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O governo mundial — por que necessitamos deleDespertai! — 1985 | 8 de maio
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O governo mundial — por que necessitamos dele
A IDÉIA de um único governo mundial com freqüência inspira quer esperança, quer horror. Esperança porque o governo mundial nas mãos da pessoa correta uniria a humanidade em paz. Horror porque o governo mundial nas mãos erradas escravizaria toda a humanidade. Visto haver tanta coisa em jogo, será que a idéia de um governo mundial merece séria consideração? Merece, sim! Necessitamos do governo mundial. O seguinte ilustra por quê.
● Seu corpo frágil, encurvado, arrasta-se pela rua escura. Nos últimos 70 anos, ela muitas vezes andava sozinha pelas ruas à noite, mas, hoje, é seu último passeio. Um adolescente viciado em heroína, precisando desesperadamente de dinheiro para comprar mais tóxicos contrabandeados, privou-a, não só de seus magros pertences, mas também da vida. Mas a espécie correta de governo mundial poderia acabar com o tráfico internacional de tóxicos e, desta forma, reduzir o crime.
● Fritz, embora de pé, ao lado da janela, não vê a neve caindo do lado de fora. Está imerso em seus pensamentos. O Natal costumava ser uma época tão feliz para ele e sua irmã. Não é mais. Mortífera foice, de uns 1.350 quilômetros de extensão, percorre a fronteira que separa a República Democrática e a República Federal da Alemanha. Quem tentar passar furtivamente por essa faixa cheia de armadilhas, com sua cerca de arame farpado e suas torres de metralhadoras, encara a condenação certa. Mas a espécie correta de governo mundial poderia acabar com as fronteiras nacionais e unir todos os povos do mundo.
● Seus olhos tristes e esbugalhados o miram, sua face mirrada de fome espelhando um corpo lânguido e minguado. Há armazéns repletos de cereais que, de jato, chegariam em questão de horas. Mas a espécie correta de governo mundial poderia estabelecer um pool de reservas alimentícias, e eliminar a fome.
● Um pai, de 40 anos, lê a respeito da escalonante corrida de armas nucleares, pensa no futuro de sua família e fica arrepiado. Seu filho de 12 anos lê sobre o efeito da guerra nuclear e fica imaginando se terá algum futuro. Mas a espécie correta de governo mundial poderia eliminar o escalonante estoque de armas e instruir as pessoas nos caminhos da paz.
● Ela era apenas bebezinho. Remédios no valor de uns Cr$ 40 teriam curado sua diarréia, mas não estavam disponíveis. Por que ela e outras 15.000.000 de crianças tiveram de morrer em 1983, quando este mal e muitos outros poderiam ser evitados por métodos simples, de baixo custo? Mas a espécie correta de governo mundial poderia estabelecer um programa de saúde suficientemente eficaz para eliminar a morte devido a infecções, a doenças e à ignorância.
● Próximo do local em que as crianças brincam, os esgotos in natura são despejados diariamente no rio. Há erupções purulentas nas crianças, que não prenunciam nada de bom. Em outra parte do mundo, as fábricas de certo país lançam no ar dióxido de enxofre, que se precipita em forma de chuva ácida, que destrói as florestas em outro país. Mas a espécie correta de governo mundial poderia estabelecer e fazer vigorar um padrão mundial contra a poluição prejudicial.
A lista de graves problemas em cada país, incluindo os que influem na vida de pessoas em outros países, poderia prosseguir indefinidamente. Todavia, todos eles poderiam desaparecer se a humanidade trabalhasse unicamente, sob um único governo. Mas, surgiu algum sistema político capaz de enfrentar com êxito estes dilemas interligados que clamam por uma solução justa?
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O governo mundial — que obstáculos enfrenta?Despertai! — 1985 | 8 de maio
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O governo mundial — que obstáculos enfrenta?
ENTREMEADAS na História acham-se milhares de idéias do que seria um bom governo, desde o Li (a ordem social racionalizada) de Confúcio até os conceitos promovidos pela Conferência de Dumbarton Oaks, em Washington, DC, da qual afloraram as Nações Unidas. Mas as idéias de quem, sobre governo, podem dar resultados numa escala global?
O mundo é composto de mais de 150 nações, cada uma com seu próprio sistema de governo. Muitos de tais governos acham-se alinhados com uma ou com outra das duas principais ideologias políticas que competem pela supremacia mundial. Grande número de pessoas, porém, perdeu a confiança em ambas. Nenhuma delas equacionou os principais problemas do mundo. Antes, devido à rivalidade delas, o mundo se tornou mais instável e atemorizante. A tecnologia da era espacial muito contribui para aumentar nossas preocupações.
Uma Sociedade Interdependente
Se a tecnologia da era espacial nos ensinou algo sobre nosso planeta Terra, então foi o seguinte: A vida é interligada, desde a mais diminuta criatura unicelular até a mais complexa; praticamente tudo está relacionado com as demais coisas. Alexander Pope, famoso poeta inglês, descreveu em An Essay on Man (Ensaio Sobre o Homem; 1733-34), este relacionamento entre todas as coisas como “Ampla cadeia do Ser! que se iniciou da parte de Deus.”
O princípio também se aplica às nações. São interdependentes. Não existe, talvez, nenhum país, nem mesmo uma ilha, que possa funcionar com total independência no mundo minguante da atualidade. As demandas de petróleo de certo país, por exemplo, dependem da capacidade de produção de petróleo exportável de outro país. E, como uma reação em cadeia, o acesso ou a falta de acesso de certo país ao petróleo não raro comanda muitas indústrias aparentemente não-relacionadas — as de cosméticos, de plásticos, a farmacêutica — a contratar ou despedir funcionários.
Ou, compare as nações industrializadas do “norte” com as nações menos desenvolvidas do “sul”. Este “norte” possui um quarto da população do mundo, mas contém nove décimos de suas indústrias de manufaturados e lhe pagam quatro quintos de sua renda. Todavia, as economias do mundo estão vinculadas. Por exemplo, em apenas um país, os Estados Unidos, um emprego de cada 20 está relacionado com o fornecimento de bens aos países do “sul”. O “norte” depende do “sul” para obter matérias-primas utilizadas em computadores, rádios, televisores, e equipamentos militares. Mas as necessidades básicas de alimentos, de água, de abrigo, de empregos, de cuidados médicos, de educação e de saneamento acham-se muito mais disponíveis no “norte” do que na maioria dos países do “sul”.
Para que um governo mundial dê certo, precisa entender que coisas tais como a pobreza, o desemprego, a poluição e o dilema nuclear são como peças interligadas dum quebra-cabeças. Não podem ser solucionadas em separado. Precisam todas ser equacionadas juntas, ou não o serão de forma alguma. Comentou o historiador William McNeill: “A questão mais grave que a humanidade confronta é a de quando, e se, far-se-á uma transição de um sistema de Estados para um império da Terra.”
Todavia, a maioria das nações agem como se fossem tribos governadas por chefes, sem nenhum conceito verdadeiramente exeqüível de responsabilidade global quanto ao desenvolvimento econômico e social. Willy Brandt, ex-chanceler da R. F. da Alemanha, recentemente declarou em World Press Review (Sumário da Imprensa Mundial): “Em nosso mundo moderno, a fome em massa, a estagnação econômica, a catástrofe ambiental, a instabilidade política, e o terrorismo, não podem ser delimitados pelas fronteiras nacionais.” Os problemas de uma nação, com efeito, podem influir na estabilidade do mundo todo.
De Que Se Necessita
Para que um governo mundial dê certo, tem de poder mobilizar os recursos físicos e humanos do mundo para suprir as necessidades dos mais pobres do mundo. Em diversos países, a principal preocupação das pessoas é encontrar alimento, água e abrigo apenas para aquele dia. Sem que se satisfaçam as necessidades básicas da pessoa, o corpo e a mente ficam restringidos, e seu espírito se vê privado do respeito próprio.
Se um governo mundial vai dar certo, precisa ser capaz de reduzir a brecha do padrão de vida entre os países ricos e pobres. “Há riquezas bastantes para todos” afirma o famoso editor francês, André Fontaine, “uma vez as utilizássemos para o benefício da humanidade”. A riqueza das nações prósperas não chegou a gotejar para os pobres. Os pobres ficam cada vez mais pobres. Observe, no quadro acompanhante, quantos dentre a população da Terra carecem das necessidades básicas.
Para que um governo mundial dê certo, tem de ser justo e não favorecer mais as pessoas que vivem em uma parte do mundo do que as que vivem em outra parte. Para quem nos podemos voltar em busca de uma regência mundial que possa servir, e realmente sirva, em benefício de toda a humanidade? Para os humanos?
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