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Esposas espancadas/maridos espancados — o que há por trás disso?Despertai! — 1979 | 22 de setembro
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volta para casa do trabalho. Talvez já estivesse cansado quando saiu de casa de manhã para ir trabalhar, e quem sabe se não teve de enfrentar um engarrafamento de trânsito ou os metrôs barulhentos. No serviço, houve talvez repetidas controvérsias com os fregueses ou com seu patrão. Mas ele teve de guardar dentro de si sua frustração. Quando finalmente volta para casa, talvez se defronte imediatamente com crianças que choram ou esposa que tem um aborrecimento justificável e que estava esperando para lhe contar. O que acontece então? Às vezes, a frustração e a tensão explodem em violência. Por medo de perder o emprego, ele não pôde bater no patrão, e não pôde ir contra o trânsito engarrafado. Mas ai da esposa ou dos filhos! “Quando um homem está aborrecido”, disse certo terapeuta matrimonial, “ele não deve chorar. É mais varonil dar soco na parede. Só que às vezes a parede é sua esposa.”
Se for marido, pode imaginar-se assim dando vazão à sua frustração? Se for esposa, pode imaginar seu marido reagindo tão violentamente? É preciso que haja um grande conflito antes que isto aconteça?
Na realidade, a faísca que pode dar início à violência talvez seja em si mesma bem pequena: O jantar não está pronto a tempo, a esposa diz que quer cursar faculdade ou que não está com vontade de ter relações sexuais. Seu marido, tenso e frustrado, talvez ache que tais fatores estejam desafiando sua autoridade. Ele explode em violência furiosa.
“Quem é vagaroso em irar-se”, diz Provérbios 14:29, “é abundante em discernimento, mas aquele que é impaciente exalta a tolice”. Muitos homens que bateram na esposa viram depois vergonhosamente a veracidade deste provérbio. Uma vez que um homem tenha dado vazão às suas frustrações recalcadas por bater na esposa ou no filho num momento de ira, em geral surgem depois mais problemas. O primeiro ato de espancamento leva amiúde a um segundo. Pode ser como uma fenda numa represa; pode aumentar facilmente até que uma torrente impetuosa inunde o casamento.
Dois estudantes de direito entrevistaram esposas vítimas de maus tratos, bem como autoridades públicas que lidam com tais problemas. Qual foi a conclusão a que chegaram?
“A tendência de bater na esposa não é uma única explosão infeliz de ira, mas um sintoma de problema crônico. [95 por cento] das mulheres com quem falaram apanharam pela primeira vez no primeiro ano de casamento e as agressões tendiam a se tornar mais freqüentes e com mais violência com o passar dos anos. Se não fossem reprimidas, poderiam com o tempo até resultar em morte. . . . Geralmente, o que causava o acesso de ira era algum aborrecimento relativamente pequeno — claramente um simples catalisador de uma fúria mais profunda ou de uma antiga frustração.”
O primeiro ano de casamento é especialmente crítico por causa das novas pressões que talvez se acumulem. Além de os cônjuges tentarem ajustar-se um ao outro, o marido sente então um fardo econômico mais pesado. E, quando a esposa fica grávida, isto aumenta a tensão nele, bem como suscita possivelmente ressentimento ou ciúme por ela se empolgar e se preocupar com algo que significa menos atenção dada a ele.
O Álcool — A Causa?
Amiúde, o álcool entra em cena. Certa pesquisa levou à seguinte conclusão: “Em 60 por cento dos casos, o consumo de bebidas alcoólicas por parte do agressor estava sempre envolvido na ocasião do ataque.” O diretor de um centro de crise, de Washington, D. C., EUA, diz que até 80 por cento dos espancamentos de esposa estão relacionados com o uso de bebida alcoólica.
Mas é o álcool realmente a causa? Talvez a resposta seja Não; mas, muitas vezes, é Sim. Quanto à relação entre beber e bater na esposa, a Dr.ª Lenore Walker, psicóloga, observa: “Pode ser usado como desculpa, mas não parece ser diretamente uma causa e efeito.” Entretanto, a Bíblia diz perceptivamente: “O vinho é zombador, a bebida inebriante é turbulenta, e quem se perde por ele não é sábio.” (Pro. 20:1) Nunca observou que o álcool tende a diminuir as inibições, de modo que a pessoa se torna turbulenta ou menos controlada? Assim, quando um marido frustrado ou irado com a esposa chega a beber, é mais fácil ele se
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Os filhos num clima de violênciaDespertai! — 1979 | 22 de setembro
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Os filhos num clima de violência
“CADA ano, tantos quantos 6,5 milhões de crianças são machucadas pelos pais ou por outros membros da família. . . . Milhares de crianças cada ano são espancadas tão seriamente por seus pais que precisam de tratamento médico. Outras 700.000 são privadas de alimento, roupa e abrigo, e entre 60.000 e 100.000 são abusadas sexualmente.” — “U. S. News & World Report”, 15 de janeiro de 1979.
O mau trato de crianças é realmente um problema aflitivo. As crianças vítimas são simplesmente fracos objetos à mão, em que os pais dão vazão, às frustrações, ao ciúme ou à ira. Já em muitos outros casos é uma questão de os pais levarem a um extremo danoso algo de que as crianças necessitam — disciplina. O sábio e amoroso Originador da vida familiar nos diz: “Castiga teu filho enquanto há esperança.” “A vara e a repreensão é que dão sabedoria; mas, o rapaz deixado solto causará vergonha à sua mão.” — Pro. 19:18; 29:15.
Ao estudar o problema do mau trato de crianças, o psicólogo D. J. Madden percebeu que “as crianças podem sentir-se oprimidas por muita disciplina ou abandonadas por tolerância demais”. Ele explicou: “As crianças esperam que os pais tomem as decisões. Quando eles não o fazem, a criança questiona se pode estar sujeita a seus pais. E se a criança assume o comando, ela pode tornar-se a disciplinador.”
A “Despertai!”, de 22 de janeiro de 1977, tratou extensivamente de maus tratos de crianças, inclusive o que os pais podem fazer para se certificar de que, embora dêem a seus filhos a necessária disciplina, não se tornem espancadores de crianças.
Contudo, daremos atenção aqui a como as crianças são afetadas por viverem num clima de violência de marido/esposa. Será que as crianças que vêem tal mau trato aprendem lições importantes disto e assim, quando crescem, são motivadas a evitar tornar-se um espancador de esposa ou do esposo?
Se uma criança vir a mãe ou o pai ser maltratado, este quadro é arquivado. Futuramente, quando ele ou ela se irar, como adulto, será fácil reverter ao modelo visto na mocidade. Declarado de modo simples, violência gera violência. Considere o exemplo de João, um marido de 26 anos, que admitiu aos conselheiros que bateu repetidamente em sua esposa durante seu casamento de sete anos. Quando ele era jovem, era comum a violência na família. Seu pai bebia e geralmente atacava a mãe de João, algumas vezes com uma faca. Relembrando seu pai, João soluçou: “Quando eu me interpunha entre eles, ele me jogava contra a parede. Eu disse que isto nunca aconteceria em minha casa. Estranho, não é?” Também, recorde o caso do marido e do filho de Sara, relatado na página 5.
Sim, a pesquisa mostra que crianças criadas num clima de violência no lar geralmente se tornam, elas próprias, violentas. Dum ponto de vista negativo, isto confirma o truísmo bíblico: “Educa o rapaz segundo o caminho que é para ele; mesmo quando envelhecer não se desviará dele.” — Pro. 22:6.
Escrevendo para o periódico “The Canadian”, de 1.º de abril de 1978, o Dr. Elie Cass declarou: “Onde existe uma vida doméstica violenta, infeliz, a criança se desenvolverá para usar o mesmo modelo de violência que aprendeu, como membro da família, para solucionar problemas, quando ele ou ela se tornar pai ou mãe.” O fundador de um refúgio para mulheres espancadas, em Londres, Inglaterra, disse: “Se olharmos para as histórias destes homens, eles ou foram espancados quando crianças ou observaram isto . . . de modo que a violência vai de uma geração para a próxima. Torna-se a norma.”
Mesmo que ver a violência no lar na infância não resulte em alguém se tornar mais tarde uma pessoa que maltrata a esposa, o esposo ou os filhos, isto cobra um trágico tributo. Um estudo da Carolina do Norte, EUA, sobre “crianças que não são maltratadas fisicamente mas que vivem em famílias [com] pais violentos . . . verificou depressão crônica entre 37 por cento das crianças. . . . Outras 40 por cento sofriam de ansiedade, ao passo que 25 por cento haviam-se submetido a terapia devido a transtornos psicológicos.”
Claramente, então, as famílias com crianças têm uma razão a mais para ação positiva, visando solucionar o problema da violência ou prevenir-se dela no lar. Se os pais ignoram esta necessidade e seus filhos são forçados a viver num clima de violência no lar, é bem possível que os jovens sofram dano emocional e possam muito bem levar este terrível flagelo para a geração seguinte.
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