BIBLIOTECA ON-LINE da Torre de Vigia
BIBLIOTECA ON-LINE
da Torre de Vigia
Português (Brasil)
  • BÍBLIA
  • PUBLICAÇÕES
  • REUNIÕES
  • Quando um fungo se instala — em você
    Despertai! — 1976 | 22 de fevereiro
    • vários tipos de remédios, até que descubra um que dê certo. Talvez até signifique tomar algum tipo de remédio por via oral, e isso de três a seis meses; E, usualmente, mantém-se o tratamento por algum tempo depois de se ter livrado aparentemente de nós. Como sabe, podemos esconder-nos entre as células da pele, esperando apenas outra oportunidade de multiplicar-nos e causar outra erupção. Mas, com toda a ajuda que tem de seu lado, não precisa perder a esperança. Com perseverança conseguirá ver-se ainda livre de nós!

  • A tourada — uma festa na Espanha
    Despertai! — 1976 | 22 de fevereiro
    • A tourada — uma festa na Espanha

      Do correspondente de “Despertai!” na Espanha

      NAS paredes de inúmeras casas através do mundo acham-se penduradas fotos que ilustram a perícia dum toureiro. A tourada fascina as pessoas em toda parte. A maioria das pessoas porém, jamais assistiu realmente a uma tourada. Como é? Deixe-nos levá-lo a uma visita a uma arena em Barcelona, Espanha — a Praça de Touros Monumental.

      Ao se aproximar, nota a atmosfera de excitamento e tensão. As pessoas perambulam por perto da entrada da estrutura de estilo mourisco, de teto aberto. Paga-se pelas entradas em notas de 500 e 1.000 pesetas (Cr$ 80,00 e Cr$ 160,00). Mas, apesar do preço, há uma boa multidão.

      Ao entrar na praça, vê que, lá no alto da arquibancada, à esquerda, uma banda de música atacou um paso doble, a música que sempre está associada à arena. A direita e também no alto acha-se o camarote do presidente, usualmente um dignitário local que preside a luta e entrega os prêmios. Há também uma seção marcada toriles, onde seis touros de raça esperam; foram preparados e treinados durante pelo menos quatro anos. Nesta ocasião, cada touro pesava uns 500 quilos.

      Mais abaixo, à esquerda, esperavam três toreros com suas cuadrillas, ou equipes de auxiliares, alguns montados e outros a pé. Antes de terminar o dia, estes três matadores enfrentarão todos os seis touros, dois cada um.

      Inicia-se “La Corrida de Toros”

      Esvazia-se a arena, ficando apenas o mais velho dos três toureiros. Abre-se o portão do cercado de touros e sai tempestuosamente magnífico touro negro. Esta meia tonelada de músculos encrespados troteia pela arena com a cabeça bem levantada, como se desafiasse a qualquer um a descer e enfrentá-lo. Não tem de esperar muito tempo. Ao passo que o toureiro observa, seus auxiliares começam a provocar o touro com suas capas.

      Agora o toureiro se coloca no centro da arena, executando alguns passes iniciais com o capote, ou capa grande, afastando-se lentamente do touro à medida que este ataca. Se o toureiro se sente especialmente confiante, talvez movimente a capa ajoelhado, fazendo que o touro passe várias vezes pelos floridos meneios da capa. A multidão responde a isso com o brado de aprovação, a plenos pulmões: “Ole! . . . Ole!” Mas, então soa uma corneta.

      Isso assinala o fim da fase da capa e o início das varas, ou trabalho do picador a cavalo. Com a lança em mãos, o picador escolhe uma posição na extremidade da arena para mover o touro a atacá-lo. O touro subitamente vê esse alvo muito maior. Ele se lança ao ataque do flanco direito do cavalo. A medida que o touro enfia seus chifres na armadura protetora do cavalo vendado, tanto o cavalo como o cavaleiro são obrigados pelo impacto a recuar. O cavalo esforça-se de manter o equilíbrio e, ao mesmo tempo, o picador enfia sua lança no ombro do touro e a empurra com todo o seu peso, seccionando alguns dos músculos e tendões do touro, obrigando o poderoso animal a abaixar a cabeça, que é necessário para o trabalho posterior do toureiro com a muleta (um pano menor). O touro recua momentaneamente e então ataca de novo, apenas para sentir a lança penetrar mais uma vez nos ombros, minando ainda mais sua força e velocidade.

      Agora é a hora de os banderilleros entrarem em ação. Seu papel é enfiar nos ombros do touro varas, de uns 76 centímetros de comprimento, com arpões aguçados nas pontas, chamadas banderillas. De uma distância de uns 18 a 27 metros, o banderilheiro atrai a atenção do touro por gritar. Então corre em direção do touro com uma bandeirilha em cada mão. No momento crucial, fica na ponta dos pés e, com os braços estendidos, enfia os arpões aguçados no touro. Este processo talvez seja repetido até quatro vezes, e pode também ser feito a cavalo.

      Já então o touro perdeu muito de seu vigor. O sangue jorra das suas feridas nos ombros e escorre pelo corpo. Seu corpo todo arfa com grande esforço e afã. A corneta soa de novo, introduzindo a parte da tourada em que o animal enfrenta a morte.

      O Ataque Mortífero

      Antes do ataque mortífero, o toureador talvez erga seu chapéu de toureiro e dedique o touro a alguém na assistência, talvez uma pessoa de destaque ou até mesmo ao público em geral. Daí, avança para o animal com sua muleta, ou pequeno pano de isca, estendida. Usa-a para provocar o touro ao ataque. O touro, embora exausto, aceita o desafio e ataca; mas não porque o pano é vermelho (o gado é aeromatópico). Ele é atraído pelo movimento do pano.

      O toureiro executa diante do touro vários passes, cada vez tentando fazer com que chegue mais perto, embora, cuidadosamente, observe aqueles chifres perigosos. Um passe é tão perto que o toureiro quase perde o equilíbrio. Quando se volta para enfrentar o touro mais uma vez, sua roupa está lambuzada do sangue do touro.

      O toureiro então se apronta para a matança com o estoque, ou espada especial de execução. O touro e o matador encaram um ao outro pela última vez. Um, exausto e sangrando, respira de modo ofegante, e apresenta seis arpões aguçados pendurados de seus ombros. O outro, com pés juntos, espada em posição, concentra-se.

      Para matar limpamente e segundo as regras, a espada deve penetrar até o punho entre os omoplatas, na primeira vez, seccionando uma artéria ou um órgão vital. Mas, isto raramente acontece na primeira tentativa. Nessa ocasião, foram precisas duas tentativas. Quando finalmente se conseguiu, o touro simplesmente fica ali parado, por alguns momentos, com a língua pendente, a saliva e o sangue caindo de sua boca. Daí, tomba, morto. Só para ter certeza disso, um auxiliar chega e, com um punhal especial, corta a espinha dorsal pouco atrás dos chifres.

      Depois da Matança

      Chegou então a hora de a multidão expressar sua opinião. Esta pode variar do completo silêncio (indicando desaprovação) a assobios, palmas e lenços agitados. Enquanto isso se passa, um grupo de cavalos arrasta a carcaça para fora. Tudo isso, desde o momento em que o touro surgiu, levou cerca de quinze minutos.

      O presidente então decide se se dará um troféu. Se o toureador fez um serviço elogiável, talvez receba uma das orelhas do touro. Se exibiu graça e perícia especiais, talvez receba ambas as orelhas. Um desempenho magnífico traz a suprema recompensa — ambas as orelhas e o rabo, bem como glória, fama e, possivelmente, melhor paga nas lutas futuras.

      A Tauromaquia Através dos Séculos

      A tauromaquia se tem desenvolvido por milhares de anos, em especial na Espanha. Uma razão disso é que a raça espanhola de touros possui as qualidades especiais necessárias a tal atividade. O suporte financeiro da tauromaquia na Espanha tem sido grandemente destacado nos últimos quinze anos pelo surto de turismo que agora traz cerca de trinta milhões de pessoas anualmente à Espanha. A maioria dos turistas assiste a uma tourada, pois imaginam ser típica experiência espanhola. Isto, contudo, está muito longe da verdade. Embora a tourada seja considerada fiesta nacional da Espanha, a maioria dos espanhóis não freqüentam touradas e pouco se interessam por elas. Mas, enquanto houver pessoas dispostas a pagar, sempre haverá toureiros dispostos a tourear e criadores dispostos a produzir mais touros. Mas, como a tourada influi nos que assistem a ela?

      Efeito Sobre Pessoas

      As reações à tourada são variadas. Alguns a consideram repulsiva, ao passo que outros sentem-se fascinados por ela. O aficionado, por exemplo, não se aflige de forma alguma com a morte do touro. Está mais interessado na arte, na graça e na perícia do toureiro ao usar a capa e a muleta. Mas, ao passo que muito é dito quanto à arte e à graça do toureiro, até mesmo os apologistas modernos das touradas reconhecem a crueldade contra o animal. Uma enciclopédia, por exemplo, ao passo que afirma que as touradas mudaram gradualmente com o passar dos anos, “perdendo grande parte de sua dureza”, admite que são “ainda cruéis em certos pormenores”. — O grifo é nosso.

      Outro assunto a considerar é o risco deliberado à própria vida em que incorre o toureiro a fim de agradar o público. Explica a Encyclopœdia Britannica:

      “A multidão não deseja realmente ver um homem ser morto, mas a possibilidade de morte e o desdém e a evasão perita de danos por parte do homem, emocionam a multidão. A assistência não se interessa em simplesmente ver um homem entrar na arena, matar um animal da maneira mais segura e sair ileso; deseja ver a perícia, a graça e a ousadia. Portanto, uma corrida não é realmente uma luta entre um homem e um touro, antes, é entre um homem e ele mesmo; quão perto ousará ele permitir que os chifres cheguem, até que ponto irá a fim de agradar a multidão?”

      Interessante é que a tourada portuguesa (que não permite que se mate o touro) não é tão popular junto ao público pagante.

      Como seria de esperar, nem todas as lutas terminam em favor do toureiro. Explica a Encyclopœdia Britannica: “Virtualmente todo matador leva chifradas pelo menos uma vez numa temporada, com vários graus de gravidade. Belmonte (um dos mais famosos toureiros da década de 1920) levou chifradas por mais de 50 vezes. Dos aproximadamente 125 matadores principais (desde 1700), 42 morreram na arena; isto não inclui os matadores iniciantes ou os banderilleros ou picadores que foram mortos.” Apesar disso, mais de 3.000 touros serão ritualmente mortos nas arenas espanholas durante esta temporada, e dezenas de toureiros arriscarão sua vida várias vezes por semana.

      A Igreja Católica e a Tauromaquia

      Durante anos, a Igreja Católica proscreveu as touradas. O Papa Pio V (1566-1572) expediu encíclicas papais ameaçando os toureadores de excomunhão e de lhes ser negado um enterro cristão. Outros papas apoiaram esta posição, até Clemente VIII (1592-1605), que removeu as anteriores excomunhões, mas, ao mesmo tempo, estipulou que as touradas na Espanha não deviam ser realizadas nos feriados religiosos. Todavia, as touradas se tornaram prática padrão para a celebração de eventos e festas religiosos. Ilustram isso os comentários da Enciclopédia Universal Ilustrada:

      “As transferências do Santíssimo Sacramento de um altar para outro era celebradas com touradas também as de relíquias e imagens de santos, as comemorações dos santos padroeiros de cidades e povoados, a construção de igrejas; as canonizações e muitas outras festas religiosas. Mais de 200 touros, em cerca de 30 touradas, foram jovialmente sacrificados para celebrar a canonização de santa Teresa de Jesus. Trouxeram-se touros para dentro da Catedral de Palencia; a carne dos touros mortos em honra aos santos foi guardada como relíquia e para efetuar curas; os capítulos eclesiásticos [grupos de clérigos] organizavam e financiavam touradas . . . Em Tudela, na manhã da tourada, um monge capuchinho era levado junto para enfeitiçar os touros: de modo que se tornassem ferozes.”

      Os toureiros se inclinam a ser religiosos; mas, como alguns deles admitem, isto se dá de modo supersticioso. Um deles explicou que cada arena tem sua própria capela particular onde os toureiros se dirigem para orar antes de enfrentarem os touros. Com efeito, muitos dos toureiros levam com eles em suas viagens uma espécie de altar portátil, que pode ser montado num quarto de hotel, a fim de orarem antes de irem para a praça.

      Convêm as Touradas Para os Cristãos?

      Como deve o cristão, atualmente, considerar as touradas? Várias perguntas se apresentam nesse respeito. Exemplificando: se o homem foi feito à imagem de Deus, e Deus é amor, pode alguém refletir esse amor e ao mesmo tempo praticar a crueldade para com os animais? (Gên. 1:26; 1 João 4:8) Se o cristão dedicou a vida a Deus, é razoável pôr em perigo tal vida por deliberadamente provocar um touro selvagem? Prosseguirá tal prática a existir na nova ordem de Deus quando nem o homem nem o animal ‘farão dano nem causarão ruína’? — Isa 11:9.

      O que dizer, assim de colecionar ou exibir fotos de touradas e matadores na casa da pessoa? Mostra um conceito equilibrado, mente sã e bom juízo idolatrar homens que desdenham a dádiva de vida e então vivem às custas da exibição pública de crueldade aos animais? Outra coisa: Como ter essas fotos na casa da pessoa influi nos concristãos? Ou, que dizer se alguém visse um concristãos assistir a uma tourada, Estas são sérias perguntas para os cristãos refletivos, pois o apóstolo Paulo escreveu: “Que cada um persista em buscar, não a sua própria vantagem, mas a da outra pessoa.” — 1 Cor. 10:24.

      [Foto na página 12]

      Entrada da Capela, Praça de Touros Monumental, Barcelona.

  • A vida dum matador — quão satisfatória é?
    Despertai! — 1976 | 22 de fevereiro
    • A vida dum matador — quão satisfatória é?

      A história de alguém que realizou seu sonho de tornar-se matador, e de como era realmente a sua vida.

      POR quase vinte anos sonhei em me tornar um matador completo, e, finalmente chegara esse momento. Era o dia 2 de abril de 1967, em Alcalá de Henares, Madri.

      Quando saí do hotel, havia grande multidão de amigos e admiradores que desejavam estar comigo nesse dia importante. Naquela tarde, na cerimônia chamada alternativa, iriam conferir-me o título de matador de toros, a mais alta categoria profissional na tauromaquia.

      Quem me apresentaria seria o matador veterano, Curro Romero, o padrinho da cerimônia, e, como testemunha oficial, o famoso matador El Cordobés, Manuel Benítez. Depois de algumas palavras de encorajamento, acolhendo-me a este grupo exclusivo de profissionais, recebi o que se chama comumente de los trastos de matar, os instrumentos da profissão. Estes são a espada e a muleta, que é a pequena capa usada para enganar o touro.

      Daí veio o abraço dos dois matadores veteranos. E, por fim, face a face com o touro. Passei a prova. Agora estava diante de mim uma carreira promissora. Por fim conseguira o que desejara por tanto tempo.

      Desejo Inicial de Ser Matador

      Quando era garoto, a tourada era meu único interesse. Costumava sentar-me à porta da barbearia local apenas para ouvir os homens conversarem sobre isso. Naquele tempo, ainda falavam da morte de um dos mais famosos toureiros de todos os tempos, Manolete (Manuel Rodríguez), morto por um touro em 1947.

      Eu já praticava o toureio por algum tempo, mas sem um animal de verdade. Por fim surgiu minha oportunidade. Foi em dezembro de 1958, quando só tinha 15 anos.

      Alguns amigos mais velhos planejavam ir a noite a um curral, para praticar. Consegui convencê-los a me levar também. Com dificuldade, separaram do rebanho uma vaca braba. Daí, nós quatro, cada um por sua vez, “lutamos” contra ela. Depois que terminamos, houve uma discussão sobre quem fora o melhor. Um rapaz disse que tinha sido eu. Isto me surpreendeu, visto não ter idéia do que era bom ou ruim na tauromaquia. Dali em diante, meus amigos mais velhos me levavam às suas touradas noturnas, e obtive bastante experiência.

      Certa noite, um golpe dum chifre de vaca me pegou, rasgando-me o rosto desde a ponta da boca até o queixo. O único médico que me tratou foi meu colega, que derramou aguardente na ferida. Este foi meu primeiro derramamento de sangue, e o considerei uma honra. Mas, como reagiria da próxima vez? Ficaria com medo de enfrentar um touro numa arena, diante duma assistência?

      Ao pesar tais perguntas, estava ainda mais determinado a me tornar um matador bem sucedido.

      Perseguindo Meu Alvo

      Meu pai tentou fazer tudo para me dissuadir disso. Surrou-me, e me negou refeições. Quando descobria que não estava em casa à noite, trancava a porta, de modo que tinha de passar o resto da noite na rua. Assim, quando tinha cerca de 16 anos, decidi fugir de casa junto com dois colegas que também queriam ser matadores.

      Fomos para Salamanca, no norte do país, a uns 700 quilômetros de distância de minha casa em Palma del Río. Pegamos carona em trens de carga, e sofremos frio e fome, mas conseguimos manter-nos vivos por mendigar alimento nos sítios, e às vezes por roubar galinhas. Às vezes pensei em voltar para casa, mas a idéia da glória de ser matador me estimulava a prosseguir.

      Certo dia, ouvimos dizer que haveria uma tourada em Ciudad Rodrigo, na Província de Salamanca. Ali os touros são tão grandes que só alguns se dispõem a arriscar-se na arena. Meu desejo de ser matador, porém, era tão grande que não me preocupava com o perigo. Eu simplesmente queria ser famoso.

      Naquela ocasião, devido à minha ousadia, deram-me algum dinheiro, o suficiente para que chegasse a Madri. Ali, com a ajuda de parentes, entrei numa escola de toureiro. Cursei-a por três meses, a fim de praticar o que é chamado de tourada de salón, e para aprimorar meu estilo.

      Minha Primeira Luta Formal

      Agora eu era novato, chamado novillero. Para alcançar meu alvo de me tornar um matador completo, precisava de experiência e de reconhecimento público.

      Por fim, chegou o tempo, em 1963, quando lutei pela primeira vez numa tourada formal, meu nome aparecendo nos anúncios. Foi em minha cidade natal, Palma del Río, Córdoba. A ocasião era a festa religiosa da cidade, e, como é o costume na maioria das cidades, incluía duas touradas.

      Uma vez na arena, fiquei tão ansioso de ganhar que estou certo de que minha fúria era maior que a do touro. E deveras triunfei — foram-me concedidas ambas as orelhas e o rabo do touro, o prêmio máximo, e o direito de voltar no dia seguinte. Nessa ocasião, também, fui bem sucedido. Todo o mundo me aclamou e disse que me tornaria bom torero, ou matador.

      Um comerciante queria tornar-se meu agente e representante. Papai mudou de modo de pensar e não mais resistia à idéia de eu me tornar um matador, visto poder notar os benefícios econômicos. Num tabelião, emancipou-me e me entregou ao meu agente, visto ainda ser menor de idade. Mamãe, por outro lado, estava contra a idéia por causa do perigo envolvido.

      Outros Passos em Direção ao Meu Alvo

      Meu agente era muito bom para mim de início, arranjando lutas de que eu precisava com touros jovens. Isto permitiu desenvolver-me e aprimorar-me. Daí, porém, parei de progredir, visto que meu agente era amador na profissão, e não estava habilitado a me ajudar a atingir a estatura dum pleno matador. Meu contrato com ele era de cinco anos, e a única maneira de rompê-lo era comprar minha liberdade, o que fiz. Tive de rompê-lo com grande soma de dinheiro, mas, pelo menos, fiquei livre para progredir em minha carreira.

      Com novo agente, obtive um contrato de lutar em Bilbao, uma das mais importantes e espaçosas arenas da Espanha. Esta resultou ser importante luta em minha carreira profissional.

      Nos passes com a capa, o chifre do touro pegou a capa e a fincou no chão. Assim, fiquei indefeso, sem meio de enganar o touro. Poderia ter corrido para um lugar seguro, sem perder a honra. Mas, na minha inexperiência e desejoso de obter êxito, fiquei firme, chutando a cara do touro. No entanto, seu chifre pegou minha coxa esquerda, quase a furando de lado a lado.

      Meu sangue jorrava. A multidão certamente me desculparia por recuar. Por um instante, fiquei indeciso. Daí, porém, o desejo de triunfar e progredir em direção ao meu alvo de me tornar um matador completo resultou ser mais forte do que a dor da ferida. Pedi outra capa, e, apesar de as autoridades da arena tentarem impedir-me, de novo enfrentei o touro. Comecei a me sentir fraco.

      Muito embora o público não queira ver uma tragédia, fica excitado e com grande expectativa em situações em que o perigo para o matador é grande. Apesar do ferimento, terminei os passes com a capa e consegui matar o touro. No meio da aclamação da multidão, dei a volta na arena, e fui então levado para a enfermaria. Depois de receber os primeiros socorros, fui transferido para o hospital especial para toureiros em Madri.

      Notícias da luta foram publicadas nos jornais, trazendo-me à atenção do público das touradas. Também, publicavam uma foto minha, com a ferida da chifrada na coxa, lutando contra o touro. Fiquei famoso, e consegui contratos para as melhores arenas da Espanha e do sul da França. Assim, por fim alcancei meu alvo, recebendo a alternativa em 2 de abril de 1967.

      Satisfação Como Matador?

      Agora comecei a receber até US$ 2.500, mais ou menos, para cada corrida, ou tourada. No entanto, depois de pagar minha cuadrilla, ou grupo, as despesas de viagem, alimentação, contas de hotéis e 10 por cento para meu agente, amiúde restavam menos de 10 por cento para mim. Não estava acumulando as riquezas que desejava; com efeito, gastava mais do que ganhava, calculando que na próxima temporada ganharia mais.

      Por algum tempo, considerei maravilhoso ser matador — oferecia-me fama e adulação. Mas, comecei a ver que tais pessoas eram mais amigas do matador do que de mim como pessoa. Queriam comprazer-se na glória refletida do matador vitorioso e ser vistas com ele. Assim, após lutas bem sucedidas, o hotel ficava cheio de “amigos”; organizavam-se festas em minha honra. Mas, no dia em que as coisas iam mal na arena, tais “amigos’’ primavam pela ausência.

      Ademais, comecei a compreender que a tourada era dominada por pequeno número de poderosos. Alguns empresários controlavam as arenas principais, e se alguém conseguia ou não contratos para tourear nelas dependia mais das conexões da pessoa do que de sua perícia. Também, os jornalistas comumente não noticiavam os triunfos dum matador a menos que recebessem sua “gorjeta” de antemão.

      Daí, havia as quase que inevitáveis chifradas. Naturalmente, eram fisicamente dolorosas, mas também feriam a carteira, visto que a temporada só dura alguns meses e uma chifrada poderia colocar alguém fora de ação por duas a quatro semanas ou mais. Sofri várias chifradas, e chegaram ao ponto em que as cicatrizes em meu corpo pareciam um mapa de estradas.

      A vida dum matador, comecei a ver, não era de jeito nenhum aquilo que eu imaginara. No entanto, foi outra coisa que me fez questionar o valor da vida que então levava.

      O Matador e a Religião

      A religião acha-se intimamente associada com a tauromaquia. Os matadores costumeiramente visitam um santuário cheio de imagens para prestar adoração antes de cada luta; muitos levam um santuário portátil. Lembro-me, em certa ocasião, de que orei perante meu santuário, antes de entrar na arena, conforme meu costume, mas, ao voltar depois, descobri que o santuário pegara fogo! Se tivesse chegado um pouco mais tarde, a sala inteira teria pegado fogo. Isso me fez pensar: Se tais imagens não puderam salvar-se, como poderiam proteger-me numa tourada? Esta dúvida me afligia.

      Em outra ocasião, quando toureava em França, fui confessar, como era meu costume. Nós, que esperávamos, ficamos surpresos e desapontados quando o sacerdote não quis vir atender-nos. Daí, quando soube que eu estava ali, veio e me deu atenção, mas ignorou os humildes que esperavam já por tanto tempo. Incidentes assim começaram a debilitar minha fé na Igreja Católica. Todavia, eu cria em Deus, e tinha respeito pela Bíblia. Com efeito, costumava ter prazer em lê-la.

      Assim, certa vez perguntei a um sacerdote sobre a Bíblia, explicando que queria entendê-la. No entanto, ele me desanimou, dizendo que a Bíblia era para os teólogos e que ficaria maluco se a lesse. Isso me entristeceu, enfraquecendo ainda mais minha fé na Igreja.

      Melhor Propósito na Vida

      Por volta dessa época, no outono setentrional de 1968, eu e minha esposa tomávamos café quando alguém bateu à porta. Ela a abriu e encontrou duas senhoras que nos falaram sobre a Bíblia. A cada pergunta que eu suscitei, forneceram uma resposta da Bíblia. Fiquei maravilhado, desejando manusear a Bíblia assim. Ao ler a publicação que aceitei delas, compreendi que me podia ajudar a obter o conhecimento bíblico que tanto desejava. Logo aceitamos um estudo bíblico regular em nossa casa.

      Foi bem nessa época que fui convidado a participar numa tourada, como parte duma festa num rancho. O bispo de Sevilha estava lá, e notei quanto apreciava o que acontecia lá. Mas, de alguma forma, eu me senti deslocado.

      Na minha carreira devo ter matado cerca de 240 touros. Mas, mesmo então, ao observar outros matadores combaterem um touro terrivelmente sangrando e sofrendo, sentia pena do animal. Ao ficar mais familiarizado com os ensinos da Bíblia, compreendi que a tourada não era carreira para os verdadeiros cristãos. Aquela tourada em conexão com a festa no rancho resultou ser a minha última.

      Ao vir a apreciar o propósito de Deus de criar justo e novo sistema de coisas, meu desejo de servir a Ele tornou-se mais forte. (2 Ped. 3:13) Este se tornou meu principal propósito na vida. E, visto que a Bíblia explica que Deus deseja que todos fiquem sabendo sobre seu novo sistema, comecei a falar a outros sobre isso. — Mat. 24:14.

      Muitos ficavam surpresos, bem como contentes, de me ver, quando chegava à sua porta. Mostravam-se muito dispostos a conversar comigo sobre touradas. Mas, daí, eu aproveitava a oportunidade para explicar que há algo muito melhor na vida do que tourear — é conhecer e servir o nosso grandioso Criador. Certamente comprovei que isto é verdade. — Contribuído.

Publicações em Português (1950-2026)
Sair
Login
  • Português (Brasil)
  • Compartilhar
  • Preferências
  • Copyright © 2025 Watch Tower Bible and Tract Society of Pennsylvania
  • Termos de Uso
  • Política de Privacidade
  • Configurações de Privacidade
  • JW.ORG
  • Login
Compartilhar