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O crime e a violência crescentesDespertai! — 1980 | 8 de abril
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O crime e a violência crescentes
IMAGINE-SE no lugar de certo homem, na Itália, que voltava do trabalho para casa. Descuidadamente, deixou suas chaves no carro, já que pretendia apanhar um item numa mercearia vizinha. Ausentou-se por apenas alguns minutos, mas quando voltou — já sabe: o carro sumira!
Depois de uma noite insone, que surpresa agradável teve, na manhã seguinte, ao encontrar seu carro estacionado no lugar de sempre, defronte de seu prédio de apartamentos. Um bilhete enfiado embaixo do limpador de pára-brisas explicava: “Desculpe-me por lhe ter importunado. Foi uma emergência. Aceite meus agradecimentos e divirta-se à noite por minha conta.” Estavam anexados dois ingressos de teatro — os melhores lugares da casa — para o espetáculo daquela noite. Sua confiança na humanidade fora restaurada.
Após uma noite muito agradável no teatro, ele voltou para casa com sua esposa, tateou momentaneamente à procura da chave da casa, abriu a porta e entrou — num apartamento vazio! Despojado de tudo! Sua renovada confiança na humanidade tivera vida curta.
Embora ímpar, esta história verdadeira é apenas uma entre muitas que se poderiam contar para demonstrar o descaramento com que muitas vezes são cometidos os crimes. Naturalmente, este crime foi relativamente brando, em comparação com outros, crimes tão marcados pela brutalidade e pelo sadismo que talvez meneasse a cabeça de pura descrença. Não é de se admirar que muitos tenham perdido a confiança na humanidade e vivam em temor.
Todos somos vítimas do crime. O crime organizado furta de cada bolso. Autoridades de Chicago, EUA, estimam que, devido à extorsão aberta, pela Máfia, ou devido ao seguro extra contra o roubo e às forças de segurança adicionais necessárias para combater suas operações, o cidadão estadunidense mediano paga dois centavos de dólar adicionais (cerca de Cr$ 1,00) para cada dólar que gasta (cerca de Cr$ 50,00).
A desonestidade dos empregados e os furtos em lojas obrigam o comércio a elevar os preços para recuperar as perdas. Paga-se pela desonestidade dos outros. A desonestidade dos empregados na República Federal da Alemanha, por exemplo, custa anualmente aos contribuintes um bilhão de marcos (Cr$ 25.000.000.000,00). O crime é realmente caro, se não para o criminoso, pelo menos para a vítima, pois a vítima sempre tem de pagar.
Novas Tendências Perturbadoras
O crime já existe por muito tempo. Mas recentemente assumiu nova dimensão. Uma onda de crime e violência que aumenta constantemente, não se limitando a nenhum país ou localidade, tem feito com que tanto os órgãos da lei como o homem comum olhem com mais seriedade para o crime e o que se pode fazer para combatê-lo com sucesso.
Cada vez mais se cometem “crimes sem nenhum sentido”, crimes sem motivo real. Talvez envolvam simplesmente “pichar” propriedades públicas ou arrancar as páginas de catálogos de telefones públicos.
Mas, mui freqüentemente tomam uma forma mais séria, assinalada por uma brutalidade desnecessária. Por exemplo, dois rapazes de 17 anos atacaram recentemente um homem de 33 anos nos arrabaldes de uma cidade alemã e se revezaram em apunhalá-lo; posteriormente a polícia relatou que encontrou mais de 80 ferimentos de punhal. Quando lhes perguntaram “Por quê?”, os dois jovens responderam: “Simplesmente sentimos o impulso de eliminar alguém.” Em outro caso, um grupo de adolescentes, com um pouco mais de idade, atacou um tabelião em Gherburgo, na França, e o espancaram tão impiedosamente que ele perdeu os sentidos e morreu três dias depois. O motivo deles? “Só para nos divertirmos.”
Outra tendência perturbadora é o aumento da delinqüência feminina. A situação do terrorismo na Alemanha, por exemplo, é sem igual no aspecto de que grande proporção de seus membros conhecidos é de mulheres. Em fevereiro de 1979, 12 das 16 pessoas da lista de suspeitos de terrorismo mais procurados pela polícia eram mulheres.
Mas, talvez o que acima de tudo preocupe os líderes judiciais e legislativos seja o acentuado aumento de crimes perpetrados por jovens. A revista Time, falando sobre a situação nos Estados Unidos, disse: “As pessoas sempre têm acusado os jovens de se safarem até com homicídios. Agora isto é uma verdade, literalmente. Tem surgido um padrão de criminalidade, por todos os EUA, que é tanto desconcertante como pavoroso. Muitos jovens parecem estar roubando e estuprando, mutilando e assassinando tão casualmente como se estivessem indo ao cinema ou se divertindo num jogo de beisebol ocasional.”
Esta tendência entre os jovens não prevê boa coisa para o futuro. O jornal Hamburger Abendblatt, comentando a situação na Alemanha, disse: “Conforme as últimas estatísticas do crime, o número de suspeitos entre 14 e 18 anos, presos desde 1975, cresceu 25,1%. Na categoria de crianças com menos de 14 anos, o aumento foi de 30,8% . . . e não está à vista o fim desta tendência. Temos de contar com novo aumento no número de adolescentes e crianças delinqüentes.”
Não há dúvida quanto a isso. O crime é um problema e algo que faríamos bem em levar a sério. O governo francês o considerou bastante sério para autorizar a formação de uma comissão de 11 homens para investigar a questão. Estes homens deliberaram por 16 meses antes de submeterem um relatório de 700 páginas, com 103 recomendações, para aliviar o problema.
A organização das Nações Unidas considerou o problema bastante sério para justificar a instituição de uma Comissão de Prevenção e Controle do Crime, de 15 membros, que patrocina um congresso mundial, a cada cinco anos, para considerar métodos de lidar de modo bem sucedido com o crime em escala global. O tema geral do encontro de 1975 foi: “Prevenção e controle do crime — o desafio do último quarto de século.” Programou-se um sexto congresso para 1980 em Sídnei, Austrália.
O que significa o atual aumento constante do crime e da violência? Aumentarão até que não haja mais esperança de serem remediados? Ou se está exagerando o problema? É tudo realmente tão ruim assim? O que acha?
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O crime . . . é realmente tão ruim assim?Despertai! — 1980 | 8 de abril
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O crime . . . é realmente tão ruim assim?
ALGUMAS pessoas nascem otimistas. Não importa quão ruim as coisas pareçam, sempre dão um jeito de sorrir e argumentar que poderia ser pior. Pode-se falar muito em defesa do otimismo, mas nunca se deve permitir que obscureça nossa visão e nos impeça de ver as coisas de modo realístico. Ignorar os problemas nunca irá solucioná-los. A recusa de reconhecermos um problema aumenta a possibilidade de nos tornarmos vítimas dele.
Agora, com respeito ao crime e à violência, é tudo realmente tão ruim assim?
As pessoas que dizem “Não” salientarão logo que o crime e a violência não são algo novo. Ora, o livro de história mais antigo que existe, a Bíblia, nos conta que a primeiríssima família da humanidade experimentou a violência do pior tipo. Relata: “Caim passou a atacar Abel, seu irmão, e o matou.” Também, ao descrever a condição que existia há mais de 4.000 anos, nos dias de Noé, não diz que “a terra ficou cheia de violência”? — Gên. 4:8; 6:11.
“O crime é ainda pior do que as estatísticas revelam.”
Concordamos que o crime não seja novidade. Não obstante, as estatísticas provam que no momento está ficando pior. Estatísticas? Talvez alguém nos faça recordar que Oscar Wilde, famoso dramaturgo da última parte do século 19, disse certa vez: “Há três tipos de mentiras: as mentiras comuns, as mentirinhas, e as estatísticas.” Seu ponto era que fiar-se demais em estatísticas pode ser enganoso. Elas podem ser interpretadas de maneiras variadas e às vezes até contraditórias. Ainda assim, seu freqüente mau uso não seria justificativa para alguém rejeitá-las totalmente.
Para o nosso benefício, vamos considerar brevemente alguns dos argumentos propostos pelas pessoas que afirmam que “realmente não é tão ruim assim”. Daí nós mesmos poderemos chegar a uma conclusão.
“O Crescimento Populacional É Responsável Pelo Aumento do Crime.”
Poucas pessoas questionariam que temos presenciado uma explosão populacional nas últimas décadas. Ao passo que levou 4.200 anos, desde o dilúvio nos dias de Noé (até 1830), para a população mundial alcançar um bilhão de pessoas, levou apenas 100 anos mais para alcançar o segundo bilhão, em 1930. Alcançou-se o terceiro bilhão em mais trinta anos (1960), e o quarto em mais 15 anos (1975). Agora, com mais de quatro bilhões de pessoas na terra, estima-se que por volta de 1985 haverá quase cinco bilhões, e bem mais de seis bilhões por volta do fim do século.
O crescimento populacional certamente é fator contribuinte para o aumento do crime, mas não é sua causa básica ou única Se fosse, então qualquer aumento ou decréscimo na população significaria logicamente igual aumento ou decréscimo no número de crimes. Esse, porém, nem sempre é o caso.
Considere a República Federal da Alemanha. Como um dos poucos países do mundo que apresentaram recentemente um decréscimo na população — entre 1975 e 1977 sua população caiu em mais de 600.000 pessoas — deveria haver, usando-se tal argumento, um decréscimo proporcional do crime. No entanto, fontes governamentais dizem que se registraram 2.919.390 crimes em 1975, e 3.287.642 em 1977, um aumento de mais de 12 por cento. Isto mostra que o crime aumenta mesmo em lugares onde a população diminui.
E longe de terem qualquer base para complacência, os que dizem que o aumento do crime é apenas conseqüência normal da explosão populacional enfrentam uma perspectiva futura funesta. De acordo com a própria alegação deles, a onda atual de crimes continuará a aumentar para se igualar ao crescimento da população mundial. Até que ponto tem de piorar a situação para que estejam dispostos a admitir: “É realmente ruim”?
“Mantem-se Agora Cômputos Mais Precisos dos Crimes Cometidos.”
Certamente é verdade que se faz agora um registro mais exato dos crimes cometidos do que há 100 anos. Assim sendo, uma comparação acurada entre os crimes cometidos nessa época com os cometidos agora seria impossível. Mas este argumento não seria válido se comparássemos os registros de 1977 com os de 1975, ou mesmo de 1970, não acha? E se, como se argumenta, mantemos agora melhores registros, deveríamo-nos perguntar: Por quê? Em si mesma, não sugere a necessidade de mais precisão e eficácia na manutenção de registros que as coisas pioraram?
Qual tem sido o empenho da polícia em compilar tais relatórios? Muito poucos crimes têm sido descobertos, e sendo a queixa registrada pelos próprios oficiais de polícia. Uma apuração dirigida pelo Instituto MaxPlanck, alemão, revelou que um total de 90 por cento do cômputo dos crimes por parte da polícia baseia-se na queixa dada pela vítima do crime ou por testemunhas. A manutenção de registros precisos, portanto, depende mais da boa vontade e prontidão do público de comunicar os crimes que vêem ser cometidos do que da polícia.
Há algo que indique que as pessoas estão mais cuidadosas ou conscientes agora em comunicar os crimes do que estavam no passado? Não, se havemos de acreditar nessa apuração: descobriu-se que foram comunicados apenas 46 por cento dos crimes cometidos contra as pessoas entrevistadas. Mais da metade ficaram sem ser comunicados, quer porque a vítima achasse que sua perda fora muito pequena para se preocupar, porque achasse que as possibilidades de o crime ser solucionado fossem mínimas, quer por outras razões pessoais.
Estes dados, que se comparam favoravelmente com dados similares da Suíça, dos Estados Unidos, do Canadá, da Austrália e da Finlândia, indicam que o crime é ainda pior do que as estatísticas revelam. Isto é apoiado pela revista alemão Der Spiegel, que disse: “Na verdade, o número [de invasões de domicílios durante o ano] é dez ou doze vezes maior [do que o comunicado].” Ela citou Werner Hamacher, encarregado do Departamento de Investigações Criminais do Estado de Nordrhein-Westfalen, que assemelhou o número dos crimes comunicados a “pouco mais do que o mais diminuto biquíni” a cobrir o corpo do total de crimes cometidos.
Desse modo, o que concluímos logicamente? Que o cômputo dos crimes comunicados é ainda muito incompleto e que as estatísticas no máximo podem indicar apenas certas tendências. Mas, longe de exagerar os fatos, na realidade as estatísticas contam apenas parte da história. Assim, o que acha? É realmente tão ruim assim? Ou é ainda pior?
“O Crime Pode Ser Crítico em Alguns Lugares, Mas Não Onde Moro.”
Se isto for verdade, mostre-se grato. As áreas rurais amiúde têm taxas de crime mais baixas do que as áreas urbanas, e,
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