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Um alcoólatra na família — que pode você fazer?Despertai! — 1983 | 8 de junho
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Um alcoólatra na família — que pode você fazer?
CAMBALEANDO, ele mal-e-mal chega em casa depois duma bebedeira noturna e cai inconsciente no chão da sala de estar. Sua esposa fica magoada e abalada. Mesmo assim, levanta-o com dificuldade, limpa-o e deita-o na cama. Seu esposo é alcoólatra.a
No dia seguinte ele promete que isso jamais se repetirá. Às vezes ele não se lembra da noite anterior. Mas ela se lembra! ‘Não me atrevo a falar nada sobre isso’, diz a si mesma, temendo que, se o fizesse, ele ficaria tão transtornado que beberia de novo. Visto que ele não está em condições de ir trabalhar, ela telefona ao patrão desculpando-se por ele.
Ela espera em vão que ele beba menos. De fato, tenta desesperadamente controlar o vício dele. De modo que esconde a bebida ou joga-a fora.
Ela limita o contato social deles, temendo o embaraço que o vício dele provoca. E não participa em atividades sociais sem ele, por temer que se irrite e beba ainda mais.
Apesar de tudo, porém, ele continua a beber! Por quê? Não faz ela tudo o que pode para ajudá-lo? Na verdade, sem o perceber, ela tem dificultado a recuperação. Não é só o marido que precisa de ajuda — ela também precisa!
Descreve o acima alguma família que conhece, talvez até mesmo a sua própria? Em caso afirmativo, talvez se pergunte: ‘Por que dizem vocês que a esposa também talvez necessite de ajuda?’
Impacto Sobre a Família
O alcoolismo provoca tremendo impacto emocional sobre a família inteira. O cônjuge, por exemplo, muitas vezes é uma imagem de espelho do alcoólatra.
Por exemplo, um sintoma comum do alcoolismo é a negação de que existe um problema de bebida. Contudo, amiúde membros da família também negam o problema, talvez por temerem a vergonha. Então, se seu cônjuge tem problema de bebida, será que você está sempre pronto(a) para apresentar “razões” para cada cena de bebedeira?
Isso não é tudo. À medida que seus esforços de controlar a bebida de seu cônjuge se depararem com repetidas falhas, talvez cresçam no seu íntimo sentimentos de inaptidão e ansiedade. Ou mesmo pior — desenvolvem-se no seu íntimo o ressentimento e a amargura? “Muitas vezes preferia que ele estivesse morto”, admitiu certa esposa desesperada.
Assim, não é de admirar que você talvez sofra dos mesmos sentimentos e emoções negativos de que sofre o alcoólatra — ansiedade, medo, ira, culpa, nervosismo, frustração, tensão, autodepreciação. Sim, amiúde o cônjuge também precisa de ajuda.
Que dizer dos filhos? É doloroso considerar as duradouras cicatrizes emocionais com que talvez fiquem. Observe o que disseram à Despertai! alguns filhos de alcoólatras.
“Eu sempre estava no meio. Certa vez, quando eu tinha uns nove anos, mamãe havia bebido e ela e papai tiveram uma grande discussão. Mamãe começou a sair. Fiquei histérico e, agarrando-me à saia dela, implorei que não fosse embora.”
“Todos sabiam. Lembro-me de, a caminho da escola, ter ouvido os meninos rir e gritar: ‘Seu pai é um cachaceiro!’”
“Criei um complexo de inferioridade. Culpava a mim mesmo.”
“Ainda tenho grande senso de insegurança, duvido de minha habilidade, subestimo-me, fico desgostoso comigo mesmo.”
É fácil perceber por que tais crianças talvez se tornem nervosas, retraídas e não muito comunicativas. Muitas vezes reprimem e denegam a ira, o medo, a frustração e a solidão. Doutro modo isso simplesmente magoa demais. Sim, talvez os filhos também necessitam de ajuda.
Assim, você — o membro da família — talvez necessite de ajuda para (1) manter sua própria saúde emocional e (2) aprender a melhor maneira de lidar com o alcoólatra.
Conheça os Fatos
Inicie por informar-se pessoalmente sobre o alcoolismo. A biblioteca local ou algum centro de informações sobre o alcoolismo talvez ofereçam material útil. Falar com outros que enfrentaram problema similar pode equipá-lo com sugestões práticas sobre o que fazer.
Talvez a maior pergunta em sua mente seja: ‘Que posso fazer para ajudar o alcoólatra?’ Antes de poder ajudar o alcoólatra, porém, talvez você necessite de ajuda para se recuperar de seus próprios sentimentos e emoções negativos. Assim, saiba primeiro como o alcoolismo tem afetado a você. Caso contrário, provavelmente não vai convencer o alcoólatra!
A seguir, aprenda a melhor maneira de lidar com o alcoólatra. Talvez inicialmente você reagia como a esposa mencionada na introdução. Mas, tais empenhos amiúde contribuem para a progressão do alcoolismo, em vez de para a recuperação. Por quê? Porque impede o alcoólatra de ver a realidade de sua situação. Ele fica oculto atrás duma enorme parede de denegação. Assim, protegê-lo contra as conseqüências de seu vício, em geral dá-lhe condições de continuar negando o problema e continuar bebendo.
Encaminhar o Alcoólatra à Ajuda
Embora não possa obrigar um alcoólatra a submeter-se a tratamento, você pode fazê-lo querer ajuda. Mas, como?
Basicamente, existem duas abordagens: (1) permita-lhe sentir as conseqüências de seu vício e (2) confronte-o diretamente com os fatos a respeito do mesmo. Mesmo embriagado, o alcoólatra pode aceitar parte da realidade se esta lhe for apresentada de maneira receptível!
Contudo, antes de discutirmos cada abordagem, uma palavra de cautela: Tal intervenção exige que você esteja informado sobre o alcoolismo e tenha a força emocional para aplicar esse conhecimento.
Então, que significa permitir que o alcoólatra sinta as conseqüências de seu vício? Não significa puni-lo, mas exige ser firme. Para ilustrar, refiramo-nos à esposa mencionada na introdução. Note o que o dr. Winnie Sprenkle, diretor de aconselhamento num bem-sucedido centro de tratamento de alcoolismo, recomendou numa entrevista à Despertai!.
● Que poderia ela fazer quando seu esposo caísse inconsciente no chão? “Em geral, é muito importante que a família não esconda o problema, de modo que o alcoólatra não saiba do que se passa. Se ele cai inconsciente no chão e na manhã seguinte acorda de pijama na cama, nunca saberá o que aconteceu.” Assim, dependendo das circunstâncias, ela poderia deixá-lo dormindo lá mesmo. Na manhã seguinte, ao acordar no chão, ele se viria confrontado com a realidade de sua situação.
● Quando ele é incapaz de lembrar seu comportamento no dia anterior, que pode ela fazer? “Seja honesta com ele, mas não de maneira irada. ‘Isso é o que aconteceu na noite passada e esse é o efeito que teve em mim.’” Embora ele talvez se ire, ela desse modo o ajuda a ver que esse comportamento não ocorre em famílias sadias.
● Que dizer de ela se isolar? “Penso que a coisa mais importante é a família simplesmente cuidar dos assuntos da vida da maneira mais saudável que puder. O alcoólatra cada vez mais se depara com quão grande é o contraste entre ele e o restante da família. Amiúde resultará em que finalmente diga: ‘Estou com problema e preciso de ajuda!’” Assim, se ela participar em eventos sociais sem ele, poderia bondosamente deixá-lo saber que gostaria que a acompanhasse, mas que seu problema de bebida impede isso.
Que dizer sobre a segunda abordagem — a confrontação? Em I’ll Quit Tomorrow (Amanhã Deixarei), Vernon E. Johnson recomenda o seguinte:
Os que confrontam o alcoólatra devem ser as pessoas mais importantes na vida dele ou dela. Assistida por um conselheiro habilitado, cada qual elabora uma lista descrevendo nos mínimos detalhes o comportamento do alcoólatra. Marca-se dia e hora, em que o alcoólatra provavelmente esteja sóbrio. Daí, dum modo que reflita sua profunda preocupação, cada uma lê sua lista em voz alta. Embora de início o alcoólatra talvez assuma a defensiva, elas firmemente continuam. O alvo é possibilitar ao alcoólatra aceitar suficiente realidade para compreender a necessidade de obter ajuda.
Onde Encontrar Ajuda?
Alguns membros de família, junto com o alcoólatra, buscam ajuda num centro de tratamento de alcoolismo, onde a família também pode ser inscrita num programa de terapia. Como pode isso ajudar? Até então, os membros da família talvez tenham reprimido memórias e sentimentos dolorosos. Não estar a par de seus próprios sentimentos dificulta-lhes entender os do alcoólatra. Assim, muitas vezes, os objetivos básicos da terapia são: reconhecer e aceitar seus próprios sentimentos (para vencer sentimentos negativos você precisa primeiro encará-los); entender os sentimentos da outra pessoa e como as nossas ações a afetam emocionalmente; e aplicar essa perspicácia, destarte aprendendo como melhor agir.
‘Mas, se o alcoólatra se recusar a buscar ajuda?’, talvez pergunte. Quer o alcoólatra se recuse, quer não, você talvez necessite de ajuda para encarar e vencer seus próprios sentimentos negativos. Para tal ajuda, algumas famílias recorrem a grupos locais compostos de membros de família de alcoólatras. Tais grupos se propõem a prover entendimento e perspicácia no que toca a problemas de conviver com um alcoólatra. Naturalmente, tais grupos não existem em todo o mundo.b Outros, reconhecendo sua necessidade de ajuda emocional, recorrem a outra fonte.
“Conhecer a verdade bíblica é o que me ajuda a suportar”, diz Anne, que há 30 anos vive com um cônjuge alcoólatra, descrente. Como Testemunha de Jeová, ela estuda regularmente a Bíblia e se empenha em aplicá-la à sua própria situação. Embora isso não elimine seus problemas, ajuda-a a ser feliz apesar deles. E pode ajudar a você, também. Como?
Por um lado, aplicar princípios bíblicos pode ajudá-lo a vencer sentimentos e emoções negativos, destarte tornando-o mais feliz, apesar de sua situação. Contudo, fazer isso requer forte fé que Deus fará o que prometeu. (Heb. 11:1, 6) veja alguns exemplos.
Ansiedade: Enfrenta problemas financeiros decorrentes do vício de bebida dum ente querido e está extremamente preocupado quanto a como equilibrar o orçamento? “Parai de estar ansiosos”,c aconselhou Jesus sobre as necessidades da vida. “O vosso Pai celestial sabe que necessitais de todas essas coisas”, e ele pode fazer e fará provisões aos que dão à Sua adoração prioridade na vida. (Mateus 6:25-34) Jesus a seguir deu uma sugestão muito prática para vencer a ansiedade — viver um dia por vez. Por que somar as ansiedades do amanhã às de hoje? Ademais, como colocou certo erudito bíblico: “O futuro da realidade raramente é tão mau como o futuro de nossos temores.”
Contudo, apenas conhecer as palavras de Jesus não aliviará a ansiedade. Você deve aplicá-las, e é aqui que entra a verdadeira fé. A capacidade e a promessa de Deus de prover para seus servos são garantidas. A única pergunta é: Temos absoluta confiança de que, aplicando-nos diligentemente a fazer a nossa parte, Deus fará a dele?
Culpa: Abrigar sentimentos e atitudes negativos o fizeram sentir-se culpado? Sim, você tem suas imperfeições e Deus não tolera atitudes erradas. Contudo, a Bíblia nos assegura afetuosamente: “Se confessarmos os nossos pecados [a Deus], ele é fiel e justo para nos perdoar os nossos pecados.” (1 João 1:9; Provérbios 28:13) Há realmente alguma razão para se crer que Deus não fará isso no seu caso, conquanto você fizer a sua parte? Deus fará o que prometeu. Mas, você não se sentirá melhor, a menos que creia firmemente nisso.
O estudo da Palavra de Deus poderá também habilitá-lo a receber a ajuda do espírito santo de Deus. E esse espírito pode enriquecê-lo de qualidades positivas, tais como ‘amor, alegria, paz, bondade, brandura e autodomínio’. (Gálatas 5:22, 23) Que poderosa ajuda para vencer sentimentos negativos! Contudo, você deve ‘persistir em pedir’ a Deus Seu espírito. (Lucas 11:5-13) E, de novo nesse caso, exige-se fé firme. Como disse Jesus: “Todas as coisas pelas quais orais e que pedis, tende fé que praticamente já as recebestes, e as tereis.” — Marcos 11:24.
Gostaria de saber como adquirir essa espécie de fé? As Testemunhas de Jeová o ajudarão prazerosamente. Talvez até mesmo descubra que entre elas há pessoas que enfrentaram os mesmos problemas que você e que, portanto, podem ajudar compreensivamente à base das Escrituras. Tenha em mente que a expressão oral tende a reduzir os sentimentos negativos. Assim, discutir abertamente seus sentimentos com alguém que entenda sua situação pode ser de grande ajuda.
Se você já se associa com as Testemunhas de Jeová e necessita de ajuda para fortalecer sua fé, por que não pede assistência a um superintendente cristão? Tais homens devotados são ‘espontâneos’ e ‘anelantes’ em ajudar seus co-cristãos de qualquer maneira que puderem. — 1 Pedro 5:1-3.
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Conviver com o alcoolismoDespertai! — 1983 | 8 de junho
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Conviver com o alcoolismo
POR semanas a fio, tudo que meu marido fez foi beber dia e noite. Perdia os sentidos, recobrava-se e tornava a beber. Havia sido despedido do emprego, e a nossa situação financeira piorava diariamente. A saúde dele piorara e eu não tinha certeza se ele viveria muito tempo. ‘Qual será o fim de tudo isso?’, perguntava-me.
Antes que lhe conte o desfecho, permita-me explicar como atingimos esse ponto crítico em nossa vida.
Conheci meu marido num baile, em 1947. Ele já havia bebido, quando chegou. Ao fim da noite, ele dançava em cima da mesa. Mais tarde naquela semana ele me visitou. Dessa vez estava sóbrio e gostei muito da sua companhia. Tínhamos muito em comum, de modo que namoramos.
Na noite em que me pediu em casamento, ele trazia consigo uma garrafa de bebida, mas não estava embriagado. Conversamos muito sobre a seriedade do casamento e de criar família. Eu não queria viver com um alcoólatra, disse-lhe. Nisso, ele jogou fora a garrafa e me garantiu que tomara seu último drinque. Fiquei muito feliz!
Mas, não muito depois do casamento, ele recomeçou a beber. Nos anos seguintes, meu medo dele aumentava. Ele era muito imprevisível. Era como um vulcão prestes a explodir.
Não só continuava a beber muito, mas começou a jogar no serviço, resultando em sérios problemas financeiros. Todo dia de pagamento ocorria uma discussão. Ele me queria dar cada vez menos dinheiro, de modo que pudesse beber cada vez mais. Cobradores nos procuravam regularmente.
‘Como pode ele tratar-me desse jeito e depois dizer que me ama?’, perguntava-me. Visto que eu tinha um emprego de tempo parcial, às vezes arranjava dinheiro para ajudar a pagar as contas.
Às vezes eu não conseguia me controlar. Implorava-lhe: “Não vê o que está fazendo? Sua filha e eu estamos com os nervos estragados!”
“Você exagera!”, replicava. “Só tomei um ou dois goles. Não bebo nem uma garrafa por semana.” Na verdade, tomava uma garrafa por dia!
Minha vida era marcada por contradição. Ocasionalmente me trazia flores ou algum doce. ‘Apesar de tudo, ele me ama!’ Daí me sentia culpada devido às coisas terríveis que pensara sobre ele. Visto que estava sendo tão bom, ele bebe por minha culpa, eu pensava. Se eu tão-somente conseguisse mudar, ele talvez não bebesse tanto.
Ele prometia beber menos e, após alguns dias, eu tinha certeza de que com a minha ajuda ele poderia deixar de beber. Mas, no fim da semana ele recuperava o tempo perdido — bebendo mais do que nunca. Abatia-me uma sensação de desesperança.
Várias vezes ele recorreu aos Alcoólicos Anônimos (AA). Eles falavam sobre o alcoolismo, mas ele achava que não precisava ouvir isso. Seus problemas eram domésticos, pensava. Lá se iam novamente minhas esperanças. Sentia-me num beco sem saída, irada.
Minhas emoções iam de um extremo ao outro — alegria, culpa, ódio de mim mesma, ressentimento, amargura, ódio contra ele, desejo que ele fosse embora, receio de que fizesse isso. Parecia sem esperança.
Após tentar lidar com isso por vários anos, perdi todo controle de mim mesma. Certo dia, desesperada, entrei no carro e simplesmente saí andando. Parei perto de um rio. Era muito calmo e pacífico. Sentada na margem eu meditava sobre quão sem esperança era a minha situação. A calma da água parecia um ímã. Se eu pudesse simplesmente deslizar para dentro da água . . .
Subitamente, ouvi uma voz me chamando. Uma mulher que morava perto me havia visto e viera ver se estava tudo bem comigo. Nisso, entrei no carro e fui para casa.
Não muito depois, as coisas pioraram. Meu marido passou a falar sobre tirar a sua vida, até mesmo descrevendo para mim como faria isso. “Sem mim será melhor para você”, disse ele. Por um lado me alegrava de ouvir isso, mas, ao mesmo tempo, sentia-me desnorteada!
Na manhã seguinte, eu sabia que tinha de fazer alguma coisa. Contatei a AA e eles me indicaram uma senhora na minha vizinhança que havia enfrentado uma situação similar. Ela recomendou um grupo local composto de membros de família de alcoólatras. De modo que assisti a algumas reuniões.
Ajudaram-me a entender que eu realmente não podia culpar a mim mesma pelo vício de meu marido. Já bebia mesmo antes de eu o conhecer. Os do grupo pareciam saber controlar-se. Eram amistosos e discutiam abertamente seus sentimentos. Viviam um dia por vez. Era isso o que ele devia fazer! E ainda que todos os mesmos problemas persistissem, eu devia compreender que as ansiedades de hoje, com as quais eu tenho de lidar, já bastavam. Lembrei-me das palavras de Jesus em Mateus 6:34: “Nunca estejais ansiosos quanto ao dia seguinte, pois o dia seguinte terá as suas próprias ansiedades.”
Ao mesmo tempo parecia-me que algumas das mulheres ali ainda se sentiam, quer amarguradas, quer ressentidas, contra seus maridos, queixando-se deles e descrevendo suas falhas. Em vez de fazer o mesmo, eu não disse nada.
Contudo, ao ouvi-las falar sobre conviver com um alcoólatra, aprendi muitas coisas úteis. O mais importante que aprendi foi isto: Eu não devia proteger meu marido contra as conseqüências de seu vício de beber, como vinha fazendo. Em vez disso, tinha de ajudá-lo a entender os problemas que seu vício de beber causava. Exigiu grande medida de força para sobrepujar tantos anos de pensamento negativo, mas estava determinada. Passei a aplicar essas sugestões.
Surgiu uma oportunidade, não muito depois. Tínhamos de cuidar de nosso neto que estava doente e com febre. Visto que eu tinha de sair por alguns instantes, pedi a meu marido que cuidasse do menino. Chamei-o do serviço e preveni-o contra o beber. Assegurou-me que cuidaria bem do menino.
Pouco depois que saí, minha filha telefonou para saber do menino. Para sua surpresa, seu filhinho atendeu o telefone. “Vovô está dormindo”, explicou. Minha filha ficou horrorizada! “Sacuda-o bem e tente acordá-lo.” Mas meu neto não conseguia acordar o vovô — a bebida fizera-o perder os sentidos. Com isso, minha filha desligou o telefone e correu até lá.
Cerca de uma hora após, depois que eu chegara em casa, ele finalmente recobrou os sentidos. Perguntou por que nós não o acordamos. Visto que ainda estava bêbedo, não falamos muito. No passado, eu deixaria por isso mesmo. Teria muito medo de dizer qualquer coisa. Mas agora sabia que não devia protegê-lo contra as conseqüências de seu vício. Ele tinha de saber o que aconteceu. De modo que na manhã seguinte eu o confrontei, descrevendo em minúcia o que acontecera. “Compreende o que poderia ter acontecido a nosso netinho?”, perguntei. Isso o atingiu mui duramente. “Eu poderia ter matado aquela criança”, admitiu.
Contudo, certa ocasião, meses depois, bebeu a noite inteira. Mas, ao levantar no dia seguinte pediu-me para levá-lo ao hospital. Ele não mais conseguia suportar a situação. Fiz com que chamasse o médico e fizesse os arranjos. Quando fomos ao hospital, ele mesmo se internou e fez um tratamento de dois meses.
Bem, vários anos se passaram e nossa vida juntos melhora cada vez mais. Não tem sido fácil para ambos. Precisamos constantemente resguardar nosso raciocínio e motivos.
Há algo mais que muito me ajudou — minha relação com Jeová. Ajudou-me a suplantar a amargura e o ressentimento que eu sentia, visto que sabia que Jeová não se agradava de tais sentimentos, não importa o que meu marido tivesse feito. (Colossenses 3:13, 14) Quão animador foi chegar a conhecer a Jeová qual Pai amoroso e misericordioso, que não fica à espreita de nossas falhas! Isso atenuou grandemente meus sentimentos de culpa. — Salmo 103:9-12; 130:3, 4.
À medida que eu orava dia e noite, ele me dava seu espírito e sua força. Por regularmente participar a outros minhas crenças cristãs, pude manter viva a minha esperança. Sou também profundamente grata às reuniões cristãs às quais assisto e à amorosa associação de irmãos e irmãs cristãos. Sem eles, acho que não teria superado isso.
Naturalmente, sou grata de que aprendi a conviver com um alcoólatra. Aprender a viver um dia de cada vez foi uma grande ajuda em controlar a ansiedade. Em especial beneficiei-me de aprender a não escudar ou proteger meu marido contra as conseqüências de seu vício de beber. Sem essa perspicácia, não sei o que poderia ter acontecido. — Contribuído.
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