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Imagens religiosas — como as encara?A Sentinela — 1988 | 1.° de agosto
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Imagens religiosas — como as encara?
EM 1888 houve grandes inundações em Cantão, na China. Chuvas contínuas arruinaram as plantações. Em desespero, os camponeses oraram a seu deus Lung-wong, para que fizesse cessar as chuvas, mas, em vão. Irritados pela indiferença de sua deidade, eles colocaram a sua imagem cinco dias na cadeia! Alguns anos antes, o mesmo deus havia ignorado as orações deles para pôr fim a uma seca. Eles acorrentaram a imagem dele ao ar livre, sob o calor causticante.
Em 1893 uma seca assolou a Sicília. Procissões religiosas, velas acesas nas igrejas e orações a imagens, nada disso produziu chuva. Tendo perdido a paciência, os camponeses despiram certas imagens, viraram outras de frente para a parede e até mesmo mergulharam algumas delas nos bebedouros dos cavalos! Em Licata, o “Santo” Ângelo foi despido, acorrentado, aviltado e ameaçado de enforcamento. Em Palermo, Itália, o “São” José foi jogado num jardim ressequido para esperar chuva.
Tais incidentes, relatados no livro The Golden Bough (O Ramo Dourado), de Sir James George Frazer, têm implicações perturbadoras. Indicam que tanto cristãos professos como não cristãos parecem ter conceitos idênticos a respeito de imagens religiosas. Em ambos os casos, os adoradores usaram as suas imagens qual meio de contatar um “santo” ou um deus. E, curiosamente, ambos os grupos tentaram instigar à ação seus morosos “santos” ou deuses por infligir a eles as condições aflitivas que seus adoradores estavam passando!
Hoje, contudo, muitos dos que usam imagens religiosas encarariam tais ações como extremistas, talvez até mesmo risíveis. Argumentariam que para eles as imagens são meramente objetos de respeito — não adoração. Podem até mesmo afirmar que estátuas, cruzes e pinturas religiosas são ajudas legítimas para adorar a Deus. Talvez você pense o mesmo. Mas, a questão é: O que acha Deus a respeito disso? Poderia ser que a veneração de uma imagem realmente signifique adorá-la? É possível que tais práticas realmente apresentem perigos ocultos?
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O conceito cristão sobre as imagensA Sentinela — 1988 | 1.° de agosto
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O conceito cristão sobre as imagens
VÓS “vos convertestes dos ídolos . . . para servirdes ao Deus vivo e verdadeiro”, escreveu o apóstolo Paulo aos cristãos em Tessalônica. (1 Tessalonicenses 1:9a) Sim, muitos cristãos primitivos eram anteriormente pagãos idólatras. (1 Coríntios 6:9-11) Mas, ao se tornarem cristãos, abandonaram as suas práticas idólatras.
No entanto, curvar-se perante ídolos era tão comum que se escarnecia dos cristãos porque eles adoravam a Deus sem imagens. Alguns pagãos até mesmo os acusavam de serem ateus! Como foi, então, que a veneração de imagens mais tarde se tornou tão difundida na cristandade?
Imagens da Cristandade — De Onde se Originaram?
Muitas práticas pagãs foram introduzidas entre os “cristãos” após a chamada conversão do imperador romano Constantino. “A partir dos dias de Constantino”, diz o historiador religioso Edwyn Bevan em seu livro Holy Images (Imagens Santas), “o uso da Cruz como símbolo tornou-se comum em todo o mundo cristão, e logo lhe foram dirigidas formas de homenagem”. Isto pavimentou o caminho para outras formas de adoração de imagens. O mesmo livro diz: “Parece provável que anterior à pratica de homenagear quadros e imagens introduzira-se o costume de homenagear o símbolo da Cruz, que, por sua vez . . . não se encontra em monumentos ou objetos cristãos de arte religiosa antes de Constantino dar o exemplo no lábaro [insígnia militar incluindo uma cruz].”
Este desenvolvimento continuou. No oitavo século EC, João, de Damasco, considerado “santo” pelas igrejas Católica Romana e Ortodoxa Oriental, escreveu: “À medida que os santos Padres deitaram abaixo os templos e os santuários dos demônios, e ergueram em seu lugar santuários em nome dos Santos e nós os adoramos, assim também eles deitaram abaixo as imagens dos demônios e, em seu lugar, ergueram imagens de Cristo, da Mãe de Deus e dos Santos.”
A isto, Tomás de Aquino, “santo” católico-romano do século 13, acrescentou: “A mesma reverência deve ser mostrada tanto para uma imagem de Cristo como para com o próprio Cristo . . . Adora-se a Cruz da mesma maneira como se adora a Cristo, isto é, com a adoração de latria [definição católica para a mais alta forma de adoração], e por essa razão dirigimo-nos e suplicamos à Cruz do mesmo modo como o fazemos ao próprio Crucificado.”
Aquino ainda é considerado como importante contribuinte para a doutrina da “veneração de imagens”. Segundo a New Catholic Encyclopedia, a “veneração de imagens” teve de esperar por ele “para encontrar a sua própria mais plena explicação”. Não obstante, é claro que a adoração “cristã” de imagens meramente serviu para substituir a adoração pagã de imagens.
Justificativas Para o Uso de Imagens Religiosas
Muitos que hoje veneram imagens religiosas objetariam a serem chamados de adoradores de imagens. As suas objeções a tal designação, porém, não constituem nada de novo. No quarto século, o chamado Santo Agostinho zombou do raciocínio de não-cristãos adoradores de ídolos, dizendo: “Há um certo argumentador que se julga culto, e diz: ‘Eu não adoro aquela pedra, nem aquela imagem sem sentido; . . . Eu não adoro essa imagem; mas eu cultuo o que vejo, e sirvo a quem não vejo.’” Em outras palavras, eles afirmavam adorar apenas a pessoa invisível representada por seus ídolos. “Por darem tal explicação a respeito de suas imagens”, acrescentou Agostinho, “eles se consideram hábeis argumentadores, porque não adoram ídolos, não obstante, adoram demônios”. — Expositions on the Book of Psalms (Explanações Sobre o Livro dos Salmos), de Agostinho, Salmo xcvii 9.
Embora os teólogos católico-romanos não tenham hesitado em condenar a idolatria pagã, quando o assunto vem a ser o seu próprio uso de imagens eles muitas vezes têm recorrido às mesmíssimas justificativas que os chamados pagãos têm usado. Por exemplo, o Concílio de Trento, do século 16, declarou a respeito de imagens de Cristo, de Maria e dos “santos”: “Deve-se-lhes dar a devida honra e veneração; não é que se creia, contudo, que exista neles alguma divindade ou virtude, razão pela qual devam ser veneradas.” Por que, então, a veneração? “Porque a honra que se lhes mostra”, explicou o concílio, “é atribuída aos protótipos que elas representam, de modo que por meio das imagens que beijamos e diante das quais tiramos o chapéu e nos prostramos, nós adoramos a Cristo e veneramos os santos, cuja semelhança eles têm”.
Até os dias de hoje a Igreja Católica Romana continua a justificar a idolatria à base dos mesmos argumentos: que as imagens são simples meios de focalizar a atenção no ser celestial que representam, e que nenhuma virtude ou poder reside nas imagens. Mas, até que ponto tem isso se mostrado fiel aos fatos na prática real? Será que todos os que usam imagens realmente crêem que não há ‘divindade ou virtude nelas’?
Imagens — O Ponto de Vista dos Adoradores
Em Sevilha, Espanha, existe uma rivalidade fanática entre os seguidores da Virgem la Macarena e a Virgem de la Esperanza. Na Catedral de Chartres, França, há três virgens — Nossa Senhora do Pilar, Nossa Senhora da Cripta e Nossa Senhora da “Belle Verriere” — cada qual tendo seus próprios devotos. Evidentemente, os adoradores estão convencidos de que a sua imagem da Madona seja de algum modo superior às outras imagens — muito embora todas as três imagens representem a mesma pessoa! Claramente, pois, presta-se homenagem, não ao que é representado, mas sim às próprias imagens.
Portanto, o que a Igreja Católica Romana justifica como sendo adoração relativa muitas vezes resulta ser adoração real de uma imagem. Sutilezas teológicas pouquíssimo significam em face de séculos de prática real.
O Que Diz a Bíblia?
O conselho da Bíblia contradiz as teorias dos teólogos. Deus deixou claro ao antigo Israel que a idolatria era totalmente condenada. (Êxodo 20:4, 5; Deuteronômio 4:15-19) Algumas representações, como a serpente de cobre feita por Moisés, foram permitidas, é verdade. Curvar-se em adoração a tais objetos, porém, era estritamente proibido. — Números 21:9; 2 Reis 18:1, 4.
Às vezes Israel desobedecia essa proibição contra a idolatria. Por exemplo, no Sinai Israel fez um bezerro de ouro para adoração. Quão blasfemo foi para eles ‘trocar a glória de Deus pela representação de um touro, um herbívoro’! (Salmo 106:20, NM) Mas, semelhante a alguns religiosos hoje, eles afirmavam adorar, não o touro, mas sim o próprio Deus! “‘Este é o teu Deus, ó Israel’, clamavam, ‘o que te fez subir da terra do Egito’.” (Êxodo 32:1-5) Jeová, contudo, não tolerou essa adoração “relativa”, este clamoroso retorno à religião egípcia. (Atos 7:39-41) Isto era uma violação direta do pacto em que haviam entrado em Sinai, e fez com que Israel corresse o risco de extinção. — Êxodo 32:9, 10, 30-35; Deuteronômio 4:23.
Entretanto, por que assumiu Jeová Deus tal posição firme contra as imagens? Por um lado, porque as imagens são impotentes; não são nada. (Deuteronômio 32:21a; Salmo 31:6) Jeremias comparou-as a um espantalho, sem fôlego. (Jeremias 10:5, 14) Isaías igualmente ridicularizou os que usam parte duma árvore para fazer fogo para cozinhar e outra parte para fazer um deus. O profeta avisa que tais adoradores de ídolos “nada sabem nem entendem, porque os seus olhos são incapazes de ver e os seus corações não conseguem compreender”. — Isaías 44:13-18.
Um perigo particularmente mortífero ligado à adoração de imagens é a possibilidade de a imagem servir de ponto de contato com forças demoníacas. O salmista disse a respeito dos israelitas: “Eles serviram seus ídolos, que se tornaram uma cilada para eles! E sacrificaram seus filhos e suas filhas aos demônios.” (Salmo 106:35-37; compare com Levítico 17:7; Deuteronômio 32:17.) Como resultado, foi aberto o caminho para outras superstições, práticas espíritas. Outro exemplo é o do rei Manassés, que restaurou a idolatria em Israel. Conseqüentemente, “edificou altares para todo o exército do céu nos dois pátios do Templo” e “praticou encantamentos e a adivinhação”. — 2 Reis 21:1-6.
As Escrituras Gregas Cristãs alertam a respeito dos mesmos perigos. O Novo Dicionário da Bíblia diz: “A polêmica do Antigo Testamento contra a idolatria . . . reconhece as mesmas duas verdades que o apóstolo Paulo mais tarde afirmou: que o ídolo nada é, mas que, não obstante, há uma força espiritual demoníaca que deve ser levada em consideração, e que o ídolo, por conseguinte, constitui uma positiva ameaça espiritual.” Paulo escreveu: “Sabemos que um ídolo nada é no mundo e não há outro Deus a não ser o Deus único.” Mas, mais tarde advertiu: “Aquilo que os gentios imolam, eles o imolam aos demônios, e não a Deus. Ora, não quero que entreis em comunhão com os demônios.” — 1 Coríntios 8:4; 10:19, 20.
Sim, forças espirituais iníquas anseiam submeter pessoas ao seu controle. Paulo escreveu: “Pois o nosso combate não é contra o sangue nem contra a carne, mas contra os Principados, contra as Autoridades, contra os Dominadores deste mundo de trevas, contra os Espíritos do Mal, que povoam as regiões celestiais.” (Efésios 6:12) Por conseguinte, a adoração de imagens de qualquer tipo enfraquece as percepções espirituais da pessoa, estimula a superstição e facilita a manipulação por parte dos governantes ocultos deste mundo de trevas e mau.
Adorar ‘em Verdade’
Muitas pessoas sinceras usam imagens para se achegar mais ao Ouvinte de orações. Achegar-se a Deus é desejável. Mas, temos a liberdade de escolher o nosso próprio método de aproximação? Por certo temos de seguir a maneira de aproximação que agrada a Deus, não a nossa própria. Jesus disse: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai a não ser por mim.” (João 14:6) Isto excluiria usar imagens idólatras. Jesus ensinou também: “Mas vem a hora — e é agora — em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade; pois tais são os adoradores que o Pai procura. Deus é espírito e aqueles que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade.” — João 4:23, 24.
Pode alguém que é espírito ser representado por uma imagem material? Independente de quão imponente uma imagem possa ser, ela jamais pode igualar-se à glória de Deus. Assim, uma imagem de Deus jamais poderia ser autêntica. (Compare com Romanos 1:22, 23.) Portanto, estaria alguém ‘adorando em verdade’ se se aproximasse de Deus através de alguma imagem fraudulenta?
As Testemunhas de Jeová têm ajudado a milhares de pessoas a abandonarem práticas idólatras e se tornar ‘adoradores tais que o Pai procura’. Depois de ter-lhes sido mostrado na Bíblia o conceito de Deus sobre as imagens, muitos têm sido movidos a eliminar as imagens de seus lares e de sua forma de adoração. (Deuteronômio 7:25) É verdade que nem sempre tem sido fácil fazerem isso. Mas, eles têm sido movidos por um desejo sincero de aderir estritamente à Palavra de Deus, a Bíblia, que exorta os verdadeiros cristãos: “Filhinhos, guardai-vos dos ídolos.” — 1 João 5:21.
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