Os registros históricos da Assíria e a Bíblia
Durante muitos séculos, os nomes de destacados regentes assírios, tais como Sargão, Tiglate-Pileser, Salmaneser e Senaqueribe, foram transmitidos de gerarão a geração de leitores da Bíblia. A Bíblia, com um senso de realidade não igualado por qualquer registro histórico, relaciona seus tratos com o povo de Judá e de Israel. No caso de Sargão, historiadores seculares modernos estiveram por muito tempo em dúvida quanto à sua identidade.
Então, nos séculos dezoito e dezenove, veio a era dos arqueólogos. Escavações nos montes de terra ou tell da Mesopotâmia produziram achados surpreendentes. Referindo-se especificamente à obra empreendida pelo arqueólogo PaulEmile Botta, o autor C. W. Ceram, em Deuses, Túmulos e Sábios, escreve na página 193: “Até então só a Bíblia se referia à terra entre os dois rios, e a Bíblia [para a ciência] no século XIX era considerada apenas uma ‘coleção de lendas’.”
Mas então, estes guerreiros-reis da Assíria passaram a viver novamente, ao passo que se traziam à luz os seus próprios anais, seus palácios, suas inscrições “ostentosas” e suas “listas de reis”. A assiriologia tornou-se uma ciência aceita e seus estudiosos pesquisaram o montão de dados desenterrados para reconstruir a história de um império pouco conhecido. Os fatos relatados na Bíblia, sobre a Assíria e seus regentes, foram então reconhecidos como autênticos, mas os estudiosos modernos começaram a questionar a cronologia ou as datas dos eventos da história assíria conforme encontradas na Bíblia.
Portanto, surge agora a pergunta: Possuem os especialistas em assiriologia matéria fidedigna em que basear as suas supostas retificações do Livro que por tantos séculos manteve vivo o conhecimento daqueles nomes antigos e dos eventos relacionados com eles? Forneceram os registros e os monumentos arrancados dos poeirentos montes de terra do Oriente Próximo uma base tão sólida, que a cronologia bíblica pode ser agora relegada a uma posição de inferioridade? Neste caso, deveríamos poder esperar nestes registros um elevado grau de exatidão e de credibilidade. Quais são os fatos?
OS REGISTROS ASSÍRIOS
Os registros deixados pelos próprios assírios, e desenterrados em tempos relativamente recentes, compõem-se de inscrições “ostentosas”, tais como as encontradas ornamentando os muros de palácios; os anais reais, escritos por escribas reais ou sacerdotais para a glória do rei regente; “listas de reis”, tais como as escavadas em Corsabad, e as listas limmu ou de epônimos — listas de autoridades destacadas, presumivelmente de uma para cada ano, mostrando-se ao lado o evento destacado do ano. Todos estes, junto com certas antigas datas astronômicas, constituem a matéria-prima usada pelos assiriólogos para tecer a sua história.
Mas, que dizer daquelas inscrições “ostentosas” e dos anais? São suficientemente exatos para serem aceitos como base para a cronologia? O Professor Olmstead, até a sua morte em 1945 uma das mais destacadas autoridades em assuntos do antigo Oriente Próximo, disse sobre isso o seguinte: “Podemos . . . usar a inscrição ostentosa para preencher as lacunas nos Anais [crônicas reais, alistando os eventos anualmente], mas ela não tem a mínima autoridade quando discorda do seu original.” “Igualmente sério”, diz o professor, “é que elas [as inscrições “ostentosas”] raras vezes seguem uma ordem cronológica. . . . É óbvio que devem ser usadas com cautela.”
A respeito dos anais, o Professor Olmstead escreve: “Temos aqui uma cronologia regular, e, se às vezes se podem encontrar erros, intencionais ou outros, a cronologia relativa, pelo menos, é em geral correta. . . . Mas, seria um grande engano presumir que os anais sejam sempre fidedignos. Os historiadores anteriores, de modo demasiadamente geral, têm aceito suas declarações, a menos que tivessem prova específica de inexatidão. Nos últimos poucos anos, descobriu-se vultoso material novo, que podemos usar para a crítica dos documentos de Sargão. . . . Acrescente a isso as referências em fontes alheias, tais como as hebraicas e babilônicas, e dificilmente precisaremos de estudo interno para nos convencer de que os anais estão longe de serem fidedignos.” — Assyrian Historiography, Estudos da Universidade de Misúri (EUA), Série de Ciência Social, Vol. II, páginas 5, 6.
Note, também, o testemunho do Professor D. D. Luckenbill: “Descobre-se logo que a transcrição exata dos eventos, conforme ocorreram, ano após ano, durante o reinado do rei, não era o motivo orientador dos escribas reais. Às vezes, parece, as diversas campanhas foram transpostas sem razão aparente, mas, na maioria das vezes, torna-se claro que a vaidade real exigia que se tomassem liberdades com a exatidão histórica.” — Ancient Records of Assyria and Babylonia, Vol. I, página 7.
Ao passo que o reinado do rei progredia, os anais reais muitas vezes sofriam revisões drásticas. Edições posteriores aparentemente conseguiam manobrar fatos e algarismos anteriores para satisfazer o capricho do rei. Por exemplo, o Professor Olmstead faz referência de Assurbanipal “atribuir-se pouco a pouco as últimas duas campanhas egípcias de seu pai, até que, na edição final, não há nada que ele não atribuísse a si mesmo”. — Assyrian Historiography, páginas 7, 8.
É bastante evidente que os antigos analistas estavam longe de serem registradores imparciais dos fatos e dos tempos conforme realmente ocorreram. Os historiadores dizem que não estavam além de alistarem um rei vassalo como pagando tributo, embora outros registros mostrem que tal rei já havia morrido. Existe, portanto, forte evidência de descuido, desonestidade e simples confusão nas suas compilações. Mas, é a situação diferente no caso das listas de epônimos?
AS LISTAS DE EPÔNIMOS DA ASSÍRIA
Os cronologistas hodiernos geralmente sustentam que as listas limmu ou de epônimos escaparam de algum modo da corrução dos anais e das inscrições, e que são virtualmente impecáveis quanto à exatidão. Afirmam que estas listas fornecem a base mais sólida para a cronologia daqueles tempos. Para nos ajudar na avaliação destas listas, apresentamos aqui uma amostra de uma delas:
Bel-harran-bel-usur (governador) de contra Damasco
Guzana
Salmaneser assentou-se no trono
Marduk-bel-usur (governador) na terra
de Amedi
Mahde (governador) contra [Samaria]
de Nínive
Assur-ishmeani (governador) contra [Samaria]
de [Kakzi]
Salmaneser rei da Assíria contra [Samaria]
Conforme se pode ver neste exemplo, não se fornecem nenhumas datas reais, embora se presuma que cada nome na lista represente um ano, permitindo assim uma contagem de ano a ano. É como se na linguagem moderna, o “homem do ano” fosse alistado com relação a um evento destacado no mesmo ano. Uma vez que nestas listas de epônimos aparecem os nomes de reis assírios, os historiadores contam sucessivamente de um rei para o outro, para determinar a duração do reinado de qualquer um dos reis. Daí comparam esta contagem com quaisquer algarismos que possam obter das “listas de reis” assírias.
Tem-se afirmado haver uma grande medida de regularidade no arranjo de epônimos como um todo, seguindo-se uma ordem fixa no alistamento dos epônimos ou das autoridades, começando-se com o rei, e, nos anos sucessivos, alistando-se autoridades tais como “marechal-de-campo”, “copeiro-mor”, “alto camarista da corte” e assim por diante. A investigação mostra, porém, que não se segue coerentemente esta ordem e que, nos períodos posteriores, as altas autoridades não mais apareciam sob tais títulos. E, após o tempo de Senaqueribe, até mesmo os nomes de novos reis deixam de aparecer nas listas.
Os historiadores dos nossos dias tampouco se apegam coerentemente ao conceito de que a duração do reinado dum rei pode ser determinada pela contagem do número de epônimos de seu nome, até ao do próximo rei. Dizem que Salmaneser V regeu por apenas cinco anos, ao passo que, segundo a contagem real até o nome de seu sucessor, na lista de epônimos, seu reinado deve ter durado oito anos. Tentando atenuar com explicações algumas das evidentes incoerências, alguns historiadores sugerem que Sargão (sucessor de Salmaneser) fez uma mudança no arranjo, fazendo-se declarar epônimo no seu terceiro ano de reinado, em vez de no seu primeiro. E, embora Sargão pareça ter reinado trinta e dois anos, segundo a lista de epônimos, atribuem-lhe apenas dezessete!
Devido à brevidade da informação fornecida por estas listas, é óbvio que diminuem consideravelmente os meios de se descobrirem erros. No entanto, apesar disso e da evidente fraqueza que manifestam, historiadores hodiernos preferem atribuir o erro aos anais reais, sempre que estes deixem de concordar com a lista de epônimos. Há certamente muita coisa vaga com respeito a estas listas.
A BÍBLIA É INTEIRAMENTE CRÍVEL
Que a cronologia desenvolvida pelos hodiernos assiriólogos está em contradição com a encontrada nas Escrituras pode ser observado no seguinte: Segundo a contagem bíblica do tempo, o Rei Menaém, de Israel, reinou de aproximadamente 791 a 780 A. E. C., e o Rei Acaz, de Judá, reinou de 761 a 745 A. E. C. O rei assírio Tiglate-Pileser III, também chamado Pul na Bíblia, demandou tributo de Menaém e foi subornado por Acaz. (2 Reis 15:19, 20; 16:7, 8) Mas os assiriólogos situam o reinado de Tiglate-Pileser III por volta de 744-727 A. E. C., e, portanto, após a morte de Menaém e de Acaz. De modo similar, suas datas para a queda de Samaria e o ataque de Senaqueribe contra Judá, no décimo quarto ano de Ezequias, divergem em vinte a trinta anos da localização destes eventos pela Bíblia. — 2 Reis 17:3-6; 18:9, 10, 13.
Portanto, o que devemos pensar a respeito destas discrepâncias? Mostram-se os registros históricos da Assíria tão exatos e coerentes entre si ao ponto de inspirarem confiança? É compreensível que os assiriólogos hoje em dia se orgulhem de sua consecução, de juntar o quebra-cabeça da história assíria. Mas, o quadro resultante tem muitas falhas e incoerências, de modo que se precisam fazer concessões para uma larga margem de conjeturas da parte dos historiadores hodiernos.
É verdade que algumas das aparentes contradições nos registros pagãos talvez se devam à incapacidade dos pesquisadores hodiernos de compreender corretamente os métodos antigos empregados, assim como há pontos na cronologia bíblica que ocasionalmente são mal entendidos. Mas o leitor sem preconceitos, que fizer uma comparação honesta, não poderá senão notar o contraste entre a história unilateral, obviamente exagerada e geralmente desconexa das tabuínhas cuneiformes assírias e o registro claro, coerente, segundo os fatos, dos eventos, fornecido pela Bíblia.
Leia, por exemplo, o registro dos reis de Judá e de Israel, conforme relatado nos livros bíblicos de Reis e Crônicas. Os escritores bíblicos anotaram com notável coerência a duração do reinado de cada rei de Judá, fornecendo sua idade ao ascender ao trono e novamente na sua morte, o nome do rei ou dos reis contemporâneos no reino setentrional, rival, de Israel, os eventos principais durante o reinado do rei, sua fidelidade ou infidelidade, seus bons e seus maus atos, o nome do sucessor de cada rei e o parentesco (quando houve) do sucessor para com o rei falecido. Reconhece-se que é preciso solucionar alguns problemas menores na cronologia; no entanto, este registro definitivamente não tem igual em nenhuma das histórias pagãs.
A candura dos escritores bíblicos fornece uma razão genuína para se aceitar com confiança os dados cronológicos providos por estes mesmos escritores, embora os registros pagãos não pareçam coincidir com eles. Por exemplo, onde, nos registros assírios jactanciosos, encontramos qualquer admissão das derrotas sofridas em batalha por aqueles reis que se chamavam de invencíveis? No entanto, os cronistas da história bíblica anotaram honestamente as experiências e derrotas humilhantes dos reis de Israel às mãos de outras nações, inclusive dos assírios. Podemos ler que o rei israelita Menaém pagou tributo equivalente a mais de NCr$ 4.000.000,00 para evitar um conflito com o imperador assírio Tiglate-Pileser (III) e que o temeroso Rei Acaz de Judá subornou o mesmo imperador para atacar a Síria e Israel, a fim de aliviar a pressão que exerciam contra Judá. (2 Reis 15:19, 20; 16:5-9) Um pouco mais adiante ficamos sabendo da completa ruína do reino setentrional, após o sítio de três anos de Samaria, pelos assírios, e do encarceramento do rei israelita Oséias. (2 Reis 17:1-6; 18:9-11) Não se faz nenhum esforço para encobrir os fatos ou descrevê-los de modo diferente do que eram.
Gravados em pedra ou inscritos em argila, os antigos documentos assírios talvez pareçam muito impressionantes. Mas isto não garante a sua exatidão nem que estejam livres de falsidades? Quais acha que seriam os fatores mais importantes que fornecem uma base sólida para se ter confiança em questões históricas: o material usado na escrita ou o escritor, seu objetivo, seu respeito pela verdade e sua devoção a princípios justos? São obviamente estes últimos.
Visto que os registros bíblicos foram evidentemente escritos em papiro ou velino perecíveis, seu uso contínuo e o efeito deteriorante das condições do tempo na maior parte da Palestina, sem dúvida, explicam por que não temos hoje nenhuns exemplares originais daqueles manuscritos. Todavia, visto que se trata do Livro inspirado de Jeová, a Bíblia foi cuidadosamente copiada e preservada na plena forma até agora. (1 Ped. 1:24, 25) A inspiração divina, por meio da qual os historiadores bíblicos puderam escrever seus registros, assegura a fidedignidade da cronologia bíblica. — 2 Ped. 1:19-21.