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Em que reside o perigoDespertai! — 1976 | 8 de maio
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Em que reside o perigo
MUITOS acham hoje que a comunidade em que vivem é como se fosse um campo de batalha. Havendo tantos crimes, sentem muito receio quando saem de casa.
Numa recente enquête Gallup, 45 por cento dos estadunidenses disseram que receiam andar de noite pela sua própria vizinhança. E, nas cidades maiores, mais de três de cada quatro mulheres disseram que sentem medo de sair após o anoitecer. Dentre todos os problemas comunitários, os estadunidenses situam o CRIME no alto da lista, até mesmo acima do desemprego ou do alto custo de vida. Têm bons motivos para isso
Um estudo feito pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts indica que têm. O estudo verificou que o número de pessoas assassinadas nas cidades dos E. U. aumenta tão rápido que “um menino estadunidense urbano, nascido em 1974, tem mais probabilidade de morrer assassinado do que teve um soldado estadunidense de morrer em combate na Segunda Guerra Mundial”. Talvez ache isso quase impossível de acreditar, mas a situação é assim tão séria!
No ano de 1974, 20.500 estadunidenses foram assassinados, que é bem o dobro do número de pessoas assassinadas em 1965, apenas nove anos antes! A esta taxa de aumento, haverá mais de 40.000 assassínios por ano no início da década de 1980. Assim, na década de 1980, talvez levem apenas seis ou sete anos para que as vítimas de assassinato nos E. U. ultrapassem as 292.131 mortes em combate estadunidense durante a Segunda Guerra Mundial!
Não há dúvida sobre isso, a ameaça do crime contra nossa vida é real e está aumentando.
Todos os Crimes Aumentam em Todo o Mundo
O perigo, contudo, não é apenas de sofrer assassinato, mas também o de sofrer estupro, agressão, roubo ou invasão de domicílio. Todos esses crimes aumentaram numa taxa ainda mais rápida do que o assassinato!
Em 1974, o crime nos EUA aumentou estonteantes 17 por cento em comparação com 1973, o maior aumento até então. Mas, no primeiro trimestre de 1975, aumentou 18 por cento em comparação com o mesmo período de 1974! O Procurador Geral dos EUA, Edward Levi, chamou este aumento de “uma das mais terríveis realidades da vida, que passamos a aceitar como normal”.
Ao passo que as grandes cidades são os lugares mais perigosos, o aumento no crime recentemente foi mais rápido nas áreas dos subúrbios chiques e zonas rurais. Em 1974, subiu 20 por cento nos subúrbios, e 21 por cento na zona rural. E, nos primeiros meses de 1975, apenas os roubos deram um salto de 53 por cento nas cidades dentre 10.000 a 25.000 habitantes!
Mais de 10 milhões de crimes foram registrados pela polícia em 1974, e o total provavelmente atingiria 12 milhões em 1975. Mas, trata-se apenas da ponta do iceberg, como diz o ditado. Uma enquête do Departamento de Estatística mostra que mais de dois dentre cada três crimes não são jamais comunicados à polícia. Por quê? Principalmente porque as vítimas acham que não se fará nada a respeito.
A chocante conclusão da enquête do Departamento de Estatística é: 37 milhões de crimes graves por ano são cometidos nos EUA, mais de três vezes o total denunciado. Isto representa setenta assassínios, estupros, agressões ou vários tipos de roubo a cada minuto, mais de um por segundo!
Um país após outro passa por similar onda de crimes. Sobre a situação na Itália, noticia The Guardian: “Parece não haver ninguém em Roma cuja família não tenha sofrido um roubo.”
O jornal francês, L’Aurore, afirma: “O clima aqui já não e mais o mesmo. No metrô, à noite, as pessoas honestas não se sentem mais muito descontraídas. Apressam-se . . . Na rua, olham por cima dos ombros com freqüência.”
Proteção — A Exigência do Dia
Uma das principais preocupações das pessoas veio a ser a sua própria segurança, e a de suas propriedades. Típico é o comentário dum comerciante de Nova Iorque: “Abri meu negócio há trinta anos atrás e só me preocupava com os lucros; agora, minha preocupação principal é passar o dia sem ser roubado nem perder minha vida.”
Em Louisville, Kentucky; o dono dum restaurante foi roubado três vezes em seis meses, obrigando-o a contratar guardas de segurança armados. “Pagar proteção é no que se resume isso”, explica. Cidadãos comuns, também, tomam medidas similares, contratando policiais particulares e comprando todos os tipos de aparelhos de segurança.
Um resultado disso é o surto do comércio de alarmas contra ladrões. Há, segundo relatado, cerca de 6.000 fabricantes de aparelhos protetores nos E.U.A, em comparação com apenas 1.000 há cinco anos! Suas vendas anuais, calcula-se, ultrapassam Cr$ 10 bilhões.
Muitas casas assumiram a aparência de fortalezas. Grades selam as janelas, e focos de luzes iluminam a propriedade. “Coloquei grades em minha casa”, explicou uma viúva de Detroit.” De início, senti-me um pouco enclausurada, mas a pessoa se acostuma com isso.” É o preço que cada vez mais pessoas se dispõem a pagar.
Todavia, muitos também receiam sair de casa, como certo californiano comentou: “Você não ousaria sair de casa desprotegido por muito tempo em nossa cidade (população de 25.000). Não se passa um dia sem que alguém seja inteiramente depenado.” Assim, em algumas cidades, as pessoas pagam um “caseiro” para vigiar sua casa quando saem de férias.
Na maioria dos casos, talvez seja óbvio onde reside o perigo de crime, mas isso nem sempre acontece.
Fontes Inesperadas de Perigo?
A maioria dos assassínios, por exemplo, não são cometidos por “elementos criminosos”, tais como ladrões ou ventanistas. Antes, quase um terço de todas as vítimas são parentes de seus assassinos. Outro terço das pessoas são mortas por amigos ou conhecidos. Isso significa que apenas cerca de um terço das vítimas são assassinadas por estranhos.
É digno de nota, também, que os assassínios comumente ocorrem durante períodos de férias, tais como na época do Natal. Também, num estudo de 588 assassínios em Filadélfia, o sociólogo Martin Wolfgang verificou que cerca de dois terços das vítimas foram mortas nos fins-de-semana. Quanto a isso, Psychology Today comentou: “Não é surpreendente que sejamos mortos enquanto estamos à vontade. Afinal de contas, é nessa ocasião que estamos com aqueles que têm mais probabilidade de nos matar: nossos parentes, amigos, e companheiros de bebida.” Será que compreendia isso,
Talvez também fique surpreso de saber quem comete a maioria dos crimes. São os jovens. Nos EUA, em 1974, cerca da metade (45 por cento) dos crimes graves — assassínios, estupros, roubos, e assim por diante — foram cometidos por jovens com menos de dezoito anos. Crianças com menos de quinze anos cometem mais crimes do que os adultos com mais de vinte e cinco anos.
Até mesmo os criminosos mais velhos temem os jovens. Afirma um assaltante de Chicago: “Esses criminosos mais jovens, são doidos. Não têm motivo de fazerem o que fazem.” E um nova-iorquino que já foi agredido seis vezes em quatro anos, avisou: “Cuidado com os pivetes, eles são os perigosos.”
Os crimes dos funcionários burocráticos, como o crime dos empregados, embora não sejam tão visíveis, prejudicam a maioria de nós até mesmo mais, em sentido financeiro, do que o crime tradicional. Norman Jaspan, famoso perito em crimes comerciais, afirma que “isso adiciona até 15 por cento no custo dos bens e serviços”. Mas, há também o que custa o crime organizado, nos EUA, afirmando o promotor público especial de Nova Iorque, Maurice Nadjari: “23 centavos de cada dólar que gastamos vão para os bolsos do crime organizado.”
Sim, o crime não só ameaça nossa segurança, mas ‘nos rouba sem o percebermos’. Todavia, o Comissário de Polícia de Boston, Robert J. Digrazia confessou em data recente: “Não podemos eliminar nem reduzir o crime. Isso é algo que está além de nossa capacidade.”
Por que os agentes da lei sentem-se derrotados na luta contra o crime? A seguinte história dum oficial de polícia duma grande cidade talvez lhe forneça uma visão do assunto.
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Por que se perde a luta contra o crime?Despertai! — 1976 | 8 de maio
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Por que se perde a luta contra o crime?
Leia o Que um Veterano Oficial de Polícia Diz Sobre Isso
NENHUMA cidade tem uma soma total de crimes igual à de Nova Iorque. Mais pessoas — 1.669 — foram assassinadas aqui num ano recente do que as que foram mortas em quase sete anos de luta na Irlanda do Norte!
Como oficial de polícia de Nova Iorque durante quatorze anos, vi o fracasso de toda sorte de esforços para frear estes crimes. O promotor público especial do Estado de Nova Iorque, Maurice Nadjari, estava certo ao dizer: “Não somos mais capazes de fornecer segurança às pessoas contra o crime.”
Centenas de nova-iorquinos diariamente são assassinados, ou agredidos, ou estuprados ou roubados — quase a cada minuto se comunica à polícia crime grave. Certa manchete do Times de Nova Iorque, noticiando o aumento de crimes dos primeiros meses de 1975 em comparação com os mesmos meses de 1974, reza: “CRIMES GRAVES AUMENTAM 21,3% NA CIDADE.” Não é de admirar que, em muitas partes da cidade, os nova-iorquinos receiem aventurar-se em sair de casa — são, efetivamente, prisioneiros em suas próprias casas.
É Culpa da Polícia?
Temerosas e iradas — e isso bem compreensivelmente — as pessoas não raro culpam a polícia. Dizem que somos burros demais para solucionar crimes, ou preguiçosos demais. A opinião comum é que regularmente aceitamos gorjetas ilegais, como o filme Serpico deu a impressão. Muitos afirmam que temos uma atitude superior, acima da lei, evidenciada por deixarmos de obedecer às leis que somos responsáveis de fazer vigorar. Outros nos acusam de ser insensíveis para com o público, e de tratarmos com brutalidade os suspeitos de algum crime.
Ao passo que talvez haja certa dose de verdade em algumas destas acusações, acho que, em geral, elas transmitem uma impressão injusta. O trabalho da polícia é de uma natureza tal que é facilmente sujeito a mal-entendidos por parte do público. Assim, é injusto nos julgar sem ouvir o nosso lado. Escutando-o, creio eu, poderá adquirir, não só uma visão do motivo para o aumento do crime, mas também a compreensão das frustrações e pressões que a polícia suporta.
Conceito Realístico da Polícia
Alguns afirmam que uma das razões principais de o crime florescer é que a polícia é corruta. Como evidência, talvez citem o relatório que, dentre 51 policiais de Nova Iorque a quem se entregaram carteiras “perdidas” e se solicitou que as devolvessem, quinze embolsaram o dinheiro que havia dentro delas. (Times de Nova Iorque, 17 de novembro de 1973) No entanto, veja as coisas na seguinte perspectiva:
Sabia que, quando se fez um teste similar mais tarde entre nova-iorquinos escolhidos a esmo, quarenta e duas dentre 50 pessoas ficaram desonestamente com o dinheiro? Assim, em grau considerável, a polícia simplesmente reflete os padrões da sociedade de que faz parte, não reflete? Quanto ao suborno, não é o público que o oferece à polícia?
Não tento justificar a desonestidade policial. Mas, é bom obtermos o quadro completo. Admitidamente existe alguma corrução. Mas, na realidade, não fazemos nós, policiais, muito para impedir o crime? Não ficam as pessoas mais inclinadas a obedecer à lei quando nos vêem por perto?
Lembre-se do que aconteceu em 1969 quando 3.700 policiais de Montreal, Canadá, entraram em greve. O crime aumentou a tal grau que os líderes governamentais disseram que a cidade estava “ameaçada pela anarquia”. E, creia-me, seria pior em Nova Iorque. Sem a polícia cumprindo seu dever, os nova-iorquinos fariam melhor em levantar barricadas em suas casas. Seria impossível de se viver na cidade!
O Que a Polícia Enfrenta
Para ilustrar a frustração que os policiais amiúde enfrentam em combater o crime, deixe-me relatar o seguinte: Um colega recentemente flagrou uma menina de 12 anos e um garoto de 13 anos tendo relações sexuais no terraço de um prédio. Levou a menina para os pais dela. A mãe dela, porém, mandou que ele cuidasse de sua própria vida, dizendo: “Ela é uma mulher agora; poderá fazer isso sempre que quiser.” Uma experiência assim faz o policial sentir-se desvalido. Acho que esta moderna atitude permissiva, onde vale tudo, contribui para o aumento do crime.
Nas favelas, o policial representa a parte da sociedade que as pessoas acham as tem chutado e as mantém na lama. Assim, não raro somos encarados mais como ameaça do que como ajuda nessas localidades. Por exemplo, quando entramos numa vizinhança para retirar de lá um atravessador de tóxicos, seus vizinhos lutam a favor do atravessador e contra nós. Esta atitude antipolicial também, segundo creio, é outro fator contribuinte no aumento do crime.
Lembro-me dum incidente no bairro de Bedford-Stuyvesant de Brooklyn. Um par de sujeitos roubara um carro, e tentava fugir. Nós os perseguíamos e eles bateram com o carro, destroçando-o. Nós os encurralamos e colocamos de rosto contra a parede, com nossos revólveres sacados. Mas, antes que o percebêssemos, formara-se uma turba que começou a ameaçar-nos. Eu lhe digo que a melodia mais doce que já ouvi foi a das sirenas dos carros-patrulhas que vieram ajudar-nos.
É preciso enfrentar tais situações para entender a sensação doentia do gélido terror. Sei que os críticos se inclinam a censurar a polícia por usar seus revólveres depressa demais e pelo uso desnecessário da força. Mas, é fácil criticar outros dum lugar seguro. Os críticos pensariam de modo diferente, creio eu, se tivessem de enfrentar criminosos armados.
A situação é assombrosa! Cerca de um policial é morto cada mês na cidade! O total de crimes é quase inacreditável — um colega, outro dia, disse que um carro-patrulha teve que lidar com cinco roubos numa ronda, a maioria sendo de assaltos a farmácias.
Até os assassínios se tornaram rotina, e os policiais amiúde ficam endurecidos diante deles. O policial John Flores, que trabalhava no 73.º Distrito de Brownsville, de alta incidência de crimes, ilustrou o assunto por descrever uma ronda em que esteve tão ocupado que, quando comia um sanduíche, notou que não havia lavado as mãos para remover o sangue duma vítima de assassinato.
As pessoas nessas áreas também ficam endurecidas. Em outro caso, o marido matara a mulher. Tinham doze filhos, e, à medida que prosseguia a investigação, vários deles brincavam de pegador pela casa, como se nada tivesse acontecido!
Mas, por que se perde a batalha contra o crime? Caberá a culpa à falta de preparo dos policiais para seu serviço?
Preparados Para Combater o Crime
Foi em 1961, quando tinha 24 anos, que cursei a Academia de Polícia de Nova Iorque. Incluía-se a preparação física — a ginástica, o judô e o manejo de armas. Nas salas de aula examinamos os elementos de cada crime, e o que está envolvido em efetuar uma prisão. Há algo mais envolvido do que apenas dizer: “Está preso!” Aprendi o que acontece depois de uma pessoa ser trazida à cadeia pública, como se tiram suas impressões digitais, como é fotografada e, de outros modos, preparada para julgamento. Também aprendi o tipo de evidência necessária para fazer com que uma prisão seja mantida pelo tribunal.
Depois de cerca de cinco meses, minha turma se formou, e fui designado ao 66.º Distrito, em Parque Borough, Brooklyn. Ali fazia minha ronda a pé e, vez por outra, ia num carro patrulha. Era satisfatório ajudar as pessoas a resolver os problemas e dar assistência médica e de outros tipos.
No entanto, odiava registrar multas de trânsito, visto que faziam as pessoas sentir-se tão mal. Assim, chegava o fim do mês e não tinha feito o número esperado de multas. Tinha então de multar pelas chamadas “infrações dúbias” — tais como deixar de parar completa e plenamente, ou por atravessar o cruzamento com o sinal em mudança. Isso me fazia sentir muito mal.
Nunca esquecerei a primeira prisão que efetuei. Fiz parar um motorista que dirigia sem carteira, e ele me ofereceu Cr$ 1.000,00 para deixá-lo ir. Prendi-o e o conduzi para a delegacia.
Desde então já fiz centenas de prisões, mas o que especialmente torna memorável aquela primeira é que assinalou a primeira vez em que compareci a um tribunal, onde vi a situação caótica ali existente. A realidade não foi bem o que o curso na academia me levara a esperar. Mas, logo soube de outras realidades chocantes, totalmente contrárias ao excelente curso policial que fizéramos.
Como Eram as Coisas
Havia pouco tempo que eu fazia parte da polícia quando se me tornou evidente que muitos policiais aceitavam peitas. Era de conhecimento geral que alguns andavam por aí, recolhendo dinheiro de proteção, de jogadores e outras figuras do submundo.
Daí veio a investigação da corrução policial pela Comissão Knapp. Há cerca de quatro anos, pôs a corrução em foco, e, desde então, houve policiais que foram realmente condenados e encarcerados! Ademais, a conspiração do silêncio foi rompida — policiais começaram a denunciar a corrução. De modo que espalhou-se o temor, os guardas ficando com medo de serem denunciados por outros policiais, e isto contribuiu para uma limpeza.
Lançou-se um programa contra a corrução por todo o departamento. Colocaram-se cartazes nas delegacias, por: exemplo, explicando que o potencial de salários de um policial durante vinte anos de serviço e vinte anos de aposentadoria é de Cr$ 5.000.000,00, instando com eles a que não desperdiçassem tudo isso por aceitarem suborno. Temos um bom salário, agora, e duvido que muitos se arrisquem a perdê-lo por aceitarem qualquer espécie de suborno ou gorjeta.
Isso não significa que todos os policiais se tornaram fundamentalmente honestos. Certo Inspetor Chefe auxiliar aposentado está provavelmente certo ao dizer sobre ex-policiais corrutos: “Procuram agora mesmo oportunidades de ganhar dinheiro e comparam o dinheiro com o risco.” Parece que o fator risco precisa ser mantido em alto nível, como indicado em recente relatório policial ao identificar o medo de ser apanhado como razão das condições aprimoradas.
No entanto, compreendo que o público ainda considere a maioria dos policiais como corrutos; perdemos a credibilidade pelos nossos antecedentes passados. Também, a atitude persistente de colocar-se acima da lei de alguns policiais contribui para isso.
Esta perda da confiança pública, de credibilidade — resultando na falta de cooperação e até mesmo no ódio do público — é um dos fatores principais, creio eu, em perdermos a luta contra o crime.
Trabalho de Investigador, e Outros Fatores
Eu desejava progredir no departamento, e, em 18 de maio de 1962, aconteceu algo terrível que abriu o caminho — dois investigadores de Brooklyn, chamados Fallon e Finnegan, foram mortos numa tabacaria do meu distrito, a apenas alguns quarteirões de onde eu estava naquela hora. Naqueles tempos, os assassinatos de policiais eram incomuns, e investigadores de toda a cidade foram chamados para trabalhar nesse caso.
Na noite dos assassinatos, recebi informações de uma fonte confidencial que me deixaram perplexo — foi-me dito quem era um dos assassinos. Fui imediatamente para a delegacia e comuniquei a informação. Fui designado ali na hora a ajudar nesse caso. Naquela mesma noite, conseguimos determinar que um dos suspeitos estava envolvido nos assassinatos. Mais tarde, foi detido e condenado.
Em resultado do meu trabalho, fui recomendado ao departamento de investigação, e na primavera setentrional de 1963 fiz o curso para investigadores na Academia de Polícia. Depois disso, como era então costumeiro, foi designado ao Esquadrão dos Jovens, uma espécie de esquadrão de investigadores novatos que impõe a lei em locais onde se congregam os jovens, tais como boliches, bilhares e escolas. Mas, desde 1966, fiz trabalho regular como investigador.
Investigar a maioria dos crimes não é nada comparado com o que foi feito no caso do assassinato de Fallon e Finnegan, em que dezenas de investigadores e técnicos especiais concentraram seus esforços. Havendo bem mais de 1.000 crimes graves comunicados diariamente à polícia, simplesmente não há tempo para se investigar cabalmente a maioria dos crimes.
Quando há mais tempo disponível, porém, talvez se faça uma investigação completa. Podem ser procuradas testemunhas do crime, e se faz cabal busca de pistas. As impressões digitais são de extremo valor como evidência dum crime; no entanto, acho que este é um setor em que falham muitos investigadores. Deixam de utilizar os métodos científicos disponíveis para detenção do crime, quer por falta de interesse quer devido a não estarem convictos de seu valor.
Em face da enxurrada de crimes, as investigações se esfacelam — apenas um de cada cinco crimes graves é solvido, e o número real talvez seja bem menor. Em resultado, a confiança do público na polícia é reduzida. Avolumam-se a frustração e o egoísmo, fazendo com que mais pessoas se voltem para o crime.
Ainda assim, muitos policiais crêem que existe uma razão ainda mais importante pela qual estamos perdendo a luta.
Por Que se Pode Dizer: O Crime, Compensa
Expresso sem rodeios, a razão é que O CRIME COMPENSA. É isso que mostra a evidência. Assim, James S. Campbell, anterior consultor jurídico duma comissão presidencial sobre o crime, disse: “O Crime compensa.” Observou que “as probabilidades eram de 99 contra 1 de que pudesse cometer um crime grave e não ir para a cadeia por isso”. Mas, em Nova Iorque, a possibilidade é ainda menor de que um criminoso seja punido.
Por exemplo, dentre as 97.000 prisões devido a crimes graves, num ano recente, apenas 900 réus foram julgados até o ponto de se chegar a um veredicto! A ampla maioria das prisões são relaxadas através do “acordo”. Da forma em que isso funciona, o criminoso concorda em declarar-se culpado de uma acusação menor que usualmente envolve uma sentença suspensa. Em outras palavras, sai livre. Não sofre nenhum castigo! Até mesmo oito de cada dez casos de assassínio são resolvidos por “acordo”. Em tais casos, o assassino em geral recebe sentença leve, e logo está livre para repetir de novo seus crimes.
Por experiência própria, poderia fornecer-lhe muitos exemplos deste sistema judiciário de “porta giratória”. Mas, deixe-me selecionar apenas um. Em 1970, um homem com longa ficha criminosa esfaqueou implacavelmente um indefeso homem idoso, dono de uma loja de bebidas. Todavia, esse assassino a sangue frio obteve permissão de declarar-se culpado de homicídio culposo, sendo sentenciado a cinco anos, o que significa que só servirá por dois ou três anos. Mas, foi um dos crimes mais hediondos que já investiguei!
Por que não são julgados nem é aplicado o castigo apropriado a tais casos! O Ministro David Ross explicou: “Nossas costuras estão se rompendo e seriam necessários milhões [de dólares] para julgar todos os casos.” Ademais, as prisões já estão cheias, e os custos de construção para novas talvez atinjam até Cr$ 400.000,00 por detento. Mesmo agora, custa cerca de Cr$ 100.000,00 por ano para se manter uma pessoa numa prisão tradicional. Assim, não só é caro julgar os criminosos, mas também é muito caro mantê-los trancafiados.
Em resultado disso, as pessoas se animam a cometer mais crimes, visto que podem ver que o crime compensa. Ora, às vezes até se riem de nós quando as prendemos, visto saberem que não têm nada a temer. Assim, pode ver por que os policiais amiúde não se querem gastar nos esforços de prender criminosos? Usualmente esses não serão mesmo punidos. Certo homem em Washington, D. C., por exemplo, foi preso 57 vezes em cinco anos antes de ser condenado.
É uma situação triste, como disse o ex-Comissário de Polícia de Nova Iorque, Patrick Murphy: “A polícia é simplesmente o braço mais visível de um sistema alquebrado de controle do crime, de um não-sistema, em que os promotores públicos e os tribunais também fracassam.”
Um editorial do Times de Nova Iorque estava correto ao dizer sobre o sistema judiciário: “Em essência, o quadro é de um ‘sistema’ constantemente ameaçando cair devido a seu próprio peso, funcionando num modo mais destinado a evitar a queda do que administrar a justiça ou proteger o público.” — 7 de fevereiro de 1975.
O público é quem mais sofre, em especial as vítimas. Não existe praticamente nenhuma idéia de ajudá-las ou de compensá-las por suas perdas. Ademais, se hão de testemunhar no tribunal, têm de fazê-lo com seu próprio tempo, talvez às custas de seu salário, e o máximo que podem esperar é que o criminoso seja punido. Mas, agora, que tão poucos criminosos são punidos, cada vez menos vítimas se dispõem a se incomodar em processá-los e, francamente, não posso culpá-las. Certa senhora de Filadélfia teve de comparecer 45 vezes a um tribunal antes de ser condenado o assaltante que a roubara!
Há Quaisquer Soluções?
Há algum tempo atrás, foi-me apresentada a idéia de fazer com que o criminoso trabalhe para compensar a vítima pelo que roubou ou estragou. A idéia provém da Bíblia, onde, segundo a lei de Deus, um ladrão que roubasse um touro e o vendesse tinha de compensar com cinco touros! (Êxo. 22:1-4) Isso é tão lógico! Se os criminosos tivessem de fazer tal restituição às suas vítimas, ou, no caso de adolescentes, seus pais tivessem de fazer isso, o crime seria grandemente reduzido.
Também é necessário o pronto castigo para o erro. Quando não há punição, o criminoso acha que o crime compensa e assim continua em seu proceder ruim, como diz a Bíblia. (Ecl. 8:11) Mas, se os assassinos premeditados fossem rapidamente executados, como recomenda a Bíblia, posso assegurar-lhe de que haveria muito menos assassínios. (Núm. 35:30, 31) E, se outros criminosos fossem severamente punidos, estou certo de que o crime subitamente diminuiria.
Todavia, este sistema de coisas caminha cada vez mais distante dum proceder de sã razão e bom senso. Assim, enquanto este sistema continuar. triste é dizê-lo, não consigo ver nenhuma esperança de real melhora na luta da polícia contra o crime. — Contribuído.
[Destaque na página 6]
‘Alguns afirmam que a polícia é corruta.’
[Destaque na página 7]
“Os assassínios se tornaram rotina, e os policiais amiúde ficam endurecidos diante deles.”
[Destaque na página 8]
“Muitos policiais aceitavam suborno.”
[Destaque na página 9]
“Simplesmente não há tempo para se investigar cabalmente a maioria dos crimes.”
[Destaque na página 10]
‘O crime compensa. Para a maioria dos criminosos não há nenhum castigo.’
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Como pode proteger-se?Despertai! — 1976 | 8 de maio
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Como pode proteger-se?
OS CIDADÃOS comumente se voltam para a polícia em busca de proteção, mas, em algumas localidades, a polícia agora afirma que não pode fornecê-la. Escrevendo em The Wall Street Journal, Lewis M. Phelps falou da invasão de seu domicílio e os dos seus vizinhos em Chicago. Descreveu a reação policial:
“Enquanto preenchia os formulários, um policial observou, quase que casualmente: ‘O Sr. sabe, realmente não se dispõe de qualquer proteção policial nessa vizinhança. Não se tem nenhuma proteção em parte alguma desta cidade, porque não somos realmente policiais. Simplesmente fingimos que somos.’”
O oficial explicou: “Uma noite dessas provavelmente apanharemos esses sujeitos. Daí, é provável que saiam correndo. . . . Eu não vou nem mesmo fazer esforço de persegui-los. Porque, se eu fizer, e os pegar, é provável que resistam. Terei de atingi-los com meu revólver ou meu cassetete para subjugá-los, ou de outra forma ficarei ferido. Daí, enfrentarei um processo pelo uso de brutalidade, mesmo se ele me atingir primeiro. Assim, simplesmente farei de conta que o persigo, só o bastante para parecer estar agindo certo. E é exatamente assim que a maioria dos policiais desta cidade pensam.”
É isto que o oficial queria dizer ao mencionar que as pessoas não gozam de nenhuma proteção real da polícia. Mas, rapidamente defendeu seu “simplesmente fingimos que somos”, afirmando: “Tenho esposa e família em que pensar. Por que devo arriscar minha vida para agarrar estes sujeitos quando os tribunais simplesmente os colocam de volta na rua? Já prendi sujeitos por roubo à mão armada. Alguns têm 200 prisões, e dezenas de condenações por crimes violentos. E eles ficam em liberdade condicional. Por que devo arriscar-me a ser baleado para levar um sujeito aos tribunais só para isso?”
Onde é que isso o deixa, o cidadão mediano? A realidade é que se virá a ser ou não vítima dum crime depende em grande dose de seus próprios esforços de proteger-se.
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