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  • Itália
  • Anuário das Testemunhas de Jeová de 1983
  • Subtítulos
  • PRIMITIVOS CRISTÃOS NA ITÁLIA
  • ESCURIDÃO ESPIRITUAL ENVOLVE A ITÁLIA
  • O COMEÇO
  • FORMADA UMA CONGREGAÇÃO
  • EXPECTATIVAS VÃS
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  • “A ODISSÉIA DE UM OBJETOR DE CONSCIÊNCIA”
  • A ABERTURA DE UM ESCRITÓRIO ITALIANO
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  • CONFERÊNCIAS SOBRE TRANSFUSÕES DE SANGUE
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  • IRMÃOS EM TEMPOS DE NECESSIDADE
  • A AMPLIAÇÃO DE BETEL
  • O ENVIO DE PUBLICAÇÕES ÀS CONGREGAÇÕES
  • GRATIDÃO PELA PROTEÇÃO DIVINA
Anuário das Testemunhas de Jeová de 1983
yb83 pp. 113-256

Itália

A ITÁLIA tem sido freqüentemente descrita como “linda bota” devido à sua conformação semelhante a uma bota do século 18, com a Apúlia no calcanhar, a Calábria no bico e os Alpes no topo do cano. A Itália é, assim, uma comprida península que se alonga para dentro do mar Mediterrâneo. Seu nome vem do termo que os antigos romanos deram à parte sul da península — Italia, que, segundo a lenda, significa “terra dos bois” ou “terra de pastagens”. A natureza encantadora da região italiana é bem conhecida: planícies, montanhas, lagos, praias, olivais, vinhedos e encostas ricamente cobertas de ciprestes. A Itália tem também duas grandes ilhas, a Sicília e a Sardenha.

A população de quase 57 milhões é predominantemente católica, embora a participação nas atividades da igreja seja extremamente limitada.

Como foi que o verdadeiro cristianismo primeiro lançou raízes aqui, e morreu mais tarde? Quando e como a obra de pregação das Testemunhas de Jeová começou neste país?

PRIMITIVOS CRISTÃOS NA ITÁLIA

No ano 59 E.C. certos prisioneiros, incluindo um homem de meia-idade, foram conduzidos por um oficial de exército em uma cansativa e perigosa viagem. Depois de milagrosamente sobreviverem a um naufrágio, chegaram a Malta, uma ilha ao sul da Itália, e conseguiram retomar sua viagem três meses depois. O navio em que embarcaram era chamado “Filhos de Zeus”, em honra aos filhos gêmeos de Zeus, que se cria protegerem os marinheiros do perigo. Entretanto, um dos prisioneiros não era adorador das divindades greco-romanas. Era discípulo de Jesus Cristo, de nome Paulo. A viagem os trouxe a Siracusa, na Sicília, onde permaneceram três dias, rumaram ao norte, através do estreito de Messina, com uma parada em Régio. Um pouco mais tarde desembarcaram em Putéoli, perto de Nápoles, onde os irmãos espirituais locais suplicaram-lhes que permanecessem por algum tempo. Passados mais sete dias, partiram para Roma, pela Via Ápia, a principal estrada comercial-militar de longa distância do império. A notícia da iminente chegada de Paulo chegou à congregação de Roma, e os irmãos amorosamente foram encontrá-lo na Feira de Ápio e as Três Tavernas, de onde acompanharam os viajantes até o fim de sua viagem. — Atos 27:1 a 28:16.

Paulo tinha um tão elevado conceito dos cristãos em Roma que lhes escrevera anteriormente: ‘Fala-se da vossa fé em todo o mundo.’ — Rom. 1:8.

No entanto, depois de haver prosperado por algum tempo, o verdadeiro cristianismo foi engolfado pela apostasia, cujo advento havia sido predito por Jesus Cristo. (Mat. 13:26-30, 36-43) O poder temporal exercido pelos líderes religiosos continuou a aumentar até que, no tempo do Imperador Constantino, os elementos religiosos e políticos juntaram suas forças. Isto levou ao estabelecimento do catolicismo com seu papado.

ESCURIDÃO ESPIRITUAL ENVOLVE A ITÁLIA

Durante a Era do Obscurantismo, a influência da chamada Reforma dificilmente se fez sentir na Itália, e a escuridão espiritual que pairava sobre os habitantes da península continuou a reinar suprema. Havia alguns indivíduos que buscavam obter conhecimento verdadeiro da Palavra de Deus, mas a maioria deles procurou refúgio no estrangeiro, onde podiam compartilhar com outros o seu recém-achado conhecimento das Escrituras. Os remanescentes na Itália foram aprisionados e condenados à morte pela Inquisição.

Em 1870 os Estados Papais, grandes pedaços de terra sobre os quais a Igreja Católica tinha poder civil, foram anexados ao Reino da Itália, com exceção da pequena área ainda hoje ocupada pela Cidade do Vaticano. Havia então boas perspectivas para maior liberdade religiosa no país. Entretanto, estas esperanças frustraram-se logo depois que Benito Mussolini ascendeu ao poder em 1922. Em 1929 ele firmou uma concordata com a Igreja Católica, concedendo excepcionais privilégios à Igreja e seu clero, abrindo caminho para um novo período de repressão. Assim, poderíamos perguntar, como começou a obra de pregação das Testemunhas de Jeová na Itália moderna?

O COMEÇO

O renascimento do verdadeiro cristianismo recua ao final do século passado, a uma pequena cidade chamada Pinerolo, 38 km de Turim, em Piemonte. Pinerolo situa-se num dos pitorescos vales nos Alpes Cótios, conhecidos como “Vales dos Valdenses”. Eles obtiveram seu nome dos seguidores de Pedro Valdo, um comerciante de Lião que apreciava muitas verdades bíblicas.

Em 1891, certo viajante norte-americano fez uma curta parada em Pinerolo, durante sua primeira série de visitas na Europa. Era Charles Taze Russell, o primeiro presidente da Sociedade Torre de Vigia (dos E.U.A.). Lá em Pinerolo ele encontrou o professor Daniele Rivoire, um valdense que ensinava línguas no centro cultural valdense de Torre Pellice. Embora o professor Rivoire nunca se tenha tornado uma das Testemunhas de Jeová, mostrou muito interesse em disseminar a mensagem da Bíblia conforme explicada nas publicações da Sociedade Torre de Vigia.

Passaram-se alguns anos, e, no ínterim, Fanny Lugli, uma valdense de San Germano Chisone, perto de Pinerolo, recebeu um livro intitulado “O Plano Divino das Eras” de parentes nos Estados Unidos. Por volta de 1903 ela havia reconhecido o conteúdo do livro como sendo a verdade e estava dirigindo reuniões com um pequeno grupo de pessoas em sua casa.

Além disso, por volta de 1903, o professor Rivoire traduziu o livro O Plano Divino das Eras para o italiano. Imprimiu o livro às suas próprias expensas na Tipografia Sociale em 1904. Isto foi antes que uma edição italiana do livro aparecesse nos Estados Unidos. Na sua edição de 1904, o professor Rivoire escreveu a seguinte nota aos leitores: “Fizemos esta primeira edição italiana sob a proteção do Senhor. Que ele a abençoe, para que, apesar de suas imperfeições, ela possa contribuir para magnificar seu santíssimo nome e incentive seus filhos de língua italiana a maior devoção.” Jeová realmente abençoou o resultado da distribuição desse livro.

O professor Rivoire começou também a traduzir a Torre de Vigia de Sião e Arauto da Presença de Cristo (hoje A Sentinela) para o italiano. Era publicada trimestralmente em 1903 e impressa em Pinerolo. Curiosamente, a revista era distribuída através dos canais regulares aos principais veículos informativos nos mais importantes centros das províncias.

Durante este mesmo período, Clara Cerulli Lantaret e Giosuè Vittorio Paschetto também vieram a conhecer a verdade, e Remigio Cuminetti juntou-se a eles alguns anos depois. Todas estas são pessoas sobre as quais leremos informações à medida que nossa história se desenrola.

FORMADA UMA CONGREGAÇÃO

Em 1908 formou-se na Itália a primeira congregação de servos hodiernos de Jeová. As reuniões eram realizadas nas noites de quinta-feira na Piazza Montebello, 7, em Pinerolo, na casa da irmã Cerulli, e nos domingos à tarde em Gondini, perto de San Germano Chisone, na casa da irmã Lugli.

Quando o irmão Russell voltou à Itália em 1912 para visitar a única congregação então existente, havia cerca de 40 pessoas freqüentando as reuniões. Naquela época o trabalho era supervisionado pela filial da Sociedade Torre de Vigia na Suíça, e esse arranjo continuou até 1945. A irmã Cerulli, que falava inglês e francês tão bem quanto o italiano, representava a filial suíça na Itália.

EXPECTATIVAS VÃS

Durante a Primeira Guerra Mundial, o pequeno grupo de irmãos italianos passou por um período de provas e purificação semelhante ao que ocorreu em outras partes do mundo. Em 1914 alguns Estudantes da Bíblia, como eram então chamadas as Testemunhas de Jeová, esperavam ser “arrebatados em nuvens, para encontrar o Senhor no ar”, e criam que seu trabalho terreno de pregação havia chegado ao fim. (1 Tes. 4:17) Um relato ainda existente diz: “Um dia, alguns deles foram para um lugar isolado a fim de esperar o evento ocorrer. Entretanto, quando nada aconteceu, foram obrigados a voltar novamente para casa num estado mental bem deprimido. Como resultado, muitos destes caíram da fé.”

Cerca de 15 pessoas permaneceram fiéis, continuando a freqüentar as reuniões e a estudar as publicações da Sociedade. Comentando sobre esse período, o irmão Remigio Cuminetti disse: “Em vez da esperada coroa de glória, recebemos um resistente par de botas para realizar a obra de pregação.”

JULGAMENTO DO IRMÃO CUMINETTI

A entrada da Itália na guerra, em maio de 1915, marcou o começo de uma época de grande dificuldade para um membro da congregação, o irmão Remigio Cuminetti. Quando foi convocado para o serviço militar, ele decidiu manter sua neutralidade. (Isa. 2:4; João 15:19) Isto significava que teria de ir a julgamento perante o Tribunal Militar em Alexandria. A irmã Clara Cerulli assistiu ao julgamento e enviou um relato detalhado sobre isso ao irmão Giovanni DeCecca no Betel de Brooklyn, sabendo que este estava sempre interessado no que acontecia no campo italiano. Sua carta, datada de 19 de setembro de 1916, é um relato autêntico do que aconteceu:

“Meu prezado irmão em Cristo:

“Achei que devia escrever sem demora para contar-lhe as boas novas de como nosso querido irmão, Remigio Cuminetti, tomou uma posição firme pela fé e deu um bom testemunho durante seu julgamento em Alexandria.

“Eu e a irmã Fanny Lugli tivemos o grande privilégio de assistir ao julgamento e de ser edificadas pela confissão aberta da firme fé de nosso irmão.

“O Juiz tentou repetidamente enlaçar nosso irmão numa ou noutra declaração, mas Remigio nunca se perdeu. Aqui está um relato do que foi dito no julgamento:

JUIZ: ‘Aviso-o que está em julgamento perante este Tribunal devido a uma acusação grave e você dá a impressão de ter motivo para riso!’

IRMÃO CUMINETTI: ‘Não posso mudar minha expressão facial. A alegria que sinto no coração forçosamente se reflete na minha face.’

JUIZ: ‘Por que se recusa a vestir um uniforme militar e servir na defesa de nosso país?’

IRMÃO CUMINETTI: ‘Estou aqui perante a Corte devido à minha recusa de usar um uniforme militar, só por isso. Não sou culpado de qualquer outra violação. Acho impróprio que um filho de Deus vista um uniforme que se usa para o ódio e a guerra! Pela mesma razão me recuso a usar uma braçadeira e trabalhar numa fábrica que participa no esforço de guerra. Prefiro ser estigmatizado como um dos filhos de Deus por agir pacificamente para com meu próximo.’

JUIZ: ‘Admite ter-se despido e ficado só com as roupas de baixo quando estava na prisão de Cuneo?’

IRMÃO CUMINETTI: ‘Sim, Excelência, é verdade. Por três vezes fui forçado a pôr o uniforme e por três vezes o tirei novamente. Minha consciência se rebela contra a idéia de prejudicar o meu próximo. Estou pronto para dar minha vida pelo bem dos outros mas nunca levantarei um dedo para ferir meu semelhante, porque Deus, através de seu espírito santo, nos instrui a amar e não a odiar o nosso próximo.’

JUIZ: ‘Que tipo de instrução você teve?’

IRMÃO CUMINETTI: ‘Isto tem pouca importância. Estudei a Bíblia!’

JUIZ: ‘Responda a pergunta que fiz. Por quanto tempo freqüentou uma escola?’

IRMÃO CUMINETTI: ‘Por três anos, mas repito que isto tem pouca importância comparado com meu treinamento na escola de Cristo!’

JUIZ: ‘É uma lástima que você tenha entrado em contato com certas pessoas [apontando para a irmã Lugli e eu] que o levaram para caminhos errados. [Depreciativamente] Por quanto tempo estudou esse livro que chama de “Bíblia”?’

IRMÃO CUMINETTI: ‘Por seis anos, e meu único pesar é não ter começado antes!’

JUIZ: ‘Quem lhe ensina esta nova religião?’

IRMÃO CUMINETTI: ‘O próprio Deus ensina a respeito de si mesmo. Estudantes mais experientes têm-me ajudado a entender as verdades da Bíblia, mas só Deus pode abrir nossos olhos do entendimento.’

JUIZ: ‘Você compreende a seriedade de sua conduta desobediente? Será sua decisão suficientemente forte para enfrentar as conseqüências?’

IRMÃO CUMINETTI: ‘Sim, tenho certeza que será. Estou pronto a enfrentar o que quer que possa acontecer. Mesmo se for condenado à morte, nunca violarei a promessa que fiz de servir ao Senhor plenamente.’

“Depois disso o Promotor Público pediu uma sentença de 4 anos e 4 meses para o irmão Cuminetti e então era a vez da Defesa falar.

“O advogado levantou-se e deu um maravilhoso testemunho quanto a atitude de nosso irmão, dizendo que, em vez de ser proferida uma sentença de prisão, tal homem devia ser admirado pela sua coragem e fidelidade ao seu Deus. Mostrou-se que o acusado não desejava violar sua consciência por ir contra o mandamento da Bíblia de não matar. Ele estava agindo em obediência à Lei Divina.

“Depois disso os juízes se retiraram por 5 minutos e então retornaram à sala de audiências para ler a sentença. ‘Remigio Cuminetti é condenado a 3 anos e 2 meses de prisão por traição ao Rei e às leis do país.’

“Nosso irmão agradeceu-lhes com um sorriso radiante na face!

“Então o Juiz perguntou-lhe se tinha alguma coisa mais a dizer.

“Remigio respondeu: ‘Tenho muito a dizer a respeito do amor de Deus e seu maravilhoso propósito para a humanidade.’

“A isto o Juiz irritadamente replicou: ‘Já ouvimos o bastante a esse respeito. Repito a pergunta. Você tem alguma coisa a declarar quanto à sentença?’

“‘Não’, respondeu nosso irmão, sua face iluminada com fervor, ‘repito que estou pronto a dar minha vida pelo bem dos outros mas não levantarei um dedo para ferir meu semelhante!’

“Isto foi o fim do julgamento.

“Eu e a irmã Fanny Lugli tivemos o privilégio de falar com nosso querido irmão. Todos o admiravam. Mesmo os juízes estavam maravilhados com sua atitude humilde associada com a coragem dos filhos da luz em sua recusa de dobrar-se diante dos poderes terrenos. Eles se curvam somente para Deus ao passo que oram a ele com espírito e verdade.”

“A ODISSÉIA DE UM OBJETOR DE CONSCIÊNCIA”

O que se seguiu ao julgamento é em si mesmo uma outra história. Tão notável foi que anos mais tarde foi recortado pelo periódico L’Incontro na sua edição de julho/agosto de 1952. Os extratos que seguem são do artigo intitulado “A Odisséia de um Objetor de Consciência Durante a Primeira Guerra Mundial”:

“Esta Testemunha era Remigio Cuminetti, nascido em Porte di Pinerolo em 1890. . . .

“No entanto, quando a guerra eclodiu, a fábrica técnica [a RIV de Villar Perosa] ficou engajada no esforço de guerra e foi exigido dos trabalhadores usar uma braçadeira e se considerarem como sob autoridade militar. Cuminetti poderia ter aceitado fazer isto e permanecer como civil. Se tivesse feito isso teria sido poupado dos julgamentos que teve de enfrentar mais tarde. Como trabalhador especializado poderia ter tido adiamento permanente da convocação, mas imediatamente pensou consigo mesmo: ‘Tendo dedicado minha vida a Deus, posso continuar a fazer sua vontade e, ao mesmo tempo, contribuir para o esforço de guerra? Embora indiretamente, estarei desobedecendo aos mandamentos: “Não deves assassinar”, e: “Tens de amar o teu próximo como a ti mesmo.” Não são os alemães e os austríacos meus próximos tanto quanto os franceses, os ingleses e os russos?’ Para este homem íntegro a resposta parecia ser óbvia e clara . . .

“Quando sua classe foi convocada para o serviço militar, apegou-se as suas convicções e recusou entrar no exército. Como resultado, foi preso novamente e julgado perante o Tribunal Militar de Alexandria. Foi sentenciado a 3 anos e meio de prisão [realmente 3 anos e 2 meses] e enviado para a prisão militar de Gaeta . . . Entretanto, as autoridades militares acharam injusto que ele passasse calmamente seu tempo de prisão enquanto seus conterrâneos estavam arriscando suas vidas no campo de batalha! . . . Decidiram tirá-lo da prisão e enviá-lo para o comando militar onde seria forçado a tornar-se um soldado e a lutar pelo seu país . . . uma vez lá, recusou-se a vestir o uniforme e foi deixado no pátio só de camisa.

“Depois de ficar algum tempo nesta condição, no meio da zombaria geral de seus companheiros, ele pensou mais no assunto e decidiu que apenas vestir certa roupa não faria dele um soldado. Arrazoou que ninguém poderia ser considerado um soldado ou ser sujeito à disciplina militar se não usasse as estrelas (emblemas militares) na jaqueta. Assim, ele vestiu o uniforme sem as estrelas e ninguém conseguiu fazê-lo colocá-las na gola. Mandaram-no de volta à prisão e de lá foi transferido para uma instituição psiquiátrica, visto que as autoridades concluíram que ele deveria estar mentalmente desequilibrado. Como ele era capaz de raciocinar como qualquer outro, o responsável pela instituição não podia classificá-lo como doente mental e o devolveu novamente ao seu regimento. Em vista de sua terminante recusa de usar as estrelas militares ou de fazer qualquer tipo de serviço militar, em pouco tempo estava de volta à prisão. E assim se deu que vários meses decorreram entre a prisão e a instituição psiquiátrica.

“Finalmente, foi mandado de volta para seu regimento, e nessa ocasião um certo major do exército decidiu quebrar sua resistência de uma vez por todas. Certo dia o major ordenou, sob a ameaça de um revólver, que ele pegasse suas armas e fosse para as trincheiras. Cuminetti . . . sabia que este major já havia matado muitos soldados por ofensas muito menores, . . . assim ele estava certo de que sua vez tinha chegado. Não obstante, calmamente recusou tocar nas armas. Então o major mandou dois outros soldados preparar uma mochila para ele [o irmão], colocá-la em suas costas e afivelar uma cartucheira, sabre, e etc., em sua cintura. Depois de equipá-lo desta maneira, o major novamente o ameaçou com o revólver e ordenou-lhe que fosse para as linhas de batalha. Visto que Cuminetti não se moveu, foi ordenado a dois soldados que o arrastassem à força para as trincheiras. Neste ponto, quando o estavam levando, Cuminetti disse: ‘Pobre Itália! Se seus soldados têm de ser levados à força para as trincheiras, como conseguirá ela ganhar a guerra?’ Este comentário fez com que até mesmo aquele feroz e implacável major se abrandasse, e ele ordenou que o equipamento militar fosse retirado de Cuminetti e ele foi mandado de volta à prisão.

“Algum tempo depois, ele foi chamado pelo coronel do regimento. Este oficial havia decidido arrazoar bondosamente com ele para fazer com que usasse as estrelas militares. O oficial chamou-o ao seu escritório e lhe deu toda garantia de que, se obedecesse às ordens, ele nunca precisaria tocar numa arma e seria providenciado que servisse na retaguarda. Cuminetti admitiu mais tarde . . . que esta foi a mais dura prova que tivera que passar até a ocasião. Em certo momento, vendo sua atitude respeitosa e humilde, o coronel pensou que havia ganho a batalha e disse num tom paternal: ‘Meu pobre camarada, como é possível você lutar sozinho contra a formidável força do inteiro exército? Você forçosamente seria vencido. Agora, vou colocar as estrelas e você as usará sem se rebelar mais. Estou fazendo isto para o seu próprio bem, e juro que não terá de atirar em outros homens e que suas opiniões serão amplamente respeitadas.’

“Cuminetti respondeu de modo bem simples: ‘Coronel, se tentar colocar as estrelas em meu uniforme eu o deixarei fazê-lo, mas tão logo saia daqui eu as tirarei de novo!’ Confrontado com tal decisão inflexível, o coronel não insistiu mais e o abandonou à sua sorte.

“Devido à sua fé, este homem simples e humilde enfrentou julgamento 5 vezes. Esteve preso em Regina Coeli, Roma, Piacenza e Gaeta, bem como no manicômio de Régio da Emília.”

Finalmente, depois de passar meses adicionais na prisão, o irmão Cuminetti foi levado para a frente de batalha para servir como carregador de maca. A revista relata: “Um dia, enquanto estava a serviço nas frentes de batalha, soube que um oficial ferido estava caído na frente das trincheiras, sem a força necessária para voltar para trás das linhas. Ninguém queria ir lá buscá-lo. Cuminetti imediatamente ofereceu-se para essa arriscada missão e teve êxito em trazer o oficial para um lugar seguro, embora isso lhe custasse um ferimento na perna.”

Ele foi condecorado com uma medalha de serviço de prata por esta ação, “mas recusou a condecoração argumentando que tinha agido por amor ao próximo, não com a idéia de ganhar uma medalha”.

O veredicto pronunciado contra ele pelo Tribunal Militar de Alexandria em 18 de agosto de 1916, está registrado sob o N ° 10419, no Registro de Julgamentos encontrado nos Arquivos do Tribunal Militar em Turim. O irmão Cuminetti foi, sem dúvida, a primeira Testemunha italiana a tomar posição a favor da neutralidade cristã e provavelmente o primeiro objetor de consciência da história da moderna Itália.

A ABERTURA DE UM ESCRITÓRIO ITALIANO

A guerra terminou, deixando um tributo de morte e ruína através da península. Embora o trabalho continuasse sob a direção da filial suíça, abriu-se um escritório na Itália depois de 1919. Era em Pinerolo, numa casa alugada à Via Silvio Pellico, 11.

Em 1922 o irmão Remigio Cuminetti substituiu a irmã Cerulli como representante da Sociedade na Itália. Considerou-se que não era mais apropriado ter uma mulher nessa posição de responsabilidade, quando esta poderia ser preenchida por um homem que tinha prova mais do que suficiente de sua integridade. A irmã Cerulli, todavia, ofendeu-se com esta mudança e abandonou a verdade.

Depois da guerra, a tarefa de traduzir as publicações da Sociedade foi assumida pelo professor Giuseppe Banchetti. Ele era um pastor valdense, mas havia estudado a verdade e apreciava seu valor. Ele havia inclusive tentado incorporar certas crenças em sua própria religião por pregá-las do púlpito, porém sem êxito. Entretanto, deixou as sementes da verdade em várias partes do país. Por volta de 1913 ele estava em Cerignola, na província de Foggia, para onde a Sociedade costumava enviar-lhe consignações regulares de literatura. Esses suprimentos continuaram a chegar à igreja valdense local mesmo após a morte dele e, mais tarde, um grupo de Estudantes da Bíblia foi formado por pessoas que haviam lido a literatura.

Além de A Torre de Vigia, o professor Banchetti traduziu os livros A Harpa de Deus e Libertação, bem como muitos folhetos. Igual ao professor Rivoire, nunca se desligou completamente da Igreja Valdense, embora cresse nas explicações bíblicas da Sociedade Torre de Vigia e disseminasse a mensagem.

Quando o professor Banchetti morreu em 1926, as traduções foram feitas durante um curto período de tempo por uma certa senhora Courtial, que traduziu o livro Criação. Em 1928, porém, a tarefa foi designada a uma pessoa dedicada, o irmão Giosuè Vittorio Paschetto, que cuidou do trabalho de tradução até o dia de sua prisão pela polícia fascista, em 7 de novembro de 1939. Durante esse período ele traduziu os livros Governo, Reconciliação, Vida, Profecia, Luz (2 volumes), Vindicação (3 volumes), Preparação, Preservação, Jeová, Riquezas, Inimigos e Salvação Estas publicações eram realmente “alimento no tempo apropriado” para o povo de Deus. (Mat. 24:45) Um deles em especial, o livro Inimigos, causou uma tremenda onda de perseguição para varrer o pequeno grupo de irmãos existente, devido à sua atitude clara quanto à questão da neutralidade.

Quando o irmão Paschetto foi liberto da prisão em 23 de agosto de 1943, continuou a trabalhar com outros tradutores até encerrar sua carreira terrestre em 1956.

AJUDA DE FORA

Retrocedamos agora até o fim da Primeira Guerra Mundial. Logo após 1918, o irmão Marcelo Martinelli, que conheceu a verdade nos Estados Unidos, retornou à Itália. Era natural de Valtellina, um dos belos vales nos Alpes Réticos, que desce para o lago Como, e cobriu esse território várias vezes com a mensagem do Reino. Em 1923 tornou-se “colportor”, ou pregador do Reino de tempo integral, e juntou-se ao irmão Cuminetti na região de Pinerolo. O irmão Martinelli era muito amado pela sua bondade de coração, que, em períodos de intensa perseguição moveu-o a escrever cartas amáveis aos poucos irmãos, que estavam espalhados. Continuou em seu trabalho de pregação até 1960, quando terminou seu ministério terrestre. Na província de Sôndrio, onde trabalhou na obra do Senhor, formou-se um pequeno grupo de Estudantes da Bíblia.

No período entre 1920 e 1935, outros emigrantes que aceitaram a verdade na Bélgica, na França e nos Estados Unidos, retornaram à Itália. Nos lugares onde se restabeleceram, realizaram pregação zelosa e encontraram muitos ouvidos atentos. Assim é que foram formados outros grupos de Estudantes da Bíblia.

Em 1923 a filial suíça convidou três colportores que trabalhavam no cantão suíço de Ticino, onde se fala o italiano, a mudar para a Itália. Eram Ignazio Protti e suas duas irmãs, Adele e Albina. No ano seguinte Emma Hotz, outra colportora, juntou-se a eles.

ATIVIDADE ZELOSA DE CINCO COLPORTORES

A atividade destes zelosos colportores é realmente digna de menção. As três irmãs trabalharam em um território, e os irmãos, Ignazio Protti e Marcello Martinelli, em outro. De 1923 a 1927 cobriram várias partes de Piemonte e uma parte da Lombardia. A irmã Adele Protti, que mais tarde se casou com o irmão Brun, da Suíça, escreveu há muitos anos:

“Em 1924, foram impressos 20.000 exemplares do folheto Um Governo Desejável em Pinerolo. Também recebemos de Berna 100.000 exemplares do tratado Acusados os Eclesiásticos. Este tratado continha a acusação lida no congresso de 1924 em Columbus, Ohio, E.U.A. Denunciava poderosamente o clero. Foi distribuído nas principais cidades italianas.”

Um relatório na Sentinela de 1.º de dezembro de 1925, em inglês, tinha o seguinte a dizer quanto à campanha: “Nossos irmãos italianos distribuíram 100.000 exemplares da ‘Acusação’; e especialmente se certificaram de que o papa e os outros altos oficiais do Vaticano recebessem cada um o seu exemplar.”

Podemos imaginar a excitação desses colportores à medida que distribuíam uma tão pungente mensagem! A irmã Brun continuou:

“Eu, o irmão Cuminetti e a irmã Hotz distribuímos 10.000 exemplares da ‘Acusação’ em Gênova, num único dia. Cem mil exemplares do tratado “Testemunho Perante os Regentes do Mundo” foram recebidos da Suíça, porém a maioria deles foram apreendidos pelas autoridades. Aproximadamente a cada três meses costumávamos visitar nossos irmãos em San Germano Chisone para nos edificarmos espiritualmente nas reuniões. É difícil expressar nosso anseio, nosso ardente desejo, de nos reunir por um pouco com os irmãos.

“Em certa ocasião, trabalhei o dia todo numa aldeia com resultados muito satisfatórios. Meu coração estava cheio de alegria quando comecei a caminhar para casa pela única estrada possível, que passava por um bosque. À medida que andava pelo caminho, repleto de pensamentos alegres, repentinamente percebi que um jovem de bicicleta estava ao meu lado. Não fiquei nem um pouco alarmada e comecei a testemunhar-lhe a respeito do governo do Reino de paz e justiça. Gastamos duas horas para cobrir a distância de volta até Alexandria. Pouco antes do fim de nossa caminhada, o rapaz me disse:

“‘Signorina, devo dizer-lhe que você me impediu de cometer um crime terrível. Quando me aproximei, foi com a intenção de lhe fazer mal. Se resistisse, eu poderia até tê-la matado. Porém, quando vi sua face radiante e sua inocente expressão de confiança, não fui capaz de abusar de sua boa fé. Então você começou a me falar de tantas coisas maravilhosas que eu nunca ouvira antes. Estas duas horas foram suficientes para mudar minha atitude quanto à vida, e agora vejo que criatura miserável eu era. Gostaria de mudar meu modo de vida. Por favor, dê-me qualquer coisa que tiver para ler sobre estas coisas.’

“Dei-lhe todas as publicações que restavam na minha bolsa, e ele pagou por elas. Daí, apertou minha mão e disse adeus. Naquela ocasião, como em outras, fui protegida de uma maneira verdadeiramente maravilhosa.”

A irmã Brun permaneceu fiel até sua morte em 1976, em Zurique, depois de 50 anos de serviço devotado. Seu irmão, Ignazio, outro dos cinco colportores, escreveu em 1970:

“Nós nem mesmo contávamos as horas gastas no serviço. Costumávamos trabalhar desde cedo até a noite. Freqüentemente éramos presos e então libertados depois de pouco tempo. Em Gallarate (perto de Varese), eu e o irmão Martinelli fomos presos e metidos na cadeia sob falsas acusações tramadas pelo clero. Era-nos permitido sair para o pátio da prisão uma hora por dia, o que nos dava oportunidades para testemunhar a outros prisioneiros. Freqüentemente éramos rodeados por um grupo de ouvintes, e, mesmo os guardas, às vezes paravam para escutar. Um dia veio também o diretor da prisão. Quando os prisioneiros souberam que estávamos para ser soltos, abraçaram-nos e agradeceram cordialmente. Também ficamos emocionados com isto e agradecemos a Deus a oportunidade que nos deu de alcançarmos aquelas pessoas.”

“Certo dia”, continuou o irmão Protti, “quando eu ia de casa em casa, percebi que um homem me seguia. Logo adiante, quando eu saía de uma casa, ele me abordou dizendo que era agente da polícia de segurança. Pediu-me o cartão de identidade e queria saber o que eu estava fazendo. Pensando em oferecer o folheto que tratava do mesmo assunto, respondi: ‘Estou proclamando a vinda de um governo desejável.’ Com isto o policial ficou ofendido e replicou que já havia um governo desejável — obviamente se referindo ao regime fascista. Expliquei: ‘O governo de que o senhor fala é apenas temporário. O que estou anunciando permanecerá para sempre.’ Tirei então minha Bíblia e pedi que lesse Daniel 2:44 e 7:14. Você precisava ter visto quão cuidadosamente leu aqueles dois versículos. Devolveu-me a Bíblia e, em vez de prender-me, como eu esperava, deixou-me ir. Depois de todos estes anos, eu ainda gostaria de saber se aquele agente se lembrava de nossa conversação quando o regime fascista caiu”.

O irmão Protti permaneceu fiel no serviço do Reino até o fim. Morreu em Basiléia, em 1977, à idade de 80 anos.

1925 — A PRIMEIRA ASSEMBLÉIA

O trabalho continuou a expandir-se apesar das muitas dificuldades, e a primeira assembléia foi realizada em Pinerolo, de 23 a 26 de abril de 1925. Visto que o irmão A. H. Macmillan, da sede da Sociedade, vinha fazendo uma série de visitas ao exterior, ele pôde estar presente. A assembléia foi realizada numa grande sala do hotel Corona Grossa.

Seria ridículo esperar que as autoridades fascistas concedessem licença para esta assembléia. Assim, os irmãos disfarçaram a reunião em festa de casamento. Durante a assembléia o irmão Remigio Cuminetti casou-se com a irmã Albina Protti, uma das colportoras suíças. Naquela assembléia histórica houve 70 pessoas na assistência, das quais 10 foram batizadas.

“Nossos dias eram cheios de bênçãos, regozijo e alegria”, escreveu a irmã Brun, que estava presente naquela assembléia. Ela acrescenta: “O dono do hotel trouxe os demais hóspedes e clientes para a sala, dizendo: ‘Venham e vejam, todos, temos a primitiva igreja sob nosso teto!’ . . . Tudo era bem organizado e, usualmente, conseguíamos remover tudo e colocar as cadeiras num piscar de olhos. Depois as guardávamos de novo e deixávamos tudo em ordem. Todos estávamos felizes e ansiosos de ajudar. Foi um grande testemunho.”

Não obstante, durante essa primeira assembléia houve um pequeno incidente. “Embora fôssemos bem diferentes em muitos sentidos, éramos unidos. Entretanto, não combinávamos quanto a como entoar os cânticos. Os irmãos do norte entoavam com uma cadência viva, enquanto os do sul cantavam vagarosamente, e com tal sentimento que era uma pena fazê-los mudar. Assim, o irmão que presidia decidiu que os do sul da Itália cantassem primeiro, seguidos pelos do norte.”

O TRABALHO COMEÇA A DECLINAR

O trabalho de pregação era promissor. O relatório publicado em The Watch Tower, de 1.º de dezembro de 1924 (ed. inglesa), comentou: “Foram providenciadas bicicletas para três colportores, que estão viajando através do país distribuindo publicações e vendendo livros. Temos grandes esperanças de uma ampla expansão da verdade na Itália no futuro próximo.”

Algum tempo antes disso, o irmão Cuminetti havia herdado 10.000 liras, uma soma considerável naqueles dias. Podia, portanto, devotar todo seu tempo para dar testemunho e encorajar os irmãos, visitando-os em seus próprios territórios. The Watch Tower, de 1.º de maio de 1925 (ed. italiana), trouxe um “Relato de Uma Viagem Através da Itália”, feita pelos irmãos Cuminetti e Martinelli no final de 1924. Viajaram tantos quantos 5.000 quilômetros para visitar irmãos em áreas isoladas e pessoas interessadas em várias regiões desde a Lombardia até a Sicília. O relato mostra que em Porto Sant’Elpidio (Itália central), deu-se a entrada de documentos para obter permissão para o uso de um salão no qual seria proferido um discurso e, “embora as autoridades refletissem no assunto por algum tempo, tiveram de nos conceder a licença, afinal, em vista de nossa insistência . . . No dia do discurso, mais de 200 pessoas vieram ouvir: ‘É Iminente a Volta dos Mortos.’” Foi, inquestionavelmente, um grande sucesso.

Daí, por vários motivos, o trabalho pouco a pouco começou a declinar. Entre 1926 e 1927, três dos colportores tiveram de retornar à Suíça por motivo de saúde e outras razões. A causa principal do declínio, entretanto, foi a concordata assinada em 1929 entre a Igreja Católica e o Estado Fascista, concedendo privilégios excepcionais à Igreja. Isto marcou o começo de um triste período de repressão religiosa.

Alguns pequenos focos da verdade continuaram a brilhar, cá e acolá. Em alguns lugares havia pequenos grupos de irmãos ou apenas pessoas isoladas, e era difícil comunicar-se com eles e mantê-los unidos. Eram como brasas incandescentes escondidas sob as cinzas, em perigo de se extinguirem por completo. E, de fato, algumas se extinguiram. Em uma de suas cartas, o irmão Cuminetti descreveu a situação assim:

“Gostaríamos de fazer muito mais, porém estamos sob observação cada vez mais severa . . . eles interceptam tudo. Recebemos A Idade de Ouro [agora Despertai!] até março, e então deixou de vir. Brooklyn informou-nos de que enviaram vários volumes contendo livros e folhetos mais recentes, mas nada foi recebido. Cada vez menos exemplares de A Sentinela estão chegando ao seu destino, e quaisquer irmãos que mostrem zelo são presos pelo inimigo . . . outros são ameaçados com o exílio em outra parte do país e com toda sorte de tratamento hostil.”

O TRABALHO DO REINO NÃO FICOU COMPLETAMENTE SUPRIMIDO

Não teria sido muito difícil para o clero, apoiado pelos seus partidários fascistas, controlar as atividades de algumas dezenas de pessoas e, eventualmente, eliminá-las por completo, se não fosse que ‘a mão de Jeová não se tinha tornado tão curta que não pudesse salvar, nem se tinha seu ouvido se tornado tão pesado que não pudesse ouvir’. (Isa. 59:1) Ele não permitiu que seus leais fossem sobrepujados.

Aqui e ali pequenos grupos de publicadores do Reino conseguiram sobreviver. E o próprio fato de que vieram à existência e perseveraram mostra que Jeová os protegeu por meio de sua poderosa força ativa.

O GRUPO EM PRATOLA PELIGNA

As boas novas do Reino foram trazidas pela primeira vez a Pratola Peligna, na província de Áquila, em 1919 por um emigrante que conheceu a verdade nos Estados Unidos. Este irmão, Vincenzo Pizzoferrato, permaneceu fiel à chamada celestial até sua morte em 1951. Trabalhou como vendedor viajante de frutas nas vizinhas cidades de Sulmona, Raiano e Popoli, onde chegava com seu carrinho-de-mão carregado de frutas e publicações para distribuição. O Plano Divino das Eras, A Harpa de Deus e outras publicações foram assim distribuídas, e um pequeno grupo de pessoas interessadas logo começou a juntar-se a ele.

Em 1924, quando terminava a distribuição do tratado É Iminente a Volta dos Mortos, próximo ao cemitério de Popoli (Pescara), um sacerdote acompanhado por jovens fascistas interrompeu sua atividade e o levou para a delegacia local, para interrogatório. No entanto, como ficou evidente, o maresciallo (delegado) era bem favorável à mensagem. Ele chamou todos os carabinieri (polícia nacional) da delegacia para ouvir o irmão, de modo que foi dado um excelente testemunho e se distribuiu publicações. Para certificar-se de que o irmão Pizzoferrato não tivesse mais quaisquer problemas com os fascistas, o maresciallo mandou dois policiais escoltarem-no até a estação ferroviária.

Em 1925, quando foi realizada a assembléia em Pinerolo, o irmão Pizzoferrato esteve presente com sua esposa e uma pessoa interessada que se tornou irmão. Naquela ocasião, já havia um grupo de cerca de 30 pessoas se reunindo em sua casa e, mais tarde, quando uma família construiu uma nova casa, foi reservada uma sala para uso como Salão do Reino.

Em 1939, o clero conseguiu provocar problemas junto às autoridades, e os irmãos acharam-se em sérias dificuldades. As publicações foram confiscadas, e foi proibida a realização de reuniões. O irmão Pizzoferrato, detido e julgado perante o Tribunal Especial de Roma, foi sentenciado à prisão. Foi libertado dentro de pouco tempo, devido à sua saúde precária, e imediatamente começou outra vez a proclamar as “boas- novas”, apesar do perigo de outra detenção. Assim, o grupo local de irmãos nunca foi completamente suprimido.

O GRUPO DE ROSETO DEGLI ABRUZZO

Roseto degli Abruzzo é um vilarejo costeiro, na província de Téramo. Os habitantes locais ouviram a verdade pela primeira vez de uma irmã chamada Caterina Di Marco. Nascida em Roseto, emigrou para os Estados Unidos onde entrou em contato com a verdade em 1921, em Filadélfia. Foi batizada um ano mais tarde e retornou a Roseto degli Abruzzo em 1925. O que fez ao voltar? A irmã relata:

“Ao retornar, comecei imediatamente a falar a outros sobre a fé. Até mesmo costumava distribuir tratados e folhetos na praia, próximo das cabinas de banho. Certo homem da localidade leu um dos folhetos e exclamou: ‘Ah! Esta deve ser aquela nova religião que a Caterina trouxe dos E.U.A.’ Ele queria ler o restante das publicações que eu tinha em meu poder. Ele o fez e convenceu-se de que era a verdade.” Ele foi o primeiro e, mais tarde, outras pessoas sinceras fizeram o mesmo. O irmão DeCecca certa vez descreveu a irmã Di Marco como “uma verdadeira espada” dirigida contra os opositores religiosos. Embora enferma, esta irmã de 85 anos continua a manter sua integridade e a apegar-se à sua esperança.

Domenico Cimorosi, o primeiro a entrar na verdade em resultado da pregação dela, serviu como pioneiro regular até sua morte, à idade de 87 anos. Alguns anos antes de sua morte, escreveu o seguinte relato de como o trabalho começou naquela área:

“Comecei a falar da verdade com meu irmão, meu pai, meu primo e meus colegas de trabalho. No final, cerca de cinco ou seis de nós estávamos lendo o único pequeno folheto que eu tinha, Consolo Para o Povo, e conferindo os textos em nossas Bíblias. Decidimos visitar Caterina Di Marco, a senhora que havia voltado dos E.U.A. Imediatamente vimos a lógica das explicações que ela nos deu e começamos a realizar reuniões em seu lar. Embora logo em seguida os fascistas tentassem nos apanhar, com a ajuda de Jeová conseguimos manter em segredo nossos locais de reunião.”

A intolerância religiosa não tardou em se fazer sentir contra o pequeno grupo de pessoas sinceras. “O sacerdote da paróquia processou-me por distribuir o tratado Acusados os Eclesiásticos”, relata Caterina Di Marco. “Fui absolvida mas meus problemas não terminaram. Mais tarde foi detida pela primeira vez por não ter ido ouvir um discurso proferido pelo Il Duce [o líder, Mussolini]. O magistrado perguntou-me por que não tinha ido. Respondi por citar o terceiro capítulo de Daniel, sobre os três hebreus que recusaram curvar-se perante a imagem de ouro. Sentenciaram-me a cinco anos de exílio em outra parte da Itália.”

Vittorio Cimorosi, o filho de Domenico, recorda que as publicações eram freqüentemente confiscadas durante os anos 30. Apesar disso, alguns exemplares de A Sentinela e outras publicações chegaram ao seu destino. Ele relata: “O irmão DeCecca freqüentemente escrevia para meu pai e a outros interessados, enviando-lhes alimento espiritual. Ele geralmente usava expressões indiretas para evitar comprometer-nos. Certa vez escreveu: ‘Se vocês não têm “Inimigos”, encontrá-los-ão em Montone.’ Agindo conforme a sugestão, o irmão Guerino Castrona foi ao vilarejo de Montone onde encontrou um homem que tinha o livro Inimigos e outras publicações.

O GRUPO EM MALO

“Nunca poderei agradecer completamente a Jeová pela preciosa dádiva de ser temente a Deus desde minha juventude.” Estas palavras foram escritas por Girolamo Sbalchiero, um irmão que permaneceu fiel à sua designação cristã até sua morte, em 1962. Sua história pessoal está intimamente ligada à de um grupo de Testemunhas que iria, com o tempo, tornar-se uma florescente congregação.

O irmão Sbalchiero era antes um católico zeloso. Costumava usar uma corda cheia de nós em volta da cintura nua, com a qual se flagelava e mortificava sua carne como penitência por seus pecados. Costumava orar freqüentemente, ajoelhado em cima de pedrinhas, de modo que pudesse oferecer seu sofrimento a Deus. Também costumava tomar parte em longas peregrinações a pé, certa vez cobrindo uma distância de 50 quilômetros. Daí, em 1924, Girolamo ouviu a mensagem do Reino pela primeira vez de uma pessoa que tivera contato com as Testemunhas nos E.U.A. Qual foi sua reação? Este devoto carpinteiro de Malo, pequeno vilarejo perto de Vicenza, em Veneto, escreveu:

“Eu trabalhava de dia e lia as Escrituras à noite. Meu patrão me dera uma Bíblia porque não a queria para si, e, embora eu não entendesse grande parte do que lia, fiquei muito impressionado com o relato sobre a batalha do Har-Magedon, e imediatamente comecei a falar a outros sobre isso. Escrevi para o irmão Cuminetti, que estava servindo em Pinerolo, e suas cartas me foram de grande ajuda. No entanto, sem nenhuma ajuda pessoal, levei oito anos para entender bem a verdade. Quando a compreendi, parei de ir à igreja e de receber a Comunhão, como fizera cada manhã durante toda minha vida até então.”

A perseguição não tardou. “Para estudar a Bíblia”, diz ele, “costumávamos nos esconder atrás de sebes em lugares isolados. Uma vez, até mesmo celebramos a Comemoração numa caverna. Outros se interessaram e se juntaram a mim. Numa tarde de domingo, cinco de nós nos reunimos em um lar particular para estudar as Escrituras. Depois de algum tempo o pároco local invadiu a casa e nos insultou, dizendo que éramos ignorantes demais para entender a Bíblia. Acrescentou que só os sacerdotes tinham o poder de salvar almas”.

Após acalorada discussão, em que o sacerdote não foi capaz de responder nenhuma das perguntas que lhe foram feitas, ele mandou chamar a polícia. Entretanto, o maresciallo (delegado) conhecia o irmão e sabia que este era altamente respeitado na localidade devido à sua bondade, por isso não tomou qualquer ação.

“Algum tempo depois”, continua o relato do irmão Sbalchiero, “a Sociedade decidiu efetuar uma campanha com o folheto O Reino, a Esperança do Mundo. Saí de bicicleta em direção a Pádua, com 165 folhetos, porém fui interceptado pela polícia, colocado em detenção e preparou-se um processo para que eu fosse exilado a outra parte da Itália. Afortunadamente, as autoridades de minha cidade natal souberam disso e intervieram em meu favor. Finalmente conseguiram minha libertação e acompanharam-me de volta para casa. Quando chegamos na praça principal, disseram-me: ‘Já não basta?’ Respondi: ‘De jeito nenhum. Estou mais determinado do que nunca.’ Com isso, entreolharam-se admirados”.

Giuseppe Sbalchiero, filho de Girolamo, relata: “Certo dia, eu disse a meu pai: ‘Como podemos resistir aos milhares de poderosos que se nos opõem e continuar a dar testemunho?’ Ele respondeu: ‘Não tenha medo, meu filho, porque esta obra não é “de homens, mas de Deus”.’” — Compare com Atos 5:33-40.

O GRUPO EM FAENZA

Lembra-se de Ignazio Protti, o colportor que veio da Suíça para a Itália em 1923? Bem, em 1924 ele teve a oportunidade de dar testemunho em Marradi, um pequeno povoado cercado de montanhas e bosques de castanheiras, onde nasceu. As sementes da verdade caíram em “solo excelente” e muitas pessoas aceitaram a verdade. (Mat. 13:8) Por sua vez, estas partilharam seu conhecimento com outras.

Alguns anos depois, em Sarna, Faenza, não muito distante de Marradi, um fazendeiro de nome Domenico Taroni recebeu alguma publicação. Ele prontamente aceitou as “boas novas”. Em 1927 fez uma assinatura de A Sentinela, porém recebeu apenas alguns exemplares. Provavelmente alguns escaparam por acaso à atenção das autoridades, e outros chegaram às ocultas. O irmão Taroni foi uma das primeiras testemunhas de Jeová na fértil região da Romagna. Um de seus primeiros contatos foi com Vincenzo Artusi, que se tornou um irmão fiel e depois serviu como ancião numa das três congregações de Faenza, até sua morte, em 1981. Vincenzo, por sua vez, conseguiu levar a verdade a outros, incluindo Emilio Babini e seu irmão Antonio. Ambos permaneceram fiéis a Jeová até a morte.

Estes irmãos zelosos reuniam-se em lares particulares. Tão logo foram identificados pelo clero, passaram a ser perseguidos. Alguns desistiram, mas outros mantiveram sua integridade. Os nove irmãos que em 1939 ainda restavam nesta área, foram mais do que suficientes para iniciar a extensa atividade do período do após-guerra.

O GRUPO EM ZORTEA

Em 1931 e 1932 dois emigrantes retornaram do exterior com a verdade em seus corações. Eram Narciso Stefanon, que veio da Bélgica, e Albino Battisti, que retornou da França. Começaram imediatamente a pregar — o primeiro em Zortea, um pequeno povoado de algumas centenas de habitantes, empoleirado a uns mil metros numa encosta de montanha; o segundo, que ouvira a verdade de irmãos poloneses, em Calliano, que fica a cerca de 15 km de Trento.

Antes de retornar à Itália, Narciso Stefanon mal teve tempo de assinar para A Sentinela e ler algumas outras publicações da Sociedade. De volta para Zortea, continuou a freqüentar a igreja por algum tempo e, foi exatamente ali, na igreja, que deu seu primeiro testemunho. Certo dia, na missa, o padre proferiu um sermão explicando partes do Evangelho, e Narciso contestou publicamente o que ele disse, usando a versão Diodati da Bíblia para mostrar em que o sacerdote estava errado.

A congregação se dividiu em duas facções opostas, uma apoiando Stefanon, a outra o sacerdote. Com o tempo, porém, como resultado da influência do sacerdote, o primeiro grupo definhou gradualmente, e apenas poucas pessoas realmente aceitaram a mensagem do Reino. Narciso Stefanon deixou a Igreja Católica de uma vez para sempre, e outros se juntaram a ele em estudar as publicações do “escravo fiel e discreto”. (Mat. 24:45-47, Tradução do Novo Mundo) Costumavam reunir-se em palheiros, em estábulos e em qualquer outro lugar em que pudessem escapar à vigilância do clero e, também, dos fascistas. Naquela época o regime caçava sem misericórdia os verdadeiros cristãos.

Uma das pessoas com ‘ouvidos que escutam’ era Francesco Zortea. Seu sobrenome e o nome do povoado eram o mesmo. Quando ouviu pela primeira vez a verdade, em 1933, ele tinha 25 anos; desde então continuou a demonstrar sua inquebrantável fé em Jeová até falecer, em 1977.

Num relato sobre seu ministério cristão, o irmão Zortea escreveu:

“Éramos espionados, seguidos e mantidos sob controle a tal ponto que tínhamos de nos esconder quando queríamos consultar as Escrituras. Tive muitas experiências pessoais desse tipo, e elas serviram para fortalecer minha fé em vez de enfraquecê-la. Em abril de 1934, viajei a pé para Fonzaso (Belluno), a cerca de 20 quilômetros de minha casa, para dar testemunho ali. Ao ir de casa em casa com a mensagem do Reino, fui interrompido pelos ‘carabinieri’ e levado para a delegacia. Uma vez lá, fui interrogado, minhas publicações foram confiscadas e fui lançado numa cela, onde fiquei até a manhã seguinte.

“Posteriormente, em julho de 1935, foi notificado para ir à delegacia para receber um comunicado oficial urgente. Quando cheguei, o ‘maresciallo’ disse-me: ‘Senhor Zortea, temos de informá-lo de que seu caso foi encaminhado para a ‘pretura’ [tribunal do magistrado local] de Trento, e essa autoridade exige uma declaração do senhor, especificando a espécie de atividade em que está empenhado.’ Eu lhes disse que estava ‘anunciando o reino de Deus’ para as pessoas.

“Pouco depois, no mês de agosto, fui novamente intimado a apresentar-me urgentemente na delegacia de polícia. Nessa ocasião foi-me dito que a ‘pretura’ de Trento não estava satisfeita com minha primeira declaração. Eles queriam outra, esclarecendo o que eu queria dizer com a expressão ‘anunciando o reino de Deus’. Então expliquei o significado bíblico dessa expressão, em harmonia com as palavras ‘venha o teu Reino’, da oração do Senhor. Devem ter confundido o Reino com um governo político!” — Mat. 6:9, 10.

No entanto, as verdadeiras dificuldades desse irmão estavam por vir. Em outubro de 1935, a Itália declarou guerra à Etiópia, e quando o irmão Zortea foi convocado para o serviço militar, decidiu manter a neutralidade. Ele escreveu: “Recusei vestir um uniforme e lutar contra meu semelhante.” Em resultado, foi sentenciado a cinco anos de exílio noutra parte da Itália. Os irmãos Stefanon e Battisti sofreram o mesmo destino.

No exílio em Muro Lucano, na província de Potenza, o irmão Zortea continuou com a atividade de pregação. Ele relatou: “Assim que me fixei ali, entrei em contato com o irmão Remigio Cuminetti solicitando-lhe publicações para prosseguir no serviço de pregação. Pouco depois recebi um pacote de folhetos, que comecei a distribuir com prudência. Usava vários métodos. Alguns entreguei pessoalmente; outros deixei nos assentos públicos à beira da estrada ou no interior dos carros estacionados.”

Graças à anistia do governo, pôde retornar à sua casa em Zortea, em 1937, a tempo de testemunhar um outro episódio da intolerância religiosa que o clero manifestou para com as Testemunhas de Jeová. Uma das irmãs locais faleceu, e o sacerdote não permitiu que fosse sepultada no cemitério da paróquia sob o pretexto de que, se assim o fizesse, estaria profanando solo sagrado. Três dias se passaram e a situação continuava nesse impasse. Então os sacerdotes da paróquia de Zortea e os do povoado vizinho de Prade tiveram uma reunião com o secretário da Câmara Municipal e o podesta (o prefeito sob o fascismo). O que aconteceu depois bem poderia ter sido extraído de um relato sobre os primitivos cristãos. O irmão Zortea escreveu:

“Somente ao meio-dia do terceiro dia é que fomos informados de que o funeral devia ser realizado imediatamente e que o corpo tinha de ser enterrado em Prade, onde a Câmara possuía um pedaço de terra no cemitério. Então partimos. Éramos quatro, acompanhados por membros da família da irmã e outras pessoas interessadas. Fomos acompanhados por um funcionário da Câmara Municipal e uma escolta policial. Ao longo do caminho éramos saudados com risos, vaias e zombarias, e, quando chegamos a Prade, encontramos uma multidão esperando para observar o ato final da comédia, que devia ser mais interessante.

“Fora decidido que não se nos permitiria entrar no cemitério através do portão porque este tinha sido ‘abençoado’. Por conseguinte, tínhamos de passar o caixão por cima do muro, através de duas escadas, uma do lado de dentro e outra do lado de fora do cemitério. A multidão viera para divertir-se com o espetáculo da passagem do caixão por cima do muro. Nessa conjuntura, o funcionário da Câmara interveio para indagar quem era o responsável por tal arranjo. Foi-lhe dito que a decisão fora tomada pelo sacerdote local. Nisso o funcionário replicou que o prefeito dera ordens para que o funeral passasse através do portão, e isto foi o que nos consentiu fazer então.”

OS GRUPOS EM MONTESILVANO, PIANELLA E SPOLTORE

No começo da década de 1930, Luigi D’Angelo regressou a Spoltore, na região de Abruzzo. Ele conheceu a verdade na França, e ao regressar mostrou amor cristão aos seus parentes, amigos e vizinhos por partilhar com eles o que sabia. Os irmãos que ainda se lembram dele têm o seguinte a dizer:

“Ele era muito ativo e cheio de zelo. Freqüentemente viajava muitos quilômetros para visitar irmãos isolados, apesar das muitas dificuldades que tais jornadas impunham. As bicicletas eram o meio de transporte mais comum naqueles dias, e é encorajador para nós hoje relembrar uma de suas mais longas viagens, quando pedalou uma distância total de quase 600 quilômetros através dos montes Apeninos para visitar um irmão residente em Avelino. Antes de partir, ele procurou uma vara resistente para atar à bicicleta para o caso de deparar com lobos enquanto fazia sua travessia pelas montanhas. Ele fixou também um coxim sobre o assento e partiu cheio de entusiasmo, inflamado com o desejo de edificar outro irmão por meio do companheirismo cristão tão necessário para todos nós. Seu ministério durou pouco porque veio a adoecer e falecer em 1936.”

As sementes da verdade plantadas por este irmão, no entanto, não morreram. Antes, essas sementes germinaram segundo a vontade de Deus, que “faz crescer”. (1 Cor. 3:7) Assim foi que, a partir de uma única Testemunha, grupos de publicadores foram formados nas cidades de Montesilvano, Pianella e Spoltore, na província de Pescara. Estes irmãos também tinham de ‘apanhar a sua estaca de tortura’ e sofrer perseguição como seguidores de Jesus Cristo. — Lucas 9:23.

A família Di Censo, de Montesilvano, foi uma das que aceitaram a mensagem do Reino. Desfizeram-se de suas imagens religiosas e logo depois seu lar tornou-se um lugar de reuniões para aqueles que queriam estudar as Escrituras Sagradas. O que aconteceu então? A irmã Mariantonia Di Censo, que continua fiel no caminho da verdade, relata:

“Logo o clero começou a se opor a nós. Organizaram uma imponente procissão da qual o povoado inteiro participou. A procissão desfilou vagarosamente ao redor de nossa casa e então os participantes fincaram uma cruz no solo e bradaram: ‘Protestantes, saiam! Voltem para a igreja!’ Tornamo-nos um espetáculo público. Estávamos sozinhos diante dessa oposição, e somente Jeová podia sustentar-nos e conferir-nos a força necessária para defender a verdade e prosseguir.”

Gerardo Di Felice, outro membro do grupo de Montesilvano, teve sua fé provada em várias ocasiões. Certa vez, enquanto realizava um estudo bíblico em seu lar, um grupo de fascistas fanáticos, instigado pelo clero, irrompeu casa adentro e o espancou, deixando-o inconsciente no chão.

Posteriormente manteve sua neutralidade com firmeza e coragem. Ele escreveu: “Primeiramente fui enviado a Bari, para o hospital militar, e em seguida para o centro de tratamento psiquiátrico em Bisceglie [onde recebeu alta sob o pretexto de que sofria de ‘paranóia’]. Certo dia uma freira surpreendeu-me lendo a Bíblia sob meu travesseiro. Ela a confiscou, dizendo que se tratava dum livro pernicioso.”

O irmão Francesco Di Giampaolo, um relojoeiro de Montesilvano, narra: “Estava ocupado em meu trabalho quando um grupo de desordeiros, instigados pelo sacerdote, começou a arremessar grandes pedaços de lama no prédio onde eu morava. Meus vizinhos e outros inquilinos logo correram para fora, gritando: ‘Não somos protestantes!’ Eles foram atingidos mas eu saí ileso.”

UMA CAMPANHA RELÂMPAGO

Retornemos agora ao ano de 1932. O irmão Martin Harbeck, o superintendente de filial na Suíça, cria que a obra na Itália poderia ganhar maior impulso se o escritório estivesse numa área mais central numa importante cidade, ao invés de estar situado em Pinerolo. De modo que se abriu um escritório em Milão naquele ano. O irmão Cuminetti julgava ser imprudente mudar-se para uma outra cidade naquele tempo de dura perseguição, de sorte que permaneceu em Pinerolo e continuou a manter contato com os irmãos, valendo-se de métodos dissimulados.

O novo escritório foi aberto em Corso di Porta Nuova, número 19. Era um apartamento conveniente, dotado de escritórios bem-mobiliados. A irmã Maria Pizzato foi designada para trabalhar ali como secretária do irmão Harbeck.

É interessante como a irmã Pizzato aprendeu a verdade. Talvez se lembre de que no começo do século, A Sentinela era distribuída por jornaleiros nas principais cidades provinciais. Bem, durante os anos de 1903 e 1904, a mãe de Maria Pizzato adquiriu alguns exemplares de um jornaleiro na praça Vittorio Emanuele, em Vicenza, uma das maiores da cidade. Não foi senão muitos anos depois, em 1915, que Maria Pizzato leu estas revistas de novo com maior atenção. Nessa época seu interesse foi despertado e ela decidiu escrever para Pinerolo. A então irmã Clara Cerulli respondeu-lhe e enviou-lhe algumas publicações. E foi assim que Maria Pizzato começou a apreciar o verdadeiro conhecimento vitalizador.

O novo escritório em Milão foi registrado na Câmara do Comércio local sob o nome de “Società Watch Tower”, uma sociedade para a impressão e distribuição de livros e folhetos bíblicos. O irmão Harbeck era o encarregado. Foi aberta uma conta no Correio e alugou-se uma caixa postal. Tudo estava pronto e aguardava-se confiantemente que extensiva atividade pudesse agora ser efetuada através do país.

O trabalho devia principiar com uma campanha usando-se o folheto O Reino, a Esperança do Mundo. Devia ser executado tão rapidamente de modo que a temida O.V.R.A. (a polícia secreta que tinha que ver com atividades antifascistas) fosse apanhada de surpresa. Havia pouquíssimos irmãos italianos naquele tempo, dificilmente mais do que 50 ao todo. De modo que o escritório em Berna providenciou que 20 irmãos suíços levassem a cabo o trabalho de distribuição em si, a fim de evitar criar dificuldades para os irmãos locais. Cada um desses publicadores suíços foi para uma cidade diferente nas partes norte e central da Itália, descendo até Florença, para distribuir o folheto de porta em porta, nas ruas e nas praças públicas.

Um exemplar grátis do folheto foi também enviado por correio a todos os profissionais e intelectuais na província de Milão. Naquele tempo a lei proibia a importação de literatura do exterior. Assim, o folheto foi impresso pela Archetipografia, em Milão. Três exemplares foram submetidos à apreciação do órgão controlador de imprensa da prefettura (prefeitura) para obtermos a licença necessária, e esta foi concedida.

Como reagiriam a esta campanha teocrática relâmpago as autoridades eclesiásticas e políticas? Tudo estava pronto vários dias antes da data designada, que era poucos dias antes de 19 de março, o dia de S. José no calendário católico. Referente a esta campanha especial, a irmã Adele Brun, uma das 20 Testemunhas suíças que tomaram parte, escreveu:

“Fui enviada a Turim. O irmão Boss, de Berna, estava esperando por mim. Ele já tinha reservado um quarto para mim e 10.000 exemplares do folheto, em vários pacotes, haviam sido guardados num armazém local. Disse-me que entrasse em contato com jornaleiros locais e combinasse com eles para me ajudarem na distribuição, porque o trabalho devia ser executado tão rápido quanto possível. Fiz isso. Daí, o irmão foi embora e fiquei por minha conta.

“Contatei ao todo 12 vendedores de jornal, e ficou combinado que cada um receberia 20 liras para distribuir o folheto no dia. Escolhi a pessoa mais hábil dentre eles para dirigir as operações, e lhe prometi 10 liras extras se organizasse bem as coisas. Escolhi também quatro jornaleiros para atuarem como centros fornecedores onde os folhetos podiam ser obtidos conforme necessário. A atividade foi muito bem sucedida. Os folhetos foram deixados em toda parte, incluindo restaurantes e escritórios.

“Então, ao meio-dia, o proprietário do armazém onde os folhetos estavam guardados veio dizer-me que este estaria fechado no dia de S. José, o dia seguinte. O que devia eu fazer? Se esperasse até depois do feriado, daria tempo aos sacerdotes de confiscarem a literatura.

“Por volta das três horas da tarde os jornaleiros começaram a regressar, um após outro. Estavam muito cansados e queriam voltar para casa porque não haviam tido ainda a oportunidade de comer alguma coisa. Ao invés de enviá-los para casa, saí para comprar algumas provisões e então tomamos juntos uma refeição. Em seguida propus: ‘Se vocês terminarem o trabalho até o anoitecer, lhes darei 10 liras extras.’ Eles concordaram em prosseguir, e depois de um breve descanso saíram de novo ao trabalho. Pelo fim da tarde tinham distribuído todos os folhetos.”

Depois de ter prosseguido com a campanha na cidade de Novara, era hora da irmã Brun partir. Ela relatou: “Tomei um trem para Milão, onde 200.000 exemplares do folheto tinham sido apreendidos, e segui na mesma noite para a Suíça, onde meu marido aguardava-me ansiosamente. A atividade fora realizada tão rápida e inesperadamente que nenhum dos 20 irmãos foram detidos.”

Apesar da quantidade de literatura confiscada, calculou-se que cerca de 300.000 folhetos foram distribuídos!

Não demorou muito a manifestar-se a resistência. “Apenas dois ou três dias depois da campanha”, relata a irmã Pizzato, “os jornais, especialmente aqueles sob influência clerical, começaram a difundir um ataque furioso contra nós. O escritório em Corso di Porta Nuova foi inundado de perguntas, e chegavam cartas de toda a Itália com pedidos de livros ou explicações.

“Nessa conjuntura, dois policiais chegaram ao escritório e ordenaram que o irmão Harbeck e eu nos apresentássemos imediatamente ao órgão controlador de imprensa na questura [chefatura de polícia]. Ali, após várias perguntas, o irmão Harbeck recebeu instruções para fechar o escritório. Concordou-se que poderíamos ter de volta os folhetos confiscados, sob a condição de que estes fossem exportados para a Suíça. Explicaram que estas medidas tinham sido tomadas para salvaguardar o prestígio e a dignidade da Igreja Católica, em conformidade com o Tratado de Latrão.”

O fechamento do escritório de Milão, apenas alguns meses após sua abertura, deixou o irmão Cuminetti sozinho para prosseguir com sua paciente e clandestina correspondência com os irmãos. Ocasionalmente enviava-lhes publicações ou cartas pessoais e quando possível, fazia-lhes visitas para encorajá-los no trabalho do Senhor.

Em 1935 o irmão Cuminetti mudou-se de Pinerolo para Turim, à Via Borgone número 18, onde prosseguiu com sua atividade dissimulada. Este arranjo foi mantido até que o irmão Cuminetti faleceu em 18 de janeiro de 1939, após uma operação. Ele testemunhou a médicos e enfermeiras até o fim, e, embora mal tivesse 50 anos, sua morte provavelmente poupou-lhe ter que suportar outra “odisséia” durante a Segunda Guerra Mundial. Outras Testemunhas teriam o privilégio de demonstrar sua integridade a Jeová durante aquele tempo de grande perseguição.

A GRANDE PERSEGUIÇÃO

A declaração de guerra à Etiópia feita pela Itália em 1935, e sua decisão de entrar na Segunda Guerra Mundial em junho de 1940, contribuíram para piorar a perseguição contra as poucas Testemunhas de Jeová no país. À medida que o tempo passava, tornava-se cada vez mais difícil que os irmãos mantivessem sua neutralidade.

A filial da Suíça fez o melhor que pôde para manter contato com os publicadores do Reino, e, em 1939, a irmã Adele Brun foi designada para visitar os irmãos nas partes norte e central da Itália. Suas visitas estenderam-se por um período de três semanas. Alguns irmãos ainda se lembram do prazer e do encorajamento que receberam dessas visitas edificantes. Ao retornar à Suíça, a irmã Brun soube por intermédio de sua irmã viúva, Albina, que a polícia estivera constantemente no seu encalço.

Embora os publicadores fossem poucos e morassem distantes uns dos outros, a pregação clandestina foi organizada, especialmente pelo irmão Martinelli. Publicações foram trazidas para o país por pessoas que trabalhavam no outro lado da fronteira, na Suíça. Elas voltavam para casa ao anoitecer, trazendo a literatura bem escondida.

Daí, o irmão Harbeck teve uma reunião secreta com a irmã Pizzato para incentivá-la a entrar em contato com os irmãos que tinham perdido a comunicação com a organização após a morte do irmão Cuminetti. A filial em Berna deu-lhe cerca de 50 endereços. Seu estoque de publicações estava guardado em Milão no lar de uma pessoa aparentemente interessada, a filha de sua irmã cristã falecida. Contudo, esta mulher deve ter colaborado de alguma maneira com a polícia. A irmã Pizzato relata:

“Esta nova fase do trabalho foi de muito curta duração. Em setembro de 1939 começamos a expedir os pacotes. Eles não excediam a três quilos porque, segundo a legislação postal em vigor naquele tempo, não era necessário indicar o endereço do remetente em pacotes desse tamanho. Eu costumava empacotar as publicações à noite e, para não levantar suspeita, entregava os pacotes em diferentes agências postais na manhã seguinte, a caminho do trabalho.”

Todavia, algo aconteceu para desencadear a perseguição contra as Testemunhas. Infelizmente, em 28 de outubro de 1939, um desses pacotes foi aberto por um funcionário do correio de Montesilvano. Continha vários folhetos e o livro Inimigos. O conteúdo foi imediatamente entregue à polícia, e a investigação resultante logo revelou a procedência do pacote, apesar de este não trazer o nome do remetente. As publicações tinham sido endereçadas à irmã Mariantonia Di Censo, e ela foi detida no dia seguinte. Então, em 1.º de novembro, membros da polícia fascista, O.V.R.A., compareceram à casa da irmã Pizzato. Ela relata:

“Bem cedo de manhã a polícia invadiu minha casa na Via Vincenzo Monti, 28, Milão. Havia sete deles — seis policiais e um commissario [comissário de polícia]. Eles investiram para dentro do quarto e rispidamente ordenaram-me que levantasse as mãos, como se eu fosse perigoso bandido. Logo encontraram o que consideravam ser material incriminatório — uma Bíblia e literatura bíblica!”

A O.V.R.A. encontrou os endereços de vários outros irmãos no apartamento da irmã Pizzato, e foi assim que a polícia fez incursões nos seus lares. De outubro até princípios de dezembro, aproximadamente 300 pessoas foram interrogadas pela polícia, embora muitas delas fossem tão-somente assinantes da Sentinela ou possuíssem publicações da Sociedade. Cerca de 120 a 140 irmãos e irmãs foram detidos e sentenciados. Destes, 26, considerados como líderes, foram conduzidos perante o Tribunal Especial.

Guerino D’Angelo, um dos deste último grupo, relata o que aconteceu quando ele foi detido: “Eu estava plantando milho para uma família de irmãos cujos varões já estavam na prisão. Somente as crianças e os idosos foram deixados em casa. A polícia chegou e ordenou-me que deixasse a semeadeira onde estava. Então levaram-me para a prisão, onde fui severamente surrado.”

Vincenzo Artusi relatou: “Em 15 de novembro de 1939, enquanto saía para trabalhar, encontrei dois policiais esperando por mim ao pé da escada. Perguntaram-me se eu era o senhor Artusi. Quando confirmei minha identidade, fizeram-me entrar em casa e aguardar, enquanto vasculhavam-na de alto a baixo. Reviraram tudo e deram uma batida geral com o fim de encontrar provas contra mim. Finalmente conseguiram pôr as mãos naquilo que procuravam — a Bíblia e o livro Inimigos. Levaram-me, sem nem mesmo me permitir beijar meus três filhos ou dizer-lhes adeus. Fui conduzido para uma sala cheia de policiais onde fui interrogado por três horas.”

A irmã Albina Cuminetti, que acabara de ficar viúva, foi detida e julgada pelo Tribunal Especial. Ela escreveu:

“Fui detida e conduzida à prisão de carro. Havia dois agentes de polícia, um commissario e um alto oficial do Ministério do Interior no carro comigo. Achei graça ao pensar que eram necessários quatro homens, dois dos quais eram oficiais de alta patente, para deter uma mulher frágil como eu. Não estava temerosa deles; ao contrário, falei-lhes fervorosamente a respeito do reino de Deus. Eles riram mas eu lhes disse que não estavam ridicularizando a mim mas sim as promessas de Jeová Deus, e isto não podia ser feito com impunidade. Acrescentei que seu sarcasmo redundaria em amargura. Deveras, aquele commissario e o oficial morreram ambos na prisão depois da queda do fascismo.”

GOVERNO FASCISTA ADOTA MEDIDAS ESPECIAIS

Já mencionamos o fato de que a perseguição contra os verdadeiros cristãos tornou-se mais severa após 1935. Por quê?

Em 9 de abril de 1935, o Departamento de Cultos do Ministério do Interior emitiu uma circular sobre “Associações Pentecostais”. Naquele tempo as autoridades não haviam identificado apropriadamente as Testemunhas de Jeová e pensavam que fôssemos parte da comunidade “pentecostal”. A circular foi enviada para os centros de administração das províncias, exigindo a dissolução imediata dessas associações, cuja atividade declaravam ser “contrária à nossa ordem social, e prejudicial ao bem-estar físico e mental de nossa gente”.

Em 22 de agosto de 1939, uma outra circular (N.º 441/027713) foi emitida, com referência a “Seitas Religiosas Pentecostais e Semelhantes”, que declarava:

“Já por vários anos, a existência de determinadas seitas religiosas evangélicas trazidas do exterior, mais especificamente dos E.U.A., tem sido observada na Itália. Suas doutrinas são contrárias a qualquer governo estabelecido. . . .

“Os ‘pentecostais’ são extremamente ativos e propagandistas pertinazes, e, após recentes medidas adotadas contra eles, procuram reunir-se onde quer que possam, mesmo a céu aberto na zona rural. Não raro, porém, reúnem-se no lar de um de seus adeptos, de dia ou de noite, para escapar da atenção vigilante das autoridades. . . .

“Recentemente, houve casos de indivíduos convocados para o serviço militar que recusaram-se a participar de tiro ao alvo porque, como ‘pentecostais’, são contra o uso de armas por princípio.

“É, portanto, necessário opor-se a tais seitas com a máxima determinação. . . .

“Para este fim, instamos que seja levada a cabo uma investigação acurada para apurar a eventual existência desses grupos ‘pentecostais’, ou outras seitas similares, nas várias províncias. Medidas legais devem ser tomadas contra qualquer um que for encontrado participando de reuniões, ritos religiosos ou atividades de propaganda. Instruções devem ser solicitadas ao Ministério quanto a como proceder em outros casos. Ademais, recomendamos que todos os adeptos conhecidos das seitas em questão sejam mantidos sob estrita vigilância e que eles e suas casas sejam regularmente examinados à menor suspeita, para averiguar se estão de posse de matéria impressa com fins de propaganda, ou se são mantidos contatos com concrentes tendo em vista a adoração. . . .

“Todos os folhetos confiscados até agora dos adeptos da seita ‘pentecostal’ são traduções de publicações americanas, quase sempre escritas por certo J. F. Rutherford e impressas pela ‘Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados — Associação dos Estudantes Internacionais da bíblia — Brooklyn, N.I., E.U.A.’ . . . Os folhetos têm os seguintes títulos . . . [seguiu-se a isto uma lista das publicações da Torre de Vigia].

“A introdução de tais folhetos no Reino e sua subseqüente circulação devem ser impedidas.

“Em conclusão, deve-se observar que, embora a seita dos ‘pentecostais’ seja a única identificada claramente, faz-se referência aqui às ‘seitas’ e não a uma única ‘seita’, porque os folhetos acima mencionados dão a impressão de que outras seitas ou correntes de pensamento têm surgido de dentro das várias religiões evangélicas originalmente reconhecidas . . .”

As medidas recomendadas nesta circular foram responsáveis pela onda de detenções que resultaram em encarceramentos em massa das Testemunhas de Jeová no fim de 1939.

RELATÓRIO A RESPEITO DAS TESTEMUNHAS

O Superintendente Geral de Polícia de Avezzano (Abruzzo), Dr. Pasquale Andriani, pôs em execução uma sindicância segundo as disposições estabelecidas na circular previamente mencionada. Em 12 de janeiro de 1940, enviou seu relatório ao Promotor Público do Tribunal Especial de Segurança do Estado. Remeteu também uma cópia ao chefe de polícia. O tema de seu relatório era: “A Seita Religiosa das ‘Testemunhas de Jeová’.” Eis aqui alguns dos pontos destacados:

“Numa circular remetida em agosto último, o Ministério do Interior forneceu instruções com respeito à identificação de membros das seitas que estendem suas atividades ao campo político. Deve-se, portanto, considerar tais seitas e lidar com elas da mesma maneira como se faz com movimentos políticos de natureza subversiva.

“Julgamos que o cumprimento eficiente dessas instruções requeria investigação adicional para diferençar entre as várias seitas que, em certas províncias do Reino, são representadas por grupos de adeptos muito unidos. . . .

“A seita [das Testemunhas de Jeová] é especialmente perigosa dum ponto de vista político. . . .

“Em suma, pode-se dizer que [do folheto ‘Aviso’] ‘Il Duce’ é assemelhado ao gigante Golias e que ‘a odiosa monstruosidade de hoje é o Regime Totalitário sob um ditador absoluto e arbitrário’ e apoiado pela Igreja de Roma, ‘a grande meretriz’. Depois de ter subjugado o povo italiano, este Regime tem-se aventurado à conquista da Etiópia ‘as custas de muitas vidas humanas’. . . .

“Contudo, o aspecto mais sério da questão surge de seu respeito ao preceito cristão ‘não deves matar’, e de sua convicção de que de modo algum devem pegar em armas contra seus semelhantes.

“Acham, por conseguinte, que devem ser eximidos do serviço militar de toda espécie. Seus jovens recusam-se a receber treinamento preliminar e, se são presos à base disso, tornam a recusar participar ao completarem suas sentenças.”

O relatório também menciona uma circular que a irmã Pizzato costumava enviar aos irmãos e cita alguns trechos dela. Diz o relatório: “Por meio desta circular, de que incluímos uma cópia das muitas em nosso poder . . ., os crentes foram encorajados a não se privar ‘do alimento espiritual tão necessário nesses tempos calamitosos’ e informados de que um depósito fora estabelecido em Milão, de onde a ‘literatura’ podia ser encomendada e se podia renovar as assinaturas para a revista ‘Sentinela’. Os recebedores foram também informados de que, ‘considerando a difícil situação existente neste país’, era necessário ser ‘muito discreto’ ao solicitar literatura. Os pedidos deviam ser redigidos segundo um código convencionado, por meio do qual um grupo de números ou letras eram usados, para indicar os livros solicitados: ‘Inimigos’ 1-33-1; ‘Aviso’ 2-44-2; ‘O Reino’ 3-55-3; ‘A Sentinela’ W.T.”

DESMASCARADOS OS INSTIGADORES

As autoridades movimentavam-se contra nós de modo nada incerto. Mas, por quê? Quem realmente estava por trás da campanha de detenções? Ao falar do fechamento do escritório em Milão, o relatório acima mencionado declarou explicitamente: “Depois de apenas alguns meses o escritório foi fechado pela polícia de Milão por causa do caráter antifascista dos livros distribuídos e da reação do clero católico.” (O grifo é nosso.)

O relatório prossegue mencionando a atividade das 26 Testemunhas detidas como sendo as principais responsáveis por esse movimento religioso na Itália.

Que o clero foi efetivamente o principal responsável por provocar problemas com as autoridades fascistas é demonstrado adicionalmente pelas acusações falsas contidas num artigo publicado no jornal católico Fides de fevereiro de 1939. Esse artigo, escrito por um “sacerdote e guardião de almas”, anônimo, declarava:

“Rutherford [o segundo presidente da Sociedade Torre de Vigia, dos E.U.A.] . . . mina os princípios básicos sustentadores das nações e povos. Sua idéia é preparar o caminho para uma iminente revolução mundial durante a qual todas as religiões, e especialmente a Igreja Católica, serão destruídas junto com todos os governos e reinos, a fim de que um sistema utópico de comunismo ateu possa ser introduzido. . . . O movimento das Testemunhas de Jeová é uma expressão de comunismo ateu e de ataque aberto à segurança do Estado.”

As autoridades fascistas dificilmente poderiam ignorar essas acusações do clero altamente respeitado. As Testemunhas de Jeová foram, portanto, perseguidas e acusadas de ‘subverter reinos e governos’ e de trabalhar para estabelecer uma ‘utopia comunista atéia’.

A OBRA É PROSCRITA TOTALMENTE

Após o recebimento desse relatório, o Ministério do Interior emitiu outra circular, a última no gênero, na qual as Testemunhas de Jeová eram claramente identificadas e proscritas. Tratava-se da circular N.º 441/02977 de 13 de março de 1940, aplicando-se a “A seita religiosa das ‘Testemunhas de Jeová’ ou ‘Estudantes da Bíblia’ e outras seitas religiosas cujos princípios são contrários às nossas instituições”. Declarava:

“Após a distribuição da circular do Ministério de 22 de agosto de 1939, N.º 441/027713, foi feita uma investigação mais rigorosa das seitas que se acham separadas e distintas da conhecida seita ‘pentecostal’, cujas doutrinas são contrárias ao nosso sistema estatal.

“Dessa investigação, foi possível apurar que a ‘Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados — Associação Internacional dos Estudantes da Bíblia — Brooklyn, Nova Iorque, E.U.A.’ . . . é uma seita evangélica independente, comumente conhecida como ‘Testemunhas de Jeová’ ou ‘Estudantes da Bíblia’. Uma consideração das declarações feitas por muitos dos seus [membros] detidos, e um exame da matéria impressa encontrada em seu poder, habilitou-nos a esboçar claramente as características da seita. . . .

“A única lei reconhecida pelas ‘Testemunhas de Jeová’ é a lei de Deus; contudo, elas admitem a observância da lei civil quando esta não entra em conflito com a lei divina. . . .

“‘As Testemunhas de Jeová’ declaram que tanto II Duce como o fascismo se originam do Diabo e que, após um triunfo de curta duração, esses fenômenos enfrentarão sua ruína infalivelmente, conforme predito no livro de Revelação. . . .

“Não se devem medir esforços, portanto, para coibir a menor manifestação de atividade desta seita. Visto que ela é sustentada por matéria impressa editada pela ‘Torre de Vigia’, vocês estão autorizados a adotar medidas vigorosas a fim de que tal literatura seja confiscada em cada oportunidade ou interceptada ao ser enviada por correio.”a

PERANTE O TRIBUNAL ESPECIAL

O Tribunal Especial Fascista veio à existência após um atentado contra Mussolini, em Bolonha, em outubro de 1926. Foi uma das muitas medidas adotadas para cortar pela raiz a dissidência antifascista. Oficialmente conhecido como “O Tribunal Especial de Segurança do Estado”, permaneceu em operação de 1927 até 1943, período em que se pronunciou cerca de 5.000 veredictos, inclusive 42 sentenças de morte (das quais 31 foram executadas). Sua sede localizava-se no Palácio da Justiça em Roma

Em 19 de abril de 1940, na sombria sala de tribunal do Palácio da Justiça, os juízes sentavam-se na sua imponente bancada semicircular sob a presidência do mui temido Tringali Casanova. As pessoas acusadas sentavam-se numa fileira num lado do tribunal, debaixo da vigilância de vários carabinieri (oficiais). Havia quatro mulheres e 22 homens, estes algemados. Era uma repetição do espetáculo ocorrido com os verdadeiros cristãos nos dias da Roma antiga.

A irmã Pizzato relata: “O julgamento não era nada senão uma farsa. Num único dia foi completamente encerrado, evidentemente as sentenças tendo sido julgadas de antemão. Rememorando isso depois de todos estes anos, lembro-me de um incidente que quase parece cômico. Eu era a primeira a ser convocada perante o tribunal, e, em resultado do estado de nervos em que me encontrava, dei um pulo e corri em direção ao presidente do tribunal. Evidentemente aguardando um ato de violência ou uma carga de invectivas, o carabinieri correu após mim e manteve-me à distância. O príncipe Tringali Casanova, presidente em exercício do tribunal, ficou bastante pálido!

“O tribunal designou alguns advogados do fórum de Roma para nossa defesa. Devo dizer que expuseram uma boa contestação para a defesa e falaram em nosso favor com tal fervor que o presidente, com sarcasmo evidente, perguntou a um deles se porventura havia se convertido à religião das Testemunhas de Jeová!”

Os sete advogados de defesa fizeram o melhor que puderam, mas os irmãos foram inevitavelmente declarados culpados. Um dos advogados teve a coragem de chamar as 26 Testemunhas de Jeová de “a elite da nação italiana”. Outro perguntou: “Se o regime fascista é tão forte como professa, por que está com medo destas pessoas?” Ainda outro disse: “Este julgamento me faz recordar um outro, ocorrido há 19 séculos, quando Pilatos propôs a pergunta: ‘Que verdade?’” Então apontou em direção aos irmãos e disse: “Estas pessoas aqui estão nos dizendo a verdade e ainda querem enviá-las para a prisão; estas pessoas deveriam ser altamente respeitadas por sua fé.” Outro advogado declarou: “Embora haja 26 deles, falam como se fossem um só homem porque todos têm o mesmo Instrutor.” — João 18:33-38.

Perante o Tribunal, os irmãos foram corajosos e fortes, apesar de alguns deles terem sido ameaçados sob interrogatório e temerem ser condenados à pena capital. O irmão Guerino D’Angelo relembra:

“Somente um de nosso grupo de 26 se deixou abater pelo temor do homem e transigiu. Ele assinou uma declaração de sujeição ao Estado Fascista, que foi lida em voz alta por um dos juízes. Apesar disso, foi sentenciado. Voltando-se para os irmãos, o juiz comentou: ‘Este homem não serve para nós nem para vocês.’ Depois disso, esta pessoa abandonou a verdade e foi um dos pouquíssimos que não mantiveram sua integridade.”

Esses irmãos foram condenados a um total de 186 anos e 10 meses de prisão. As sentenças individuais variavam de dois a 11 anos. A decisão desse Tribunal era final e não havia possibilidade de apelação. Os irmãos sentenciados permaneceram na prisão até a derrubada do regime fascista Foram soltos, com algumas exceções, depois de agosto de 1943.

O volume intitulado Aula IV — Tutti i processi del Tribunale Speciale fascista (Sala de Tribunal IV — Todos os Julgamentos do Tribunal Especial Fascista) menciona o veredicto N.º 50 de 19 de abril de 1940, pertinente às 26 Testemunhas de Jeová, comentando o seguinte:

“Um movimento religioso que se originou nos E .U .A . começou a espalhar-se na Itália Seus seguidores, chamados ‘Testemunhas de Jeová’, sofreram constante perseguição dos fascistas. Apesar disso, continuaram a proclamar sua aversão à guerra, recusando pegar em armas contra seus semelhantes e considerando o regime fascista de ‘origem satânica’. A maior onda de detenções ocorreu em meados do segundo semestre de 1939. (Formação de uma associação contrária ao interesse nacional; filiação à mesma; propaganda; insulto ao ‘duce’ e ao papa.)”

Do documento expedido pela Procura del Re (Promotoria Pública) de Vicenza à irmã Pizzato, pode-se tirar uma idéia do tipo de acusações levantadas contra os irmãos. Ela foi sentenciada por cinco acusações: “Cinco anos de prisão por associação visando uma conspiração política; um ano de prisão por ofender a dignidade e o prestígio do ‘Duce’ do fascismo, Chefe do Governo; dois anos de prisão por ofender o Supremo Pontífice; um ano de prisão por ofender a dignidade do Chefe de Estado Estrangeiro [Hitler] e dois anos de prisão por ofender o prestígio do Rei e Imperador.”

Visto que 13 das 26 Testemunhas acusadas eram da região de Abruzzo, o livro Abruzzo, un profilo storico (Um Perfil Histórico da Região de Abruzzo), de Raffaele Colapietra (publicado por Rocco Carabba), declara: “[Na região de Abruzzo] nenhum partido político, nem mesmo os comunistas, podia jactar-se de ter um grupo tão numeroso e tão duramente atingido como esses camponeses mansos e inofensivos da área costeira.”

IRMÃOS NA PRISÃO

Além de nos fornecer um exemplo de fé e coragem, as experiências dos irmãos que sofreram encarceramento durante os anos de guerra mostram que nunca lhes faltou o cuidado amoroso de Jeová. Continuaram a falar a outros zelosamente a respeito das “boas novas” na prisão, e mesmo ali sofreram perseguição da parte do clero.

Santina Cimorosi, de Roseto degli Abruzzo, que tinha 25 anos na ocasião de sua detenção, relata:

“Levaram-nos à delegacia de polícia dizendo que éramos um perigo para o Estado porque não concordávamos com a guerra. Meu pai [Domenico Cimorosi] foi colocado numa cela e eu noutra. As celas eram escuras. O ‘carabiniere’ apontou com a lanterna onde havia um beliche de madeira para dormir. Daí me trancou. Quando ouvi o ruído da porta sendo trancada, abateu-se sobre mim uma onda de temor e aflição. Comecei a chorar. Ajoelhei-me e orei a Jeová em voz alta. Pouco a pouco meu temor recuava e parei de chorar. Jeová respondeu minha oração por me conferir força e coragem, e compreendi que, sem a sua ajuda, eu não era absolutamente nada. Passei a noite em oração e na manhã seguinte foi levada para a prisão em Téramo, onde foi colocada numa cela com meu pai, Caterina Di Marco e mais três irmãos — seis de nós ao todo.

“De vez em quando, éramos interrogados com o intuito de se descobrir quem eram os nossos ‘líderes’. Amiúde me perguntavam: ‘Ainda é Testemunha de Jeová?’, e, naturalmente, eu sempre respondia: ‘Sim!’ Tentaram amedrontar-me por dizerem que nunca mais deixaria a prisão, mas confiei em Jeová e em seu poder de me ajudar. Mais tarde, foi colocado um altar em frente à porta de minha cela. Colocaram-no ali propositalmente, e por várias semanas o sacerdote celebrava a missa ali. A porta de minha cela era deixada aberta, para ver se eu queria voltar para a Igreja Católica, ou na esperança do que eu perturbasse o ofício a fim de merecer uma sentença mais longa. Mas eu permanecia quietamente na cela como se nada ocorresse do lado de fora e agradecia a Jeová por me ajudar a agir sabiamente. Observando que eu não reagia, removeram o altar algum tempo depois e o sacerdote não veio mais.”

O irmão Dante Rioggi, que aprendera a verdade do irmão Marcello Martinelli, relatou: “Na prisão não se me permitiu escrever para meus parentes ou a qualquer outra pessoa. Minha literatura, dinheiro e relógio de pulso foram confiscados. De novembro [1939] até o fim de fevereiro, eu tremia de frio, não só porque a cela era fria, mas também porque não havia vidro na janela. Não me forneceram uma muda de roupa, e logo eu estava reduzido a uma criatura miserável e repulsiva, atacado de parasitas. Duas ou três vezes fui visitado por sacerdotes que me asseguraram que, se retornasse à religião de meus pais, eu seria libertado. Apelei para a questura [chefatura de polícia] e obtive uma Bíblia. Daí em diante derivei coragem do exemplo de homens fiéis que haviam mantido sua integridade mesmo ao risco de suas vidas e foram abençoados por Jeová. A oração foi outro meio de fortalecer minha fé nas promessas de Jeová.”

O irmão Domenico Giorgini, que tem sido fiel no serviço por mais de 40 anos e ainda serve como ancião numa congregação na província de Téramo, relata: “Era 6 de outubro de 1939. Enquanto estávamos no vinhedo ajuntando a colheita de uva, vi um caminhão com dois carabinieri (oficiais) parar diante de minha casa. Levaram-me à prisão de Téramo, e ali permaneci por cinco meses. Então fui sentenciado a três anos de exílio na ilha de Ventotene. Achei-me em companhia de cinco irmãos e cerca de 600 prisioneiros políticos. Neste último grupo havia algumas personalidades políticas bem-conhecidas, inclusive um homem que mais tarde veio a ser o presidente da República, e tive o privilégio de testemunhar-lhes a respeito do reino de Deus. Uma vez que o governo fascista considerava muitos desses prisioneiros políticos especialmente perigosos, a ilha era mantida sob estrita vigilância. Era patrulhada por uma lancha a motor armada com metralhadora pronta para abrir fogo contra qualquer que tentasse escapar.”

IRMÃS NA PRISÃO

A irmã Mariantonia Di Censo, sentenciada a 11 anos de prisão pelo Tribunal Especial, narra: “Jamais esquecerei as palavras do juiz inquiridor. Ele disse: Li as publicações deles para descobrir tudo a respeito e fiz perguntas aos 26 acusados. São todos coerentes quanto a crenças e prontos para se comprometerem a fim de salvar seus companheiros. A situação não é tão séria como se pensava. O clero tem feito espalhafato demais a respeito do assunto.”

A irmã Di Censo cumpriu sua sentença em Perúsia. Outra irmã encarcerada em Perúsia foi Albina Cuminetti, que morreu fiel à chamada celestial em 1962. Num relato escrito somos informados: “Certa vez uma prisioneira perguntou a Albina o que ela tinha feito. Albina respondeu: ‘Não fiz nada. Estamos aqui porque recusamos matar nosso semelhante.’

“‘O quê!’, exclamou a mulher, ‘você está aqui porque se recusou a matar? Quantos anos lhe deram?’

“‘Onze’, respondeu a irmã Cuminetti.

“Nisso a outra exclamou: ‘Já se viu maior absurdo? Eles lhe dão 11 anos por recusar matar seu semelhante, todavia me dão 10 anos por matar meu marido. Isso é o cúmulo. Ou eu estou louca ou eles estão!’”

“Certo dia”, acrescenta o relato, “Albina teve a oportunidade de testemunhar ao diretor da prisão na presença de uma freira que estava incumbida da vigilância dos prisioneiros.”

CARTA DO DIRETOR DA PRISÃO

Em 1953, quando a irmã Cuminetti e outras três irmãs, com as quais havia estado na prisão, se encontraram numa assembléia, escreveram uma carta ao diretor na prisão em Perúsia. Nesse ínterim ele tinha sido transferido para Alexandria, mas finalmente recebeu a carta e remeteu esta resposta significante, datada de 28 de janeiro de 1954:

“Prezada Senhora:

“Agradeço-lhe as coisas bondosas que disse a meu respeito em sua carta. Todas vocês foram sentenciadas por um ‘crime que não existia’, e estou muito feliz por saber que, na própria cidade onde foram levadas para julgamento, Roma, tem-lhes sido possível encontrarem-se outra vez, desta feita para cantarem louvores ao seu Deus Jeová, em sua assembléia.

“Se tiver a oportunidade de ver as outras senhoras que sofreram tanto pelo Deus em quem acreditavam e continuam a crer, ou corresponder-se com elas, por favor, transmita minhas lembranças. Sempre vou lembrar-me de vocês e admirar sua fé e força de caráter.

“Grato pelo livro que me enviou.

Atenciosamente,

Dr. Antonio Paolorosso, Diretor Geral do Presídio de Alexandria.”

“A qualidade provada da vossa fé”, escreveu o apóstolo Pedro, é “de muito mais valor do que o ouro”. (1 Ped. 1:7) Os irmãos que mantiveram sua integridade sob perseguição reconhecem que essas dificuldades serviram para fortalecê-los.

NEUTRALIDADE — UMA PROTEÇÃO

Como em outros países, manter a neutralidade tem servido qual proteção para os irmãos na Itália. Por exemplo, Aldo Fornerone, um irmão fiel de 76 anos e que foi encarcerado e enviado para o exílio durante a Segunda Guerra Mundial, relata esta experiência:

“Embora os nazistas estivessem batendo em retirada, ainda estavam de posse da área onde eu morava, e durante uma represália três soldados alemães invadiram nossa casa. De imediato o oficial viu uma Bíblia na mesa e um quadro na parede que retratava a cena de Isaías 11:6-9 com um lobo, cordeiros, um leão, um bezerro e um cabrito, todos juntos com uma pequena criança. Perguntou em alemão: ‘Bibelforscher?’ ou: ‘Estudantes da Bíblia?’ Fiz um sinal afirmativo com a cabeça.

“Então, em francês, ele pediu à minha esposa que lhes desse algo para comer e deu instruções a seus homens que fechassem a porta e permanecessem dentro da casa. De novo em francês, ele explicou: ‘Disse aos meus homens que estaremos seguros aqui porque vocês são Testemunhas de Jeová, as únicas pessoas em quem podemos confiar.’ Também nos disse que tinha parentes na Alemanha que foram enviados a um campo de concentração por serem Testemunhas de Jeová. Enquanto esses soldados comiam, podiam-se ouvir tiros do lado de fora, ateava-se fogo a muitas casas e vários civis foram mortos. No fim dessa represália, tais soldados deixaram o povoado, e o oficial apertou nossas mãos ao se despedir.

“Não muito tempo depois, o comandante do grupo de resistência italiana chegou com 16 de seus homens. ‘Por que eles não levaram vocês junto com os demais civis?’ perguntou. Ele me conhecia e também estava a par do fato de que eu estivera na prisão e no exílio porque recusara participar na guerra. Todos escutaram enquanto lhes dava testemunho, e aceitaram o folheto Consolo Para o Povo. Depois de receberem algo para comer e beber, seguiram também seu caminho. O comandante disse: ‘Se todos fossem como você, não seríamos caçados como animais selvagens, e não haveria tantos problemas no mundo.’ Esta experiência fez-me apreciar mais do que nunca o valor de se manter a neutralidade.”

AJUDA DOS IRMÃOS

Muitos irmãos que foram encarcerados deixaram esposas e filhos pequenos em casa. Será que alguém os ajudou? Vincenzo Artusi relatou:

“Quando fui exilado para outra parte da Itália por um ano, fiquei muito preocupado com minha esposa e três filhinhos. Estava também receoso de que o clero pudesse obter vantagem de minha ausência para desviar minha esposa da verdade, porque fazia somente pouco tempo que ela se interessara na verdade. Mas Jeová estava zelando por eles, e, com a ajuda dos irmãos que ainda estavam em liberdade, minha família foi amparada material e espiritualmente. Minha esposa rompeu finalmente com a Igreja Católica em resultado das visitas amorosas dos irmãos, que foram também espiritualmente edificantes.”

A OBRA CONTINUA APESAR DA GUERRA

A queda do fascismo ocorreu em 1943, e a maioria dos irmãos foram libertos da prisão em seguida. Não obstante, a guerra ainda alastrava-se pelo país, e enquanto os Aliados avançavam do sul, as tropas nazistas retiravam-se vagarosamente para o norte, deixando atrás de si morte e destruição.

Mesmo durante o período mais tenebroso da guerra, foram feitos esforços para restabelecer o contato com os irmãos que ainda se encontravam em seus lares e usufruíam relativa liberdade de ação. Agostino Fossati, irmão que permaneceu fiel até sua morte em 1980, tinha sido expulso da Suíça por causa da verdade. Em 1940 e 1941 fez o que pôde para se corresponder com determinados irmãos, enviando-lhes várias publicações, inclusive artigos da Sentinela que traduziu do francês. Foi detido em janeiro de 1942 e exilado.

Algum tempo depois, o irmão Narciso Riet refugiou-se na Itália. Nascido na Alemanha, de pais italianos da província de Údine, morou em Mülheim do Ruhr até que a Gestapo descobriu sua atividade clandestina de introduzir exemplares de A Sentinela nos campos de concentração. Quando se tornou evidente que lhe era perigoso permanecer por mais tempo, um irmão que trabalhava na ferrovia o ajudou a alcançar sua esposa que tinha ido pouco antes morar na Itália, em Cernobbio no lago de Como, próximo à fronteira suíça.

A filial da Suíça designou para o irmão Riet a tarefa de traduzir as revistas Sentinela do alemão para o italiano, e então encaminhar exemplares para os irmãos. Para assegurar-se de que a polícia não as interceptaria no correio, as remessas eram entregues às mãos de irmãos não muito distantes nas partes norte e central da Itália.

O irmão Riet adquiriu uma máquina de escrever e imediatamente pôs-se a trabalhar na tradução dos artigos principais das revistas. Foi ajudado pelo irmão Agostino Fossati, que retornara do seu ano no exílio, e mais tarde pela irmã Maria Pizzato quando foi liberta em 1943. As revistas foram introduzidas na Itália às ocultas. Depois da tradução, cópias eram feitas num duplicador e fornecidas ao irmão Fossati, encarregado das entregas. Ele viajava para Pescara, Trento, Sôndrio, Aosta e Pinerolo para levar este alimento espiritual aos irmãos, sob constante risco de prisão e encarceramento.

Após a chegada da irmã Pizzato, os nazistas, auxiliados por seus partidários fascistas, descobriram onde o irmão Riet morava, e, conforme a irmã Pizzato relata: “Certo dia, em fins de dezembro, sua casa foi cercada, e um oficial da SS e seus homens a invadiram. Narciso foi detido e mantido sob a mira duma arma enquanto os soldados vasculhavam a casa. Logo encontraram a evidência ‘criminal’ que procuravam — duas Bíblias e algumas cartas! Narciso foi enviado a uma longa viagem de volta a Alemanha, onde ficou encarcerado no campo de concentração de Dachau. Ali foi horrivelmente torturado. Por muito tempo foi mantido acorrentado como cachorro numa cela baixa e estreita, onde foi obrigado a permanecer encolhido dia e noite. Após muito sofrimento que lhe foi infligido num campo após outro, foi morto junto com outros prisioneiros desafortunados, antes da ocupação de Berlim pelos Aliados. Seus restos nunca foram encontrados.”

A irmã Pizzato continuou o trabalho iniciado pelo irmão Riet, e, quando o irmão Fossati foi novamente detido, ela própria teve também de entregar o alimento espiritual. Depois de produzir cerca de 70 cópias de cada artigo traduzido, entregava-as pessoalmente, enquanto era possível viajar.

Quando todas as linhas de comunicação foram interrompidas pelo bombardeio, ela decidiu enviar a tradução do principal artigo da Sentinela de 1.º de janeiro de 1945 (ed. inglesa) por correio para os irmãos em Castione Andevenno, na província de Sôndrio. O artigo foi interceptado e encaminhado à polícia, de modo que a irmã Pizzato mais uma vez foi levada para interrogatório. Permitiu-se-lhe, não obstante, voltar para casa logo em seguida, e rapidamente decidiu aproveitar a oportunidade para abandonar a região a fim de que outros não ficassem envolvidos. Naquela mesma noite destruiu a evidência de sua atividade de dezembro de 1943 até março de 1945, e foi auxiliada por irmãos a chegar à Suíça, junto com a viúva do irmão Riet

Ao terminar a guerra, todos os refugiados tinham de retornar à Itália, e as duas irmãs voltaram a Cernobbio. A filial suíça conferiu à irmã Pizzato o trabalho de estabelecer novos contatos com os irmãos, agora que o fascismo fora definitivamente exterminado e a guerra acabara. Os irmãos foram severamente provados, mas estavam muitíssimo gratos a Jeová e cheios de zelo. Bem poucos deles caíram vítimas das armadilhas do Diabo. Abria-se diante deles uma porta larga para vasta atividade. — 1 Cor. 16:9.

REORGANIZA-SE A OBRA E ABRE-SE UMA FILIAL

Quase no fim de 1945, o irmão N. H. Knorr, então presidente da Sociedade Torre de Vigia (dos E.U.A.), e seu secretário M. G. Henschel, visitaram a Europa. A filial suíça convidou a irmã Pizzato para ir até Berna a fim de fornecer ao irmão Knorr um relatório da atividade na Itália. Com referência a essa reunião, a irmã Pizzato escreve:

“O irmão Knorr percebeu a necessidade imediata de termos folhetos impressos em italiano a fim de que a obra de pregação pudesse se reiniciar imediatamente. Com este fim, enquanto aguardávamos literatura dos Estados Unidos, deixou-nos instruções para que se providenciasse a impressão de determinados folhetos, quer em Milão, quer em Como. Disse-me também que, embora minha ajuda nesses assuntos fosse muito apreciada, isso só poderia ser encarado como um arranjo temporário e que já se planejara enviar um irmão dos Estados Unidos para assumir a responsabilidade da obra logo que fosse possível.”

O irmão Umberto Vannozzi, um rapaz residente na Suíça, mas de nacionalidade italiana, estava presente àquela reunião. Ele foi designado para visitar pequenos grupos de irmãos, por um tempo, a fim de fortalecê-los e instruí-los no caminho de Jeová.

Assim que se localizaram gráficas em Como, foram impressos 20.000 exemplares dos folhetos Liberdade no Novo Mundo e ‘Os Mansos Herdam a Terra’, bem como 25.000 exemplares de “Alegrai-vos, ó Nações” e 50.000 exemplares de O Gozo de Todo o Povo.

Naquela época, Cernobbio era uma pequena cidade com cerca de 3.000 habitantes, e dificilmente adequada como centro de operações em vista da aguardada expansão. Por esta razão, no primeiro semestre de 1946, o irmão Knorr forneceu instruções aos irmãos para que encontrassem um local conveniente para acomodar uma pequena família de Betel de seis ou sete pessoas. Com a ajuda de um irmão do escritório de Berna, foi adquirida uma casa com seis aposentos na Via Vegezio, 20, em Milão, e transferimos para lá o centro de nossa recém-estabelecida atividade. Isto ocorreu em julho de 1946. Naquele ano houve uma média de 95 publicadores, com um auge de 120 nas 35 pequenas congregações. Essa foi a base para nossa expansão futura.

Em outubro de 1946 o irmão George Fredianelli chegou dos Estados Unidos. Ele formou-se na primeira classe da Escola Bíblica de Gileade da Torre de Vigia, em 1943, e servira qual superintendente de circuito. Foi então designado para visitar os irmãos em nosso único circuito, que ia dos Alpes e descia até a ilha de Sicília.

Em janeiro de 1947, chegaram mais dois missionários, Joseph Romano e sua esposa Angela. Visto que o irmão Romano recebera a designação para ser o superintendente da filial, começou a trabalhar imediatamente no novo Betel em Milão Poucos meses depois, foi enviado um outro casal de formados de Gileade. Eram Carmelo e Constance Benanti. Daí, em 14 de março de 1949, foi uma bênção que outros 28 missionários chegassem ao país! Eram realmente uma das provisões de Jeová para dar ímpeto à obra, visando a expansão. A princípio, foram designados para trabalhar com grupos existentes em cinco cidades: Milão, Gênova, Roma, Nápoles e Palermo.

Em 1946, quando as coisas tiveram um novo começo após a guerra, havia pouco mais do que 100 publicadores espalhados aqui e acolá através do país. Estavam sem contato com a organização e uns com os outros. Não se realizavam reuniões regulares, embora os publicadores fizessem o seu melhor para se reunir onde quer que pudessem, em lares e até mesmo em estábulos. Liam uma ou outra publicação, examinando os textos bíblicos e comentando-os, fazendo o melhor que podiam. Na maior parte, a pregação consistia em falar a parentes e amigos, e a estrutura teocrática da congregação cristã era quase desconhecida.

“Foi somente por volta de 1944”, escreveu Domenico Cimorosi, “que aprendemos que as designações de responsabilidade deviam ser feitas teocraticamente e não por votação. Visto que não sabíamos como proceder, pensávamos que podíamos adotar o método usado para a escolha de Matias. (Atos 1:23-26) Escrevemos os nomes de 10 irmãos, escolhidos dentre os mais idosos no grupo, em pedaços de papel que eram dobrados e colocados numa urna. Uma mocinha retirou os papéis um por um, e o primeiro extraído seria considerado o superintendente. Fui escolhido desta maneira, e foi assim que prosseguimos até a chegada de nosso primeiro superintendente de circuito.”

Os irmãos costumavam edificar-se espiritualmente com os meios escassos à sua disposição, e, evidentemente, o espírito santo compensava o que faltava. No entanto, já havia chegado o tempo para Jeová ‘apressar’ o crescimento de seu povo. — Isa. 60:22.

PRIMEIRA ASSEMBLÉIA DO APÓS-GUERRA

Depois da abertura de uma filial em Milão, o irmão Knorr decidiu fazer-nos uma visita para dar maior impulso a atividade recém-organizada. Foi programada uma assembléia de um dia em conexão com sua visita. Seria a primeira assembléia do após-guerra. Todos os irmãos e pessoas interessadas a aguardavam, bem como a reunião com os irmãos Knorr e Henschel.

Em 16 de maio de 1947, todos compareceram ao cinema Zara, onde a assembléia seria realizada. Nas sessões matutina e vespertina estiveram presentes 239 pessoas de várias partes da Itália, mesmo de tão longe como a Sicília, e o número dos batizados foi 31, dos quais 13 eram irmãs. É admirável observar que esse grupo incluía alguns dos sentenciados pelo tribunal fascista que, por causa de seu limitado conhecimento dos requisitos cristãos, na época, ainda precisavam ser batizados. A conferência pública, realizada às 20,30 horas, com o tema “O Gozo de Todo o Povo”, culminou o programa. Setecentas pessoas estiveram presentes.

Os irmãos tiveram de fazer grandes sacrifícios para ir àquela assembléia, não só porque seus escassos recursos fizessem com que as despesas de viagem e o pernoite parecessem muito altas, mas também porque as ferrovias ainda estavam interrompidas em conseqüência da guerra. Teresa Russo, uma irmã idosa de Cerignola, narra:

“Éramos tão pobres naquele tempo que não tínhamos o dinheiro para ir à assembléia. Onde poderíamos obtê-lo? Lembro-me, como se fosse hoje, de como começamos a guardar nosso açúcar ao invés de usá-lo. Depois encontrávamos um meio de vender essa reserva para pagar nossas passagens de trem e despesas com o pernoite. Enchemos nossas malas com açúcar e penduramos sacos dele ao redor de nossa cintura, à maneira como os caçadores carregam sua comida. Todos parecíamos muito gordos. Sem embargo, foi assim que sete de nós pudemos ir a Milão e ter a alegre experiência de ver tantos irmãos ali.”

Alguns daqueles presentes ainda se lembram de seus sentimentos ao se verem reunidos livremente com irmãos que conheceram anteriormente na prisão ou no exílio. Aldo Fornerone, que estava presente naquela assembléia, conta:

“Jamais esquecerei quão emocionado fiquei ao encontrar e abraçar aqueles queridos irmãos das partes norte e central da Itália que haviam estado na prisão ou no exílio comigo. Só Jeová sabe quão gratos estávamos por ter sido possível reunir-nos num país onde a liberdade de adoração fora restabelecida. Dirigimos nossa gratidão a Ele, o grande Deus, Jeová, por sua intervenção a favor do seu povo.”

Durante a assembléia o irmão Knorr esboçou um programa para a expansão teocrática no país. Do mês de junho em diante, uma folha mensal de instruções congregacionais, chamada Informante, seria publicada. As congregações e grupos seriam visitados cada seis meses por um superintendente de circuito, e seriam realizadas também assembléias de circuito.

O Informante de junho de 1947 foi o primeiro número a ser publicado, e por alguns meses foi feito num duplicador. O primeiro número, explicando o programa de atividade anunciado pelo presidente da Sociedade, concluía com esta exortação animadora: “Por conseguinte, irmãos, vamos avante na esperança de que, aqui na Itália, o verdadeiro Deus possa ter um rebanho de pessoas consagradas cantando seus louvores junto com seu povo em outras nações!”

INICIA-SE A ATIVIDADE DE CIRCUITO

Não pode haver dúvidas de que a expansão dos interesses do Reino foi grandemente encorajada pela atividade dos superintendentes viajantes que visitaram as congregações para edificar os irmãos, ensinando-lhes princípios teocráticos e treinando-os na obra de pregação. Lembra-se de Umberto Vannozzi que se reuniu com o irmão Knorr e a irmã Maria Pizzato em 1945? Durante a década de 1930 ele trabalhou no serviço de pioneiro na França, Bélgica e Holanda, em grande parte às ocultas. Depois da reunião com o irmão Knorr, passou a visitar os irmãos espalhados em vários pontos da Itália, para restabelecer contato com eles antes da chegada dos missionários. E foi assim que durante os meses de maio e junho de 1946 ele visitou os grupos maiores de irmãos, então existentes.

O primeiro superintendente de circuito, designado, todavia, foi o irmão George Fredianelli, que começou suas visitas em novembro de 1946. Ele foi acompanhado na primeira volta pelo irmão Vannozzi.

O segundo circuito foi formado em 1947, sendo originalmente designado ao irmão Giuseppe Tubini. Quando este irmão ingressou no serviço de Betel alguns meses depois, o irmão Piero Gatti tomou o seu lugar. Ambos conheceram a verdade na Suíça num dos muitos campos de refugiados cheios de milhares de soldados italianos que tinham fugido para escapar dos nazistas. Numerosos irmãos que aprenderam a verdade no exterior voltaram no período logo após a guerra trazendo consigo a mensagem do Reino para a Itália. Após 33 anos, os irmãos Tubini e Gatti permanecem no serviço de tempo integral, o primeiro em Betel e o último no serviço de circuito.

AS VIAGENS DO IRMÃO VANNOZZI

Um relato das viagens do irmão Vannozzi nos ajudará a avaliar os muitos desconfortos que os superintendentes viajantes precisavam suportar naqueles dias. Ele escreveu:

“Deixei Como e, após toda sorte de aventuras, finalmente consegui chegar a Foggia, na região de Apúlia. Procurei a estação, mas em vão — fora nivelada ao chão num bombardeio. Apanhei um trem para Cerignola, onde deveria fazer minha primeira visita, mas a certa altura me disseram que o trem não iria mais adiante e tive de prosseguir de caminhão. Cheguei ao meu destino às 19 horas do dia seguinte, bastante cansado e empoeirado. Apesar de tudo, senti-me recompensado quando, na reunião, um irmão em oração agradeceu a Jeová que após todos esses anos de espera, finalmente tinham sido visitados por alguém da organização. Os irmãos choraram no fim da visita e eu também estava profundamente emocionado.

“Viajei através da Itália em estradas ainda danificadas devido às devastações da guerra, e não vi nenhuma ponte deixada de pé. Vinte e duas mil pontes foram pelos ares, e as que podiam ser atravessadas eram as que tinham sido reparadas temporariamente pelos Aliados. Vi centenas de vagões e locomotivas queimadas e todas as vilas sofreram estragos das bombas.

“Deixei Cerignola às 6 da manhã para visitar o grupo em Pietrelcina, na província de Benevento. Cheguei em Benevento às 19 horas, depois de estar sentado por três horas em minha bagagem num vagão de gado! Quando cheguei à estação, esperei com uma revista ‘Sentinela’ na mão, conforme combinado, de modo que os irmãos pudessem me reconhecer. Mas ninguém apareceu. O que deveria fazer?

“Pietrelcina ainda distava cerca de 12 quilômetros, e àquela hora da noite não havia meios de chegar lá. Enquanto permanecia de pé esperando, um senhor com uma carroça de duas rodas puxada a cavalo ofereceu-me uma carona. Eram 21,30 horas e comecei a procurar a casa do irmão Michele Cavalluzzo no escuro. Não era uma tarefa fácil. Mas o anjo de Jeová velava por mim e não me deixou no desespero. Finalmente, encontrei a casa e o irmão Cavalluzzo alegremente preparou-me uma refeição rapidamente. Como eu estava faminto! Não havia comido nada desde a noite anterior. Estava também muito cansado e ansiava dormir, mas o querido irmão Cavalluzzo tinha muitas perguntas a fazer-me e queria contar-me, do princípio ao fim, como entrara na verdade. De modo que não nos deitamos até à meia-noite. Na manhã seguinte foi entregue o telegrama avisando minha chegada, mas eu ganhei a corrida — cheguei primeiro!

“Aproximadamente 35 pessoas compareciam às reuniões cada noite, apesar de que quase não havia irmãos batizados. Parti de Pietrelcina para Foggia às 4 horas da madrugada. Subi numa carroça puxada a cavalo, conduzida por um irmão, e fui acompanhado pelo superintendente, o irmão Donato Iadanza. Embora não estivéssemos mais na década de 1920, esse era o meio de transporte mais comum logo após a guerra. Chegamos a Benevento às 6 horas mas, coitado de mim, o trem já havia partido.

“Nesse ponto alguém me sugeriu que falasse com um maquinista que ia conduzir uma locomotiva até Foggia. Alcancei-o enquanto resmungava com outras pessoas, que também queriam carona. Ouvi-o dizer que não havia lugar para passageiros. Apesar disso, todos subimos, e o irmão Iadanza correndo atrás da locomotiva mal teve tempo de passar-me a minha mala. No espaço estreito dentro da locomotiva me comprimi com cerca de mais 10 pessoas, e ali ficamos, apertados como sardinhas em lata durante a viagem inteira de cinco horas. Todos transpirávamos por causa do calor e da falta de ar, e estávamos bastante chamuscados pelas fagulhas que saíam de debaixo da caldeira. Quando chegamos próximo de Foggia, o maquinista parou a locomotiva no meio da zona rural e todos descemos.

“Depois disso visitei os grupos em Spoltore, Pianella, Montesilvano, Boseto degli Abruzzo e Villa Vomano. Minha última visita nessa seqüência foi a Faenza, onde cerca de 50 pessoas assistiam às reuniões. Encorajei os jovens a abraçar o serviço de pioneiro, e em meu relatório sobre o grupo escrevi: ‘Esperamos que um dia alguns desses jovens decidam alistar-se nas fileiras daqueles que se empenham nesse serviço privilegiado.’”

A ATIVIDADE DE CIRCUITO DO IRMÃO FREDIANELLI

O irmão George Fredianelli, atualmente membro da Comissão de Filial, reporta-se aos seguintes eventos de sua atividade de circuito:

“Quando visitava os irmãos, encontrava parentes e amigos, todos esperando por mim e ansiosos de ouvir. Até mesmo nas revisitas as pessoas chamavam seus parentes. Na verdade, o superintendente de circuito não proferia somente uma conferência pública na semana, mas uma de várias horas em cada revisita. Nestas visitas podia haver até 30 pessoas presentes e algumas vezes ajuntavam-se muito mais pessoas para ouvir atentamente.

“As conseqüências da guerra amiúde tornavam a vida no serviço de circuito difícil. Os irmãos, como a maioria das pessoas, eram muito pobres, mas sua bondade compensava isso. Partilhavam de pleno coração o pouco alimento que possuíam, e amiúde insistiam em que eu dormisse na cama enquanto eles deitavam-se no chão sem cobertas, porque eram pobres demais para terem cobertores adicionais. Algumas vezes tive de dormir no estábulo num monte de palha ou em folhas de milho secas.

“Certa ocasião, cheguei à estação de Caltanissetta, na Sicília, com o rosto tão preto quanto a dum limpador de chaminés, resultante duma fuligem que saia da locomotiva a vapor a frente. Embora tivesse levado 14 horas para viajar cerca de 80 a 100 quilômetros, cobrei ânimo ao chegar, ao passo que me imaginava num bom banho seguido dum descanso bem merecido em algum hotel ou pensão. Todavia, isto não ocorreria. Caltanissetta estava apinhada de gente para a celebração do dia de S. Miguel, e cada hotel da cidade estava repleto de sacerdotes e freiras. Finalmente voltei à estação com a idéia de deitar-me num assento que tinha visto na sala de espera, mas até essa esperança se desvaneceu quando encontrei a estação fechada após a chegada do último trem noturno. O único lugar que achei para sentar e descansar um pouco foi a escada em frente da estação.”

Com a ajuda dos superintendentes de circuito, as congregações começaram a realizar regularmente os estudos da Sentinela e de livro. Ademais, conforme aprimorávamos a qualidade das reuniões de serviço, os irmãos tornavam-se cada vez mais qualificados na obra de pregação e de ensino.

CONDIÇÃO ESPIRITUAL DO GRUPO EM CERIGNOLA

Lembra-se do grupo em Cerignola, aquele que foi formado em resultado da pregação feita pelo professor Banchetti? “A condição espiritual desse grupo não era como devia ser”, diz o irmão Fredianelli. Ele explica:

“Existia uma situação estranha ali. A congregação, se é que eu posso chamar assim o grupo, era composta principalmente de protestantes e comunistas que professavam ser Testemunhas de Jeová. Tive que raciocinar com eles por horas a fio a fim de convencê-los da necessidade de romper com a religião falsa e de manter uma atitude neutra para com os assuntos políticos.

“Na visita seguinte proferi o discurso da Comemoração, explicando claramente que somente os da classe tingida poderiam participar dos emblemas. Tudo correu bem até o término da reunião. Assim que acabou, um do grupo, que se considerava no comando, opôs-se abertamente a mim, afirmando que aquilo que eu dissera sobre os emblemas não era verdade. A perplexidade que isto causou no grupo era patente, assim a melhor coisa a fazer era solicitar que os presentes tomassem uma pronta decisão. Eu disse: ‘Os que forem a favor da verdade e das Testemunhas de Jeová sigam-me para fora! Os que forem contra a verdade que permaneçam.’

“Para meu alívio quase todos me seguiram para o lado de fora. Somente três ou quatro permaneceram com o opositor, que era líder proeminente do partido comunista local. Então, com poucas exceções, os presentes me seguiram para outra sala e depois disso continuaram a progredir na verdade.”

A PRIMEIRA ASSEMBLÉIA DE CIRCUITO

A primeira assembléia de circuito foi realizada em setembro de 1947 em Roseto degli Abruzzo. Deveria ter sido realizada em Pescara, mas a permissão para usar o auditório ali foi cancelada, em resultado da oposição clerical. Destemidos, os irmãos se reuniram num beco sem saída, particular, que podia ser alcançado somente através do jardim do irmão Domenico Cimorosi. O caminho foi fechado e coberto com lonas, e colocou-se uma mesa debaixo de uma copa de parreiras que davam sombra para servir de tribuna para o orador. Compareceram cerca de 100 irmãos felizes.

Por via de regra, nos idos de 1950, as assembléias começavam só com 40 a 60 pessoas presentes, ao passo que na conferência pública havia geralmente uma média de 200 pessoas. Os irmãos consideravam maravilhoso tal número!

A obra continuou a progredir e, em 1954, o irmão George Fredianelli foi designado para trabalhar como superintendente de distrito.

OUTRAS PROVISÕES

Em janeiro de 1945, a Sociedade lançou uma campanha de conferências públicas na maioria dos países. Na Itália ela não seria empreendida senão alguns anos depois. O Informante de fevereiro de 1948 anunciou o começo da campanha para 28 de março, e durante os meses que se seguiram foram proferidas 13 conferências públicas. Passariam muitos anos até que elas fossem realizadas regularmente em cada congregação. Uma vez que era evidente a necessidade de os irmãos serem treinados, foi estabelecida a Escola do Ministério Teocrático em 1948. No início, os irmãos realizavam tais reuniões da melhor maneira que podiam, visto que não havia publicações apropriadas disponíveis em italiano. Nas congregações onde alguém entendia o inglês, as lições eram traduzidas do livro Auxílio Teocrático aos Publicadores do Reino. Mas em 1948 havia bem poucos irmãos que conheciam o inglês. Mais tarde, perto do fim de 1950, as congregações começaram a receber folhas mimeografadas contendo as lições do livro “Equipado para Toda Boa Obra”, que ajudou consideravelmente a melhorar a qualidade da Escola.

Em 1956 fêz-se mais progresso. A Sentinela de 1.º de janeiro de 1956 (ed. italiana) começou a publicar uma série de lições do livro “Equipado”, ao passo que a Despertai! de 8 de janeiro de 1956 (ed. italiana) começou uma série similar do livro Qualificados Para Ser Ministros. Por fim, o livro “Equipado” foi impresso em italiano em 1960, seguido por Qualificados Para Ser Ministros em 1963, a fim de que os irmãos recém-associados pudessem acompanhar também o programa e preparar-se para as reuniões.

A FILIAL MUDA-SE PARA ROMA

Visto que Milão se situa no extremo norte da Itália, chegou-se à conclusão de que seria mais fácil lidar com a crescente atividade se a filial fosse mudada para um lugar mais central. Roma era a escolha óbvia, pois, como capital do país, é também o centro da administração nacional. Em setembro de 1948 foi adquirida uma casa de três pavimentos com subsolo. Além de ter uma dúzia de aposentos e dependências modernas, situava-se também numa área bastante atraente com árvores e jardins na Via Monte Maloia. A filial foi transferida para lá no mesmo mês. Mais tarde, a propriedade em Milão foi vendida, mas a casa na Via Monte Maloia ainda pertence à Sociedade Torre de Vigia e é plenamente utilizada até hoje.

A tradução do livro “Seja Deus Verdadeiro” foi completada no novo Betel, e essa publicação saiu da prensa no ano seguinte, em 1949. Tratava de pontos doutrinais que eram muito interessantes para as pessoas com formação religiosa, e ajudou milhares de pessoas a encontrar a verdade.

CONSPIRAÇÃO PARA EXPULSAR OS MISSIONÁRIOS

Neste país, onde por séculos as pessoas jamais tinham ouvido algo a respeito da Bíblia, a atividade dos missionários produziu abundantes frutos. Conforme já mencionado, o maior grupo de missionários veio para a Itália em meados do primeiro semestre de 1949, e começaram a surgir congregações onde quer que fossem designados a trabalhar. As pessoas estavam deveras “sedentas” da Palavra de Deus.

À parte dos problemas comuns associados com estabelecer-se num país estrangeiro e aprender a língua, nossos missionários tiveram de vencer um obstáculo muito mais difícil. Tratava-se de obter a permissão das autoridades para permanecerem no pais depois que os vistos em seus passaportes expiraram. A filial encaminhou um requerimento ao Ministério do Interior solicitando permissão para o ano de 1949. Ao invés da permissão, para completa surpresa, os missionários receberam ordens para deixar o pais, e só depois de muita insistência se lhes permitiu ficar até 31 de dezembro de 1949. Até aquela data todos deveriam deixar o país. Isso seria um sério golpe à sua atividade, que tivera um começo tão promissor!

Por que os missionários receberam ordens para deixar a Itália? Quem estava por trás de tudo? Os maquinadores que trabalhavam nos bastidores foram revelados no relatório do Anuário de 1951 (em inglês), também impresso em A Sentinela (ed. italiana) de 1.º de março de 1951. Declarava:

“Mesmo antes dos vinte e oito missionários terem chegado à Itália em março de 1949, o escritório havia feito uma petição regular requerendo vistos de um ano para todos eles. A princípio os funcionários indicaram que o governo via o assunto dum ponto de vista econômico, portanto, parecia que a situação estava inteiramente assegurada aos nossos missionários. Após seis meses recebemos inesperadamente uma comunicação do Ministério do Interior ordenando que nossos irmãos deixassem o país no fim do mês, com menos do que uma semana de aviso. Naturalmente, recusamo-nos a aceitar tal ordem sem uma luta legal, e envidaram-se todos os esforços para se chegar ao âmago do assunto e descobrir quem era responsável por esse golpe sujo. Ao entrarmos em contato com pessoas que trabalhavam no Ministério, verificamos que os autos do processo não indicavam quaisquer queixas da polícia ou outras autoridades e que, por conseguinte, alguém ‘superior’ devia ser responsável. Quem poderia ser? Um amigo no Ministério informou-nos que a ação contra nossos missionários era bastante estranha, uma vez que as diretrizes governamentais eram muito lenientes e favoráveis para com os cidadãos americanos.

“Talvez a embaixada pudesse ser de ajuda. Visitas pessoais à embaixada, bem como diversas conversações com o secretário do embaixador, provaram-se fúteis. Era bastante evidente, assim como os funcionários americanos admitiram, que alguém que exercia muito poder no governo italiano não queria que os missionários da Torre de Vigia pregassem na Itália. Diante desse forte poder os diplomatas americanos simplesmente encolhiam os ombros e diziam: ‘Bem, vocês sabem, a Igreja Católica é a religião estatal aqui e ela faz praticamente o que bem entende.’

“De setembro a dezembro sustamos a ação do Ministério contra os missionários. Por fim, foi estabelecido um prazo; os missionários teriam de deixar o país até 31 de dezembro. Nada mais restava senão aquiescer com tais instruções. Enviamos os missionários para a região da Suíça de língua italiana. Em poucos meses o grupo inteiro voltou à Itália, para pregar de novo.

“Nessa época foram designados a diferentes cidades, o que, porém, só faria a obra ampliar-se mais.

“Mas o que dizer do interesse e boa disposição encontrados pelos missionários nas cidades anteriormente designadas? As ‘ovelhas’ não deviam ser abandonadas. O irmão Knorr aprovou a escolha de novos pioneiros especiais italianos para ocuparem os lares missionários e prosseguirem o bom trabalho. Não se perdeu tempo em realizar a transição e a obra não sofreu. O resultado desse incidente foi que a Palavra penetrou em novos campos virgens.”

Como conseguiram os missionários voltar aos país após sua expulsão? Fizeram isso por se aproveitarem dum visto de turista de três meses, o que significava que a cada três meses tinham de viajar para o exterior e voltar à Itália poucos dias depois — cada vez com o receio de que não pudessem renovar o visto. Em certas cidades o clero conseguiu identificá-los e pressionar as autoridades locais a mandá-los embora. Em tais casos, viram-se obrigados a se mudar para um outro lugar, sempre alertas e agindo com toda a precaução possível.

O clero fizera seus cálculos: “Livre-se dos missionários e o pequeno grupo de seguidores deles se dissolverá como a neve à luz do sol “ O que não percebiam era que não podiam pôr-se no caminho dos propósitos de Deus nem combater seu irresistível poder de levá-los a cabo.

EXPERIÊNCIAS NA OBRA MISSIONÁRIA

Carmelo e Constance Benanti estão no serviço missionário na Itália há mais de 33 anos. O irmão Benanti conta:

“Enquanto estávamos em Brescia, minha esposa concentrou seus esforços numa região onde as pessoas viviam sob a influência de uma instituição religiosa próxima, e em especial de um dos frades. Apesar dessa influência, 16 pessoas aceitaram a verdade. Muitos anos depois, eu e minha esposa, voltamos a Brescia a fim de visitar os irmãos que tínhamos ajudado a conhecer a verdade. Enquanto tomávamos uma refeição com um grupo de irmãos, pediram-nos que lhes contássemos como se iniciara a obra naquela região. Então, minha esposa falou-lhes a respeito duma ocasião quando o frade incentivou uma turba de garotos a molestá-la. Eles estavam escondidos atrás da parede das ruínas de uma casa, prestes a pular de surpresa e a atirar pedras nela. Percebendo isto, ela orou a Jeová para que nada lhe acontecesse. Nesta altura, um superintendente de uma das congregações de Brescia disse: ‘Irmã, eu era um daqueles garotos. Naturalmente, eu era bastante jovem naquele tempo e o frade nos havia prometido alguns doces se atirássemos pedras na irmã. Não soubemos por que não o fizemos afinal.’”

Outra missionária relata: “Enquanto estava em Nápoles, fui confundida com uma pessoa bastante próspera por causa de minha vestimenta. Enquanto caminhava pela rua, percebi que um homem me seguia, provavelmente com a idéia de me assaltar. Decidi virar-me e falar-lhe sobre a verdade. Nisso ele foi surpreendido e ficou muito compungido com a mensagem — efetivamente ele veio a aceitar a verdade com o tempo. Soube mais tarde que ele deveras planejara assaltar-me. Naturalmente, ao abrir seu coração à verdade, mudou seu comportamento. Este ex-assaltante tornou-se pioneiro especial e permaneceu fiel a Jeová até a sua morte.”

OS PRIMEIROS SALÕES DE REUNIÕES

Uma breve descrição dos lugares onde os irmãos costumavam reunir-se durante os primeiros anos do após-guerra o ajudará a avaliar como a obra tem progredido neste país desde então. Certa vez quase todos os Salões do Reino eram em lares particulares. Uma das razões disso era que o clero costumava ameaçar os proprietários de prédios adequados, de modo que dificilmente concordariam em alugá-los às Testemunhas de Jeová. O irmão William Wengert, um graduado de Gileade servindo atualmente no distrito, relata:

“Naqueles dias, não raro tínhamos os nossos salões nas cidades em porões. Não havia aquecimento central e alguns salões não possuíam sequer um banheiro. Ao invés de luz elétrica, com freqüência tínhamos de nos virar com duas lamparinas a óleo, uma sobre o palco e outra para a assistência. Agora, ao rememorar isso percebo que, naquele tempo, aceitávamos tais coisas como muito normais, e, em compensação, os irmãos estavam sempre felizes e cheios de cordialidade uns para com outros. Ficava especialmente comovido com o entoar de cânticos em alta voz, e devo dizer que os italianos cantam com entusiasmo. Jeová abençoou a obra neste país, providenciando excelentes salões onde os irmãos podem agora reunir-se para louvar Seu santo nome.”

Não obstante tivessem de se contentar com salões improvisados, aqueles queridos irmãos dos anos 50 eram sempre felizes e demonstravam grande apreço pelas reuniões. Isso é corroborado pelo que diz o irmão Nicola Magni: “Não raro a tribuna era uma caixa de papelão virada sobre uma mesa de cozinha, mas funcionava. A alegria dos irmãos presentes brilhava nos seus olhos e manifestava-se nos seus relances vívidos através da sala escura, iluminada a lamparina.”

Em resultado das condições amiúde existentes nos lugares de reuniões, às vezes surgiam situações ímpares. Um superintendente viajante, o irmão Francesco Bontempi, recorda-se de um dos primeiros Salões do Reino de Milão e diz:

“Embora o Salão do Reino fosse num porão, era bastante limpo por dentro. Numa noite a reunião já estava em andamento quando recebemos uma visita ímpar — um minúsculo camundongo! Entrou no Salão e subiu na cadeira duma irmã um tanto gorda que estava absorta no programa. Foi parar perto das travessas da cadeira e ali permaneceu por alguns minutos intermináveis. Não ousei intervir porque não quis interromper a reunião, e também podia imaginar qual seria a reação da irmã! Por fim, o camundongo contornou a cadeira, mal deixando de atingir os pés da irmã, e desapareceu silenciosamente — para meu alívio. No entanto, apesar dessas pequenas inconveniências, a congregação mostrava muito zelo pelo serviço e amor fraternal!”

Segundo o Anuário de 1976, pensa-se que o primeiro Salão do Reino construído pelos irmãos nos Estados Unidos foi o de Roseto, Pensilvânia, em 1927, inaugurado por um discurso público do irmão Giovanni DeCecca. Numa interessante coincidência, o primeiro salão construído pelos irmãos na Itália foi também num lugar chamado Roseto, Roseto degli Abruzzo. Foi completado em 1953, 26 anos após seu precursor americano.

O CLERO SUSCITA MAIS DIFICULDADES

A liberdade hoje usufruída na Itália remonta à data importante de 27 de dezembro de 1947, quando a Constituição da República Italiana passou a vigorar. A Constituição reconhecia os direitos básicos diretamente relacionados com nossa obra de anunciar o reino de Jeová e que fora cruelmente espezinhada durante a ditadura.

Apesar da nova Constituição, contudo, não haviam acabado as dificuldades para as Testemunhas de Jeová. Embora a hierarquia católica não tivesse mais uma ditadura em que se estribar, ainda podia orgulhar-se de relações fortíssimas com o partido político mais importante do país. O clero se esforçou ao máximo para sufocar os interesses do Reino por apelar para aquele conjunto de leis fascistas que era contrário à Constituição e que não fora ainda abolido.

Algumas vezes os sacerdotes instigavam turbas de fanáticos contra os irmãos enquanto estavam nas reuniões ou no ministério de campo. Por exemplo, no artigo intitulado “Sacerdote Instiga Turba de Senhoras e Crianças Contra ‘Testemunhas de Jeová’ em Molfetta”, a gazeta diária L’Unità de 22 de setembro de 1954, declarou:

“O fanatismo religioso suscitado por um sacerdote [nome e endereço fornecidos] contra cidadãos honestos, cuja única ofensa é professar uma religião diferente da do clérigo acima mencionado, é de natureza especialmente grave . . .

“Há poucos dias atrás a cidade ordeira e trabalhadora de Molfetta presenciou uma cena bastante repugnante de perseguição religiosa, digna do período mais obscuro da Inquisição. Cerca de dez citadinos reuniam-se como de costume na Via Zuppeta, número 7, quando o sacerdote [nome fornecido] apareceu entoando hinos e acompanhado por uma turba de senhoras, crianças e jovens. Daí deu o sinal para começar um tumulto que prosseguiu por mais de duas horas. A manifestação incluía uma saraivada de pedras arremessadas nas portas e janelas do lugar de reunião, seguida duma barulheira por parte da multidão que lançava invectivas e ameaças. . . .

“Obrigadas a se expor para evitarem o pior, essas pessoas foram ridicularizadas, insultadas e ameaçadas, sendo a seguir cercadas pelas senhoras e crianças rebeldes. Foram esmurradas e atingidas por pedras antes que pudessem chegar à delegacia de polícia, não só para obter proteção, mas também para pedir que os instigadores dessa agressão ilegal fossem punidos. Todavia, o funcionário encarregado, obviamente simpatizando-se com a outra parte, não tinha a menor intenção de intervir para garantir o respeito pela lei e pelos direitos constitucionais. Tais perpetradores e instigadores permaneceram impunes com a tácita aprovação daqueles cujo dever era proteger os direitos básicos e a segurança pessoal do indivíduo. Nesse caso específico esses direitos foram pisados e violados da maneira mais vil e degradante.”

O mesmo jornal, em seu número de 3 de janeiro de 1959, publicou um artigo intitulado “Desencadeia-se Intolerância Religiosa Contra as ‘Testemunhas de Jeová’ em Lapio”. O que aconteceu dessa vez? Em 29 de dezembro de 1958, dois publicadores, Antonio Puglielli e Francesco Vitelli, pregavam as “boas novas” em Lapio, uma pequena cidade na província de Avelino. Por volta das onze horas da manhã foram confrontados por uma turba de jovens e crianças liderados pelo sacerdote católico local que começou a gritar: “Vão embora!”, e prosseguiu: “Vocês são uns propagadores de mentiras e ignorantes que não prestam para nada! Não entendem a Bíblia Só arruínam o rebanho.”

Visto que a turba evidentemente não estava brincando, os dois irmãos se abrigaram na prefeitura, e o sacerdote os seguiu escadas acima até o andar superior onde o prefeito interveio para protegê-los. E o que dizer dos outros irmãos que pregavam na cidade? Os dois irmãos declararam: “Escoltados por guardas municipais fomos até a parte da cidade onde os outros estavam trabalhando. Encontramo-los cercados por uma populaça, chefiada por um sacerdote ameaçador, e só com alguma dificuldade é que conseguimos livrá-los e conduzi-los ao ônibus que nos levaria embora. Assim que entramos no ônibus o sacerdote ficou na frente dele a fim de que não pudesse partir e tentou incitar a turba a nova violência. Felizmente as pessoas não mais lhe obedeceram.

Estes são apenas alguns dos incidentes promovidos pelo clero. Por razões óbvias, os jornais que denunciaram tais atos eram geralmente controlados pela oposição política, ao passo que os controlados pela maioria católica, em geral, passavam-nos por alto sem comentá-los.

A persistente oposição da parte da Igreja Católica quase não surpreende. Antes, harmoniza-se com a atitude que geralmente mantém quando lida com outras religiões. Uma descrição clara desse método é fornecida pelo “padre” Cavalli no periódico quinzenal Civiltà Cattolica de 27 de março de 1948:

“A Igreja Católica está convencida de seu direito divino, como a única igreja verdadeira, de reivindicar liberdade de ação somente para si, a fim de que este privilégio seja reservado exclusivamente a favor da verdade e negado ao erro. Quanto às outras religiões, a Igreja jamais erguerá a espada literal contra elas, mas fará uso dos canais competentes e meios dignos para certificar-se de que não se lhes permita disseminar suas falsas doutrinas. Conseqüentemente, num estado predominantemente católico a Igreja insistirá em que crenças errôneas não obtenham o reconhecimento legal e que, se certas minorias religiosas persistirem, permita-se-lhes não mais do que uma existência de facto e seja-lhes negada a possibilidade de disseminarem suas crenças. Nos casos em que as circunstâncias existentes impossibilitem a aplicação estrita deste princípio, quer devido à hostilidade do governo, quer pela consistência numérica dos grupos dissidentes, a Igreja procurará obter as maiores concessões para si própria e tolerará a existência válida de outros cultos como mal menor. Em alguns países, os católicos serão forçados a apoiar o direito absoluto de liberdade de religião e a resignar-se em coexistir com outros cultos onde só os católicos deveriam ter o direito de florescer . . . ” (O grifo é nosso.)

Em outras palavras, o clero católico diz claramente aos semelhantes às Testemunhas de Jeová: ‘Se tivéssemos um jeito, nós nos livraríamos de vocês.’ Mas Jeová não permitiu que este antagonismo prevalecesse contra o povo que ‘chegou a conhecer o seu nome’. — Sal. 91:14.

ESFORÇOS PARA PERTURBAR AS ASSEMBLÉIAS

O clero fez tudo ao seu alcance para interromper nossa atividade pacífica, adotando vários métodos para interromper nossas assembléias. Por exemplo, os sacerdotes infiltravam na assistência agitadores, geralmente jovens. Estes entravam e ficavam sentados quietos entre os congressistas por pouco tempo, e então começavam a agitar a reunião por gritarem e criarem um tumulto. Neste ponto a polícia agia, mas, ao invés de remover os responsáveis pela confusão, usualmente parava a assembléia sob o pretexto de que a reunião estava “perturbando a paz”.

William Wengert relembra: “Quando começávamos uma assembléia nunca estávamos seguros de que conseguiríamos terminá-la. Havia tantas interrupções e dificuldades naqueles dias!”

Os superintendentes de circuito e de distrito que organizavam as assembléias encontraram uma solução simples e prática. Eles cuidavam de que houvesse um bom grupo de eficientes indicadores robustos e postavam vários deles junto à entrada. Um superintendente viajante relata: “A assembléia de circuito mal começara, e se esperava a interferência do clero. O superintendente de distrito orientou os indicadores designados à entrada a vedar o ingresso a qualquer que não conhecessem, e a casualmente fazerem algumas perguntas, tais como: ‘De onde você é?’ ou, ‘Quem é o superintendente de sua congregação?’ Permitia-se a entrada dos que respondessem de maneira convincente.

“Mas o que acontecia quando um arruaceiro conseguia entrar furtivamente no meio da assistência? Neste caso a ‘equipe móvel’, um grupo de indicadores de aspecto bem decidido, entrava em cena e bondosamente convidava o opositor a se calar. Quando continuava a agitação a ‘equipe’ mui discretamente erguia o agitador do seu assento e ‘ajudava-o’ a deixar o auditório. Visto que a polícia não apoiava nosso direito de realizar reuniões sem perturbações, tínhamos de resolver o problema nós mesmos.”

Deixe-nos mencionar alguns dos incidentes instigados pelo clero. O primeiro desses aconteceu numa assembléia de circuito realizada em Sulmona, cidade pequena na Itália central num vale fértil da região dos Abruzzos. No domingo, 26 de setembro de 1948, havia cerca de 2.000 pessoas presentes ao discurso público — uma multidão extraordinária, se nos lembrarmos de que havia somente 472 publicadores em todo o país naquela época. O que aconteceu nessa ocasião? Um trecho do Anuário de 1950 (em inglês) narra:

“Domingo de manhã, às 10,30, mais de 2.000 pessoas superlotaram o maior teatro na cidade, e foi necessário fechar as portas minutos antes da hora marcada para a conferência. Muitos tiveram que ir embora, mas não sem receberem um folheto; simplesmente não havia mais lugar, até mesmo os corredores estavam ocupados! No interior, uma assistência extremamente atenta demonstrava seu apreço e aprovação da verdade por aplaudir diversas vezes durante o discurso e após seu término.

“No entanto, antes que a reunião terminasse, um jovem carola, que permanecera de pé nos fundos do auditório, e que recebia orientações de dois sacerdotes, dirigiu-se ao palco, ergueu as mãos e começou a gritar, insistindo em ser ouvido. O presidente da reunião explicou calmamente que as perguntas do público seriam respondidas pessoal e particularmente ao encerrar-se a reunião. Que este fanático estava decidido a causar problemas e usar nossa reunião pública para disseminar sua propaganda religiosa era bem evidente. Sem embargo, semelhante ao clero, apercebia-se dos bancos vazios nas igrejas nesses dias e procurava outros lugares para discursar às pessoas. Incentivado por seus furtivos conselheiros sacerdotais, galgou o palco assim que a assembléia foi dispensada, agitou os braços como um louco e vociferou a plenos pulmões para obter atenção. Os dois sacerdotes nos fundos, inclinando suas cabeças para ocultar seus colarinhos revirados, gritaram e assobiaram em aprovação, esperando que isso provocasse uma onda de entusiasmo por seu mercenário. Não funcionou. A assistência rejeitou sua tentativa repulsiva de fazer proselitismo religioso. Ao invés de aplaudi-lo e permitir que falasse, os da assistência abafaram sua voz de protesto com brados de: ‘Fascistone!’ [Fascista!] ‘Vergogna!’ [Que vergonha!] ‘Quanto lhe pagam para fazer isso?’ Vendo que as coisas não iam tão bem assim, o intencionado intrometido logo saltou do palco e desapareceu rapidamente com seus companheiros sacerdotais. Então, ordeira e quietamente, a assistência saiu do teatro, aceitando de bom grado o folheto grátis que lhe foi oferecido.”

O relato termina por dizer: “Inverteram-se as posições e mais uma vez Jeová obteve a vitória.”

A PRIMEIRA ASSEMBLÉIA DE DISTRITO

Deixe-nos descrever agora um outro episódio da intolerância religiosa. Estávamos para realizar a primeira assembléia de distrito já realizada na Itália, no Teatro dell’Arte, Milão, de 27 a 29 de outubro de 1950. Em cima da hora o chefe de polícia cancelou nossa permissão de realizar a assembléia ali. Disseram aos dois irmãos encarregados da organização da assembléia que a medida fora tomada para evitar o perigo duma reação dos católicos que pudessem ficar ofendidos com uma reunião protestante! Isso era absurdo! Era apenas uma desculpa para privar cidadãos honestos de seu direito de se reunir pacificamente.

Não obstante esses e outros argumentos apresentados pelos irmãos serem flagrantemente lógicos, o chefe de polícia não voltou atrás. Quando, como último recurso, os irmãos ameaçaram informar a imprensa desse abuso de autoridade, ele não sabia o que dizer e expulsou-os de seu escritório. Conjugando o que se disse com outros fatos em nosso poder, estávamos certos de que o clero participara no assunto. Desta vez tinham descoberto um método diferente, utilizando sua influência com a polícia.

O irmão George Fredianelli, o superintendente ajudante daquela assembléia, relembra:

“Esta era a situação: faltava menos de 24 horas para a assembléia começar, os irmãos chegavam a Milão de todas as partes da Itália, e não podíamos encontrar nenhum outro auditório em parte alguma! Que devíamos fazer? Estávamos muito preocupados Porém, uma vez mais, Jeová interveio em nosso favor.

“Na manhã antes da assembléia, eu e o irmão Anthony Sideris, o superintendente da assembléia, saímos para procurar outro auditório. Enquanto passávamos por um terreno cercado, subitamente tivemos uma idéia: ‘Por que não perguntar ao proprietário se ele nos deixaria usá-lo por três dias?’ Ele alugou-nos o terreno a um preço bastante razoável, e partimos à procura de algumas barracas grandes que pudessem acomodar a assembléia. Por fim encontramos uma fábrica de barracas bem-conhecida disposta a alugar-nos grandes barracas e até a ajudar-nos a erguê-las. Ficaram contentes com a perspectiva de publicidade extra.

“O próximo problema que nos confrontava era o de obter outra vez permissão das autoridades. Visto que havia pouca ou nenhuma chance de que seria concedida em tempo, decidimos apresentar-lhes o fato consumado. Não havia outro modo. Simplesmente não podíamos enviar os irmãos de volta para casa. Erguemos as barracas e organizamos os vários departamentos durante a noite sem comunicar a ninguém, e às nove horas da manhã a assembléia iniciou pontualmente.

“A polícia chegou logo depois. Saltaram do seu jipe armados até os dentes. Que flagrante contraste eles constituíam! Quão ridícula era aquela situação! Policiais armados enviados para controlar pessoas pacíficas que estavam sentadas ali entoando cânticos religiosos. O irmão Sideris disse-lhes que se interrompessem a assembléia haviam de se arrepender. Relataríamos o incidente à imprensa local e internacional, a fim de mostrar que a nova constituição da Itália não era observada e que se retornava a ditadura fascista. Os policiais amedrontados saíram em busca de instruções de seus superiores e voltaram mais tarde para informar-nos de que podíamos continuar com nossa assembléia.”

Estavam presentes cerca de 800 pessoas ao discurso público e 45 foram batizadas. Visto que as barracas foram erigidas numa área onde havia várias fábricas, os irmãos tiveram a oportunidade de dar testemunho a muitos dos trabalhadores que aproveitavam o intervalo do almoço para ir ver o que estava acontecendo. E como era estar sentado dentro daquelas barracas nos dias frios e úmidos de outubro? Fern Fraese relembra: “Enquanto escutávamos o programa, mantínhamo-nos agasalhados, e muitos de nós segurávamos bolsas de água quente para nos mantermos aquecidos. Não obstante, estávamos muito contentes e felizes de receber tão rico alimento espiritual.”

INTOLERÂNCIA CLERICAL SAI PELA CULATRA

Outro episódio de intolerância fomentada pelo clero ocorreu na última semana de junho de 1951, em relação com uma assembléia de circuito a ser realizada em Cerignola. O que aconteceu naquela ocasião? O relatório no Anuário de 1952 (em inglês) declara:

“Ao meio-dia, dois policiais apareceram no auditório para avisar-nos de que nossas reuniões ‘particulares’ ali haviam sido proibidas. Visitamos imediatamente o gabinete local do ‘commissario’ [comissário de polícia] para descobrir o que significava tudo isso. Enquanto entrávamos na delegacia, um sacerdote jovem deixava o local com um grande sorriso no rosto. Era óbvio que estava bastante feliz, e logo percebemos que a polícia lhe deu razões para sentir-se contente. O ‘commissario’ deixou bem claro que nossa permissão policial tinha sido cancelada por razões além do seu controle. As autoridades forneceram como ‘razão’, a condição insegura do auditório, mas não se esperava que alguém cresse nisso. Depois duma discussão um tanto acalorada sobre o assunto, fomos orientados a ir à capital da província e falar com o ‘chefe’ da província, o ‘questore’.

“Poucas horas depois entramos na sede da polícia provincial, e, para nossa surpresa, encontramos ali o mesmo sacerdote católico com que tínhamos deparado no gabinete do ‘commissario’, desta vez acompanhado por um sacerdote mais idoso e de aspecto mais importante. Descobrimos posteriormente que este último era o ‘vicario’ da cidade onde estávamos realizando nossa assembléia. Os sacerdotes esperavam para falar com o ‘questore’, mas, ao invés disso, quando entrou seu assistente, o chefe de polícia, pediram que fossem conduzidos ao seu gabinete. Poucos minutos depois, chegou o ‘questore’ . . . Ele demonstrou claramente que havia decidido de antemão o que dizer-nos mesmo antes de ouvir-nos falar e . . . ameaçou-nos de prisão por termos alugado um auditório que era, na opinião dele, impróprio para reuniões. Sua estratégia era amedrontar-nos e fazer parecer que éramos os errados e, conseqüentemente, merecedores de repreensão. . . .

“Estávamos determinados a não ceder a esta ação arbitrária da polícia, própria de fascistas, sem uma batalha, e permanecemos no gabinete do ‘questore’ por mais de uma hora, debatendo os aspectos legais de nossa questão.”

Não obstante, o questore não mudou sua decisão. Assim o que sucedeu com respeito à assembléia? O relatório continua:

“Retornamos e fizemos arranjos para realizar a assembléia em dois lares particulares, e por meio do equipamento de alto-falantes tivemos o mesmo programa em ambos os lugares simultaneamente. A intolerância do clero suscitou a indignação de muitas pessoas honestas, apesar de os sacerdotes tentarem ofuscar isso por anunciar na igreja na manhã seguinte que ninguém deveria comparecer à reunião pública das testemunhas de Jeová naquele dia (embora soubessem o tempo todo que fora proibida e, portanto, não seria realizada!). . . . Mas, novamente, os sacerdotes foram derrotados, porque as testemunhas de Jeová não se calam, porém continuam a expor a hipocrisia e os ensinos errôneos da religião falsa, o que resulta em mais pessoas de boa vontade abrirem seus olhos.”

UMA LONGA BATALHA LEGAL

Em 1956 havia cerca de 190.000 não-católicos na Itália. Naquela época os publicadores do Reino eram poucos milhares, mas eram zelosos e ativos. Em contraste com o extraordinário crescimento do povo de Jeová, as outras religiões passaram por um declínio progressivo, em geral. A verdade espalhava-se rapidamente, especialmente ao longo da costa adriática nas regiões de Abruzzo e Romagna, onde publicadores zelosos saíam em ônibus lotados para pregar em cidades vizinhas até que se estabelecessem congregações ali também.

Pressentindo um iminente perigo, a hierarquia católica procurou organizar uma campanha contra nossa obra de pregação. L’Osservatore Romano, porta-voz oficial do Vaticano, em sua edição de 1.º e 2 de fevereiro de 1954, encorajou o clero e os membros da igreja a se oporem à obra realizada pelas Testemunhas de Jeová. Embora o artigo não mencionasse quaisquer nomes, é óbvio que visava principalmente as Testemunhas. Declarava:

“Desejamos também trazer à atenção uma intensa propaganda protestante, em geral de origem estrangeira, que tem a finalidade de semear erros perniciosos no país . . . Gostaríamos de convidar todos os párocos, organizações de igreja e membros do rebanho a ficar de constante alerta às manifestações desta, e a informar às autoridades competentes com a maior prontidão.” (O grifo é nosso.)

As “autoridades competentes” aqui mencionadas só podiam referir-se à polícia. De modo que o Vaticano estava realmente incitando os sacerdotes a certificar-se de que os publicadores fossem detidos. Deveras, centenas deles foram levados sob custódia após serem interrompidos pela polícia. Muitos foram libertos logo em seguida; outros foram multados ou presos. O povo de Jeová teve de continuar com a longa batalha legal até o começo da década de 1970. De 1947 a 1970 mais de 100 ações judiciais envolvendo as Testemunhas de Jeová foram levadas aos tribunais.

Os publicadores foram acusados de violar os artigos 113, 121 e 156 do código fascista de lei policial. Tais artigos exigiam que os que distribuíssem matéria impressa (art. 113), vendessem de porta em porta (art. 121) ou arrecadassem dinheiro para uma causa específica (art. 156), possuíssem uma licença ou fossem inscritos nos cartórios de ofício.

É evidente que os publicadores do Reino não realizam uma atividade comercial, nem estão empenhados em arrecadar dinheiro. Ao passo que pregam as “boas novas”, deixam revistas ou outras publicações por uma contribuição que cobre os gastos de impressão, quando a pessoa está em condições de contribuir. Portanto, nossa obra deve ser classificada como sendo a disseminação de convicções religiosas, ou, conforme aprovada pelo artigo 19 da Constituição Italiana, um modo de “difundir” a fé da pessoa. Evidentemente, foi feita uma tentativa naquele tempo para por em vigor leis para reprimir a liberdade de adoração. Por fim, em 1956, a parte do artigo 113 que proibia a distribuição de matéria impressa sem licença foi reconhecida como contrária à Constituição e foi abolida.

Quase todos os pleitos tiveram um parecer favorável, e os poucos irmãos que foram sentenciados foram absolvidos ao se interpor recurso mais tarde. Poucas questões tiveram de ser examinadas pela Corte de Cassação, a corte suprema da Itália em questões de jurisdição; mas todas estas foram decididas em favor dos irmãos.

Examinemos apenas um desses processos para ilustrar como as acusações levantadas contra nossos irmãos eram meros pretextos para deter a obra. O irmão Romolo Dell’Elice, que está no serviço de Betel já por mais de 32 anos, foi sentenciado pelo tribunal distrital de Roma “a uma multa de quatro mil liras . . . por se empenhar em atividades de mendicância ligadas com a distribuição de folhetos e folhas volantes”. O irmão Dell’Elice apelou e foi absolvido pelo Tribunal de Roma em 2 de dezembro de 1959. Reconheceu-se que “a distribuição dos folhetos e folhas volantes supramencionados de modo algum constituía mendicância; ao invés, era parte da difusão religiosa realizada favorável às . . . Testemunhas de Jeová.”

ASSEMBLÉIA EM ROMA!

Uma assembléia em Roma era algo que os irmãos apelavam por vários anos. Até os irmãos levados perante o Tribunal Especial haviam pensado secretamente: “Quem sabe se algum dia teremos uma assembléia em Roma e estaremos em condições de nos reunir livremente nesta mesma cidade onde agora estamos presos?”

Cumpriram-se estas expectativas em dezembro de 1951, quando se realizou uma assembléia nacional no prédio da Feira do Comércio de Roma. Seu tema, “Adoração Pura”, era um significante contraste com a florescente religião tradicional daquela cidade. Visto que estavam presentes irmãos de outras 14 nações européias, a assembléia assumiu um aspecto internacional. O Anuário de 1953 (em inglês) publicou o seguinte relatório:

“A assembléia de Roma foi o acontecimento inesquecível do ano Quando se anunciou que o presidente da Sociedade presidiria a assembléia, os irmãos italianos determinaram-se a fazer grandes sacrifícios para estar presentes. A pobreza na Itália torna difícil para alguém deixar o país para uma assembléia internacional. Portanto, quando o irmão Knorr sugeriu que os países vizinhos fossem convidados a assistir à assembléia de Roma, a resposta foi excelente. Havia cerca de 700 a 800 congressistas da Inglaterra, Dinamarca, França, Bélgica, Suíça e de muitos outros países europeus. Isto fez da assembléia de Roma um congresso internacional que os irmãos italianos jamais esquecerão. Foi sua primeira prova do amor e da união existentes entre os irmãos de diferentes raças e nacionalidades. Agora podemos aguardar similares ajuntamentos abençoados do povo de Jeová na Itália, assim como em outros países, e sabemos que serão feitos maiores esforços pelos irmãos para assistir a futuras assembléias.”

CAMPANHA ESPECIAL COM FOLHETO

Houve dois acontecimentos importantes em 1955. O primeiro destes foi uma campanha em escala mundial com o folheto A Cristandade ou o Cristianismo — Qual é “A Luz do Mundo”? Solicitou-se a cada publicador que distribuísse 30 exemplares do folheto, e todos os membros do clero no país deviam receber um exemplar pelo correio. Exigiu muito trabalho obter todos os endereços e despachar 100.000 exemplares, cada qual com uma carta acompanhante.

Raramente alguém do clero respondeu às cartas dos publicadores, mas alguns reagiram violentamente com cartas aos jornais. Por exemplo, em 4 de setembro de 1955, o jornal católico Il Piccolo de Faenza publicou um artigo portando o vivido cabeçalho: “Cuidado com os Falsos Profetas — Nossa Réplica às Testemunhas de Jeová.” Lemos no artigo:

“Recentemente as Testemunhas de Jeová (chamadas de fanáticos da Bíblia pela maioria das pessoas) enviaram um folheto de sua propaganda aos sacerdotes e às instituições religiosas, solicitando deles uma resposta.” Depois de descrever as Testemunhas quais “pobres idiotas” possuidores de “incrível ignorância e extraordinária presunção e obstinação”, o artigo concluía por recomendá-los a “meditar” num trecho da Divina Comédia de Dante

Este tipo de artigo e outros semelhantes foram escritos contra o povo de Jeová. Algumas vezes os artigos resultaram em despertar a curiosidade das pessoas, induzindo-as a fazer várias perguntas quando eram visitadas em seus lares.

A ASSEMBLÉIA REINO TRIUNFANTE

Outro evento destacado no ano de 1955 foi a Assembléia Reino Triunfante. Entre os 4.351 na assistência desse congresso internacional estavam congressistas de 32 nações, e 378 foram batizados. Isto significava que quase 10 por cento dos presentes simbolizaram sua dedicação pelo batismo em água, um algarismo realmente marcante. Cinco bens especiais repletos de irmãos chegaram de Paris, a maioria destes irmãos sendo dos Estados Unidos. Sua chegada provocou bastante sensação porque era a primeira vez que Roma presenciava tão grande grupo de turistas americanos chegarem todos de uma só vez.

Não foi fácil conseguir o Palazzo dei Congressi para nossa assembléia. Naquele tempo era um dos melhores salões de convenções na Europa, totalmente revestido de mármore branco e rodeado de áreas verdes para o uso de delegados de assembléias. Nosso primeiro requerimento foi aceito, e tudo parecia correr bem, quando, 10 dias antes de a assembléia começar, nos disseram que a permissão para usar o salão fora cancelada. Alegou-se que se precisava do local para outro compromisso. Por fim, dois dias antes do congresso, quando parecia que a assembléia não mais seria realizada em Roma, a administração informou-nos que podíamos realizar nosso congresso afinal.

O que estava por trás destas manobras obscuras? A resposta é encontrada num artigo intitulado “A Torre de Babel — Um Corvo em Campidoglio”, publicado pelo jornal Meridiano d’Italia de 30 de outubro de 1955, que declarava:

“Parece que o Sr. Cornacchiola, [seu nome significa literalmente ‘pequeno corvo’] Conselheiro Cristão Democrata da Cidade de Roma, é mesmo mais pró-Vaticano do que o Sr. Rebecchini [então prefeito de Roma], que tem uma posição, ainda que só honorária, na Cidade do Vaticano.

“De fato, o Sr. Cornacchiola — sim, este é seu nome, Cornacchiola — indagou do prefeito de Roma para descobrir ‘porque os prédios da EUR [‘Esposizione Universale Roma’] seriam usados por uma seita protestante, “Testemunhas de Jeová”, para sua assembléia.’ Em nome do povo de Roma, o Conselheiro Cornacchiola disse que desejava ‘protestar contra isto e repreender severamente os responsáveis pelo caso inteiro. Roma, como residência do Vigário de Nosso Senhor Jesus Cristo, não pode tolerar ajuntamentos similares que ofendem a residência do Papa’.”

“Portanto”, prossegue o jornal, “independentemente do fato de que a permissão em consideração foi obtida da ‘Prefettura’ (na pessoa do ministro, Sr. Tambroni, membro importante da ‘Azione Cattolica’ [Ação Católica]), deve-se ter em mente que Roma é a residência do Chefe de Estado da República Italiana, ao passo que o Vigário de Cristo reside na Cidade do Vaticano.

“Entre outras funções, o presidente Gronchi tem o dever de salvaguardar a Constituição da República Italiana, que declara, no artigo 8, que ‘todos os credos têm igual direito de livre exercício e de se organizar segundo seus estatutos particulares’.

“Se o Sr. Cornacchiola desaprova a Constituição Italiana, devia começar por renunciar à sua posição no Conselho da Cidade de Roma.”

A imprensa também comentou favoravelmente sobre o comportamento das Testemunhas. Il Giornale d’Italia de domingo, 7 de agosto de 1955, dizia o seguinte:

“Um observador imparcial ficará impressionado com três coisas em especial: primeiro, o comportamento exemplar dos presentes, ao acompanharem o que é dito com respeitoso silêncio e com patente afinidade espiritual; segundo, o fato de que tantas raças podem se ajuntar no nome duma religião que aparentemente infunde aos seus pensamentos e ações serenidade e retidão moral; terceiro, o número excepcional de crianças de um a treze anos — brancas, de cor ou amarelas, mas todas estranhamente bem comportadas ou até mesmo ocupadas consultando versículos na Bíblia Sagrada enquanto acompanham as palavras de seu pregador.”

As novas publicações lançadas foram recebidas com grande entusiasmo, e a notícia de que a revista Despertai! seria publicada em italiano, começando com a edição de 8 de agosto de 1955, foi especialmente emocionante. As publicações lançadas em italiano incluíam o livro “Novos Céus e Uma Nova Terra”, e os folhetos Base Para se Crer em Um Novo Mundo, Em Breve a Conquista do Mundo — Pelo Reino de Deus e “Estas Boas Novas do Reino”.

DUAS VITÓRIAS SIGNIFICATIVAS EM 1957

Em 1957 o povo de Jeová obteve duas vitórias significativas na Itália. A primeira destas se relacionava com os 26 irmãos sentenciados pelo Tribunal Especial. Após a queda do fascismo muitas pessoas sentenciadas por essa corte tiveram seus casos revistos e foram absolvidas. Os fiéis irmãos sabiam que sofreram uma injustiça por causa de sua posição; e, muito embora não estivessem excessivamente preocupados quanto a sua posição aos olhos do mundo, decidiram requerer revisão de seus processos para vindicar os direitos das Testemunhas de Jeová como povo. Isto era necessário porque o Tribunal Especial acusou a organização teocrática de ser “uma sociedade secreta que realiza atividade visando uma mudança na forma de governo, e que dissemina propaganda em detrimento da identidade nacional”, e de adotar “intenções criminosas”.

Portanto, era nos nossos melhores interesses ter essa sentença anulada objetivando estabelecer boas relações com as autoridades governamentais.

A questão foi revista pelo Tribunal de Apelação de Áquila, em 20 de março de 1957, na presença de 11 dos 26 irmãos afetados. Um dos advogados de defesa era Nicola Romualdi. Apesar de não ser Testemunha de Jeová, esse advogado não hesitou em defender os direitos de nossos irmãos desde o início da década de 1950, quando era muito difícil achar advogados dispostos a defender-nos em nossas questões legais. Já por mais de 30 anos, ele tem defendido prontamente centenas de nossos irmãos na sua luta para confirmar seu direito de neutralidade cristã e sua liberdade de pregar as “boas novas”.

Os autos do processo mostram que, quando o Sr. Romualdi explanou ao Tribunal que as Testemunhas de Jeová consideram a hierarquia católica qual meretriz por causa de sua intromissão nos assuntos políticos, “os juízes favoravelmente trocaram olhares significativos”. O tribunal decidiu anular as sentenças prévias e, em conseqüência, reconheceu que a obra das Testemunhas de Jeová não era ilegal nem subversiva.

Outra vitória foi obtida na assembléia de distrito em Milão, no fim de junho. Ela começou na tarde de quinta-feira, no auditório do Jardins de Inverno Odeon, e tudo corria bem até pouco antes do encerramento da sessão da noite quando aconteceu algo incomum. O irmão Roberto Franceschetti relata:

“Restava ainda 10 minutos de programa quando o último orador, Giuseppe Tubini, concluiu seu discurso rapidamente e convidou os presentes a se prepararem para a oração final. Todos notaram a rápida conclusão e a ausência do cântico concludente. Por que fora omitido? Enquanto nós, que estávamos de pé junto à entrada principal, respeitosamente inclinávamos a cabeça em oração, vimo-nos cercados por indivíduos com suas cabeças erguidas, sem tirar os chapéus, enquanto se proferia a oração. Só podiam ser policiais!

“Mais tarde ficamos sabendo dos detalhes. Pelo menos 30 ou 40 policiais entraram no auditório e determinaram que a assembléia fosse encerrada. O pretexto era que os proprietários do auditório falharam em requerer a licença necessária. Os encarregados da assembléia tentaram em vão esclarecer que a ordem de suspensão punia as Testemunhas, não os proprietários. A manhã de sexta-feira tinha sido reservada para o serviço de campo; os departamentos de literatura, revistas e território eram dirigidos por irmãos numa rua próxima. Cada qual foi suprido do necessário a fim de que o trabalho prosseguisse conforme planejado. Mas o tempo escoava-se rapidamente, enquanto procurávamos outro auditório. Faltavam apenas duas horas para o programa começar e ainda não havíamos encontrado uma solução.

“Então os proprietários do Jardins de Inverno avisaram que haviam encontrado um lugar para nós no Cinema Arenella. Todos os irmãos ajudaram, e os departamentos foram transferidos de um lugar para outro resolutamente. Bem na hora! Apesar de tudo, a sessão começou na hora aprazada.

“Mas a polícia não desistiu. Foram ao novo auditório para criar mais dificuldades. Fui designado qual indicador e recebi instruções de não deixar entrar quaisquer estranhos, nem mesmo a polícia. Logo deparei-me com um ‘commissario’ de polícia e dois de seus homens. Parei-os e pedi que aguardassem um momento. De modo algum ficaram intimidados com isto e persistiam na sua determinação de entrar. De modo que fui obrigado a deter o ‘commissario’ por estender a minha mão à altura de seu relógio de bolso. Meus joelhos tremiam, mas felizmente o superintendente da assembléia interveio neste momento.”

A assembléia foi realizada e os irmãos ficaram exultantes e excepcionalmente edificados em resultado desta significativa vitória. Todavia, isto ainda não era o fim. A imprensa movimentou uma campanha sem precedentes em nosso favor. Muitos jornais descreveram a maneira de a polícia agir como “abuso de autoridade sem precedente”, e a intervenção ilegal foi assunto de debates no parlamento durante uma sessão do senado. Neste respeito, Il Paese de 8 de fevereiro de 1958 declarou:

“A parte mais animada da sessão ocorreu na hora do debate. Deveras, havia várias perguntas sobre um assunto melindroso — o da interferência em atividades religiosas. O senador republicano, Sr. Spallicci, indagou para saber por que a Questura de Milão ordenara o encerramento imediato duma assembléia realizada pela associação cultural e religiosa das ‘Testemunhas de Jeová’ (Estudantes da Bíblia), que era realizada num auditório particular. Em sua resposta, o Digníssimo Subsecretário do Interior, Sr. Bisori, foi um tanto evasivo. Explicou que tomara-se providências baseadas em assuntos organizacionais. Numa atmosfera de ironia geral o representante do governo disse que a ação tomada não visava a restrição da liberdade de adoração. Antes, foi induzida pela inobservância dos regulamentos de segurança pública.”

Em resultado desta questão, o nome de Jeová e seu povo receberam atenção geral, até mesmo na alta esfera governamental! Porém, quem estava realmente interessado em interromper a assembléia? O semanário liberal de Roma, Il Mondo, de 30 de julho de 1957, comentou:

“O artigo 17 da Constituição garante o direito de todos os cidadãos se reunirem de modo ordeiro, e especifica no seu primeiro parágrafo que ‘as autoridades não requererão notificação antecipada sobre tais reuniões públicas’. Ademais, a assembléia no Odeon foi providenciada para os adeptos duma associação religiosa, e, visto que o auditório em questão foi alugado por quatro dias, devia ter sido considerado como lugar privativo de reuniões pela duração do contrato. Não só foi tudo organizado segundo a lei, mas devia-se dar algum crédito aos organizadores por sua retidão escrupulosa em notificar a Questura sobre a reunião em tempo hábil. Afinal, as Testemunhas de Jeová não são conspiradores suspeitos contra a segurança do Estado nem agitadores perigosos.

“É evidente que o respeito escrupuloso pela lei e a responsabilidade cívica são de pouca monta, quando funcionários do Estado se valem de regulamentos de segurança que datam da era fascista para agradar ao arcebispo [Giovanni Battista Montini, que mais tarde tornou-se o Papa Paulo VI].”

UMA RESOLUÇÃO FRANCA

O verão de 1958 (hemisfério setentrional) foi memorável para as Testemunhas de Jeová em toda a terra. Foi assinalado pela Assembléia Internacional da Vontade Divina, realizada simultaneamente no Estádio Ianque e no Campo de Pólo, na cidade de Nova Iorque. Entre os 253.922 congressistas na assistência havia um pequeno grupo de italianos. Retornaram para casa radiantes de alegria e maravilhados com as coisas que viram e ouviram.

O programa da assembléia de Nova Iorque foi repetido em três assembléias de distrito realizadas em Florença, Nápoles e Messina, e os presentes com toda a certeza jamais esquecerão a resolução franca intitulada “Como a Cristandade Tem Falhado Para com Toda a Humanidade?”, que foi adotada durante o desenrolar do programa.

Conforme se esperava, havia muito entusiasmo entre os irmãos, especialmente quando ficaram sabendo que a resolução devia ser distribuída numa campanha especial. Em dezembro de 1958, solicitou-se que cada publicador distribuísse 100 exemplares, e distribuíram-se meio milhão através do país.

VERDADEIRA LIBERDADE EM SÃO MARINHO

Ao passo que os turistas dirigem pela principal auto-estrada a caminho de São Marinho, a mais antiga república do mundo, são saudados pelo lema: “Bem-vindo à velha terra da liberdade.” A obra das Testemunhas de Jeová nesta república independente, totalmente cercada de território italiano, acha-se sob a supervisão da filial da Itália.

Quando foi que a verdadeira liberdade chegou a este pequeno estado, que mal possui 60 quilômetros quadrados de extensão? Pioneiros especiais começaram a trabalhar o território em 1958. Cerca de 10 anos mais tarde foi formado um pequeno grupo de nove publicadores. O grupo foi transformado em congregação em 1971. Em 1972, realizou-se a primeira assembléia de circuito na república, com 1.700 na assistência. Este evento incomum certamente deu aos habitantes algo em que pensar. Atualmente há 81 publicadores trabalhando na congregação, um número excelente, se considerarmos que São Marinho possui uma Testemunha para cada 252 habitantes!

A QUESTÃO DA NEUTRALIDADE

Os jovens na congregação cristã levam a sério a exortação inspirada de “forjar das suas espadas relhas de arado, e das suas lanças, podadeiras” (Isa. 2:4), e têm adotado uma posição pessoal a fim de manter sua neutralidade com respeito às controvérsias do mundo. — João 17:14, 16.

Já descrevemos a “odisséia” de Remigio Cuminetti e as provas que jovens Testemunhas enfrentaram durante a década de 30. Apesar disso, o problema da neutralidade cristã tornou-se mais acentuado depois da Segunda Guerra Mundial, quando havia maior número de jovens cristãos que desejavam conscienciosamente manter-se separados do mundo.

Os primeiros irmãos enviados a julgamento neste período receberam pesadas sentenças e passaram tempos difíceis na prisão. Alguns foram julgados cinco ou seis vezes, e receberam sentenças que somavam quatro ou mais anos de prisão. Isto ocorria porque a jovem Testemunha, ao sair da prisão, era novamente convocada para o serviço militar e enviada à prisão cada vez que se recusava a ceder. Teoricamente, esta série de acontecimentos poderia continuar até que alguém alcançasse 45 anos, quando não mais estaria sujeito à convocação militar. Todavia, depois de algumas repetidas sentenças, as autoridades militares geralmente isentavam os irmãos por motivo de saúde, a fim de não se tornarem mártires. Classificavam-nos como padecendo de “paranóia religiosa” ou “delírio religioso”. Em outras palavras, eram considerados mentalmente enfermos.

Algumas breves experiências de determinados irmãos que venceram esta prova será edificante para todos nós. Ennio Alfarano, sentenciado cinco vezes durante os idos de 1950, relembra como conseguiu atravessar esta crítica experiência:

“Fui preso em Gaeta. O capitão tentou compelir três de nós a fazer continência, e, quando todos nós nos recusamos, puniu-nos por amarrar firmemente nossos braços e pernas atrás das costas por oito horas. Era bastante doloroso. Não obstante, mantivemos nossa forte coragem pela oração e por entoarmos cânticos para encorajar-nos uns aos outros, e isso ajudou-nos. Depois disso, era para passarmos a pão e água por três dias, mas outros irmãos na prisão ficaram sabendo disso e sempre nos arranjavam alimento suficiente para manter-nos de pé.”

Giuseppe Timoncini, também sentenciado cinco vezes entre 1956 e 1961, relembra:

“As autoridades militares tentaram desencorajar-me, dizendo: ‘Nenhuma Testemunha de Jeová resiste por muito tempo. Quando muito, passam por um julgamento e então decidem prestar serviço militar.’ Costumava responder que isto não era verdade. Nisso citavam uma lista de nomes dos que tinham concordado em ingressar no exército. Naturalmente, os nomes eram inventados.

“A fim de suportar os meses de confinamento, tentei pensar o mínimo possível sobre o fim de minha sentença, e algumas vezes esquecia completamente quantos meses e dias faltava cumprir. Penso que adquiri muito treinamento útil nesta época de minha vida. Ajudou-me a adaptar-me a qualquer situação, a ser humilde e a confiar mais de perto em Jeová Deus.”

Gino Tosetti, que passou mais de quatro anos na prisão, relata:

“Meus primeiros dias de prisão em confinamento solitário foram muito difíceis de suportar. Lembro-me do que aconteceu em Palermo. Certa manhã o guarda acordou-me dizendo: ‘Saia dessa cama, Tosetti; há uma pilha de lenha esperando ser cortada!’ Ele me mantivera rachando lenha cada manhã até então, mas naquele dia não mais me encontrava em condições de fazê-lo. Minhas mãos estavam tão empoladas e doloridas que não poderia segurar o machado.

“Pedi para consultar o médico. ‘Você só pode permanecer na cama se tiver febre. Se não tiver, estará em dificuldade!’, gritou para mim enquanto caminhava. Pensando que o pior estava para acontecer, orei a Jeová para ajudar-me, e quando eles tiraram minha temperatura fiquei tão surpreso quanto eles quando o termômetro registrou 39°C.

“Tive várias oportunidades de testemunhar. Certa vez foi-me possível falar a um grupo de cerca de 40 soldados que permaneceram ao meu redor escutando atentamente por quase duas horas. Nossa boa conduta estimulou muitos, inclusive nossos guardas, a aceitar a verdade. Certa manhã, um soldado que montava guarda disse-me: ‘Tosetti, por favor, perdoe-me por todas as coisas más que lhe fiz. Apesar de meu comportamento você nunca tentou vingar-se de mim. Na última noite, ao montar guarda, li sua revista “A Sentinela” e ela ajudou-me a entender uma porção de coisas que eu não imaginava serem importantes. Desejo que me ajude a entendê-las melhor.’

“Este jovem soldado estivera só propenso a causar-me dificuldades, mas eu estava mais do que desejoso de perdoar-lhe. Depois disso, nós nos perdemos de vista, e passaram-se vários anos. Por volta dessa época eu readquirira a minha liberdade e assistia a uma assembléia de distrito quando alguém se dirigiu a mim dizendo: ‘Então, não se lembra de mim [ele me disse o seu nome], do tempo em que eu costumava abrir e fechar-lhe as portas da prisão e você costumava falar-me sobre a verdade?’ Ele tinha se tornado um irmão. Nós nos abraçamos com lágrimas nos olhos.”

Ao passo que o número de Testemunhas aumentava, a questão em debate era continuamente trazida à atenção do público e da mesma forma das autoridades. Finalmente, foi sancionada uma lei determinando que aqueles que não concordassem em prestar serviço alternativo deveriam ser sentenciados a um único termo de prisão, de modo que nossos jovens irmãos recebem agora de 12 a 15 meses de prisão.

No ínterim, as condições de vida nas prisões militares também melhoraram. As Testemunhas podem realizar reuniões regulares e ter uma biblioteca teocrática para ajudá-las em seu estudo pessoal. Podem ter os programas das assembléias de circuito e de distrito e realizar até mesmo os dramas bíblicos com trajes típicos. Permite-se-lhes também batizar alguns que tenham decidido dedicar suas vidas a Jeová enquanto ainda na prisão. Cada prisão militar é regularmente visitada por anciãos cristãos que são especialmente designados para esse serviço

De 1978 a 1980, em média, 500 irmãos jovens têm estado na prisão por um ano, em razão da questão da neutralidade. Calcula-se que até o presente momento, muitos milhares de Testemunhas têm mantido uma consciência limpa perante Jeová Deus neste respeito. Em dezembro de 1980, o ministro da defesa anunciou pela cadeia nacional de televisão que se achava em consideração um projeto de lei no legislativo que favoreceria a situação de nossos irmãos. Durante a entrevista ele descreveu as Testemunhas como “gente decente” e declarou que, com a nova lei, “o Estado mostrará respeito por todas as religiões”.

A conduta das jovens Testemunhas no tocante à neutralidade cristã tem servido para aumentar a estima que o povo de Jeová goza. Por exemplo, Il Corriere di Trieste declarou:

“As Testemunhas de Jeová deviam ser admiradas por sua firmeza e coerência. Diferente de outras religiões, sua unicidade qual povo impede-os de orar ao mesmo Deus, no nome do mesmo Cristo, para abençoar dois lados opostos de um conflito, ou de amalgamar política com religião para servir interesses de chefes de Estado ou partidos políticos. Por último, mas não o menos importante, estão antes prontas a morrer do que ter que violar o preceito básico estabelecido para a salvação do homem: o mandamento NÃO MATARÁS!”

A ASSEMBLÉIA “BOAS NOVAS ETERNAS”

A Assembléia “Boas Novas Eternas” foi um acontecimento importante em nossa história. Contudo, não foi possível realizá-la em Roma. A Igreja Católica havia decidido realizar o Concílio Vaticano II em 1963, e um funcionário do governo falou claramente ao nosso representante que não se achava conveniente permitir que uma religião não-católica realizasse um congresso em Roma naquela época. Disse também que Roma seria vetada aos não-católicos em 1963. Poderiam visitar a cidade quais turistas, mas manifestações coletivas seriam bloqueadas.

Por esta razão, nossa assembléia internacional de oito dias foi realizada em Milão, no Velódromo Vigorelli, uma pista para corridas de bicicletas. A organização duma assembléia desse vulto, que se esperava atrair cerca de 20.000 congressistas, foi uma nova experiência para os irmãos italianos. Qual foi seu problema mais difícil? O irmão Giuseppe Cialini, um superintendente viajante que participou no trabalho pré-assembléia naquela ocasião, diz: “Além das acomodações colocadas à nossa disposição pelos vários hotéis, necessitávamos de milhares de quartos extras. De modo que se decidiu procurar acomodações nos lares particulares, e pioneiros especiais foram chamados para realizar o trabalho de conseguir hospedagens. Foi a primeira vez que se buscaram hospedagens nos lares particulares na Itália, e cerca de 6.000 irmãos receberam designações de quartos deste modo.”

Não era de surpreender que o clero logo começasse a se opor aos nossos esforços. Poucos dias antes da assembléia começar, os sacerdotes principiaram a avisar seus paroquianos para que não hospedassem as Testemunhas de Jeová. O sacerdote da paróquia de Sto. André, em Milão, afixou na parede de sua igreja um cartaz que saltava à vista, que dizia: “As Testemunhas de Jeová não são cristãos.” Em resultado da propaganda do clero várias pessoas retiraram suas ofertas de quartos.

Nem todos os sacerdotes, porém, se opunham à organização da assembléia, como se depreende da experiência dum pioneiro especial. Ele relata:

“Eu discuti o preço das acomodações com a dona da casa e percebi que ela desejava reduzir a quantia que tínhamos oferecido na primeira visita. Ela explicou por quê. Ela tinha ido indagar de seu sacerdote se poderia alugar-nos os quartos e este lhe dissera: ‘Forneça acomodações para as Testemunhas de Jeová que vêm aqui para a sua assembléia, de qualquer maneira. São as únicas pessoas sinceras que se reúnem para falar sobre seu Deus. Nos dias de hoje devíamos ter mais pessoas semelhantes a elas — dispostas a se reunirem com o propósito de adquirir melhor conhecimento de Deus. Os que mostram hospitalidade às Testemunhas de Jeová estão fazendo um bem à humanidade.”’

O serviço de hospedagem foi também muito bem-sucedido de um outro ponto de vista. Resultou num testemunho concentrado dado em toda a cidade de Milão, e muitos moradores chegaram a apreciar a conduta das Testemunhas de Jeová, conforme relata uma pioneira especial:

“Uma senhora atendeu à minha batida à porta. Depois de ter explicado o objetivo da visita, ela disse que tinha acomodação para cerca de 10 pessoas, mas que queria pedir o conselho de um de seus amigos, um oficial de polícia, antes de fazer qualquer promessa. Quando retornei no dia seguinte, ela me recebeu com um sorriso radiante e disse: ‘Minha prezada jovem, ficarei muito contente de acomodar 10 pessoas para você. Sabe o que meu amigo disse? Bem, quero lhe contar usando as próprias palavras dele. Ele disse: “Signora, não só pode acomodar tais pessoas sem risco como pode dar-lhes as chaves da porta e ir para os Estados Unidos se desejar.” Lamento que não posso realmente ausentar-me durante seu congresso, porque ficaria feliz em deixá-los ocupar o apartamento inteiro.’”

Uma de nossas tarefas pré-assembléia mais árduas foi a de limpar o velódromo. Por que constituía isso um grande trabalho? O irmão Antonio Capparelli relembra: “Algum tempo antes de nossa assembléia no Velódromo, houve uma reunião católica convocada pelo cardeal Montini, pouco antes da morte do Papa João XXIII. Cada um dos católicos presentes naquela reunião segurava uma vela acesa e, por conseguinte, as escadarias da pista estavam cobertas de cera de vela e goma de mascar. Precisou-se de centenas de irmãos, alguns dos quais vieram de tão longe como Turim, para raspar e limpar toda a parte. Levou uma semana inteira para fazer o trabalho.”

Nesta assembléia havia congressistas de tantas quantas 52 nações. A assistência foi dividida em quatro seções: francesa, italiana, portuguesa e espanhola, de modo que o programa pudesse ser apresentado simultaneamente nestas línguas. Havia também certas sessões em inglês. No fim da sessão da tarde de quarta-feira, a assistência ficou contentíssima de ouvir do irmão Knorr que exemplares da Tradução do Novo Mundo das Escrituras Gregas Cristãs podiam agora ser obtidos nos idiomas dos quatro grupos nacionais presentes na assembléia, bem como em alemão e holandês!

Alguns dos 70 participantes da primeiríssima assembléia realizada em Pinerolo, em 1925, estavam presentes nessa ocasião memorável. Como se pode imaginar, foi uma sensação inesquecível para eles se verem entre a multidão de 20.516 presentes ao discurso público. Uma dessas irmãs escreveu: “Depois de ter assistido à assembléia de Pinerolo, pode imaginar o que significou para mim estar em Milão quase 40 anos depois. Esta experiência por si só bastaria para explicar minha profunda alegria.”

No fim da assembléia ninguém queria partir, e irmãos de diferentes nacionalidades demoraram-se em dizer adeus, um tanto tristes de que havia chegado a hora de partir. Muitos de nós ainda nos lembramos dos irmãos espanhóis e portugueses sentados nas escadas dando um adeus a seus irmãos, agitando centenas de lenços.

SUPERVISÃO NA FILIAL

Ao chegar a Itália em 1947, o irmão Joseph Romano foi designado superintendente de filial, e serviu nessa capacidade até maio de 1954. De 1954 a 1960, o irmão Anthony Sideris foi designado para este cargo, e então o irmão Romano o sucedeu por um pouco, até 1964, quando o irmão Valter Farneti se tornou o superintendente de filial. Deve lembrar-se da visita do irmão Vannozzi à congregação de Faenza anos antes, após o que escreveu: “Esperamos que um dia alguns desses jovens decidam alistar-se nas fileiras daqueles que se empenham nesse serviço privilegiado [serviço de pioneiro].” Bem, um desses jovens era o irmão Farneti. Depois de servir como superintendente de distrito, freqüentou um curso de 10 meses na Escola Bíblica de Gileade da Torre de Vigia e foi então designado superintendente de filial. Ele ainda é o coordenador da filial.

DUAS PUBLICAÇÕES ESTIMULAM O PROGRESSO

Que meio melhor há para estimular o progresso do que a provisão de nossa própria tradução da Bíblia Sagrada junto com um pequeno compêndio explicando-a em linguagem clara? Pode-se dizer verazmente que a Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas e o livro A Verdade que Conduz à Vida Eterna vieram no tempo exato para edificar os verdadeiros adoradores.

A Tradução do Novo Mundo das Escrituras Gregas Cristãs está disponível em italiano desde 1963 e, muito embora seu lançamento representasse um considerável passo à frente, era evidente que o povo de Deus necessitava possuir uma tradução da Bíblia inteira. As Testemunhas italianas haviam adquirido Bíblias católicas e protestantes em grandes quantidades e a preços bem elevados. Nas reuniões, quando o orador lia um texto duma versão, a assistência tinha de fazer ajustes mentais para adaptar o que ouvia com as palavras escritas nas várias versões que tinha diante de si. Mesmo quando a Tradução do Novo Mundo das Escrituras Gregas Cristãs era usada, outra versão tinha de ser mantida à mão para as citações das Escrituras Hebraicas.

Quão emocionados ficaram os irmãos ao receberem a notícia de que a Tradução do Novo Mundo completa fora finalmente impressa em italiano! A primeira consignação, que chegou em meados do primeiro semestre de 1968, logo se esgotou porque no mês de junho foi realizada uma campanha especial para distribuir estas Bíblias. Desde então, mais de 1.600.000 exemplares delas foram distribuídos. O povo de Deus tem sido capaz de desenvolver uma harmonia de linguagem ao passo que louva o Autor deste livro e ensina seus preceitos a pessoas sinceras.

A Verdade que Conduz à Vida Eterna pode ser descrito apropriadamente como o “livro certo no tempo certo”. Seu lançamento foi anunciado nas assembléias em meados de 1968 e foi possível às congregações obter exemplares dele nos primeiros meses do ano seguinte. Esta publicação, da qual mais de 4.000.000 de exemplares em italiano já haviam sido distribuídos até 1980, certamente tem ajudado a acelerar o progresso da obra do Reino.

A ASSEMBLÉIA INTERNACIONAL “PAZ NA TERRA”

Em meados de 1969, outro grande banquete espiritual foi realizado em Roma: a Assembléia Internacional “Paz na Terra”. Os irmãos espanhóis, que naquele tempo não tinham a liberdade de se reunir no seu próprio país, também estavam presentes. Os italianos tiveram seu programa no belo Palazzo dello Sport, ao passo que os espanhóis estavam no Palazzo dei Congressi, onde foi realizada a Assembléia Reino Triunfante em 1955.

Congressistas de 35 nações estavam na assistência, e um total de 25.648 estiveram presentes ao discurso público. O número dos batizados chegou a 2.212. Ninguém esperava que os candidatos à imersão fossem tantos. Era um sinal de que um grande aumento estava a caminho.

A imprensa deu uma cobertura geral extraordinária à assembléia. A gazeta diária Roma, de 15 de agosto de 1969, em sua reportagem sobre o batismo, comentou: “Tudo [ocorreu] numa atmosfera de grande paz e tranqüilidade, de modo que até os carabinieri, enviados para lá a fim de lidarem com alguma eventual emergência, pareciam estar bastante deslocados. Diante de tanta paciência ordeira, a pessoa não poderia deixar de pensar, na manhã de ontem, que, se houvesse mais Testemunhas de Jeová na Itália, muitas coisas tais como apanhar o ônibus, dar uma volta nas praças públicas, entrar na fila no estádio e (por que não dizer) viajar nos feriados bancários, seria bem mais fácil.”

A OBRA NA LÍBIA

A Líbia ocupa uma vasta área quase totalmente deserta, limitando com o mar Mediterrâneo. Tem uma população de quase 2.500.000 habitantes, em sua maioria árabes de fé muçulmana. Antes da Segunda Guerra Mundial e suas conseqüências, o país esteve sob domínio italiano e tinha uma crescente comunidade italiana. Contudo, por volta do fim dos anos 60, a maioria desses italianos foram obrigados a deixar a Líbia.

A obra das Testemunhas de Jeová na Líbia começou em abril de 1950, quando Michel Antonovic chegou a Trípoli, vindo do Egito, a fim de continuar com seu serviço secular. A pregação deste irmão logo começou a frutificar, especialmente entre a população italiana. De maneira que, em janeiro de 1953, decidiu-se transferir a supervisão da obra neste país, do Egito para a filial italiana. Ao passo que a obra progredia, surgiam várias dificuldades. Houve várias prisões, ações judiciais, confiscação de publicações, e assim por diante.

Em 1957 foi feita uma petição para que a obra fosse legalmente reconhecida, mas ela foi rejeitada em resultado de falsas acusações contra nós, inclusive alegações de que éramos uma sociedade secreta afiliada ao movimento sionista. Mas, apesar disso, a obra progrediu e, até 1959, havia 89 publicadores e um pioneiro especial. Logo depois disso a obra declinou porque as autoridades expulsaram muitos irmãos e eles foram forçados a voltar para a Itália.

Em 1964 a obra foi banida, e, depois da mudança de governo em 1969, quase todos os italianos, inclusive os irmãos remanescentes, tiveram de partir. Assim, pois, ao passo que se pode dizer que a Líbia produziu frutos de boa qualidade no passado, o futuro está agora nas mãos de Jeová.

A CONSTRUÇÃO DO NOVO BETEL

Durante sua visita à filial da Itália em 1968, o irmão Knorr forneceu instruções aos irmãos para que procurassem um terreno adequado para a construção dum novo complexo de Betel. Encontrou-se um terreno especialmente adequado a nordeste nos limites de Roma. Além disso, a área ficava próxima da “Auto-estrada do Sol”, a mais importante rodovia da Itália, e, por conseguinte, conveniente para transporte.

Submeteram-se projetos ao Conselho da Cidade de Roma para obtenção da licença para construção, mas surgiram dificuldades porque a organização teocrática não era ainda oficialmente reconhecida pelo Estado. Em 1969, contudo, os responsáveis pelo Projeto de Desenvolvimento da Cidade ficaram sabendo da imprensa que mais de 25.000 pessoas participaram de nosso congresso internacional. Em conseqüência, ficaram finalmente convencidos de que esta religião se tornara uma realidade que não mais podiam ignorar. Finalmente, foi obtida a licença para construção em março de 1971, e o trabalho foi iniciado imediatamente. O trabalho de construção foi feito quase que exclusivamente por irmãos, e em meados do primeiro semestre de 1972 o prédio de três pavimentos, com subsolo, foi terminado.

O novo Betel foi inaugurado em 27 de maio de 1972. No dia seguinte o irmão Knorr proferiu o discurso “Uma Casa Para Instrução Espiritual”, perante uma assistência de 15.700 pessoas reunidas no Estádio Flaminio. Muitos desses irmãos foram visitar o novo Betel e ficaram muito felizes de ver que Jeová estava abençoando o trabalho no campo italiano.

ASSEMBLÉIA “VITÓRIA DIVINA”

“Vitória Divina” foi o eletrizante tema da assembléia nacional realizada no Estádio Flaminio, em agosto de 1973. Os 30.000 publicadores da Itália ficaram emocionados de ver 57.000 na assistência. O estádio estava lotado, e esta impressiva multidão era em si mesma um claro indício da extensão da colheita em andamento. O batismo, ocasião em que 3.366 pessoas simbolizaram sua dedicação a Jeová, foi a maior imersão em massa já realizada na Itália.

As colunas de jornal, totalizando cerca de 6.000 centímetros de comprimento, falaram duma “excepcional grande multidão” e do “espetacular aumento” das Testemunhas de Jeová.

Il Messaggero, de 11 de agosto de 1973, declarou: “Todos esses crentes, tão jovens, tão zelosos, tão fervorosos e tão cheios de amor fraternal . . .”

Il Tempo, de 14 de agosto de 1973, comentou: “Num mundo em que as instituições se estão desfazendo e em que as pessoas tendem a criar seu próprio código de moral e até mesmo sua própria religião, é interessante observar pessoas de todas as rodas da vida e de formações culturais bem diferentes reunidas em perfeita harmonia, objetivando promover sua crença num instrumento seguro de salvação comum.”

A BÊNÇÃO DE JEOVÁ SOBRE O SEU POVO

“Tua bênção está sobre o teu povo”, disse o salmista. (Sal. 3:8) Lembra-se do pequeno grupo de 120 publicadores em 1946? Bem, depois dum começo vagaroso e difícil, estes leais adoradores têm sido abençoados e têm participado no ajuntamento de cada vez mais abundantes “colheitas”. Os gráficos acompanhantes mostram o maravilhoso aumento usufruído pelo povo de Jeová, especialmente depois de meados da década de 1960. Em 1980 havia 84.847 publicadores na Itália, e em junho de 1981 o número tinha aumentado para 90.191.

Os algarismos nas tabelas acompanhantes não só dão evidência da expansão que ocorreu nos interesses do Reino, mas também indicam as excelentes perspectivas para o futuro.

As 1.357 congregações, no tempo desta escrita, acham-se organizadas em 84 circuitos e cinco distritos. Estatísticas fidedignas indicam também que as Testemunhas de Jeová são a maior religião não-católica no país. Não obstante, colocando as estatísticas de lado, discernimos que o que é importante aos olhos de Jeová é sermos recebedores de suas bênçãos e aprovação. — Pro. 10:22.

AS REVISTAS SÃO IMPRESSAS EM BETEL

À medida em que o número dos publicadores do Reino e dos assinantes das revistas continuava a aumentar, havia uma demanda cada vez maior de exemplares das revistas A Sentinela e Despertai! no idioma italiano. Numa certa época as revistas vinham diretamente de Brooklyn. Após 1969, elas foram impressas na filial de Londres por um tempo. Daí, a partir de abril de 1971 eram impressas na filial da Suíça. Mas tudo isso criava alguns problemas. De modo que, começando com as edições de junho de 1972, A Sentinela e a Despertai! foram impressas por uma firma comercial em Roma. Mas, em resultado de greves e outras inconveniências, este arranjo logo mostrou ser inadequado, e havia freqüentes remessas atrasadas.

Em vista dessa situação, a Sociedade fez planos de instalar uma rotativa no Betel de Roma. Por fim, isto foi feito. Finalmente, no fim de 1975, a maquinaria impressora de Roma estava pronta para iniciar sua própria produção de revistas. Os primeiros números a saírem dessa rotativa foram as edições de 22 de janeiro de 1976, de Despertai!, e de 1.º de fevereiro de 1976, da Sentinela.

Mais de 18.500.000 revistas foram impressas na Itália durante o ano de serviço de 1980. A tiragem média da Sentinela, em italiano, alcançou 520.000 exemplares por edição, e da Despertai! aproximadamente 470.000.

TRABALHO NAS RUAS COM AS REVISTAS

Até 1974, as revistas A Sentinela e Despertai! eram distribuídas pelos publicadores italianos de casa em casa, mas não nas ruas ou nas praças públicas. Qual era a razão para isso? Deve lembrar-se de que os irmãos foram obrigados a envolver-se em mais de 100 processos judiciais para estabelecer seu direito de pregar as “boas novas”. Bem, apesar de que não houvesse leis que proibissem trabalharmos nas ruas com as revistas, os conselheiros legais da Sociedade sugeriram que seria melhor agirmos por etapas. Primeiro, desejávamos consolidar nosso direito de pregar de casa em casa, daí, então, poderíamos levar o assunto adiante.

Visto que a obra progredia de maneira excelente em todas as partes do país, pensava-se que chegara o tempo para expandir nossas atividades. Antes de começar o trabalho nas ruas com as revistas em escala nacional, contudo, tentou-se uma campanha experimental em algumas cidades, tais como Milão, Florença e Nápoles. Em vista dos excelentes resultados e do fato de que não surgiram quaisquer dificuldades, o Ministério do Reino de novembro de 1975 forneceu instruções de como realizar o trabalho nas ruas com as revistas, em conformidade com as leis do país. Desse tempo em diante, tal serviço peculiar tem prosseguido em toda a parte na Itália.

A ORGANIZAÇÃO É LEGALMENTE RECONHECIDA

Uma tentativa de obter o reconhecimento oficial da organização foi feita em 1951. Formou-se uma sociedade jurídica em Milão, e preencheu-se uma petição para ter a sua legalidade reconhecida. Em 11 de fevereiro de 1953, a prefettura (prefeitura) de Milão rejeitou nossa petição à base de que “as condições necessárias para atender o requerimento” não existiam. Quais eram estas “condições necessárias” de que dependia o reconhecimento legal? Por lei, havia basicamente duas condições a serem cumpridas: (1) a religião deveria ser “conhecida” pelo governo e, (2) seus objetivos não deveriam ser contrários aos interesses da lei e da ordem ou da moral pública.

No fim da década de 1950 fez-se uma outra tentativa junto ao Ministério do Interior, e uma vez mais sem êxito. A razão primária para isto era que nossa organização era pouco conhecida na esfera governamental e amiúde fora colocada em má luz. O advogado encarregado de nossa questão escreveu que na Itália ainda se podia sentir “a falta de um espírito liberal tradicional”.

Passaram-se muitos anos. Apoiada pelo espírito santo de Deus, a obra das Testemunhas de Jeová prosperou, e os irmãos tornaram-se bem conhecidos no país por suas excelentes qualidades morais. Em fevereiro de 1976 a petição foi renovada e, finalmente, aceita. A filial foi notificada da decisão em junho do mesmo ano — estava legalmente reconhecida a Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados de Pensilvânia.

Em conseqüência, abriam-se novas perspectivas. De fato, no final de 1976 obtivemos licença do Estado para nomear ministros religiosos para realizar casamentos. Ademais, em 1976 e em 1979, emitiram-se dois despachos ministeriais possibilitando os que se encontram no serviço de tempo integral a obter os serviços médicos e pensões disponíveis aos ministros religiosos. Recentemente, foi feito um outro acordo que concede a determinado número de superintendentes autorização para visitar pessoas na prisão que solicitam assistência das Testemunhas de Jeová.

O reconhecimento da Sociedade Torre de Vigia significa que se pode agora registrar propriedade em seu nome, e várias congregações estão adquirindo ou construindo seus Salões do Reino e registrando a propriedade no nome da Sociedade. Anteriormente quase todos os Salões do Reino eram alugados. Muito poucos pertenciam às Testemunhas de Jeová, visto que as congregações se viam obrigadas a registrá-los no nome de um ou mais dos irmãos.

Atualmente há dois salões de assembléia na Itália. O primeiro deles, inaugurado em Milão em outubro de 1977, é um anterior cinema que foi renovado e adaptado segundo nossas necessidades. O outro, nos arredores de Turim, foi construído especialmente para esta finalidade e foi inaugurado em maio de 1979.

Sem dúvida, desde que a organização foi oficialmente reconhecida pelo governo italiano, as Testemunhas de Jeová têm podido atuar com maior liberdade e usam meios cada vez mais eficientes para promover os interesses da adoração pura.

PROGRAMAS DE RÁDIO E DE TELEVISÃO

Relata-se que há 3.000 estações de rádio e 600 transmissoras de televisão na Itália, em adição às cadeias de emissoras nacionais. Em 1976 começamos a fazer uso dessas redes de emissoras particulares para difundir as “boas novas” mais extensivamente. No momento, nossos programas são transmitidos regularmente, gratuitamente, por 280 estações de rádio e 30 de TV. No que diz respeito aos programas de TV, a filial supre os irmãos com esboços para palestras ou entrevistas, e até mesmo programas ilustrados com slides dos discursos proferidos pelos superintendentes de circuito. Até agora, já divulgamos perto de 200 programas de rádio e 50 de TV.

Dos relatórios recebidos, parece que tais programas são muito bem-sucedidos. Às vezes eles produzem resultados imediatos, como em Oristano, na Sardenha, onde 15 pessoas pediram para ser visitadas em seus lares pelas Testemunhas de Jeová. Em três cidades na província de Salerno, cerca de 35 pessoas começaram a estudar a Bíblia conosco após ouvirem nossos programas. Um superintendente relata: “Na província de Ragusa [Sicília], um publicador indo de casa em casa encontrou um senhor que disse: ‘Eu já o esperava. Acompanho seu programa toda quinta-feira e estava certo de que vocês me visitariam mais cedo ou mais tarde.’ Ele aceitou a oferta de um estudo bíblico.”

Naturalmente, nem sempre há tais resultados imediatos. Contudo, graças aos nossos programas, em algumas partes do território muitas pessoas têm uma atitude melhor para com a mensagem do Reino, e quando os publicadores visitam, os moradores escutam com maior atenção.

A CAMPANHA COM O FOLHETO “SANGUE”

Na Itália a questão da transfusão de sangue veio à tona durante a década de 1960. Naquela época os médicos consideravam as transfusões de sangue como terapia indispensável em muitos casos, e davam muito pouca atenção aos riscos envolvidos. Era, portanto, muito difícil encontrar cirurgiões que estivessem dispostos a operar sem sangue, e os publicadores muitas vezes tinham de ir de uma cidade a outra para encontrar um cirurgião que desejasse operar. Quando surgiam determinadas emergências, os jornais publicavam artigos que redundavam em publicidade contra nós. Em tais circunstâncias, era muito difícil para os irmãos lidarem com a grande hostilidade demonstrada em algumas áreas.

Por volta dos meados da década de 1970 a situação melhorava ao passo que cada vez mais médicos começavam a entender nosso ponto de vista. Mas, indubitavelmente, observou-se um acentuado progresso depois de dezembro de 1977. Por que foi assim? Naquele mês realizamos uma campanha nacional com o folheto As Testemunhas de Jeová e a Questão do Sangue. Na Itália, distribuiu-se o folheto a 87.000 médicos, 48.000 advogados e magistrados, e a aproximadamente 200.000 enfermeiros. Os resultados desta campanha foram bastante positivos, e certamente além de nossas expectativas.

Em primeiro lugar, o nome de Jeová ficou limpo de muitos vitupérios lançados injustamente sobre ele porque firmemente ‘nos abstemos de sangue’. (Atos 15:19, 20, 28, 29) Agora os próprios irmãos têm maior compreensão dos princípios relacionados com a questão e estão mais confiantes nos seus contatos com a classe médica. Além disso, despontam cada vez mais médicos que estão dispostos a respeitar nossas convicções.

CONFERÊNCIAS SOBRE TRANSFUSÕES DE SANGUE

Em resultado do interesse suscitado pela distribuição do folheto, várias conferências foram convocadas por especialistas para considerar a fundo o assunto. Realizou-se uma conferência na bem-conhecida “Fundação Carlo Erba”, em Milão, em 21 de fevereiro de 1978, sobre o tema “Cirurgia, Transfusões de Sangue e Testemunhas de Jeová”. A Conferência, presidida pelo professor Carlo Sirtori, cientista mundialmente famoso, redundou em muitas expressões que evidenciam a compreensão de nossa posição na questão.

Em 21 de abril de 1979, o Instituto de Medicina Legal da Universidade de Siena organizou outra conferência. O tema da conferência, “A Recusa de Transfusões de Sangue por Parte de Testemunhas de Jeová Adultas e a Ordem Constitucional”, foi apresentado pelo orador, professor Mauro Barni, chefe do Instituto de Medicina Legal e anterior reitor da Universidade. Ele declarou:

“A questão fundamental a ser resolvida é como devemos considerar o comportamento do médico que decide prosseguir com a transfusão de sangue apesar duma explícita recusa da parte de uma Testemunha de Jeová. Bem, não há dúvida agora de que tal conduta é inadmissível do ponto de vista ético e certamente deve ser classificada sob o artigo 610 do Código Penal concernente a ser submetido, mediante coersão violenta, a algo expressamente recusado.”

Em 7 de julho de 1979, na pequena cidade Ripatransone, na província de Ascoli Piceno (Itália central), um hospital local organizou uma conferência sobre o tema: “As Transfusões de Sangue e o Tratamento Alternativo.” Um dos principais oradores, o Dr. Cesare Buresta, discorreu sobre os resultados de mais de 240 operações cirúrgicas realizadas com sucesso sem transfusões de sangue. O periódico Panorama, de 23 de julho de 1979, tinha o seguinte a dizer:

“Já por anos eles têm sido recusados por hospitais, evitados pelos médicos, entregues a si mesmos, enganados, condenados. . . . Hoje, porém, graças ao desenvolvimento de novas técnicas alternativas, até mesmo as Testemunhas de Jeová, uma das mais ativas e organizadas minorias religiosas atuantes na Itália . . . parecem estar chegando ao fim de um longo pesadelo. . . . Segundo o Dr. Buresta, o uso dessas técnicas [alternativas], torna possível operar sem sangue em 99 por cento dos casos. Os resultados desta pesquisa resultarão em consideráveis vantagens.”

Jamais, em nossos sonhos mais otimistas, poderíamos esperar tanta compreensão de nossa posição no tocante às transfusões de sangue, depois da persistente publicidade desfavorável por tantos anos. O povo de Jeová sente-se muito grato porque Ele abençoou a distribuição do folheto As Testemunhas de Jeová e a Questão do Sangue.

A ASSEMBLÉIA “FÉ VITORIOSA”

A enorme multidão reunida para a Assembléia “Fé Vitoriosa” era uma evidência inegável de que a fé no verdadeiro Deus se mostrou vitoriosa sobre a oposição dos anos passados. Foi necessário realizar duas assembléias em 1978 para acomodar todos os irmãos, uma em Milão e outra em Roma. A assistência total foi de 111.320 pessoas.

Alcançou-se um auge de assistência na série de assembléias em 1981, com 132.200 pessoas presentes nas 22 Assembléias de Distrito “Lealdade ao Reino”.

PIONEIROS — UMA GRANDE AJUDA

A certeza de que Jeová não se esquece de nossos esforços e amor demonstrado por seu nome tem encorajado muitos a servi-lo mais plenamente. (Heb. 6:10) Em 1946 havia somente um pioneiro em todo o país. Então, à medida em que os anos se passaram, o número dos que ingressaram neste precioso serviço aumentou progressivamente. Em 1980 havia mais de 500 pioneiros especiais. Alcançou-se um novo auge de 2.142 pioneiros regulares em fevereiro de 1981. Em maio de 1981, 10.051 publicadores participaram na pregação do Reino como pioneiros auxiliares.

A maior parte dos pioneiros especiais acha-se designada para trabalhar nas ilhas Sicília e Sardenha, e, conseqüentemente, faz-se excelente progresso em ambos os territórios. Na Sicília há sete circuitos e 125 congregações. Na Sardenha, onde a obra teve início mais recentemente, há três circuitos e 53 congregações, embora a região seja mais esparsamente habitada. Graças ao trabalho realizado pelos pioneiros, 99 por cento do território nacional é designado e trabalhado regularmente. O restante 1 por cento é trabalhado de vez em quando.

IRMÃOS EM TEMPOS DE NECESSIDADE

Visto que a Itália situa-se numa das faixas de terremotos do globo, não é de surpreender que a maior parte dos desastres naturais que atingem o país seja de origem sísmica. Em maio de 1976 um desses tremores devastou a maior parte da região de Friuli, ao norte, próximo da fronteira austro-iugoslava, provocando a morte de quase 1.000 pessoas e a destruição de milhares de casas. Embora muitas Testemunhas perdessem seus lares, nenhuma delas foi morta ou seriamente ferida. Logo após o desastre, irmãos das áreas adjacentes puseram-se a trabalhar para cuidar das necessidades mais prementes dos que estavam na área do terremoto.

O terremoto que atingiu uma grande região do sul da Itália às 19,34 horas do domingo, 23 de novembro de 1980, foi de proporções ainda mais desastrosas. Sentiram-se tremores através de todo o país. Relatórios das regiões de Campânia e Basilicata falaram de milhares de mortos e feridos ao passo que cidades inteiras foram arrasadas. Havia 130 congregações na área, e os registros da filial indicavam que havia cerca de 8.500 publicadores e 4.500 pessoas interessadas, num total de 13.000 pessoas.

A princípio havia considerável ansiedade sobre o que podia ter-lhes sucedido. Na manhã após o desastre o escritório da filial já possuía a informação exata. Nenhuma das Testemunhas de Jeová ou das pessoas interessadas estava entre os mortos ou feridos! A despeito de nossa tristeza pelo número de mortes e pelo sofrimento de muitos sobreviventes, foi um grande alívio saber que nossos irmãos estavam vivos.

Os publicadores na zona atingida demonstraram sua confiança em Jeová durante todos aqueles momentos críticos quando o chão e os prédios ao seu redor estremeceram, e continuaram a fazer o mesmo depois disso, ao passo que enfrentavam os rigores do inverno sob circunstâncias difíceis. Algumas congregações realizavam reuniões quando começou o terremoto. Um ancião da congregação de Éboli (Salerno) relata:

“Acabávamos de começar o estudo da ‘Sentinela’ quando, repentinamente, sentimos o soalho do Salão do Reino sacudir-se violentamente, ao passo que as paredes e o telhado em cima de nossas cabeças rangiam ominosamente enquanto se moviam de um lado para outro. Por alguns segundos ficamos todos petrificados, e, antes que pudéssemos imaginar o que estava acontecendo, houve outro tremor mais violento. Pensávamos que os quatro pavimentos do prédio sucumbiriam em cima de nós. Aqueles momentos terríveis foram os mais longos e dos quais sempre nos lembraremos!

“Como dirigente do estudo, vi que tinha de tomar uma rápida decisão para proteger os presentes. Mas o que devíamos fazer? Poderíamos permanecer juntos onde estávamos no salão ou sair. Orei intensamente a Jeová pedindo orientação para fazer a decisão certa. Então, lembrei-me duma situação similar relacionada com os irmãos de Gemona, em Friuli, alguns anos antes. Convidei os irmãos a permanecerem no Salão enquanto eu proferia uma oração. Nenhum dos 130 presentes correu para fora ou demonstrou sinais de pânico. Daí, confiando em Jeová, continuamos o estudo da ‘Sentinela’, enquanto do lado de fora a cidade inteira estava em confusão.

“Concluímos a reunião com uma oração de profundo agradecimento, e muitos dos presentes vertiam lágrimas de gratidão porque receberam tal proteção evidente. Quão gratos estávamos por termos sido obedientes à exortação apostólica de Paulo em Hebreus 10:24, 25! A obediência a este mandamento nos havia salvo! Entramos imediatamente em contato com nossos irmãos numa cidade vizinha, onde 50 deles haviam estado na reunião. Eles também estavam sãos e salvos, ao passo que ao todo redor os prédios estavam seriamente danificados; e as duas maiores igrejas da cidade parcialmente destruídas.”

Um superintendente da congregação em Bellizzi (Salerno) relembra: “Cinco minutos após o término da reunião nos deparamos em meio a um pesadelo. O Salão do Reino parecia ter-se desconjuntado. Alguém clamou: ‘Salva-nos, Jeová!’ Bradei aos irmãos: ‘Mantenham-se calmos. Não desçam as escadas!’ Fomos todos salvos.”

Os irmãos na zona do terremoto estavam prontos para ajudar uns aos outros, e as Testemunhas por todo o país e em outras nações européias não se refrearam de contribuir dinheiro, roupas e outros itens. Estabeleceu-se um centro de assistência de emergência para enviar o auxílio onde era mais necessário. O primeiro dos caminhões da Sociedade cheio de alimento, tendas, cobertores e roupas chegou à área na noite após o terremoto.

“Os irmãos estavam maravilhados com a rapidez com que chegava a ajuda necessária”, disse um superintendente viajante designado à região. Ele também relata: “Montamos imediatamente nossa cozinha de onde se distribuía aos irmãos, cada dia, alimento preparado pelas irmãs. Os demais habitantes da cidade ainda tinham de receber assistência e faziam o melhor que podiam ao seu alcance. Naturalmente, os irmãos não eram egoístas, e partilhou-se alimento com muitos que não eram Testemunhas. Quando levamos provisões para o povoado de Montella, foram dados às famílias que moravam próximas dos irmãos massas, arroz, óleo, açúcar, pão e leite, e, aos seus filhos, biscoitos.”

No mês da catástrofe, alcançou-se novo auge de 86.192 publicadores, e isto significa que os irmãos na área do terremoto contribuíram para este aumento por manterem seu excelente zelo pela obra do Senhor. Somos gratíssimos pelo amor demonstrado para com tais irmãos pelos co-adoradores das várias nações que, não obstante enviassem ajuda material, não se esqueceram de seus irmãos em suas orações. Elevamos nossos agradecimentos a Jeová porque ele é Aquele que vem em nosso auxílio em tempos de dificuldades. — Sal. 54:4.

A AMPLIAÇÃO DE BETEL

Quando o novo Betel foi inaugurado em meados do primeiro semestre de 1972, ninguém imaginava que apenas quatro anos depois ele seria muito pequeno. Naquela época havia aproximadamente 25.000 adoradores do verdadeiro Deus no país, mas por volta de 1976 o prédio já era inadequado para atender às necessidades dos nossos publicadores, cujo número já tinha aumentado para a cifra extraordinária de 60.000.

Adquiriu-se dois lotes adjacentes à nossa propriedade original em 1975 e em 1976, de modo que a área total à nossa disposição girava então em torno de 14 hectares. Todavia, o Projeto de Desenvolvimento da Cidade de Roma permitiu-nos construir somente uma simples construção de fazenda no novo terreno. Preencheu-se um requerimento para termos a planta modificada, e no ínterim solicitamos licença para instalar uma pequena fazenda com um curral e celeiros para aumentar a produção para a família de Betel. O trabalho neste projeto começou em 1978, e a pequena unidade agrícola foi completada em meados do primeiro semestre de 1980.

Por fim, em outubro de 1979, recebeu-se a licença para se construir o novo lar de Betel e a estrutura para alojar o departamento de impressão. Pusemos mãos à obra imediatamente e o departamento de impressão ficou concluído em outubro de 1980. O departamento de revistas e a rotativa já estão instalados. Por outro lado, ainda temos bastante a fazer para concluir a construção de Betel. O trabalho de construção tem sido feito exclusivamente pelos irmãos. É encorajador observá-los chegar de todas as partes da Itália para participar neste trabalho, porque percebem que é necessário para cuidar da contínua expansão no país. Quando completado, o prédio terá 70 quartos, um refeitório, uma cozinha, um Salão do Reino, e outras instalações necessárias.

Há 98 irmãos designados para Betel atualmente, formando uma família feliz a serviço de seus co-cristãos. Alguns deles trabalham na agricultura para prover as necessidades materiais da família, ao passo que outros trabalham no departamento de expedição e estão ocupados em enviar publicações, revistas e outros suprimentos necessários às congregações.

O ENVIO DE PUBLICAÇÕES ÀS CONGREGAÇÕES

Houve época, em resultado das demoras postais e greves, em que as congregações mais distantes amiúde não recebiam suas remessas em tempo. Um superintendente de circuito relembra: “Durante minha visita a uma congregação na Sicília, ia de casa em casa com uma irmã. Senti-me induzido a dizer-lhe que ela estava oferecendo revistas antigas de dois meses. Nisto a irmã respondeu que eram as últimas revistas que a congregação recebera.”

Em vista destas demoras, a maioria de nossas entregas são feitas por nossos quatro caminhões, que a Sociedade adquiriu com esta finalidade. Um destes, equipado com reboque, tem a capacidade de 34 toneladas e é também usado para apanhar as publicações na filial alemã em Wiesbaden. Os pedidos das congregações são entregues em mais de 120 depósitos espalhados através da península e das ilhas da Sicília e da Sardenha. Por sua vez, tais depósitos redistribuem as publicações localmente. Este arranjo torna possível que as congregações recebam o alimento espiritual necessário a tempo e reduzem-se consideravelmente as despesas.

GRATIDÃO PELA PROTEÇÃO DIVINA

Esta é a história moderna da atividade das Testemunhas de Jeová na Itália. O crédito pelo que se realizou durante estes anos não pode ser atribuído ao homem. Embora certas pessoas sejam mencionadas por nome, esta história é a crônica de como um povo veio à existência, como suportaram intensa oposição do clero e como prosperaram, graças à orientação e proteção divinas.

Passaram-se mais de 1.920 anos desde que o apóstolo Paulo realizou seu desejo sincero de ver os cristãos na congregação em Roma para lhes “conferir algum dom espiritual”. (Rom. 1:11) Desde então, a grande apostasia manteve o país em densas trevas espirituais por muitos séculos. Mas, este não é mais o caso. Tempos tais como os do começo deste século, quando os primeiros raios tênues da verdade iluminaram a vereda de uns poucos indivíduos espalhados, também já passaram, junto com a onda de persistente perseguição religiosa, suportada realmente pelo povo de Jeová.

A situação atual é suficiente para animar nossos corações. Comparada com a média de cerca de 90 publicadores do Reino no fim da Segunda Guerra Mundial, a Itália tem hoje mais de 90.000 proclamadores das “boas novas”! O futuro está cheio de perspectivas excelentes. Em maio de 1981, a Itália alcançou o auge de 62.068 estudos bíblicos. E, na Comemoração em 1981, havia 187.165 na assistência! Na histórica cidade de Roma há atualmente 51 congregações atuantes.

Estes algarismos indicam que, com a aprovação divina, teremos aumentos adicionais que renderão maior louvor ao nosso Deus Jeová. Seus adoradores felizes acham-se prontos para atribuir os méritos de sua condição próspera atual somente a Ele. E, ao passo que repassam estes capítulos da história moderna do verdadeiro cristianismo na Itália, expressam sua gratidão, assim como fez o salmista Davi, quando foi movido a exclamar:

“Se não fosse que Jeová mostrou ser por nós, quando homens se levantaram contra nós, então nos teriam tragado até mesmo vivos, quando sua ira ardia contra nós. Bendito seja Jeová, que não nos entregou como presa aos dentes deles. Nossa alma é como o pássaro que escapou da armadilha dos enlaçadores. A armadilha está destroçada e nós mesmos escapamos. Nossa ajuda está no nome de Jeová, Aquele que fez o céu e a terra.” — Sal. 124:2, 3, 6-8.

[Nota(s) de rodapé]

a As passagens citadas das três circulares foram extraídas do livro Provvedimenti ostativi dell’autorità di polizia e garanzie costituzionali per il libero esercizio dei culti ammessi (Medidas Repressivas Adotadas Pelas Autoridades Policiais e a Garantia Constitucional da Livre Prática de Certos Cultos), de Giorgio Peyrot e publicado por Giuffrè.

[Foto na página 119]

Casa de Fanny Lugli, perto de Pinerolo, onde foram realizadas as primeiras reuniões no piso térreo sob a sacada.

[Foto na página 127]

Remigio Cuminetti, a primeira Testemunha italiana a tomar posição a favor da neutralidade cristã e o primeiro irmão italiano encarregado da obra na Itália.

[Foto na página 135]

Ignazio Protti e suas duas irmãs, Albina e Adele, que se mudaram da Suíça para a Itália para servir quais zelosos colportores.

[Foto na página 137]

Hotel Corona Grossa, em Pinerolo, onde foi realizada a primeira assembléia na Itália, em 1925.

[Foto na página 153]

Maria Pizzato, cuja mãe adquiriu alguns exemplares da revista “Sentinela” dessa banca de jornal em Vicenza, durante 1903 e 1904, o que resultou em Maria aprender a verdade.

[Foto na página 177]

Aldo Fornerone, que observou, de primeira mão, o valor da neutralidade cristã durante a Segunda Guerra Mundial, ainda serve como ancião.

[Foto na página 193]

Primeira assembléia de circuito na Itália, realizada em 1947 em Roseto degli Abruzzo; irmãos reuniram-se debaixo de uma figueira e de uma copa de parreiras ao longo de um caminho particular.

[Foto na página 209]

Primeira assembléia de distrito na Itália, realizada em grandes barracas em Milão, de 27-29 de outubro de 1950, apesar da oposição do clero.

[Foto na página 223]

Palazzo dei Congressi, onde, em 1955, foi realizada a assembléia internacional Reino Triunfante, em Roma.

[Foto nas páginas 240, 241]

Prédios da filial. No alto, à esquerda: O prédio adquirido em Roma, em 1948. No alto, à direita: O prédio da filial completado em 1972. Em baixo, à direita: Uma vista de perfil do complexo de Betel, mostrando os anexos posteriores.

[Foto na página 250]

Salão de Assembléias em Turim, inaugurado em 1979.

[Mapa na página 114]

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ITÁLIA

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Como

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Vicenza

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Sulmona

ROMA

Foggia

Cerignola

Bisceglie

Molfetta

Gaeta

Nápoles

Avelino

Bari

Salerno

SICÍLIA

Palermo

Messina

Caltanissetta

CORSEGA

SARDENHA

FRANÇA

SUÍÇA

ÁUSTRIA

HUNGRIA

IUGOSLÁVIA

MAR MEDITERRÂNEO

[Gráfico na página 247]

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AUMENTO EM PUBLICADORES

100,000

90,191

75,000

60,156

50,000

25,000 22,196

10,278

6,304

3,491

1,742

0 120

1946 1951 1956 1961 1966 1971 1976 1981

[Gráfico na página 248]

(Para o texto formatado, veja a publicação)

AUMENTO EM CONGREGAÇÕES

1600

1,357

1200 1,141

800

433

400

275

242

139

97

35

0

1946 1951 1956 1961 1966 1971 1976 1981

[Gráfico na página 249]

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AUMENTO NA ASSISTÊNCIA À COMEMORAÇÃO

200,000

187,165

150,000 130,348

100,000

53,590

50,000

19,682

12,113

5,790

2,897

200

0

1946 1951 1956 1961 1966 1971 1976 1981

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