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Página doisDespertai! — 1987 | 22 de outubro
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Página dois
“Sinto-me Como que Viva de Novo!”
Sara tinha perdido o interesse em tudo, visto que uma ‘nuvem negra’ tomava conta de sua mente. “Eu me sentia morta por dentro”, disse ela. “Agora, sinto-me como que viva de novo!”
Ela era uma dos milhões de pessoas, em todo o mundo, que combatem uma implacável inimiga que tem assolado pessoas de todos os tipos — jovens e idosos, ricos e pobres, solteiros e casados, homens e mulheres. Trata-se duma assassina, pois até 70 por cento de todos os suicídios podem ser atribuídos à depressão. Esta inimiga também destrói carreiras e desfaz famílias.
Leia sobre como Sara e outros venceram tal luta.
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A luta contra uma inimiga implacávelDespertai! — 1987 | 22 de outubro
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A luta contra uma inimiga implacável
“ESTA foi a maior provação da minha vida”, disse Isabel. “É maravilhoso sentir-me recuperada. Sinto-me como se tivesse renascido. Posso agora sentir o perfume das rosas!” Esta senhora de 42 anos tinha vencido uma inimiga que, segundo se afirma, causa mais sofrimento do que qualquer outro distúrbio mental — a depressão.
Alexandre não foi tão feliz. Este senhor de 33 anos ficou muito deprimido, perdeu o apetite, e queria sempre ficar sozinho. “Ele achava que o mundo inteiro tinha desabado sobre sua cabeça e que não havia mais nada pelo qual valesse a pena viver”, explicou Ester, a esposa dele. “Ele cria que não valia nada.” Convicto de que jamais melhoraria, Alexandre provocou sua morte, pelo suicídio.
Tanto Isabel como Alexandre achavam-se entre os alegados 100.000.000 de pessoas, em todo mundo, que todo ano apresentam a forma de depressão clinicamente diagnosticável. Um de cada quatro americanos, e um de cada cinco canadenses, passam por uma grande crise de depressão durante sua vida. Informa-se que a depressão também é uma doença comum na África, e está aumentando na República Federal da Alemanha. Assim, são grandes as probabilidades de que o leitor tenha um amigo ou um parente que seja agora, ou já foi, vítima dela.
A esposa de Alexandre, que fez tudo que pôde para ajudar o marido, avisa: “Quando alguém diz que se sente deprimido, e acha que não vale nada, leve isso a sério.” A depressão grave é, assim, mais do que uma disposição passageira, ou apenas um caso de melancolia passageira. Pode ser uma assassina, uma implacável inimiga que pode aleijar de forma temporária ou permanente. Conseguir reconhecê-la poderia significar a diferença entre a vida e a morte.
“Uma Praga no Meu Cérebro”
Todos nós estamos sujeitos a dolorosas perdas, frustrações e desapontamentos. A tristeza é uma reação natural. A pessoa se fecha emocionalmente, trata de suas feridas, e, por fim, começa a encarar a realidade da situação mudada. Espera-se que amanhã seja um dia melhor, e, dentro de pouco tempo, começa a usufruir de novo a vida. Mas nos casos de depressão profunda, isso é diferente.
“Durante oito meses, nenhuma saída para fazer compras, nada, me fazia sentir melhor”, disse Isabel. Outra pessoa que sofria de depressão, Carolina, acrescentou: “Era como uma praga no meu cérebro, como se uma terrível nuvem pairasse sobre mim. Poderia dar-me um milhão de dólares, e isso não poria fim às sensações horríveis que eu tinha.” Um senhor disse que ‘a gente se sente como se tivesse colocado óculos de cor cinzenta — nada parecia atraente. Também, os óculos têm lentes de aumento, de modo que todo problema parece grande demais’.
A depressão é um espectro de emoções que variam do sentir tristeza à sensação de desespero, indo até a idéia suicida. (Veja o boxe na página 4.) O número de sintomas, a intensidade e a duração deles, todos constituem fatores que apontam quando a melancolia passageira se torna uma grave depressão.
Nem Sempre É Fácil de Identificar
Muitas vezes se torna difícil identificar a depressão porque a pessoa deprimida talvez também apresente sintomas físicos. “Sentia pontadas nas pernas, e, às vezes, todo o corpo me doía. Consultei muitos médicos”, disse Isabel. “Estava convencida de que eles despercebiam alguma doença física e que eu ia morrer.” Como Isabel, cerca de 50 por cento dos pacientes deprimidos que procuram ajuda médica queixam-se de sintomas físicos, em vez de emocionais.
“Geralmente, eles se queixam de dor de cabeça, de insônia, de anorexia, de prisão de ventre, ou de cansaço crônico”, escreve o Dr. Samuel Guze, diretor do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Washington, em St. Louis, EUA, “mas não dizem que se sentem tristes, desesperados, ou desanimados. . . . Há pacientes deprimidos que parecem não estar cônscios de sua depressão.” A dor crônica, a perda ou ganho de peso, e reduzido desejo sexual também constituem sintomas clássicos.
O Dr. E. B. L. Ovuga, do Hospital Umzimkulu, de Transkei, África do Sul, comunica que, ao passo que os africanos deprimidos raramente falam de sentimentos de culpa ou de não valerem nada, eles realmente se queixam de atividades excessivas, de afastamento, e de dores no corpo. Um informe de 1983 da Organização Mundial da Saúde comprovou que a ampla maioria das pessoas deprimidas que foram estudadas na Suíça, no Irã, no Canadá e no Japão apresentavam os mesmos sintomas básicos de ausência de alegria, de ansiedade, de falta de energia, e de idéias de a pessoa se sentir incapaz.
O álcool e a toxicomania, bem como a promiscuidade sexual, são apenas algumas das formas pelas quais alguns tentam encobrir sentimentos de depressão. Sim, “mesmo no riso o coração talvez sinta dor”. (Provérbios 14:13) Isto se dá especialmente com jovens. Os adultos demonstram-se deprimidos, mas, se um menor deprimido entra numa sala, não se nota nada”, explicou o Dr. Donald McKnew, do NIMH (sigla, em inglês, do Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA), numa entrevista feita com Despertai!. “É por isso que a depressão infanto-juvenil passou despercebida por tanto tempo. Mas, assim que se fala com eles a respeito, eles extravasam sua depressão.”
Todavia, a década de 80 presenciou significativos avanços no entendimento e no tratamento da depressão. Os mistérios da química cerebral estão sendo desvelados. Criaram-se testes para identificar certos tipos de depressão. O combate a ela foi ampliado com o emprego de medicamentos antidepressivos, e de nutrientes, tais como certos aminoácidos. Adicionalmente, foram usadas de forma eficaz breves terapias expressivas. De acordo com cientistas do NIMH, entre 80 e 90 por cento de todas as vítimas podem ser substancialmente ajudadas com o tratamento apropriado.
Mas, o que causa este distúrbio emocional debilitante?
[Tabela na página 4]
O Espectro da Depressão
Melancolia Simples Grande Crise de Depressão
Disposição
Tristeza, pesar normal Total falta de esperança
Pena de si, desânimo Sensação de achar-se sem
Auto-acusação e valor
sentimento de culpa Destrutivos sentimentos de
Capaz de sentir algum culpa e de auto-acusação
prazer Perda do prazer, não se
importa com nada
Modo de Pensar
Remorso ou lástima Idéias de suicídio
Dificuldade de concentrar-se
Duração
Período curto (alguns dias) Período prolongado (duas
semanas ou mais)
Sintomas Físicos
Funcionamento normal Fadiga constante; dores
Pequenos problemas físicos inexplicáveis
(temporários) Alteração nos hábitos
alimentares e de sono
Incapacidade de sentar-se
quieto, anda sem parar, torce
as mãos
Lentidão da fala ou dos
movimentos do corpo
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Depressão: é tudo simples imaginação?Despertai! — 1987 | 22 de outubro
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Depressão: é tudo simples imaginação?
O RAPAZ ficou deprimido assim que iniciou a reforma de sua casa de 200 anos. Ele dormia mal e achava incomumente difícil fazer qualquer esforço mental persistente. A família dele ficou imaginando se a casa era mal-assombrada! Ele notava que seus piores sintomas, que incluíam dores abdominais, vinham logo depois de períodos gastos na remoção da tinta velha da madeira de dentro da casa. Um médico descobriu que a depressão que ele sentia era devida ao envenenamento causado pelo chumbo contido nas camadas da tinta velha que ele estava removendo.
Sim, às vezes, até mesmo substâncias tóxicas podem causar depressão. Com efeito, talvez se surpreenda de saber que a depressão pode ser provocada por vários fatores físicos.
Há muitos anos, alguns pesquisadores examinaram cuidadosamente 100 pessoas que baixaram a um hospital municipal com problemas psiquiátricos, incluindo a depressão. Em 46 destes casos, descobriu-se que os sintomas emocionais estavam diretamente relacionados com moléstias físicas. Segundo o comunicado feito na revista American Journal of Psychiatry, quando tais males físicos foram tratados, 28 “evidenciaram uma triagem dramática e rápida de seus sintomas psiquiátricos”, e 18 “melhoraram substancialmente”.
O papel das moléstias físicas na depressão, contudo, é complexo. A experiência tida por muitos médicos é de que o paciente deprimido pode também apresentar um mal orgânico que não é responsável por sua depressão, mas que se torna o ponto focal em sua mente. Todavia, a depressão subjacente muitas vezes precisa ser constatada e tratada.
Embora algumas moléstias orgânicas possam causar ou intensificar os distúrbios emocionais, os sintomas psiquiátricos também podem surgir como reação à doença previamente existente. Por exemplo, depois de uma grande cirurgia, especialmente cardíaca, os pacientes em recuperação quase sempre ficam deprimidos. Quando se recuperam, a depressão geralmente desaparece. A tensão sobre o corpo, causada por grave doença, pode também provocar o distúrbio. Além disso, uma reação alérgica a certos alimentos ou a outras substâncias pode causar profunda depressão em algumas pessoas.
A hereditariedade pode também constituir um fator decisivo quanto a se a pessoa apresentará certos tipos de depressão. No princípio deste ano, alguns pesquisadores anunciaram a descoberta de uma falha genética congênita que se crê predisponha algumas pessoas à depressão psicótica [psicose maníaco-depressiva].
Adicionalmente, alguns peritos médicos afirmam que de 10 a 20 por cento das novas mamães passam por uma depressão clínica totalmente manifesta. Os pesquisadores não concordam entre si, contudo, se o que provoca os distúrbios são as alterações hormonais resultantes do parto ou as tensões emocionais ligadas à maternidade. Recentes descobertas também indicam que a síndrome pré-menstrual, e tomar pílulas anticoncepcionais, tendem a provocar a depressão em algumas mulheres.
A pesquisa corrente também revela que algumas pessoas parecem ter ciclos sazonais de humor, mencionados como Distúrbios Afetivos Sazonais. Tais pessoas se sentem muito deprimidas no outono e no inverno setentrionais. Elas se tornam mais lentas e geralmente dormem demais, afastam-se dos amigos e da família e passam por mudanças de apetite e de preferências alimentares. Mas quando chegam a primavera e o verão setentrionais, elas ficam animadas, tornam-se ativas, cheias de energia, e, geralmente, têm bom desempenho. Algumas foram tratadas com êxito com o uso bem regulado de iluminação artificial.
Assim, a depressão nem sempre é ‘simples imaginação’. Por conseguinte, se a sensação de depressão persistir, é vital fazer um exame médico completo. Mas, e se não for encontrada nenhuma causa física?
[Quadro na página 6]
Algumas das Causa Físicas da Depressão
A pesquisa médica associa as seguintes coisas com o aparecimento da depressão em algumas pessoas:
Metais e substâncias químicas tóxicas: chumbo, mercúrio, alumínio, monóxido de carbono, e alguns inseticidas.
Deficiências nutritivas: carências de certas vitaminas e de alguns minerais essenciais.
Doenças infecciosas: tuberculose, mononucleose, pneumonia viral, hepatite, e influenza.
Distúrbios do sistema endócrino: problemas da tireóide, mal de Cushing, hipoglicemia, e o diabetes melito.
Doenças do sistema nervoso central: esclerose múltipla, e mal de Parkinson.
Tóxicos “recreativos”: PCP [fenciclidina], maconha, anfetaminas, cocaína, heroína, e metadona.
Drogas medicamentosas: barbitúricos, anticonvulsivantes, corticóides, e hormônios. Alguns medicamentos que tratam da pressão arterial alta, de artrite, de problemas cardiovasculares, e de alguns distúrbios mentais.
(Por certo, nem todos estes medicamentos provocarão a depressão, e, mesmo quando existe tal perigo, este geralmente envolve pequena porcentagem daqueles que consomem tal medicamento sob a devida supervisão médica.)
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As raízes psicológicasDespertai! — 1987 | 22 de outubro
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As raízes psicológicas
“JÁ submeti a senhora a todo teste possível, e eles não acusam nada”, disse o bondoso médico a Isabel. “Creio que a senhora está-se sentindo muito deprimida, e tem bons motivos.”
Isabel, que achava que seu problema era físico, começou a imaginar se o médico estava certo. Refletiu sobre sua luta diária, nos últimos anos, para cuidar de seu filho de seis anos, desregrado e amiúde incontrolável, que mais tarde foi diagnosticado como sofrendo duma deficiência de prestar atenção. “O incessante stress e a ansiedade, dia após dia, colheram enorme tributo de minhas emoções”, confidenciou Isabel. “Eu tinha chegado ao ponto em que me sentia sem esperanças e com tendências suicidas.”
Muitas pessoas deprimidas, como Isabel, enfrentam excepcional dose de tensão emocional. Com efeito, num marcante estudo conduzido pelos pesquisadores britânicos, George Brown e Tirril Harris, eles verificaram que as mulheres deprimidas apresentavam um índice de “grandes dificuldades”, tais como moradia deficiente ou relações familiares tensas, que era mais de três vezes superior ao das mulheres não deprimidas. Tais dificuldades tinham causado “considerável, e, muitas vezes, incessante angústia”, pelo menos por dois anos. Experiências duras na vida, tais como a morte dum parente ou dum amigo bem achegado, grave doença ou acidente, más notícias chocantes, ou a perda do emprego, também eram quatro vezes mais comuns entre as mulheres deprimidas!
Todavia, Brown e Harris verificaram que apenas a adversidade não provoca depressão. Muito depende da reação mental e da vulnerabilidade emocional da pessoa.
“Tudo Parecia sem Esperança”
Por exemplo, Sara, esposa trabalhadeira e mãe de três filhos pequenos, sofreu distensão da coluna num acidente de trabalho. O médico dela disse que ela teria de reduzir grande parte de suas atividades físicas por causa duma ruptura de disco. “Pensei que todo o meu mundo tinha acabado. Sempre fora uma pessoa ativa, atlética, que participava em esportes com meus filhos pequenos. Ponderei sobre essa perda e achei que as coisas jamais melhorariam. Pouco depois, perdi toda a alegria de viver. Tudo parecia sem esperança”, confessou Sara.
A reação dela diante do acidente levou a pensamentos de desespero sobre a sua vida como um todo, e isto gerou a depressão. Segundo declaram Brown e Harris, em seu livro Social Origins of Depression (Origens Sociais da Depressão): “Isto [o incidente causador, tal como o acidente sofrido por Sara] poderá levar a pensamentos sobre a falta de esperança da vida da pessoa em geral. É tal generalização da desesperança que, segundo cremos, constitui o âmago do distúrbio depressivo.”
Mas, o que faz com que muitos se julguem incapazes de reparar os danos causados por uma perda dolorosa, fazendo com que entrem em grande depressão? Por que Sara, por exemplo, tornou-se vulnerável a uma sucessão de idéias tão negativas?
‘Sou Indigna’
“Sempre tive falta de confiança em mim mesma”, explicou Sara. “Eu sentia muito pouco respeito por mim mesma, e me achava indigna de qualquer atenção.” Os dolorosos sentimentos associados com a falta de auto-estima da pessoa são, não raro, o fator crítico. “Por causa da dor de coração há um espírito abatido”, declara Provérbios 15:13. A Bíblia reconhece que o espírito abatido pode ser resultado, não apenas de pressões externas, mas de apreensões internas. O que pode provocar o pouco respeito por si mesmo?
Alguns de nossos padrões de pensamentos são modelados por nossa criação. “Quando menina, eu nunca fui elogiada pelos meus pais”, confidenciou Sara. “Não consigo me lembrar de ter recebido alguma vez um elogio, senão depois de casada. Por conseguinte, eu buscava a aprovação dos outros. Tenho este terrível temor da desaprovação das pessoas.”
A intensa necessidade de aprovação, sentida por Sara, é um traço comum entre muitos que se tornam gravemente deprimidos. A pesquisa revela que tais pessoas tendem a basear seu respeito próprio no amor e na aprovação recebidos dos outros, em vez de nas suas próprias consecuções. Elas talvez meçam seu próprio valor pelo grau de afeição ou de importância que outrem lhes atribui. “A perda de tal apoio”, informa uma equipe de pesquisadores, “levará a uma redução do respeito próprio e isto contribui, significativamente, para acionar a depressão”.
Perfeccionismo
A preocupação exagerada em obter a aprovação de outros muitas vezes se expressa dum modo incomum. Explica Sara: “Eu me esforçava de fazer tudo certinho, de modo que pudesse obter a aprovação que não obtivera quando criança. No meu serviço secular, eu fazia tudo direitinho. Eu tinha de ter a família ‘perfeita’. Eu nutria esta imagem, e tinha de viver segundo ela.” Quando sofreu o acidente, contudo, tudo lhe parecia sem esperança. Acrescenta ela: “Eu cria estar conseguindo manter a família na direção certa e receava que, se eu não desempenhasse bem meu papel, eles fracassariam, e então as pessoas diriam: ‘Ela não é nem uma boa mãe, nem uma boa esposa.’”
O modo de pensar de Sara levou-a a grande depressão. Pesquisas feitas sobre a personalidade das pessoas deprimidas revelam que o caso dela não é ímpar. Margarida, que também sofreu profunda depressão, admitiu: “Eu me preocupava com o que os outros pensavam de mim. Era uma pessoa preocupada e organizada, perfeccionista e que era governada pelo relógio.” Fixar elevados alvos irrealísticos, ou ser uma pessoa exageradamente escrupulosa, e, apesar disso, não atingir suas expectativas, é a causa básica de muitas depressões. Eclesiastes 7:16 avisa: “Não fiques justo demais, nem te mostres excessivamente sábio. Por que devias causar a ti mesmo a desolação?” Tentar mostrar-se quase que “perfeito” perante outros pode levar à condição desolada, emocional e fisicamente. As frustrações também podem levar a um padrão destrutivo de auto-acusação.
“Não Consigo Fazer Nada Direito”
A auto-acusação pode ser uma reação positiva. Por exemplo, uma pessoa talvez seja roubada por andar sozinha numa localidade perigosa. Talvez se acuse por se ter metido em tal situação, decidindo mudar e, desta forma, evitar um problema similar mais tarde. Mas a pessoa poderia ir mais além e acusar-se por ser uma pessoa do tipo que é, dizendo: ‘Sou mesmo uma descuidada, que não consegue evitar meter-se em dificuldades.’ Este tipo de auto-acusação deprecia o caráter da pessoa e mina seu respeito próprio.
Um exemplo de tal auto-acusação destrutiva ocorreu com Maria, de 32 anos. Durante seis meses, ela nutriu ressentimentos para com sua irmã mais velha, por causa dum mal-entendido. Uma noite, ela criticou duramente a irmã pelo telefone. A mãe delas, ao saber o que Maria tinha feito, telefonou-lhe e repreendeu-a fortemente.
“Fiquei com raiva da mamãe, mas me senti ainda mais aborrecida comigo mesma, pois me dei conta de quanto havia ferido minha irmã”, explicou Maria. Pouco depois disso, ela gritou com seu filho de nove anos, que estava comportando-se mal. O garoto, que ficou muito aborrecido, disse-lhe mais tarde: “Mãezinha, parecia até que a senhora queria me matar!”
Maria ficou arrasada. Ela relatou: “Achei que eu era uma pessoa terrível. Pensei comigo mesma: ‘Não consigo fazer nada direito!’ Era só nisso que eu conseguia pensar. Daí comecei a entrar realmente em profunda depressão.” Sua auto-acusação provou-se destrutiva.
Significa tudo isto que toda pessoa que sofre de grande depressão tem pouco respeito próprio? Naturalmente que não. As causas são complexas e variadas. Mesmo quando o resultado é o que a Bíblia chama de ‘dor de coração’, existem muitas emoções que provocam isto, inclusive a ira, o ressentimento e a culpa pendentes — reais ou exageradas — e os conflitos não resolvidos com outros. (Provérbios 15:13) Tudo isso pode levar ao espírito abatido, ou depressão.
Quando Sara se deu conta de que seu modo de pensar era a causa básica de grande parte de sua depressão, de início ela se sentiu arrasada. “Daí, porém, senti certa medida de alívio”, confidenciou, “porque compreendi que, se meu modo de pensar causava isso, então meu modo de pensar também poderia corrigi-lo”. Sara disse que tal idéia a deixou excitada, explicando: “Compreendi que, quando eu mudasse meu modo de pensar sobre certas coisas, isto poderia influir em minha vida dali para a frente, para melhor.”
Sara fez as mudanças necessárias, e a depressão que sentia sumiu. Maria, Margarida e Isabel, semelhantemente, venceram sua luta. Que mudanças elas fizeram?
[Destaque na página 10]
‘Quando compreendi que meu modo de pensar causava minha depressão, isto me trouxe certo alívio e conforto, porque eu acreditava que também poderia corrigi-lo.’
[Quadro nas páginas 8, 9]
Depressão Infanto-Juvenil: “Gostaria de Não Estar Vivo”
Entrevista realizada com o Dr. Donald McKnew, do Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA, que já pesquisa este assunto por 20 anos.
Despertai!: Quão comum acha o senhor que é este problema?
McKnew: Recente estudo conduzido na Nova Zelândia, entre mil crianças e jovens, comprovou que, aos nove anos, cerca de 10 por cento deles já tiveram uma crise de depressão. E temos a impressão de que de 10 a 15 por cento das crianças e jovens em idade escolar têm distúrbios de humor. Uma porcentagem menor deles sofre de depressão profunda.
Despertai!: Como se pode saber se as crianças e os jovens estão sofrendo de depressão profunda?
McKnew: Um dos sintomas básicos é que não sentem prazer em nada. Não querem sair e brincar, ou estar junto dos amigos. Não demonstram interesse pela família. Observa-se a perda da capacidade de concentração; eles não conseguem fixar a mente nem mesmo em programas de televisão, quanto mais em seus deveres escolares. Nota-se um sentimento de desprezo por si mesmo, um sentimento pessoal de culpa. Eles andam dizendo por aí que não têm valor algum, ou que ninguém gosta deles. Eles não conseguem dormir, ou dormem em excesso; perdem o apetite ou comem demais. Além disso, expressam idéias suicidas, tais como: “Gostaria de não estar vivo.” Se observar um conjunto destes sintomas, e este já dura por uma semana ou duas, então estamos falando a respeito de uma criança ou jovem que sofre de depressão profunda.
Despertai!: Quais são as causas básicas que provocam a depressão infanto-juvenil?
McKnew: Quando se chega aos fatores específicos na vida de uma determinada criança ou jovem, a coisa principal é, provavelmente, uma perda sofrida. Ao passo que isto, em geral, significa a perda de um dos genitores, poderia incluir a perda de amigos, de parentes próximos, ou mesmo de um animal de estimação. Logo abaixo das perdas, eu colocaria o desapreço e a rejeição. Vemos uma tremenda quantidade de crianças ou de jovens cujos pais falam mal deles e os fazem sentir-se inferiores ou insignificantes. Às vezes, a criança ou o jovem se torna um bode expiatório. Leva a culpa de tudo que sai errado na família, quer ele seja culpado, quer não. Assim sendo, ele se sente indigno. Outro fator é o distúrbio de humor dum genitor.
Despertai!: O livro Why Isn’t Johnny Crying? (Por Que Johnny Não Está Chorando?), do qual o senhor é co-autor, declara que algumas crianças ou jovens deprimidos consomem tóxicos e cometem abusos alcoólicos, ou até mesmo apresentam um comportamento delinqüente. Por que isto se dá?
McKnew: Cremos que estão tentando ocultar sua depressão, até mesmo deles próprios. Seu modo de enfrentá-la é, muitas vezes, ocupar-se com outras coisas, como roubar carros, tomar tóxicos, ou beber. Estas são maneiras de disfarçar quão mal eles se sentem. Com efeito, tentar ocultar sua depressão é uma das formas mais claras em que as crianças ou jovens diferem dos adultos.
Despertai!: Exatamente como é que se sabe quando se trata duma depressão, e não de simples má conduta da criança ou do jovem?
McKnew: Por conversar com tais crianças ou jovens, e conseguir que eles se abram, muitas vezes se depara com a depressão. E se a depressão for devidamente tratada, o comportamento deles melhora. Embora outra coisa estivesse aflorando, a depressão estava subjacente, a todo o tempo.
Despertai!: Como é que se consegue fazer com que uma criança ou jovem deprimido se abra?
McKnew: Primeiro de tudo, escolha uma ocasião e um lugar tranqüilos. Então faça perguntas específicas, tais como: ‘Há alguma coisa que o incomoda?’ ‘Tem-se sentido triste ou melancólico?’ ‘Está aborrecido?’ Caso ele tenha sofrido alguma perda, poderia perguntar, dependendo das circunstâncias: ‘Sente falta da vovó tanto quanto eu?’ Dê à criança ou ao jovem a oportunidade de ventilar seus sentimentos.
Despertai!: Que sugeriria que crianças ou jovens muito deprimidos fizessem?
McKnew: Que falassem com seus pais a respeito. Este negócio de detectar a depressão é algo sério, porque, em geral, as crianças ou jovens são os únicos que sabem que estão deprimidos. Os pais e os professores geralmente não detectam isso. Tenho visto adolescentes que se dirigiram a seus pais e disseram: “Estou deprimido, preciso de ajuda”, e a obtiveram.
Despertai!: Como é que um genitor pode ajudar uma criança ou jovem deprimido?
McKnew: Se a depressão parece debilitante, então não é para ser tratada em casa, assim como uma pneumonia não seria. Uma depressão debilitante deve ser submetida a um profissional, porque talvez haja necessidade de medicação. Utilizamos a medicação em bem mais da metade de nossos casos, até mesmo em crianças de cinco anos. Tentamos também reajustar o modo de pensar da criança ou do jovem. E a depressão pode muito bem ser tratada por esses meios.
Despertai!: Se não for uma doença debilitante, que pode fazer um genitor?
McKnew: Fazer um honesto exame de si mesmo e de sua família. Será que houve alguma grave perda a enfrentar, e a respeito da qual se precisa conversar? Quando ocorrem perdas, não menospreze a tristeza da criança ou do jovem. Permita-lhe a liberdade de atravessar seu período de pesar. Dê à criança ou jovem deprimido especial dose de atenção, de elogios e de apoio emocional. Gaste tempo extra a sós com ele. O seu caloroso envolvimento é a melhor forma de tratamento.
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Como vencer a luta contra a depressãoDespertai! — 1987 | 22 de outubro
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Como vencer a luta contra a depressão
“TRAVARÁS a tua guerra com orientação perita”, declara Provérbios 24:6. A perícia, e não só boas intenções, é necessária para se vencer uma batalha. Por certo, se se sentir deprimido, não desejará, inadvertidamente, fazer algo que o faça sentir-se ainda pior. Por exemplo, um estudo realizado em 1984 entre pessoas deprimidas verificou que alguns tentavam enfrentar sua depressão por ‘descarregar a ira sobre outras pessoas, reduzindo a tensão por beberem mais, comerem mais, e tomarem mais tranqüilizantes’. Eis os resultados: “Mais depressão e sintomas físicos.”
Algumas pessoas deprimidas deixam de buscar orientação perita por temerem ser encaradas como tendo mente fraca. Todavia, uma grande crise de depressão não é sinal, nem de fraqueza mental, nem de falha espiritual. A pesquisa indica que este grave distúrbio pode sobrevir quando existe certa disfunção química do cérebro. Visto que uma doença orgânica pode ser a causa, se se sentir gravemente deprimido por mais de duas semanas, talvez seja aconselhável fazer um exame médico. Caso não se constate que nenhuma doença física contribui para tal problema, muitas vezes o distúrbio pode ser reduzido por se ajustar o padrão de pensamento, conjugado com a devida medicação ou os nutrientes apropriados.a Vencer a luta contra a depressão não significa que jamais sentirá de novo um pouco deprimido. A tristeza faz parte da vida. Todavia, orientar peritamente seus golpes o ajudará a enfrentar melhor a depressão.
O médico em geral prescreverá antidepressivos. Estes são fármacos destinados a acabar com o desequilíbrio químico. Isabel, já mencionada, tomava-os, e, dentro de semanas, seu humor começou a melhorar. “Ainda assim, precisei cultivar uma atitude positiva de colaborar com os medicamentos”, disse ela. “Com o ‘empurrãozinho’ do medicamento, eu estava decidida a ficar boa. Também mantive um programa diário de exercícios.”
No entanto, o uso de antidepressivos nem sempre dá resultado. Para alguns, surgem também efeitos colaterais problemáticos. E mesmo que a disfunção química seja corrigida, a menos que se corrija o modo de pensar da pessoa, a depressão pode voltar. A pessoa pode, contudo, obter grande alívio por estar disposta a . . .
Expressar Seus Sentimentos
Sara mostrava-se profundamente ressentida com a carga unilateral de responsabilidades familiares que tinha de assumir, além das pressões do seu serviço secular. (Veja página 7.) “Mas eu simplesmente encobria meus sentimentos íntimos”, explicou Sara. “Daí, certa noite, quando estava muito desesperada, telefonei para minha irmã mais moça, e, pela primeira vez na vida, comecei a extravasar meus sentimentos. Este foi um momento decisivo, visto que tal telefonema me trouxe grande alívio.”
Assim, caso se sinta deprimido, procure uma pessoa que demonstre empatia, que possa ser seu confidente. Esta pode ser o cônjuge, um amigo íntimo, um parente, um ministro religioso, um médico ou um conselheiro habilitado. Um dos essenciais no combate à depressão, segundo um estudo comunicado na revista Journal of Marriage and the Family, é “ter disponível um ajudador que o[a] apóie, com quem possa partilhar as tribulações da vida”.
Expressar seus sentimentos em palavras é um processo curativo que impede que sua mente tente negar a realidade do problema ou da perda, deixando assim este assunto sem solução. Mas, expresse seus reais sentimentos. Não se deixe inibir por um senso de falso orgulho, desejando ter a aparência duma pessoa inabalável diante da adversidade. “A ansiedade no coração do homem é o que o fará curvar-se, mas a boa palavra é o que o alegra”, declara Provérbios 12:25. Todavia, somente por se abrir é que outros podem começar a entender sua “ansiedade” e, assim, transmitir-lhe aquela “boa palavra” de encorajamento.
“Eu simplesmente queria um pouco de compreensão, quando telefonei para minha irmã, mas obtive muito mais”, relembra Sara. “Ela me ajudou a ver em que ponto o meu modo de pensar estava errado. Ela me disse que eu estava assumindo responsabilidades demais. Embora, de início, eu não quisesse ouvir isto, quando comecei a aplicar o conselho dela, pude sentir certo alívio da enorme carga que pesava sobre mim.” Quão verazes são as palavras de Provérbios 27:9: “Óleo e incenso são os que alegram o coração, também a doçura do companheiro que se tem, devido ao conselho da alma.”
É doce ter um amigo ou cônjuge que fala de modo direto e o ajuda a situar as coisas na sua devida perspectiva. Isto poderá ajudá-lo a focalizar apenas um problema de cada vez. Assim, em vez de tomar uma atitude defensiva, preze tal “orientação perita”. Talvez precise de alguém que, depois de várias palestras, possa oferecer-lhe alguns alvos de curto prazo que indiquem passos que possa dar para mudar ou modificar sua situação, de modo a reduzir ou eliminar a fonte da tensão emocional.b
Combater a depressão muitas vezes exige que se combatam sentimentos de pouco respeito próprio. Como se pode resistir com perícia a tais sentimentos?
Combater o Pouco Respeito Próprio
Por exemplo, Maria, como mostra o artigo anterior, ficou deprimida depois de alguns conflitos no seio da família. Ela chegou à seguinte conclusão: ‘Sou uma pessoa terrível e não consigo fazer nada direito.’ Isto estava errado. Se ela apenas tivesse analisado suas conclusões, poderia tê-las questionado, por meio do seguinte raciocínio: ‘Faço algumas coisas direito, e algumas errado, exatamente como as demais pessoas. Cometi alguns erros, e preciso esforçar-me em mostrar mais consideração, mas, não vamos criar uma montanha deste montículo.’ Tal arrazoamento teria deixado intacto o seu respeito próprio.
Com muita freqüência, aquela voz interior demasiadamente crítica que nos condena está errada! Alguns dos típicos pensamentos distorcidos, que geram depressão, são alistados no boxe acompanhante. Aprenda a reconhecer tais pensamentos errôneos, e a questionar mentalmente sua validez.
Outra vítima do pouco respeito próprio era Jean, uma mãe privada dum cônjuge, de 37 anos. “Fiquei sob grande tensão ao tentar criar dois meninos. Mas, quando vi outros genitores na mesma situação se casarem, pensei: ‘Deve haver algo de errado comigo’”, explicou ela. “Por ficar pensando apenas em coisas negativas, estas foram-se avolumando, e, eu acabei tendo de ser hospitalizada por causa de depressão.”
“Ao obter alta”, prosseguiu Jean, “li na Despertai! de 8 de março de 1982 uma lista de ‘Pensamentos Que Podem Predispor a Pessoa à Depressão’. Eu lia essa lista toda noite. Alguns dos pensamentos errados eram: ‘Meu valor como pessoa depende do que os outros pensam de mim’, ‘Nunca devo ofender-me; devo sempre ser feliz e ter serenidade’, ‘Tenho de ser uma mãe perfeita’. Eu tendia a ser perfeccionista, assim, logo que começava a pensar dessa forma, eu orava a Jeová para me ajudar a parar. Aprendi que o modo de pensar negativo conduz ao pouco respeito próprio, pois tudo que a pessoa vê são problemas em sua vida, e não o bem que Deus lhe tem proporcionado. Por obrigar-me a evitar certos pensamentos incorretos, eu me livrei da minha depressão.” Será que algumas de suas idéias, leitor, precisam ser questionadas ou rejeitadas?
É Tudo Culpa Minha?
Alexandre, embora se sentisse muitíssimo deprimido, conseguia lecionar a uma turma escolar. (Veja página 3.) Quando alguns de seus alunos se saíram muito mal num importantíssimo teste de leitura, ele pensou em suicidar-se. “Ele achou que tinha fracassado”, informou Ester, esposa dele. “Eu lhe disse que a culpa não era dele. Não se pode conseguir 100 por cento de êxito.” Mesmo assim, seu sobrepujante sentimento de culpa fechou-lhe a mente e levou-o ao suicídio. Amiúde, o sentimento exagerado de culpa é causado por se assumir uma responsabilidade irrealística pelo comportamento de outras pessoas.
Mesmo no caso dum filho, um genitor pode influenciar fortemente a vida do filho, mas não pode controlá-la de forma absoluta. Se algo não sair tão bem quanto você planejou, pergunte-se: Será que tive de enfrentar circunstâncias imprevistas, além do meu controle? (Eclesiastes 9:11) Será que fiz razoavelmente tudo que estava nos limites de meus recursos físicos, mentais e emocionais? Será que minhas expectativas eram simplesmente elevadas demais? Preciso aprender a ser mais razoável e modesto? — Filipenses 4:5.
Mas que fazer se você realmente cometer um grave erro, e isto acontecer exclusivamente por culpa sua? Será que continuar a afligir-se mentalmente mudará o erro? Não está Deus disposto a perdoá-lo, até mesmo “amplamente”, se você estiver genuinamente arrependido? (Isaías 55:7) Se Deus “não ralhará para sempre”, deveria sentenciar-se a uma vida de tormento mental por causa de tal erro cometido? (Salmo 103:8-14) Não é a tristeza contínua, mas dar passos positivos para ‘corrigir o erro’ que agradará a Jeová Deus, e também aliviará sua depressão. — 2 Coríntios 7:8-11.
‘Esqueça as Coisas Que Ficaram Para Trás’
Alguns de nossos problemas emocionais bem que podem estar arraigados no passado, especialmente se fomos vítimas de tratamento injusto. Esteja disposto a perdoar e esquecer. ‘Esquecer não é tão fácil assim!’, talvez esteja pensando. É verdade, mas é melhor do que destruir o resto de sua vida por ficar matutando naquilo que não pode ser desfeito.
“Esquecendo-me das coisas atrás e esticando-me para alcançar as coisas na frente”, escreveu o apóstolo Paulo, “empenho-me para alcançar o alvo do prêmio”. (Filipenses 3:13, 14) Paulo não ficou matutando no proceder errado que ele mantivera no judaísmo, inclusive até aprovando o assassínio. (Atos 8:1) Não, ele concentrou suas energias em habilitar-se para o futuro prêmio da vida eterna. Maria também aprendeu a não ficar refletindo no passado. Outrora, ela culpava a mãe pelo modo como esta a criara. A mãe dela tinha sublinhado a excelência e a beleza física; por causa disso, Maria era perfeccionista e tendia a ter ciúmes de sua atraente irmã.
“Este ciúme subjacente era a base dos conflitos, mas eu culpava a minha família pelo meu modo de agir. Então cheguei ao ponto em que pensei: ‘Realmente, que diferença faz de quem é a culpa?’ Talvez eu tenha algumas características ruins, por causa da forma como mamãe me criou, mas o ponto é fazer algo a respeito! Não continue a agir desse jeito.” Tal conscientização dos fatos ajudou Maria a fazer os ajustes mentais necessários a fim de vencer sua luta contra a depressão. —Provérbios 14:30.
Seu Real Valor
Considerando todos os fatores, a luta bem-sucedida contra a depressão requer que se tenha um conceito equilibrado de seu próprio valor. “Eu diria a cada um de vós”, escreveu o apóstolo Paulo, “não se avalie acima de seu valor real, mas faça uma sóbria avaliação de si mesmo”. (Romanos 12:3, Charles B. Williams) O falso orgulho, o ignorar nossas limitações, e o perfeccionismo são todos uma supervalorização de nós mesmos. É preciso resistir a tais tendências. Todavia, evite ir ao extremo oposto.
Jesus Cristo sublinhou o valor individual de cada um de seus discípulos, por dizer: “Não se vendem cinco pardais por duas moedas de pequeno valor? Contudo, nem mesmo um deles está esquecido diante de Deus. Mas, até mesmo os cabelos de vossas cabeças estão todos contados. Não temais; vós valeis mais do que muitos pardais.” (Lucas 12:6, 7) Valemos tanto para Deus que ele observa até mesmo o mínimo pormenor sobre nós. Ele sabe de coisas a nosso respeito que nós mesmos não sabemos, porque ele se importa profundamente com cada um de nós. — 1 Pedro 5:7.
Sara foi ajudada a melhorar seus sentimentos de valor pessoal por reconhecer o interesse pessoal que Deus tem por ela. “Sempre senti profunda reverência pelo Criador, mas, então, vim a compreender que ele se importa comigo como pessoa. Seja lá o que for que meus filhos façam, ou o que meu marido faça, apesar do modo como mamãe e papai me criaram, compreendi que possuía uma amizade pessoal com Jeová. Daí minha auto-estima realmente começou a crescer.”
Visto que Deus considera preciosos os seus servos, nosso valor não depende da aprovação de outro humano. Naturalmente, a rejeição é desagradável. Mas, quando usamos a aprovação ou desaprovação de outrem como a vara de medir pela qual avaliamos nosso próprio valor, estamo-nos tornando vulneráveis à depressão. O Rei Davi, um homem segundo o coração do próprio Deus, foi certa vez chamado de “homem imprestável”, literalmente, “homem de inutilidade”. Todavia, Davi compreendia que quem o chamara por tal nome feio tinha um problema, e não encarou tal observação como o ajuizamento final de seu próprio valor. Com efeito, como as pessoas muitas vezes fazem, Simei mais tarde pediu desculpas. Mesmo se alguém com justiça o criticar, reconheça isto como dirigido a algo específico que fez, e não a seu valor como pessoa. — 2 Samuel 16:7; 19:18, 19.
O estudo pessoal da Bíblia e de publicações bíblicas, feito por Sara, e assistir às reuniões das Testemunhas de Jeová, ajudaram-na a lançar a base para ela travar relações com Deus. “Mas minha atitude transformada sobre a oração foi a maior ajuda”, relembra Sara. “Eu costumava pensar que nós só orávamos a Deus a respeito de grandes coisas, e não deveríamos incomodá-lo com problemas insignificantes. Agora sinto que posso conversar com ele sobre qualquer coisa. Se estou nervosa por ter de fazer uma decisão, eu peço a ele que me ajude a manter-me calma e a ser razoável. Eu me achego ainda mais a ele, à medida que o vejo responder às minhas orações e me ajudar, no decorrer de cada dia e em toda circunstância provadora.” — 1 João 5:14; Filipenses 4:7.
Deveras, a certeza de que Deus tem interesse pessoal em você, que ele compreende suas limitações e que lhe dará a força para enfrentar cada dia, é a chave da luta contra a depressão. Todavia, às vezes, não importa o que você faça, a depressão subsiste.
Perseverar ‘De Hora em Hora’
“Já tentei de tudo, inclusive a suplementação nutricional e os antidepressivos”, queixa-se Eileen, mãe de 47 anos, que durante anos têm lutado contra forte depressão. “Aprendi a ajustar o modo de pensar errado, e isto me ajudou a ser uma pessoa mais razoável. Mas a depressão persiste.”
O fato de a depressão persistir não significa que você não a esteja combatendo de modo eficaz. Os médicos não sabem todas as respostas sobre como tratar tal distúrbio. Em algumas situações, a depressão é um efeito colateral de alguns medicamentos tomados para tratar uma grave doença. Assim, a utilização de tais remédios é um risco calculado, por causa do benefício que podem trazer no tratamento de qualquer outro problema de saúde.
Naturalmente, é de ajuda extravasar seus sentimentos para outra pessoa compreensiva. Todavia, nenhum outro humano pode realmente conhecer a profundeza de sua agonia. No entanto, Deus a conhece e o ajudará. “Jeová tem provido a força para que eu continue tentando”, revelou Eileen. “Ele não me deixou desistir, e me tem dado esperança.”
Com a ajuda de Deus, com o apoio emocional de outros, e com seus próprios esforços, você não será sobrepujado, a ponto de desistir. Com o tempo, poderá ajustar-se à depressão, assim como faria no caso de qualquer outra doença crônica. Perseverar não é fácil, mas é possível! Jean, cujas crises de grave depressão persistiram, disse: “Nós nem a encaramos numa base de dia a dia. Era mais numa base de hora em hora.” No caso tanto de Eileen como de Jean, a esperança prometida na Bíblia as fez ir avante. Qual é essa esperança?
Preciosa Esperança
A Bíblia se refere a um tempo, no futuro próximo, em que Deus ‘enxugará dos olhos [da humanidade] toda lágrima, e não haverá mais morte, nem haverá mais pranto, nem clamor, nem dor. As coisas anteriores já passaram’. (Revelação 21:3, 4) O Reino de Deus efetuará então a completa cura física e mental de todos os seus súditos terrestres. — Salmo 37:10, 11, 29.
Não será apenas a dor física que será removida, mas também desaparecerão a dolorosa angústia e a aflição do coração. Jeová promete: “Não haverá recordação das coisas anteriores, nem subirão ao coração. Mas exultai e jubilai para todo o sempre naquilo que estou criando.” (Isaías 65:17, 18) Que alívio para a humanidade será livrar-se das cargas do passado e despertar todo dia com mentes límpidas, e ansiosos de enfrentar as atividades do dia! Não mais os humanos serão estorvados pelo ofuscamento mental duma disposição deprimida.
‘Não havendo mais morte, nem pranto, nem clamor’, desaparecerá a sensação de perdas trágicas e das tensões emocionais diárias que agora conduzem à depressão. Visto que a benevolência, a veracidade e a paz permearão os tratos mútuos das pessoas, cessarão os conflitos amargos. (Salmo 85:10, 11) À medida que os efeitos do pecado forem removidos, que grande alegria será finalmente poder atingir, de forma perfeita, o padrão de retidão de Deus, e ter plena paz interior!
Esta perspectiva excitante é um grande incentivo para se continuar lutando, não importa quão intensa se torne a depressão. Pois, no novo mundo de Deus, os humanos aperfeiçoados obterão uma vitória absoluta sobre a depressão. Quão boas são estas notícias!
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