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Será que quando voltam são os mesmos?Despertai! — 1983 | 8 de fevereiro
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da Segunda Guerra Mundial: “Que alívio foi não precisar mais matar.”
Embora se note que os crimes violentos aumentam a bem dizer em toda nação depois de uma guerra, não há provas estatísticas de que os responsáveis disso sejam os soldados que retornaram.c Na revista Psychology Today os pesquisadores Archer e Gartner explicaram:
“Talvez os aumentos se devam ao fato de se ter tornado legítimo o homicídio aos olhos da sociedade inteira. As guerras fornecem evidências concretas de que o homicídio pode ser aceitável. Essa inversão da proibição de matar pode fazer com que seja mais fácil qualquer pessoa recorrer ao assassinato como meio de solucionar conflitos na vida cotidiana.”
Portanto, a sociedade inteira fica de fato afetada mentalmente com os efeitos da guerra, não só os veteranos. As condições na terra desde a Primeira Guerra Mundial, que começou em 1914, demonstraram claramente que vivemos no período que a Bíblia chama de “últimos dias”. Algumas das características identificadoras alistadas na Bíblia são que “os homens [em geral, não apenas os soldados que voltaram] serão . . . sem autodomínio, ferozes . . . [passando] de mal a pior”. — 2 Timóteo 3:1-5, 13.
Quanto aos veteranos da guerra, o dr. Kolb, pesquisador no Centro Médico da AV de Albany, Nova Iorque, EUA, que trabalha com alguns dos homens de maior grau de perturbação mental, revelou: “Mesmo entre o grupo com o qual trabalho atualmente, a vasta maioria nunca esteve num hospital. Muitos se mantêm em empregos. Grande número são pessoas conscienciosas, laboriosas e devotadas. Amiúde, seus sistemas de valores são melhores do que os do homem mediano da rua.”
Contudo, esses homens ainda assim sofriam de danos mentais que exigiram assistência de profissionais. Um estudo feito em 1981 indicava que mais de um terço dos homens que viram grandes combates no Vietnã sofrem de transtorno mental por tensão pós-traumática. Geralmente, o que se oferece como ajuda é a psicoterapia em grupo em centros especializados. Ali o veterano pode participar de uma sessão informal com um pequeno grupo de outros veteranos ou conselheiros treinados que procuram reajustar seu modo de pensar. Às vezes, empregam-se drogas, geralmente tranqüilizantes ou pílulas soporíferas. Entretanto, diversos outros veteranos que sofriam de transtorno mental em resultado da guerra encontraram outra solução. Um desses, mencionado antes, voltou do Vietnã com sérios transtornos mentais por tensão pós-traumática.
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Ele voltou como um estranhoDespertai! — 1983 | 8 de fevereiro
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Ele voltou como um estranho
“David voltou do Vietnã como uma pessoa diferente”, explicou Elaine, sua esposa. “Antes de partir, eu me sentia atraída por ele por causa de seu calor, interesse e entusiasmo de olhos expressivos. Ele confiava profundamente em mim e tínhamos um relacionamento bonito. Mas, quando voltou, tudo o que havia de amável nele havia desaparecido. Parecia ser o mesmo homem — tinha o mesmo sorriso e os mesmos grandes olhos castanhos — mas não havia calor nem confiança. Era como um estranho. Foi assustador.” Daí, Elaine acrescentou: “Ele era como uma concha oca. Nada dentro senão ira.”
Explicando como se sentiu ao retornar, David disse: “Eu simplesmente ressentia estar com pessoas que não entendiam e não podiam entender plenamente como era ter estado lá. Vi alguns de meus companheiros sofrer as mais horríveis mortes. Queria que Elaine compreendesse meus sentimentos — o que eu havia visto. Mas ninguém parecia realmente querer compreender. Portanto, tinha toda essa hostilidade acumulada dentro de mim.”
Pouquíssimas pessoas podem realmente imaginar a inversão traumática dos valores pessoais que a guerra cria, tampouco podem entender o efeito devastador que isso tem sobre a mente. David explica: “No combate, a pessoa tinha de aprender a cuidar de si constantemente. Sabia que as relações pessoais com outros significavam bem pouca coisa — podiam ser mortas daí a um minuto. A pessoa justificava na própria mente que qualquer conduta era válida conquanto sobrevivesse a mais um dia.” Elaine acrescentou: “Quando a pessoa volta para casa, logo se apercebe de que durante seu ano de serviço tudo o que pensava que fosse de valor não representa nada. E tudo o que pensava que não significasse nada, tal como o relacionamento com outros, se torna de extremo valor na vida civil.”
Em resultado, David, como muitos soldados que retornaram, hesitava em estabelecer relações de confiança com outros em que viesse a ficar emocionalmente envolvido. É natural que isso arruíne o casamento.
O Valor da Instrução Bíblica
Quando a relação entre David e Elaine ficou extremamente tensa, eles começaram a estudar a Bíblia com as testemunhas cristãs de Jeová. “Isso ajudou imensamente!”, disse David. “Com o tempo, pela primeira vez em minha vida, senti que tinha uma íntima relação com Deus e lhe podia expressar todos os meus sentimentos Podia realmente dizer quanto eu lastimava todas as coisas que havia feito, e acreditei que ele estava disposto a me perdoar.”
Elaine acrescentou: “Naturalmente, David ainda tinha seus altos e baixos, mas esses se tornaram menos intensos. Às vezes, mesmo agora há ocasiões em que sente depressão, mas a instrução bíblica trouxe de volta o David com quem eu me casara e mais! Fez ressaltar o que havia de bom nele, porque a Bíblia incentiva o amor desinteresseiro, a compaixão e o dar. Foi como encontrar novamente meu marido!”
Sim, a Bíblia tem ajudado a David, bem como a outros, a cultivar relações fidedignas fundamentadas no amor. De que maneira? Bem, a Bíblia diz que o amor genuíno “não procura os seus próprios interesses” e “não leva em conta o dano”. A Bíblia incentiva a terna compaixão. Dá sugestões práticas quanto ao modo como uma pessoa pode desenvolver genuíno amor pelo próximo. “Ainda assim não foi fácil”, admitiu David. “Mesmo agora, se alguém trair minha confiança e me tratar injustamente, sinto ira dentro de mim. Mas, quando isso acontece, oro em silêncio a Jeová, pedindo força e simplesmente me afasto.” — 1 Coríntios 13:4, 5; 1 Pedro 3:8, 9.
O Papel da Família
“Não só a aplicação do conhecimento da Bíblia ajudou a David”, explicou Elaine, “mas ajudou-me a lidar com ele. Bem, quando David começava uma discussão, ele não dizia: ‘Elaine, agora vou perder a calma com você por causa de minha hostilidade quanto ao Vietnã.’ Não, ele dizia: ‘Que comida ruim é essa? Você não cuida bem da casa e não é boa mãe!’ Em outras ocasiões, ele me amargurava com seu silêncio, não falando por semanas a fio. Enquanto isso, eu perguntava a mim mesma: Que fiz de errado?
“Mas aprendi da Bíblia a ser submissa e a mostrar respeito, compaixão e a ‘suportar os outros, embora tivesse razão para queixa’. Meu conhecimento dessas verdades bíblicas ajudou. Naturalmente, houve ocasiões em que reagi à ira de David. Às vezes, não cumpria plenamente a ordem da Bíblia, mas, quando ambos a cumpríamos, o conselho da Bíblia produzia bom efeito. Não era fácil, mas não pus fim ao nosso casamento quando tinha vontade de fazer isso por causa das ações dele. Agora, as coisas melhoraram grandemente.” — Colossenses 3:13, 18.
A compreensão e a compaixão da família são “muito importantes”, segundo o dr. Kolb, “para ajudar um homem a se tornar socialmente competente”. Ele revelou que “os homens que conservaram seu casamento estão se saindo melhor que os outros. Por outro lado, se a esposa for ‘gélida’, como é o caso de muitas, o casamento não perdurará”.
Mas, além de ensinar compreensão, a Bíblia oferece uma genuína esperança para o futuro.
Preciosas Promessas
“Vinde, observai as atividades de Jeová . . . Ele faz cessar as guerras até a extremidade da terra.” (Salmo 46:8, 9) Quando a pessoa considera o tremendo sofrimento causado pela guerra, quão grandiosa é essa promessa! Por meio de seu governo celestial, seu reino, Deus “porá termo” a todas as nações que fomentam a guerra e trará paz permanente à nossa terra. — Daniel 2:44.
Os mansos que sobreviverem serão curados de modo pleno — mental, emocional e fisicamente — quando Deus dirigir sua plena atenção à nossa terra. (Revelação 21:3, 4; Salmo 37:10, 11) O conhecimento dessa esperança deu incentivo a muitos veteranos. “Isso deu a David uma verdadeira razão para viver”, disse Elaine. “Também, fez com que fosse mais fácil encorajá-lo. Por exemplo, quando ele ficava irritado com alguma observação descortês de algum estranho, amiúde eu dizia: ‘Lembre: “A vingança é minha; eu pagarei de volta, diz Jeová.”’ Quando ele ficava desanimado por causa da recorrência da depressão, eu lhe mostrava quanto progresso já havia feito e apontava para o futuro em que Deus curará completamente seus ferimentos mentais.” — Romanos 12:19; compare com Isaías 65:17.
Jesus prometeu: “Vem a hora, em que todos os que estão nos túmulos memoriais ouvirão a sua voz [a de Jesus] e sairão.” (João 5:28, 29) Que necessitava emocionante — ver milhões que foram mortos durante a guerra retornar à vida e receber a oportunidade de aprender a verdade a respeito de Deus!
Harley é um dos veteranos que achou que a instrução bíblica foi uma grande ajuda. Embora tenham passado trinta e oito anos desde que findou a Segunda Guerra Mundial, a lembrança de alguns de seus companheiros de batalha fez com que tivesse uma intensa reação emocional. Tentando conter as lágrimas, ele disse: “Será realmente bom ver aqueles camaradas novamente na ressurreição. Essa esperança realmente ameniza a dor.”
Verdadeiramente, a instrução bíblica provê genuína ajuda para a mente e oferece uma esperança real para o futuro.
[Foto na página 21]
O estudo da Bíblia prove ajuda para a mente e oferece uma verdadeira esperança.
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