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  • Dilúvio, seca e dívida — o Brasil teve de tudo

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  • Dilúvio, seca e dívida — o Brasil teve de tudo
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  • Que Significa Tudo Isso?
Despertai! — 1984
g84 22/1 pp. 16-24

Dilúvio, seca e dívida — o Brasil teve de tudo

1983 foi um ano de crise para o gigante da América do Sul, o Brasil, com população superior a 131 milhões de habitantes. Quase tudo aconteceu. Tem sido chamado de o mais crítico de toda a sua história, que remonta ao ano de 1500, quando o navegador português Pedro Álvares Cabral o descobriu.

Crescente desemprego, greves, inflação espiralante, crescimento econômico negativo, escalamento do crime, AIDS, e, como se tudo isso não bastasse, inundações devastadoras, severas secas e uma estropiante dívida externa, somaram-se aos males do Brasil, resultando em tragédia, desastre e desespero. Em 1983, pode-se dizer: O Brasil teve de tudo.

Como tudo aconteceu? Qual a causa? A quem culpar? Qual a solução? São perguntas que muitos levantam e sobre as quais ponderam. No que diz respeito às inundações e às secas, as respostas são muitas. Alguns dizem que Deus é responsável — uma punição do céu pelos pecados cometidos. Outros culpam a tranqüila corrente do Oceano Pacífico “El Niño” que, aparentemente, ‘saiu dos eixos’ e causou danos ao padrão climático. Manchas solares talvez? Deterioração da camada de ozônio? Considerado também um fator contribuinte para o clima chuvoso é o enorme lago artificial formado pela hidroelétrica de Itaipu, em outubro de 1982. Cita-se também o contínuo e implacável desmatamento, através — dos anos. E, concernente à crítica situação econômica, quando repórteres tentaram arrancar dele uma opinião, o ex-presidente Ernesto Geisel disse que todo mundo tem uma parcela de culpa, e daí, ironicamente, apontou o grande culpado: Pedro Álvares Cabral!

Independente de a quem responsabilizar, uma coisa parece certa: O indominável espírito do povo de natureza jovial do Brasil, com sua disposição otimista, conta a seu favor à medida que luta para sair dos problemas e ir em frente. Os brasileiros têm um jeito especial de se desvencilharem de situações aparentemente impossíveis. Os obstáculos a transpor, contudo, são muitos. Tome, por exemplo, as inundações, que foram um verdadeiro dilúvio.

O “Dilúvio”

Durante os últimos dois meses de 1982 chuvas torrenciais incomuns caíram sobre uma grande parte do centro e sul do Brasil e, sem interrupção, prolongaram-se bem 1983 adentro. Os rios começaram a se avolumar, alarmando as populações ribeirinhas. Para os habitantes dos três estados no extremo sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, parecia que ‘as comportas do céu haviam sido abertas’. — Gênesis 7:11.

Daí veio a primeira semana de julho. Os grandes rios Iguaçu, Itagaí-Açu, Uruguai, e seus afluentes, bem como dezenas de outros cursos d’água, transbordaram. E as chuvas continuavam a despencar, quase, mas não chegando a tanto, por “quarenta dias e quarenta noites”. (Gênesis 7:12) Aptamente descrito pelo então presidente em exercício Aureliano Chaves como “inusitada pluviometria”, revelou ser um ‘dilúvio’. Contínua e perigosamente, as águas subiram. Residências suntuosas, barracões de madeira, ruas comerciais, bancos, fábricas, armazéns, tudo foi indiscriminadamente invadido pelo silencioso intruso, as águas de um dilúvio. Pontes ruíram. Rodovias ficaram intransitáveis. As comunicações ficaram interrompidas. As pessoas ficaram isoladas, em apuros; suas atividades normais do dia-a-dia foram rude e drasticamente interrompidas .

Espremido entre os estados do Paraná e Rio Grande do Sul, o estado de Santa Catarina foi o mais duramente atingido, dois terços do qual ficou debaixo da água. A altamente industrializada cidade de Blumenau e cidades vizinhas como Taió, Rio do Sul, Gaspar, Ilhota e Itajaí estavam entre as mais duramente atingidas. Sábado, 9 de julho, o rio Itajaí-Açu atingiu seu nível máximo: 15,37 metros acima do normal. Ouviam-se pessoas idosas dizer: “Nunca vimos algo assim antes.” A situação trágica que se desenvolveu foi típica do que aconteceu em centenas de cidades, vilas e lugarejos através de toda a área afligida.

“Caos Total no Sul”, “260.000 Desabrigados em 3 Estados”, “Cr$ 500 Bilhões de Prejuízos”, “Desesperadora Situação em Porto União”, “Aumenta a Tragédia. As Chuvas Continuam”. Estas foram algumas das muitas manchetes de jornal que anunciaram o desastre à nação. Foi feita ampla cobertura radiofônica e televisiva. Os governadores de estado entraram em ação. As Comissões de Defesa Civil foram mobilizadas. As primeiras notícias informaram que o número dos desabrigados no Paraná era de pelo menos 46.000, com 8 municípios sem eletricidade, 18 sem água potável e 23 em estado de emergência, incluindo as cidades irmãs de União da Vitória e Porto União, na fronteira. No Rio Grande do Sul, dos 92 municípios atingidos, 59 foram oficialmente declarados em “estado de emergência”. A desolação em Santa Catarina, em que 140 municípios foram declarados áreas de desastre, agravou-se com ventanias e só neste estado noticiou-se que aproximadamente 200.000 ficaram desabrigados. O pânico irrompeu em muitos lugares. Crianças, encharcadas, tremendo de frio, eram vistas em toda a parte.

O prejuízo à lavoura foi extremamente severo, como também ao gado. Os animais domésticos e de estimação sofreram muito, muitos deles entregues à sua própria sorte. Cães perdidos, uivando à noite, contribuíam para criar uma atmosfera lúgubre e alguns tiveram de ser abatidos. Os gatos, acostumados a andar nos telhados, sobreviveram em cima de muitos destes, que se sobressaíam às águas. Alguns até foram vistos nadar de um telhado a outro. Alguns automóveis, abandonados nas ruas, proporcionavam um espetáculo bizarro, quando suas buzinas subitamente disparavam sozinhas por uns quinze minutos, enquanto as águas crescentes confundiam seus sistemas elétricos. As luzes dos automóveis acendiam, muitas vezes à noite, pelo mesmo motivo, e daí, à medida que as águas cobriam tais veículos, tudo de novo silenciava e escurecia.

O apuro das pessoas inspirava compaixão, mas, a ajuda não tardou a chegar. O governo federal, as Forças Armadas, embaixadas estrangeiras, organizações religiosas, entidades públicas e privadas de toda sorte juntaram-se à causa numa demonstração acalentadora de extraordinário humanitarismo. (Atos 28:2) Donativos em alimentos, roupas, dinheiro, medicamentos, utensílios de cozinha, camas e colchões afluíram de todo o país. As Testemunhas de Jeová, sempre cônscias da ordem bíblica de praticar “o bem para com todos, mas sobretudo para com os irmãos na fé”, não tardaram em tomar medidas de socorro. Usando sua entidade legal, a Sociedade Torre de Vigia, cinco caminhões carregados de suprimentos, totalizando mais de 34 toneladas, foram imediatamente enviados às áreas de desastre e, usando os Salões do Reino como centros de operação, os anciãos (superintendentes) locais cuidaram da distribuição às pessoas necessitadas. — Gálatas 6:10, A Bíblia de Jerusalém.

Em alguns lugares os Salões do Reino também foram usados para abrigar temporariamente os desabrigados, como se deu com igrejas, escolas, estádios e outros prédios em locais mais elevados. Milhares de indivíduos de espírito nobre trabalharam dia e noite salvando, ajudando e confortando os menos afortunados. Ricos e pobres trabalhavam lado a lado, aliviando o sofrimento de seu próximo. Em tempos de tensão como este, muitas vezes se manifesta o lado melhor da natureza humana, lembrando-nos de que o homem foi feito à ‘imagem e semelhança’ de Deus, dotado assim de qualidades que muito valem a pena cultivar e desenvolver. — Gênesis 1:26; Gálatas 5:22, 23.

Desastres dessa natureza sem dúvida trazem à tona o melhor em alguns, mas, o pior em outros, revelando o que cada qual entesoura mais na vida. (Mateus 6:21) Para algumas pessoas, a perda de bens materiais é o fim de tudo. Para outros, não é de grande conseqüência, quer seja pouco, quer muito. Em algumas áreas, pessoas de posses perderam tudo e tiveram de ser resgatadas de cima do telhado de suas casas, encaminhadas a abrigos temporários e mantidas sob sedativos, tão grande era a sua angústia. Alguns ficaram tão desesperados que tentaram o suicídio. Outros maldosamente tentaram atacar os que se dirigiam para prestar socorros, tentando se apoderar de seus barcos e do alimento que conduziam. As pessoas em geral, porém, comportaram-se maravilhosamente bem. Muitas famílias ricas que moram nas áreas afligidas abriram seus corações e seus lares para os pobres. Conforme publicado no Jornal da Tarde (20/7/83), a artista plástica Elke Hering disse o seguinte:

“O exemplo de solidariedade do País foi comovente. Eu sou de uma família rica, privilegiada. Mas penso naquelas pessoas que passaram dois anos pagando um aparelho de televisão e as águas o levaram embora. De minha parte, acho mesmo que precisamos ser mais simples, precisamos começar a pensar em ter menos coisas, de nos livrar do excesso. Essas enchentes, por exemplo, ajudaram-me a me livrar de dezenas de vestidos velhos que eu resolvia manter por pura bobagem e que agora estão todos lá destruídos, dentro de baús cheirando a mofo.”

Uma moça, Marlise, ministra-pioneira das Testemunhas de Jeová, escreveu:

“O lar de minha família foi inundado e precisamos alojar-nos na casa vizinha de meus avós Testemunhas de Jeová. Lá a água também chegou e como a casa é de dois pavimentos, passamos a morar no segundo andar. Lá estávamos em 22 pessoas, seis destas Testemunhas de Jeová. Ficamos 10 dias dormindo debaixo de um telhado no sótão da casa. Após cinco dias a água potável era escassa, chegamos a usar água da chuva, e a comida estava acabando. Na escuridão da noite os irmãos com uma pequena canoa vieram nos procurar perguntando o que faltava e no outro dia nos trouxeram uma ótima provisão alimentar. Ficamos tão felizes que muitos começaram a chorar de alegria e o dono da casa precisou se retirar de tão emocionado que estava por causa deste gesto amoroso que houve entre o povo de Jeová. Repartimos com as outras pessoas a provisão e nesses dias demos testemunho de que não era Jeová o causador destas dificuldades, mas sim que é de Sua vontade livrar a humanidade de tais apertos dentro em breve. — Salmo 107:28, 29.”

Sua mãe, Carmem, admitiu que seu treinamento como Testemunha de Jeová ajudou-a a manter-se calma e serena. Sua família sofreu muitos prejuízos, mas o que mais os afligiu foi a perda de sua preciosa biblioteca de Bíblias e literatura bíblica, juntada desde 1957. O esposo de Carmem, Jean, disse: “Os bens materiais, temporários, são substituíveis, mas o amor de Jeová, de sua organização e de nossos irmãos é insubstituível e eterno.”

O jornal Latin America Daily Post, em seu editorial de 16 de julho, fez o seguinte comentário sucinto:

“Quanto ao único bem que podemos imaginar ter decorrido desta terrível tragédia da inundação dos estados do extremo sul do Brasil foi a esplêndida demonstração de solidariedade e espírito público de brasileiros de todas as rodas da vida. . . . O trabalho de socorro às vítimas das enchentes, ao qual tantos milhares contribuíram muitíssimo, não será esquecido tão cedo nem pelos que foram diretamente beneficiados nem pelos que dentre nós gostam de pensar que os brasileiros ainda estão entre os povos mais humanos e sensíveis do mundo.”

Infelizmente, nem todos se revelaram “humanos e sensíveis”, pois saques e pilhagens eram freqüentes em muitos lugares. Quando as águas começaram a baixar, a pilhagem de casas abandonadas e estabelecimentos comerciais tornou-se um problema. Comerciantes e moradores se revezavam para proteger suas propriedades com disposição de “atirar para matar”. Em Itajaí, um barco conduzido por dois “piratas das enchentes” e transportando seis aparelhos de televisão roubados de casas alagadas, foi interceptado por um barco patrulheiro da polícia. Houve tiroteio e os dois “piratas” foram mortos. Segundo Heliete Leal, secretária de Justiça de Santa Catarina, treze caminhões carregados de suprimentos de socorro foram saqueados, tornando necessário que os caminhões fossem escoltados por soldados.

Assim, três estados do extremo sul do país tiveram inundações em 1983, um “dilúvio”, e seus habitantes, entre todas as muitas variadas situações vividas, vieram a entender que, como nos dias de Noé, assim também hoje, a inclinação dos pensamentos de alguns homens é “má, todo o tempo”, como provam os incidentes acima mencionados. Por outro lado, muitos constataram que ainda existem pessoas de inclinação justa, pessoas que, como Noé, empenham-se para ‘mostrar-se sem defeito entre os seus contemporâneos’. Estes alcançarão o favor de Deus. — Gênesis 6:5, 8, 9.

Toda a publicidade dada às inundações trouxe à tona outro problema que o Brasil enfrenta, e precipitou outro “dilúvio”. As redações de jornais foram “inundadas” de cartas chamando atenção para os cinco anos de seca no nordeste.

A Seca

O nordeste brasileiro compreende os estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Sergipe, uma área de 386.155 km2, aquela parte do país que avança no Oceano Atlântico. Desde 1978, tem experimentado a maior seca de toda a sua história. Cinco anos sem chuva. E os estados vizinhos do Piauí e da Bahia não têm sido poupados. Mesmo o Maranhão, nos limites da floresta amazônica, gradativamente vem sendo atingido pela estiagem. A tragédia se tem alastrado a lugares remotos e calcula-se que o número de pessoas atingidas pelas horríveis condições deste extenso e prolongado flagelo seja bem superior a 10 milhões. Diariamente, centenas morrem de fome. A taxa de mortalidade infantil é elevada. É como disse o governador de Pernambuco, Roberto Magalhães: “Não se pode negar que essas pessoas estão morrendo de fome.”

O governador do Ceará, Luiz de Gonzaga Motta, calcula que dos 5,5 milhões de habitantes do estado, 3 milhões são vítimas da seca. Milhares têm afluído à capital do estado, Fortaleza, e temia-se que este número subisse para 500.000. Cenas deploráveis têm ocorrido em cidades como Barbalha, Canindé, Crato, Juazeiro do Norte, apenas para se mencionarem algumas, em que sertanejos famintos têm invadido e saqueado armazéns, lojas e feiras, sob o olhar da polícia à distância. Numa audiência com Aureliano Chaves, o então presidente em exercício do país, o sr. Motta disse: “Presidente, não quero obras. Só quero água e comida para o meu povo.”

Em lugares como Boa Viagem, Caridade e Irauçuba, a situação é aterradora. Uma reportagem no Jornal do Brasil revelou que agricultores em muitas áreas há três anos comem ratos-do-mato cozidos em água e sal. A fome severa levou muitos a comer macacos, cobras, gatos e cachorros. O prefeito de Apuiarés, sr. Fábio Alves, revelou numa entrevista de TV que o povo em seu município estava comendo calango (uma espécie de lagarto) assado. Um grupo de repórteres do Jornal do Brasil pôde verificar como uma família preparava torresmo de calango. No estado do Piauí, o Ministério da Agricultura lançou um apelo à população para que não vendesse seus animais de carga aos matadouros. Foram impressos e distribuídos cartazes coloridos com os dizeres “não sacrifique quem tanto lhe serve”, estampando cavalos, mulas e jegues.

Assim, “pão e água” tornou-se a prioridade do nordeste brasileiro. O dr. Rubens Doval, presidente da seção baiana da Cruz Vermelha, estava desanimado pelo fato de que, em agosto, enquanto 375 toneladas de alimentos haviam sido enviadas às vítimas das enchentes, apenas 5 toneladas haviam sido obtidas para as vítimas das secas. O Brazil Herald fez o seguinte comentário acertado: “Ambas as calamidades são terríveis, é verdade, mas as inundações têm a vantagem da novidade, que sempre desperta maior atenção.” Afluíram cartas de pessoas indignadas lamentando a falta de atenção dada à tragédia no nordeste. Os meios de comunicação, daí em diante, cuidavam em não mencionar as enchentes sem conceder igual espaço à seca. Estimulados por isso e animados pelo que fora realizado no Sul, passaram-se a tomar medidas.

Usando o mesmo método adotado para socorrer as vítimas das enchentes, a Sociedade Torre de Vigia, por meio de seus representantes viajantes e anciãos congregacionais, realizou extensiva pesquisa na região, cuidou das necessidades das Testemunhas de Jeová e seus associados provendo dinheiro para a compra de alimentos e outros itens necessários.

Um programa do governo criou a distribuição mensal de cestas alimentares às famílias necessitadas. Contendo 20 quilos de feijão, 15 de farinha, 10 de arroz, 5 de fubá de milho e 6 de açúcar, são vendidas a preço de custo. Está em andamento um projeto especial do governo para a construção de mais de 30 mil cacimbões (grandes poços) ao custo de 7,5 bilhões de cruzeiros. A Cruz Vermelha brasileira está conduzindo uma campanha nacional de doações. Segundo o sr. Mavy Harmon, seu presidente, o que mais se necessita é dinheiro, roupas leves, alimentos enlatados e conservas, e leite em pó este último considerado fundamental. Na antes fértil região de Irecê e Jussara, Bahia, o quadro é de completa desolação, e, segundo relatórios, existem uns 150 mil famintos, dos quais 30 mil desempregados. As doações têm chegado, minorando o problema, e, para evitar tumultos e abusos, a distribuição é cuidadosamente organizada e controlada. É grande o movimento de caminhões que transportam água, abastecendo a população deste precioso líquido. No sertão de Pernambuco, cerca de 3.000 caminhões-pipa rodam naquela área ressequida.

A dúvida na mente de muitas pessoas compassivas e generosas é se as suas doações chegarão ao seu destino e realmente beneficiarão os que mais as necessitam. À parte da costumeira linha de ladrões e saqueadores, há também os “ladrões de casaca”. Escândalos envolvendo altos funcionários são freqüentes, e escritores sem meios-termos quase diariamente trazem à atenção o que tem sido chamado de a “Indústria da Seca”. Ajuda governamental, na verdade, não tem sido totalmente negligenciada no decorrer dos anos. Enviou-se dinheiro à região. Têm sido feitas amplas subvenções, mas, como muitos afirmam: ‘Acaba tudo no bolso dos outros.’ Os fundos são amiúde desviados para canais ilícitos. O uso de fundos públicos para a construção de ostentosos monumentos, mausoléus, estádios de futebol, sedes bancárias ultramodernas e outras “obras públicas” numa região como o nordeste, onde a miséria abjeta domina o cenário e reduz seus habitantes humildes e conformados a uma condição subumana, dá margem a muitas críticas. Quão verazes as palavras do apóstolo Paulo ao dizer que “o amor ao dinheiro é raiz de toda sorte de coisas prejudiciais”, e ao acrescentar que nos últimos dias os homens correriam gananciosamente atrás do dinheiro, para sua própria ruína. — 1 Timóteo 6:9, 10; 2 Timóteo 3:1, 2.

A menção dos”últimos dias” bíblicos traz à lembrança uma reportagem interessante na revista Veja (20 de julho de 1983) sobre a possível causa da seca. Como no caso das inundações no sul, há muita especulação. Alguns dizem ser a seca o resultado de “quatro séculos de devastação irresponsável”. “El Niño” figura na lista como possível culpado, embora pensa-se que uma intensa atividade solar incomum seja uma causa mais provável. A reportagem diz que o consenso sobre o assunto entre especialistas é este: “O mundo atravessa, atualmente, fenômenos climáticos de monta, cuja extensão e conseqüências ainda não foram claramente determinadas.” Poderiam ser as ocorrências para as quais Jesus Cristo apontou em sua profecia sobre a terminação do atual sistema de coisas? — Mateus 24:3; Lucas 21:10, 11.

E, que dizer da caótica situação financeira do Brasil? Sua incrível dívida? Tem a profecia bíblica alguma relação com isso?

A Dívida

O “dilúvio” de 1983 que assolou o Brasil é agora coisa do passado, embora os efeitos posteriores estejam longe de ser eliminados. A seca se arrasta interminavelmente. Nem as inundações nem a seca ocupam mais as primeiras páginas dos jornais. Mas, o que continua a ocupar as manchetes — e merecidamente — é a dívida. Homens bem-informados em altos escalões expressam profunda preocupação e muitos pressentimentos quanto ao que ameaça não só o Brasil, mas o mundo inteiro. (Lucas 21:26) A renúncia de homens em postos-chaves tem revelado quão grande é a preocupação entre os que estão nos “bastidores”. Disse o conhecido general Morais Rego que a crise não é “privilégio” apenas do Brasil, pois ela existe em toda a parte. O ex-presidente do Banco Central, sr. Carlos Langoni, achou necessário renunciar em setembro, declarando não mais poder concordar com a maneira em que os assuntos vinham sendo conduzidos. Outros logo fizeram o mesmo.

O Brasil é um país dinâmico. Nos últimos 25 anos fez tremendos avanços, emergindo como nação moderna e progressista. “Ordem e Progresso” é seu lema. Mui certamente tem feito progresso, e, apesar de seu tamanho, tem conseguido manter um grau de ordem e estabilidade não igualável aos seus vizinhos menos afortunados. A inauguração de sua novíssima capital, Brasília, em 1960; a construção de super-rodovias e estradas em todo o país; pontes, usinas hidroelétricas, refinarias de petróleo, usinas nucleares; a exploração de seus ricos recursos naturais; Agricultura, Educação, Indústria, Previdência Social (INAMPS), Transporte — quase todo setor da vida do país recebeu atenção, acarretando inumeráveis benefícios à população. Tudo isso custa dinheiro. Muito dinheiro. Era necessário capital estrangeiro, e este estava disponível. Muitos governos depositaram grandes esperanças no Brasil. O futuro previsível do país era muito promissor. Generosos empréstimos foram colocados à disposição, com cláusulas fáceis. Bancos e governos estrangeiros, visando seus próprios interesses, tentados por todas as possibilidades, tornaram-se mão-abertas. O país entrou num período de rápido desenvolvimento, amiúde chamado de “o Milagre Brasileiro”. O dinheiro entrava e o Brasil vertiginosamente ia em frente, gastando, gastando, gastando, como uma despreocupada filha de um multimilionário ganhador de loteria, deixada à vontade num supermercado. Seu apetite por crédito era insaciável.

Os gastos continuaram. Passaram-se duas décadas. Mais empréstimos foram obtidos — e a dívida aumentava cada vez mais, como também os juros acompanhantes. Recorreu-se a todo tipo de manobras e negociações. Muitos foram os indivíduos discernidores que preveniram o vindouro desastre, mas, como a proverbial ‘voz no deserto’, não foram ouvidos. Um dia de ajuste de contas tinha de vir, e, veio mesmo, em 1983. A nação teve que levantar as suas próprias possibilidades, e, ao assim fazer, quase tudo veio à tona, trazendo à lembrança as palavras de Cristo: “Não há nada escondido que não se torne manifesto, tampouco há nada cuidadosamente oculto que nunca se torne conhecido e nunca venha à tona.” — Lucas 3:4; 8:17.

No despontar de 1983, tornou-se público que a dívida externa do Brasil havia ascendido a 90 bilhões de dólares. Recessão mundial, altas taxas de juros, inflação interna, gastos excessivos, o custo do petróleo importado e uma hoste de outros problemas levara o país à beira da falência. Recorreu-se ao Fundo Monetário Internacional em busca de ajuda. Em janeiro, o dólar era vendido oficialmente a 257 cruzeiros. Em fevereiro, estimulado pelo FMI, o cruzeiro foi “maxidesvalorizado” para 381. Daí, no fim de agosto, após a visita de uma equipe especial do FMI, e quando os prejuízos das enchentes estavam sendo avaliados, a taxa era 671! Trinta reajustes em oito meses! E assim continua.

Deve-se admitir que parte da atual situação difícil do país se deve a sinuosos empreendimentos estrangeiros, aproveitando-se da boa fé e boa vontade do povo brasileiro. O governo polonês sofreu uma saraivada de acusações neste sentido na imprensa nacional durante o mês de agosto, após denúncia publicada no O Estado de S. Paulo, sem meios-termos. A sinceridade brasileira, contudo, não tolhida pela censura, em termos nada incertos, revelou suas próprias faltas e malogros, não poupando a ninguém, numa admissão de culpa sem precedentes, que durou um ano. Denúncias, condenação e críticas voaram em todas as direções. O deputado Alencar Furtado disse que a “falta de decência e vergonha”, e não a inflação, deve ser culpada dos escândalos no governo federal. Ameaças de processos tornaram-se a ordem do dia, todo mundo, aparentemente, querendo processar todo mundo! O cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, Eugênio Salles, disse estar “profundamente preocupado” com a grande corrupção vista em tantos diferentes segmentos da vida nacional. O grande desafio que confrontava a nação era “pôr ordem na casa”.

E este é o maior de todos os problemas. A “casa” brasileira está, admitidamente, dividida. A incapacidade de chegar a um acordo em assuntos vitais está dilacerando o próprio coração da nação. Se o Brasil deve ou não aquiescer às exigências do FMI tem-se tornado assunto de grande discussão. Na opinião de muitos, está envolvida a soberania nacional, e, segundo o secretário-geral do Conselho de Segurança Nacional, Danilo Venturini, o Brasil não abrirá mão de sua soberania, nem para o FMI. A política salarial do governo, também, trouxe a lume a relutância geral do povo em encarar os fatos, aplicar medidas de austeridade e “apertar o cinto”. Um editorial, no Latin America Daily Post (2 de setembro de 1983), sumarizou assim a situação: “Quando a maioria dos cidadãos do país deixa de apoiar uma grande iniciativa de medidas, essa iniciativa por fim falhará. Talvez tenhamos chegado a essa encruzilhada.”

Que Significa Tudo Isso?

Por que o Brasil, e todo o resto do mundo, teve tanta aflição em 1983? Que significa tudo isso? Quem é o responsável? Há solução? As Testemunhas de Jeová respondem prontamente: Vivemos nos últimos dias do atual sistema de coisas. As “dores de aflição” que começaram em 1914 atingem agora seu clímax e culminarão na “guerra do grande dia de Deus, o Todo-poderoso”, chamada de Armagedom. — É este o significado de tudo isso. — Mateus 24:3, 7, 8; 2 Timóteo 3:1-5; Revelação (Apocalipse) 16:14, 16.

E quem é o responsável? Revelação 12:12 nos informa:

“Ai da terra e do mar, porque desceu a vós o Diabo, tendo grande ira, sabendo que ele tem um curto período de tempo.”

As Testemunhas de Jeová entendem, também, que o homem, por mais nobre e bem-intencionado que seja, jamais resolverá os problemas da humanidade. Não lhe cabe dirigir os seus passos, como a Bíblia diz tão claramente, e a história prova além de dúvida. (Salmo 146:3; Jeremias 10:2, 3) Só Jeová Deus, por meio de Seu Reino às mãos de Seu Filho, Jesus Cristo, pode eliminar todas as aflições que agora assediam a humanidade, e Ele fará isso em breve, pois Seu Reino é iminente. — Lucas 21:31.

Durante e após o “dilúvio” no sul as Testemunhas de Jeová falaram com afinco sobre a esperança do reino de Deus aos que queriam ouvir. Na verdade, foi reconhecido que eram o único grupo religioso que visitava as pessoas em seus próprios lares com uma palavra de conforto. No nordeste atingido pelas secas também são bem-conhecidas por sua perseverança em alcançar as pessoas com as “boas novas do reino”. (Mateus 24:14) É sua determinação continuar a fazer isso em 1984, tanto no Brasil como em todas as partes da terra. Desejam continuar a “falar destemidamente a palavra de Deus”. — Filipenses 1:14.

Sábios sem dúvida são todos os que o ouvem e acatam, pois a tais se reserva a perspectiva de serem introduzidos numa grandiosa nova era de paz e prosperidade, sob o Reino messiânico de Deus, quando nunca mais a terra estará sujeita a um dilúvio, a uma seca ou a uma grande dívida. — Isaías 32:1, 16-18; 35:7-10.

[Destaque na página 18]

“Nunca vimos algo assim antes.”

[Destaque na página 19]

Desastres desta natureza revelam o que cada qual entesoura mais na vida.

[Destaque na página 20]

Só quero água e comida para o meu povo.”

[Destaque na página 21]

Sinais dos “últimos dias”? A terminação do atual sistema de coisas?

[Destaque na página 22]

Um dia de ajuste de contas tinha de vir, e, veio mesmo, em 1983.

[Destaque na página 22]

A solução? O Reino de Deus às mãos de Seu Filho, Jesus Cristo!

[Fotos na página 17]

Ruas centrais de Blumenau inundadas.

[Gráfico na página 23]

(Para o texto formatado, veja a publicação)

DÍVIDA DA AMÉRICA LATINA — 1982

Brasil.............86,3

México.............84,6

Argentina..........38,8

Venezuela..........25,3

Chile..............17,2

Peru...............11,2

Colômbia...........10,2

Outros.............23,3

TOTAL........ $ 296,9bi

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