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Que diz a libertação feminina?Despertai! — 1972 | 22 de novembro
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Que diz a libertação feminina?
“A DISPOSIÇÃO encoberta das mulheres nos Estados Unidos hodiernos é de conflito, frustração, de profunda divisão e mudança.”
Essa conclusão provém de uma enquête feita tanto a homens como a mulheres. Reflete a disposição difundida entre as mulheres em várias partes do mundo, em especial nos EUA.
Dizemos com isso que, antes de nossos tempos, todas as mulheres viviam contentes com seu quinhão na vida? Não, porque, durante séculos, muitas delas tinham suas queixas. Então, o que há de diferente na situação hoje?
O que é relativamente novo é quão ampla é a área da vida que as queixas abrangem e quão persistente é o clamor. Também, a partir da segunda metade dos anos 60, muitas mulheres começaram a se organizar e tomar medidas definidas, como nunca antes. Exigem agora mudanças para corrigir o que afirmam ser injustiças amplas contra seu sexo. Afirmam que já se foram os dias em que se submeterão passivamente a elas.
Este movimento recebeu em geral o nome de “Libertação Feminina”. Um dicionário define a palavra libertação como ficar livre da escravidão, a qualidade ou estado de ser livre, ter os direitos legais e políticos de um cidadão. As que advogam a libertação feminina são às vezes chamadas de “feministas”.
Que espécies de liberdades almejam as mulheres deste movimento, Ao passo que as liberdades que desejam variam em pormenor de um grupo de mulheres para outro, há diversas tendências principais entre as que apóiam o movimento. Uma é seu ressentimento contra serem tratadas apenas como objetos da satisfação sexual dos homens, ao invés de serem tratadas como pessoas. Os homens que consideram as mulheres desta forma são chamados “sexistas”. Também, tais senhoras objetam à crença excessiva ou cega na superioridade masculina, chamando a isto de “chauvinismo masculino”.
Outra objeção forte é que, quando as mulheres trabalham em troca dum salário, usualmente não recebem o mesmo pagamento que os homens que efetuam o mesmo trabalho. Também, consideram injusto que as mulheres sejam excluídas de muitas ocupações e posições dominadas pelos homens.
Algumas senhoras exigem direitos iguais no lar. Desejam que os maridos partilhem igualmente as tarefas domésticas, de modo que a esposa possa trabalhar fora. Consideram as tarefas domésticas como algo ‘inferior’ e preferem trabalhar fora em empregos que consideram mais interessantes, desafiadores ou até mesmo mais ‘encantadores’.
Muitas senhoras exigem o direito de obter um aborto legal, se quiserem por fim a uma gravidez. Acham que isto as livraria da escravidão a outra pessoa, o filho indesejável.
Outra exigência é que as agências governamentais estabeleçam centros para cuidar das crianças. As mães que trabalham fora como arrimo de família desejam que outrem cuide de seus filhos. Preferem trabalhar fora em troca dum salário decente do que aceitar o seguro social e viver à mingua. Desejam, porém, algum arranjo para cuidar de seus filhos.
Dezenas de milhares de senhoras já marcharam pelas mas das cidades a fim de tornar conhecidas suas demandas. Em Nova Iorque, umas sessenta mulheres ‘apoderaram-se’ da Estátua da Liberdade e a revestiram de uma faixa que dizia: “Mulheres do Mundo, Unidos!” Segundo uma dessas senhoras, foi escolhida a Mis Liberdade por “ser irônico que uma mulher represente a idéia abstrata de liberdade, mas, em realidade, não somos livres”.
Na Holanda, um grupo de mulheres pôs fogo num espartilho diante da estátua duma famosa sufragaste holandesa. Daí, atacaram os lavatórios públicos de homens para dramatizar sua queixa de que não havia tais lavatórios para mulheres. Assobiaram para os homens que passavam nas esquinas e discutiram em altas vozes seus pontos bons e ruins. As mulheres holandesas exigiram igual paga para as mulheres, igual divisão dos deveres domésticos entre o marido e a esposa, abortos legalizados, educação sexual nas escolas e pílulas anticoncepcionais para as adolescentes.
As norueguesas deixaram abalados os homens de seu país por se apresentarem em grandes números para votar em prol de suas próprias candidatas femininas nas eleições locais. Numerosas câmaras municipais vieram a ficar sob seu controle, nos lugares em que suas candidatas obtiveram a maioria. Isto incluiu as câmaras em duas das maiores cidades da Noruega.
Diferenças de Opiniões
No entanto, não devemos pensar que a libertação feminina seja um movimento unificado, internacional, sob um controle central. Há muitos grupos e pessoas envolvidas, e amplas diferenças de opinião entre eles. Há desacordos entre as mulheres de diferentes países e formações raciais. Até mesmo numa nação ou grupo racial, há amplas áreas de desacordo.
Exemplificando, algumas desejam elevar as mulheres a posições de poder na sociedade hodierna por cooperarem com as “Instituições”. Mas, outras desejam derrubar por completo a sociedade estabelecida e substituí-la por uma ordem diferente. Ao passo que algumas desejam mais equalidade no casamento, outras desejam abandonar por completo o casamento. Há aquelas que desejam total liberdade sexual, inclusive a aceitação do lesbianismo para as mulheres e o homossexualismo para os homens. Mas, outras objetam a esse tipo de liberdade sexual.
As mulheres do movimento não estão seguras de qual a direção em que devem ir. The National Observer comentou as reuniões das mulheres na libertação feminina: “Os diretórios estavam repletos de discussão. Em um deles, um grupo de jovens . . . começaram a gritar com outras delegadas sobre normas políticas e estratégia.” Uma senhora protestou: ‘Olhem, eu não guiei 800 quilômetros até aqui para discutir.’
Ao passo que os desacordos são comuns, ao mesmo tempo as senhoras avisam que a profundeza e a amplitude de seus sentimentos não devem ser subestimadas. Outros concordam. Comentou The National Observer: “Para aqueles que ainda não o fazem, já é tempo de levar a sério a libertação feminina.”
Isto se dá porque, ao passo que há desacordo entre as pessoas que favorecem a libertação feminina, as áreas de acordo são ainda mais fortes. Por exemplo, na Europa, o clamor tem o mesmo tom que nos EUA: que as mulheres são cidadãos de segunda classe e sofrem discriminação no casamento, na educação, no treinamento vocacional e nos empregos. Elas, também, exigem igual pagamento por igual trabalho, reforma em prol do aborto, jardins de infância e centros para o cuidado diurno.
O que dizer, então, das afirmações dos que apóiam o movimento de libertação feminina? É válido seu argumento? Há alguma verdade naquilo que dizem?
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Há alguma verdade naquilo que dizem?Despertai! — 1972 | 22 de novembro
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Há alguma verdade naquilo que dizem?
SERIA fácil rejeitar a libertação feminina como sendo inteiramente um produto de senhoras que simplesmente gostam de se queixar. Muitos homens pensam assim a respeito disso.
Todavia, escreveu um sábio: “Quando alguém replica a um assunto antes de ouvi-lo, é tolice da sua parte e uma humilhação.” — Pro. 18:13.
Se sentisse dor no corpo, apreciaria o médico que lhe mandasse embora dizendo que era apenas um queixoso? Ou gostaria que ele analisasse o problema e lhe dissesse qual é a causa e se há um remédio?
Outro princípio bíblico afirma: “Quanto àquele que tapa seu ouvido contra o clamor queixoso do de condição humilde, ele mesmo também clamará e não se lhe responderá.” — Pro. 21:13.
Assim, o sábio ouve. Pesa os fatos para discernir se a queixa é válida ou não. Daí, age de acordo.
Que Motivo Há de Queixa?
Se passar os olhos sem preconceitos pela História, será obrigado a concordar que as mulheres têm muitos motivos de queixas.
Através da História, o poder político, econômico e religioso tem estado mormente nas mãos dos homens. Mas, o resultado tem sido uma triste repetição de brutalidade. A respeito apenas da Segunda Guerra Mundial, declara a World Book Encyclopedia: “Calculou-se que os mortos civis e militares totalizaram 55 milhões. . . . Os civis sofreram as maiores perdas. . . . por bombardeios, massacres, emigrações forçadas, epidemias, e subnutrição.
Naturalmente, não se pode dizer que as coisas teriam sido melhores se as mulheres fizessem todas as decisões. Quando as mulheres governaram algumas nações, as coisas realmente não eram diferentes. Leia a história sobre Cleópatra do Egito, Zenóbia de Palmira, Maria I (“Maria Sanguinária”) da Inglaterra, ou Maria Stuart, a Rainha da Escócia. Verificará que sua regência não representou melhora.
Todavia, permanece o fato de que os homens têm sido os responsáveis primários pelas guerras. Também, as armas de guerra foram quase que todas inventadas pelos homens. As mulheres presenciaram a destruição de seus lares, a morte ou aleijamento de seus entes queridos. A medida que os exércitos varriam grandes áreas, as mulheres aos milhões eram brutalizadas. Incontáveis números foram violadas.
Por outro lado, quanto protestam as mulheres em qualquer dos lados da guerra? Em ambas as guerras mundiais, por exemplo, não eram as alemãs tão laboriosas em ajudar seu esforço de guerra como as inglesas ou as estadunidenses? Quando foi a última vez que ouviu dizer que a maioria das mulheres se recusaram a apoiar as guerras de uma nação? Algumas das maiores promotoras de certos esforços de guerra têm sido as mulheres.
É verdade, contudo, que nos vários países muitas senhoras têm sido tratadas pouco melhor do que os animais ou os escravos através da História. Entre outras coisas, ensinaram-lhes a cometer suicídio quando seus maridos morriam, a prender e deformar seus pés, não lhes permitiam comer à mesma mesa que os homens, ou foram vendidas pela melhor oferta, sem se considerar seus sentimentos. E até em tempo de paz, milhares de mulheres são violadas a cada ano. A lista dos atos opressivos contra as mulheres é longa, não se pode negar isto.
Até mesmo em muitas sociedades ‘avançadas’, atualmente, as mulheres deveras sofrem formas de discriminação. O Times de Nova Iorque declarou: “A lei estadunidense, com suas raízes na sociedade medieval, que considerava as mulheres como bens móveis, e com aprimoramentos adicionados por gerações de legisladores e juízes masculinos, apresenta muitas modalidades que se poderia dizer que negam às mulheres a igual proteção perante as leis.”
No estado de Nova Iorque, as jovens consideradas “como precisando de supervisão”, podem ser presas até que tenham dezoito anos. Mas, a idade de livramento para os rapazes é de dezesseis anos. Sally Gold, advogada do Departamento dos Assuntos dos Consumidores, diz que “uma jovem de 16 anos poderia . . . ser colocada num reformatório até por quatro anos, por comportamento promíscuo”. “Não existe tal noção para os rapazes”, afirma. Um rapaz de dezesseis anos que fosse igualmente promíscuo não poderia ser punido.
O Que Dizer da Vida Familiar?
Mais mulheres se queixam de seu papel na vida familiar. Há alguma verdade em suas afirmações? O psicólogo de Cornell, Urie Bronfenbrenner afirma:
“Tenho muita simpatia pela ira e frustração refletidas no movimento de Libertação Feminina. Não só as mulheres sofrem discriminações no chamado mundo masculino, mas também têm sido privadas do prestígio em seu papel como mulheres.
“Costumava acontecer que a mãe era apreciada em sua vizinhança por ter criado bem os seus filhos. Agora, a mãe ainda é responsável por seus filhos, mas não obtém suficiente apoio nem reconhecimento. Seu marido está ausente a maior parte do tempo, e suas vizinhas amiúde não são realmente suas amigas.
“Estamos criando uma situação em que as mulheres se sentem frustradas em ambos os mundos.”
Muitos pais transferem a responsabilidade de treinar seus filhos para a mãe. Em resultado, a mãe tem de fazer decisões e cuidar de assuntos que o marido deveria cuidar. Sobre isto, disse a revista Look:
“A mulher estadunidense é acusada de substituir o marido qual cabeça da família. Na mente dela, ela enfrenta esta acusação contra-atacando que ela dificilmente conhece uma família em que a mãe não lute — em vão — para que o pai faça as decisões importantes nas vidas dos seus filhos, exerça a disciplina, seja um modelo de masculinidade para seus filhos. . . .
“Por livre escolha, e debaixo dos protestos da esposa, ele deixa as decisões vitais sobre as vidas de seus filhos — sua instrução escolar, suas instruções sexuais, sua educação moral e religiosa — para a mãe deles. Ele diz que ela ‘sabe mais sobre estas coisas’ do que ele, mas, mesmo ao dizer isto, está inteiramente convencido de que sua esposa lhe priva da autoridade no lar.”
Visto que muitos homens abdicam de suas responsabilidades familiares, há pessoas na libertação feminina que afirmam que a família está ultrapassada e deve ser abandonada. Mas, melhorariam as coisas? O Dr. Paul Popenoe, do Instituto Estadunidense de Relações Familiares, declara: “Nenhuma sociedade conseguiu sobreviver depois de deteriorar sua vida familiar.” O Professor Emérito de Harvard, Carie Zimmerman disse a respeito da decadência da vida familiar na antiga Grécia e Roma: “Em cada caso, a mudança da fé e da crença nos sistemas familiares associava-se . . . a enormes crises nas próprias civilizações.
Abandonar o arranjo familiar seria o mesmo que ‘jogar fora o bebê junto com a água suja do seu banho’. O fato de que muitas famílias são felizes e deveras enfrentam seus problemas demonstra que a culpa não cabe ao arranjo familiar. Cabe às pessoas que são egoístas demais ou não se dispõem a fazer sua parte.
O Que Dizer da “Igualdade”?
Em quase todo campo, a mulher que tem um emprego não recebe o mesmo pagamento que o homem que faz o mesmo trabalho. Esta é uma dureza especial para as mães que têm de trabalhar fora como arrimo de suas famílias.
Devido a tais desigualdades, algumas senhoras exigem agora que haja completa igualdade com os homens em todas as esferas da atividade humana. Todavia, quais seriam as conseqüências, se a igualdade total vigorasse?
Se as mulheres gozassem de completa igualdade com os homens, os governos convocariam as mulheres para lutar nos campos, nas selvas e nas trincheiras em tempo de guerra. Certa vez, quando a correspondente do Times de Nova Iorque, Gloria Emerson, estava em Khesanh, Vietnam do Sul, o local foi bombardeado pelas tropas norte-vietnamitas. Ela fugiu para um abrigo ocupado por soldados estadunidenses. Depois disso, ela declarou: “Naquele momento solitário, tornei-me tão igual aos homens como jamais pensei em ser. Teria prazerosamente compartilhado o horror disso com as advogadas tremendamente elegantes da libertação feminina.”
A igualdade em todo sentido acabaria com as leis saudáveis que governam o tipo de trabalho que se pede que as mulheres façam. Se for mulher, realmente apreciaria a igualdade com os homens em tirar carvão duma mina a centenas de metros no subsolo se os homens fizessem sua parte das tarefas domésticas? Desejaria realmente passar um tempo igual arando os campos e ajuntando estrume junto com seu marido lavrador, se concordasse em lhe ajudar a cozinhar e manter a casa limpa? Será isso que prefere?
Ainda assim, certas senhoras afirmam que é injusto que lhes seja atribuído o ‘monótono’ serviço doméstico. Mas, outras mulheres acham que é um desafio para elas cuidar duma casa, preparar menus, arranjar os móveis e decorações, e ajudar a moldar as mentes dos filhos. Para aquelas que acham isto monótono, muitos homens perguntam: Quantos serviços de escritório ou de fábrica para os homens são ‘encantadores’ ou ‘excitantes’? A maioria deles são monótonos, frustradores e insatisfatórios. Os homens usualmente acham-se presos a um horário rígido, e, se se desviarem disso, põem em perigo seus empregos. Muitos deles invejam a tabela mais flexível de suas esposas no lar.
Dentre todas as esposas ou mães que trabalham fora que conhece pessoalmente, quantas prefeririam continuar trabalhando se não precisassem do dinheiro? Muito poucas mulheres preferem
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