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Página doisDespertai! — 1989 | 8 de agosto
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Página dois
ESTA LINHA POLIGONAL É O RETRATO DUM PESADELO FINANCEIRO.
Representa a queda sofrida pela Bolsa de Valores de Nova Iorque, EUA, em outubro de a 1987. Em apenas um dia, a bolsa apresentou uma queda de estonteantes 508 pontos, arrastando consigo outras 22 principais bolsas de valores do mundo. Por que houve tão grande queda das bolsas? Que significou, para o leitor ou leitora, o “crash” sofrido por elas?
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Um “crash” globalDespertai! — 1989 | 8 de agosto
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Um “crash” global
O DIA 19 DE OUTUBRO DE 1987 foi, deveras, um dia estranho em nosso planeta. Naquele dia, desencadeou-se uma tempestade que varreu o globo e provocou devastação em dezenas de nações. Todavia, essa tempestade não incluía vento algum. Não mandou chuvas muito fortes, não fez nenhuma casa desabar, não matou ninguém. Nesse dia, um “crash” [ou, craque] reverberou por todo o mundo, e, por algum tempo, um touro atacante tornou-se como que um urso fugitivo.
Tempestades sem vento? Touros que se transformam em ursos? Como talvez saiba, esta tempestade nada teve que ver com a condição meteorológica da Terra, mas, antes, com sua economia. O dia 19 de outubro foi o dia do agora famoso “Crash” de 1987, quando a bolsa de valores de Wall Street apresentou a mais acentuada e mais rápida queda em sua história, lançando o pânico ao redor do mundo. O mercado parou de subir vertiginosamente (um “bull market” [mercado de touro]), e, temporariamente, precipitou-se loucamente colina abaixo (um “bear market” [mercado de urso]).
Ao passo que o “crash” não fez barulho real, e o “urso” não tinha garras verdadeiras, as vítimas foram reais. Um repórter de Zurique ouviu um homem clamar: “Estou arruinado, totalmente arruinado”, e comentou que o pessoal do distrito financeiro que lia os jornais parecia como se estivesse lendo suas próprias notas de falecimento. Em Hong Kong, o pânico atingiu um tom tão febril que a bolsa fechou durante quatro dias. Ela sofreu muito mais com o “crash” do que qualquer outra bolsa, perdendo cerca de 33 por cento de seu valor. Só um comerciante de Hong Kong perdeu US$ 124 milhões. Em Nova Iorque, uma viúva de 63 anos verificou, não só que o “crash” tinha arrasado o valor de sua carteira de ações, mas também que ela agora devia mais de US$ 400.000 ao seu corretor!
Milhões Ficaram Mais Pobres
Helmut Schmidt, ex-chanceler da Alemanha Ocidental, declarou a Die Zeit, um jornal alemão: “A queda das bolsas de valores de todo o mundo, em mais de US$ 1 trilhão, fez com que de 100 a 200 milhões de famílias no Ocidente ficassem mais pobres do que acreditavam ser antes do ‘crash’.” Todavia, o “crash” não se limitava ao Ocidente. As bolsas foram desabando em série como dominós em Hong Kong, Tóquio, Cingapura, Formosa, Austrália, África do Sul e na América Latina, bem como na Europa e na América do Norte.
Le Quotidien, de Paris, estampava a manchete em letras garrafais: “LE CRASH.” O Cambio de Lima, Peru, proclamava: “PÂNICO EM NOVA IORQUE, TÓQUIO E LONDRES!” The Australian Financial Review, de Sídnei, asseverava que Wall Street tinha “caído com um baque, equivalente a um touro morto, jogado lá de cima do prédio Empire State”. Mas como apontou o ex-chanceler Schmidt, estas bolsas em queda significavam mais do que uma confusão de números e manchetes sensacionalistas. O “crash” significava reais perdas para muitos que tiveram de vender suas ações na baixa. Economias de toda uma vida, fundos de pensão, reservas feitas para a aposentadoria, planos de comprar uma casa, planos para cuidar dos filhos — tudo se mostrou vulnerável na tempestade financeira.
O otimismo do “mercado de touro” em disparada que levou ao “crash” somente agravou as coisas. O número de investidores diretos das bolsas de valores dos EUA quase que dobrou entre 1975 e 1985. Nesse mesmo período, o número dos que possuíam ações indiretamente, por meio de fundos de pensão, seguradoras e bancos, tinha aumentado em quase 35 milhões. O “mercado de touro” em ascensão atraiu investidores como o mel atrai moscas. Muitos investiram tarde demais, pagaram muito caro pelas ações, e não puderam sair a tempo do mercado.
Outra Depressão?
À medida que o “crash” grassava por Wall Street e ao redor do mundo, as pessoas começaram a relembrar outro ano de triste memória na história econômica: 1929. Naquele ano, um similar “crash” da bolsa de valores levou à depressão global. O mundo ainda se encolhe de modo quando pensa naquela era, com suas filas de pão, cozinhas de campanha para servir sopa, desemprego generalizado, e pobreza. Será que o novo “crash” levaria a uma depressão similar? Afinal de contas, no pior dia do “crash” de 1929 (Terça-feira Negra), a bolsa caiu 12,8 por cento. Mas, na Segunda-feira Negra de 1987, ela caiu 22,6 por cento. Uma manchete de The New York Times, de 20 de outubro de 1987, perguntava: “Será 1987 Igual a 1929?”
A resposta, para grande alívio de multidões, provou ser Não. Cerca de dois anos depois da Segunda-feira Negra, muitos peritos, ao examinar os duradouros estragos causados pela tempestade, verificaram que eram mínimos. A economia dos EUA ainda estava em expansão. A taxa de desemprego era baixa. Afinal de contas, mesmo depois da Segunda-feira Negra, o mercado estava apenas 4 por cento abaixo do que estivera um ano antes; até mesmo conseguiu terminar o ano ligeiramente acima da média.
Muitos peritos consideraram a Segunda-feira Negra como o simples estouro duma bolha, uma correção mui necessária da valorização excessiva das ações. Se o “crash” deixou qualquer legado duradouro, este terá sido o da fuga recorde de muitos indivíduos do mercado acionário. ‘Jamais me meterei nisso de novo’, juram eles. E parecem estar falando sério.
Significa isso que a Segunda-feira Negra não teve importância? Longe disso! Alguns peritos acham que o “crash” deveria ser encarado como um aviso, que ele pôs em foco algumas das profundas falhas que partem de Wall Street e permeiam toda a economia mundial. Mas será que o mundo em geral acatou o aviso? Não, segundo um professor de economia, que disse à revista Time: “É como um grupo de adolescentes bêbados que dirigem um carro, e que pensam que apenas porque conseguiram fazer a última curva, conseguirão fazer também a próxima.”
Exatamente o que houve de errado com Wall Street? Poderia ocorrer novo “crash”? E será que há algo nisso que o atinge pessoalmente?
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Como Wall Street o atinge?Despertai! — 1989 | 8 de agosto
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Como Wall Street o atinge?
A ECONOMIA tem sido chamada de “ciência sombria”. Ainda assim, trata-se duma ciência que influi na vida de todos nós. Os preços que paga na loja, a disponibilidade de empregos, os serviços fornecidos pelo Governo de seu país tudo isso depende do vigor da economia em seu país.
‘Mas que tem isso a ver com Wall Street?’, alguns talvez perguntem. ‘Está longe demais para eu me importar com isso.’ Bem, a bolsa de valores é como que um espelho da economia. E, atualmente, as nações do mundo são tão interdependentes que nenhuma economia é uma ilha.
Uma Economia Globalizada
O presidente da Bolsa de Valores Americana disse que o choque da Segunda-feira Negra “deixou abundantemente claro que nenhum país, atualmente, controla totalmente o seu próprio destino”. Na Itália, um repórter do jornal La Repubblica expressou-se da seguinte forma: “Os impostos de ontem da Alemanha Ocidental, a dívida de hoje da América Latina, e . . . a legislação baixada amanhã pelo Congresso dos EUA são eventos que certa vez estiveram isolados um do outro, ou só eram interconectados depois de longo período de tempo. Atualmente, eles se fundem instantaneamente. Para compreender isto, simplesmente entre na sala de transações comerciais dum grande banco internacional, onde uma espécie de espaçonave eletrônica está ligada, dia e noite, a todos os mercados mundiais.”
Que país, que economia, pode pretender o isolamento deste sistema globalmente interligado e interdependente? Os países africanos? Os editores de um mensário de negócios que faz o monitoramento da economia africana afirma que “as economias africanas são muito vulneráveis aos choques provindos do exterior”. Que dizer dos países latino-americanos? Um editor do Jornal do Brasil disse que a crise das bolsas de valores era parte de uma crise financeira internacional. Que dizer do Oriente Médio? O vice-editor de Ma’ariv, de Tel-Aviv, citou um ditado de um ex-primeiro-ministro de Israel: “Se os Estados Unidos pegam resfriado, Israel espirra.”
Quem, então, está a salvo das atuais tempestades econômicas? Se se dissesse a um passageiro que tomava sol no convés dum transatlântico que o navio apresentava um buraco no casco lá embaixo, poderia ele razoavelmente sentir-se imune ao perigo só por estar bem longe do local do problema? Não; todas as partes do navio estão interligadas — nenhuma delas flutua sozinha. O mesmo se poderia dizer das economias do mundo. A dificuldade de uma poderia significar problemas para o leitor ou leitora.
Águas Perigosas Para os Peixinhos
Depois do “crash”, os pequenos investidores deixaram a bolsa aos montões. O êxodo em massa significou graves perdas para a indústria dos corretores, que sofreu cerca de 25.000 demissões depois do “crash”. Mas isto significa ainda maiores dificuldades para a própria Bolsa de Valores.
O que assustou muitos investidores, afastando-os de Wall Street? Obviamente, o “crash” teve muito que ver com isso. Mas em outros sentidos, também, Wall Street começou a parecer um ambiente hostil para o pequeno investidor, como águas perigosas demais para que peixinhos nadassem nelas. Exploremos, brevemente, três das tendências que têm contribuído para isto: a informatização, a onda de absorções de empresas, e a explosão do endividamento.
São as Máquinas Que Dirigem o Espetáculo?
A Segunda-feira Negra foi um dia ruim para os computadores. O maremoto do movimento na Bolsa, naquele dia, foi maior do que eles podiam manejar. Por todo o país, os corretores observaram com raiva impotente os seus terminais apresentarem uma teia cheia de pontos de interrogação, ou então simplesmente nada. No âmago da tempestade a Bolsa de Valores de Nova Iorque o “crash” provocou interrupções em quase toda parte do sistema. Muitos, porém, acharam que os computadores não eram apenas vítimas do “crash”, mas, em realidade, cúmplices em gerar a corrida desenfreada de vendas. Certo senhor expressou-se do seguinte modo para The New York Times: “São apenas computadores vendendo para computadores.”
Naturalmente, isso não é estritamente veraz. Mas sendo que os grandes investidores institucionais favoreciam certos planos complexos de negociação, os computadores reagiram automaticamente de acordo com as condições do mercado — tal como a queda no preço duma ação — sugerindo ao corretor o que este devia fazer. O problema é que ele raramente dispõe de tempo para questionar as sugestões do seu computador. Assim, os computadores podem coreografar hostes de corretores como se fossem um grupo de bailarinos. Eles obedecem em uníssono a seus computadores, gerando enormes ondas de vendas que, por sua vez, geram outras ondas de vendas. Assim, é possível que os computadores tenham ampliado o “crash”, da mesma forma que o feedback dum sistema de alto-falantes pode ir aumentando até se tornar um guincho de estourar o tímpano. Alguns culpam os computadores por 300 pontos da baixa registrada de 508 pontos.
É possível que os computadores sejam indispensáveis para a Bolsa de Valores, mas eles fizeram com que os peixinhos, na Segunda-feira Negra, se sentissem ainda menores do que nunca. Os investidores singulares não puderam sequer dar ordens por telefone a seus corretores, para estes venderem suas ações que despencavam de valor. No ínterim, os grandes investidores, com seus programas de negócios computadorizados, descarregavam suas ações em enormes blocos.
Frenesi de Absorções
Muitas pessoas acham preocupante, também, o fato de que os peixes grandes e os médios se envolvessem num frenesi de absorções nos últimos anos, devorando-se uns aos outros em absorções hostis de empresas, e naquilo que, em inglês, chama-se leveraged buyout [compras de empresas para obter o poder decisório, envolvendo vultosos endividamentos, mas que permitem amplos lucros]. “As pessoas estão comprando empresas hoje do mesmo modo que costumavam comprar ações”, disse um aposentado banqueiro de investimentos, entrevistado por Despertai!.
A leveraged buyout, ou LBO, é muito popular em Wall Street. Uma empresa utiliza a leverage (quantias maciças de dinheiro tomado emprestado, que ela conseguiu levantar por meio de, por exemplo, vender obrigações de alto risco, mas de grande lucratividade) a fim de “comprar” outra empresa, mediante a adquisição das ações em poder dos demais acionistas desta empresa. Uma vez o predador tenha adquirido sua presa, ele a retalha e vende os pedaços para poder pagar toda aquela dívida. Assim, o predador pode acabar sendo dono, sem gastar nada, daquilo que sobra! Por vender obrigações de alto risco, empresas pequenas conseguem dar-se ao luxo de devorar algumas grandes, como se pequenos barrigudinhos tragassem tubarões.
As absorções rendem quantias quase que inimagináveis para os bancos, advogados e empresários que montam juntos tais esquemas. Em uma gigantesca LBO, em fins de 1988, somente as comissões pagas aos bancos e aos consultores foram de quase US$ 1 bilhão. Alguns homens que se tornaram famosos como predadores embolsaram centenas de milhões de dólares em poucos anos. Não foram poucos os que tiveram dificuldades com a lei.
A Explosão do Endividamento
As LBOs são apenas uma ilustração do persistente caso de amor que os Estados Unidos mantêm com o endividamento. Os americanos, individualmente, só poupam cerca de 5 por cento do que ganham. Os alemães-ocidentais poupam cerca de 13 por cento, e os japoneses cerca de 17 por cento. Tornou-se lendário o amor que os americanos sentem pelos cartões de crédito e pelo credo do ‘compre agora, pague depois’. As empresas dos EUA devem mais de US$ 1,8 trilhão, e a dívida pública federal é de mais de US$ 2,6 trilhões. O Governo dos EUA também conseguiu, em apenas oito anos, deixar de ser o maior credor mundial para ser o maior devedor, em seu comércio internacional. Um repórter do jornal Globe and Mail, do Canadá, resumiu a política dos EUA como a de “gastar, gastar; daí, simplesmente tomar emprestado”.
Uma recessão poderia significar grandes dificuldades para as empresas profundamente endividadas dos Estados Unidos. As companhias sobrecarregadas de dívidas se tornariam repentinamente frágeis em tal clima. Poderia seguir-se uma onda de inadimplências e de falências. Os bancos, também, estão metidos nos apuros das dívidas: Eles fizeram empréstimos arriscados no valor de bilhões de dólares. Centenas estão em dificuldades, e muitos já foram obrigados a fechar.
O endividamento em escala global é ainda mais ominoso: Os países do Terceiro Mundo devem a soma estonteante de US$ 1,2 trilhão. Não é de admirar, então, que Felix Rohatyn, banqueiro de investimentos, tenha avaliado a economia do seguinte modo: “Nós criamos um gigantesco castelo financeiro de cartas. Nós já recebemos amplo aviso sobre suas fraquezas.”
O Êxodo
Assim, Wall Street, para o pequeno investidor, pode parecer dominada pelas negociações informatizadas que criam enormes ondas, da parte dos peixes grandes num frenesi de absorções, e pelo abismo sem fundo das dívidas, que ameaça tragar todo o lago. Será alguma surpresa que os peixinhos tenham largado o mercado acionário?
Muito mais do que medo, porém, existe uma tendência que levou muitos dos pequenos investidores a afastar-se de Wall Street. Ela é governada pela mesma emoção que parece dominar todo o mundo, nos dias atuais. Que emoção é essa?
[Destaque na página 8]
Centenas de bancos dos EUA acham-se em dificuldades e muitos já foram obrigados a fechar.
[Quadro na página 6]
Guia de Termos Usados em Wall Street
O que acontece em Wall Street pode parecer-lhe estranho, uma vez que o mundo financeiro tem sua linguagem própria. O que segue é uma breve amostra das palavras mais comuns de Wall Street.
◆ AÇÃO [Stock, em inglês]: Quando se compra um lote de ações duma empresa, compra-se realmente uma parte daquela empresa. Este é um dos modos como as empresas levantam dinheiro. Periodicamente, os acionistas podem receber pequena porcentagem dos lucros da empresa, o que se chama de dividendos.
◆ TÍTULOS/OBRIGAÇÕES [Bond, em inglês]: Outro modo de as empresas captarem recursos e tomar empréstimos por venderem títulos, obrigações ou debêntures. Quando a pessoa compra títulos duma empresa, está emprestando dinheiro a ela. A empresa paga pelo uso do seu dinheiro por meio de juros. Ações e títulos (obrigações) se enquadram no termo geral de valores mobiliários. Ao passo que os títulos e obrigações não aumentam de valor do mesmo modo que as ações às vezes o fazem, muitas vezes são considerados um investimento mais seguro. Uma exceção é o “junk bond”, uma obrigação oficialmente classificada como muito arriscada. A empresa que a lança tem muita probabilidade de tornar-se inadimplente, não lhe pagando o que concordou em pagar. As pessoas compram tais títulos porque os “junk bonds” pagam juros altos.
◆ BOLSA DE VALORES: Um leilão organizado, ou mercado, onde valores, tais como ações e títulos (obrigações), são comprados e vendidos. No pregão da bolsa, os corretores executam as ordens de compra e de venda de seus clientes, os investidores, e eles são pagos por meio de comissões.
◆ O “DOW”: Abreviatura de “Dow Jones Industrial Average” [Índice Industrial “Dow Jones”], é o indicador mais popular da saúde e do valor da Bolsa de Valores de Nova Iorque. Trata-se duma média baseada no valor corrente de 30 ações industriais. Quando as pessoas perguntam: “Como vai indo o mercado?”, a resposta comum é citar a posição do “Dow”.
[Foto na página 7]
“Nós criamos um gigantesco castelo financeiro de cartas. Nós já recebemos amplo aviso sobre suas fraquezas.” — Felix Rohatyn, banqueiro de investimentos.
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A casa edificada pela ganânciaDespertai! — 1989 | 8 de agosto
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A casa edificada pela ganância
“A GANÂNCIA é saudável. A pessoa pode ser gananciosa e ainda assim sentir-se bem consigo mesma.” Tais palavras, que faziam parte dum discurso dirigido aos formandos duma faculdade de comércio, foram alegadamente recebidas com risos e aplausos. (The Roaring ’80s [Os Mui Lucrativos Anos 80], de Adam Smith) O orador era um dos grandes sucessos de Wall Street, sendo avaliado em centenas de milhões de dólares. Não muito tempo depois, porém, a revista Fortune nomeou o mesmo homem como “o escroque do ano”. Em questão de meses, ele estava preso.
A ganância, como se viu, não era tão saudável assim, afinal de contas. Mas as palavras daquele homem são muitas vezes citadas como representando a atitude de Wall Street. O que mostram os fatos?
Considere as tendências, já comentadas, de Wall Street. Negócios feitos pela informatização rápida como um raio, frenéticas absorções de empresas para obtenção de enormes lucros, montes de dinheiro tomado emprestado, tudo parece partilhar uma meada comum: a focalização no lucro a curto prazo.
Todos os olhos se voltam para o lucro rápido. Um editorial publicado pela revista Maclean’s, do Canadá, fraseou esse ponto de forma vigorosa: “Os novos ricos da década de 80 desejam algo a troco de nada: o máximo de dinheiro com o mínimo de esforço.” Será de admirar que tal sociedade, movida pelo lucro, tenha gerado o seu próprio tipo de crime? Ele é chamado, em inglês, . . .
“Insider Trading.”
“Exatamente o que é isso?”, perguntou Despertai! a um aposentado banqueiro de investimentos. A resposta dele foi: “Em seu sentido mais amplo, insider trading é a utilização de algo que você sabe, como profissional do ramo, mas que o público investidor não sabe. Isso lhe dá tremenda vantagem, se você o utilizar.”
Este procedimento é ilegal. Mas, tornou-se tão prevalecente em Wall Street na década de 80 que, em apenas um ano, foram presos cerca de 70 empresários de Wall Street. Como muitos dos problemas de Wall Street, este também varreu o globo. No Japão, um senhor, que estava sob investigação de cometer insider trading, tentou subornar um legislador envolvido no processo, ajoelhando-se diante dele com uma maleta recheada de US$ 40.000 em dinheiro vivo. Mas ele não sabia que toda aquela cena estava sendo filmada e seria, mais tarde, exibida na televisão em cadeia nacional!
Outras Bolsas de Valores — a de Bay Street, do Canadá; a Bourse, da França, e a Borsa, da Itália — têm sido abaladas por escândalos de insider-trading. Descobriu-se uma rede de insider-trading que se estendia da Inglaterra a Israel. As bolsas ao redor do mundo têm estabelecido normas para impedir este tipo de fraude, mas, como o banqueiro supracitado disse a Despertai!, o insider trading é “difícil de definir, e ainda mais difícil de controlar. Nós tínhamos meticulosos sistemas de segurança, mas é mais fácil roubar informações do que dinheiro”.
A Síndrome do “Yuppie”
Ao passo que a ganância de Wall Street levou alguns ao crime, levou muitos mais ao materialismo. A revista Newsweek informou que Wall Street era o próprio coração da gananciosa “cultura do dinheiro” dos Estados Unidos. O “mercado do touro” da década de 80 atraiu hostes de jovens formandos determinados a fazer fortuna. Eles foram apelidados de “yuppies”, abreviatura de “young urban professionals” (jovens profissionais urbanos). Conhecidos por suas grandes ambições e rendas compatíveis com elas, os “yuppies” tornaram-se o alvo dos publicitários como consumidores ideais, verdadeiras máquinas de gastar dinheiro.
Um ex-corretor de Wall Street, que se descreve como “ex-yuppie”, contou a Despertai! a sua vida em Wall Street durante os anos de altas na bolsa. O modo de pensar de sua firma, disse ele, era: “Seu emprego é sua vida. Tudo o mais é secundário.” Era comum ele já estar de pé às 5 horas da manhã, sair para trabalhar o dia todo, e então sair com clientes para entretê-los até altas horas da noite.
Ele se recorda vividamente de um incidente que, para ele, resumia o modo de pensar das pessoas. Um colega lhe mostrou uma série de fotos de um corretor que sofria um ataque cardíaco no local do pregão da bolsa de valores. A febril negociação prosseguia por toda a volta do pobre coitado; nada diminuiu de passo, nada parou.
The New York Times noticiou que o “crash” seria um golpe nos “yuppies”, não só por causa dos empréstimos e gastos feitos por eles, mas também por causa de seu modo de pensar. Muitos “yuppies” simplesmente não sabiam a diferença entre valor patrimonial e valor pessoal.
[Destaque na página 10]
Muitos “yuppies” simplesmente não sabiam a diferença entre valor patrimonial e valor pessoal.
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A busca de soluçõesDespertai! — 1989 | 8 de agosto
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A busca de soluções
QUANDO se trata de curar os males de Wall Street, idéias não faltam. Mas, existe escassez de acordos. Alguns peritos argumentam que o endividamento e as LBOs devem ter limites, ao passo que outros insistem que ambos são bons para a economia. Os dois lados estão fortemente armados de estatísticas que “provam” seus pontos.
Helmut Schmidt acha que as principais potências econômicas do mundo (Estados Unidos, Alemanha, Japão) têm de cooperar para solucionar os males econômicos do mundo. Diz ele: “A mediocridade de todos os três governos não pode servir de desculpa para se gastar mais tempo queixando-se uns dos outros do que em reconhecer suas próprias deficiências. Até mesmo as pessoas medíocres podem assumir responsabilidade.”
Mas, pergunte a si mesmo: Quanto podemos razoavelmente esperar de governos humanos inerentemente medíocres? Schmidt prontamente admite, por exemplo, que o problema da dívida do Terceiro Mundo “não foi solucionada e é virtualmente insolúvel”. Podem os medíocres solucionar o insolúvel?
As seguintes palavras, de um sábio de há cerca de 25 séculos, acertam bem no alvo: “Não é do homem que anda o dirigir o seu passo.” (Jeremias 10:23) Quão verazes demonstram ser estas palavras, atualmente! A economia mundial é complicada demais até para ser entendida pelos peritos, quanto mais consertada.
Que pode o leitor ou a leitora fazer em face da instabilidade econômica mundial? A Bíblia, de novo, tem conselhos diretos: invista de forma sábia! Observe as palavras de Jesus, em Mateus 6:19, 20: “Parai de armazenar para vós tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem consomem, e onde ladrões arrombam e furtam. Antes, armazenai para vós tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde ladrões não arrombam nem furtam.”
Mas, como se faz isso — armazenar um tesouro no céu? Começa por se dar conta de que, como todos nós, você tem necessidades espirituais que precisa satisfazer. (Mateus 5:3) Poderá satisfazer tais carências por investir algo muito mais precioso do que dinheiro — seu tempo — em estudar a Bíblia. Ficará surpreso com a simplicidade e a razoabilidade das respostas que ela fornece às suas perguntas mais angustiantes.
O ex-yuppie mencionado no artigo anterior fez exatamente isso. Ele voltou a estudar a Bíblia, o que parou de fazer nos anos muito atarefados em que trabalhou em Wall Street, e verificou que, por assim agir, sua vida se transformava para melhor. Ficou fascinado de aprender que a Bíblia prediz o colapso final de todos os gananciosos sistemas econômicos do mundo. Quando Deus trouxer o fim cataclísmico deste sistema mundial, não haverá carteira de ações, nem conta bancária, que compre proteção ou escapatória. O dinheiro será tão inútil que as pessoas o lançarão nas próprias ruas. (Ezequiel 7:19; 1 João 2:15-17) Apenas os investimentos espirituais terão valor então.
Especialmente confortadora é a promessa da Bíblia de que, depois daquele tempo de destruição, a ganância não mais governará o mundo. A justiça, e não o lucro, reinará para sempre, então. (Isaías 9:6, 7) Deveras, algum dia as pessoas dirão: ‘Wall Street que é isso?’
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