O estabelecimento dum baluarte da verdade em Oquinava
OQUINAVA — o nome traz lembranças de uma das batalhas mais ferrenhas da Guerra do Pacífico. O combate feroz, que começou em 1.º de abril de 1945, terminou em 22 de junho, com o suicídio dos generais e do restante sobrevivente do exército imperial, japonês. As perdas conjuntas dos exércitos dos Estados Unidos e do Japão ascenderam a mais de 70.000 homens, mas o total das baixas entre a população civil, naquela batalha, atingiu o total espantoso de 132.894 pessoas! Os sobreviventes saíram cambaleantes das trincheiras de abrigo e dos esconderijos entre os sepulcros familiares, encontrando sua ilha-pátria praticamente arrasada. Não pareciam ter nenhuma esperança no mundo. Mas, em pouco tempo, alguns deles haviam de saber da grandiosa perspectiva quanto ao futuro.
Entre os sobreviventes estava Yoshiko Higa, que ficou viúva durante a guerra, junto com seu filho menor. Seu “abrigo antiaéreo” havia sido o enorme sepulcro ancestral, de concreto, construído na forma do dorso duma tartaruga, para simbolizar a posição da mulher durante o parto; isto se relaciona com a idéia oriental de que, na morte, todos ‘voltam à fonte’. Ali, as longas horas passadas na companhia de ossos e cinzas de seus antepassados fizeram Yoshiko compreender que os mortos não eram mais do que pareciam ser — inexistentes, pó sem vida. Mais tarde, chegou a conhecer algumas Testemunhas de Jeová, que eram filipinos vindos para trabalhar em Oquinava. Para o espanto dela, essas Testemunhas mostraram-lhe na Bíblia exatamente o que ela havia observado no sepulcro — de que os mortos não estão cônscios e que não existem mais. E mostraram-lhe na Bíblia que Deus fez uma provisão maravilhosa, por meio de seu Filho, Jesus Cristo, para ressuscitar os mortos à vida, sob o governo do seu Reino. — João 5:28, 29; 1 Cor. 15:22-24.
Mas Yoshiko só sabia falar japonês, uma língua desconhecida aos filipinos. Então, como poderiam estudar a Bíblia com ela? Ora, eles podiam achar os livros na Bíblia em japonês, de acordo com os na sua Bíblia em inglês, e também o capítulo e os versículos. De modo que seu método de estudo consistia em fazê-la procurar uma seqüência de textos relacionados sobre um tópico, quer sobre a condição dos mortos, quer sobre o nome e as qualidades de Deus, a presença de Cristo, o Reino, e sobre outros assuntos. Yoshiko veio logo a reconhecer que “a palavra de Deus é viva e exerce poder, e é mais afiada do que qualquer espada de dois gumes”. (Heb. 4:12) Ela começou a proclamar a outros a preciosa mensagem da Bíblia, que havia aprendido.
AS BOAS NOVAS DIFUNDEM-SE
Entre as primeiras pessoas a dar ouvidos ao testemunho zeloso de Yoshiko estavam alguns membros da Igreja Protestante em Siuri, antiga capital de Oquinava. Uma destas pessoas, uma senhora idosa, chamada Matsu Ikehara, persuadiu diversos outros membros idosos da igreja a aceitar o puro ensino da Bíblia. Junto com mais outros, em pouco tempo abandonaram a Igreja e tornaram-se Testemunhas ativas, proclamando as boas novas de porta em porta, seguindo o modelo de Jesus Cristo. A partir de 1953, houve visitas regulares a Oquinava, feitas pelo superintendente e outros representantes da Sociedade Torre de Vigia do Japão. Em 1955, realizou-se a primeira assembléia de circuito na capital, Naa, com menos de vinte pessoas na assistência, sentadas em esteiras tatami, num quarto de hotel. O programa, apresentado na sua inteireza pelos dois visitantes do Japão, foi muito apreciado por todos os presentes, a maioria dos quais ingressou logo no serviço de “pioneiro” de tempo integral das Testemunhas de Jeová. Era um pequeno começo. Mas em 1975, apenas vinte anos mais tarde, a assistência à assembléia de distrito das Testemunhas de Jeová em Oquinava ascendeu a mais de 1.400 pessoas!
Entre aquelas primeiras Testemunhas de tempo integral havia uma chamada Matsue Tanaka, que trabalhou fielmente como “pioneira” na proclamação da mensagem do Reino em Siuri até o seu falecimento alguns anos mais tarde. Embora as reuniões do grupo em Siuri fossem amiúde realizadas na casa de Tanaka, o marido dela não deu atenção à mensagem, até o dia em que assistiu ao discurso bíblico por ocasião do enterro de sua esposa. Profundamente impressionado com o que ouviu ali, naquele dia, pegou na Bíblia bem marcada de sua esposa e começou a estudar por si mesmo essas coisas. Hoje, aos setenta e três anos de idade, ele é Testemunha “pioneira” já por quatorze anos e ancião respeitado da congregação cristã.
Outra daquelas primeiras Testemunhas “pioneiras” em Siuri é Mitsuko Tomoyori, também viúva. Enquanto criava sua filha, Masako, ela se tornou “pioneira especial”, e durante os dezenove anos neste serviço, ela tem ajudado vinte pessoas à dedicação e ao batismo. Sua filha acompanha-a agora nesta obra. O filho de Yoshiko Higa também se tornou “pioneiro” quando cresceu, e hoje ele é um dos dois superintendentes viajantes, que visitam as vinte e uma congregações das Testemunhas de Jeová espalhadas por seis das ilhas Riuquiú, sendo que dezesseis das congregações se encontram na ilha principal, Oquinava.
ENTRE UM POVO HOSPITALEIRO
Como é a vida e o serviço nestas ilhas? Situadas entre as latitudes 24 e 29 graus norte, estas ilhas subtropicais têm invernos muito brandos. Os verões, porém, são longos, quentes e abafados, e muitas das mulheres das Testemunhas usam chapéu e sombrinha como proteção contra o sol. Todavia, o reflexo do sol no solo cheio de poeira de coral ainda pode bronzear o rosto.
Entre os meses de maio e novembro, os tufões costumam atacar ou rodear esta região, de modo que as casas de madeira ficam trancadas, para suportar a fúria do vento e da chuva salgada. Em 1964, um tufão arrasou o trabalho preparatório duma assembléia de circuito das Testemunhas de Jeová. Não havia gêneros alimentícios disponíveis nos mercados — exceto abóboras. Por causa desta alimentação constante no restaurante da assembléia, algumas Testemunhas apelidaram aquela assembléia humoristicamente de “assembléia das abóboras”.
O povo de Oquinava e das ilhas vizinhas é calmo, amigável e hospitaleiro. Quando uma Testemunha vai de casa em casa, o dono-da-casa costuma estender uma esteira de palha, para o visitante se sentar, e depois escuta sem interrupção, até o término da apresentação bíblica. É um povo quieto, que prontamente aceita as publicações e as revistas que explicam o reino de Deus. Em toda a parte se fala o japonês comum, embora muitas das pessoas mais idosas prefiram usar os diversos dialetos ilhéus. Em 1972, Oquinava foi novamente anexada ao Japão e é agora sua província mais sulina.
ADORAÇÃO DE ANTEPASSADOS E “YUTA”
No curso dos séculos, estes ilhéus têm praticado a adoração de antepassados, mas a sua religião é diferente do budismo do Japão. Vêem-se poucos templos e santuários religiosos. Os costumes e as cerimônias religiosos, porém, são numerosos. A vida gira muito em torno da família e de seus antepassados. Se perguntar a um habitante de Oquinava: “Crê em Deus?” ele provavelmente responderá: “Creio e confio apenas nos meus antepassados.” Praticamente em cada lar pode ser encontrado o altar budista da família, ou butsudan. Dentro do altar há uma armação que sustenta as tabuinhas comemorativas, ou ihai, dos mortos. Em ocasiões prescritas, recitam-se orações e se fazem oferendas de incenso e alimentos perante o butsudan.
Caso surja um problema na família, ou se houver doença, então se costuma visitar um médium espírita, ou yuta, para saber da causa. As mulheres, que desempenham o papel principal nas atividades religiosas nas ilhas, usualmente fazem esta visita, e depois, celebram qualquer rito que seja prescrito pelo yuta. Isto é feito com fidelidade, e muitas vezes com grandes despesas para a família. Quem não seguir as instruções destes adivinhos é advertido sobre as graves conseqüências que sobrevirão a algum membro da família. Conforme pode imaginar, aqueles que aceitam a verdade bíblica precisam livrar-se de muita superstição e muitos ritos religiosos.
Certa senhora havia sido considerada como a deusa de sua aldeia por mais de trinta anos. Os demônios mostravam-lhe o que estava acontecendo na aldeia vizinha, e eles continuavam a exercer domínio sobre ela mesmo quando estava acamada. No decorrer do tempo, ela entrou em contato com os ensinos da Bíblia, libertou-se de toda a influência demoníaca e serve agora alegremente a Jeová.
Numa família, foi o filho moço quem primeiro entrou em contato com as Testemunhas de Jeová. Os pais dele trabalhavam e raras vezes estavam em casa, mas iniciou-se um estudo bíblico com este rapaz. Ele sabia que sua mãe fazia visitas a um yuta, e que ela havia tido visões e sonhos, os quais ela acreditava terem inspiração de Deus. Mas o filho aprendera de seus estudos bíblicos que o yuta não era de Deus, senão do Diabo. Respeitosamente, ele disse à sua mãe que o médium espírita era servo de Satanás. A mãe ficou muito perturbada com isso, e o resultado imediato foi que ambos os progenitores pediram um estudo bíblico. Agora, a família inteira, livre de toda a influência demoníaca, adora alegremente a Jeová. A mãe diz que realmente passou a sentir e conhecer o significado das palavras de Jesus, em João 8:32: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.”
Muitos outros jovens em idade escolar se alegram de que conhecem as boas novas da Bíblia, e eles apóiam a sua fé com obras. Freqüentemente, sofrem forte pressão na escola, para participarem no judô ou no kendo (esgrima), mas, em harmonia com os princípios declarados na Bíblia, tais como em Isaías 2:4, negam-se a participar em atividades que contrariam sua consciência treinada pela Bíblia.
AJUNTAMENTO DUMA COLHEITA ABUNDANTE
Em 1965, abriu-se um escritório da Sociedade Torre de Vigia em Naa, em Oquinava. Um antigo missionário havaiano, Shinichi Tohara, com sua esposa e filha, mudaram-se das neves de Hocaido, no Japão, para a Oquinava subtropical, a fim de cuidar ali do novo escritório. Desde então, o número dos proclamadores do Reino, em Oquinava, tem aumentado de 217 para quase 900, sendo que cada dois dentre cinco deles obtiveram conhecimento da Bíblia apenas nos últimos três anos.
Durante a guerra na Indochina, Oquinava tornou-se novamente uma grande área de apoio logístico para as forças combatentes dos Estados Unidos. Milhares de estadunidenses e suas famílias viviam então na ilha. Em 1968, informados de que havia grande necessidade entre a população de língua inglesa, Karl e Evalyn Emerson, ex-missionários na Coréia, mudaram-se com seu filho jovem para Oquinava. Naquele mesmo ano foi inaugurada uma congregação de língua inglesa, com uma assistência dominical de cerca de trinta pessoas. O número dos associados aumentou rapidamente para mais de cem. Mas, de repente, dentro de um ou dois meses, metade deles mudou-se para outros lugares no mundo. No começo, parecia que a congregação nunca mais se ia recuperar, mas, bem rápido, o número da assistência passou a crescer novamente. Calcula-se agora que, desde que a congregação foi organizada, mais de mil pessoas já se associaram com o seu Salão do Reino. Dentre essas, mais de 250 aceitaram os ensinos da Bíblia e ficaram assim induzidas a servir a Jeová na obra de testemunho de porta em porta, em Oquinava. A maioria de tais tem continuado no serviço ao voltarem para os Estados Unidos, onde muitos deles agora são anciãos e servos ministeriais nas suas congregações locais. Desde 1972, dois missionários têm contribuído para o excelente serviço feito na congregação de língua inglesa, mas há um fértil campo a ser ceifado por outras Testemunhas “com mentalidade de pioneiro”, que quiserem mudar-se para este “paraíso” subtropical.
Em 1974, foi dedicado um belo prédio de três pavimentos, da Sociedade, durante a visita de N. H. Knorr, então presidente da Sociedade Torre de Vigia (dos E. U. A.). Ele se encontra no meio de canaviais, num pitoresco litoral rochoso, e sua situação é central, para cuidar bem das congregações na ilha de Oquinava e em todas as ilhas Riuquiú.
A ordem de Jesus, de ‘pregar estas boas novas do reino’, é deveras cumprida nestes territórios ilhéus. Pessoas sinceras estão reagindo favoravelmente. Embora, em sentido militar, Oquinava ainda seja um baluarte militar, também se tornou um baluarte da verdade da Bíblia e da divulgação do reino de Jeová. É verdade o que o salmista escreveu no Salmo 97:1: “O próprio Jeová se tornou rei! Jubile a terra. Alegrem-se as muitas ilhas.”
[Mapa na página 721]
(Para o texto formatado, veja a publicação)
OQUINAVA
Siuri
Naa
[Mapa]
JAPÃO
QUIUXU
AMAMI XIMA
Mar da China Oriental
MIIAKO
IAEIAMA
FORMOSA
ILHAS RIUQUIÚ