Anuário das Testemunhas de Jeová
Zimbabwe (continuação)
[Seriado com base no Yearbook de 1985.]
Posição Firme dos Irmãos
Era bom que os irmãos já estavam raciocinando desta forma, porque esta maneira de pensar tornaria as coisas muito mais fáceis para eles apenas dois anos depois. Foi no primeiro semestre de 1974 que o Ministério do Reino trouxe um suplemento especial intitulado “Harmonizemos Nosso Emprego com o ‘Amor ao Próximo’” [junho de 1974, no Brasil]. Este suplemento apresentou claramente o conceito bíblico do assunto. Fumar é imundície da carne e, portanto, um pecado passível de desassociação. Sendo este o caso, seria correto o cristão cultivar esta planta, ou processá-la e vendê-la a outros? A resposta óbvia das Escrituras é: Não. Não poderíamos fazer isso e ainda mostrar amor ao nosso próximo. Foi desta forma que o suplemento raciocinou. − Lucas 10:27; 2 Coríntios 7:1.
A reação dos irmãos foi de emocionar! Procure imaginar-se na situação desses irmãos. Suponha que tenha um trabalho de bastante responsabilidade numa fazenda produtora de fumo. Com isso tem uma casa e talvez um pedaço de terra onde pode criar algumas de suas próprias cabeças de gado. Agora, de repente, confronta-se com uma grande decisão. Seu empregador lhe diz que se não quiser trabalhar na produção de fumo, terá de procurar emprego em outro lugar. Talvez tenha diversos filhinhos. Que irá fazer?
Bem, nossos irmãos agiram! Sim, estavam dispostos a desfazer-se de tudo isso em vez de serem separados da organização de Jeová. Muitos sofreram graves perdas financeiras. Mas mantiveram o favor de Jeová. Poderá contar nos dedos o número dos que foram desassociados. Quanto nosso coração se afeiçoou aos queridos irmãos que permaneceram tão firmes a favor da justiça de Deus!
Reações Dúplices
Naturalmente, esta posição dos irmãos provocou uma reação em ampla escala, a maior parte da qual adversa. Artigos de jornal e cartas ao editor tornaram-se aspectos regulares. Membros do Parlamento expressaram suas críticas dentro e fora do Parlamento, alguns deles veementemente. Indicando até que ponto chegou isso, certo redator declarou numa revista mensal: “As Testemunhas de Jeová têm sido serveramente criticadas dentro e fora do Parlamento. . . . Sob a nova legislação, elas podem agora ter sua cidadania cassada, e perder a imunidade contra a deportação.” Ele classificou isso de “uma tempestade num copo d’água”.
Os próprios fazendeiros tiveram reações diversas. Alguns deles eram malvados. Alguns escreveram à Sociedade, dizendo o que pensavam das Testemunhas de Jeová; outros usaram o telefone. Mas, ainda assim, gostariam de ter Testemunhas de Jeová em posições de confiança em suas fazendas.
Assim, houve vários fazendeiros que se esforçaram em conciliar as coisas para os irmãos. Em vez de perderem bons trabalhadores de confiança, estavam dispostos a dar-lhes trabalhos que não envolvessem a produção de fumo. Isto, naturalmente, foi apreciado pelos irmãos.
Há a experiência dum irmão que estava empregado como vendedor de fumo. Discernindo que não poderia permanecer neste tipo de serviço, o irmão pediu demissão, a qual foi recusada pelo seu empregador. Assim, o irmão simplesmente não se apresentou para o trabalho. Quando o patrão foi até a casa dele para verificar por que ele não tinha ido trabalhar, o irmão expôs a situação. Depois disso o empregador elogiou o irmão por sua honestidade e frisou que não queria perdê-lo como empregado.
Aproveitando o ensejo, o irmão estabeleceu os termos sob os quais permaneceria no emprego. Não só deveria ser isento de tarefas que envolvessem o fumo, mas também queria tempo livre para todas as reuniões. O empregador concordou com isso, embora representasse uma redução no ordenado do irmão.
“Por experiência própria”, arrematou este irmão, “aprendi que, desde que perseveremos ao depararmos com problemas em nossos locais de serviço secular, seremos abençoados. Aprendi também a importância de estarmos mais preocupados com o nosso crescimento espiritual à medida que avançamos com a organização de Jeová.” Este irmão serve atualmente como ancião.
As Boas Novas Espalham-se em meio à Adversidade
Realmente, esse deslocamento dos irmãos contribuiu muito para disseminar as boas novas do Reino. Devido a isso até mesmo novas congregações foram organizadas em regiões anteriormente isoladas. Por exemplo, certo irmão possuía uma mina num território isolado. Os irmãos vieram a saber que ele precisava de trabalhadores e que estava disposto a ajudar os necessitados. Não demorou muito e ele tinha 20 irmãos trabalhando para ele. Estes, juntamente com suas famílias, formaram uma congregação que ainda continua a existir. Outros também se prontificaram para ajudar nas localidades em que pudessem.
Alguns dos que se viram desempregados devido à questão do fumo voltaram para as suas localidades, onde, amiúde, não havia nenhuma congregação. Em resultado, a Palavra de Jeová estava sendo pregada em regiões onde jamais se pregara antes.
Mas, como terminou tudo isso? Por estranho que pareça, foi a própria Associação de Fumo que finalmente definiu o assunto, pelo simples processo de publicar um anúncio da parte do presidente da associação em um de seus boletins mensais para os produtores de fumo. Este anúncio dizia que para as Testemunhas isso era um assunto religioso e não devia tornar-se uma questão controversial. Foi feito um comentário interessante na edição de junho de 1974 da revista Rhodesia Tobacco Forum. Na página 27, dizia a respeito das Testemunhas de Jeová: “No mesmo artigo [artigo de jornal] relatou-se que o Secretário da Agricultura . . . descreveu a medida como ‘aparentemente uma tentativa deliberada de produzir um transtorno na economia’. Não obstante, os números envolvidos dificilmente parecem justificar tal suposição.” Este comentário feito pela própria Associação de Fumo da Rodésia pareceu aquietar as coisas, de modo que os irmãos não mais foram fustigados. Deveras, foi dado um excelente testemunho a respeito da lealdade do povo de Jeová.
Fica em Evidência a Questão da Neutralidade
Enquanto o problema do fumo afetava nossos irmãos africanos, ficou em evidência outra questão, também em 1972, que a princípio envolvia apenas nossos irmãos brancos. Esta tinha que ver com a neutralidade do cristão nos assuntos das nações. A questão não se tornou um problema amplamente difundido até que irrompeu o que veio a ser conhecido como a “guerra de libertação” ou, como outros a classificam, a “guerra terrorista”. O problema surgiu, naturalmente, em conseqüência do serviço militar obrigatório para homens brancos.
Com a intensificação da luta, especialmente junto às fronteiras do país, envidaram-se mais esforços para envolver toda a população na defesa nacional. O recrutamento, porém, a princípio limitava-se aos homens brancos. Isto envolvia um considerável número de jovens Testemunhas, muitos dos quais tiveram de cumprir termos de prisão, alguns mais de uma vez, por manterem conscienciosamente seu proceder de neutralidade cristã.
A natureza do recrutamento era tal que os homens podiam ser convocados por determinados períodos do ano, depois dos quais podiam voltar ao seu emprego secular. Assim, um irmão podia ser processado cada vez que conscienciosamente recusasse obedecer à convocação, o que significava que podia expôr-se à possibilidade de um termo de prisão após outro. Com efeito, alguns até mesmo receberam avisos de convocação enquanto ainda estavam presos!
Jovens casados, com filhos, achavam isso especialmente difícil, não só porque tinham de deixar a família para trás ao serem presos, mas também por causa do seu emprego. Não raro estes irmãos perdiam o emprego ao serem presos, necessitando procurar outro trabalho ao serem soltos. Ao assim fazerem, invariavelmente se lhes perguntava qual era sua situação militar. Ao se apresentar os fatos ao prospectivo empregador, a resposta em geral era: “Sinto muito. Gostaria de dar-lhe o emprego, mas não posso, a menos que tenha recebido treinamento militar.” Para alguns, isto tornou-se um problema muito grande.
Um Exemplo Inicial
Um dos primeiros a suportar tais provações foi Bob Hawkes. Ele já havia prestado o serviço militar ao começar a estudar a Bíblia com as Testemunhas de Jeová. Estudava há apenas seis meses quando, em janeiro de 1973, foi convocado. Mas, vamos deixá-lo narrar sua própria história?
“Devido ao que tinha aprendido em meus estudos da Bíblia, decidi não comparecer. Nessa ocasião Molly, minha esposa, estava com cerca de dois meses de gravidez.”
O que aconteceu quando ele deixou de apresentar-se?
“Fui intimado ao tribunal e recebi 30 dias efetivos de prisão e uma sentença em suspenso de três meses.”
Achou ele sua prova difícil de suportar?
“Sim, muitíssimo. Ali estava eu, não sendo nem sequer batizado e atrás das grades. Agora estava totalmente só num mundo muito estranho. Tudo isso era muitíssimo confuso. Então Molly ficou transtornada e escreveu-me uma carta dizendo que iria abandonar-me. Ainda por cima, meu pai veio visitar-me, trazendo uma porção de publicações condenando as Testemunhas. Eu o fiz ciente de que, independente do que acontecesse, estava determinado a apegar-me à minha posição conscienciosa. A oração a Jeová era meu único conforto.”
Agravam-se os Problemas
Quando Bob Hawkes foi solto, verificou que seus problemas estavam longe de acabarem. Em casa, Molly, sua esposa, deu-lhe a mochila do exército e sugeriu-lhe ir para o “mato”, isto é, para o campo de batalha. Conta Bob: “Eu lhe disse que ela jamais deveria tentar forçar-me a ir e nem sequer mencionar isso de novo.”
Daí, Bob voltou para o seu emprego, só para ficar sabendo que estava despedido no mesmo instante. “Quando eu disse a Molly que fora despedido”, conta Bob, “é surpreendente que ela tenha permanecido comigo, visto que ela ainda era fria para com a verdade.”
Logo depois disso, Bob foi batizado. Daí foi preso de novo, desta vez por seis meses, além dos três meses da sentença em suspenso, da ocasião anterior. Ao todo, foi preso três vezes, a última vez por oito meses.
E Que Dizer de Molly?
Talvez perguntemos: “Molly, que tem a dizer sobre tudo isso?”
“Enquanto estudávamos a Bíblia, a verdade não significava realmente muito para mim. Com Bob era diferente. Assim que aprendia algo, ele fazia mudanças. Conseqüentemente, fumar, festas e outras coisas tiveram de acabar. Daí fiquei grávida, e a questão do sangue perturbava-me. Toda a nossa vida estava sendo afetada.
“Então Bob foi preso. Eu achava isso terrível. Como podia ele fazer tudo isso a nós? Foi então que decidi dar-lhe um ultimato. Assim, escrevi-lhe e ameacei abandoná-lo. Mas, no fundo, eu sabia que não falava sério e não poderia fazer algo assim.”
Que fez Molly mudar e aceitar a verdade?
“Muito se deve à bondade demonstrada pelas irmãs. Havia pacotes de comestíveis, carne, pão, bem como outras ajudas materiais. Mas, além disso, havia a preocupação amorosa dos irmãos e das irmãs que me edificavam espiritualmente. Aos poucos isto me influenciou. Fez-me pensar. De modo que comecei a me empenhar em prol do batismo. Fui batizada logo depois que Bob foi libertado pela última vez.”
O irmão Hawkes foi convocado mais uma vez depois disso. Mas, desta vez não foi preso, por causa de seus planos de aceitar emprego em outro país.
Esta experiência é típica daquilo que diversos de nossos irmãos suportaram. Com efeito, à medida que a idade de recrutamento subiu para 50 anos, e, finalmente, até mesmo para 60, um bom número ficou envolvido. Falaremos mais sobre isso depois.
[Continua na próxima edição.]