentou a favor da guerra, falando a um grupo de universitários: “Deve-se matar com coração puro, de outra forma isso passa a ser matança imoral. Se nossos soldados foram doutrinados a odiar o inimigo, então matá-lo seria um ato imoral.”18
Os clérigos também mostraram seu apoio à guerra por honrarem os mortos em ação. Martin Haerther, um pastor luterano de Des Moines, Iowa, disse em certo enterro: “Quando um soldado morre numa guerra justa [Vietnã], no cumprimento do dever, não se trata apenas de morte gloriosa a serviço da pátria, mas é também para ele um fim abençoado . . . Estou certo de que os anjos estavam presentes para levar a sua alma ao céu e de que ele goza agora de paz.”19
Para Onde a Religião Conduz
Torna-se óbvio que, nos primeiros estágios da guerra do Vietnã, as igrejas dos EUA a apoiavam. E a que conduziu isto?
Por um lado, levou a que membros da mesma religião matassem uns aos outros no campo de batalha. Há, por exemplo, calculadamente um milhão de católicos no Vietnã do Norte. Que posição assumiram ali os sacerdotes? O Times de Nova Iorque noticiou: “O pastor da Igreja de S. Antônio de Pádua, em Hanói, o Rev. Joseph Nguyen Van Que, . . . disse que costumeiramente abençoava os jovens católicos que se alistavam nas forças armadas [do Vietnã do Norte].”20 Assim, os membros da mesma religião matam uns aos outros nos campos de batalha do Vietnã, e com a bênção do clero!
Entrementes, conforme adrede indicado, houve uma mudança. Com efeito, foi publicada uma “Convocação à Penitência e à Ação”, interdenominacional, instando o fim da guerra.21
Mas, por que os líderes religiosos mudaram de ponto de vista? A resposta a esta pergunta ajudará a revelar o que amiúde determina a posição tomada pela religião quanto aos assuntos, e, assim, para onde ela conduz a humanidade.
[Foto na página 6]
Alguns sacerdotes tomaram parte ativa na guerra, como faz este cuja fotografia foi publicada na revista “Life”.
[Foto na página 7]
Falando sobre a guerra do Vietnã, o Cardeal Spellman disse que as tropas dos EUA eram “soldados de Cristo”.
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O que determina a direção que a religião toma?Despertai! — 1972 | 8 de outubro
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O que determina a direção que a religião toma?
POR justificar a guerra do Vietnã de início, as igrejas levaram muitos a julgar correto lutar nela. Mas, agora, algumas organizações religiosas e suas autoridades condenam a guerra. Declaram que a participação nela é errada.
Por que tal mudança? Orientam agora as igrejas seus membros a viver em harmonia com os ensinos da Bíblia? Ou determinam outros fatores a orientação provida pela religião?
O Journal de Oregon, EUA, recentemente observou que os eclesiásticos apenas acompanhavam a multidão’.22 Assim, quando as pessoas expressavam pouca oposição à guerra, as igrejas a apoiavam. Quando o público, porém, ficou desgostoso com a extensiva luta e derramamento de sangue, então o clero começou a opor-se à guerra.
Alden Munson, editor de United Methodist (Metodista Unido), publicação da Igreja Metodista, explicou:
“O acúmulo de questões confusas, como My Lai, e a melhor cobertura da guerra pelos meios de comunicação da história tiveram um efeito sobre toda a nação, e a igreja por fim segue de perto o sentimento contra a guerra. . . . Os cálculos das baixas civis no Vietnã, desde 1965, vão de 1 a 4 milhões de homens, mulheres e crianças, mas apenas agora as igrejas começam a demonstrar horror.”23
Sim, não foi senão depois de a guerra tornar-se ‘impopular’ que o clamor de ‘paz’ da religião tornou-se audível. Tem-se observado que as igrejas determinam o que é popular no momento, e então decidem sua posição em conformidade com isso. O clérigo de Nova Iorque, Robert J. McCracken, admitiu: “Somos cuidadosos de não tomar uma posição a menos que saibamos em que direção o vento sopra.”24
Tentativa de Mostrar Liderança Coerente
A Igreja Católica recentemente indicou que não mudara sua posição no que tange à guerra. Assevera que a liderança católica jamais apoiou a guerra do Vietnã. Esta afirmação é, efetivamente, feita num documento publicado no ano de 1971 pela Conferência Católica dos EUA (USCC), o braço administrativo da Conferência Nacional dos Bispos Católicos.
Todavia, até proeminentes teólogos católicos afirmam que, ao invés de opor-se à guerra, os bispos a apoiaram. Com efeito, por volta da mesma época de ser publicado o documento da USCC, o sacerdote católico Peter J. Riga, Professor de Religião na Faculdade La Salle, escreveu:
“Devido a seu fracasso maciço de liderança moral na maior questão moral de nossos dias, estes bispos católicos estadunidenses que apoiaram esta guerra [cerca de 95 por cento] deveriam demitir-se em massa, porque não mais estão aptos para o cargo; . . . quem tem sangue nas mãos não é apto a ser ministro. Afirmo que os bispos católicos estadunidenses, por seu fracasso moral, têm sangue dos homens em suas mãos.”25
Será que tais acusações por parte dos próprios católicos o fazem ficar pensando sobre a veracidade do que os bispos publicaram?
Representando Mal a Verdade
Commonweal, uma revista católica, considerou este assunto. O escritor, o professor e sociólogo católico Gordon Zahn, depois de estudar o documento da USCC, disse:
“Tenho de questioná-lo como sendo, aparentemente, uma tentativa deliberada de criar, por meio de um enfoque altamente seletivo da história, uma impressão falsa de que a liderança formal da igreja tem sido uma fonte de oposição coerente, embora prudentemente restrita, à guerra.”26
Ilustrando o “enfoque altamente seletivo da história” do documento há a ausência nele das declarações dos líderes católicos que mostraram apoiar a guerra. A omissão mais significativa são os endossos do falecido Cardeal Spellman.
Com efeito, as declarações feitas pelos líderes da Igreja em apoio da guerra, omitidas deste documento, são tão numerosas que Commonweal observou: “Suspeita-se que os pesquisadores da USCC poderiam ter compilado um conjunto pelo menos tão extenso de declarações episcopais de apoio à guerra, à base dos arquivos da Arquidiocese de Nova Iorque apenas.”27
Mas, toda esta evidência foi deliberadamente omitida! Todavia, a “simples honestidade”, disse Commonweal, devia exigir a inclusão de tais declarações, “não importa quão embaraçosas talvez pareçam ser agora, de que a plena medida da imoralidade daquela guerra se acha exposta para todos verem”.28
Não é evidente que o documento da USCC é óbvia tentativa de encobrir o apoio inicial da religião ao que agora é uma guerra impopular? Tal desonestidade talvez o deixe surpreso.
O Que Determina Para Onde Conduz a Religião
É verdade que os ministros amiúde ensinam sobre ‘paz na terra’ e ‘amor ao próximo’ com base na Bíblia. Assim, talvez tenha presumido que a religião conduz a humanidade a viver em harmonia com os ensinos bíblicos, e a desviar-se da guerra e da violência.
É um erro, contudo, considerar apenas o que a religião diz. Antes, é vital também examinar o que a religião realmente faz. O que faz a religião quando os líderes nacionais decidem que é nos interesses de sua nação travar uma guerra?
Sob tais circunstâncias, apontam as igrejas para as palavras de Jesus: “Por meio disso saberão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor entre vós”? (João 13:35) Explicam a seus membros que o genuíno amor cristão não é influenciado pelas fronteiras nacionais? Tornam claro que todos os verdadeiros seguidores de Cristo amam uns aos outros sem considerar o país em que vivam ou a raça a que pertençam?
Será que as igrejas também sublinham a seus membros as palavras de João, apóstolo de Jesus: “Devemos ter amor uns pelos outros: não como Caim, que se originou do iníquo e que matou a seu irmão”? (1 João 3:10-12) Explicam que matar suas concriaturas humanas no campo de batalha, e, em especial, os membros de sua própria religião, não é demonstrar-lhes amor? Indicam que quem faz isto está, com efeito, servindo ao “iníquo”, Satanás, o Diabo?
É bem óbvio que, quando as nações se preparam para a guerra, as igrejas põem de lado tais ensinos bíblicos. Um clérigo protestante bem conhecido, o falecido Harry Emerson Fosdick, admitiu:
“Nossa história ocidental tem sido a de uma guerra após outra. Temos gerado homens de guerra, treinado os homens para a guerra; temos glorificado a guerra; temos feito dos guerreiros os nossos heróis e até mesmo em nossas igrejas colocamos as bandeiras da batalha . . . Com um canto de nossa boca temos louvado o Príncipe da Paz, e com o outro temos glorificado a guerra.”29
O fato é: o que determina para onde a religião conduz não é o que a Bíblia diz, mas o que os líderes nacionais afirmam e o que é popular no momento. Comentando em editorial a guerra do Vietnã, o Sun de Vancouver, Canadá, observou: “É uma fraqueza talvez de toda religião organizada que a igreja acompanha a bandeira . . . Qual foi a guerra já travada em que não se afirmou que Deus estava em cada um dos lados?”30
Apoiar Apenas “Guerras Justas”?
A desculpa que as igrejas não raro apresentam para apoiar as guerras de seu país é a de que a causa de seu país é justa — que trava apenas “guerras justas”. Por conseguinte, argumenta-se, é dever da religião apoiar o esforço nacional de guerra.
Mas, pense nisso por um instante. Não afirma toda nação que se envolve numa guerra que a sua causa é “justa”? É conforme observa recente enciclopédia: “As causas da guerra podem ser egoístas, degradadas ou até perversas, mas as razões fornecidas são usualmente sublimes e nobres. Ambos os lados duma guerra talvez mostrem razões que consideram válidas.”31
Assim, à base do que se considera ‘razões válidas’, cada nação, muito embora o povo dessas nações talvez sustente conceitos opostos, trava o que chama de “guerra justa”. O patriotismo floresce, e as igrejas são arrastadas de roldão, cada religião ‘acompanhando a bandeira’. O proeminente líder protestante, Martin Niemoeller, disse que desde os dias dos imperadores romanos tem sido assim na cristandade. “A igreja jamais conheceu uma guerra injusta”, explicou, “mas sempre justificou a guerra de sua própria soberania e estado”.32
O historiador católico E. I. Watkin, escreveu:
“Dolorosa como seja tal admissão, não podemos, nos interesses duma falsa edificação ou de lealdade desonesta, negar ou ignorar o fato histórico de que os Bispos apoiaram coerentemente todas as guerras travadas pelo governo de seu país. Não conheço, efetivamente, um único caso em que uma hierarquia nacional tenha condenado qualquer guerra como sendo injusta . . . Qualquer que seja a teoria oficial, na prática, ‘meu país está sempre certo’ tem sido a máxima seguida no tempo de guerra pelos Bispos católicos. . . . quando se trata de nacionalismo beligerante, têm falado como o porta-voz de César.33
É realmente verdade que as igrejas “apoiaram coerentemente todas as guerras travadas pelo governo de seu país”? Tem a religião apenas posado como força em prol do bem, mas, na verdade, apoiado a guerra e a violência? O que revelam os fatos históricos?
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O papel da religião nas guerras passadasDespertai! — 1972 | 8 de outubro
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O papel da religião nas guerras passadas
O FILÓSOFO inglês John Locke certa vez disse: “Toda a conversa da história não é nada mais quase do que a de luta e morte.”34 Todavia, afirma certa autoridade: “A religião tem sido uma das forças mais poderosas da história.“35
Por que quase toda a existência do homem tem sido assolada de terríveis guerras, quando a religião tem exercido tão poderosa influência? Qual tem sido o papel da religião nas guerras passadas?
Astecas e a Guerra
A religião asteca ensinava que os deuses precisavam ser apaziguados por ofertas humanas. Assim, o historiador Victor W. von Hagen explica:
“A guerra e a religião, pelo menos para os astecas, eram inseparáveis. Pertenciam uma à outra. . . . Para conseguir adequadas vítimas prisioneiras como sacrifício para os deuses havia incessantes guerrilhas.”36
No ano 1486, mais de 20.000 vítimas prisioneiras foram ajuntadas para a dedicação da grande pirâmide do deus Huitzilopochtli. Daí, uma após outra, os corações das vítimas foram retirados e oferecidos ao deus. Pode imaginar o horror que tais guerras inspiradas pela religião disseminaram entre os primitivos povos americanos?
Impérios Antigos e a Guerra
Que papel desempenhou a religião entre os primitivos impérios e povos da Ásia, África e Europa? Tais nações antigas ficaram famosas por suas muitas guerras, bem como por sua religiosidade. A religião e a guerra andavam de mãos dadas. Certa obra de referência, por exemplo, comenta:
“A religião egípcia jamais condenou a guerra. As mais antigas guerras egípcias eram travadas entre os próprios deuses ou entre os deuses e os homens; e assim, os reis egípcios ao travar guerra afirmavam seguir o exemplo divino . . . Em suma toda guerra era moral, ideal, sobrenatural, e sancionada pelo precedente divino.”37
Houve ocasiões em que os líderes religiosos fizeram mais do que fechar os olhos ou aprovar as guerras de sua nação; instaram deveras com o povo a lutar. O falecido clérigo W. B. Wright afirma sobre a antiga Assíria:
“Lutar era o negócio daquela nação, e os sacerdotes eram fomentadores incessantes da guerra. Eram sustentados principalmente pelos despojos da conquista, da qual uma porcentagem fixa era invariavelmente destinada a eles antes de outros partilharem dela, pois esta raça de saqueadores era excessivamente religiosa.”38
É um fato inescapável: Os povos que guerrearam nos tempos antigos eram profundamente religiosos. Os líderes militares procuravam com regularidade a ajuda de seus deuses. Observa certa autoridade: “Usualmente verificamos que uma das principais funções de qualquer deus é ajudar e proteger seu povo na guerra.”39
Era costumeiro os soldados levarem para a batalha os estandartes de seus deuses. Estes eram, pelo que parece, emblemas ou símbolos feitos de madeira ou metal. Certa enciclopédia observa:
“Os estandartes romanos eram guardados com veneração religiosa nos templos de Roma. Não era incomum que um general ordenasse que um estandarte fosse lançado nas fileiras do inimigo, para dar mais zelo à arremetida de seus soldados, por estimulá-los a recuperar aquilo que, para eles, era talvez à coisa mais sagrada que a terra possuía.”40
Naturalmente, tais nações antigas não eram cristãs. Os ensinos que Jesus Cristo mais tarde introduziu tiveram profundo efeito sobre a humanidade, transformando a vida dos verdadeiros crentes para melhor.
Mas, com o tempo, ocorreram grandes mudanças na cristandade. No quarto século, o corrupto imperador romano, Constantino, por motivos políticos, fez do Cristianismo a religião estatal. Dali em diante, a Igreja Católica Romana tornou-se muito poderosa. Era diferente das outras religiões? Promoveu a paz? Era o verdadeiro Cristianismo?
As Cruzadas — “Guerras Santas” da Cristandade
Foi no ano 1095 que o Papa Urbano II reuniu o concílio de Clermont. Por volta desse tempo, a terra da antiga Palestina caíra em mãos de pessoas que não professavam o Cristianismo. Por conseguinte, o papa, no que é chamado “um dos mais eficazes discursos da história”, instou com a vasta congregação em Clermont a travar guerra contra os “infiéis” que agora detinham a “terra santa”. Urbano exortou a multidão:
“Guerreiros cristãos . . . ide e lutai contra os bárbaros, ide e lutai pela libertação dos lugares santos . . . banhai as mãos no sangue dos infiéis. . . . tornai-vos soldados do Deus vivo! Quando Jesus Cristo vos convoca para sua defesa, não deixeis que quaisquer afeições mesquinhas vos detenham em vossos lares.”41
Assim, as Cruzadas, ou chamadas “guerras santas”, foram inauguradas, e continuaram durante os dois séculos seguintes. “Os púlpitos da Europa ressoaram com exortações às Cruzadas”, observa certo historiador.42 Outro escreve: “Os bispos foram a suas dioceses, pregando este Cristianismo militar. . . . Os monges mandaram fazer espadas. . . . A Europa era agora um mar agitado, lançando onda após onda sobre as praias da Síria.”43
A terrível guerra que resultou disso quase que desafia uma descrição. “Todas as cobiças guerreiras da época foram postas em liberdade sob a sanção da religião e da justiça retribuitiva”, observou certo historiador.44 Os feitos dos cruzados incluem alguns dos piores massacres, pilhagens insensatas e atrocidades iníquas a serem lidas nas páginas da história — todas perpetradas em nome de Cristo! O Professor Roland H. Bainton escreve:
“Eis aqui uma guerra inaugurada pela Igreja. . . . Crucificação, rasgar a barriga dos que haviam engolido moedas, mutilações — Boemonde da Antioquia enviou ao Imperador grego uma carga inteira de narizes e polegares cortados dos sarracenos — tais feitos as crônicas das cruzadas relatam sem escrúpulos. . . . A disposição era estranhamente composta de ânsia bárbara de combate e zelo cristão pela fé.”45
Que responsabilidade a religião deve ter por ligar o nome de Cristo a tais feitos horríveis — feitos que não poderiam ser mais contrários a seus ensinos! O que deve pensar Deus dos que assim o representam mal?
As Guerras Internas Passadas da Cristandade
Na Idade Média, os professos cristãos também lutaram entre si, e amiúde com a bênção do papa! A respeito de tais guerras internas da cristandade, o historiador J. C. Ridpath disse: “A sanção papal era importante fator em todos os conflitos da Idade Média, e para obtê-la, os príncipes seculares estavam acostumados a fazer maiores ofertas que as dos outros, como num mercado.”46
Mais tarde, a partir de cerca de 1517, a revolta religiosa que produziu o Protestantismo aumentou a luta e a matança entre os povos que professavam o Cristianismo. G. M. Trevelyan, como professor de história em Cambridge, escreve:
“A religião era, naquela época, quase que a única influência intelectual e moral, [todavia] . . . a humanidade não fazia parte de seu ensino especial. Deve-se, deveras, admitir que a religião se associava então com o cavalete de tortura, com a estaca, a cidade incendiada, o massacre de mulheres e crianças, o ódio que jamais arrefece, os erros que jamais podem ser vingados. A maior massa de sofrimento mental e de dor física que a Europa já passou desde as eras bárbaras foi produzida pelo êxito parcial da luta da reação católica para a recuperação da cristandade revoltada.”47
A Igreja Católica Romana lutou selvagemente para trazer os protestadores, ou protestantes, de volta ao aprisco. Os protestantes resistiram fortemente. Antuérpia, por exemplo, foi cercada em 1576, e uma história relata: “Aqueles gentis mensageiros da Santa Madre Igreja, os soldados espanhóis, entravam na luta com brados tais como este em seus lábios: ‘São Tiago, Espanha, sangue, carne, fogo, saque!’ Oito mil homens, mulheres e crianças foram assassinados.”48
A Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) entre os católicos e os protestantes foi especialmente terrível. Nela, a Alemanha perdeu três quartos de sua população. Augsburgo decresceu de 80.000 para 18.000 habitantes. E apenas cerca de um quarto das pessoas na Boêmia subsistiram. A queda da cidade protestante de Magdeburgo ilustra a selvageria da luta. O historiador alemão Frederick Schiller escreve:
“Aqui começou uma cena de horrores para os quais a história não dispõe de linguagem — nem a poesia de lápis. Nem a infância inocente, nem a velhice desamparada; nem a juventude, o sexo, a categoria, nem a beleza puderam desarmar a fúria dos conquistadores. As esposas foram violadas nos braços de seus maridos, as filhas aos pés de seus pais; e o sexo sem defesa foi exposto ao sacrifício duplo da virtude e da vida.”49
É deveras verdadeiro que a história da humanidade “não é nada mais quase do que a de luta e morte”. Mas, também é verdade que a religião tem sido ‘poderosa força da história’, grandemente responsável pelo terrível derramamento de sangue. É isto ainda verdadeiro?
[Foto na página 11]
Os sacerdotes astecas seguram a vítima enquanto outro sacerdote retira seu coração, a ser oferecido ao deus da guerra (cena baseada num relato de uma testemunha ocular).
[Foto na página 12]
As cruzadas foram responsáveis por alguns dos piores massacres e atrocidades da história — todos perpetrados em nome de Cristo!
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A religião e a guerra nos tempos recentesDespertai! — 1972 | 8 de outubro
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A religião e a guerra nos tempos recentes
AS GUERRAS religiosas infelizmente não se limitam ao passado distante. Ocorreram nos tempos modernos. Poder-se-ia, para exemplificar, ler as notícias sobre “batalhas entre católicos e protestantes” na Irlanda.50
Desde agosto de 1969, mais de 200 pessoas já morreram nas refregas ali, e centenas mais foram feridas. Recente relatório diz: “Lojas incendiadas a ponto de só restarem as paredes, vidraças despedaçadas, leilões de artigos danificados por bombas, manequins quebrados de madeira nas entradas de lojas trancadas — todos constituem tristes e grotescos lembretes da agravante guerra urbana entre protestantes e católicos-romanos.”51
Mas, o que dizer das cruzadas ou “guerras santas”? Por certo a religião não apóia as guerras hoje como apoiou as Cruzadas, talvez pense. Mas, apóia sim. Os próprios líderes eclesiásticos admitem isto.
Exemplificando, em julho de 1969 irrompeu terrível guerra entre El Salvador e Honduras. Segundo certo livro do ano duma enciclopédia: “O conflito rapidamente trouxe a morte e a tragédia humana numa escala raramente conhecida na história salvadorenha.”52 Quem era responsável por tal guerra?
O bispo de Honduras, José Carranza, acusou o clero católico de El Salvador de fomentá-la por seus escritos, discursos e sua atitude. Disse que a chamavam de “guerra santa”, e instavam com os católicos a lutar.53
É um fato, a religião nos tempos recentes pouco difere da Idade Média, quando os clérigos instavam com suas congregações a ‘ir e matar os infiéis’. O respeitado historiador eclesiástico, Roland H. Bainton, por exemplo, observou: “As igrejas nos Estados Unidos, em especial, adotaram uma atitude de cruzada para com a Primeira Guerra Mundial.”54
Primeira Guerra Mundial — Uma “Guerra Santa”?
É óbvio que a primeira guerra mundial teve causas bem diferentes das das “guerras santas” de centúrias atrás. A igreja patrocinou diretamente as cruzadas para recuperar a “terra santa”. Por outro lado, a Primeira Guerra Mundial teve primariamente causas políticas. Todavia, o papel da religião nesta guerra moderna foi bem similar ao desempenhado pela religião nas primitivas “guerras santas”.
Comentando isto, o Presidente da Faculdade de Religião da Escola de Graduados de Claremont, Joseph C. Hough, indicou o exemplo do bispo de Londres, A. F. Winnington-Ingram. Este bispo instou com o povo inglês:
“Matem os alemães — matem-nos; não por uma questão de matar, mas para salvar o mundo, matem os bons bem como os maus, matem os jovens bem como os idosos, matem aqueles que mostraram bondade aos nossos feridos, bem como aqueles demônios . . . Conforme já disse mil vezes, considero-a uma guerra em favor da pureza, considero todo aquele que morreu nela como sendo um mártir.”55
E, o que faziam do outro lado? O arcebispo de Colônia, Alemanha, disse o seguinte aos soldados alemães:
“Amado povo de nossa Pátria, Deus está conosco nesta luta pela justiça em que entramos contra a nossa vontade. Ordenamo-lhes, em nome de Deus, que lutem até à última gota de seu sangue para a honra e a glória do país. Em sua sabedoria e justiça, Deus sabe que estamos do lado da justiça e nos concederá a vitória.”56
Tais palavras nos fazem lembrar o apelo do Papa Urbano, “Ide e lutai contra os bárbaros”, que lançou as Cruzadas. Todavia, as palavras do bispo de Londres e do arcebispo de Colônia não são incomuns. Antes, são típicas do espírito que permeava as igrejas em ambos os lados durante a Primeira Guerra Mundial.
O Professor Bainton disse a respeito das igrejas nos EUA:
“Os eclesiásticos estadunidenses de todas as fés jamais estiveram tão unidos uns com os outros e com a mente do país. Esta era uma guerra santa. Jesus foi vestido de cáqui e representado como visando um cano de fuzil. Os alemães eram hunos. Matá-los era limpar a terra de monstros.”57
Esta não é uma descrição exagerada da atitude do clero. Um editorial na revista Fortune observou: “Tal ódio pelo inimigo como havia nas linhas de frente não produzia oratória comparável às invectivas lançadas contra a Alemanha pelos homens de Cristo.”58 Ray H. Abrams escreveu um livro Preachers Present Arms (Os Pregadores Apresentam Armas) em que um capítulo inteiro intitulado “A Guerra Santa” é devotado ao endosso de toda a alma do clero à guerra. Por exemplo, Randolph H. McKim exclamou de seu púlpito em Washington:
“É Deus quem nos convocou para esta guerra. É a sua guerra que estamos travando. . . . Este conflito é deveras uma cruzada. A maior da história — a mais santa. É no sentido mais profundo e verdadeiro uma Guerra Santa. . . . Sim, é Cristo, o Rei da Justiça, que nos convoca a nos metermos numa luta mortífera com esta potência profana e blasfema [a Alemanha].”59
Também, Albert C. Dieffenbach, editor de The Christian Register, escreveu em editorial:
“Como cristãos, naturalmente, dizemos que Cristo aprova [a guerra]. Mas, será que ele a travaria e mataria? . . . Não há uma oportunidade de causar a morte ao inimigo que ele evitaria ou se demoraria a aproveitar! Ele tomaria a baioneta e a granada e a bomba e o rifle e faria uma obra mortífera contra aquilo que é o mais mortífero inimigo do reino de seu Pai em mil anos.”60
Deixam-no abalado tais expressões? Todavia, é isto que muitos clérigos e publicações religiosas diziam durante a Primeira Guerra Mundial. Poucos líderes religiosos de qualquer dos lados se opunham à luta e à matança. R. H. Abrams disse que não conseguiu encontrar um único sacerdote que se opusesse à guerra.
Pode compreender, portanto, por que o general de brigada inglês, Frank P. Crozier, disse: “As Igrejas cristãs são os melhores fomentadores da ânsia de ver sangue que temos, e fizemos delas livre uso.”61
O Que Teria Acontecido?
No entanto, o que teria acontecido se as igrejas nas nações em guerra tivessem ensinado com êxito a seus membros que era errado matar o próximo, especialmente seus concristãos? Visto que os povos de tais nações professavam praticamente todos ser cristãos, a guerra teria sido impossível de se realizar!
Comentando o assunto, proeminente rabino naquele tempo, Stephen S. Wise, disse: “O fracasso das igrejas e das sinagogas de manter a liderança sobre o povo foi a causa da presente guerra.”62 As igrejas, como é típico delas, fracassaram em dar orientação ao povo que os levasse a não participar na guerra.
As Igrejas e a Segunda Guerra Mundial
Foi muito diferente na Segunda Guerra Mundial? Diz-se sobre o eminente teólogo protestante Reinhold Niebuhr: “Conduziu muitos cristãos estadunidenses do pacifismo à aceitação da necessidade moral de combater Hitler na Segunda Guerra Mundial.”63
O historiador moderno, A. P. Stokes, disse: “As Igrejas, como um todo, lançaram-se de coração não só aos assuntos da assistência às vítimas da guerra . . . mas em apoio mais vigoroso da Guerra. Alguns chegaram até a chamá-la de guerra religiosa.”64
Em França e na Inglaterra, também, as igrejas correram a apoiar a causa nacional. Exemplificando, o Arcebispo católico-romano de Cambrai chamou a luta da França de “guerra em defesa da civilização, da lei das nações, da moral humana, da liberdade, em suma, de humanidade”.65 Era evidente que as igrejas conduziam seus povos ao campo de batalha contra a Alemanha.
Mas, o que dizer das igrejas na Alemanha? Apoiaram Adolf Hitler? Apoiaram seus objetivos de guerra?
Apoiando Hitler
Em 1933, foi assinada uma concordata entre a Alemanha e o Vaticano. O Artigo 16 da concordata estipulava que todo bispo da Igreja Católica, antes de assumir o cargo, precisava fazer um “juramento de lealdade” ao regime nazista. E o Artigo 30 exigia que fosse feita uma oração “a favor do bem-estar do Reich alemão e seu povo” depois de toda Missa Solene.66
Em 1936, quando circularam notícias de que os católicos se opunham ao regime de Hitler, o Cardeal Faulhaber disse, num sermão, em 7 de junho: “Todos são testemunhas de que, em todos os domingos e dias santos, no ofício principal, oramos em favor do Führer, conforme prometemos na Concordata . . . Ficamos ofendidos por causa dessa dúvida de nossa lealdade ao estado.”67
Assim, para onde conduziam as igrejas o povo alemão? O professor católico-romano de História da Universidade de Viena, Friedrich Heer, explica: “Nos fatos frios da história alemã, a Cruz e a suástica vieram a ficar cada vez mais juntas, até que a suástica proclamou a mensagem da vitória das torres das catedrais alemãs, as bandeiras suásticas apareceram ao redor dos altares e os teólogos, pastores, eclesiásticos e estadistas católicos e protestantes acolheram a aliança com Hitler.”68
Em 17 de setembro de 1939, mais de duas semanas depois de a Alemanha invadir a Polônia, os bispos alemães lançaram uma pastoral conjunta em que diziam: “Nesta hora decisiva, admoestamos nossos soldados católicos a cumprir seu dever em obediência ao Führer e estar prontos a sacrificar sua inteira individualidade. Apelamos aos fiéis para unir-se em ardentes orações para que a Providência Divina do Deus Onipotente possa conduzir esta guerra ao êxito abençoado e à paz para nossa pátria e nação.”69
No verão de 1940, o bispo católico Franz Josef Rarkowski disse: “O Volk [povo] alemão . . . tem consciência tranqüila . . . Sabe que trava uma guerra justa, nascida da necessidade de autopreservação dum povo.”70
O Times de N. I., de 1939, observava: “Periódicos das Igrejas protestante e católica alemãs agora publicam muitos artigos de exortação, explicando os deveres dos soldados que lutam em defesa de seu país, e admoestando os soldados alemães a lutarem no espírito de São Miguel, para uma vitória alemã e uma paz justa.”71
Não é evidente para onde as igrejas conduziam o povo alemão? O Professor Gordon Zahn escreveu: “Os católicos alemães que se voltavam para seus superiores religiosos em busca de orientação e direção espirituais no tocante a servir nas guerras de Hitler recebiam virtualmente as mesmas respostas que teriam recebido do próprio regente nazista.”72
A orientação religiosa fornecida se evidencia pelo apoio total da guerra pelos membros das igrejas. O Professor Heer explicou: “Dentre cerca de trinta e dois milhões de católicos alemães — quinze e meio milhões dos quais eram homens — apenas sete recusaram abertamente o serviço militar. Seis destes eram austríacos.”73 A situação era a mesma com os protestantes alemães.
Assim, em cada país, as igrejas conduziram seus membros à guerra. Os católicos mataram católicos nos campos de batalha. Os protestantes mataram protestantes. E os líderes de ambos os lados oraram a Deus pedindo vitória!
Quão desonroso a Deus foi ligar seu nome a tais feitos horríveis! Por certo, as palavras, da Bíblia são bem aplicáveis às igrejas: “Eles declaram publicamente que conhecem a Deus, mas repudiam-no pelas suas obras, porque são detestáveis e desobedientes, e não aprovados para qualquer sorte de boa obra.” — Tito 1:16.
Religião e Revolução
Os líderes eclesiásticos apóiam não só as guerras entre as nações, mas as revoluções dentro das nações também. Em 1937, os católicos espanhóis foram incentivados por muitos de seus clérigos a apoiar o movimiento do General Franco contra a Segunda República Espanhola. Agora, contudo, os bispos e sacerdotes, desagradados com o regime de Franco, pediram recentemente “perdão” pelo apoio dado pela Igreja ao seu movimiento.74
A respeito dos conceitos atuais, o teólogo luterano Karoly Prohle resumiu: “Achamos, assim, notável consenso entre os teólogos a respeito de que é possível os cristãos participarem numa revolução.”75 Os bispos católico-romanos na Grã-Bretanha disseram recentemente: “De nada adiantará simplesmente condenar o uso de violência contra a autoridade visto que, evidentemente, os em autoridade talvez sejam culpados de violência pior.”76
Surpreende, então, que os membros das igrejas hoje tomem parte em revoluções políticas? Observou George Celestin, instrutor de teologia da Universidade de S. Eduardo, em Austin, Texas, EUA: “Os cristãos estão ficando determinados a mudar as estruturas injustas tão rapidamente quanto possível. Isto significará que, em alguns casos, as igrejas talvez tenham de pregar a violência.”77
Assim, o registro da religião do mundo no que tange à guerra e à violência é patente, e é horroroso. A religião do mundo é condenada como tendo a principal culpa, como Revelação 18:24 afirma, do “sangue . . . de todos os que foram mortos na terra”.
Daí, então, o que dizer da sua culpa pela imoralidade que grassa no mundo? Como figura ela nisso?
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Para onde a religião conduz quanto à moral?Despertai! — 1972 | 8 de outubro
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Para onde a religião conduz quanto à moral?
NOS ANOS recentes, uma “revolução” na moral tem ocorrido na religião do mundo. E com isto queremos dizer as atitudes quanto à fornicação, ao adultério e ao homossexualismo.
A Igreja Presbiteriana Unida propôs novo “código sexual”. A revista Parade diz que é “tão liberal que praticamente elimina o pecado como um dos principais fatores nas relações sexuais”. Entre as mudanças advogadas acha-se a “remoção de todas as restrições contra os adultos não-casados que desejem viver juntos [em fornicação]”.78
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