Os Jovens Perguntam. . .
Meus pais estão-se separando — que devo fazer?
“Uma noite, papai levou a nós quatro, seus filhos pequenos, para tomar sorvete. De repente, sua voz se tornou muito formal. Ele nos disse: ‘Eu e sua mãe não nos entendemos mais, de modo que estou indo embora. Talvez volte no próximo verão.’ Nenhum de nós disse nada. Ele já devia ter feito as malas, pois, quando nos deixou em casa, ele nem entrou. Nós saímos do carro e ficamos parados na entrada, chorando para valer, enquanto papai ia embora de carro.” — Tom.a
OS PAIS de Tom jamais voltaram a viver juntos. Mas, naquele momento, Tom não tinha meios de saber se eles fariam isso ou não.
Os pais de Rodolfo, por outro lado, separaram-se mais vezes do que ele consegue lembrar. “Papai ia embora talvez por um mês ou dois, de cada vez”, relembra. “Daí, ele voltava, e as coisas iam melhor por algum tempo. Então, de repente, ele ia embora de novo.”
O divórcio tem um tom pesaroso de algo definitivo. Mas, quando seus pais apenas se separaram e você ainda não sabe se eles se divorciarão ou não, a incerteza pode ser bem aflitiva. Muitos pais, como os de Rodolfo, voltam a viver juntos, mas depois se separam de novo. Segundo o livro Divorced Families (Famílias Divorciadas), calculadamente 50 por cento das separações terminam pelo menos numa reconciliação temporária. Mas, como comentam Judith Wallerstein e Sandra Blakeslee, pesquisadoras dos assuntos de divórcio: “O divórcio com freqüência é precedido de várias separações, cada uma parecendo a decisiva, mas, no fim das contas, não sendo a derradeira. Estas podem confundir os filhos e levá-los a esperar uma reconciliação.”
As palavras: ‘Talvez eu volte’, parecem ser muito promissoras. Mas as dúvidas continuam pairando agonizantemente no ar. Talvez fique imaginando: ‘Será que meus pais terminarão divorciando-se? Como poderei enfrentar os sentimentos que, agora mesmo, estão acabando comigo?’
Sobreviver à Tempestade
De início, talvez se sinta deprimido, cansado, incapaz de concentrar-se, ou mesmo explosivamente irado, às vezes. Ou talvez simplesmente se sinta entorpecido. Todas estas reações são comuns diante duma situação extrema — uma que ocorre com demasiada freqüência nos dias de hoje. Embora a Palavra de Deus incentive os casais a permanecer juntos e resolver seus problemas, a atitude do mundo para com o casamento deteriorou-se muito. (1 Coríntios 7:10-16) Atualmente, o casamento às vezes só alcança um índice de 50 por cento de sobrevivência. Como a Bíblia predisse há muito, a nossa era tem presenciado uma dramática queda de “afeição natural”, outrora comum nas famílias.b — 2 Timóteo 3:3.
Como poderá enfrentar tal situação? O que está passando pode ser comparado a uma tempestade em sua vida. Pensar nisso dessa forma pode ajudá-lo em dois sentidos. Primeiro, nenhuma tempestade dura para sempre. O tumulto emocional que sente agora diminuirá com o tempo, como acontece com todas as tempestades. E, em segundo lugar, conseguirá sobreviver à tempestade. Não precisa ‘afundar nela’. Mas, assim como um navio numa tempestade precisa manter-se distante dos rochedos, existem alguns perigos parecidos a rochedos, que podem significar reais dificuldades. Consideremos alguns deles.
Falsas Expectativas
Um de tais perigos seria fixar seu coração em conseguir que seus pais voltem a viver juntos. Ana se lembra: “Depois de se separarem, meus pais ainda saiam junto conosco, às vezes. Eu e minha irmã sussurrávamos uma para a outra: ‘Vamos correr na frente e deixar os dois juntos.’ Mas”, suspira ela, “acho que isso não deu certo. Eles jamais voltaram a viver juntos”.
Como Provérbios 13:12 diz: “A expectativa adiada faz adoecer o coração.” Lembre-se de que não pode controlar o que seus pais fazem. Não causou a separação deles, e, com toda a probabilidade, não poderá intervir e consertar o casamento deles, tampouco. — Veja também Provérbios 26:17.
O perigo do Ódio
A ira e o ódio podem ser os “rochedos” mais letais que você enfrentará nesta tempestade. Tom relembra seus sentimentos, quando tinha 12 anos: “Comecei a sentir verdadeira ira para com meu pai. Não gosto de usar a palavra ‘ódio’, mas eu sentia um terrível ressentimento. Não conseguia entender como poderia importar-se conosco, se nos havia abandonado. E acho que, lá dentro, eu dizia que agora era minha vez de deixar que ele soubesse o que eu sentia.”
A separação marital raramente é uma decisão mútua; assim, naturalmente, um dos genitores talvez pareça mais culpado a seus olhos. Talvez até aconteça que um genitor tenha violado a lei de Deus sobre ser fiel ao cônjuge. (Hebreus 13:4) Mas, em qualquer caso, como está lidando com o genitor que parece ter maior culpa? Deveria odiar tal genitor, ou tentar vingar-se pelo genitor inocente?
Lembre-se de que uma separação raramente é tão simples como pensar que um dos genitores é totalmente “mau” e o outro é totalmente “bom”. É provável que seus pais não lhe tenham contado tudo sobre o casamento deles ou seu rompimento; talvez nem eles mesmos o entendam. Assim, evite julgar uma situação sobre a qual você não dispõe de todo o quadro. (Provérbios 18:13) Felizmente, Deus é o Juiz de todos esses assuntos. Ele não o nomeou nem o juiz nem o castigador de seus pais. E que alívio isso é! Quem de nós poderia realmente assumir tal tipo de responsabilidade? — Romanos 12:19.
Reconhecemos que é difícil não sentir ira; e é bem natural que você se sinta agora mesmo profundamente transtornado. Mas, alimentar um espírito irado e vingativo pode, com o tempo, envenenar sua personalidade. A Bíblia diz que “o coração calmo é a vida do organismo carnal”. Por certo, um coração calmo não está cheio de amargura. Não é de admirar que a Bíblia nos mande ‘largar a ira e abandonar o furor’. (Provérbios 14:30; Salmo 37:8) Ademais, a ordem da Bíblia de honrar a seus pais aplica-se até mesmo a honrar pais que o desapontem. — Lucas 18:20.
Assim, Tom esforçou-se em superar sua ira. Ele agora diz: “É fácil guardar ressentimento e pensar consigo mesmo: ‘Foi ele quem agiu errado. É correto que eu o odeie.’ Mas comecei a perguntar a mim mesmo: ‘Será isso realmente correto?’ E concluí que não, que não é. Como cristão, não se pode guardar ressentimentos.”
Naturalmente, quando a Bíblia manda largar a ira, não está sugerindo que você finja que sua ira não existe. Se as ações de seus pais o magoaram, por que não tenta conversar com eles sobre isso, abrindo-lhes respeitosamente os olhos para o seu ponto de vista? — Veja Provérbios 15:22, 23; 16:21.
Jogado Bem no Meio dos Dois
‘Mas como posso lidar com este sentimento de me ver jogado bem no meio dos meus genitores?’, talvez pergunte. Este pode ser um “rochedo” especialmente difícil de contornar. Rodolfo se lembra: “A coisa que eu mais receava com relação a visitar meu pai era que minha mãe me interrogava intensamente depois de cada visita. E ela realmente torcia as coisas contra ele. Eu dizia: ‘Ora, mamãe! Por que a senhora faz isso? Deixe-me em paz!’ E ela ficava furiosa e me obrigava a responder às suas perguntas.”
Às vezes os pais utilizam os filhos para levar recados irados de um para o outro ou até mesmo para espionar um ao outro! Certa senhora queria descobrir quanto dinheiro tinha seu ex-marido. Assim, ela e o filho de 10 anos forçaram com um pé-de-cabra uma janela da casa do pai dele, e o menino ali penetrou para espionar o talão de cheques do pai. “Nós o pegaremos!”, disse o garoto, com evidente prazer.
É injusto que seus pais tentem utilizá-lo como instrumento de vingança. Mas, lembre-se de que eles estão passando por tremendas dificuldades emocionais. Assim, seja tão paciente com eles quanto possa. Converse com eles. Talvez queira dizer, em essência: ‘Mamãe e papai, eu amo a ambos. Assim sendo, por favor, não me usem para ferir um ao outro.’ Não que você não deva ser cooperador, recusando-se a levar qualquer comunicação de um para o outro. Mas, se seus pais se tomarem retaliadores e vingativos, é hora de sair do meio deles. — Provérbios 26:17.
No mesmo sentido, seria hipócrita jogar um genitor contra o outro, em proveito próprio, dizendo coisas tais como: “Quero viver com mamãe. Ela sempre me deixa fazer o que quero.” Depois da separação, os pais talvez se sintam muito culpados do stress que causaram aos filhos, e se apeguem a eles desesperadamente. Os jovens que estão cônscios do poder que eles assim exercem sobre seus pais, talvez sejam tentados a utilizá-lo. Mas, por certo, você não deseja manipular os outros.
Sobreviver a uma tempestade envolve mais, contudo, do que apenas evitar os rochedos. Um artigo futuro considerará algumas das medidas positivas que você poderá tomar e que o ajudarão a enfrentar essa situação.
[Nota(s) de rodapé]
a Alguns dos nomes foram mudados.
b Quanto à causas do rompimento marital, veja o artigo “Por Que Mamãe e Papai Se Separaram?”, na Despertai! de 22 de outubro de 1987. Veja também os artigos “Os Jovens Perguntam. . .” nas edições de 22 de dezembro de 1987 e de 22 de maio de 1988.
[Destaque na página 11]
O que você está passando pode ser comparado a uma tempestade em sua vida. Pensar nisso dessa forma pode ajudá-lo a sobreviver a ela, porque nenhuma tempestade dura para sempre.
[Destaque na página 12]
É difícil não sentir ira; e é bem natural que você se sinta agora mesmo profundamente transtornado. Mas, alimentar um espírito irado e vingativo pode, com o tempo, envenenar sua personalidade.