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Os esportes — por que nos empolgam?Despertai! — 1982 | 22 de novembro
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Os esportes — por que nos empolgam?
Esportes — Por Que a Crescente Violência?
ERAM 10,38 horas da manhã, em 25 de outubro de 1981. Mais de quatorze mil pessoas, em roupa de corrida, estavam enfileiradas na extremidade da ponte Verrazano-Narrows de Staten Island, Nova Iorque. Subitamente, a um tiro de canhão, duas correntes de pessoas se precipitaram lado a lado sobre a ponte. Qual era a ocasião que atraiu uma tão grande participação? A maratona de 1981, em Nova Iorque.
Estima-se que uns dois milhões de pessoas assistiram à corrida num percurso de 42 quilômetros, e milhões mais através da televisão. Participaram atletas de 57 países. A cidade de Nova Iorque ficou realmente envolvida, e milhões de nova-iorquinos e outros ficaram empolgados.
O arrebatamento nos esportes é um fenômeno mundial. Por exemplo, notícias recentes falavam sobre o crescente entusiasmo por esportes na China. O Times (de 18 de nov. de 1981) de Nova Iorque noticiava: “Dezenas de milhares de chineses convergiram para aquela vasta área do centro da cidade [de Pequim] ontem à noite para animadas celebrações . . . A euforia era por causa do time chinês de voleibol feminino, que derrotou os Estados Unidos . . . e o Japão . . . ganhando seu primeiro título mundial.” Mesmo os normalmente plácidos chineses ficaram empolgados com os esportes. O voleibol se tornou manchetes de primeira página na imprensa de Pequim.
Outro caso foram as finais da Copa Mundial de futebol de 1982, com a participação de 24 nações classificadas, na Espanha, nas datas de 13 de junho a 11 de julho de 1982. No decorrer dos dois anos que a precederam, mais de cem países competiram pelo privilégio de estarem entre os 24 times finais classificados. Centenas de milhões de torcedores em todo o mundo acompanharam esses jogos de futebol com ávido interesse. Em Lagos, na Nigéria, uma grande multidão lotou o estádio oito horas antes de um jogo entre a Nigéria e a Argélia. Da mesma forma, multidões de torcedores chineses celebraram a vitória do futebol da China que derrotou Kuwait num jogo de classificação para a Copa do Mundo.
Não resta dúvida de que os esportes atraem e empolgam as massas. Mas por quê?
Um fator fundamental na vida moderna é a existência monótona que milhões são forçados a levar em nossa sociedade controlada por computadores. Em conseqüência, muitos querem quebrar a rotina enfadonha entrando no empolgante mundo da fantasia dos esportes. Uma minoria consegue, tornando-se participantes. A maioria, como espectadores. Mas todos querem sentir emoção, e ela resulta da incerteza. Nos esportes, a incerteza é de importância vital — quem vencerá? Portanto, as multidões afluem para eventos esportivos ou ficam com os olhos grudados na TV.
Mas, são os esportes benéficos ou nocivos? Podem trazer-lhe proveito, quer seja participante, quer espectador? Que dizer dos esportes na escola primária, secundária, universitária e no nível profissional? Por que tem aumentado a violência nos esportes? Por que chega até as tribunas de honra dos estádios?
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Por que a violência nos esportes?Despertai! — 1982 | 22 de novembro
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Por que a violência nos esportes?
Esportes — Por Que a Crescente Violência?
APARECEM abaixo apenas algumas manchetes nas páginas e nos editoriais esportivos de diferentes nações em anos recentes. Os esportes têm estado associados com a violência, tanto dentro como fora do campo de jogo. Mas por quê?
Tem a violência Aumentado?
Stanley Cheren, professor adjunto de psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de Boston, E.U.A., escreveu recentemente: “À medida que a população se torna mais experiente na violência, aumenta a necessidade de violência mais extrema para satisfazer o desejo de estímulo violento. . . . As pessoas pagam fortunas para ver outras pessoas ser feridas. . . . Ela aumenta ao passo que as pessoas ficam cansadas de uma coisa. Na década de 1930, as pessoas ficaram chocadas de ver, na tela, James Cagney dar uma bofetada numa mulher. Hoje, isso não é nada; exigem-se atos de muito mais violência para emoção. . . . Portanto, não obstante o fato de os lutadores serem mortos no ringue, os torcedores queriam mais ação. . . . No nosso enfado, pressionamos as coisas a ponto de permitirmos que nossos atletas arrisquem a vida.”
Ilustremos isso com um esporte popular na América do Norte, o futebol americano (não confundir com o futebol propriamente dito). O futebol americano sempre foi reconhecido como sendo um esporte com contato físico, segundo o estilo do rúgbi britânico, mas até mais. Entretanto, nos tempos recentes, tornou-se norma praticá-lo com mais violência. O equipamento de proteção muitas vezes se torna arma de ofensiva. Por exemplo, os jogadores usam os capacetes de segurança, de plástico, duros como pedra, para converter suas cabeças em mísseis devastadores.
A violência do jogo é resumida pelos seguintes comentários do jogador profissional de futebol americano, Jack Tatum (Raiders de Oakland), na sua recente obra They Call Me Assassin (Chamam-me de Assassino).
“O futebol [americano] profissional é maldoso e brutal; não sobra muito tempo para sentimento.”
“Nunca intercepto alguém só para derrubar. Quero castigar o homem atrás do qual corro, e quero que ele saiba que vai doer toda vez que se puser no meu caminho.”
“Usei a palavra ‘matar’, e, quando golpeio alguém, procuro realmente matá-lo, mas não para sempre. Quero dizer que procuro matar o jogo ou a passagem, mas não o homem . . . a estrutura do futebol se baseia em castigar o adversário.”
“Gosto de acreditar que meus melhores golpes tocam as raias da tentativa de agressão criminosa, mas também tudo que faço é segundo o livro de regras.”
É significativo o comentário final de Tatum. Foi “segundo o livro de regras” que, com uma investida contra um homem para interceptá-lo, deixou este permanentemente paralítico. O que seria considerado tentativa de agressão criminosa em qualquer outro lugar é legítimo no campo de jogo. Não é de admirar que um escritor sobre esportes dissesse: “Com o uniforme vem a proteção das leis.”
Os comentários de Tatum não refletem a atitude de apenas um determinado jogador. Disse George Perles, assistente do técnico dos Steelers de Pittsburgh (futebol dos E.U.A.): “[O futebol] é uma vida muito, muito violenta, maldosa, agressiva, brutal, masculina.” O escritor William B. Furlong declarou num artigo para Times Magazine de Nova Iorque: “A vida no Pit, como é chamado o centro da linha [de escaramuça], sempre foi violenta, às vezes tão violenta como uma luta com faca num recinto escuro . . . [ela] amiúde inclui esmurrar, xingar, fazer saltar o olho, dar pontapés.”
Jerry Kramer, jogador da linha dianteira do time de futebol americano Green Bay Packers, escreveu no seu livro Instant Replay: “Comecei o dia decidido a ser duro e sério no jogo. É algo que não pode ser feito só no sábado e no domingo [antes do jogo]. Tem de ser feito começando na segunda ou terça [uma semana antes do jogo] . . . Desenvolve-se ira, daí ódio e o sentimento se torna cada vez mais forte até que no domingo as emoções estão tão tensas que a pessoa está para explodir. . . . Quando quero odiar alguém, procuro não olhar para o outro time antes do jogo . . . sinto que não o vendo posso odiá-lo um pouco mais.”
Esse mesmo espírito violento se manifesta cada vez mais no futebol. Heitor Amorim, ex-goleiro do Corinthians, de São Paulo, disse: “Abandonei o futebol em 1970, que naquela época estava em fase de transição. Estava mudando de jogo de habilidade para jogo de força. A arte e a habilidade começaram a dar lugar a violência. Acredito que, se Pelé [talvez o maior jogador de futebol de todos os tempos] jogasse hoje, não conseguiria vencer 50% nas maravilhosas jogadas que fez nos anos 60. A violência o impediria. E os torcedores a acompanhariam. Parecem gostar da violência.”
Mesmo nos esportes que outrora eram considerados a essência do jogo limpo e da conduta cavalheiresca, tais como tênis e críquete, a violência se introduziu — tanto a verbal como a física. O tênis era outrora o jogo de pessoas de boas maneiras que haviam aprendido a praticar a lealdade. Na última década, essa filosofia evaporou numa série de invectivas, acessos de ira e obscenidades da parte de alguns dos principais jogadores profissionais.
Foram Afetadas as Escolas?
Com tal violência no nível do esporte profissional, é de admirar que atitudes similares se introduziram sorrateiramente nos níveis colegial e universitário? Marvin Vickers, de 24 anos, corpulento, de Nova Jersey, jogava futebol americano para sua escola de segundo grau em North Brunswick e recebeu propostas para jogar no nível universitário. Que diz ele sobre a violência nos esportes escolares? “Os treinadores nos ensinaram a fazer jogo sujo. Por exemplo, quando sabíamos que um adversário havia machucado as costelas, então a ordem era: ‘Esmurrem-lhe as costelas machucadas!’ De fato, se não feríssemos dois ou três da turma deles, não era realmente um jogo.”
Mesmo no nível da escola de segundo grau, o ódio e a violência são incutidos nos jovens. Fred F. Paulenich, professor de universidade e escola de segundo grau, escreveu: “Ensina-se aos jovens a ferir, a defraudar, a fazer vítimas para o deus da Vitória. Os treinadores mostram aos times de escola de segundo grau e de universidade filmes violentos para prepará-los psiquicamente para os adversários.”
Dave Schultz, jogador canadense de hóquei sobre o gelo, famoso pelo seu estilo briguento de jogar, disse recentemente: “Peço desculpas aos jogadores jovens que viram meu estilo ou jogo e o usaram como modelo. . . . Eu jogava assim porque todos — treinadores, torcedores, meios de comunicação — pareciam esperar isso de mim.”
Este último comentário nos leva logicamente à pergunta a seguir.
Por Que Aumentou a Violência?
“Treinadores, torcedores, meios de comunicação.” Estes se tornaram principais fatores da violência nos esportes. Fazem vigorar entre eles a lei da oferta e da procura. Os torcedores querem ação e emoção. Essa é a procura. Os treinadores são amiúde empregados pelos magnatas dos negócios que querem que suas empresas floresçam financeiramente. Isso significa que precisam contentar os torcedores. De modo que os treinadores são pressionados a satisfazer a demanda pública. Do lado de fora, os meios de comunicação, especialmente a televisão, juntam-se, ora para exaltar, ora para condenar a violência.
Faz alguns anos, Vince Lombardi, técnico do time de futebol americano Green Bay Packers, expressou sua filosofia sobre esportes na seguinte frase que agora se tornou comum: “Vencer não é tudo; é a única coisa.” Certamente, não foi ele quem originou a idéia. Ele simplesmente sintetizou em poucas palavras a mentalidade prevalecente nos esportes profissionais.
Mas, por que é tão importante vencer? A acima mencionada reportagem fornece a resposta: “As universidades [nos E.U.A.] fazem investimentos de multimilhões de dólares nos seus programas atléticos da Divisão I (grande parte para atletas bolsistas) por muitas razões, não sendo a menos importante delas o potencial de enormes lucros decorrentes de times bem-sucedidos de futebol e de basquete.”
Os grandes negócios e grandes lucros são a chave da questão. Os esportes geram dinheiro como nunca antes. A luta entre Sugar Rey Leonard e Thomas Hearn, em setembro de 1981, “foi de per si o mais rico evento esportivo da história, com uma esperada renda total bruta de $ 37 milhões [Cr$ 7,4 bilhões]”. Recentemente, oito jogadores de beisebol, nos E.U.A., assinaram contratos “que variam entre $ 500.000 [Cr$ 100 milhões] por ano e $ 926.000 [Cr$ 185 milhões] por ano”. Fernando Valenzuela, o famoso arremessador mexicano de bola no beisebol, dos Dodgers de Los Angeles, ganhou alegadamente de Cr$ 60 milhões a Cr$ 100 milhões numa só temporada só em fazer comerciais de produtos. Segundo o diário argentino La Nacion, o clube de futebol Boca Juniors depositou o equivalente de Cr$ 200 milhões em “pagamento da primeira quota para comprar definitivamente Diego Armando Maradona”, um dos astros do futebol argentino. Uma notícia da Austrália diz: “Agora o céu é o limite, e o futebol se tornou um grande negócio, tendo cada um dos 12 clubes da Associação Vitoriana de Futebol um movimento anual de cerca de $ 1 milhão [de dólares australianos, equivalentes a Cr$ 202 milhões].”
Qual é o resultado final do envolvimento de grandes negócios nos esportes? Incrementada violência. Por quê? Porque os esportes exigem atualmente enormes lucros, provenientes de seus espectadores e dos canais de televisão. Isso significa que o consumidor precisa ser convertido em viciado nos esportes para garantir que constantemente entre dinheiro. Como se consegue isso? Fornecendo o que o freguês pede — emoção. E a emoção significa geralmente violência. Assim se cria o ciclo da manutenção própria. Os treinadores têm de ensinar e exigir violência, porque os fãs (do inglês fans, abreviatura de “fanáticos”) querem isso. E os magnatas dos negócios querem seus lucros. E os meios de comunicação, para aumentar suas próprias vendas, passam a fazer, ora adulações, ora acusações. Apanhados no meio desse círculo vicioso estão os jogadores que têm de apresentar a mercadoria — ação, emoção e violência.
Por Que a Violência dos Espectadores?
Os exorbitantes salários e prêmios dos esportes atualmente criaram uma segunda causa motivadora da violência. De que modo? O espectador paga um preço elevado para ver o desempenho de profissionais altamente pagos. Em resultado, exige perfeição todo o tempo. Não se tolera falha ou que não esteja no seu dia. Esse processo foi bem explicado pelo professor John Cheffers, da Universidade de Boston, E.U.A.: “Há uma diminuição [perda] essencial de respeito pelos jogadores que são considerados pelos fãs dos esportes como sendo pagos demais, às vezes birrentos e certamente estragados. Por conseguinte, organizar profissionais dos esportes como focas que fazem proezas, esperando perfeição em toda tentativa, desumaniza-os e faz com que sejam mercadoria aos olhos da direção e do espectador.”
Qual é a conseqüência lógica desse processo? A violência dos espectadores. Mas, por que deveria ser assim? Bem, o que faz quando compra um artigo defeituoso num supermercado? Você se queixa com o gerente ou o fabricante e espera ser compensado. E como se queixa num estádio se a jogada não for boa? Visto que não há um canal oficial para compensação, os torcedores desapontados irrompem em espontânea violência.
Nas últimas duas décadas, a violência dos espectadores tem sido causada por mais dois fatores — as drogas e as bebidas. Muitos torcedores chegam aos estádios já bêbedos ou drogados, ou quase assim, e trazem mais cerveja e maconha para os sustentarem até o fim do jogo. Ao se desenrolar o jogo, as multidões se tornam turbas agressivas, desaparecem as inibições, e a manchete no dia seguinte é “Violência Irracional”.
A violência dos espectadores atingiu tais níveis na Europa que muitos países não querem certos torcedores nos seus jogos. “Torcedores da Inglaterra, não voltem mais!” dizia a mensagem da Basiléia, Suíça, depois de os torcedores da Inglaterra causarem tumulto nessa cidade calma da Suíça. As pessoas no centro da cidade de Barcelona, Espanha, estremeciam ao pensar nos torcedores do Rangers, de Glasgow, Escócia, que causaram terror nas suas ruas em 1972. O fato de estar piorando a situação é atestado por um torcedor inglês um tanto embaraçado, que disse: “Tenho viajado para assistir aos nossos jogos no estrangeiro por 13 anos e vi ficarem cada vez piores. Agora, vadios [desordeiros] das áreas como Chelsea, West Ham e Manchester estão vindo só para agressão. Eles nem mesmo assistem aos jogos.”
Existe Uma Solução?
A violência nos esportes, tanto dentro como fora do campo, é hoje uma calamidade mundial. Toda sorte de solução para remediar está sendo sugerida e experimentada. Em muitos estádios em todo o mundo os torcedores são agora separados por um fosso, como animais selvagens num jardim zoológico. Em alguns estádios, os torcedores dos times adversários são limitados a diferentes áreas de espectadores. Enviam-se reforços de patrulhas de choque e radiopatrulhas. Algumas autoridades sugeriram leis e penalidades rigorosas contra os jogadores e os espectadores violentos. Os esportistas até mesmo são a favor de banir certas ações violentas em alguns esportes, como no hóquei sobre o gelo. “Mas os donos dos times, temendo o impacto que isso poderá ter sobre a venda de ingressos, nunca tomaram ação.”
Está claro que o cavalheirismo e o jogo limpo não podem ser legislados no coração e na mente das pessoas. Têm de ser ensinados como parte integral de um modo contrabalançado de vida. Mas, é isso possível? Em caso afirmativo, como pode isso beneficiar a você e a seus filhos? Que se pode fazer para que os esportes sejam uma atividade recreativa sadia e não um ordálio de ‘vida ou morte’?
[Foto na página 4]
Os Esportes e a Maldição da Violência
The New Yorque Times, 18 de outubro de 1981.
Retrospecto de uma orgia de violência
The Guardian, 7 de nov. de 1981.
Violência nos jogos: morre jogador de futebol
The Australian, 15 de setembro de 1980.
Violência dos Torcedores Mostra. . .
The New Yorque Times, 27 de julho de 1980.
Torcedores se tornam violentos
Daily News, 16 de outubro de 1981.
Morre pugilista do Golden Gloves
The Express, 2 de março de 1981.
(O acima são traduções de manchetes em língua inglesa.)
[Fotos na página 5]
ISTO resultou NISTO
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Os esportes e a família — um conceito equilibradoDespertai! — 1982 | 22 de novembro
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Os esportes e a família — um conceito equilibrado
Esportes — Por Que Cresce a Violência?
“ESTA mulher veio correndo, gritando obscenidades. Eu me dei por vencida. Ela me deu pontapés e me arranhou.” A resposta da outra: “Eu fui lá e esta mulher me deu um soco, e eu dei um pontapé nela, mas ambas erramos o alvo. Sinto ter errado. Eu faria de novo.”
Bem, de que se tratava? Será que se tratava de uma partida de luta feminina corpo a corpo? Não, era uma briga de duas mães canadenses numa partida de futebol de seus filhos de 10 anos.
Isto talvez ilustre um dos problemas que algumas crianças têm nos esportes — seus pais. Segundo escreveu certa mãe sobre a participação de seu filho na Liga Infanto-juvenil de beisebol: “Nós presenteamos isso a nossos meninos como um regalo, um privilégio . . . E nós é que ficamos empolgados com isso. Impusemos nossos próprios sentimentos competitivos nesses pobres garotos, daí ficamos sabendo que jogavam beisebol não para seu próprio prazer, mas para nos contentarem.”
Na Austrália, “crianças de apenas cinco a seis anos estão sendo forçadas a uma atmosfera esportiva de grande tensão e competição, não obstante a posição oficial em muitas organizações — o rúgbi, o futebol e o críquete, que não devem começar antes dos 10 ou 12 anos”. O dr. W. W. Ewens, em Nova Gales do Sul, disse que a evidência era “razoavelmente conclusiva de que psicológica, fisiológica e socialmente as criancinhas não estavam preparadas para a prática de um esporte grande”.
Então, por que é que pais e treinadores fazem tanta pressão nas crianças? “Os pais ultrapassam os limites quando se excedem em identificar-se com seus filhos, ou tentam ocupar o lugar deles”, disse o dr. Leonard Reich, psicólogo de crianças em Nova Iorque. “Para alguns pais significa uma mudança, um retorno aos dias de sua juventude.” O único problema é que tendem a usar critério adulto nos jogos de seus filhos. O resultado é que, em vez de divertir-se, divertir-se, divertir-se, a meta é vencer! vencer! vencer!
Envolvimento Contrabalançado
É claro que os pais devem ter interesse na recreação de seus filhos, mas seu envolvimento deve ser contrabalançado e construtivo. Conforme explicou Bobby Orr, astro do hóquei sobre o gelo: “Meu pai nunca me pressionou a jogar. Eu jogava hóquei porque eu gostava de jogar.” Vincent Chiapetta, treinador de atletismo em Nova Iorque, disse a respeito de sua atitude para com seu filho: “Embora eu estivesse no atletismo, não tentei forçar meu garoto a correr. . . . Eu assistia a seus jogos porque ele era meu filho e eu tinha responsabilidade. Mas, quando vi que o treinador fazia pressão nos garotos, eu lhe disse que ia retirar meu filho. Fiz questão de dizer-lhe que vencer não era a única coisa para mim. Afinal, um jogo é apenas um jogo.”
E que acham as crianças quando mamãe e papai se juntam a elas em algum jogo informal ao ar livre? Rick Rittenbach, que era um dos seis filhos da família, relembra: “Como éramos seis crianças, muitas vezes jogávamos uma partida de beisebol com bola macia, ou de voleibol. E sei que todos nós nos divertíamos quando mamãe e papai se juntavam a nós. E está claro que eles também se divertiam. Tenho a certeza de que foi um dos muitos fatores que ajudaram a manter nossa família unida.”
A participação nos esportes pode ser um tônico para toda pessoa, independente da idade. Mas as crianças, especialmente, consideram a recreação como ponto alto, e, quando é conjugada com uma boa relação com os pais, os benefícios se multiplicam. Tem-se assim uma família feliz, sadia e unida. Mas qual é a chave para tal situação? O equilíbrio. A recreação ou os esportes devem ser um passatempo, não uma competição mortal ou um campo de batalha divisório.
O Treinamento Físico — É Útil?
Será que a Bíblia oferece alguma orientação prática no campo dos esportes?
Notemos em primeiro lugar o valioso conselho fundamental da Bíblia: “Seja a vossa razoabilidade conhecida de todos os homens.” (Filipenses 4:5) Isto indica de imediato um conceito equilibrado sobre todos os assuntos. Por exemplo, o apóstolo Paulo, no mundo grego orientado pelo atletismo dos seus dias, escreveu a um jovem cristão: “Procure se manter sempre em exercício espiritual. . . . O exercício físico tem algum valor, mas o exercício espiritual tem valor para tudo.” (1 Timóteo 4:7, 8, A Bíblia na Linguagem de Hoje) Outra tradução verte: “O treinamento físico traz benefício limitado.” — The New English Bible.
Se, pois, o benefício é limitado, é prudente dedicar-se aos esportes por tempo integral? Baseiam-se nos esportes os verdadeiros valores da vida? E que dizer se o esporte viola os princípios cristãos básicos, como ‘amar o próximo como a si mesmo’ ou ‘fazer aos outros aquilo que gostaria que lhe fizessem’? Que dizer se atividade extracurricular nos esportes significa associação desnecessária com pessoas que não aplicam princípios cristãos? Irá isso minar a espiritualidade? Não é verdade que Primeira Coríntios 15:33 responde Sim? — “Não sejais desencaminhados. Más associações estragam hábitos úteis.”
Embora os esportes como recreação proporcionem “benefício limitado”, a pessoa precisa estar apercebida de possíveis perigos quando são levados muito a sério. A Bíblia fornece orientação nesse respeito: “Não fiquemos egotistas, atiçando competição entre uns e outros, invejando-nos uns aos outros.” (Gálatas 5:26) Nosso artigo precedente mostrou como a incrementada competição pode conduzir à violência. Um espírito excessivamente competitivo tira muito do prazer do jogo, visto que a meta final, vencer, se torna a única coisa importante.
Outras traduções desse texto dizem: “Não procuremos a glória vã.” (Lincoln Ramos) “Então não precisaremos mais andar em busca de honras e de popularidade.” (O Novo Testamento Vivo) Os jovens são atraídos pela ilusão do sucesso nos esportes. Sonham em tornar-se o astro, o vencedor, ganhar destaque. Para a grande maioria, é um sonho impossível. Para os poucos “favorecidos”, o preço é elevado, amiúde terrivelmente elevado. Darryl Stingley, ex-jogador de futebol americano dos E.U.A., sabe isso bem demais. Em resultado de ter sido agarrado mortalmente em agosto de 1978, desde então está paralisado do pescoço para baixo.
Heitor Amorim, ex-astro do futebol brasileiro, põe em foco a questão, dizendo: “Não se deve jamais esquecer que é um número insignificante os poucos que se tornam astros e obtêm todas as honras que acompanham o sucesso. Para cada um que ascende à glória há milhares que sofrem frustração. Abandonaram os estudos, fracassaram no esporte e daí lhes restou — o quê? O desprezo. Ninguém quer saber hoje de um perdedor.”
Portanto, em essência, qual é o melhor conselho a seguir quanto aos esportes? Deixemos que o ex-jogador australiano de futebol americano, Peter Hanning (um profissional de 1964-75 do Swan Districts), responda a essa pergunta: “Meu conselho aos jovens é: Desfrutem seu exercício físico. Os esportes são uma recreação que os conservarão sadios e felizes como passatempo. Mas o esporte profissional é outra história. Exige compromisso que exclui tudo, exige uma dedicação completa. E o preço que se paga é elevado — todas as relações, quer com as pessoas, quer com Deus, têm de sofrer. A pessoa se torna parte de um mundo autônomo de bajulação, imoralidade, inveja, orgulho e avareza. E corre o constante risco de ser vítima de ferimento incapacitante. Ou, talvez pior ainda para alguém que tem consciência, o de ferir gravemente outra pessoa. A lista de ferimentos que eu sofri inclui um braço quebrado, fratura no nariz (quatro vezes) e no osso da maçã do rosto, remoção da cartilagem do joelho, ferimento nas costas e concussão duas vezes. E, em comparação com alguns, eu me saí bastante bem!”
Portanto, embora seja verdade que “a glória dos jovens é a sua força” (Provérbios 20:29, Versão da Imprensa Bíblica Brasileira), deve-se também lembrar que as relações na vida não se baseiam na força, mas na sabedoria. Portanto, recreie-se com seus esportes de modo contrabalançado. Deixe que sirvam de diversão, mas nunca lhe sejam uma obsessão. Deixe que o revigorem, mas nunca o dominem.
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