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Como o mundo ficou viciadoDespertai! — 1986 | 8 de abril
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[uns Cr$ 150 trilhões]. Como é que tal hábito amplamente indesejado conseguiu criar a procura que exige a enorme indústria que sustenta tal hábito?
Na realidade, a história do cigarro pode ser uma das maiores surpresas ocorridas nos últimos cem anos. O que provocou a incrível demanda deste chamado século dos cigarros foram duas guerras travadas no século 19. Uma indústria recém-nascida, a da publicidade, atiçou as chamas. E uma nova variedade surpreendente de fumo — amarelo-clara, mais branda e quimicamente diferente — incentivou os fumantes a tragar. Essa notável mudança nos hábitos de fumar, a inalação oral ou tragar, garantiu que a maioria dos fumantes ficasse viciada pelo resto da vida.
As Guerras Que Acirraram a Demanda
O fumo continuou sendo um luxo extravagante até 1856, quando os cigarros encontraram seu primeiro mercado maciço. Isso se deu quando os soldados da Grã-Bretanha e da França voltaram da guerra da Criméia com “cigarrilhas de papel”, e com o hábito que adquiriram lá. A moda dos cigarros varreu a Europa, criando inesperada demanda de cigarros turcos, ou de suas imitações inglesas.
A “moda da Criméia” estabeleceu os cigarros, em tempo de guerra, como um substituto barato do cachimbo ou do charuto. Mas a moda passou. Ademais, como Robert Sobel indica, “no início da década de 1860, parecia não haver nenhum jeito de os homens americanos da classe média — o mercado primário
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A folha sagrada que se tornou modaDespertai! — 1986 | 8 de abril
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A folha sagrada que se tornou moda
Durante três séculos, o fumo era remédio para os europeus. Os médicos receitavam tal erva para males que iam da halitose aos calos. Tudo começou em 1492, quando Colombo e sua tripulação, os primeiros europeus a depararem o fumo, encontraram ilhéus das Índias Ocidentais fumando charutos rudimentares em cerimônias tribais.
Muito antes de Colombo, quase todos os povos primitivos das Américas consideravam sagrado o fumo. Originalmente, fumar era um direito e uma prerrogativa dos curandeiros e dos sacerdotes. Empregavam seu efeito narcótico para provocar visões durante solenes ritos tribais. “O fumo estava intimamente associado a seus deuses”, informa o historiador W. F. Axton, “não só em suas celebrações religiosas, mas também em seus processos de cura ou de sarar doenças, todos os quais estavam, de uma forma ou de outra, ligados com sua religião”. Mas se o emprego medicinal do fumo foi o que primeiramente cativou os exploradores espanhóis e portugueses, logo se seguiu sua utilização para o prazer.
“I‘ll have another cigarette/And curse Sir Walter Raleigh” (Fumarei outro cigarro, e maldirei Sir Walter Raleigh), cantavam os “Beatles” John Lennon e Paul McCartney. Sir Walter, chamado de “o mais famoso propagandista entre os ingleses do cachimbo recreativo”, produzia o fumo em sua propriedade na Irlanda. Fez o máximo que pôde para popularizar tal hábito entre a requintada sociedade. À frente de seu tempo, traz à mente o industrial fumageiro e o publicitário do ‘século do cigarro’.
Mas foi a Guerra dos Trinta Anos, na Europa, e não o charme de Sir Walter, que tornaram o século 17 a “Grande Era do Cachimbo”, afirma Jerome E. Brooks. “Mormente por meio da guerra”, sustenta ele, “o hábito de fumar espalhou-se pelo Continente”, e na Ásia e na África. Um evento similar iria iniciar a era do cigarro.
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