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De craque de futebol a praticante da devoção piedosaDespertai! — 1980 | 22 de março
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De craque de futebol a praticante da devoção piedosa
CRESCI num pequeno povoado de mineração de carvão, em Yorkshire, Inglaterra. Embora detestasse a escola, o que me dava mesmo prazer era o esporte. Eu gostava especialmente de futebol.
Certo dia, depois de jogar pelo time da escola, um caçador de talentos abordou-me para saber se gostaria de jogar para o “Wanderers Football Club”, de Wolverhampton. Não fiquei muito impressionado. Quando deixasse a escola, esperava naturalmente começar o trabalho na mina de carvão local, mas minha mãe sugeriu que pelo menos deveríamos viajar para Wolverhampton para ouvir o que o Clube tinha a dizer, em vista da oferta deles. De modo que concordei.
A visita foi inesquecível. Senti uma atmosfera de excitação. O diretor era uma pessoa sincera e ele me persuadiu a assinar o contrato com os “Wolves” (Lobos), como o time era chamado.
Tinha 17 anos quando me deram a chance de jogar no time titular. O jogo foi em Leicester e nós ganhamos. A próxima partida foi em casa e eu marquei o gol. As manchetes nas páginas de esportes declaravam: “Nasce Um Novo Astro!”
A Vida Como Craque do Futebol
Eu só estava realmente feliz quando jogava futebol, especialmente quando marcava gols. Lembro-me de em certa ocasião, em Preston, ter chutado a bola a uns 32 metros da meta. Ainda posso ver a bola indo direto para o ângulo superior da rede, como um foguete. Daí corri os 32 metros para onde estavam os torcedores do Wolves, atrás da meta, e levantei meus punhos cerrados, perguntando-lhes, de fato, se alguma vez já tinham visto algo assim. A multidão respondeu por gritar meu nome em uníssono vez após vez.
Fui escolhido para jogar várias vezes pelo time juvenil da Inglaterra, posteriormente sendo selecionado para o time nacional, da Inglaterra, de menores de 23 anos. Muitos diziam que era então apenas uma questão de tempo antes de ser escolhido para jogar pela seleção principal da Inglaterra.
Ser eu um craque do futebol, contudo, não resolveu os problemas da vida realmente pessoais. Tinha dificuldades com uma atitude rebelde; não me importava com o que acontecesse aos outros. Isto era tão grave que o técnico fez arranjos para que eu fosse a um psiquiatra. Mas não mudei. Daí, um dia encontrei Jean e logo decidimos casar-nos. O técnico do time ficou encantado. Ele tinha a esperança de que o casamento me estabilizaria.
Eu gostava de Jean porque ela era bonita. Ela gostava de mim, disse ela, porque a fazia rir, mas não nos amávamos verdadeiramente. Jean disse que sair com um craque do futebol era uma coisa, mas que estar casada com um era algo completamente diferente. Após algumas semanas nosso casamento se tornou bem tempestuoso. Num acesso de ira, em certa ocasião, atirei um bule em Jean que lhe acertou a coxa e daí despedaçou uma porta de vidro. Ela reagiu por apanhar uma tesoura e cortar em pedaços o último terno que eu comprara. Pensei em abandonar Jean e, por causa do modo como agi, ela até mesmo ameaçou cometer suicídio.
O Contato com as Testemunhas de Jeová
Depois de dois meses de casados bateram em nossa porta e um homem, que mais tarde vim a conhecer como Ken, se apresentou como uma das Testemunhas de Jeová. Assim que percebi que representava uma religião, eu lhe disse que não estava interessado. Mas antes que fechasse a porta ele me perguntou se gostaria de ver uma terra pacífica. Não respondi a sua pergunta, mas senti que lhe queria falar sobre o modo como meu pai e minha irmã de berço haviam morrido. E fiz isto.
Meu pai fora um homem popular e bem respeitado, tendo apenas 42 anos quando morreu de câncer. Ainda posso lembrar a onda de amargura que me invadiu quando me encontrava ao lado de sua sepultura. Logo duas semanas depois morreu minha irmã de berço. Minha mãe ficou arrasada. E não podia esquecer como eu, um menino de 11 anos, subi as escadas com o bebê morto em meus braços e o coloquei sobre a cama. Por que aconteceram tais coisas?
Ken me perguntou se achava que Deus podia consertar todas as coisas. Lembro de ter dito enfaticamente: “Nunca!” Ken mostrou-me então 2 Timóteo 3:1-5, e uma das frases me chamou atenção, a saber, “os homens serão amantes de si mesmos”. Disse: “Hoje as pessoas são assim.” De fato, admiti: “Eu sou assim!” Ele prosseguiu explicando que condições prevaleceriam no período de tempo que a Bíblia chama de “últimos dias”. Sugeriu que continuássemos nossa palestra na semana seguinte, e concordei. Começamos a estudar a Bíblia com a ajuda do livro A Verdade Que Conduz A Vida Eterna. Jean ria da idéia de eu estar lendo a Bíblia, mas, quando na quarta semana ela passou pela sala, fez uma pergunta e Ken respondeu a ela. Daí ela fez outra pergunta, e não demorou para Jean tomar parte no estudo.
Logo Ken começou a nos convidar para o Salão do Reino. Por ser muito egocêntrico, imaginava que tipo de impressão causaria. Na primeira reunião que fui, falava com uma pessoa sentada a meu lado num tom que imaginava ser de sussurro, mas um indicador educadamente perguntou se me importaria de ficar calado. Isto não contribuiu nada para meu orgulho. Depois de a reunião terminar, várias pessoas se apresentaram e perguntaram meu nome. Surpreso por não me reconhecerem, disse-lhes que era Peter Knowles. Eles nem sabiam que jogava futebol. Quando perguntaram: “Você joga para qual time?”, Isto foi o golpe final. Pensava que todos em Wolverhampton me conheciam. As experiências daquela noite foram as primeiras de uma série que me levariam a ver a mim mesmo na perspectiva correta.
Eu e Jean continuamos aprendendo, mas nosso problema era aplicar a Palavra de Deus em nossa vida. Em nosso lar, o princípio de “não se ponha o sol enquanto estais encolerizados” nunca era praticado. (Efé. 4:26) Eu achava difícil ficar calmo. Sempre estava irritado, uma pilha de nervos. Até mesmo em nosso estudo da Bíblia eu sentava em uma cadeira, depois em outra, via de regra terminando sentado no chão. Jogar futebol trazia pressões. Em resultado, era tenso, e isto resultava em brigas com Jean. Ser eu um craque de futebol não ajudava nosso casamento.
Ajuda Amorosa na Ocasião em que Necessitávamos
Uma coisa que nos impressionou bastante durante este período foi a bondade da congregação. Mostraram-nos uma hospitalidade maravilhosa. Como isto era diferente da minha associação com os outros jogadores! Nunca fôramos convidados para suas casas nem nunca cogitáramos pedir que nos visitassem. Mas eis que havíamos encontrado pessoas que realmente poderiam viver na nova ordem sobre a qual estávamos estudando.
A temporada de 1968-1969 chegara ao seu final, e fora da temporada nós concordamos, junto com vários outros times britânicos, jogar um torneio nos Estados Unidos para promover o futebol. Enquanto estava por lá, entrei em contato com as Testemunhas de Jeová. Uma delas, em particular, interessou-se em mim enquanto estávamos em Kansas por seis semanas, levando-me para algumas reuniões, bem como para os departamentos onde voluntários estavam ocupados com a preparação de uma assembléia das Testemunhas de Jeová. Olhando para trás, percebo agora que esse foi um tempo crítico em meu desenvolvimento espiritual.
Dois Modos de Vida Diferentes
De volta ao lar, reiniciaram-se os treinos para a nova temporada, mas a congregação estava na expectativa de ir para o estádio de Wembley, não para assistir a futebol, mas para estar presente a Assembléia Internacional “Paz na Terra” das Testemunhas de Jeová. Essa foi uma semana que nunca esquecerei, pois, além de assistir à minha primeira assembléia, também tive de jogar três partidas de futebol. Ali estava uma oportunidade sem igual para contrastar a atmosfera do vestiário com o espírito familiar do congresso. Olhava para as multidões nos jogos onde atuava e então as comparava com os 82.000 que assistiram ao congresso das Testemunhas de Jeová, no domingo. Aquela semana me provou de forma bem convincente a diferença tremenda existente entre uma vida de craque de futebol e uma de praticante da devoção piedosa.
No entanto, ainda não achava que jogar futebol e ser uma das Testemunhas de Jeová fosse inconciliável para mim. Certa noite, convidei o superintendente presidente de nossa congregação para vir e ver-me jogar. Ganhamos, e eu marquei um dos gols. Mais tarde, naquela noite, ele nos visitou em casa e palestramos um pouco. Finalmente lhe perguntei sobre o que achou do jogo. Fiquei chocado quando disse que no campo eu era uma pessoa diferente da que freqüentava as reuniões no Salão do Reino. Expliquei que antes de cada partida eu orava a Jeová para que me ajudasse a não perder a calma. Não obstante, ele me disse que em campo algumas vezes eu agia como se fosse um gladiador. Mas não fiquei convencido.
Posteriormente, quando estávamos jogando contra o “Manchester United”, a multidão me ovacionou tremendamente. Cantavam: “Passa para o Knowles; queremos gols!” E sempre que marcava um gol eles ficavam fora de si, gritando meu nome ainda mais. Pouco a pouco comecei a perceber que o que o superintendente dissera era verdade. Muitos da multidão tratavam-me quase como um deus. Era uma forma de idolatria, e sabia que era errado. Mas ainda não queria desistir de jogar. Lembro-me de ter orado a Jeová, antes de uma partida: “Por favor, ajude-me a combinar os dois. Ajude-me, por favor, a manter o autodomínio e, por favor, Jeová, ajude-me a marcar três gols, em nome de Jesus. Amém.” Mas no íntimo eu sabia que meus dias de craque de futebol estavam chegando ao fim.
Minha Escolha — Os Resultados
Um dia, quando estava sendo entrevistado por um cronista esportivo nacional, mencionei que estava pensando em desistir de jogar. Ele apressou-se em conseguir um fotógrafo e na manhã seguinte isto estava em todas as páginas de esporte no jornal! “Peter Knowles se torna uma das Testemunhas de Jeová — pensa em desistir de jogar!” Daí em diante as coisas aconteceram rapidamente. Sabia que ser uma das Testemunhas de Jeová e servir a Jeová com devoção piedosa poderiam conduzir-me à vida eterna. Ser craque de futebol nunca poderia fazer isto. Por isso marquei uma data a apenas algumas semanas à frente. Meu último jogo foi quando jogamos contra o “Nothingham Forest”.
Três semanas depois, eu e Jean fomos batizados em símbolo de nossa dedicação a Jeová. À parte de ter jogado mais tarde no jogo de homenagem ao meu irmão Cyril, para cumprir uma promessa que fizera a ele, nunca mais voltei à minha vida anterior no mundo do futebol.
Nessa época, na congregação, havia dois instrutores da Bíblia por tempo integral, e passávamos muito tempo com eles pregando as boas novas do reino de Deus de casa em casa. Amiúde éramos convidados a entrar nas casas e com freqüência deixávamos uma cópia do livro Verdade. Mas era difícil falar sobre a Bíblia, e por mais de dois anos não conseguimos iniciar um estudo bíblico com ninguém. Tudo o que as pessoas queriam falar era sobre futebol. Grande pressão de várias fontes se concentrava para me persuadir a voltar ao futebol. Mas, em aditamento às cartas que me pediam para voltar a jogar, havia muitas de Testemunhas de toda parte do mundo que me encorajavam a não desistir de minha fé. Sentíamos então que realmente éramos parte de uma associação mundial de irmãos e irmãs. Permanecemos com ela, e dentro de seis meses tivemos o privilégio de devotarmos todo nosso tempo na pregação das boas novas do reino de Deus, e então, nove anos depois, tive o privilégio de começar a servir em nossa congregação como ancião.
Se não tivéssemos começado a servir a Jeová, não há dúvida de que eu e Jean não estaríamos mais juntos. Nossa fé verdadeiramente nos uniu. Agora temos contentamento pois sabemos o que o futuro nos reserva. Ainda temos nossos altos e baixos, naturalmente, mas, graças ao conselho da Palavra de Deus, agora sabemos lidar com quaisquer problemas que se possam interpor em nosso caminho.
Um texto bíblico que me impressionou de verdade foi 1 Timóteo 4:8, que diz: “O treinamento corporal é proveitoso para pouca coisa, mas a devoção piedosa é proveitosa para todas as coisas, visto que tem a promessa da vida agora e daquela que há de vir.” Pensando na “vida . . . que há de vir”, aguardo com muita expectativa ver tanto meu pai como minha irmã de berço, junto com muitos milhões de outros, serem ressuscitados aqui na terra, na nova ordem de justiça de Deus, no futuro próximo. Considerando a “vida agora”, tenho muito mais contentamento do que tive alguma vez, enquanto jogava futebol.
Alguns talvez achem que podem jogar futebol profissional e ainda ser cristãos, mas, no meu caso, isto não era possível. Fica difícil, senão impossível, manter o autodomínio durante o jogo. O jogo é encarniçadamente competitivo e com muita freqüência promove a idolatria. Quando penso no tempo em que a multidão gritava meu nome, encarando-me como quase um deus, percebo como isto pode ser perigoso. Agora me sinto seguro. Minha adoração a Jeová me trouxe paz mental, bem como muitos amigos genuínos. Tem-me ajudado a amar, não apenas a mim mesmo, mas também a minha esposa e, acima de tudo, a Jeová Deus. — Mat. 22:37-39.
Levei uma vida de craque de futebol. Agora, quero apenas levar uma vida de praticante da devoção piedosa. — Contribuído.
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Loucura dos torcedoresDespertai! — 1980 | 22 de março
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Loucura dos torcedores
Num exame sobre como as atividades esportivas de uma nação são um reflexo de sua sociedade, a revista New Scientist, da Inglaterra, fez a observação: “O futebol permite apenas expressões mínimas de comportamento agressivo [entre os jogadores], mas este papel combativo parece se transferir para os torcedores. . . . Guardas armados, cercas de arame farpado e túneis de saída, que são considerados necessários, em alguns lugares, para proteger os jogadores e os juízes dos a quem vieram divertir, lembra [à pessoa] um sistema de segurança que se adapta melhor a uma prisão.” Algumas dessas loucuras dos torcedores são relatadas pela Encyclopœdia Britannica, em edições recentes de seu Livro do Ano:
“A história de violência envolvendo o futebol continuou em 1975, e a Inglaterra pareceu estar produzindo os piores infratores. . . . Mas a Inglaterra não monopoliza este novo mal. Em Santiago, no Chile, em 25 de junho, depois de nada menos de 19 jogadores serem expulsos [do jogo], depois de uma briga no campo, os jogadores não puderam deixar o campo por mais de um quarto de hora devido à chuva de pedras da parte dos torcedores. . . . Registraram-se também distúrbios em outras partes, na América do Sul e na Itália.” — 1976, p. 350.
1977: “Um subproduto do sectarismo antagônico do mundo foi o ressurgimento da violência envolvendo o futebol. Durante uma partida pelo campeonato europeu, em Cardiff [País de Gales], . . . os torcedores atiraram latas de cerveja no campo para mostrar sua ira por causa de algumas decisões do juiz da Alemanha Ocidental. . . . Foram dadas várias sentenças de prisão para jogadores briguentos, em Malta, e num jogo na América do Sul um juiz morreu depois de ter sido atacado pelos jogadores.” — p. 350.
1978: “Persistiram pelo mundo inteiro os problemas com a multidão, e mais e mais países estão-se fortificando contra os arruaceiros. Barcelona, na Espanha, cavou um fosso ao custo de 150 mil dólares (Cr$ 6.750.000,00) para manter os fãs afastados do campo de futebol.” — p. 394.
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