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Perseverança após uma perda trágicaA Sentinela — 1982 | 15 de abril
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Perseverança após uma perda trágica
Conforme narrado por Elise Harms.
HÁ QUARENTA anos, em 8 de janeiro de 1941, meu marido, Johannes Harms, foi executado pelos nazistas. Por quê? Porque sua consciência não lhe permitia participar na guerra, matando outros do lado oposto da linha nazista de batalha. Recusara-se firmemente a saudar Hitler. Johannes não temia manter tal neutralidade cristã, mesmo que lhe custasse a própria vida.
Nunca me esquecerei da carta comovente que ele enviou ao pai, Martin, pouco antes de ser executado. Meu marido escreveu:
“Agora, eu também recebi a oportunidade de provar minha fidelidade ao Senhor até a morte, sim, em fidelidade não só até a morte, mas até mesmo na morte. Minha sentença de morte já foi declarada, e fico acorrentado tanto de dia como de noite — as marcas (no papel) são das algemas — mas ainda não venci completamente. Não se facilita para a Testemunha de Jeová permanecer fiel. Ainda tenho a oportunidade de salvar minha vida terrena, mas só para assim perder a verdadeira vida. Sim, a Testemunha de Jeová recebe a oportunidade de violar seu pacto mesmo diante da forca. Portanto, ainda estou no meio da luta e ainda tenho de obter muitas vitórias antes de poder dizer que ‘travei a luta excelente e observei a fé; está reservada para mim a coroa da justiça, que Deus, o justo juiz, me dará’. A luta é sem dúvida difícil, mas sou grato de todo o coração ao Senhor de que ele não só me tem dado a força necessária para agüentar até agora, em face da morte, mas me tem proporcionado uma alegria que eu gostaria de partilhar com todos os meus entes queridos.
“Meu querido pai, ainda és prisioneiro também, e nem sei se receberás esta carta. Entretanto, se algum dia fores liberto, então permanece assim tão fiel como agora, pois sabes que todo aquele que tiver posto a mão num arado e olhar para trás não é digno do reino de Deus. . .
“Papai, quando estiveres novamente em casa, não deixes de dar atenção especial à minha querida Lieschen, pois será particularmente difícil para ela saber que seu querido não voltará. Sei que farás isso, e desde já te agradeço. Papai, em espírito eu te suplico: Permanece fiel assim como me tenho esforçado a permanecer fiel, e então nos veremos novamente. Estarei pensando em ti até o último instante”
Talvez se esteja perguntando quanto ao que aconteceu ao pai de Johannes e a mim após sua execução. Temos perseverado, permanecendo fiéis a Jeová, assim como Johannes nos incentivou a fazer?
Bem, Martin, o pai de Johannes, estava no campo de concentração de Sachsenhausen quando Johannes foi executado, e permaneceu ali até o fim da guerra. Daí, retornou a casa em Wilhelmshaven e ajudou a reedificar a congregação das Testemunhas de Jeová ali. Serviu fielmente a Jeová Deus até sua morte em 1976, com a idade avançada de 90 anos.
Quanto a mim, moro atualmente num pequeno apartamento aqui em Wilhelmshaven, onde fui criada e me casei com Johannes lá em 1936. Embora não tenha muito boa saúde, ainda sou Testemunha de Jeová ativa.
Casei-me novamente? Não. Naturalmente, eu estava biblicamente livre para me casar de novo. Mas, a idéia de procurar a felicidade nos braços de outro homem, depois de Johannes ter-se empenhado tanto para permanecer fiel — não, para mim, pessoalmente, tal idéia simplesmente não me atraía.
Antes de explicar o que me ajudou a suportar muitas coisas durante os últimos 40 anos, deixe-me voltar atrás e falar-lhe sobre as circunstâncias que levaram à execução de Johannes.
Prisão e Execução
Johannes foi preso em 3 de setembro de 1940. Esta já era sua segunda prisão desde que nos casáramos. Minha irmã e eu podíamos visitá-lo cada três ou quatro semanas. Durante nossa segunda visita, soubemos que ele fora sentenciado à morte. Portanto, não foi uma completa surpresa para mim, quando ele foi decapitado em 8 de janeiro de 1941, embora, naturalmente, ainda fosse um choque. Foi um golpe bastante duro para mim.
Mas eu sabia que Johannes não morrera como criminoso. Sabia também que as autoridades haviam tentado repetidas vezes, por vários meios, fazer com que ele transigisse. Dava-me conta do período difícil que ele atravessara. Havia muito pouca coisa que eu podia fazer para ajudá-lo. Portanto, quando fui notificada de sua execução, senti-me aliviada de que tudo terminara. No momento, esqueci-me de mim mesma, apenas pensando: “Agora eles não podem fazê-lo transigir. Não há mais perigo de ele se tornar infiel. Ele perseverou fielmente até a morte.”
Estávamos casados há apenas cerca de quatro anos e oito meses. Visto que já éramos noivos por três anos, podíamos ter-nos casado antes, mas persistimos em adiar isso. Estávamos cônscios dos problemas que talvez teríamos de enfrentar. Mesmo naquela época, os tempos eram críticos na Alemanha. De fato, a atividade das Testemunhas de Jeová havia sido proscrita no país.
Quando o pai de Johannes (que já cumpria sua segunda sentença) foi inesperadamente solto da prisão, aproveitamos a ocasião para nos casarmos. Ainda me lembro que era um lindo dia de primavera, em maio de 1936. Tivemos bons tempos como casados, até que os nazistas prenderam Johannes.
Como Evitei Ficar Amargurada
Alguns permitem que a adversidade os amargure. Começam a duvidar do amor de Deus. Encontram faltas nele, chegando até a duvidar da existência dele. Quando Johannes foi executado, eu sabia que havia um motivo para isso; foi morto por manter a integridade a Deus. Mas, apenas seis meses após a perda de Johannes, a morte voltou a atacar — minha mãe faleceu! Tenho de admitir que isso quase me fez ficar amargurada com Deus. Eu me perguntava: “Por que é que, na minha aflição, ela, a única pessoa com quem mais podia contar para obter apoio, também tinha de morrer?”
Entretanto, pouco depois começamos a sofrer os verdadeiros horrores da guerra — os terríveis ataques aéreos, por exemplo, que destruíram quase que totalmente algumas cidades alemãs. Visto que tinha de trabalhar para o meu sustento, comecei a pensar: “Quem cuidaria de mamãe durante este período difícil, se ela ainda estivesse viva? Visto que ela era cega, quem tomaria o tempo para ajudá-la a ir ao abrigo antiaéreo?” Como teria sido difícil para ela! Aos poucos recuperei o equilíbrio, compreendendo que às vezes Jeová permite coisas que talvez não entendamos, mas que, na realidade, mostram que ele “é mui terno em afeição e é misericordioso”. (Tiago 5:11) Convenci-me de que, conquanto eu mantivesse uma atitude correta e confiasse plenamente nele, as coisas sempre resultariam no meu próprio bem.
Aqui está outro exemplo. Nós tínhamos um apartamento de quatro cômodos. No entanto, quando meu marido foi executado, perdi o direito a ele. Fui despejada. Mas, para onde iria? Como que por um milagre, a esposa dum oficial do exército, que estava sendo transferida com o marido para outro local, providenciou para que eu ocupasse três cômodos no apartamento que eles estavam desocupando. Ainda assim, foi com o coração triste que me mudei do lugar que Johannes e eu partilháramos juntos. Contudo, o que acha que aconteceu com ele uns seis meses depois? Foi completamente destruído num ataque aéreo!
Consolada — Não Pelo Homem, Mas por Deus
Na ocasião em que Johannes foi executado, eu trabalhava num escritório. Quando minhas colegas de trabalho souberam do que acontecera, tentaram, ao seu jeito, consolar-me. Convidaram-me às suas reuniões sociais. Embora apreciasse seus esforços bem-intencionados, encontrei genuíno consolo noutra parte — em Jeová Deus e na sua Palavra, a Bíblia.
É triste dizer que houve ocasiões em que os outros nem sempre diziam as coisas mais encorajadoras. Lembro-me de certa vez, quando uma mulher me disse (e isto foi pouco depois de Johannes ter sido morto): “A culpa é de vocês; não precisava acontecer. Foi culpa do próprio Johannes!”
Coisa cruel para se dizer? Sim, em certo sentido, porém — e eu lhe disse isso — ela estava certa. Era ‘nossa culpa’. Johannes podia ter evitado isso. E se eu tivesse tentado persuadi-lo a transigir, talvez eu também o pudesse ter evitado. Mas, quão feliz me sentia de que ambos permanecemos espiritualmente fortes e perseveramos! Senti-me feliz de levar ‘parte da culpa’.
Naturalmente tive meus momentos de tristeza. Mas Jeová é “mui terno em afeição”, e sempre me proveu consolo. Às vezes isto ocorria de maneiras bem incomuns. Lembro-me de certo domingo, cerca de três meses após a execução de Johannes. Era um dia sombrio. Isto, junto com tudo pelo que eu havia passado, estava realmente me deixando deprimida. Passei a maior parte do dia chorando, andando de um cômodo para outro e minha mãe seguindo-me de perto, procurando consolar-me. Esforçava-me para não chorar, mas não conseguia conter-me. Lembro-me de ter pensado: “Costumavas receber pelo menos uma carta por mês, mas agora não receberás nem mesmo isso — nem sequer uma linha! Se tão-somente pudesse receber mais uma carta — só mais uma!”
Mais tarde, naquele mesmo dia, fui ao guarda-roupa e comecei a examinar alguns dos pertences do meu marido, que foram enviados para casa após sua execução. Entre eles estava um estojo de couro para lápis e outras coisas. De repente, notei que um dos lados estava mais grosso do que o normal. Parecia haver algo dentro. Rasguei-o, enfiei meus dedos dentro e comecei a puxar para fora pequenos pedaços de papel. Sim, eram cartas que Johannes escrevera em letras bem miúdas, como que um diário. Havia ao todo 20 cartas! Pode imaginar como me senti. Uma carta já teria sido motivo de alegria. Mas 20? Lembro-me de ter prometido a Jeová: “Nunca mais me queixarei!”
Os Anos Emocionantes do Após-guerra
Nos últimos 40 anos, nunca pensei em desistir. Por que deveria? Johannes contribuíra para Jeová por manter sua integridade até a morte; posso contribuir por perseverar enquanto viver. (Veja Romanos 12:1.) Naturalmente, não tem sido fácil, e nunca poderia fazê-lo na minha própria força. A oração tem-me sido duma ajuda extremamente importante. E pregar a outros sobre o reino de Deus tem sido também uma verdadeira bênção. Sempre que sentia a tristeza tomar conta de mim, saía na pregação das “boas novas”. Tentar consolar outros com a mensagem da Bíblia fazia com que me esquecesse dos meus próprios problemas.
Mais tarde, pude deixar meu serviço secular. Daí, tive mais tempo para gastar na pregação das “boas novas” a outros. Uma Testemunha me deu um pequeno carro, de modo que pude pregar em regiões retiradas, e pude iniciar diversos estudos bíblicos com pessoas interessadas. Recordo-me em especial de uma delas.
Visitei certa mulher numa quinta-feira à tarde e me lembro de ter-lhe dito: “Seria muito melhor se pudéssemos considerar estes pontos de maneira sistemática, com a ajuda dum livro.” Ela concordou. Daí eu acrescentei: “Temos também reuniões maravilhosas. Posso vir buscá-la no domingo, se quiser.” Já que não queria desperdiçar tempo, fui direto ao ponto!
Ela concordou em ir à reunião. Portanto, no próximo domingo à tarde bati na porta dela e ouvi: “Entre um instante. Meu marido ainda não está pronto.”
“O quê?”, acho que deixei transparecer minha surpresa. “Seu marido também quer ir junto?”
E ele realmente foi. Mais tarde, falei-lhes sobre nossas outras reuniões, e eles começaram a assistir também a elas. Logo eles foram batizados, e iniciou-se em sua casa um estudo de livro de congregação. Hoje, quase 30 anos depois, este ainda é realizado lá.
Felicidade Resultante da Perseverança
Ao olhar para trás, eu diria que houve muitas coisas que me ajudaram a perseverar. Em primeiro lugar, Johannes e eu procurávamos estar preparados, cogitar no que poderia acontecer no que se refere a provações. No nosso caso, foi refletir de antemão na situação e decidir o que queríamos fazer que nos ajudou a enfrentá-la quando surgiu.
Evitamos também fazer qualquer coisa que pudesse dificultar ainda mais as nossas provações. Por exemplo, como recém-casados não nos endividamos desnecessariamente. Isto certamente teria tornado a situação ainda mais difícil — para ambos.
Aprendi também, no decorrer dos anos, a não esperar demais dos outros. Às vezes, podemos pensar que nossos irmãos cristãos não nos visitam com suficiente freqüência, ou não nos dispensam suficiente atenção. Mas, por que devia eu privá-los do tempo e da energia que necessitam para sua própria família e para várias responsabilidades congregacionais? Passei a reconhecer que, se não esperasse demais dos outros, não ficaria facilmente decepcionada. Qualquer ato de bondade e consideração demonstrado para comigo significa assim muito mais e me dá ainda mais motivo para agradecer a Jeová.
Naturalmente, a coisa mais importante que me ajudou a perseverar foi confiar em Jeová, apresentando a ele todos os meus problemas em oração.
Bem na última carta que Johannes me escreveu, somente algumas horas antes de sua execução, ele expressou o seguinte pensamento, que guardei desde então e que me tem encorajado a perseverar: “Não queremos ser fiéis ao nosso Deus por causa duma recompensa, mas para provar, através da nossa firmeza no serviço Dele, que humanos, iguais a Jó, podem manter sua integridade sob as mais difíceis provas.”
Quão feliz Johannes se sentiria se tivesse sabido naquele tempo o que eu sei agora! Ele se deleitaria em saber que seu pai, depois de umas cinco décadas de serviço a Jeová, permaneceu fiel até a morte, e que, 40 anos após sua execução, eu, sua “querida Lieschen”, ainda estou entre os felizes que se esforçam a perseverar fielmente.
[Foto na página 28]
Johannes Harms e a notificação da sua morte recebida das autoridades nazistas.
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Perguntas dos LeitoresA Sentinela — 1982 | 15 de abril
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Perguntas dos Leitores
■ O que se deve usar como emblemas na celebração da Refeição Noturna do Senhor, e como devem estes ser encarados?
A celebração anual da Refeição Noturna do Senhor (a Comemoração) é a única celebração que os cristãos são ordenados pela Bíblia a observar. Jesus a instituiu na noite de 14 de nisã de 33 E.C., após celebrar a Páscoa judaica. Na sua frente estavam os vários alimentos usados na refeição pascoal. O relato de Lucas diz:
“[Jesus] tomou . . . um pão, deu graças, partiu-o e deu-lho, dizendo: ‘Isto significa meu corpo que há de ser dado em vosso benefício. Persisti em fazer isso em memória de mim.’ Do mesmo modo também o copo, depois de terem tomado a refeição noturna, dizendo: ‘Este copo significa o novo pacto em virtude do meu sangue, que há de ser derramado em vosso benefício.’” — Lucas 22:19, 20.
Deus havia orientado os judeus a usar “pães não fermentados” durante a Páscoa. (Êxodo 12:8) Assim, os ‘pães’ que Jesus tinha à mão eram pães não fermentados. Eram feitos de farinha de trigo, sem nenhum sal ou outro tempero, pois representavam o “pão de tribulação”. — Deuteronômio 16:3.
As Testemunhas de Jeová usam hoje um “pão” similar. Em alguns casos compram-se e usam-se matzos (pães ázimos) judaicos, tomando-se o cuidado de obter matzos que não contenham ingredientes extras, tais como cebola, malte ou ovos. São apropriados matzos achatados, secos e sem tempero. Ou, pode-se fazer o pão ázimo. Mistura-se uma pequena quantidade de farinha de trigoa com um pouco de água. A massa levemente úmida deve ser esticada e depois assada numa forma (levemente untada) até ficar seca e tostada.
Que dizer do outro emblema? Já no primeiro século E.C., os judeus haviam aceitado o uso do vinho na ceia pascoal. Jesus falou do “produto da videira” usado nessa celebração. (Lucas 22:18) Alguns afirmam que Jesus não se referia a vinho, mas a suco de uva não fermentado. Todavia, simples suco de uva não ficaria sem fermentar desde a colheita outonal até a Páscoa, na primavera, de modo que Jesus deve ter-se referido a vinho. O vinho tinto de uva representaria apropriadamente o sangue de Jesus. Visto que o “sangue precioso” de Cristo foi plenamente adequado, não seria apropriado usar na Comemoração um vinho com aditivo ou alterado com brandy (conhaque ou licor), tal como o sherry (xerez), o porto e o moscatel, ou certos outros vinhos licorosos. (1 Pedro 1:19) Tampouco seria correto usar um vinho acrescido de aromatizantes ou ervas, tal como o vermute e o Dubonnet, ou muitos outros vinhos “aperitivos”. Antes, é apropriado um vinho tinto, não adocicado, ou um vinho tinto de fabricação doméstica, sem adoçantes, aromatizantes ou aditivos.
Os anciãos duma congregação das Testemunhas de Jeová devem providenciar com antecedência pão ázimo e vinho tinto, examinando-os para se certificarem de que sejam apropriados. Após a celebração da Refeição Noturna do Senhor, não há necessidade de encarar o pão e o vinho que sobrarem como algo especial ou santificado, pois continuam sendo apenas alimentos comuns. Também, não há nenhuma necessidade de guardar certa garrafa de vinho, de ano
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