Um mundo sem soluções
AS PESSOAS humanas são criaturas esperançosas. Depois de repetidos desapontamentos, ainda têm esperanças. Em circunstâncias desesperadoras, continuam a nutrir esperança. Como certa vez disse um poeta: “A esperança brota eternamente no peito do homem.”
Este persistir da esperança em parte alguma é mais evidente do que nos governos humanos. Um após outro fracassa, mas as pessoas estão sempre prontas a depositar esperanças no governo seguinte. Isso já acontece por milhares de anos. Monarquias, impérios, ditaduras, repúblicas e democracias capitalistas ou comunistas — todos já foram experimentados, mas todos fracassaram.
Até mesmo governos mundiais foram experimentados. A Liga das Nações tentou e fracassou. As Nações Unidas tentaram e estão fracassando. Mas as pessoas ainda nutrem esperanças, estando prontas a depositar esperança em algo e em tudo — em tudo mesmo, parece, menos na única esperança segura.
O MUNDO em que vivemos é um mundo sem soluções. Seis mil anos de história humana atestam isto. Nem o atual mundo fascinante da ciência apresenta soluções para as prementes questões que pairam sobre a cabeça desta geração. Considere algumas das muitas existentes.
Nenhuma solução para a guerra
Por séculos a fio, antes de nossa Era Comum, e até o fim da Segunda Guerra Mundial, houve comparativamente poucos anos de paz, embora se firmassem e rompessem milhares de tratados de paz. A Primeira Guerra Mundial deveria tornar o mundo seguro para a democracia. Custou 14 milhões de vidas, mas não garantiu a democracia. A Segunda Guerra Mundial deveria livrar a Terra de ditadores, mas, ao ceifar 55 milhões de vidas, não realizou isso. Desde então, 30 milhões de pessoas já morreram em dezenas de guerras, e outros milhares estão expirando nos atuais conflitos.
Muito mais aterrorizador ainda é que há atualmente uma corrida de armas nucleares. As nações envolvidas gastam mais de um milhão de dólares [uns Cr$ 6 bilhões] por minuto. Uma guerra nuclear, porém, poderia provocar um “inverno nuclear”. E este, segundo muitos cientistas, poderia pôr fim à vida humana na Terra.
Nenhuma solução para a fome
Milhões morrem de fome a cada ano. As estatísticas variam de 20 a 50 milhões — e a expressão “morrer de fome” tem de englobar também os milhões que morrem de desnutrição e de doenças que seguem seu rastro. Na África, o rápido crescimento populacional significa mais matas devastadas em busca de lenha, e a terra desnudada de vegetação significa menos chuva e a perda do solo arável, o que significa escassas colheitas. A respeito da África, o presidente do “Worldwatch Institute” afirmou em data recente: “Talvez estejamos no limiar de um drama humano que difere de tudo que já provamos antes.” Para a África sofredora, não existem soluções em vista. Mesmo nos opulentos Estados Unidos, a fome já foi declarada epidêmica — 20 milhões de pessoas estão envolvidas. Em todo o mundo, 450 milhões estão à beira da inanição.
Esforços maciços de socorros ficam enredados na burocracia. Nega-se o alimento aos famintos, e, em vez disso, este é utilizado em manipulações políticas ou militares. Os “tubarões” também desviam o alimento dos estômagos vazios para inchar suas ricas bolsas. Há dois anos, o Banco Mundial calculava que, na próxima década, seriam necessários uns US$ 600 bilhões apenas para conter a fome nos níveis atuais. Mas, à medida que crescem as populações, e ampliam-se os desertos, a fome se intensifica. A perspectiva é lúgubre, sem que haja soluções à vista.
Nenhuma solução para a doença
A ciência médica tem feito muito para combater as doenças, mas o quadro não é tão cor-de-rosa como o previsto, em 1975, por um dos principais cientistas do mundo: “Desconheço qualquer problema de saúde que não possamos resolver no futuro próximo.” Dez anos depois, a luta não só está longe de ser vencida, mas perde terreno em muitas frentes. O câncer, as doenças do coração, a cirrose, o diabetes, a esclerose múltipla, a malária, a doença do sono, a esquistossomose, a lepra — todas grassam sem diminuição.
As doenças venéreas não sucumbiram diante dos antibióticos. Antibióticos mais potentes resultam em cepas bactérias mais resistentes. A AIDS é incurável e se alastra — primariamente entre os homossexuais, os toxicômanos que utilizam a via intravenosa, e as pessoas que recebem transfusões de sangue. Não existe nenhuma cura conhecida para o herpes genital. A clamídia é uma epidemia que anualmente “aflige pelo menos três milhões e talvez chegue a atingir até 10 milhões de pessoas”. Entre outras seqüelas, provoca a infertilidade.
A revista Newsweek, de 4 de fevereiro de 1985, veiculou: “Os Estados Unidos acham-se atualmente nas garras de um surto de DST [doenças sexualmente transmissíveis] de proporções sem precedentes. As estatísticas são horripilantes: 1 de cada 4 norte-americanos, na faixa etária dos 15 aos 55 anos, contrairá uma DST em algum ponto da vida dele ou dela.” Conclui o artigo: “A melhor proteção contra as DST, parece, poderia ser simplesmente um retorno à tradicional salvaguarda: a monogamia.” Trata-se duma resposta inaceitável para este mundo.
Nenhuma solução para o infanticídio
Sentimo-nos horrorizados de que, há muito tempo, as pessoas que tinham bebês indesejados simplesmente os punham de lado, para morrer ao relento. Atualmente, são mortos enquanto ainda se acham no útero da mãe. Os que assim procedem afirmam que os bebês não são realmente vidas humanas, ou almas, e não sentem dor. Mas o bebê no ventre dá um salto quando surpreendido por um barulho súbito, ele chupa o polegar, bebe líquido, ouve as batidas do coração da mãe — ainda assim, pode alguém dizer que ele não está vivo? Incrível! Seu cérebro funciona, seu coração bate, seus sentidos registram sensações — todavia, alguns afirmam que ele não sente dor. De novo, isso é incrível! Aborto indolor — trata-se duma simples afirmação feita para amainar o sentimento de culpa?
Este parece ser o caso, em vista do recente filme O Grito Silencioso. Revela o que parece ser a agonia por que passa um feto que está sendo abortado, cujos membros são separados do corpo no útero da mãe, ao ser sugado aos pedacinhos. Durante essa provação, pula, contorce-se, recua, e abre a boca dum modo que sugere um “grito silencioso”. É desta forma, e de outras, que este mundo se livra de cerca de 55 milhões de bebês todo ano!
A Bíblia considera o nascituro no ventre da mãe como sendo uma vida, uma alma, e, sob a Lei Mosaica, qualquer pessoa que causasse sua morte, mesmo que acidental — com dor ou sem dor — era culpada e tinha de dar “vida por vida” (Bíblia Vozes), ou “alma por alma”. — Êxodo 21:22, 23, nota da Trad. do Novo Mundo (Bíblia com Referências), ed. 1984, em inglês.
Nenhuma solução para a população
A chuva ácida que extermina peixes e florestas. Os depósitos de resíduos tóxicos que envenenam o solo e a água subterrânea. As descargas tóxicas dos veículos que prejudicam as plantações e os pulmões humanos. Os vazamentos de óleo, os metais pesados, os resíduos radioativos, os plásticos, o asbesto, os pesticidas, os herbicidas, as microondas — todas estas coisas, e outras mais, constituem crescentes ameaças à vida no planeta Terra. Muitas espécies já se tornaram extintas, e, diariamente, muitas outras passam a correr perigo.
Falando em nome do UNEP (Programa Ambiental das Nações Unidas), o diretor-executivo, Mostafa Tolba, relatou para mais de 100 delegados no Quênia: “Ajam agora ou encarem o desastre.” Deixar de fazê-lo, disse ele, traria “por volta da virada do século a catástrofe ambientar que testemunhará uma devastação tão completa, tão irreversível, como qualquer holocausto nuclear”. Os primeiros astronautas falaram em termos brilhantes sobre a Terra: “Nosso planeta azul é surpreendentemente lindo.” Em 1983, o astronauta Paul Weitz disse: “Foi estarrecedor para mim ver quão suja está ficando a nossa atmosfera. . . . Infelizmente, este mundo está-se tornando rapidamente um planeta cinzento. . . . Estamos sujando o nosso próprio ninho.” A ganância, porém, não dá ouvidos a tal conversa. A ganância a curto prazo fala mais alto do que a necessidade a longo prazo.
Nenhuma solução para os tóxicos
Uma campanha mundial de combate aos tóxicos, por parte de agências da lei, não freou a onda sísmica deles. Recentes manchetes nos contam a história: “Teme-se um Consumo Amplo e Jamais Sonhado de Tóxicos.” “Mulheres e Cocaína: Crescente Problema.” “Aumenta o Tráfico Mundial de Heroína.” No México, em novembro último, uma série de batidas policiais apreendeu 10.000 toneladas de maconha — oito vezes mais do que as autoridades julgavam que o México produzia num ano inteiro! Os investigadores crêem que têm subestimado grandemente a produção mundial de tóxicos. Não só a evidência aponta que a Máfia está tremendamente envolvida com isso, mas os contrabandistas isolados do Terceiro Mundo “continuam simplesmente a afluir como formigas”.
Alguns talvez comecem a consumir tóxicos só por curiosidade ou devido à pressão de colegas, mas logo isso se torna hedonismo, o amor ao prazer. Os tóxicos podem deixá-los prazerosamente “altos”, muito mais do que pelos meios comuns, incluindo o sexo. Em seguida vem o vício, daí o roubo para sustentar tal vício, e, por fim, complicações de saúde e a morte, causada por uma superdose. Acrescentem-se a isto os crimes, inclusive assassínios, cometidos pelos traficantes de tóxicos. Mas, antes de lançar toda a culpa nos criminosos, lembre-se: Todos estes males são sustentados e se tornam possíveis graças aos usuários. A solução é simples: Usuários, larguem tal vício, esvaziem o mercado, e, de uma só vassourada, acabem com todo esse negócio maligno. Mas, esta solução simples também é inaceitável.
Outras soluções inexistentes
O declínio da honestidade, a falta de integridade, a hipocrisia religiosa, o colapso da família, o divórcio sob qualquer pretexto, os filhos abandonados, nenhum afeto natural, o egoísmo, a rudeza, o eu-ismo, as perversões sexuais hediondas, os revoltantes abusos sexuais de crianças, a avolumante violência, a crescente anarquia, o terrorismo internacional — tal lista poderia prosseguir infindavelmente sobre coisas para as quais este mundo não apresenta soluções. Trata-se duma safra recorde de questões, e de uma colheita fracassada de soluções. Quão aptamente Jesus predisse esta época em que vivemos, ao dizer: “Na terra angústia de nações, não sabendo o que fazer”! — Lucas 21:25.
Existe, contudo, algo a fazer, ou uma saída.