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Jornada sem fimA Sentinela — 1986 | 1.° de outubro
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junto. Lembro-me vagamente de ter assistido a essa reunião, mas os detalhes me foram contados muitas vezes por minha mãe. Havia uns 10 a 12 na assistência, e fez-se a pergunta: “Como é que morremos?” Uma irmã respondeu: “Como os animais.” Mamãe ficou chocada. Ela interrompeu: “Desculpem-me, vocês acreditam mesmo que nós morremos como os animais?” O irmão que dirigia a reunião respondeu: “Gostaria de abrir Eclesiastes 3:19-21 e ler por si mesma?”
“Permitiram-me interromper aquela reunião o tempo todo com as minhas perguntas, uma atrás da outra, e devotaram a reunião inteira para respondê-las”, mamãe gostava de me dizer. Lembro-me de que ela voltou animadíssima para casa. Certamente havia encontrado o povo de Deus e o rumo na vida que ela gostaria de tomar. Este foi o começo da jornada!
Isto foi em 1913. Logo vieram as exibições do filme e slides “Fotodrama da Criação”, da Sociedade Torre de Vigia. Mamãe sentia-se felicíssima em ser uma das recepcionistas no cinema, durante aquelas exibições. Aqueles anos em Alva foram animadores para ela. Eu costumava lhe dizer: “Mamãe, a senhora agora sorri, o que antes era raro.”
A essa altura mamãe já se havia firmado em favor da verdade. Isso foi na época em que alguns Estudantes da Bíblia criam que “mais dia menos dia” eles seriam levados para o céu, de modo que supunham que uma vida de tranqüilidade se avizinhava. Mas, mamãe não pensava assim. Não ficou tomada de expectativas celestiais imediatistas. Estava ‘ocupada demais’, como dizia, ‘aprendendo, estudando, indo às reuniões e participando na pregação das boas novas do Reino’.
Logo a Primeira Guerra Mundial estava em pleno andamento, o que provocou perseguição da parte das pessoas locais. Lembro-me de ter acompanhado mamãe de casa em casa para colher assinaturas para uma petição ao governo dos EUA em favor da libertação do irmão Rutherford e de seus sete associados da penitenciária de Atlanta, Geórgia, onde estavam injustamente detidos. Mas, aconteceu outra coisa que nos obrigou a mudar.
A guerra acabara e a epidemia da gripe espanhola grassava. Essa gripe deixou minha mãe fisicamente debilitada. O médico aconselhou papai a mudá-la para o sul da Califórnia, onde o clima seria melhor. Chegamos a Los Angeles e nos estabelecemos em Alhambra, nos arredores da cidade. Ali, tive de tomar a maior decisão de minha vida.
Em 1924, eu e uma amiga fomos de trem a Los Angeles para assistirmos ao enterro de uma irmã na fé, a quem admirávamos. Na viagem de volta, falamos sobre a consagração (agora chamada dedicação). Passei a pensar seriamente na minha vida, e falei sobre isso com mamãe. O resultado foi que passei a pesquisar o assunto, usando as reimpressões de A Sentinela, lendo tudo o que fora publicado sobre consagração, remontando até 1908. Logo depois dediquei minha vida a Jeová e, em outubro de 1925, fui batizada.
Companheiros de Jornada
Certo dia, em 1927, foi-me dito que um irmão chamado Herbert Abbott desejava conhecer-me. Fiquei surpresa, pois eu nem sabia de quem se tratava. Mas, logo descobri. Saber que eu tinha 18 anos e havia sido consagrada há dois, agradou-o. Fomos apresentados, namoramos três meses e nos casamos em julho de 1927.
Herbert e eu compramos uma casa nas belas colinas de Pasadena. Certo dia, na primavera de 1928, recolhi a correspondência e nela havia informações sobre o serviço de pioneiro. À noitinha, quando Herbert chegou do trabalho, propus a idéia de vendermos a nossa casa e entrarmos no serviço de pioneiro por tempo integral. Ele disse que se eu estivesse disposta a renunciar ao estilo de vida que levávamos, ele não poderia dizer não.
Foi-nos designado território em Charles City, Iowa, onde começaríamos a trabalhar depois de assistirmos ao congresso em Detroit, Michigan. Já no verão os nossos planos para o serviço de pioneiro estavam concluídos, mas, para nossa surpresa, eu estava grávida. O que faríamos? Mudar os planos seria como que dizer: “Sabemos, Jeová, que o senhor poderia cuidar de nós dois, mas não de três.”
Depois do congresso, fomos à nossa designação em Charles City. Mas, no oitavo mês de gravidez, pareceu-nos sábio voltar a Los Angeles. No início de janeiro de 1929 nasceu nossa bela filhinha, Perousia Carol. Mas, a nossa alegria com ela durou apenas nove meses; em outubro, ela faleceu.
A promessa de ressurreição, feita por Jeová, dominava a nossa mente. Não obstante, a morte é inimiga, e ver a nossa filhinha morta foi devastador! A cruel lembrança de que nossa querida filhinha jazia na terra fria era suavizada pelo nosso conhecimento da Palavra de Deus. Nossa filhinha simplesmente dormia; ficaria na memória de Jeová. (João 11:11-14, 23-25) Deveras, seu sono tem sido longo, mas, um dia ela será acordada, comprovando a veracidade da Palavra de Deus. O meu desejo ainda é que ela possa eternamente ser causa de louvor para o grande nome de Jeová.
Jornadas em Casas-Reboque
Retomamos os nossos planos para o serviço de pioneiro. No mês de março seguinte compramos uma casa-reboque com revestimento de lona e capota removível, e trocamos o nosso Studebaker de 7 passageiros por um Ford-A para puxar a casa-reboque. Assim começaram os nossos 25 anos de jornada, morando em casas-reboque.
A pequena casa-reboque com a qual tão alegremente percorríamos as estradas nos serviu por mais de oito anos. O espaço livre era de 1,2 x 1,5 metro, e a área para preparar refeições era uma prancha de 28 x 30 cm, que era puxada quando necessária. Havia duas boas camas, um fogão de duas bocas a gasolina, um balde para água, um lampião a gasolina, um aquecedor a querosene, uma tina e uma tábua para lavar roupa, um ferro de passar a gasolina e uma tábua de passar roupa. Havia também uma prateleira portátil acima do fogão, com um pequeno guarda-louça onde eu guardava o nosso bonito jogo de porcelana Haviland, um presente de casamento. Certa noite, os suportes da prateleira se quebraram e ela despencou ruidosamente. O lampião também caiu, de cabeça para baixo, mas sem maiores danos, a não ser a nossa bela louça, que ficou em pedaços!
Algumas vezes tivemos de substituir a cobertura de lona da casa-reboque. Para isso, comprávamos lonas compactas, usadas pelos fruticultores para cobrir pés de laranja para fumigação. Nós cortávamos a lona em tiras e a costurávamos com agulhas curvas até que o teto da casa-reboque estivesse finalmente coberto.
Segunda-feira era dia de lavar roupa. Lavávamos e enxaguávamos as roupas em água apanhada num riacho, num rio ou na fonte da cidade e esquentada num fogo fora da casa-reboque. Tínhamos também um pequeno forno dobrável em que eu fazia um bolo para as refeições da semana. Daí estávamos prontos para enfrentar o desafio de nosso território.
Na década de 30 houve um êxodo das fazendas para as cidades. Às vezes, para alcançarmos certa casa percorríamos vários quilômetros de estrada serpenteante por entre montanhas e desfiladeiros, apenas para constatar que ela estava abandonada. Para sanar este problema, usávamos binóculos para ver se havia roupas no varal, fumaça na chaminé ou talvez algum gado por perto. Isto economizava tempo e gasolina. Naturalmente, nem sempre podíamos ver se havia alguma casa ao longo da estrada, assim, perguntávamos aos vizinhos se determinada estrada levava a uma casa.
Certa ocasião, não sabíamos o que fazer. Havia uma fazenda a uns 25 quilômetros por sobre as montanhas, mas, os vizinhos não sabiam com certeza se havia alguém em casa. Tínhamos que pensar no dinheiro da gasolina para a viagem do dia seguinte. Estávamos perto de um límpido córrego de montanha, de pouco mais de um metro de largura, e Herb estava com sede. Ao se ajoelhar para beber, algo reluzente captou a sua atenção. Estendeu a mão e apanhou do fundo do córrego algumas moedas que valiam ao todo alguns dólares. Assim, não mais estávamos indecisos e fomos em frente. Foi uma viagem longa, difícil, e o fazendeiro não estava interessado, mas sabíamos que o território havia sido coberto, e o fazendeiro recebera testemunho.
Experiências ao Longo da Jornada
Tivemos muitas experiências emocionantes no decorrer dos anos, e também algumas divertidas. Por exemplo, certa vez enfrentamos a fúria de um motim em Corning, Califórnia. Eu e mais quatro irmãs fomos acudir Aleck Bangle (hoje missionário na Jamaica), que estava sendo espancado. Havia mais de cem espectadores na rua, todos aplaudindo o perseguidor. Hoje acho graça quando me lembro que tirei meu sapato de salto alto para com ele bater na cabeça do perseguidor que se curvava para desferir um duro golpe em nosso irmão Aleck!
O número (em inglês) de 29 de maio de 1940 da revista Consolação (agora Despertai!) trazia na capa a foto do terceiro presidente americano, Thomas Jefferson, e a bandeira americana. Visto serem dias de problemas e perseguições, achei que seria bom sempre ter na minha sacola de revistas alguns exemplares dessa edição, para o caso de vir a necessitar de um deles. E foi o que aconteceu. Ao oferecer as revistas na rua num sábado, aproximei-me de dois homens numa esquina. Um deles, de aparência bem austera, disse beligerantemente: “Escute, minha jovem senhora, se a senhora tivesse uma revista com a bandeira americana estampada nela eu a adquiriria, mas vocês Testemunh—” Antes que ele prosseguisse, minha resposta, naturalmente, foi: “Oh!, cavalheiro, que bom que eu tenho justamente aquela que o senhor deseja”, e tirei da sacola um exemplar daquela edição. Ele parou de tilintar as moedas no bolso, ficou vermelho, gaguejou e me deu a contribuição — e eu lhe dei a revista!
Tive outro momento engraçado durante a distribuição do folheto especial dirigido a todos os clérigos — O Reino, a Esperança do Mundo. Numa certa casa, um clérigo atendeu. Ele não tinha o mínimo interesse em receber o folheto, mas a instrução era fazer todo o possível para deixá-lo com a pessoa, de modo que eu disse amistosamente: “Este é seu exemplar, e vou deixá-lo aqui para o senhor. ” Virei-me para partir e, ao me afastar, o folheto passou voando por mim e caiu perto duma poça de água. Apanhei-o, não querendo que ficasse ali, mas, naquele momento, um enorme cachorro veio rosnando atrás de mim, abocanhou o folheto da minha mão e voltou correndo para seu dono, o pregador. Assim, o que não consegui entregar o cachorro entregou!
Em 1953, mamãe, Herbert e eu fixamos residência em Sacramento. Visto que Herbert estava tendo problemas de saúde, ambos tivemos de mudar o nosso estilo de vida. Muitas vezes eu agradecera a Jeová por ter sido abençoada com uma mãe fiel e um marido leal. Ambos já faleceram, tendo recebido sua recompensa celestial. Mamãe morreu em 1975; Herbert terminou sua carreira terrestre em setembro de 1980, aos 82 anos de idade. A solidão ainda é grande, mas, quando reflito nos anos de nosso serviço juntos, sinto-me consolada. E sei que a jornada nunca findará, pois Jeová, por meio de seu Filho Jesus Cristo, é meu Guia na jornada pela eternidade afora.
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Perguntas dos LeitoresA Sentinela — 1986 | 1.° de outubro
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Perguntas dos Leitores
◼ Como pode o cristão distinguir entre subornar (condenado na Bíblia) e dar “gorjeta” ou “gratificação” por um serviço prestado?
Temos de entender que os costumes variam de região em região. Métodos aceitáveis em alguns países talvez sejam ofensivos ou impróprios em outros. Por exemplo, as pessoas num país talvez se curvem diante duma autoridade, mas num outro país isso poderia ser encarado como idolatria.a Similarmente, a prática aceitável de “dar gorjeta” num país poderia ser chocante ou ilegal em outro. Com essas diferenças em mente, todos os cristãos devem aplicar o conselho de Deus contra o suborno.
O que é suborno, e o que diz a Bíblia sobre ele? Suborno é o ato ou efeito de subornar, e o Dicionário de Laudelino Freire define assim o que é subornar: “Dar dinheiro ou quaisquer valores a, para conseguir alguma coisa oposta à justiça, à moral ou ao dever.” Assim, é suborno dar dinheiro (ou um presente) a um juiz para influenciar a decisão dele e perverter a justiça. Também é suborno oferecer dinheiro para burlar a lei, como, por exemplo, pedir a um inspetor de obras ou de veículos que ignore uma violação.
Deus condena o suborno, e disse aos juízes israelitas: “Não deves desvirtuar o julgamento. Não deves ser parcial nem aceitar suborno, pois o suborno cega os olhos dos sábios e deturpa as palavras dos justos.” (Deuteronômio 16:19; veja também Provérbios 17:23; Isaías 1:23; 5:23; 1 Samuel 8:3-5.) O próprio Jeová estabelece o padrão, pois com ele “não há injustiça, nem parcialidade, nem aceitação de suborno”. (2 Crônicas 19:7; Deuteronômio 10:17) Os cristãos que desejam a aprovação de Deus recusam-se a recorrer ao suborno. — Veja Atos 24:26.
Ao passo que os homens em todo o mundo denunciam o suborno e têm leis contra ele, muitas pessoas enfrentam o problema que a pergunta acima reflete. Eles sabem que em seu país é necessária uma “gratificação” ou “gorjeta” para conseguir que certos funcionários cumpram com a sua tarefa, ou que o façam com presteza. Por exemplo, The Wall Street Journal disse sobre certo país assolado pela inflação: “Para conseguir o dinheiro extra necessário para a sobrevivência, funcionários do governo recorrem à pequena corrupção. ‘Você tem de pagar-lhes para que lhe entreguem qualquer tipo de formulário’, disse o chefe duma agência estatal. Enquanto isso, autoridades de imigração quase que obrigam os desorientados turistas no aeroporto internacional a pagarem US$20 para carimbar seus passaportes para que não percam o avião.
Recentemente, a revista U.S.News & World Report comentou a respeito de demoras burocráticas
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