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A frenética busca de energiaDespertai! — 1978 | 8 de agosto
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A frenética busca de energia
“SEU escopo é algo que nem sequer podemos imaginar. . . . Quase que certamente, trará tremendo caos social nos países desenvolvidos mais do que em outras partes.” Com tais palavras, o oceanógrafo Jacques Cousteau falou, em data recente, sobre “drástica crise energética na década de 80”.
Por outro lado, muitos outros podem apresentar tabelas e estatísticas que indicam que nossa terra ainda contém bastante petróleo, carvão e outros recursos, para fornecer energia, e fornecê-la em abundância. É óbvio, ao se ler sobre a “crise energética”, que logo se depreenda haver muito desacordo e confusão sobre isso.
Mas, Por Que Há Confusão?
Existe uma crise válida? Por certo, podemos verificar se a energia está acabando, não podemos? A dona-de-casa sabe quando seu guarda-louças está vazio. Por que é aparentemente impossível conseguir-se uma resposta simples para esta questão das reservas de energia?
Porque o problema não é um só e sim uma gama de problemas. As soluções propostas, semelhantemente, são numerosas. Como se expressou um perito em energia, as causas da “crise” são “parte físicas, parte políticas e parte econômicas”.
Ademais, muitas soluções dependem de “ses”. Se houver crescente cooperação entre as nações; se o homem conseguir desenvolver um modo de obter economicamente energia desta ou daquela fonte; se ela puder ser transportada e distribuída onde for necessária — então teremos a solução. Teoricamente, muita coisa é possível; na realidade, as escolhas talvez sejam poucas.
No mundo hodierno, caso uma nação possua energia barata, isso pode dar maior segurança econômica para seu povo. Muitos cientistas crêem que um inteiro novo modo de vida para centenas de milhões está em jogo. Como disse certa autoridade sobre energia dos EUA: “Não haverá tempo para experiências quando o petróleo se esgotar.”
Em aditamento, contudo, a nação que possui energia, também possui poder político e econômico sobre outras nações. A frenética busca de energia tem mais de um motivo.
Para compreender a complexidade disso, poderíamos considerar apenas uma fonte de energia — o óleo cru. O petróleo rico e negro parecia a solução para as necessidades energéticas do homem até o tempo indefinido. Mas, não parece sê-lo hoje. Por que não? Porque, ao passo que ainda existe muito petróleo dentro da terra, tais depósitos não se acham igualmente distribuídos. A maior parte do petróleo se encontra na península arábica e na União Soviética. Assim, pequeno número de nações pode influir drasticamente no equilíbrio econômico do mundo por ajustaram o preço do petróleo. Grandes e poderosas nações receiam ser economicamente manipuladas por causa de sua dependência do petróleo.
Uma solução é desenvolver outras fontes energéticas dentro de suas fronteiras nacionais. No entanto, é preciso progredir em tecnologia para localizá-las e utilizá-las com eficiência. Quando lemos a “letrinha miúda” desses conceitos conflitantes quanto a novas fontes, discernimos que, em muitos casos, o potencial energético existe, mas o homem não sabe, no momento, como explorá-lo e “colocá-lo para funcionar” de modo econômico. Ninguém deseja comprar energia a um custo muitas vezes superior ao atual.
Para Onde se Voltam?
Eis aqui apenas alguns dos sistemas energéticos experimentais ou limitados que estão sendo desenvolvidos:
● Vários países investigam o calor geotérmico, isto é, o calor proveniente do interior da terra. (Vejo “Despertai!” de 8 de julho de 1978.)
● Fusão nuclear — não é a mesma que as presentes usinas nucleares’ (que dividem o átomo). É uma fusão dos núcleos de dois elementos, criando poderoso irrompimento de energia. Problemas: A tecnologia é extremamente complexa; o custo atual é elevado. Uma data projetado para um “modelo comercial” é o ano 2000.
● Renovado interesse pelo carvão, especialmente na transformação do carvão em gás ou combustível líquido.
● Moinhos de vento e aparelhos para “dominar” as marés, mostram ser ‘bastante promissores’, mas precisam de mais desenvolvimento para a utilização prático.
Em adição ao acima, há duas outras fontes destacadas de energia que agora são aperfeiçoadas por vários países. São: As usinas nucleares (fissão) e a energia solar.
Os problemas e as possibilidades de tais serão considerados nos artigos seguintes, dos correspondentes de Despertai!, na Alemanha e no Japão. Embora reflitam situações locais, tais relatos fornecem-nos uma visão adicional de nossa luta mundial em busca de energia.
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O dilema da energia nuclear da AlemanhaDespertai! — 1978 | 8 de agosto
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O dilema da energia nuclear da Alemanha
Do correspondente de “Despertai!” na República Federal da Alemanha
GUERRA NUCLEAR! Quem não fica horrorizado diante da própria idéia disso? O rápido colapso das forças de Hitler, na primavera setentrional de 1945, pode bem ter sido o que impediu a Alemanha de obter a duvidosa distinção de ser o primeiro país assolado pela guerra nuclear. Agora, porém, já tendo passado mais de 30 anos, este país está sendo atingido por algo que os principais jornais e revistas alemães assemelham a uma “guerra atômica” de outro tipo, uma bem grave, que poderá ter conseqüências duradouras.
Quase a única coisa com a qual todos concordam é sobre a que se refere esta “guerra”: o uso pacífico da energia nuclear. Assim trata-se duma “guerra atômica pacífica”, se assim o quiser. Mas, nisso termina o acordo e começam as divergências. Será aconselhável e necessário construir usinas nucleares? Se for, são os imperativos da construção suficientemente elevados para garantir sua segurança? Que dizer da eliminação dos resíduos radioativos? Será sábio e desejável vender usinas nucleares a outros países? Quais são os métodos corretos de impedir o possível uso errôneo, pelos terroristas, da tecnologia nuclear?
O homem teve êxito em dividir o átomo, mas não tem tido êxito em impedir que este conhecimento rompesse a união de sua sociedade e dos seus governos. “A Energia Nuclear Divide Nossa Terra”, avisou o jornal Die Zeit, em suas manchetes de primeira página de 25 de fevereiro de 1977. Será que o átomo se está vingando de nós?
Construir ou Não?
Os proponentes das usinas nucleares argúem que fontes adicionais de energia são vitais para garantir a capacidade industrial duma nação. Afirmam não haver alternativa, atualmente disponível, para a energia nuclear. Ao passo que admitem certos perigos, sublinham que tomaram-se precauções necessárias para minimizar tal risco.
Por outro lado, Horst-Ludwig Riemer, Secretário da Economia da Renânia do Norte-Vestfália, declarou: “Não me impressiono com o constantemente repetido prognóstico: segundo a lei das médias, só se pode esperar um desajuste dum reator uma vez a cada 10.000 anos. Ninguém me pode assegurar que isto não poderia acontecer no primeiro ano de operação.” Concordou o Süddentsche Zeitung: “Em princípio, se algo poderá ocorrer em algum tempo, então poderá ocorrer também agora.”
Os nomes de três das mais de 20 usinas nucleares, que estão agora em operação ou sendo construídas, tornaram-se quase que sinônimos do movimento de protesto — Wyhl, Grohnde e Brokdorf. Descrevendo os violentos choques entre manifestantes e a polícia em Brokdorf, em novembro de 1976, o Hamburger Morgenpost falou de “ações de tempo de guerra”. A revista Stern chamou-a de “a guerra civil de Brokdorf”, e passou a dizer: “A guerra atômica está sendo travada nas campinas — com armas convencionais. Sua radiação não mata, mas as ondas de choque, que se irradiam dos espancamentos mais brutais que já ocorreram desde os distúrbios estudantis de 1968, também são venenosas — venenosas para os políticos. Os que persistirem em seguir uma diretriz de espancar seus críticos, ao invés de ouvi-los, estão transformando o estado democrático num estado policial.”
Coalizões de cidadãos, organizadas para impedir a construção adicional de usinas nucleares, argúem que se acham disponíveis alternativas menos perigosas para garantir amplo suprimento energético. Protestam mediante lemas atraentes como “É melhor a vida ativa hoje do que a radioativa amanhã”, ou “Energia nuclear à morte irá levar”. Também suscitam a questão de onde poderão ser depositados com segurança os resíduos atômicos destas usinas.
Os cidadãos dum país democrático têm o direito de protestar pacificamente. As autoridades afirmam que não objetam às coalizões de cidadãos, de per si, até mesmo admitindo que o Governo tem achado apropriado reavaliar seu programa energético e suas normas de construção, em vista dos argumentos que tais grupos apresentam. Mas elementos radicais e criminosos conseguiram infiltrar-se nestes movimentos dos cidadãos e transformaram pretendidas marchas pacíficas de protesto em distúrbios irados. Alguns dos líderes dos cidadãos admitem o perigo da infiltração por extremistas, mas se ofendem de serem classificados de terroristas, radicais e elementos criminosos. Acham que não podem ser considerados responsáveis por pessoas que utilizam mal as marchas de protestos para seus próprios objetivos políticos; nem se deveria esperar que esquecessem seu direito de protesto pacífico simplesmente para impedir tais abusos. Ademais, sustentam eles, a polícia às vezes agiu com excessos e empregou táticas autoritárias.
Os políticos de destaque discordam sobre como resolver o problema dos protestos. Die Zeit encabeçou um artigo sobre o assunto com a seguinte observação: “Gabinete Está Dividido.” Também estão os tribunais. Ao passo que certo tribunal sentenciou que se parasse a construção dum reator, menos de um mês depois, outro tribunal proclamou que a construção duma segunda usina poderia continuar. Em ambos os casos, essencialmente estavam envolvidas as mesmas questões. Por isso, resta a pergunta: Construir ou não?
Vender ou Não?
Lá em 1975, a República Federal da Alemanha concordou em vender ao Brasil oito reatores nucleares, uma usina de enriquecimento de arranjo e uma usina de reprocessamento nuclear. Os Estados Unidos objetaram fortemente a isso. Apesar da oposição, o Governo alemão prosseguiu com seus planos, concluindo-os em abril de 1977. O resultado tem sido a tensão entre dois poderosos membros da NATO (ou OTAN), a Organização do Tratado do Atlântico Norte. Quão paradoxal é que o uso da energia nuclear em tempo de paz devesse ameaçar a unidade de uma organização estabelecida para impedir seu uso errôneo em tempo de guerra!
Freio à Ameaça Terrorista
Outro fator que entrou no quadro é o possível uso errado da energia nuclear por parte de terroristas. A Alemanha tem tido seu quinhão de atividades terroristas nesses últimos anos. Destarte, existe um temor incomodativo de que os terroristas encontrem algum meio de obter material físsil com o qual construir uma bomba atômica. Embora seja admitidamente difícil, isto não é de forma alguma impossível. Até que ponto se deve permitir que o governo vá em tomar medidas preventivas? Estaria justificado em usar até mesmo métodos ilegais e inconstitucionais?
Apontando a relevância de tais indagações, surgiram notícias, em março de 1977, de que Klaus Traube, cientista nuclear alemão, fora vítima de gravações ilegais por parte do Governo. Era suspeito de manter ligações com terroristas, e, por receio de que, por meio dele, o conhecimento nuclear caísse nas mãos de terroristas, o Governo violou suas próprias leis que restringiam as gravações ilegais.
Esta Revelação disparou uma reação em cadeia que trouxe a lume ainda outro fator perturbador. O Governo admitiu que, em 1975 e 1976, conversações particulares entre os agora líderes condenados do grupo terrorista Baader-Meinhof e seus advogados tinham sido provavelmente gravadas de modo ilegal. Por receio de que suas conversações fossem gravadas, Ulrike Meinhof, que cometeu suicídio no decorrer de seu julgamento de dois anos, às vezes se recusara a conversar com seus advogados, insistindo, antes, em comunicações escritas. Embora tal evento não tivesse ligação direta com o problema nuclear, o receio do uso errado, por parte de terroristas, da tecnologia nuclear, é o que trouxe o assunto a lume. Sem dúvida, também ampliou a “falta de credibilidade” entre o Governo e seus cidadãos, tornando cada vez mais difícil o consenso sobre o assunto da energia nuclear.
Vítimas
As vítimas no tempo de guerra são geralmente contadas na casa dos milhares ou dos milhões de mortos, feridos e desaparecidos, e uma guerra sem mortos seria, deveras, pequena. Ao passo que nenhuma morte pode ser ainda atribuída diretamente à “guerra nuclear pacífica” da Alemanha, existe a possibilidade de vítimas futuras. Em Grohnde, 20.000 oponentes à energia nuclear e 4.000 policiais lutaram com cassetetes, correntes, barras de ferro, coquetéis Molotov, gás lacrimogêneo e canhões de água, deixando mais de 300 pessoas gravemente feridas. Tais confrontos poderiam facilmente resultar em várias mortes. Também, caso houvesse falhas que liberassem material radioativo, como receiam os protestadores, poderia haver muitas vítimas.
Em certo sentido, até mesmo o Governo se tornou vítima. A incrementada fricção tendeu a debilitar os processos democráticos desta nação, bem como as alianças internacionais externas. As vitórias jurídicas obtidas por coalizões de cidadãos, e a publicidade que granjearam, muito contribuíram para ampliar o poder de tais coalizões e alargar sua base de operações. A paralisação temporária da construção em Grohnde, por exemplo, foi ordenada menos de três meses depois de começarem os distúrbios ali. Isto deu origem ao receio de que as coalizões de cidadãos se tornem tão fortes a ponto de interferir no funcionamento correto do Governo. Caso isso acontecesse, reinaria o caos.
Não é de admirar que o cidadão mediano esteja preocupado! Está preocupado com a possível perda de liberdade e no colapso do Governo. Por outro lado, preocupa-se com a proliferação nuclear, com a poluição radioativa e com o emprego errôneo da energia nuclear por parte de terroristas.
Este dilema é apenas um dos muitos que confrontam as pessoas hoje, em várias partes do mundo. Obviamente, são necessárias novas soluções. Será a energia solar uma delas?
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É a “casa solar” uma solução?Despertai! — 1978 | 8 de agosto
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É a “casa solar” uma solução?
Do correspondente de “Despertai!” no Japão
O DISCO vermelho brilhante sobre o fundo branco que serve de emblema nacional do Japão é também um lembrete silencioso do tempo em que o sol era adorado por todo este país como a deusa Amaterasu Omikami. Nos tempos recentes, a atenção nipônica mais uma vez foi dirigida para o céu, mas, desta feita, em busca duma fonte de energia de preço razoável.
Em realidade, já durante muitos anos, os aquecedores solares de água pontilham os telhados de dezenas de milhares de casas japonesas. Entretanto, não foi senão com os problemas petrolíferos de 1973, e as acompanhantes ameaças de racionamento de energia, que se deu séria atenção ao uso da energia solar numa escala maior, para as casas.
Nesse sentido, notável passo foi dado na cidade de Numazu, Japão, com uma população de mais de 203.000 habitantes, situada entre o sopé do monte Fuji e o mar. Autoridades e engenheiros de lá decidiram diminuir o consumo de petróleo e eletricidade da cidade por usarem a energia solar. O primeiro resultado prático foi a construção do novo Salão Kanaoka e Anexo da Prefeitura, apropriadamente chamado Taiyo no le, isto é, “Casa do Sol”, ou “Casa Solar” Em seu primeiro ano, este prédio poupou Cr$ 90.000,00 para a cidade de Numazu, por usar a luz solar que caía sobre o telhado. Gostaria de saber mais pormenores que tornaram um êxito esta ‘casa solar’?
Captação da Energia Solar
Diz-se que a terra recebe 20.000 vezes mais energia solar do que os humanos utilizam. Assim, é óbvio o potencial desta fonte energética. Os dois principais obstáculos ao uso da energia solar são: (1) não é continua (a rotação da terra e as coberturas de nuvens causando interrupções), e (2) a baixa intensidade torna necessário grande coletor de energia.
Os muitos sistemas diferentes, considerados para a utilização da energia solar, variam de simples fogões refletores, que podem fazer ferver um litro de água em 20 minutos, às células fotovoltaicas (usualmente feitas de silício) que convertem a energia solar diretamente em eletricidade. No sul da França, grande forno solar que emprega 3.500 pequenos espelhos focalizados num ponto central, produz temperaturas de até 2.980 graus C. Alguns cientistas advogam a colocação de coletores em órbita terrestre, para que enviem a energia (em forma de microondas) a grandes receptores na terra. Outros acham que as necessidades energéticas dos Estados Unidos podem ser satisfeitas por se colocarem coletores de energia solar numa ampla área desértica, usando então tal energia para a produção de vapor para mover turbinas.
Sim, há muitos modos de se aproveitar a energia solar, embora se precise ainda de muita pesquisa antes de tais métodos serem postos em uso em grande escala. No entanto, o sistema da “Casa do Sol” já está em operação, poupando dinheiro e recursos pelo uso da energia solar, isenta de poluição. Tem tido tanto êxito que Kyohiko Watenabe, diretor-assistente do Departamento de Edificações e Consertos Domésticos da Secretaria do Meio Ambiente em Numazu, acha que, em questão de três anos, similares sistemas serão necessários em todos os novos prédios governamentais.
Ao invés de aguardar até que fosse aperfeiçoado um sistema total de energia solar, as autoridades da cidade de Numazu decidiram usar o que já tinha sido desenvolvido. O sistema é simples, mas opera com 30 por cento de eficiência. Coleta suficiente energia, cada dia de sol, para aquecer ou refrigerar o prédio de dois pavimentos, com 716 metros quadrados de espaço útil, e para fornecer água quente para higiene pessoal e para fazer chá. Quando o tempo está chuvoso ou nublado, um aquecedor auxiliar talvez precise funcionar um dia a cada três. Sem embargo, obter do sol dois terços da energia de aquecimento, num país que precisa importar 98 por cento do seu petróleo, já é um passo digno de nota. Como é que esta “Casa do Sol” aproveita a energia do astro do mesmo nome?
Duzentos e vinte e quatro coletores se alinham no telhado, todos eles colocados a um ângulo de 25 graus, para captar os raios diretos do sol. Cada coletor possui uma cobertura de vidro que permite a passagem da luz. A água circula por meio de pequenos canos pretos onde é aquecida. Esta água aquecida flui para um tanque de 20 toneladas, onde a temperatura pode chegar ao ponto de ebulição. Quando esta água estocada fica mais fria do que a água nos coletores do telhado, pequena bomba a faz circular nos radiadores dentro do prédio, e ventoinhas distribuem o calor. Por causa das substâncias químicas contidas nessa água, para impedir a corrosão e o lodo, ela não é potável. Mas um receptáculo separado, de cinco toneladas, dentro do grande tanque, é aquecido para fornecer água para higiene pessoal e para fazer chá.
Por aplicar-se os princípios usados numa unidade de refrigeração a gás, a energia solar também refrigera o prédio. Portanto, quanto mais quente fica o ambiente externo, tanto mais energia se torna disponível para refrigeração interna. Entrar na “Casa Solar” num dia quentíssimo de verão e observar que a temperatura interior é de 25 graus C, constitui prova convincente de que há meios práticos de se utilizar a energia solar.
A “Casa Solar” em Numazu é um exemplo prático da utilização de abundante fonte energética, fonte esta especialmente aproveitável entre os graus 35 de latitude norte e 35 graus sul. As autoridades de Numazu estavam tão convictas de que tinham dado um passo na direção correta que um sistema de aquecimento e refrigeração solar foi instalado numa nova casa de saúde na área da montanha Ashitaka da cidade.
O espaço útil desta nova casa de saúde é duas vezes maior que o da “Casa Solar”, assim, sua capacidade de geração de energia solar é mais que o dobro da “Casa do Sol”. Quinhentos e vinte e dois coletores no telhado fornecem energia para aquecimento e refrigeração dessa casa, bem como água quente para o chá e para banhos. Visto que se proveu uma área extra de coleta de 100 metros quadrados, para possível expansão futura, a eficiência desta unidade é de 37 por cento, e a energia pode ser estocada para uso posterior.
Solução Para Futuros Problemas Energéticos
Existem quaisquer dificuldades ou desvantagens em se usar um sistema de energia solar? Sim. O maior problema era equilibrar o fluxo de água através do conjunto de coletores e canos, de dois metros quadrados. Mas, isto foi conseguido e o sistema da “Casa Solar” continua a operar com relativamente pouca manutenção. Provavelmente, o maior óbice seja o custo inicial, que é muito mais elevado que o dos sistemas convencionais de gás ou óleo. No entanto, com a poupança de energia, a despesa adicional do sistema da “Casa Solar” será pago em sete anos, ou até mesmo antes, caso o preço do petróleo continue a subir. A construção da casa de saúde em Ashitaka custou 18.500.000 ienes (uns Cr$ 1.110.000,00) extras, mas se calcula que tal despesa será recuperada em 4,2 anos de operação. Por que isto se dá? Porque as desposas de energia para aquecimento e refrigeração são de 750.000 ienes (uns Cr$ 45 mil) por ano em Ashitaka, mas, em um prédio comparável, que também aloje 50 pessoas e use os sistemas convencionais, o custo anual é de 5.200.000 ienes (uns Cr$ 312 mil).
Assim, que impressão causou em nós a “Casa do Sol”? Primeiro, ensinou-nos a considerar de forma realística a energia solar. Não se trata dum sistema de energia total. É preciso eletricidade para as luzes e máquinas de escritório, bem como para as bombas e ventoinhas ligadas ao sistema solar. Também, caso chova ou o tempo fique nublado, é preciso usar a caldeira auxiliar. (Não se trata dum sistema independente, mas ela simplesmente aquece a água no sistema de energia solar.) Por outro lado, quando brilha o sol, o que acontece em cerca de dois terços das horas de luz do dia, a energia que, de outra forma, seria refletida de novo na atmosfera, ou absorvida pelo telhado, está sendo aproveitada através dum sistema virtualmente não-poluente.
Em segundo lugar, o fato de uma cidade dispor-se a romper com o meio normalmente aceito de aquecimento e refrigeração nos impressiona com a necessidade de reavaliar o modo em que os recursos da terra estão sendo usados. Há muita gente que receia que, à presente taxa, os combustíveis fósseis serão consumidos em tempo relativamente curto. No entanto, devido à conveniência de se queimarem tais combustíveis, as pessoas são vagarosas em adotar novos métodos que talvez exijam ajustes em seu consumo de energia ou maior investimento inicial, muito embora estes possuam maiores perspectivas a longo alcance.
Em terceiro lugar, depender da energia solar ajuda a aumentar o apreço pelas coisas mais simples e as que consideramos corriqueiras É interessante que o engenheiro municipal que nos mostrou a “Casa Solar” disse que, até que tais prédios foram construídos, jamais avaliara realmente o que significava o nascer do sol a cada manhã. Pense apenas nisso por um instante. Se o sol não brilhasse, a temperatura em toda parte da terra seria de 240 graus C abaixo de zero.
Mesmo sem coletores no telhado, a energia solar influi de muitos modos em nossas vidas. Por meio da luz do sol, as plantas transformam o bióxido de carbono do ar e o hidrogênio da água no solo em carboidratos que se tornam nosso alimento. O vento é uma forma indireta da energia solar, pois o aquecimento e resfriamento das massas terrestres e da atmosfera faz com que sopre o vento. A cada dia, o calor do sol faz evaporar da terra vasta quantidade de água que, mais tarde, cai como chuva ou neve. Quando a água é juntada em rios e reservatórios, o homem pode aproveitar a energia estocada pelo sol, por meio de moinhos d’água e sistemas hidrelétricos de geração de energia.
A cada ano, a terra recebe 700 quatrilhões de quilowatts-hora de energia proveniente do sol. Todavia, essa quantidade fantástica não é senão uma diminuta fração da produção total do sol, porque ele brilha em todas as direções. Até que ponto o homem, no futuro, conseguirá aproveitar esta reserva virtualmente ilimitada de energia, é algo a se observar. Mas que ele pode — se assim decidir — colocar a energia solar em uso prático, torna-se evidente quando consideramos prédios modernos, tais como a “Casa do Sol”.
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