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A Igreja Católica na Espanha — o abuso do poderDespertai! — 1990 | 8 de março
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e de vítimas. E, sem vítimas, que eram obrigadas a pagar pesadas multas, a máquina inteira parou.a
Ventos de Mudança
Com o fim da Inquisição, a Espanha do século 19 presenciou o crescimento do liberalismo e o gradual declínio do poder católico. As terras da igreja — que constituíam até então um terço de todas as terras cultivadas — foram confiscadas pelos sucessivos governos. Na década de 30, o primeiro-ministro socialista Azanã declarou: “A Espanha deixou de ser católica”, e seu governo agiu concordemente.
A igreja foi inteiramente separada do Estado, e foram abolidos os subsídios concedidos ao clero. A educação deveria ser não-religiosa, e até mesmo se introduziram o casamento civil e o divórcio. O Cardeal Segura lamentou este ‘grave golpe’ e receou pela sobrevivência daquela nação. Parecia que o catolicismo estava destinado a um inevitável declínio quando, em 1936, um levante militar abalou a nação.
Guerra Civil — Uma Cruzada Cruel
Os generais do exército que lideravam o golpe foram motivados por objetivos políticos, mas, logo em seguida, o conflito assumiu tonalidades religiosas. Dentro de poucas semanas do início do levante, a igreja, cujo poder já tinha sido minado por leis recentes, subitamente se tornou o alvo de ampla e malévola agressão.b Milhares de sacerdotes e monges foram mortos por fanáticos oponentes do golpe militar, que igualavam a igreja espanhola a uma ditadura. Igrejas e mosteiros foram saqueados e queimados. Em partes da Espanha, usar a batina equivalia a assinar sua própria sentença de morte. Era como se o monstro da Inquisição tivesse retornado do túmulo, a fim de engolir seus próprios progenitores.
Confrontada por esta ameaça, a igreja espanhola voltou-se mais uma vez para os poderes seculares — neste caso, o militar — para defender sua causa e restaurar a nação à ortodoxia católica. Mas, primeiro, a guerra civil tinha de ser santificada como uma “guerra santa”, uma “cruzada” em defesa do cristianismo.
O Cardeal Gomá, arcebispo de Toledo e primaz da Espanha, escreveu: “É a guerra na Espanha uma guerra civil? Não. É a luta dos sem Deus. . . contra a verdadeira Espanha, contra a religião católica.” Ele chamou o General Franco, o líder dos insurgentes, de “instrumento dos planos de Deus na Terra”. Outros bispos espanhóis expressaram sentimentos similares.
Naturalmente, a verdade não era tão simples assim. Muitos do lado republicano do conflito também eram católicos sinceros, especialmente na região basca, tradicionalmente um reduto católico. Assim, a guerra civil presenciou católicos lutando contra católicos — tudo pela causa do catolicismo espanhol, segundo a definição do conflito, feita pelos bispos.c
Quando as forças de Franco por fim dominaram as Províncias Bascas, elas executaram 14 sacerdotes e encarceraram muitos outros. Jacques Maritain, filósofo francês, escrevendo sobre as atrocidades cometidas contra os católicos bascos, comentou que “a Guerra Santa odeia os crentes que não servem a ela mais fervorosamente do que os descrentes”.
Após três anos de mútuas atrocidades e derramamento de sangue, terminou a guerra civil, com a vitória das forças de Franco. Morreram de 600.000 a 800.000 espanhóis, muitos deles devido às duras represálias das forças vitoriosas. d Impassível, o Cardeal Gomá asseverou, numa pastoral: “Ninguém pode negar que o poder que decidiu esta guerra foi o próprio Deus, sua religião, seus estatutos, sua lei, sua existência, e sua influência recorrente em nossa História.”
Desde a instalação da Inquisição, no século 15, até a Guerra Civil Espanhola (1936-39), com poucas exceções, a Igreja e o Estado andaram de braços dados. Sem dúvida, esta aliança profana serviu aos seus interesses mútuos. Todavia, cinco séculos de poder temporal — e os acompanhantes abusos — tinham seriamente minado a autoridade espiritual da igreja, como mostrará nosso próximo artigo.
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A Igreja Católica na Espanha — qual a razão da crise?Despertai! — 1990 | 8 de março
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A Igreja Católica na Espanha — qual a razão da crise?
“Semeiam vento, colherão tempestade!” — Oséias 8:7, “A Bíblia de Jerusalém”.
EM 20 de maio de 1939, na igreja de Santa Bárbara, em Madri, o General Franco apresentou sua espada da vitória ao Cardeal Gomá, primaz da Espanha. O exército e a igreja celebraram juntos o triunfo que o papa descreveu como a “desejada vitória católica”. A guerra civil tinha terminado, e, pelo visto, raiava uma nova aurora do catolicismo espanhol.
A igreja triunfante recebeu generosos subsídios do Estado, o controle sobre a educação, e amplos poderes de censura sobre tudo que não promovesse o catolicismo nacional. Mas a bem-sucedida cruzada militar-religiosa também tinha semeado as sementes do declínio da igreja.
Aos olhos de muitos espanhóis, a igreja estava implicada nas atrocidades cometidas pelas forças vitoriosas. Na verdade, nos primeiros anos logo após a guerra, a maioria da população assistia à Missa. Para conseguir um emprego, ou uma promoção, era sábio ser um bom
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