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Página doisDespertai! — 1982 | 8 de março
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Página dois
Quase toda pessoa tem momentos em que se sente triste. Mas milhões de pessoas sofrem de depressão mais séria. Qual a causa? Se você sofre de tal depressão, há alguma coisa que poderá fazer pessoalmente para obter alívio? Como pode a sua família ajudar? Estes artigos consideram esse assunto com um conceito renovado e positivo.
3 DEPRESSÃO MENTAL — “O PODER DA DOENÇA”
4 ESTÁ TUDO NA MENTE?
7 COMO COMBATER A DEPRESSÃO
11 COMO OUTROS PODEM AJUDAR
18 UMA SOLUÇÃO COMPLETA — É POSSÍVEL?
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Depressão mental — “o poder da doença”Despertai! — 1982 | 8 de março
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Depressão mental — “o poder da doença”
CERTO homem que sofria de depressão consultou um médico em busca de ajuda. A história continua dizendo que o médico, após fazer um exame cuidadoso, disse: “Você precisa de recreação; vá ouvir o comediante Grimaldi; ele fará você rir, e isso lhe será melhor do que qualquer remédio.” Com ar mais desalentado ainda, o homem respondeu: “Eu sou o Grimaldi!”
De fato ninguém está imune à depressão! E todo aquele que já sofreu disso sabe que não é assunto para rir. Todos nós atravessamos momentos de abatimento, talvez por causa de pesar, decepção ou cansaço. Mas, usualmente, em pouco tempo voltamos ao normal. Entretanto, às vezes a depressão se prolonga. Pode até chegar a ser destrutiva.
Por exemplo, Irene lutou três anos com esse distúrbio, que dizem que causa “mais sofrimento do que qualquer outra doença”. Num momento de extremo desespero, ela matou os filhos e depois a si mesma. No enterro dela, um rabi, ao tentar explicar o que sucedera a esta outrora dedicada mãe, disse: “Foi a doença que dominou tanto a ela como a sua vida.” Daí, fez uma pergunta arrepiante: “Quem pode compreender o poder da doença?”
Ela sofria de depressão intensa — um humor inflexível e destrutivo, que produz também sintomas físicos. O Dr. Leonard Cammer relata:
“A depressão pode acometer qualquer pessoa — uma dona de casa, um motorista de táxi, um homem de negócios, um professor, um jogador, uma atriz, um pedreiro, uma vendedora . . . e assim por diante. E ocorre em pessoas estáveis e maduras, em neuróticos e em crianças. Outrossim, pode ocorrer em qualquer nível econômico, social ou intelectual, e em todo tipo de personalidade.” — “Up from Depression.”
Pode ela influir em você ou nos seus entes queridos? As estimativas são de que cada ano uma pessoa entre 10 sofrerá de depressão clínica. Nos atuais “tempos críticos, difíceis de manejar”, um estudo efetuado pela Organização Mundial da Saúde revelou que 200 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem dessa “doença”. — 2 Tim. 3:1.
Embora a vasta maioria dos que padecem disso nunca chegue até o ponto em que Irene chegou, muitos concordam com alguém que antes sofria e explica como se sentia antes de encontrar alívio: “Nada era agradável. Sentia-me enlaçada num terrível pesadelo sem esperança de uma mudança. O tempo todo me sentia como se estivesse para perder a vida. Não queria morrer, mas não queria viver nessas condições tampouco.”
Qual a causa de tal sofrimento? Está só na mente?
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Está tudo na mente?Despertai! — 1982 | 8 de março
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Está tudo na mente?
O MÉDICO ouvia atentamente à medida que uma mulher deprimida ia descrevendo os sintomas que sentia — constantes dores de cabeça, irritabilidade, prisão de ventre, perda de apetite, insônia e contínuo cansaço. Ela tinha, às vezes, crises de choro e vontade de morrer. “Está tudo na sua mente”, disse o médico. “Enquanto você não se encontrar, não há nada que eu possa fazer. Aconselho-a terminantemente a consultar um psiquiatra.”
Embora bem-intencionado, este médico refletia um conceito comum. Contudo, como esta mulher que sofria de depressão intensa, muitos ficam aniquilados quando alguém lhes diz que seu sofrimento é o resultado unicamente de sua própria mentalidade. Não resta dúvida de que nossos pensamentos possam influir em nosso organismo — seja para o bem, seja para o mal. Entretanto, há também cada vez mais evidência de que um corpo doente pode afetar nosso modo de pensar.
Mas, antes de passarmos a considerar essa evidência, precisamos entender que o termo “depressão”a abrange uma larga escala de emoções (veja o quadro).
Como se Pode Saber?
“No tipo de depressão resultante, digamos, da morte de alguém na família, há certo alívio”, informou o Dr. Nathan S. Kline, diretor do Departamento de Higiene Mental do Instituto de Pesquisas de Rockland, do Estado de Nova Iorque, E.U.A., durante uma recente entrevista com um dos redatores de Despertai!. “Com uma boa refeição, uma bela lua ou outra coisa, há certo alívio. Na depressão intensa, não há alívio. A pessoa pode ganhar dinheiro ou ganhar as eleições para a presidência; isto não lhe traz nenhum prazer especial. O futuro parece sem esperança.”
Quais os sintomas do estado maníaco-depressivo? O Dr. Ronald Fieve, professor da Clínica Psiquiátrica da Faculdade de Medicina e Cirurgia da Universidade de Colúmbia, E.U.A., disse à Despertai!: “Tem de haver uma história por trás do fato de a pessoa sentir-se subitamente com elevado ânimo. A pessoa entra num estado anormal de otimismo em que fica superativa, fala muito, dorme menos e tem uma enorme quantidade de energia, nunca antes possuída. Essa súbita mudança pode durar de duas semanas a usualmente um ou dois meses. Daí, a pessoa volta a ter depressão profunda.”
Muitos cientistas acham agora que algumas formas de depressão profunda são acompanhadas de mudanças químicas específicas no cérebro e podem ser a causa delas. (Os diagramas acompanhantes explicam isso.) O processo é complexo, e quanto a isso há discordância entre os cientistas. Mas qual é a causa dessa confusão química? Muitos fatores diferentes.
A Relação Entre a Doença e a Depressão
“A depressão pode originar-se de bem delineados — ou, mais precisamente, de bem definidos — problemas orgânicos”, declara o escritor sobre assunto de medicina, Lawrence Galton. “Inclui infecções tais como a hepatite, a mononucleose e a gripe; distúrbios hormonais (glandulares) tais como das glândulas tireóideas, paratireóideas e supra-renais; malignidades, estados de carência, anemias e outros problemas do sangue.” — You May Not Need a Psychiatrist (1979).
Por exemplo, certa senhora havia sido tratada por 15 anos por causa de depressão grave, às vezes suicida. Foram-lhe administradas drogas antidepressivas e até mesmo terapia de eletrochoque, mas nada lhe trouxe alívio permanente. Finalmente, descobriu-se que seu problema era uma glândula paratireóidea enferma. Quando foi tratada com sucesso, ela melhorou. O problema fundamental era orgânico.
“Stress”
O esgotamento nervoso causado pelo stress pode também causar a depressão. Entre tais situações de stress os especialistas alistam: ‘casamento infeliz, vida em condição de extrema pobreza sem alívio, um chefe rude, conflito constante’ e tentar seguir uma rotina diária “que está claramente além da capacidade mental, emocional e física da pessoa”. Um ambiente sem amor, onde a pessoa se sente só, desanimada e sem esperança, pode também desencadear a depressão. Muitas pessoas se encontram em tais situações.
Um evento específico causador de stress, tal como a morte de alguém ou o divórcio, pode causar depressão intensa. Contudo, descobriu-se através de um estudo recente que, entre 185 indivíduos clinicamente deprimidos, apenas um quarto tinha passado pela experiência de um evento discernível causador de stress antes de sofrer de depressão. O Dr. Fieve, psiquiatra, acha que o evento causador de stress na vida “é simplesmente como a ponta de uma massa de gelo flutuante”.
Comparando uma pessoa deprimida com um carro que enguiça ao subir uma forte ladeira, o Dr. Kline diz o seguinte a respeito daquilo que ele crê: “Ora, em certo sentido, deu-se isto pelo fato de subir a ladeira. Por outro lado, se o motor estivesse em bom estado, o problema não teria acontecido. Portanto, o stress do meio ambiente pode desencadear o colapso, mas, para começar, tem de haver uma deficiência biológica, ou fraqueza no motor.”
Entretanto, é possível a própria mente poder causar esse desequilíbrio químico sem que haja uma deficiência orgânica antes?
O Papel Que a Mente Desempenha.
Há forte evidência de que muitas pessoas se recuperam, mesmo da depressão intensa, ajustando seu modo de pensar com a ajuda de conselheiros treinados. Isto dá a entender que em alguns tipos de depressão intensa o modo como a pessoa pensa ou o que põe na mente, e não alguma deficiência orgânica, é o que desempenha o papel importante.
Pesquisa recente demonstrou que o modo como pensamos pode influir na química de nosso cérebro. Por exemplo, num estudo efetuado em 1979, alguns pacientes que acabavam de extrair um dente do siso receberam injeções de uma solução salina, um placebo, e foi-lhes dito que isso aliviaria a dor. Apesar do fato de não ter essa injeção nenhuma propriedade analgésica, informou-se que um terço deles “teve dramaticamente alívio da dor”. Achou-se que as substâncias químicas (endorfinas) “analgésicas” do cérebro, que ocorrem naturalmente, foram acionadas pelos pensamentos da pessoa. Isto foi atestado quando se administrou outra droga que inibe os efeitos dos “analgésicos” naturais do cérebro. A dor voltou.
O poder da mente de reagir ao amor tem sido visto em numerosos casos. Em contrapartida, descobriu-se também que a ira, o ódio, o ciúme e outras emoções negativas produzem mudanças bioquímicas no organismo.
A Bíblia reconhece o papel importante que desempenham os nossos sentimentos íntimos e as nossas atitudes. Declara: “O espírito [os sentimentos e pensamentos íntimos] do homem pode agüentar a sua enfermidade; mas, quanto ao espírito abatido, quem o pode suportar?” (Pro. 18:14) Se o “espírito do homem” for “abatido” pelo modo errado de pensar (considerado nas páginas 8-10); se for esmagado pelo ciúme, pelo ressentimento ou por um peso na consciência, então a situação má se torna insuportável. Pode desencadear uma depressão intensa.
Também, se alguém alimentar a mente com pensamentos depressivos — talvez através da TV, de filmes ou de literatura pornográfica — isso pode afetar seu humor e causar depressão. Especialmente se a pessoa gasta regularmente muito tempo vendo TV, isto pode influir adversamente no seu conceito das coisas. Mas, no caso de outras pessoas, alguma outra coisa pode estar na raiz do problema.
Outras Causas Possíveis
“O cérebro é muito mais sensível às mudanças das concentrações plasmáticas [do sangue] de certos nutrientes do que outros órgãos”, declararam dois pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, E.U.A. Na obra, em inglês, A Nutrição e o Cérebro (Vol. 3,1979), estes médicos, Wortman e Wortman, publicaram matéria que indica o efeito que aquilo que comemos exerce sobre nosso humor e como certas deficiências de nutrição podem alterar o equilíbrio químico do cérebro e produzir a depressão.
Mesmo alimentando-se regularmente com refeições equilibradas — reduzindo-se ao mínimo as “guloseimas” — a pessoa ainda assim pode ter deficiências de nutrição que conduzem à depressão. Alguns medicamentos, os anticoncepcionais por via oral, as pressões sobre o organismo como a gravidez, a poluição e o stress excepcional — podem todos produzir deficiências de nutrição.
A alergia a certos alimentos ou a exalações de substâncias químicas e as mudanças hormonais na mulher têm causado depressão. Também, um estudo feito em 1.100 pacientes tratados por causa da hipoglicemia (baixa taxa de açúcar no sangue) revelou que 77 por cento destes se queixavam de depressão.
Portanto, há muitas causas da depressão além de apenas uma atitude errada. Uma pessoa gravemente deprimida pode sofrer de qualquer dessa combinação de fatores. A hereditariedade da pessoa e as experiências da infância também desempenham um papel. Todos esses fatores podem influir em como a pessoa reage a um acontecimento ou a um ambiente causador de stress.
Embora seja útil tentar entender as possíveis causas da depressão, uma pergunta ainda mais persistente dos que dela sofrem é: O que posso fazer para vencê-la?
[Nota(s) de rodapé]
a A nomenclatura empregada no quadro abaixo baseia-se, em parte, no Manual de Diagnóstico & Estatística dos Distúrbios Mentais, em inglês (3.ª edição. 1980)
[Fotos/Quadro na página 4]
OS VARIADOS SEMBLANTES DOS DEPRIMIDOS
Dor Moral e Desgosto
Um abatimento de ânimo por causa de algum acontecimento triste como a morte de alguém, divórcio, perda de emprego, problemas de saúde ou alguma outra situação que causa “stress”.
Depressão Crônica Moderada (Neurose Depressiva)
A tristeza continua. Há um sentimento geral de pessimismo e de dessatisfação. A pessoa está com fadiga e perde interesse pela família e pelos amigos. Há amiúde sentimento de inutilidade, ansiedade e ira.
Depressão Intensa
“A pessoa se sente no fundo do abismo”, disse um que sofria disso. Não há alívio. Os hábitos de dormir mudam; há perda de apetite. A pessoa se sente cheia de culpa e pode até desejar que estivesse morta. Há irresistíveis sentimentos de temor, ansiedade e incapacidade de concentrar-se. Isto pode em alguns casos alternar-se com períodos de comportamento normal.
Estado Maníaco-depressivo
Períodos de muita euforia — de passar tempo em farras, em trabalhar noite e dia, em atividade constante — seguidos de depressão profunda
[Diagrama/Quadro na página 5]
Nossos pensamentos fluem de uma célula nervosa para a próxima na forma de impulsos eletroquímicos. Um humor adequado depende de seu fluxo sem distorção. As extremidades dos nervos não se tocam. O impulso nervoso estimula a produção dos neurotransmissores químicos que ligam a lacuna e nosso pensamento continua sem distorção. O equilíbrio químico nesta área chamada de sinapse é vital.
[Diagrama]
(Para texto formatado, veja publicação)
impulso nervoso
célula nervosa
célula nervosa
impulso nervoso
neurotransmissores químicos
sinapse
receptores
impulsos nervosos continuam sem distorção
[Diagrama/Quadro na página 5]
O QUE PODE ACONTECER DE ERRADO
Uma abundância de certos neurotransmissores distorce o impulso nervoso, causando superexcitação e produzindo talvez o estado maníaco.
[Diagrama]
(Para texto formatado, veja publicação)
impulso nervoso
neurotransmissores químicos
impulso nervoso distorcido
Baixos níveis de certos neurotransmissores distorcem o impulso nervoso, resultando talvez em depressão.
[Diagrama]
(Para texto formatado, veja publicação)
impulso nervoso
neurotransmissores químicos
impulso nervoso distorcido
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Como combater a depressãoDespertai! — 1982 | 8 de março
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Como combater a depressão
“SE FOSSE possível fazer com que todas as pessoas deprimidas tão-somente fizessem exercícios”, disse Armand DiMele, do Centro DiMele de Psicoterapia (E.U.A.), “três quartos delas ficariam reanimados”. Outros concordam com isso quando se trata de alguém sentir-se triste momentaneamente e não com depressão intensa.a São também vitais o devido descanso e sono.
O que ajuda algumas pessoas levemente deprimidas é reservarem tempo para atividades que especialmente lhes agradam. Certa mulher que gosta de costurar disse: “É difícil a pessoa ficar deprimida sendo criativa.” Às vezes, só o que se precisa é mudar de ritmo — talvez comer fora alguma noite ou tirar um breve período de férias.
Abrir o coração a uma pessoa amiga e de confiança é de grande ajuda. Mas, cuidado com as suas associações — quer por contato direto, quer através da TV ou do cinema. Evite como praga os queixosos infelizes e os espetáculos que possam corromper a boa moral ou ferir a consciência da pessoa. — Pro. 17:17; 1 Cor. 15:33.
Entretanto, o que fazer se a depressão persistir?
Será a Alimentação?
Considere cuidadosamente a sua dieta. Barbara Reed, funcionária-chefe da fiscalização dos criminosos beneficiados com suspensão condicional da pena, de Cuyahoga Falls, Ohio, E.U.A., “explicou a um da equipe de redação de Despertai! que muitos dos contraventores sob sua jurisdição se queixavam de depressão. Ela examinou a dieta deles. Muitos viviam de “guloseimas”, não tomavam o café da manhã, e alguns passavam semanas sem comer hortaliças. Uma dieta melhor — refeições equilibradas e regulares — e exercícios ajudaram muitos a melhorar sua disposição mental. “Um deprimido de 20 anos de idade, que dava muito pouco valor a si mesmo e fora detido por vandalismo, vivia de ‘guloseimas’”, informou a Sra. Reed. Mas, com dieta melhorada e os devidos conselhos, melhorou de ânimo e de comportamento.
As opiniões das autoridades divergem quanto a se a dieta da pessoa causa depressão. Mesmo com a melhor alimentação possível, alguns ainda assim ficam deprimidos. Outros não melhoram com dieta melhor. Cada pessoa é diferente, e algumas são mais sensíveis do que outras a substâncias como o açúcar e a cafeína. Amiúde, porém, as refeições equilibradas, junto com a moderação ao consumir coisas tais como tortas, massas, chocolates, doces e refrigerantes, trarão recompensas às pessoas deprimidas.
Visto que a depressão grave pode ser um sintoma de disfunções orgânicas, é também importante fazer um exame médico completo.
São Corretos Seus Pensamentos?
Embora nem todos os casos de depressão resultem de um conceito errado, um recente estudo de 10 anos revelou que as pessoas deprimidas amiúde interpretam incorretamente as situações. “A pessoa deprimida sente-se triste e solitária porque pensa erroneamente ser incapaz e abandonada”, explica o pesquisador e Psiquiatra A. T. Beck. A Bíblia mostra também que a maneira como a pessoa se sente no íntimo pode afetar seu modo de pensar sobre assuntos externos. Diz: “Todos os dias do atribulado são maus; mas aquele que é bom de coração [que tem mentalidade alegre] tem constantemente um banquete.” Quanto a se para uma pessoa ‘todos os dias são maus’ ou são ‘todos os dias como um banquete’, depende em grande parte da sua mentalidade. — Pro. 15:15.
Portanto, as pessoas deprimidas precisam esforçar-se muito para corrigir seu modo de pensar e cuidar do que ponderam. Isto pode ser muito mais fácil de dizer do que de fazer! Alguns pensamentos prejudiciais, comuns a muitas pessoas deprimidas, estão alistados no quadro. Cada um deles é errado. Quando estes lhe vierem à mente, afaste-os logo. Remoê-los conduz à redução do amor próprio e a uma depressão mais profunda.
O excessivo sentimento de culpa usualmente é acompanhado de depressão. Mas, lembre-se de que todos cometem erros. “Se vigiasses os erros, ó Jah, ó Jeová”, disse o salmista, “quem poderia ficar de pé?” Ninguém! Todavia, pode-se obter de Jeová Deus o genuíno perdão de nossos erros e pecados. — Sal. 130:3, 4.
O Valor da Realização
Angustiada com a morte do marido e decepcionada com as promessas de consertar a sua casa, que outros fizeram, mas não cumpriram, certa viúva ficou profundamente deprimida. Mas, daí, pensou: ‘Os consertos não devem ser tão difíceis assim.’ Pôs-se a trabalhar e logo reladrilhou o piso da cozinha. Embora não fosse um trabalho perfeito, ficou satisfeita. Seu amor-próprio aumentou; desapareceu sua depressão.
Nem todos podem fazer isto, mas um estudo mostrou que, embora alguns pacientes gravemente deprimidos achassem que não seriam capazes de realizar certas tarefas, eles as realizaram tão bem quanto os participantes não-deprimidos.
As consecuções que uma pessoa deprimida poderia procurar realizar envolvem mais do que apenas serviço de casa. Por exemplo, podem incluir a tarefa de animar alguém por meio de uma visita ou um telefonema, ou por fazer alguma coisa boa para a própria família.
Certa mulher cristã deprimida visitou uma jovem senhora que havia sido recentemente surrada, estuprada e apunhalada de modo depravado. A cristã, embora deprimida, procurava com dificuldade visitá-la e consolá-la cada semana. Qual foi o resultado? “Gradualmente, não mais me sentia deprimida”, informou a mulher cristã. “A tentativa de encorajá-la com o tempo fez com que eu esquecesse meus próprios problemas.” Descobriu que era verdade o que Jesus dissera: “Há mais felicidade em dar do que há em receber.” — Atos 20:35.
“Irai-vos sem Fazer o Que É Errado”
Outro fator na depressão é como se reage quando irado, diz o psicólogo DiMele. “O que usualmente acontece é que a pessoa se sente irada com alguém, provavelmente por algum motivo aparentemente irracional. Entretanto, a pessoa acha que a ira não é coisa boa, pois foi-lhe ensinado que a ‘ira é ruim’. Portanto, começa a se incriminar porque está irada, e fica irada consigo mesma. Isto junto com o sentimento de incompetência produzem a depressão.”
Entretanto, dar incontrolada vazão à ira para com os outros não só é perigoso, mas, conforme demonstraram os estudos, tampouco alivia a depressão. A Bíblia acautela: “Irai-vos sem fazer o que é errado; que o sol não se ponha sobre a vossa ira [ou: “enquanto estais encolerizados”].” (Efé. 4:26, The Bible in Basic English; compare com a Tradução do Novo Mundo.) Se dispostos a expressar seus sentimentos sem receio e sendo francos, contudo bondosos, os deprimidos podem comunicar seus sentimentos de um modo que promova a paz. Tal comunicação franca é especialmente vital entre os cônjuges.
Entretanto, há algo melhor do que todas essas sugestões. Visto que o índice de suicídios entre os deprimidos é 25 vezes mais alto do que entre a população em geral, isto pode significar a diferença entre a vida e a morte. O que é?
A Oração e a Relação com Deus
“A única coisa que me impediu de apertar o gatilho e pôr fim a tudo”, confessou certa mãe que sofria de depressão intensa, “foi a relação que eu tinha com Deus. Estava com o revólver na mão e, naquele instante, Jeová Deus realmente me ajudou a pô-lo de lado” Sim, esta mulher encontrou força “além do normal” para perseverar até que seu estado clínico reagisse ao tratamento médico. Ela desenvolvera verdadeira fé através de seu estudo da Bíblia e assistência às reuniões cristãs, onde encontrara verdadeiros amigos. Esta fé salvou-lhe a vida. — 2 Cor. 4:7, 8; Fil. 4:13.
Um dos modos de Deus ajudar é por prover sua Palavra, a Bíblia, que mostra como se pode melhorar a vida em família; a maneira de se dar bem com os outros; como evitar uma conduta que possa criar ansiedade e sentimento de culpa; e a maneira de escolher tarefas e alvos na vida que valham a pena. Seguindo essas informações pode-se obter alívio de muitas situações que causam stress e desencadeiam a depressão. — Col. 3:5-14, 18-21; 1 Tim. 6:9, 10, 17-19.
Mesmo com fé forte, aquele que sofre de depressão pode ter dúvidas, talvez achando que Deus o abandonou. Mas jamais abandone a oração! “Eu orava cada dia — cinco a seis vezes intensamente”, disse certa mãe que estava tão deprimida que mal podia levantar-se da cama por diversos meses. “Implorei vez após vez por ajuda. Roguei que Jeová Deus me desse a orientação para encontrar um médico que descobrisse meu problema e pudesse ajudar-me. Orei pedindo forças para simplesmente prosseguir e manter as coisas suficientemente em ordem para que não causasse mais dano à minha família.” Essa persistência produziu efeito. Ela suportou até que um tratamento adequado aliviou a sua depressão intensa.
“Prevenção”
“O conselho mais importante que posso dar é a ‘prevenção’”, disse um que sofrera de depressão. Mas como? Não há respostas fáceis ou seguras. Algumas autoridades sugerem:
1. Não consolide seu senso de valores no amor, no dinheiro, na posição social, no poder ou nas drogas. Se fizer isso, a falha destes poderá ser arrasadora.
2. Tenha expectativas realísticas. Procure fazer o melhor que puder, mas não seja perfeccionista.
3. Reconheça os sintomas iniciais (ansiedade, terror pânico, incapacidade de concentração). Verifique se seu horário diário é razoável. Se não, ajuste-o. Aprenda a dizer “Não” quando necessário.
Entretanto, milhões de pessoas, apesar de muitas pressões pessoais, acharam que uma das maiores ajudas na prevenção da depressão é a aquisição de conhecimento exato da vontade e dos propósitos do “Pai de ternas misericórdias e o Deus de todo o consolo”. — 2 Cor. 1:3.
[Nota(s) de rodapé]
a Em edição posterior, Despertai! descreverá vários tipos de tratamento que ajudaram pessoas que sofriam de depressão intensa.
[Quadro na página 8]
PENSAMENTOS QUE PODEM PREDISPOR A PESSOA À DEPRESSÃO
□ Para ser feliz, tenho de ter sucesso em tudo o que eu empreender. Se não me distinguir, sou um fracasso.
□ Para ser feliz, é preciso que eu seja sempre benquisto por todos.
□ Meu valor como pessoa depende do que outros pensam de mim.
□ Não posso viver sem amor. Se meu cônjuge (namorado[a], pai ou mãe, filho[a]) não me amar, não tenho nenhum valor.
□ Se alguém discordar de mim, significa que não gosta de mim.
□ Tenho de ser amigo(a), pai (ou mãe), professor(a), estudante e cônjuge perfeito.
□ Preciso ser capaz de suportar qualquer dificuldade com disposição calma.
□ Tenho de ser capaz de encontrar uma solução rápida a todo problema.
□ Nunca devo ofender-me, devo sempre ser feliz e ter serenidade.
□ Nunca devo sentir cansaço ou adoecer, mas estar sempre no auge da eficiência.
Baseado, em parte, em “Terapia Cognitiva e os Distúrbios Emocionais”, em inglês, do médico Dr. A. T. Beck.
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Como outros podem ajudarDespertai! — 1982 | 8 de março
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Como outros podem ajudar
É DE suma importância que outros mostrem empatia pelos deprimidos — que se coloquem no seu lugar. O que isto significa foi demonstrado pelo seguinte caso. Um pai deprimido, após atacar violentamente a esposa, soluçou: “Eu não queria ser assim!” Ficou profundamente comovido pela resposta simples e compreensiva da esposa: “Sei que não, querido.”
O Dr. Ari Kiev, professor adjunto de uma clínica de psiquiatria, advertiu: “Quando as famílias vêem a depressão como resultado intencional, uma falta de vontade de combatê-la, então isso tende a aumentar a frustração do paciente. . . . E a pessoa verá atos suicidas.” Entretanto, acrescenta ele: “As pessoas poderão sobreviver melhor à depressão se elas e suas famílias a aceitarem como sendo uma doença que segue um curso autolimitante e que eventualmente passará.” Esse conselho é bom tanto para a família como para os amigos.
‘Falar Consoladoramente’
Alguns que sofreram de depressão intensa foram interrogados sobre que comentários dos outros os ajudaram mais. Disseram: “Compreendo”, “Nós gostamos de você”, “Sei que logo voltará a ser o que era”, “Você está com aparência muito melhor hoje” e “Não sei exatamente como se sente, mas pode contar conosco”. Certa mãe escreveu: “Simplesmente ouvir meus filhos dizer: ‘Nós precisamos de você’, era como uma injeção de ânimo.” Mas ela acrescentou: “A crítica indevida a uma pessoa que já está deprimida é como uma bala que transpassa a gente.” Quão prático é o conselho inspirado da Bíblia! Ela insta: “Falai consoladoramente às almas deprimidas, amparai os fracos, sede longânimes para com todos.” — 1 Tes. 5:14.
O que disseram outros que fere? Algumas das respostas foram: “Tenho pena de você”, “Ela só quer receber atenção” e “Não fique com pena de si; há outras pessoas mais doentes do que você e que não choram e nem se queixam”. Imagine como se sentiram estas pessoas com tais observações! “Existe aquele que fala irrefletidamente como que com as estocadas duma espada, mas a língua dos sábios é uma cura.” (Pro. 12:18) Não se trata de pessoas que tencionavam ferir os deprimidos ou dar-lhes “estocadas”, mas amiúde não refletiram antes de falar.
“A pessoa deprimida já está aborrecida consigo mesma, portanto não aumente seu sentimento de culpa corrigindo constantemente o que ela faz”, aconselha um psicólogo que trabalhou por mais de 20 anos com pessoas mentalmente perturbadas. “Ao invés de lhe dizer: ‘Por que não acaba simplesmente com isso’, talvez possa dizer: ‘Parece ser um verdadeiro problema para você, e eu não compreendo plenamente, mas gostaria de compreender o que você sente. Gostaria de ajudar.’ Esteja sinceramente interessado. A pessoa pode perceber se não estiver.”
Procure oportunidades de fazer um elogio genuíno. Seja específico: “Veja só como teve êxito em criar seus filhos”, “Você tem um bom jeito de fazer com que os outros se sintam bem”, e assim por diante. Ajude a pessoa a voltar a valorizar-se. Mas, acima de tudo . . .
Seja Bom Ouvinte
Usualmente, uma pessoa deprimida tem muito a dizer, mas amiúde se sente indigna de expressá-lo. Ela talvez ache que ninguém realmente está interessado em ouvir sobre seus problemas ou sentimentos. Disse uma mulher de 27 anos de idade, que sofreu por diversos anos crises de depressão: “Precisava de alguém que me ouvisse, não alguém que me desse sermão e me fizesse sentir que eu estava assim porque queria. Meus problemas eram reais!”
Esta jovem senhora, que tinha vontade de morrer, acrescentou: “Eu tinha alguns amigos a quem pude realmente abrir o coração. Embora eu não pudesse compreender plenamente meus próprios sentimentos, esta conversa me ajudou de fato.” Portanto, deixe que a pessoa deprimida “desabafe”. Não há necessidade de julgar tudo o que diz. Talvez faça algumas declarações que pareçam exageradas. Amiúde, ela realmente não está falando sério. Entretanto, se você for bom ouvinte e conseguir ganhar a confiança dela, talvez por meio de arrazoamento bondoso, passo a passo, possa corrigir seu modo de pensar. — Mat. 7:1.
“Amparai os Fracos”
“Os amigos ajudam; os outros têm pena”, é um antigo ditado. Certamente, os amigos genuínos e os membros da família, cujas circunstâncias permitem, tomarão medidas para amparar os que lhe são achegados e estão deprimidos. Dentro das congregações das Testemunhas de Jeová há homens espiritualmente qualificados que amiúde têm sido de muita ajuda para os deprimidos. Os deprimidos são convidados a buscar sua ajuda de empatia e amor. Um deprimido confessou: “Eu não fui orgulhoso demais para pedir ajuda.” — Tia. 5:14, 15.
Dependendo das circunstâncias, há muitas coisas que as pessoas podem fazer. Se o deprimido não puder dormir, fique acordado com ele. Se ele não quiser comer, não insista com ele, mas incentive-o com pequenas quantidades de alimento nutritivo, deliciosamente preparado. Se não quiser fazer exercício, então leve-o a um passeio a pé, ou empenhe-se com ele em alguma vigorosa atividade física. Ajudar assim o deprimido pode não ser fácil.
Certa mulher de um grande coração tem ajudado diversas pessoas gravemente deprimidas. Uma destas, a quem ela convidou para ir morar com ela até que melhorasse, estava passando momentos difíceis. Mui calorosamente, Doreen disse a essa jovem senhora: “Ponha o casaco, o chapéu e as botas.” Mas ela respondeu: “Eu não quero ir passear.” “Eu lhe disse bondosamente, mas com firmeza: ‘Sim, você vai. Ponha-os’”, explicou Doreen. “Ela fez isso. Caminhamos uns seis quilômetros. Quando voltamos, ela estava cansada, mas sentia-se melhor. Ninguém acredita quão útil é o exercício vigoroso até que se faça a pessoa executá-lo. Só então é que se acredita.”
O amparo pode também significar ajudar a pessoa gravemente deprimida a encontrar a adequada ajuda médica. No caso de depressão intensa, a pessoa talvez precise da ajuda de pessoas especializadas em lidar com a doença. Há uma variedade de tratamentos disponíveis hoje.
Outras ações úteis relatadas pelos deprimidos foram: “Não convidar muitos visitantes; impedir que outros façam barulho desnecessário — como música alta.” “Visitas breves da parte de pessoas genuinamente interessadas são úteis.” “Minha família ficava de olho em mim, telefonando-me regularmente, levando-me para passear, até mesmo ajudando-me às vezes a me vestir.”
Amiúde, é uma questão de estar à disposição e mostrar amor. Certa mulher que sofreu de depressão relatou o que a fez sobreviver aos nove meses em que estava “enlaçada num terrível pesadelo”. Certa vez, soluçando, ela disse ao marido: “Não agüento mais! Não estou melhorando. Estou indo por água abaixo!” Ele respondeu com ternura: “Se você está indo por água abaixo, eu também vou junto com você!” Refletindo sobre isto, a mulher disse: “Em resumo — ele estava sempre à minha disposição.”
Sim, o amparo genuíno, acompanhado de palavras consoladoras, e um ouvido atento são a melhor ajuda que outros podem dar às “almas deprimidas”.
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Uma solução completa — é possível?Despertai! — 1982 | 8 de março
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Uma solução completa — é possível?
“IMPOSSÍVEL!” dizem alguns. “Ora, para livrar a terra da depressão completamente seriam necessárias grandes mudanças. Já por milhares de anos vem existindo a depressão, e o futuro parece indicar que existirá por muito tempo.”
Pense só em apenas algumas condições que contribuem para a depressão — um meio ambiente opressivo, atritos em nossas relações com outros, péssimas condições de vida, fraquezas e sentimento de culpa no íntimo, bem como enfermidade. Parece impossível corrigir todas estas coisas.
Promessas Animadoras
A Bíblia promete que Deus usará seu Filho glorificado, Jesus Cristo, como Rei celestial para acabar com o ambiente atual que causa depressão. A Bíblia declara profeticamente: “Esmigalhe [o rei de Deus] o defraudador. Pois livrará ao pobre que clama por ajuda, também ao atribulado e a todo aquele que não tiver ajudador. Terá dó daquele de condição humilde e do pobre, . . . Resgatará sua alma da opressão e da violência.” — Sal. 72:4, 12-14.
Terá desaparecido para sempre um sistema mau que fomentou a crueldade, a insensibilidade e a opressão. Imagine que alívio há de ser! Mas a Bíblia promete também alívio das pressões no íntimo. Desaparecerão os efeitos do pecado e da imperfeição. (Rom. 8:20-22; Rev. 21:3, 4) As doenças e indisposições — inclusive a depressão — hão de acabar. Os sentimentos de culpa e de inutilidade darão lugar à autovalorização, visto que as pessoas poderão então estar perfeitamente à altura das normas de Deus sobre a maneira de viver. As relações com os outros refletirão perfeita compreensão e amor.
Outras promessas da Bíblia já se cumpriram com precisão. Os eventos atuais estão cumprindo as profecias da Bíblia escritas há quase 2.000 anos. (Mat. 24:3, 7-14; 2 Tim. 3:1-5) A qualidade prática das passagens da Bíblia já referidas nesta série de artigos mostra evidência de grande sabedoria. Não lhe parece lógico que se originaram com uma Fonte que realmente conhece nossa constituição — emocional e física — a saber, Deus?
Milhões de pessoas em mais de 200 países estão convencidas de que todas estas promessas de Deus serão em breve realizadas. Esta esperança as sustém mesmo durante uma grave depressão. “Sabendo que estes problemas logo acabarão e pensando nas maravilhosas condições que prevalecerão na ‘nova terra’, fui levando a vida”, disse uma pessoa que suportou uma longa luta contra a depressão. — 2 Ped. 3:13.
Esta confiança, junto com o esforço sincero de pôr em prática o que a Bíblia diz sobre nossa conduta, traz felicidade duradoura. As Testemunhas de Jeová estão mais do que dispostas a ajudá-lo a consolidar tal convicção. Ajudá-lo-ão a se achegar mais a Deus, que é descrito como sendo capaz de “reanimar os humildes, e vivificar os de coração quebrantado”. — Isa. 57:15, Missionários Capuchinhos.
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