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“Como poderei viver sentindo tanto pesar?”Despertai! — 1987 | 8 de agosto
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Avós Também Sentem Pesar
Os avós também sofrem, dum modo especial. Como um pai desolado expressou-se: “Eles reagem não só para com a morte dum neto, mas com o pesar de seu próprio filho.”
Todavia, há maneiras de amainar a sensação de perda dos avós. Primeiro, leve-os em conta. Seu neto também era uma extensão deles. Assim sendo, os avós devem ser aceitos no processo de pesar, do próprio modo deles. Naturalmente, isso não significa que devam assumir as coisas, sem o consentimento dos pais. Mas, se desejarem ser incluídos, e geralmente desejam, devem ser bem acolhidos.
Nesta breve cobertura sobre o pesar, tentamos compreender os sentimentos dos desolados com a perda dum filho. Mas existe ainda outro aspecto a considerar. Como podem outros ser de ajuda, especialmente em seus comentários? E como podem os maridos demonstrar seu pesar? Queira ver o próximo artigo.
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Expressões que nem sempre confortamDespertai! — 1987 | 8 de agosto
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Expressões que nem sempre confortam
SE JÁ sentiu alguma vez um profundo pesar, houve ocasiões em que se sentiu ferido com alguns comentários feitos por outros? Ao passo que a maioria das pessoas parecem saber o que dizer para confortar outros, muitas pessoas desoladas com a perda dum filho conseguem lembrar-se de comentários que não lhes ajudaram em nada. Ursula Mommsen-Henneberger, escrevendo no jornal alemão Kieler Nachrichten, declarou que alguns pais “ficam profundamente feridos quando pessoas estranhas dizem: ‘Mas você ainda tem outros filhos, não tem?’” Ela responde: “Os outros podem servir de consolo, mas não servem como substituto.”
A conselheira Kathleen Capitulo, especializada em ajudar pessoas desoladas, disse a Despertai!: “Outra expressão que se deve evitar é: ‘Sei como se sente.’ A verdade é que ninguém realmente sabe pelo que uma outra pessoa está passando. No entanto, poderá validar o que elas estão sentindo. Poderá assegurar-lhes que seus sentimentos são naturais.”
Abe Malawski, segundo informa o livro Recovering From the Loss of a Child (Recuperar-se da Perda dum Filho), “nutre fortes sentimentos de que é preciso que alguém tenha perdido um filho para saber o que é perder um filho”. Declarou ele: “Pode-se ter quinze filhos, e isso não faz diferença alguma. Jamais se pode substituir um filho.”
No caso dum aborto involuntário ou de o bebê nascer morto, outras expressões nada edificantes, embora sinceras, são: “Logo ficará grávida de novo, e se esquecerá disso tudo.” “Foi melhor assim. O bebê, de qualquer jeito, seria deformado.” “Há males que vêm para bem.” No cruel momento da perda, estes clichês, não importa quão bem-intencionados, não podem aliviar a agonia.
Os lugares-comuns religiosos citados por alguns clérigos constituem outros irritantes para os desolados. Dizer que ‘Deus queria outro anjo’ apresenta a Deus como cruel e egoísta, e equivale a blasfêmia. Ademais, não se baseia na lógica, nem na Bíblia.
Deve o Cristão Prantear?
Que dizer dos cristãos cujo filho morre? Às vezes, alguns citam as palavras de Paulo aos tessalonicenses: “Para não vos entristecerdes, como os outros homens, que não têm esperança.” (1 Tessalonicenses 4:13, Bíblia Vozes) Será que Paulo proibia o pesar e o pranto? Não, ele simplesmente dizia que o cristão, que tem esperança, não fica entristecido do mesmo modo que aqueles que não têm esperança. — João 5:28, 29.
Para ilustrar este ponto, como foi que Jesus reagiu quando Maria lhe disse que Lázaro estava morto? O relato nos conta: “Jesus, portanto, quando a viu [a Maria] chorar e que os judeus que vieram com ela choravam, gemeu no espírito e ficou aflito.” Daí, quando foi conduzido ao lugar onde jazia o morto, “Jesus entregava-se ao choro”. Assim, é errado prantear? Demonstra isso uma falta de fé na promessa de Deus de uma ressurreição? Não, antes, indica profundo amor pela pessoa falecida. — João 11:30-35; compare com João 20:11-18.
Outro enfoque que pode ser perturbador é aquele que, mostrando-se condescendente, garante à pessoa desolada: ‘O tempo é um grande remédio’. Também, evite a pergunta: “Já conseguiu superá-lo?” Conforme disse uma mãe inglesa: “Aqueles que perguntam: ‘Já conseguiu superá-lo?’ não entendem realmente o que significa perder alguém tão achegado quanto um filho. Não conseguiremos superar isso, senão quando o recebermos de novo na ressurreição.” Talvez seja apropriada a frase de Shakespeare: “Todo mundo é capaz de dominar uma dor, com exceção de quem a sente.”
Às vezes, o pai se torna vítima de uma atitude inconsiderada. Um pai desolado ficava irado quando as pessoas lhe perguntavam: “Como está passando sua esposa?” Ele declarou: “Jamais perguntavam como passava o marido. . . . Isso é muito errado, e muito injusto. O marido sente tanto quanto a esposa. Ele sente dor, também.”
‘Manter a Fortaleza de Ânimo’?
Em muitas culturas, ensina-se a idéia de que os homens, em especial, não devem manifestar suas emoções e seu pesar, mas ‘manter a fortaleza de ânimo’. O autor inglês do século 18, Oliver Goldsmith, falou da “silenciosa masculinidade do pesar”. Mas, será tal silenciosa masculinidade necessariamente o melhor modo de enfrentar o pesar?
Em seu livro The Bereaved Parent (O Genitor Desolado), Harriet Sarnoff Schiff cita o caso do marido dela: “Ali estava um homem, um pai, que observou seu filho ser enterrado, e, de acordo com as convenções sociais, a sociedade lhe solicitava que ‘mantivesse sua fortaleza de ânimo’.” Acrescenta ela: “Ele pagou muito caro por manter sua fortaleza de ânimo. À medida que o tempo passava, em vez de deixar seu estado pesaroso, foi mergulhando cada vez mais fundo na tristeza.”
O marido descreveu seus sentimentos, e talvez outros possam identificar-se com estes. “Sinto como se estivesse atravessando a pé a calota de gelo do Ártico. Sinto-me muito cansado. Sei que, se deitar para descansar, vou adormecer. Sei que, se adormecer, morrerei congelado. Simplesmente não me importo. Não posso mais combater meu cansaço.”
Assim, qual é o conselho dado por Harriet Schiff? “Esquecer inteiramente essa bem antiga e virtuosa ética de estoicismo anglo-saxônico, e chorar. Deixe que as lágrimas fluam. . . . Elas ajudam a dissipar a tristeza.” As escritoras de Surviving Pregnancy Loss oferecem o seguinte conselho, que se aplica tanto às mulheres como aos homens: “Alguns talvez admirem grandemente o estoicismo, mas somente por encarar de frente o pesar pode a pessoa por fim livrar-se dele.” (O grifo é nosso.) De outra forma, existe o perigo de recaída no que é chamado de “pesar inadequado”, que pode ter conseqüências desastrosas por muitos anos à frente.
O pesar inadequado é o pesar incompleto, quando a pessoa reprime o processo de prantear, em vez de permitir que flua até se aceitar tal separação. Ele pode manifestar-se pelo menos de três formas — como pranto reprimido, retardado, e crônico. Que ajuda pode ser dada?
Talvez seja necessário o aconselhamento profissional. A solução pode ser um apoiador médico da família ou um conselheiro espiritual. Membros perceptivos da família também poderiam ajudar. A pessoa precisa de ajuda para ir enfrentando o processo do pesar.
Assim, Jess Romero admite que ele chorava abertamente pela perda de sua filha e de sua esposa, no desastre de avião. Ele contou a Despertai!: “Depois de algumas semanas, minhas irmãs me levaram do hospital para casa, e, ao entrar, vi a foto de minha filha na parede. Meu cunhado percebeu que a foto me sensibilizara e disse: ‘Vá em frente e chore.’ Eu chorei mesmo. Consegui aliviar-me de parte de meu pesar reprimido.”
Ao passo que o processo de eliminação do pesar pode sarar parte das feridas, só existe uma solução duradoura para a maioria das pessoas desoladas com a perda dum filho — ver de novo seu ente querido. Assim, existe alguma esperança para os mortos? Haverá uma ressurreição? Queira ler o artigo final desta série.
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