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  • Portugal
  • Anuário das Testemunhas de Jeová de 1984
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  • AS BOAS NOVAS ATINGEM PORTUGAL
  • PERÍODO DA REPÚBLICA
  • DEBAIXO DE UM GOVERNO DIFERENTE
  • O PRIMEIRO BATISMO
  • AJUDA DO ESTRANGEIRO
  • O PRIMEIRO COLPORTOR
  • FECHADO O ESCRITÓRIO DA FILIAL
  • INICIAM-SE TEMPOS DIFÍCEIS
  • UM NOVO COMEÇO
  • A PREGAÇÃO TORNA-SE IMPORTANTE
  • A PREGAÇÃO ESTIMULA A ASSOCIAÇÃO
  • OUTRAS SEMENTES DA VERDADE COMEÇAM A BROTAR
  • A VERDADE ESPALHA-SE PARA O NORTE
  • TOMANDO UMA POSIÇÃO
  • APRENDENDO A ORGANIZAR-SE
  • INICIA-SE A ATIVIDADE MISSIONÁRIA
  • O PRIMEIRO SALÃO DO REINO
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  • OS MODOS TOTALITÁRIOS RESISTEM ATÉ AO FIM
  • A PERSEGUIÇÃO CONTINUA EM ANGOLA
  • A PERSEGUIÇÃO ESTIMULA O PROGRESSO
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  • A LEI DA LIBERDADE RELIGIOSA
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  • ABRE-SE UMA PORTA LARGA
  • PIONEIROS PARA A GUINÉ-BISSAU
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  • AS BOAS NOVAS ESPALHAM-SE NO ARQUIPÉLAGO DOS AÇORES
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  • A OBRA PROSCRITA EM ANGOLA
  • O PRIMEIRO CONGRESSO INTERNACIONAL EM PORTUGAL
  • BÊNÇÃOS ADICIONAIS
  • RESULTADOS ATRAVÉS DO PODER DE DEUS
Anuário das Testemunhas de Jeová de 1984
yb84 pp. 130-256

Portugal

“Onde a terra se acaba e o mar começa” — isto é Portugal, o país mais a ocidente da Europa continental. Seu nome deriva da cidade do Porto, que se iniciou como uma comunidade romana comercial perto da foz do rio Douro; era um portucalle ou um porto de chamada para navios.

Este canto ocidental da península Ibérica tem uma população de nove milhões e meio de pessoas falando português, uma língua românica similar ao espanhol na estrutura e vocabulário, mas completamente distinta na fonética e na pronúncia. Portugal tem menos de um quinto do tamanho da Espanha, seu vizinho a leste e a norte. Mas que paisagem tão grandemente diversificada é encontrada aqui!

A região do Sul tem excelentes pomares, amendoeiras, figueiras e também alfarrobeiras. Indo para o norte, passamos através de searas de trigo e verdejantes pastagens ribatejanas, região de gado vacum, depois vinhas e oliveiras, juntamente com pinheiros-mansos e eucaliptos. No centro do país, a neve pode ser encontrada na cadeia montanhosa da província da Beira, acrescentando um toque de esplendor. O Norte é caracterizado pelas maravilhosas vinhas em socalcos do profundo vale do rio Douro, terra natal do mundialmente afamado vinho do Porto.

AS BOAS NOVAS ATINGEM PORTUGAL

Portugal tornou-se famoso em todo o mundo como uma nação de navegadores. O século XV marcou a sua época áurea quando os seus navegadores e exploradores descobriram o Brasil, as ilhas da Madeira, Açores, Cabo Verde, São Tomé, grande porção da África, assim como o caminho marítimo para a Índia. Mas foi apenas em 1925 que Portugal começou a descobrir o significado de Mateus 24:14. Foi então que George Young, um canadense a servir no Brasil, veio explorar Portugal para promover os interesses do Reino. Ele fez arranjos para que o presidente da Sociedade Torre de Vigia, J. F. Rutherford, proferisse o discurso público “Como Viver na Terra Para Sempre”, a 13 de maio de 1925, em Lisboa.

Apesar da oposição dos sacerdotes católicos, a ocasião foi um grande sucesso, com mais de dois mil enchendo o ginásio de um liceu e com outros dois mil que se retiraram por falta de espaço. Francisco Ullan, uma testemunha ocular, recordou o acontecimento: “O clero católico fez uma tentativa falhada para desfazer esta reunião. Irromperam em gritaria e quebraram cadeiras. Felizmente, o irmão Rutherford conseguiu controlar a situação.”

Na conclusão do discurso, foi feito um convite para aqueles interessados deixarem os seus nomes e moradas com os indicadores. Alguns, incluindo Francisco Ullan e Angel de Castro, fizeram isso. Sim, eles aceitaram a verdade e estiveram entre os primeiros servos fiéis de Jeová neste país. Aquele evento notável desencadeou o início da obra do Reino em Portugal.

Os eventos que se seguiram em rápida sucessão tornaram evidente que o espírito de Jeová estava a dar uma poderosa orientação. Durante este primeiro ano a edição portuguesa da Torre de Vigia (agora A Sentinela) foi publicada em Lisboa. A primeira edição foi lançada em setembro de 1925 com a sua primeira página trazendo o nome de George Young como editor. No final de 1925 foi aberto um escritório na Rua de Santa Justa, 95, em Lisboa, a fim de cuidar das assinaturas e da correspondência. A Torre de Vigia tornou-se tão conhecida ao fim de um ano, que foram recebidas assinaturas de lugares tão longínquos como os Açores.

PERÍODO DA REPÚBLICA

Como foram tais coisas possíveis num país tradicionalmente católico e ultraconservador? Circunstâncias políticas permitiram um clima de grande liberdade. A monarquia tinha sofrido um grande golpe com o assassinato do Rei Dom Carlos I e do herdeiro, o Príncipe Dom Luís Filipe, a 1.º de fevereiro de 1908. Então, em 5 de outubro de 1910, uma revolução republicana acabou com o reinado de Dom Manuel II, terminando a monarquia portuguesa como um poder reinante. Havia agora liberdade de expressão e de imprensa.

O poder da Igreja Católica começou a enfraquecer, à medida que o povo manifestava oposição ao clero. Eles realizavam manifestações nas ruas de Lisboa para influenciar o governo a suspender o representante português na cidade do Vaticano. Os jornais imprimiam os discursos dos líderes republicanos manifestando atitudes anticlericais. O exército foi proibido de participar nas observância religiosas, os dias “santos” não mais foram guardados como feriados. Os juramentos religiosos deixaram de ter força legal. O governo aboliu a instrução religiosa nas escolas e o ensino da teologia nas universidades. Em abril de 1911 a Lei da Separação apontou para a posição rebaixada da Igreja Católica Romana. Os pais da república consideravam o Trono e a Igreja como instituições de pouco valor.

Durante este tempo um pequeno grupo de pessoas em Lisboa manifestou interesse pela verdade, mas foi só em 1926 que se realizaram classes de estudo regular da Bíblia. Na edição de abril de 1926 da Torre de Vigia, o editor foi registrado como Virgílio Ferguson . George Young tinha permanecido apenas durante um curto período, a fim de organizar a obra. O irmão Ferguson, acompanhado pela sua esposa, era agora designado para cuidar dos interesses do Reino neste país.

O discurso público especial proferido por J. F. Rutherford no Palácio Alexandra em Londres, em maio de 1926, recebeu grande publicidade em Lisboa. A conferência apresentou uma resolução intitulada “Um Testemunho aos Regentes do Mundo”. Esta resolução foi traduzida para o português e impressa como um grande tratado para distribuição gratuita.

DEBAIXO DE UM GOVERNO DIFERENTE

Então a 28 de maio de 1926, apoiado por facções conservadoras e com a proteção da hierarquia católica, preparou-se um golpe de estado militar sem ter sido dado um único tiro. Disso resultou o estabelecimento de uma ditadura militar. Tornou-se conhecido pelo Estado Novo. A personalidade dominante deste novo regime político foi o ministro das finanças, Dr. António de Oliveira Salazar. Em 1932 ele tornou-se Presidente do Conselho (Primeiro Ministro).

Por causa do estabelecimento da ditadura do Estado Novo em 1926, havia agora muito menos liberdade de expressão. Começando com a Torre de Vigia de novembro de 1926, cada edição estava sujeita à censura do governo e apareceu a seguinte nota na capa: “Visado pela Comissão de Censura.”

O primeiro relatório do Anuário, publicado em 1927, relata o seguinte: “A obra em Portugal é orientada pela filial local da Sociedade, em Lisboa. Há agora 450 assinantes da TORRE DE VIGIA em português. Os livros e folhetos colocados durante o ano totalizam 764. Tem havido muitas perguntas por carta acerca da Verdade, e estas têm recebido atenção. O seguinte é uma declaração do relatório do irmão Ferguson, o diretor local:

“‘Penso que ainda há um grande testemunho a ser dado às pessoas aqui, e parece que chegou o momento em que as pessoas irão prestar atenção à mensagem da Verdade e mais irão manifestar interesse nela.’” Como ele estava certo!

Estas mesmas palavras tiveram o seu cumprimento na Ilha das Flores nos Açores. Nesta altura faleceu um homem que tinha estado interessado na Torre de Vigia. Quando a sua filha e o seu filho estavam a limpar o escritório do seu pai, eles encontraram alguns exemplares antigos da revista. O filho, Abílio Carlos Flores, interessou-se especialmente pelas revistas. Ele relata: “A Torre de Vigia dava uma explicação tão clara da Bíblia que eu imediatamente escrevi a Virgílio Ferguson pedindo uma assinatura.” As sementes da verdade produziram frutos. Até à sua morte em 1974 o irmão Flores foi um ativo servo de Jeová.

Em maio de 1927, A Torre de Vigia em português estava a ser impressa em Berna, Suíça, e estava a ser distribuída debaixo de forte censura do governo. O político Estado Novo estava a controlar cada vez mais a imprensa e a restringir a liberdade do povo, mas isto não fez parar a expansão. Em 1927 os irmãos distribuíram um total de 3.920 livros e folhetos e 61.000 exemplares da Torre de Vigia.

O PRIMEIRO BATISMO

O verão de 1927 assistiu a um acontecimento verdadeiramente feliz, o primeiro batismo. Dois dos 14 irmãos recém-batizados eram espanhóis, Francisco Ullan e Angel de Castro. Atiçados com o zelo da sua fé recém-descoberta, eles visitaram a sua terra natal para espalhar a mensagem do Reino. A 15 de agosto de 1927 eles viajaram para as suas respectivas aldeias. Na sua terra natal, Francisco Ullan rapidamente fez surgir a oposição do clero espanhol, e em quinze dias recebeu ordem para deixar o país. Angel de Castro recebeu tratamento semelhante na sua terra natal. A sua distribuição de tratados bíblicos deu início a um rebuliço. O irmão Castro enviou um tratado ao padre local que respondeu através do seu enviado: “Somente diga a este homem que eu tenho pena que a Inquisição Espanhola tenha acabado, caso contrário eu liquidava-o.”

AJUDA DO ESTRANGEIRO

A 4 de janeiro de 1929, João Feliciano voltou dos Estados Unidos para Portugal com a intenção de espalhar as boas novas que tinha aprendido. Entrou em contato com o irmão Ferguson e iniciaram-se classes de estudo da Bíblia noutra zona de Lisboa Ele foi de casa em casa distribuindo literatura bíblica com grande zelo. Ajudou muitos e tornou-se conhecido como “o homem com o cesto”, uma vez que ele usava um grande cesto de fruta para levar as publicações. Até à sua morte em 1961 ele foi um servo fiel de Jeová.

O mês de novembro de 1931 assistiu à adoção do novo nome “Testemunhas de Jeová”. Houve uma distribuição fenomenal de 260.000 exemplares de Luz e Verdade, contendo o inteiro discurso do irmão Rutherford, “O Reino de Deus — A Única Esperança do Mundo”.

O PRIMEIRO COLPORTOR

Por esta altura, Manuel da Silva Jordão estava a trabalhar como colportor, viajando de uma ponta do país à outra, visitando todos os assinantes e pregando as boas novas. Uma vez que um número de assinantes no norte do país mostrou interesse, ele foi a Braga. Um dia, na rua, um homem veio a correr até ele, dizendo: “Bom dia, senhor. Eu estou mesmo feliz por encontrá-lo. Eu venho para aprender consigo alguma coisa da Bíblia.” O irmão Jordão perguntou-lhe se ele conhecia algo acerca da Bíblia. “Sim”, respondeu ele, “eu sou um assinante da Torre de Vigia, e correspondo-me com um homem chamado Virgílio Ferguson em Lisboa. Desde que chegou a esta cidade eu tenho andado à sua procura.”

Em Braga, em casa deste homem interessado, um pequeno grupo de cerca de sete pessoas começou a estudar a Bíblia. Uma vez que esta cidade é conhecida como o “Vaticano de Portugal”, não levou muito tempo até a oposição da Igreja Católica se manifestar. O clero fez queixa à polícia, do irmão Jordão, que foi acordado à meia-noite e lançado na prisão.

No dia seguinte, depois da sua libertação, um padre local fez arranjos para que o principal magistrado do tribunal tivesse um encontro com ele na praça principal da cidade. Eles planejaram expor Jordão como um cristão falso, sem instrução superior. Cerca de cinqüenta pessoas apareceram para este “encontro casual”. O padre apareceu e seguiu-se uma animada discussão acerca de quem são os cristãos e de qual é o seu trabalho. Finalmente, o magistrado do tribunal disse para o padre em voz alta: “Eu pensei que vinha para defender a Igreja Católica, mas ainda não foi capaz de mostrar um único texto da Bíblia Sagrada!” Testemunhas oculares relatam que o padre embaraçado foi-se embora rapidamente.

FECHADO O ESCRITÓRIO DA FILIAL

Próximo do fim do ano de 1933 o irmão e a irmã Ferguson deixaram Portugal, e a publicação Luz e Verdade foi suspensa. Para todos os fins práticos o contato direto com o escritório da filial foi cortado. Foi fechado, e daqui em diante deixou de haver suprimento de alimento espiritual no país. É significativo que isto acontecesse no mesmo ano em que foi adotada em Portugal a nova constituição política. A nova constituição ampliou os poderes do Estado, concedendo-lhe autoridade absoluta e o total controle da imprensa.

Mais tarde, em maio de 1940, Portugal assinou uma concordata com o Vaticano, concedendo à Igreja Católica Romana uma posição altamente favorecida. A instrução religiosa foi restaurada nas escolas do Estado e o patrimônio que tinha possuído antes de 1910 foi devolvido.

INICIAM-SE TEMPOS DIFÍCEIS

Agora a obra tinha de ser cuidada pelo colportor Manuel da Silva Jordão. Durante o tempo difícil que se seguiu, ele conseguiu comunicar-se com alguns irmãos em Espanha. Em várias ocasiões Herbert F. Gabler visitou os irmãos em Portugal. Por volta de 1938 o irmão O. E. Roselli, um cidadão dos Estados Unidos, visitou Portugal, encorajando os irmãos a irem de casa em casa, usando o que era chamado um cartão de testemunho. Com o tempo toda a pregação organizada cessou gradualmente, e iniciou-se um período de inatividade.

UM NOVO COMEÇO

Em 1940, Angel de Castro visitou um amigo em Lisboa, com quem ele muitas vezes tinha discutido a Bíblia. O filho deste amigo, Eliseu Garrido, com cerca de 14 anos de idade, começou a ter interesse nas conversas. Castro ofereceu-lhe algumas revistas antigas da Sentinela para ler. Mais tarde ele mostrou-lhe um livro escrito à mão que tinha compilado com textos bíblicos acerca de várias doutrinas. O jovem apreciou este livro de consulta de 300 páginas e começou a fazer uma cópia para ele próprio. Entretanto leu o livro contendo as fotografias do Fotodrama da Criação. Este teve um forte impacto na sua mente. Assim que acabou de copiar o livro de consulta de Castro ele perguntou: “Não há outras pessoas em Lisboa que acreditam nestas coisas?”

Dentro de poucos dias Manuel da Silva Jordão veio à sua casa para o ajudar mais. O irmão Jordão pôs Eliseu em contato com Joaquim Carvalho, um sapateiro, cuja casa era agora o local usual das reuniões dos Estudantes da Bíblia.

Joaquim Carvalho tinha aprendido a verdade no início da década de 1930. Toda a literatura que estava em mãos quando a filial foi fechada em 1933 foi armazenada na sua sapataria em Lisboa

Estes estudos começaram a ser realizados com maior freqüência. Mas surgiu a tendência de desviarem-se da matéria publicada e de darem interpretações particulares. Finalmente, o jovem Garrido pronunciou-se: “Por que não nos limitamos à matéria publicada nas revistas em vez de introduzirmos outra informação? Afinal de contas, não está tudo o que precisamos publicado pela Sociedade? Já confirmamos o fato de que podemos confiar inteiramente na organização de Jeová. Eu sugiro que limitemos o nosso estudo por fazermos as perguntas, considerarmos os textos e depois lermos todos os parágrafos da revista e não apenas aqueles que gostamos.”

Durante este período de redespertar os irmãos começaram a usar o Fotodrama da Criação. Joaquim Carvalho tinha muitos contatos com pequenos grupos de protestantes, principalmente com a seita dos adventistas. Eles souberam da existência do Fotodrama e pediram que os irmãos o mostrassem no seu local de reunião. Alguns também queriam a nossa literatura para usarem no seu estudo da Bíblia. Um grupo adventista ia a ponto de retirar dos livros da Sociedade a primeira página que mostrava o nome do editor. Depois eles carimbavam a hora e o endereço das suas próprias reuniões!

Tornou-se evidente que Joaquim Carvalho gostava de manter contato com os líderes destes grupos protestantes. Os seus encontros freqüentes revelavam um desejo persistente por parte dos protestantes de formar uma união com os Estudantes da Bíblia. Quando isso se tornou conhecido, os Estudantes da Bíblia perceberam que tinha de haver uma separação bem distinta, se eles quisessem receber as bênçãos de Jeová. Eles, portanto, romperam com todas essas ligações.

A PREGAÇÃO TORNA-SE IMPORTANTE

Até esta altura, o testemunho público consistia principalmente na distribuição de tratados. Mas em 1944, o grupo manifestou fervoroso desejo de fazer mais no ministério. Eles sentiram a necessidade de aderir rigorosamente às publicações da organização. Através de correspondência com irmãos no Brasil, eles estavam agora a receber regularmente exemplares do Informante, que estimulou o seu interesse no serviço de campo.

Assim os irmãos decidiram que era tempo de irem de casa em casa e de se apresentarem ao morador com o cartão de testemunho impresso. Depois de o cartão ser lido, ofereciam ao morador literatura.

Tornou-se usual dois irmãos saírem aos domingos, pregando as boas novas de casa em casa, usando estes cartões de testemunho. Relatar esta atividade ministerial era, contudo, algo ainda para o futuro.

Nesta mesma altura, o pequeno grupo ficou muito feliz ao saber da existência de equipamento de som e do fonógrafo. Os irmãos no Brasil enviaram ao grupo 10 discos em português e um fonógrafo. Os irmãos ficaram entusiasmados com esta nova provisão para darem testemunho. Os discos explicavam a verdade acerca de assuntos tais como o purgatório, a alma, as chaves do Reino, e assim por diante.

Corajosamente o grupo decidiu inaugurar o uso deste equipamento. Eliseu Garrido recorda uma das primeiras ocasiões. “Fomos para um pequeno pátio que tinha um grupo de casas na área de Campolide em Lisboa”, relatou ele. “Aqui instalamos o fonógrafo e convidamos os moradores a chegarem-se até ao pátio e ouvirem uma interessante mensagem bíblica. Vieram cerca de 30 pessoas e ouviram atentamente. No final, ficamos felizes por oferecer-lhes literatura bíblica.”

A PREGAÇÃO ESTIMULA A ASSOCIAÇÃO

A partir desta altura, os irmãos tornaram-se cada vez mais conscientes da necessidade de associação mais íntima. O grupo de pessoas interessadas que assistia regularmente ao estudo da Bíblia do domingo aumentou para cerca de quinze. Por causa da assistência estar a aumentar, eles decidiram alugar uma pequena sala para servir exclusivamente como local de reunião. A publicação principal usada nestas reuniões era a Sentinela. Aos poucos os irmãos começaram a apreciar a necessidade de se achegarem mais de perto à organização mundial do povo de Jeová.

Uma decisão verdadeiramente histórica foi tomada em outubro de 1946, quando Joaquim Carvalho e Eliseu Garrido decidiram que era tempo de se comunicarem com a sede da Sociedade em Brooklyn. Na sua carta, eles pediram que a Sociedade enviasse um missionário para Portugal.

OUTRAS SEMENTES DA VERDADE COMEÇAM A BROTAR

Sem conhecimento dos Estudantes da Bíblia em Lisboa, ocorriam interessantes acontecimentos noutras partes do país. Do outro lado do rio Tejo, em Almada, Delmira Mariana dos Santos Figueiredo tinha ficado muito chocada com a morte do seu filho de 16 anos. Ela recorda: “Eu passava o dia inteiro no cemitério pensando no meu filho, onde ele estava e por que Deus tinha permitido a sua morte. Eu comecei a lembrar-me de coisas da Bíblia que o meu pai me tinha contado. Ele tinha conhecido Virgílio Ferguson lá atrás em 1927 e tinha assistido às reuniões.”

Um dia, ao voltar do cemitério para casa, Delmira começou a procurar os livros antigos que o seu pai tinha guardado. Em pouco tempo ela sabia que tinha encontrado a verdade da Palavra de Deus, e em 1945 ela escreveu para Brooklyn. Quando chegou a resposta, lágrimas de alegria correram-lhe pela face. Finalmente, tinha estabelecido contato com o povo de Deus.

A carta foi escrita por um irmão nascido nos Açores, John Perry, membro da família de Betel em Brooklyn. Ele sugeriu que, se ela não possuía uma Bíblia, devia comprar uma e ler as referências que ele citava e que se reportavam à esperança da ressurreição e à promessa de Deus de uma Nova Ordem justa. Por intermédio de John Perry, a Sociedade começou a enviar pelo correio pequenos pacotes de livros e folhetos para Delmira, encorajando-a a distribuí-los gratuitamente. Ela começou a fazer isso logo em seguida. O seu território principal era o cemitério, uma vez que foi aí onde ela própria começou a pensar em Deus. Os seus amigos e vizinhos pensavam que ela tinha enlouquecido por causa da morte do seu filho. Sozinha e várias vezes durante a semana, ela ia ao cemitério, esforçando-se a falar aos enlutados acerca da esperança da ressurreição. A nova reputação que adquiriu como “a mulher louca” não diminuiu o seu zelo em pregar as boas novas, e quanto mais ela pregava mais forte se tornava a sua fé.

“Um dia, no cemitério”, recorda Delmira, “reparei numa senhora que se havia ajoelhado junto a um túmulo durante alguns dias consecutivos. Eu comecei a falar com ela e soube que estava a chorar a morte da sua filha de 22 anos. Ao ouvir acerca da ressurreição e do propósito de Deus de um Paraíso, esta mulher, Deolinda Pinto Costa, ficou tão ansiosa por aprender mais, que convidou-me para ir à sua casa para um estudo bíblico semanal. Em pouco tempo íamos as duas ao cemitério, não para chorar, mas para partilhar a nossa maravilhosa esperança.”

O amor à verdade motivou estas zelosas mulheres a organizarem um estudo da Bíblia para as várias pessoas interessadas. Todas as quartas-feiras à tarde, em casa de Deolinda Pinto Costa, juntava-se um grupo de seis ou mais mulheres para estudarem a Bíblia com a ajuda das publicações da Sociedade. Por intermédio da correspondência com John Perry, em Brooklyn, este grupo de mulheres interessadas soube que havia um núcleo de irmãos em Lisboa.

Na mesma ocasião, os irmãos em Lisboa foram avisados de que havia pessoas interessadas em Almada. Eles fizeram arranjos para se encontrarem. Quando isso aconteceu, os irmãos ficaram admirados por encontrarem um grupo de oito pessoas, todas mulheres, que realizavam um estudo bíblico semanal. Logo em seguida foram organizadas reuniões regulares em casa de Deolinda com a presença dos irmãos de Lisboa. Que alegria observar as primeiras irmãs deste grupo de Almada ainda mantendo a sua integridade e ativas no serviço do Reino até aos dias de hoje!

A VERDADE ESPALHA-SE PARA O NORTE

Nesta altura ocorreu um acontecimento interessante na província mais distante de Portugal chamada Trás-os-Montes. Em novembro de 1945, Purificação de Jesus garbosa, que aprendeu a verdade nos Estados Unidos, voltou ao seu país natal para pregar as boas novas aos seus parentes. A sua terra natal, Lousã, situa-se a mais de 400 km de Lisboa. Embora a maioria dos seus parentes rejeitasse a verdade e mostrasse desprezo por ela, dois jovens primos mostraram interesse. Purificação ofereceu a Maria Cordeiro de 22 anos uma Bíblia e vários folhetos como presente. O seu primo mais novo de 13 anos, António Manuel Cordeiro, ficou entusiasmado por ter pela primeira vez uma Bíblia nas suas mãos. Ele recorda a primeira conversa que a sua prima teve com ele acerca da Bíblia:

“Ela leu-me o primeiro capítulo de Gênesis e depois mostrou-me o nome deste Deus que tinha criado a maravilhosa terra e todas as coisas nela. Pela primeira vez na minha vida eu ouvi o nome de Deus, Jeová, e precisamente a partir desse dia em diante, comecei a desenvolver um profundo amor e apreço pelo meu Grande Criador.”

Durante mais de um ano o irmão e a irmã esperavam todos os dias ansiosamente para voltarem do seu trabalho nos campos, a fim de que, depois de o pai sair para jogar e beber, pudessem escapulir-se para a casa da sua prima e aprenderem mais acerca da Bíblia. Eles chegaram a aprender muitas das verdades básicas da Palavra de Deus, além de lerem os livros Jeová, Salvação e Filhos. Passado um pouco mais de um ano, a prima visitante voltou para os Estados Unidos. Os seus esforços, contudo, foram ricamente abençoados, pois ela deixou ficar dois primos e uma senhora que estavam agora interessados na verdade.

TOMANDO UMA POSIÇÃO

Surgiram logo provas de integridade para Maria e António Cordeiro, que estavam completamente isolados. Eles deixaram de se associar com a Igreja Católica. Quando o padre visitou a casa dos seus pais ele fez troça de António e de Maria por recusarem-se a beijar a cruz. Nos feriados religiosos eles saiam de casa cedo, para evitarem problemas, e passavam o dia inteiro no bosque lendo a Bíblia e as publicações da Sociedade.

Cerca de dois anos mais tarde, o rapaz, então com 15 anos, adoeceu e foi internado num hospital católico. Antes da operação ele recusou a confissão e uma “bênção”, irritando assim o padre e as freiras. Quando o pai veio para levá-lo para casa, foi-lhe dado um relatório acerca da sua conduta. Em casa o pai mandou António ir confessar-se, exigindo que ele pedisse perdão por todas as suas “más ações”. Assim obrigado, António foi. Sozinho com o padre explicou por que tinha recusado, uma vez que a Bíblia mostra que apenas Deus, através de Cristo Jesus, pode perdoar os pecados. Era bem diferente de uma confissão, e o jovem deu um excelente testemunho ao padre com respeito à sua fé baseada na Bíblia.

O jovem António percebeu que teria de ficar em casa até atingir a maioridade. Assim, de acordo com os desejos dos seus pais, ele trabalhava obedientemente durante o dia nos campos, mas à noite estudava a Bíblia com a sua irmã, aproveitando todas as oportunidades para falar aos outros as boas coisas que estava a aprender. Sim, como é emocionante dizer que ‘a perseverança teve a sua obra completa’, pois anos mais tarde, estas duas pessoas jovens estavam entre os primeiros pioneiros regulares no país. Mais tarde António casou-se, serviu como superintendente de circuito durante muitos anos e ainda está no serviço de pioneiro. — Tiago 1:4.

APRENDENDO A ORGANIZAR-SE

Sem dúvida, tinha chegado a época para organizar melhor a obra do Reino. Em resposta à carta de Carvalho e Garrido, a Sociedade enviou dois representantes para Portugal em maio de 1947. Os irmãos F. W. Franz e H. C. Covington encontraram-se no aeroporto de Lisboa a 5 de maio com um grupo de oito felizes irmãos. Para estes poucos servos dedicados de Jeová, que tinham permanecido fiéis durante anos, este era um momento notável. Os irmãos, cheios de alegria, ouviram o irmão Franz proferir um discurso em português acerca do assunto “Instruções da Organização”. Nesta altura foram designados temporariamente quatro servos para cuidar da primeira congregação em Lisboa.

Durante esta visita os irmãos Covington, Franz, Carvalho e Garrido investigaram a possibilidade de legalizar a obra e obter permissão para enviar missionários. O seu pedido foi terminantemente recusado.

O mesmo ano também registrou a primeira visita a Portugal dos irmãos Knorr e Henschel, a 13 de dezembro — outro marco histórico. Também estava com eles John Cooke, designado pela oitava classe da Escola Bíblica de Gileade da Torre de Vigia para servir em Espanha e em Portugal. Por causa do mau tempo, o avião atrasou-se consideravelmente, e assim a visita de dois dias foi reduzida para algumas horas. Eles chegaram à meia-noite e partiram às oito e um quarto na manhã seguinte, levando toda a noite a responder a perguntas e a discutir o progresso da obra do Reino.

Tornou-se bem evidente que este pequeno grupo não estava em completa união. Alguns daqueles presentes mostraram ser indivíduos teimosos, que criticavam a organização e a própria verdade. Por causa deste espírito pobre, havia pouco progresso. A única esperança viva era o grupo de irmãs em Almada.

Contudo, os irmãos receberam a disciplina necessária e a obra avançou. O crescente número de edições do Informante, do Brasil, assim como do folheto Instruções da Organização foram de grande ajuda. Antes da chegada do irmão Cooke, o grupo de Lisboa enviou o seu primeiro relatório de serviço de quatro publicadores a Brooklyn. Tinham sido deixadas instruções para se começar sistematicamente o trabalho de porta em porta. Precisamente na primeira rua em que começaram a testemunhar, eles colocaram 400 folhetos, resultando em muitos estudos bíblicos!

INICIA-SE A ATIVIDADE MISSIONÁRIA

Ao chegar a Lisboa, de Espanha, pela segunda vez, em agosto de 1948, o irmão Cooke foi saudado por um grupo desejoso de aprender métodos teocráticos de pregação. Um ou dois mais antigos, contudo, mostraram relutância em harmonizar-se com as instruções da organização. A primeira reunião com o missionário foi uma ocasião inédita. O irmão Cooke relata: “Eu proferi o meu primeiro discurso para o grupo em Almada, em espanhol, e ele foi traduzido para o português por Eliseu Garrido. No final da reunião, que foi concluída pelo irmão Carvalho, que agia como presidente, ele levantou-se em frente do grupo e, de uma maneira santimoniosa, estendeu os seus braços perante a audiência e abençoou a congregação. Ao longo dos anos, Carvalho conservou muitos dos costumes e idéias de Babilônia, a Grande, e assim foi muito difícil de lidar.”

A 27 de setembro de 1948, realizou-se o primeiro batismo depois da chegada do Irmão Cooke, com um total de oito batizados, incluindo Eliseu Garrido. Seis deste número eram irmãs, todas de Almada. Contudo, o grupo em Lisboa, era caracterizado por “só homens”. Não era concedido as irmãs um caloroso acolhimento. Agora, com a introdução de métodos organizacionais, alguns dos irmãos mais antigos em Lisboa não apoiavam com entusiasmo o novo missionário. A assistência às reuniões diminuiu. Contudo, as irmãs em Almada estavam ansiosas e prontas para irem no ministério de casa em casa. O irmão Cooke relata:

“Nunca esquecerei uma das minhas primeiras saídas no ministério com as irmãs, em Almada. Sim, as seis iam juntas à mesma casa. Pode só imaginar um grupo de seis mulheres em pé à volta da porta, enquanto uma delas dava um sermão! Mas pouco a pouco as coisas começaram a tomar forma e começaram a funcionar.”

A chegada de um missionário foi na verdade uma bênção. Os irmãos foram ajudados a pôr de lado as suas opiniões pessoais e a harmonizar-se com as instruções da organização. Foram organizadas a Escola do Ministério Teocrático e a Reunião de Serviço. Delmira Mariana dos Santos Figueiredo o relata: “Depois de o irmão Cooke ter chegado, começamos a estudar A Sentinela por perguntas e respostas. Até essa altura um irmão lia e nós ouvíamos.”

Tinha chegado o tempo para pôr de lado os cartões de testemunho impressos e preparar breves sermões para uso no serviço de porta em porta. O irmão Cooke preparou os irmãos para apresentarem às portas A Sentinela assim como os tratados.

O PRIMEIRO SALÃO DO REINO

Com a chegada do missionário tinha sido alugada uma pequena sala na Praça Ilha do Faial para a realização de reuniões. Visto que a obra prosperou, tornou-se evidente que seria necessário um local maior.

A Comemoração em 1949 foi realizada numa casa particular em Almada. Os irmãos ficaram entusiasmados ao observar 116 na assistência! Uma vez que este número não podia todo encaixar-se na sala normalmente usada, a multidão em excesso juntou-se na sala contígua. O orador ficou de pé entre a porta e dirigiu-se a duas audiências ao mesmo tempo. Não foi muito depois disto que o grupo de Lisboa encontrou um excelente apartamento para reuniões na Rua Passos Manuel, 20, 1.º andar, que se tornou conhecido como o primeiro não-oficial Salão do Reino das Testemunhas de Jeová em Portugal. Durante muitos anos, serviu como centro de adoração pura.

Assim, de modo a não atrair a atenção dos outros inquilinos, os irmãos não cantavam no salão em Lisboa. Contudo, quando eles atravessavam o rio para visitar o grupo em Almada, numa casa particular, ficavam felizes por cantarem alto e por muito tempo.

PONDO-SE EM CONTATO

Por volta desta época, as pessoas isoladas na Lousã, Trás-os-Montes, tinham obtido pela prima nos Estados Unidos o endereço dos irmãos em Lisboa. Maria Cordeiro, que em várias ocasiões tinha sido espancada pela sua família extremamente opositora, escreveu: “Poderia por favor enviar alguém para nos ajudar e para nos encorajar?” John Cooke partiu numa viagem de 400 km. Veio a ser uma experiência muito emocionante, conforme ele relata:

“Da estação de comboio mais próxima, eu tive de subir pelas montanhas por três horas para alcançar a povoação de Lousã. Esta área é chamada Trás-os-Montes. Descobri que vivia à altura do seu nome. Não tinha estradas para chegar lá, apenas carreiros [caminhos] rudimentares, nem camionetas, nem carros, nem médico ou farmácia, nem polícia e nem um único telefone. As casas eram feitas de pedra e cobertas com telhado de telhas toscas e sem chaminés. As pessoas acendiam o fogo no chão para cozinharem e a fumaça só encontrava saída através de fendas no teto ou na porta. Eles eram muito supersticiosos, completamente dominados pela Igreja Católica.

“Por causa da oposição da família era muito difícil visitar Maria Cordeiro ou o seu irmão, António. Consegui arranjar alojamento na casa da mãe da Testemunha que tinha trazido a verdade dos Estados Unidos para esta área. Embora em poucas ocasiões, conseguimos juntarmo-nos para uma discussão encorajante. Entretanto, comecei a fazer o trabalho de casa em casa. O padre não perdeu tempo em avisar as pessoas a meu respeito. Estava a fazer uma revisita quando os vizinhos avisaram de que havia um rumor de assalto e de incêndio na casa onde eu estava hospedado. A família que eu estava a visitar confirmou os rumores e convenceram-me a passar a noite na sua casa, uma vez que era muito perigoso ir para casa às escuras. Na manhã seguinte a vila estava cheia de rumores e tensão.

“Enquanto ainda estava na casa das pessoas interessadas, veio visitar-me o regedor local (administrador da vila) e certificar-se por si mesmo o que eu estava a fazer. Depois de ouvir uma explicação breve ele foi-se embora satisfeito. Depois veio o padre. Uma vez que ele não entrou na casa, ficamos de pé na rua e conversamos. Antes de me aperceber tinha-se juntado uma grande multidão para ouvir a conversa. Embora o padre fosse jovem, ele não era fanático, assim eu consegui manter a discussão numa base amigável e calma. Para sair de situações embaraçosas com respeito a doutrinas, ele fazia freqüentemente citações em latim para impressionar o povo da vila com o seu ‘conhecimento superior’. Ele admitiu que não possuía uma Bíblia e perguntou se eu podia arranjar-lhe uma; depois foi-se embora. Este incidente quebrou a tensão. Eu proferi um discurso de improviso e distribuí muitos tratados, finalizando assim a minha visita de uma maneira pacífica.”

PROGRESSO APESAR DE ESPIRITISMO

Iniciou-se um estudo bíblico com uma viúva que escrevia poesia em francês debaixo de influência demoníaca e que acreditava ser orientada pelo espírito do famoso autor francês Victor Hugo. Uma discussão pormenorizada acerca da ressurreição ajudou-a a compreender a verdade; ela abandonou o espiritismo e foi batizada. Outro estudo foi dirigido com uma espírita que era uma médium de renome em Lisboa. Esta mulher teve uma grande luta mental para libertar-se da influência demoníaca, mas por fim ela também foi batizada.

Sem dúvida, por causa destes acontecimentos, vieram ao Salão do Reino alguns líderes espíritas, procurando um debate. O missionário salientou que as Testemunhas de Jeová não estão interessadas em debates públicos. Os diretores destes grupos insistiram que a discussão seria privada, uma vez que o seu principal objetivo era ouvir o nosso ponto de vista acerca de assuntos religiosos. Eles concordaram em encontrar-se no Salão do Reino e basear a sua discussão na Bíblia.

Na noite da reunião apareceram cerca de cinqüenta membros do grupo espírita. Na tribuna havia dois representantes para servirem de porta-vozes para cada lado. A primeira questão proposta pelo líder espírita era baseada em Mateus 10:28, e ele perguntou: “Como podem as Testemunhas de Jeová acreditar que a alma morre quando a Bíblia diz que ela não morre?” O irmão Cooke, de uma maneira bem simples, disse que era fácil. Bastava que ele lesse a última parte do mesmo texto, que diz: “Antes, temei aquele que pode destruir na Geena tanto a alma como o corpo.” Isto demoliu o argumento do grupo de intelectuais. Vendo que a discussão baseada unicamente na Bíblia era demasiado difícil para eles, pediram ao irmão Cooke para proferir um discurso bíblico salientando as nossas crenças. Resultou num excelente testemunho.

INICIA-SE A OBRA NOS AÇORES

Entretanto, nos Açores estavam a ocorrer acontecimentos interessantes. As nove ilhas que compreendem o arquipélago dos Açores são vulcânicas, com exceção da ilha de Santa Maria. Floresce a vegetação por causa das nascentes quentes, de muita chuva e de verões soalheiros. Abundam as árvores de fruto, tais como laranjeiras, damasqueiros, limoeiros, bananeiras e figueiras. Uma abundância de peixe alimenta a população das ilhas.

Durante séculos a Igreja Católica tem controlado a vida das pessoas nos Açores. Também, todos se conhecem uns aos outros. Foi em tal cenário que vários homens de inclinação justa manifestaram amor genuíno pela Bíblia. Sim, muitos anos antes de as boas novas terem alcançado estas ilhas, ocorreu um incidente notável em 1902 na Ilha do Pico.

Seis açoreanos tementes a Deus realizaram o funeral de um garoto de cinco anos. Eles realizaram o serviço sem a presença de um padre católico, e os homens cantaram um hino evangélico. Tal audácia provocou a ira do padre local, que levou os homens a tribunal acusando-os de ofenderem não só a religião do país como também o próprio Deus! Em 1903 o caso foi levado perante o Tribunal de Apelação Açoreano e por fim chegou ao Supremo Tribunal em Lisboa, onde foi rejeitado por falta de evidência.

Antes de o caso ter sido julgado, um destes seis homens, João Alves Pereira (John Perry) emigrou para os Estados Unidos. Ele pôs-se em contato com o povo de Jeová e, conforme já mencionado, tornou-se membro da família de Betel em Brooklyn, servindo como tal até à sua morte em 1965. Entre as primeiras publicações que ele enviou pelo correio para a sua família e amigos na Ilha do Pico, estavam os livros A Harpa de Deus e Milhões Que Agora Vivem Jamais Morrerão.

Mais tarde, os filhos dos outros dois homens que assistiram àquele funeral em 1902 também emigraram para os Estados Unidos, aprendendo ambos a verdade. Um destes, Isaac Ávila Fontes, enviou literatura para o seu pai, José Silveira Fontes, que estudava por si próprio e que depois começou a falar aos outros acerca das boas novas. Então em 1940 Aníbal Nunes, o filho do terceiro homem que assistiu àquele funeral, foi contatado pelas Testemunhas.

Aníbal e a sua esposa, cheios de zelo e determinação para ajudarem os seus compatriotas, deixaram os Estados Unidos em 1947 para regressarem à sua ilha natal do Pico. Uma das primeiras pessoas a quem eles falaram foi uma jovem vizinha, casada, Maria Ávila Leal. Quando Aníbal estava a testemunhar-lhe os sinos da igreja tocaram três vezes, e sendo uma católica devota, ela começou a explicar quão importante era a ave-maria.

O irmão Nunes perguntou-lhe se ela sabia quem era o Criador desta terra. Ela respondeu: “Sim, com certeza, Deus.” “Tem a certeza?” interrogou ele. Depois de confirmar a sua resposta, ele perguntou: “Onde estava a mãe Dele quando Ele fez a terra?” Ela respondeu imediatamente: “Deus não tem mãe.” Daí ele perguntou: “O que quer dizer então quando diz: ‘Santa Maria, mãe de Deus’? Está a referir-se a Deus ou a Jesus que é o Filho de Deus?” A plena força da falsidade da Trindade atingiu-a instantaneamente. Então, imediatamente, ela compreendeu que Jesus não era Deus, mas que Maria era a mãe carnal de Jesus, que é o Filho de Deus.

Decorridos dez dias após a sua chegada, o irmão Nunes tinha persuadido muitos a ouvir a verdade. Ele fez arranjos para uma reunião pública em casa do seu irmão, onde assistiram 82, ficando muitos de pé fora da porta e das janelas para ouvirem. O discurso foi dado à noite à luz de vela. Este discurso, juntamente com o fato de Maria Ávila Leal ter deixado de ir à igreja, causou uma tremenda perturbação na pequena comunidade de algumas centenas de casas. Somente carreiros ligavam entre si grupos de casas e vilas na ilha de 461 km2, mas a notícia de que a igreja tinha perdido um dos seus membros mais zelosos propagou-se como o fogo.

O padre, irritado, desencadeou uma tentativa desesperada para incutir medo no coração da jovem Maria. Ele fez todas as espécies de declarações falsas acerca dela. Os seus vizinhos escolheram-na como objeto de escárnio e calúnia. Tudo isto foi inútil. A verdade da Palavra de Deus caiu em solo excelente, e Maria tornou-se uma publicadora muito zelosa e destemida, servindo durante alguns anos como pioneira especial.

Em 1949 o irmão de Maria, de 23 anos, tentou persuadi-la a não seguir esta nova religião. Um dia ela deu-lhe o folheto A Religião Sega o Torvelinho. Embora cheio de preconceito a ponto de nem querer sequer tocar no folheto, de qualquer maneira ele aceitou-o. Receoso de poder ser encontrado com literatura das Testemunhas, levou-o para uma gruta nas montanhas e aí leu-o cuidadosamente de capa a capa. A mensagem do folheto teve influência imediata em Manuel Ávila Leal. Rompeu a sua associação com a Igreja Católica e começou a reunir-se com as Testemunhas. Ainda recorda vividamente a plena força com a qual a mensagem deste folheto o atingiu. Ele diz:

“Foram as poderosas verdades bíblicas apresentadas tão clara e audaciosamente contra a religião falsa, neste folheto inesquecível, que me convenceram quanto à verdade da Palavra de Deus.”

Por volta da mesma época, José Silveira Fontes, outro dos seis homens que tinham sido levados a tribunal, lá atrás em 1902, por terem realizado um serviço fúnebre sem um padre, mudou-se para a ilha de São Miguel. E a maior das nove ilhas que resultou da lava e das cinzas expulsas anteriormente por dois vulcões, que por fim se uniram. Nesta ilha de orquídeas e plantações de chá, ele contou a outros o que estava a aprender da Sentinela. O seu testemunho informal na cidade principal, Ponta Delgada, resultou nas primeiras quatro Testemunhas nativas. As duas irmãs, Maria Rosa e Maria Leite ainda estão a declarar zelosamente o nome de Jeová.

Noutra ilha, Graciosa, um trabalhador das docas reparou num panfleto que caíra do bolso de um colega de trabalho. Ele o apanhou e perguntou se o podia ler. O seu co-trabalhador concordou alegremente, dizendo que um passageiro de um dos barcos lhe tinha oferecido, mas que ele não sabia ler. O trabalhador das docas, Manuel Moniz Bettencourt, leu o panfleto, que se intitulava “O Novo Mundo”. Ele escreveu para a Sociedade pedindo mais e começou a distribuí-los em toda a ilha. As sementes da verdade estavam a ser espalhadas na ilha Graciosa. Assim começou o ministério de outra Testemunha.

CHEGAM MAIS MISSIONÁRIOS

O ano de 1950 anunciou um novo período para a obra nos Açores com a chegada de dois graduados de Gileade, Paul Baker e Kenneth Williams, à ilha do Pico. Nesta ilha ultraconservadora e dominada pelo catolicismo, a obra começou a fazer progresso. Mas o governo, debaixo da pressão do clero, expulsou os missionários. Contudo, tinha sido feito bom trabalho, resultando num novo auge de 21 publicadores. Paul Baker requereu de novo um visto, que foi aprovado. No entanto, não demorou muito até que a polícia chegasse à sua pensão para o prender acusando-o de se empenhar em atividades comunistas. Ele foi escoltado até ao primeiro navio, partindo para Lisboa, onde permaneceu preso uma semana. Aí as acusações inventadas foram retiradas e ordenaram-lhe que deixasse o país.

Durante este tempo, a obra em Portugal avançava firmemente. Depois de três anos sozinho na península ibérica, John Cooke ficou feliz por dois missionários, Mervyn Passlow e Bernard Blackhouse, se terem juntado a ele em 1951.

VISITA DE F. W. FRANZ EM 1951

Havia grande agitação em Lisboa na expectativa da nova visita do irmão F. W. Franz. O clímax de uma ocupada semana era uma assembléia de um dia debaixo de árvores de copa frondosa. Estavam presentes 90 e foram batizados 11. Naqueles dias de início da obra em Portugal, as freqüentes visitas dos membros do Corpo Governante ajudavam os nossos irmãos a sentir-se perto da sede.

Na última noite da sua visita, o irmão Franz proferiu um discurso de despedida no lar missionário. O absorvente assunto foi “Batismo de Fogo”. Mais tarde, um grupo maior que o costume andou por ali. Algum vizinho deve ter feito queixa, pois na manhã seguinte, bem cedinho, apareceu um agente da polícia secreta para investigar o caso. Ele deu a impressão de ficar satisfeito. Mas esta não foi a última vez que os missionários viram a polícia secreta. Contudo, eles aprenderam uma lição valiosa: de futuro não podiam continuar com as suas atividades tão abertamente.

O irmão Cooke deixou Lisboa para acompanhar o irmão Franz numa visita às congregações em Espanha e depois para assistir ao congresso internacional em Inglaterra. O visto do irmão Blackhouse expirou, e as autoridades recusaram-se a renová-lo. Assim, um pouco depois ele teve de partir para a Espanha. O irmão Cooke adoeceu e não pôde voltar. O único missionário que restava para cuidar da obra era o irmão Passlow, e ele também estava seriamente doente. Mais tarde, enquanto ainda relativamente jovem, ele morreu depois de uma vida plena de serviço devotado, na Austrália e em Portugal.

LIMPEZA ORGANIZACIONAL

Mais adiante surgiram problemas sérios. Certos indivíduos começaram a entregar-se ao criticismo e à maledicência. Especialmente dois irmãos ficaram perturbados com a maneira como a obra estava a ser dirigida. Um destes, um relojoeiro chamado Santos, começou a vender fotografias de John Cooke, gravadas com as palavras O Nosso Pastor. Este homem, com um espírito muito forte, conseguiu influenciar alguns dos irmãos mais velhos a seguirem-no.

Santos não podia compreender por que ele não tinha sido designado como servo, assim ele escreveu longas cartas a Brooklyn. Podemos verificar o seu estado mental pela declaração numa carta a Brooklyn: “Bem, mas eu até ofereci um relógio aos missionários para o colocarem no Salão do Reino, e mesmo assim eles não me designaram como servo.”

Ele começou a partilhar cada vez mais as suas queixas com Joaquim Carvalho, que não assistia às reuniões já por vários meses. Eles sugeriam aos outros que os missionários não eram portugueses, não faziam justiça à língua e realmente não compreendiam a situação local tão bem como eles. Desta maneira, plantaram as sementes do descontentamento. Como é que isto afetou a maioria dos publicadores? A assistência às reuniões diminuiu. Alguns até mesmo se afastaram da organização e começaram a realizar reuniões separadamente. Contudo, o fiel missionário perseverou, confiando em que Jeová orientaria os assuntos.

A resposta às suas orações foi uma visita dos irmãos Knorr e Henschel, e o regresso do irmão Cooke, restabelecido, em fevereiro de 1952. Realizou-se uma reunião com os queixosos, os servos e os missionários. Foi uma ocasião inédita. Os queixosos e os servos tinham preparado longas declarações à máquina. Mas, com um simples gesto, o irmão Knorr pôs todos os papéis de lado e disse: “Não, eu não quero papéis. Aqui estão os vossos irmãos. Agora, se têm algo contra eles, é só dizê-lo.” Este confronto com o problema, direto, simples e bíblico confundiu completamente os desordeiros. Durante um bom bocado eles hesitaram, sem saberem exatamente o que dizer.

Então o irmão Knorr disse: “Bem, tenho estado há uma hora aqui sentado e efetivamente de tudo o que se têm queixado é que esta irmã (que servia de intérprete) se riu de algo que um de vós disse numa reunião.” Depois alguns mencionaram pontos específicos, onde sentiram que tinham sido ofendidos. Os dois principais queixosos, irmãos Santos e Carvalho, manifestaram nitidamente um mau espírito e foram repreendidos. Naturalmente, todos os presentes receberam um bom e sério conselho em relação a como pôr de lado diferenças pessoais e a como prosseguir com o trabalho verdadeiramente importante de pregar as boas novas.

Nessa tarde numa reunião em Almada, o irmão Knorr deu conselho vigoroso aos 122 irmãos que assistiram. Ele explicou a atitude correta que todos deviam ter para com a organização de Jeová. O irmão Cooke foi depois designado como superintendente de uma congregação, que consistia em dois grupos.

As reações foram imediatas. O irmão Santos recusou-se a reconhecer a designação e anunciou que o grupo de estudo era seu, e que se realizava na sua própria casa; e se alguém quisesse seguir a organização, estava livre para fazê-lo. Ele também pediu para lhe devolverem o seu relógio. Quando o irmão Cooke tentou assistir ao estudo de livro dirigido pelo irmão Carvalho, foi-lhe recusada a entrada. Em pouco tempo estes grupos independentes cessaram de funcionar, e finalmente Santos e Carvalho foram desassociados.

Era evidente que Satanás estava a tentar torpedear a organização teocrática em Portugal. Mas isto não teve êxito. Depois da visita do irmão Knorr toda a situação melhorou rapidamente. O ano de serviço terminou com 62 publicadores que relataram, um novo auge de 207 na Comemoração e o aparecimento de novo interesse.

A situação foi resumida por um relatório do Anuário de 1954 (em inglês), que dizia: “Ocorreu uma limpeza drástica em 1952 no que diz respeito às Testemunhas de Jeová. O relatório do país este ano mostra a importância de conservar limpa a organização do novo mundo, pois desenvolveu-se um excelente aumento. . . . As congregações nunca deviam temer a perda de publicadores quando isso acontece com aqueles que não se alinham com a Palavra de Deus e não seguem os excelentes princípios que Ele nos ensina constantemente. Temos de nos lembrar que Jeová está a cuidar da sua organização.”

O IRMÃO COOKE É OBRIGADO A PARTIR

As duas congregações em Portugal estavam agora a crescer em tamanho e maturidade. Em janeiro, Eliseu Garrido mudou-se para o Porto e abriu a porta para o serviço do Reino na segunda maior cidade de Portugal. Contudo, um acontecimento inesperado estava para surgir. As autoridades recusaram-se a renovar o visto do irmão Cooke. O seu serviço missionário em Portugal tinha acabado. Adeus Portugal — partida para Angola! Ele serve agora fielmente na filial da África do Sul.

ILHA DA MADEIRA

A obra do Reino estava agora a iniciar-se na ilha da Madeira. Quando esta ilha montanhosa foi descoberta por volta de 1420, estava desabitada e coberta de densas florestas, daí o nome. A população de cerca de 257.000 vidas anicha-se em vilas e aldeias à entrada de desfiladeiros ou em encostas mais baixas. Um pioneiro de Nova Iorque, o irmão Freitas, passou alguns meses nesta ilha e evidentemente iniciou a pregação das boas novas. Os seus esforços foram ricamente abençoados com quatro publicadores logo a relatarem. A primeira Comemoração realizada em 1954 teve a excelente assistência de 21.

CORDEIRO ESPALHA AS BOAS NOVAS

Entretanto, em Portugal, António Manuel Cordeiro, o jovem de Trás-os-Montes, tornou-se um dos primeiros pioneiros auxiliares do país. Ele tinha vindo para Lisboa, onde usou o seu tempo em associação com os irmãos e no serviço de campo. A sua prima chegou pela segunda vez dos Estados Unidos, trazendo desta vez o seu filho. Ele recorda:

“No verão de 1954, o filho da minha prima e eu decidimos espalhar as boas novas em território isolado durante seis meses. Testemunhamos em dúzias de aldeias nos distritos remotos de Bragança e da Guarda, sendo presos na aldeia de Sandim por causa de uma queixa feita por um padre. Fomos levados para a cidade da Guarda e lançados num calabouço onde passamos a noite. Depois de um longo interrogatório, tiraram-nos as impressões digitais e soltaram-nos. O nosso único meio de nos deslocarmos era a pé ou ocasionalmente numa carroça puxada a bois. Levávamos gêneros alimentícios numa trouxa e comprávamos pão e queijo pelo caminho. De vez em quando comíamos numa pensão uma boa refeição quente.”

Ao chegar a Seixo de Carrazeda de Ansiães, eles descobriram que não existia tal coisa como uma pensão, mas, felizmente, uma das primeiras famílias a que António testemunhou, ofereceu-lhes refeições e alojamento enquanto eles testemunhavam a todas as famílias na aldeia. Ao chegarem tarde a outra aldeia, descobriram que o único lugar disponível para dormirem era uma cama de feno junto ao burro. Ao recordar aqueles dias, António diz: “Não, não estávamos desencorajados, nem descontentes com estas condições. Em vez disso, estávamos cheios de felicidade pelo privilégio de levarmos as boas novas a essas pessoas.”

NUVENS DE TEMPESTADE NO HORIZONTE

Em novembro de 1954 o missionário de Gileade, Eric Britten, juntamente com a sua esposa, Christine, chegaram do Brasil para cuidarem da filial. Tornou-se costume realizar regularmente “piqueniques” em áreas arborizadas, junto à praia. Mais tarde estas áreas arborizadas tornaram-se conhecidas como O Salão do Reino Verde. Estas ocasiões provaram ser horas de grande revigoramento espiritual. Em maio de 1955 fez-se arranjos para um dia especial de “piquenique” na área da Cova do Vapor. Os irmãos alugaram um cacilheiro [barca] para atravessarem o rio Tejo para a área da praia. Descobriram logo que tinham visitantes não convidados. Dois policiais à paisana acompanharam-nos durante todo o dia. Assistiram a este “piquenique” um recorde de 230 pessoas.

Na manhã seguinte, agentes da polícia secreta visitaram as casas de alguns dos irmãos. Fizeram-lhes perguntas como estas: A que espécie de organização pertencem? Quem são os oradores? Não são alguns deles estrangeiros? É verdade que tiveram ontem uma reunião na praia? Quantas vezes têm estes piqueniques? Este foi um dos primeiros incidentes que mostrou que a polícia estava a observar bem de perto as Testemunhas.

Em 1956, a polícia secreta, conhecida como PIDE (Polícia Internacional e Defesa do Estado), aparecia com maior freqüência nas reuniões. Em julho, um vizinho amistoso disse ao missionário Mervyn Passlow que a polícia o tinha a ele e a sua esposa sob vigilância. Pouco depois disto o casal foi expulso de Portugal, embora a esposa fosse uma cidadã de nascimento. A interferência da polícia também resultou no encerramento de dois locais de reunião em Lisboa.

PROGRESSO NO PORTO

No Porto a obra estava agora a fazer excelente progresso. Em 1955 foi formada a primeira congregação. Em 1956 foi alugado o primeiro Salão do Reino, e em 1957 o irmão F. W. Franz proferiu aí um discurso para uma feliz audiência de umas trinta pessoas. Entre aqueles que logo a seguir começaram a estudar estavam Armando e Luiza Monteiro, um zeloso casal que promoveu os interesses do Reino nesta histórica cidade. Agora, o Porto recebeu uma nova bênção — dois missionários, Domenick A. Piccone e a sua esposa, Elsa, que tinham sido expulsos de Espanha. Em 1959, chegou a Portugal mais ajuda missionária com a chegada dos casais Roberts e Beveridge da 33.a classe de Gileade.

TESTEMUNHO INFORMAL

Quer no Porto, quer em qualquer outra parte de Portugal, os irmãos descobriram que o testemunho informal era uma excelente maneira de ajudar outros a aprenderem a verdade. Por exemplo, uma das primeiras publicadoras em Portugal, Alpina Mendes, estava a fazer um tratamento numa estância termal em Caldelas. Enquanto aí esteve, ela testemunhou a José Maria Lança, um jornalista. Durante os 15 dias que se seguiram eles falaram diariamente acerca dos propósitos de Deus. Lança leu “Seja Deus Verdadeiro’, duas vezes durante este tempo. Quando voltou a Lisboa, iniciou-se um estudo bíblico com ele, e em breve assistia às reuniões. Quatro meses mais tarde foi batizado e é presentemente um superintendente viajante.

Os parques e jardins em Lisboa servem como um excelente e natural cenário para falar do Paraíso restaurado. Armando Lourenço, agora um ancião, diz-nos como ele aprendeu a verdade em 1956: “Estava sentado no Parque do Campo Grande, em Lisboa, numa tarde de sol, lendo a minha Bíblia, quando Josué Guilhermino se sentou e fez a pergunta que Filipe tinha feito ao etíope: ‘Sabes realmente o que estás lendo?’ Eu respondi com a mesma pergunta que o etíope apresentou a Filipe: ‘Realmente, como é que eu posso, a menos que alguém me guie?’” (Atos 8:30, 31) O irmão Lourenço foi batizado quatro meses mais tarde e eventualmente foi para a Escola de Gileade, voltou para Portugal e serviu como superintendente de circuito durante muitos anos em diferentes partes do país.

CABO VERDE RECEBE A VERDADE

As primeiras sementes da verdade do Reino foram trazidas para as ilhas de Cabo Verde em 1958. Este grupo de 10 ilhas está situado no oceano Atlântico, a uns 440 km da costa ocidental da África. Um nativo que tinha emigrado para os Estados Unidos voltou para uma visita em 1958, deixando uma considerável quantidade de literatura e assinaturas da Sentinela

Perto do final de 1958, na ilha de Santiago, algumas publicações da Sociedade caíram em mãos apreciativas. Enquanto estava a visitar um amigo fotógrafo, Luís Alves Andrade reparou em dois folhetos, “Estas Boas Novas do Reino” e “Eis que Faço Novas Todas as Coisas”, e pediu para os ler. O homem estudou cuidadosamente cada folheto e verificou cada referência numa Bíblia antiga. Uma semana mais tarde voltou ao seu amigo e ficou entusiasmado ao encontrar um livro, “Seja Deus Verdadeiro”. Ele aceitou-o alegremente e, por si próprio, estudou-o de capa a capa. Agora não tinha dúvidas de que a verdade da Palavra de Deus estava a ser ensinada pelas Testemunhas de Jeová. Ele fez a assinatura das duas revistas, que durante um bom número de anos, foi o seu único meio de receber alimento espiritual.

UM TEMPO DE EXPANSÃO

O interesse estava a aumentar e os Salões do Reino estavam a transbordar. Era um tempo de expansão em Portugal. Assim o irmão Piccone foi designado como o primeiro superintendente de circuito de tempo integral e visitava grupos isolados e pessoas interessadas em todas as partes do país. À sua chegada a casa de uma senhora interessada em Monção, na província do Minho, no extremo Norte, espalhou-se rapidamente a notícia de que estava um estrangeiro na vila. Mal tinha começado a testemunhar-lhe, começaram a chegar os vizinhos. Não foi preciso deixar a casa para visitar os outros, uma vez que esta estava cheia de pessoas ansiosas por ouvir as boas novas.

No outono de 1959 o irmão Piccone visitou os Açores. Ele relata: “Visitar os Açores é uma verdadeira experiência, uma vez que apenas duas das nove ilhas têm docas. Estas ilhas, por estarem situadas no Atlântico central, são muitas vezes cercadas por tempestades no mar, como foi o caso quando nós chegamos. Foi um verdadeiro desafio sair do navio a vapor, pela escada, para um barco a remos que nos aguardava. Tínhamos que esperar até que uma onda trouxesse o barco a remos até ao nível exato da escada e depois esperar saltar no momento certo! Foi uma verdadeira mão-de-obra tirar do navio, em boas condições, o equipamento de filmagem da Sociedade, a bagagem e a literatura. Daí, remadores peritos agüentavam as ondas, escolhendo a ocasião para chegarem à praia, a fim de evitar que o barco virasse.

“Exibir o filme na ilha do Pico apresentou mais obstáculos. Uma vez que os irmãos viviam numa aldeia onde não havia eletricidade, tivemos de andar cerca de 5 milhas [8 km] para a vila próxima para ver o que se podia arranjar. No nosso caminho para a vila, um homem que estava a apanhar uvas notou que eu era estranho e assim ele convidou-nos para visitar a sua adega de vinho e hospitaleiramente ofereceu uma bebida. A conversa mudou para o assunto da projeção do filme e para nosso espanto, o seu irmão, que estava a pisar uvas no lagar, era o dono do cinema local! Foram feitos arranjos para se exibir aí, na noite seguinte, o filme da Sociedade. No dia seguinte, quando nos aproximamos da sala de espetáculos, tivemos uma surpresa agradável. Estavam a ser lançados foguetes para informar toda a gente na vizinhança que ia ser exibido um filme. Uma assistência de uns 150 vieram para ver o filme.”

A verdade continuou a espalhar-se por toda a parte dos Açores. Em 1960, Santa Maria, uma ilha bem conhecida a viajantes transatlânticos, recebeu a verdade. Atrasado no aeroporto enquanto estavam a ser feitas reparações no avião, um irmão aproveitou-se da oportunidade do tempo e testemunhou a um homem que fez a assinatura da Sentinela e foi encorajado a falar a outros. Foi-lhe dito que se ele conseguisse arranjar assinaturas suficientes para a revista, poderia receber a visita de um dos representantes da Sociedade para obter ajuda em entender a Bíblia. O homem foi ter com os seus amigos e obteve várias assinaturas. Ele então escreveu à Sociedade, pedindo que alguém os visitasse. O superintendente viajante ficou surpreso em verificar que compareceram 19 para ver o filme da Sociedade.

Quão emocionante foi o ano de 1961! Durante vários anos os publicadores em Portugal tinham esperado, com entusiasmo, alcançar o marco de 1.000 pregadores do Reino. Esta ocasião especial chegou em janeiro com um aumento de 30 por cento acima da média do ano anterior!

DISTRIBUIÇÃO DE BÍBLIAS

Na década de 1940, quando era difícil obter Bíblias, Eliseu Garrido foi a lojas de livros em segunda mão e comprou muitas Bíblias usadas. Numa ocasião ele chegou a comprar vinte e cinco tão barato como cinco escudos (c. Cr$ 120,00) cada exemplar.

O irmão Manuel Almeida teve uma experiência interessante em 1960 com uma proeminente sociedade bíblica. Ele explica: “Eu estava a comprar um número cada vez maior de Bíblias para todas as Testemunhas em Lisboa, sendo concedido um desconto de 20 por cento. Um dia o diretor disse-me para determinar uma encomenda regular e fixa de modo que a sociedade bíblica pudesse saber quantas importar. Quando eu mencionei que as Testemunhas podiam usar pelo menos 125, mensalmente, ele ficou admirado, uma vez que a encomenda total da sociedade bíblica, por mês, era apenas de 250.”

Como era encorajador saber que as Testemunhas de Jeová estavam a distribuir metade do total do número de Bíblias recebidas por esta sociedade bíblica! Evidentemente que um fanatismo religioso apoderara-se das mentes destes “amantes da Bíblia”, pois na segunda metade de 1960, o irmão Almeida foi avisado que eles não poderiam fornecer mais às Testemunhas grandes quantidades de Bíblias.

MACAU RECEBE AS BOAS NOVAS

Em 1961 a obra do Reino foi introduzida na província portuguesa de Macau, localizada na costa do sul da China, na foz dos rios Cantão e Pearl. Macau distingue-se por ser o mais antigo posto avançado de comércio entre a Europa e a China continental, remontando a 1557 EC. Uma irmã mudou-se para aí com o seu marido que estava nas Forças Armadas. Embora encontrasse poucas pessoas que falassem a sua língua, ela plantou sementes da verdade do Reino. No ano seguinte voltou a Portugal, e as poucas pessoas interessadas e assinantes ficaram daí em diante ao cuidado da filial de Hong Kong.

TEMPOS DIFÍCEIS EM ANGOLA

Em 1960, para manter uma melhor comunicação, a supervisão da obra em Angola foi transferida da África do Sul para Portugal. A polícia em Angola aumentou a sua vigilância às Testemunhas. Em fevereiro de 1959 a PIDE negou-se a permitir a entrada no país do superintendente de zona, irmão Arnott. Depois a polícia deu ordens rigorosas proibindo reuniões e toda a associação entre as Testemunhas da Europa e os nossos irmãos em África. Assim, a partir deste momento, ambos os grupos realizavam reuniões separadamente e em secreto.

Em março de 1961 estendeu-se por Angola uma onda de terror, violência e destruição, vinda da fronteira do Congo. Foram totalmente queimadas aldeias inteiras, e corpos tanto de negros como de brancos foram encontrados mutilados além de identificação. Os homens eram enforcados e mortos como porcos; as mulheres tinham os seus estômagos dilacerados e as crianças eram mortas cruelmente. Logo depois da eclosão desta carnificina cruel, as Testemunhas de Jeová começaram a ser acusadas de atos de terrorismo. A Igreja Católica Romana tomou a liderança nesta grande falsidade. Um jornal católico, A Província de Angola, denunciou as publicações das Testemunhas como sendo subversivas.

Como a guerra contra o terrorismo se desenvolvia numa confrontação em escala máxima, as publicações oficiais do governo esforçavam-se por culpar as Testemunhas de fomentarem o terrorismo em Angola. Uma dessas publicações, Ultramar, declarou: “Admite o Prof. Silva Cunha que esta seita tenha influenciado antes do terrorismo populações angolanas sobretudo na Luanda e no México. Também nós pensamos que são fundadas as suas suposições . . . A Watch Tower é um movimento americano, de grandes proporções e capital. Se aos EUA não advierem outros resultados, ao menos conseguirão imediatamente grande prestígio . . . E não seria para admirar se a Casa Branca lhe desse em África alguma proteção.” — Vol. 5, 1964, número 17, p. 54.

Não é difícil de imaginar que esta espécie de pensamento deformado desencadeasse um feroz espírito nacionalista, acompanhado por vigilância rigorosa aos nossos irmãos. Foram introduzidas medidas severas limitando qualquer associação de africanos a não mais do que três em número. Daí em diante os nossos irmãos em Luanda reorganizaram as suas reuniões, realizando-as em grupos mais pequenos. Apesar de grande tensão eles ficaram emocionados por terem 130 presentes na Comemoração em março de 1961.

NEUTRALIDADE — UMA BÊNÇÃO

Quando irrompeu o terrorismo muitos estavam confusos quanto ao fato de que as Testemunhas pudessem realmente ser responsáveis por tal ação. Carlos Agostinho Cadi estava a trabalhar numa plantação no norte de Angola, perto da fronteira do Congo. O medo de alguém perder a vida tornou-se tão grande que o dono da plantação fugiu para o Congo, deixando o irmão Cadi encarregado. Mal o dono tinha partido logo chegou o exército avançado português e capturaram todos os trabalhadores africanos. Suspeitando que fossem terroristas, os portugueses deram ordem para os matar a todos.

Apelos de clemência caíram em ouvidos surdos. Então Carlos mostrou aos soldados os papéis em seu poder, provando que ele era uma das Testemunhas de Jeová e de maneira nenhuma estava envolvido em terrorismo. Com isto conseguiu adiar a execução. Quando o comandante chegou e examinou as cartas, ele entregou Cadi à PIDE para investigação. Assim a sua vida foi poupada.

UM HOMEM DE FÉ

Nesta altura, João Mancoca, um africano que lá atrás em 1943 tivera contato com as publicações da Sociedade, estava em Luanda. A 25 de junho de 1961, enquanto estava a dirigir um estudo da Sentinela em Luanda, a polícia militar apareceu de repente armada de baionetas. A polícia mandou as irmãs e as crianças para casa; depois os irmãos foram sujeitos a um tratamento terrível. O próprio Mancoca declara:

“Não tenho palavras para descrever a maneira como fomos tratados. O cabo encarregado dos soldados declarou abertamente que seríamos espancados até à morte. Depois de termos sido brutalmente espancados até ficarmos quase só uma pilha de carne, parecia que ele estava certo. Enquanto eu estava deitado no chão, algemado, recebi tantas pancadas com uma moca de madeira, que mais tarde eu vomitei sangue durante 90 dias. Mas o que me preocupava agora era a vida dos meus companheiros que estavam a ser barbaramente espancados com mocas de madeira. Em oração pedi a Jeová para cuidar da vida deles, das suas ovelhas. Convencidos de que alguns de nós morreríamos, os soldados voltavam cada meia hora durante a noite, perguntando se alguém estava morto. Eles pareciam muito embaraçados por termos sobrevivido à tortura desumana, e ouviu-se alguns observar que o nosso Deus devia ser o verdadeiro, uma vez que tínhamos sobrevivido.”

Durante cinco meses os irmãos permaneceram na prisão de São Paulo, em Luanda. Quando foram transferidos para um dormitório grande de uns seiscentos homens, eles aproveitaram as oportunidades para testemunhar e em três ocasiões o irmão Mancoca conseguiu proferir um discurso para mais de trezentos companheiros de prisão. Muitos destes, que mais tarde foram libertos da prisão, aceitaram a verdade. Alguns deles estão a servir, hoje, como anciãos em Luanda. O plano das autoridades carcerárias para silenciar e intimidar os servos de Jeová, saiu-lhes como tiro pela culatra.

Os irmãos foram então transferidos para o Sul de Angola e passaram outros cinco meses nas prisões da Polícia de Segurança em Moçâmedes. Embora rigorosamente vigiados, eles conseguiam aproveitar a oportunidade para dar testemunho informal e realizar mesmo um estudo do livro regular. Aqui foi dado outro esplêndido testemunho. Em pouco tempo, alguns prisioneiros, que tinham sido culpados de atividades políticas ilícitas, viram que o reino de Deus era a única esperança do homem. Depois os irmãos foram transferidos para a Baía dos Tigres, uma ilha penal, e sentenciados a “residência fixa” ou a deslocação restrita em campos de trabalho do governo.

A literatura enviada para os irmãos num dos campos de trabalho foi interceptada. O administrador do campo, enfurecido, castigou os nossos irmãos por enviá-los para um longínquo campo de trabalho recentemente construído no interior, perto de Serpa Pinto. Três meses mais tarde, Sala Ramos Filemon, juntamente com João Mancoca e três outros irmãos, e com mais outros 130 prisioneiros, foram transportados em carros de gado para este campo. A sua recepção forneceu uma antevisão ameaçadora do que poderiam esperar.

Empurrados para fora dos carros como animais, os nossos irmãos foram cruelmente espancados e injuriados. Novamente, as pancadas eram tão selvagens que eles pensavam que a morte era iminente. O campo estava completamente cercado com arame farpado. As condições opressivas que consistiam em trabalho pesado, pouco alimento e sem vestuário tornaram-se uma rotina diária. Os nossos irmãos subsistiam com peixe seco, uma refeição de cereais de qualidade pobre e com uma fé firme. Incapazes de suportar por mais tempo o tratamento desumano, quatro prisioneiros políticos tentaram fugir, mas foram apanhados e, como aviso, torturados até à morte na presença de todos.

INICIA-SE A OPOSIÇÃO EM PORTUGAL

A eclosão do terrorismo em Angola, em 1961, teve efeitos imediatos na obra em Portugal. Com um fluxo de falsa propaganda a espalhar-se pelo país, acusando as Testemunhas de incitar as massas à rebelião, a polícia portuguesa começou a interferir nas suas atividades de pregação. Na cidade de Évora, a uns 130 km a leste de Lisboa, um pioneiro, Horácio Arnaldo Duarte, foi convocado para a delegação da PIDE local a fim de ser interrogado. Aí a polícia mostrou-lhe fotografias de soldados portugueses mutilados e acusou as Testemunhas de serem os responsáveis.

No verão de 1961, um pioneiro especial, Artur Canaveira, foi seguido por agentes da PIDE durante muitas semanas. Depois em setembro, eles o prenderam. Ele relata o que aconteceu: “Fui acusado de atividades subversivas e de ter alguma ligação com o comunismo. Durante três meses fui submetido a interrogatórios e a espancamentos brutais num esforço para me forçar a admitir que eu era um comunista. Quatro ou cinco agentes lançavam, ao mesmo tempo, perguntas tentando criar confusão. Os interrogatórios realizavam-se sempre à noite, quando a minha resistência estava mais baixa, e com o rádio a tocar para abafar qualquer grito.”

Durante todo este tempo ele foi mantido incomunicável, até ser transferido para a prisão da PIDE, no Forte de Caxias, nos arredores de Lisboa. Depois, a 22 de janeiro de 1962, ele foi liberto.

Apenas quatro dias mais tarde, a 26 de janeiro de 1962, os irmãos Eric Britten, o então superintendente da filial, Domenick Piccone e Eric Beveridge e as suas esposas, todos missionários, foram chamados à sede da PIDE e ordenaram-lhes que deixassem o país no espaço de 30 dias. Disseram-lhes que a razão da sua expulsão era por falarem aos outros acerca da sua religião e por ensinarem a neutralidade. Numa entrevista com o irmão e a irmã Beveridge, o diretor da PIDE referiu-se a um incidente recente, onde um jovem português tinha recusado o serviço militar, e afirmou que as Testemunhas eram responsáveis pelas ações dele. A escusa de consciência não seria tolerada em Portugal, acrescentou ele.

Era um golpe difícil ver os missionários partir, e foram derramadas muitas lágrimas. Eles tinham-se realmente entregue de toda a alma, e eram calorosamente amados pelo seu zelo e excelente exemplo. Os Brittens, por fim, voltaram para o Brasil, onde ainda estão a servir em tempo integral no trabalho de circuito. Para os Piccones, era a sua segunda expulsão de uma designação de missionários. Eles foram para Marrocos, mas estão agora em El Salvador. Os Beveridges foram designados para a Espanha, onde serviram durante 19 anos, antes de serem transferidos para a família de Betel em Brooklyn.

ESCOLAS DO MINISTÉRIO DO REINO

Como foi oportuno que, precisamente antes da expulsão dos missionários, eles tivessem conseguido realizar a primeira Escola do Ministério do Reino! Esta foi a mais oportuna provisão para os 20 servos de congregação no país, preparando-os para os tempos difíceis à frente. Regozijamo-nos que a maioria destes irmãos ainda estão a servir fielmente. Através dos anos, cursos sucessivos têm provido instrução valiosa, resultando na unificação da obra, assim como também em conservar vivo o espírito evangelizador.

PIONEIROS TOMAM A LIDERANÇA DA OBRA

Uma vez que os missionários se tinham ido embora, os irmãos locais responderam ao desafio de continuar com a obra de pregação. Lembrando aqueles tempos, o superintendente de circuito, Gilberto Sequeira, diz:

“Quando a Sociedade, em 1958, enviou missionários para Portugal, eu então percebi que também nos devíamos dar o nosso melhor a Jeová e, se de todo possível, juntarmo-nos às fileiras de pioneiros. Embora tendo uma jovem filha, tornei-me em 1959 um pioneiro especial e nunca trocaria todas as bênçãos recebidas por qualquer outra vida. A minha primeira designação foi a congregação de Moscavide, nos subúrbios de Lisboa. Iniciei estudos em muitas localidades. Muitas vezes troquei a literatura por ovos, laranjas, limões, bolos, etc., pois as pessoas tinham pouco dinheiro. Que bênção ver alguns com quem estudei servirem agora como anciãos nas congregações que eu tenho o privilégio de visitar! Nada é comparável ao serviço de tempo integral e à preciosa relação que se desenvolve com Jeová.”

O irmão Henrique Arques foi outro publicador cujo coração o motivou, nesta altura, a entrar nas fileiras dos pioneiros. Depois de mais de vinte anos no serviço de tempo integral, juntamente com a sua esposa, ele faz este comentário: “Soou a chamada para mais pioneiros e eu alegremente ofereci-me como voluntário. Aprendi a nunca desprezar o dia de pequenas realizações. Tenho tido o privilégio de ir a todas as partes do país, incluindo o serviço na Madeira, nos Açores e nas ilhas de Cabo Verde. As ofertas que eu tive de empregos lucrativos nunca poderiam equiparar-se ao que Jeová oferece.”

O ESCRITÓRIO DA FILIAL NA CLANDESTINIDADE

Por causa da crescente vigilância da polícia, a filial tinha agora de ser reorganizada para atividade clandestina. Foi mudada para um modesto barracão no pátio dos fundos de António Matias, um alfaiate em Lisboa. O missionário de Gileade, Paul Hundertmark e a sua esposa, Evelyn, tinham sido expulsos de Espanha em 1960 e estavam agora em Portugal a aprender português. De repente, Paul encontrou-se com uma filial clandestina para cuidar. E que desafio isso ia ser!

INTENSIFICA-SE A PERSEGUIÇÃO

A seguir à expulsão dos missionários em 1962, as autoridades endureceram a campanha de perseguição contra as Testemunhas de Jeová. Emitiram um comunicado para todos os correios, proibindo a circulação da nossa literatura bíblica, e classificando-a como “perniciosa”. Confiscaram grandes quantidades de Bíblias e de literatura publicada pela Sociedade Torre de Vigia, e esta literatura cortaram e queimaram. Foi negado o direito a milhares de assinantes da Sentinela e de Despertai! de receberem as suas revistas.

Em rápida sucessão a polícia fazia buscas em casas de muitos irmãos, confiscando a literatura. A polícia ameaçava-os com a prisão, se eles continuassem a assistir às reuniões. Um dos primeiros irmãos a ser visitado pela polícia foi Manuel Almeida, que presentemente serve na Comissão da Filial. Embora não tivesse um mandato para entrar ou de busca, a polícia confiscou todas as publicações produzidas pela Sociedade. Antes de a onda de perseguição ter terminado, este irmão não só teve sete vezes uma busca na sua casa, como também foi convocado um igual número de vezes para longos interrogatórios pela PIDE. Depois a polícia começou a fazer batidas aos Salões do Reino em Lisboa e no início de 1962 foi encerrado o primeiro por ordem da polícia.

O PRIMEIRO JULGAMENTO

Em 1962 foi feita queixa à polícia por um grupo de 12 irmãos ter realizado uma reunião. Os irmãos foram chamados à esquadra da polícia para interrogatório e foram ameaçados com prisão, se continuassem a reunir-se para o estudo da Bíblia. Em janeiro de 1963 alguns dos irmãos receberam a seguinte ordem do comandante da Polícia de Segurança Pública de Caldas da Rainha:

“Ordeno todo agente autorizado . . . a notificar, com todas as formalidades legais [nome do irmão], residente a [seu endereço], na cidade de Caldas da Rainha, Concelho de Caldas da Rainha, que: Ele não pode continuar a exercer suas actividades de ler a Bíblia, de Testemunha de Jeová ou de qualquer outro carácter religioso, e além disso, promover, estabelecer, organizar ou dirigir associações de carácter internacional como a que ele afirma pertencer.”

O Ministério Público acusou os irmãos de realizarem reuniões religiosas sem obterem autorização. Na abertura do julgamento a 21 de março de 1963, o juiz ficou espantado em ver a sala do tribunal cheia de espectadores. Geralmente, questões no tribunal desta espécie, quando o Estado era o acusador, demoravam apenas alguns minutos. Mas o juiz de inclinação justa estava tão interessado em observar que fosse feita justiça que o julgamento durou perto de três horas. Ele permitiu que três testemunhas dos réus falassem e fez várias perguntas referentes a assuntos bíblicos. O veredicto provou ser uma decisão favorável para a verdadeira adoração, tendo os acusados sido absolvidos.

CANCELADA UMA ASSEMBLÉIA DE CIRCUITO

Em julho de 1963 foi planejada uma assembléia de circuito em Faro, na costa sul de Portugal. Os irmãos alugaram um grande armazém para exibirem um dos filmes da Sociedade, mas alguém apresentou uma queixa na polícia. No último minuto os irmãos cancelaram o arranjo. Foi uma decisão sábia. A polícia tinha sido avisada de que havia uma “reunião política”, assim, por volta da meia-noite, um destacamento da polícia de choque cercou o armazém. Eles aprontaram as metralhadoras para ação e prepararam-se para o que pensavam ser uma resistência armada. Que surpresa quando encontraram o armazém vazio! O superintendente de circuito, Cesário Gomes, foi mais tarde longamente interrogado. Ele relatou o que se seguiu:

“Foram trazidos todos os artigos confiscados do meu carro e colocados sobre a secretária [escrivaninha] do chefe da polícia. O que na verdade me afligia era uma lista dos nomes e endereços dos superintendentes de todo o circuito. Eu tinha a certeza que esta lista iria ser vista. Orei imediatamente a Jeová, pedindo a sua ajuda para proteger os meus irmãos, em harmonia com os pensamentos do Salmo 118:6-8. Então, enquanto o chefe da polícia estava a examinar cada artigo e a escrever a sua descrição, consegui pôr o meu cotovelo no canto da secretária. Quando ele estava distraído, consegui tirar o bocado de papel que continha os nomes. Depois eu pedi licença para ir à casa de banho e rapidamente lancei a lista na sanita [vaso] e puxei o autoclismo [descarga].”

MISSIONÁRIO PARA AS ILHAS DE CABO VERDE

O ano de 1962 foi um ano notável na história da obra nas ilhas de Cabo Verde, com a chegada de George Amado, um graduado de Gileade. Pouco depois chegou um pioneiro especial, Jack Pina, para trabalhar juntamente com o missionário na ilha Brava. Em dois meses o missionário estava a relatar 14 estudos bíblicos domiciliares e dentro em pouco estavam a reunir-se 20 pessoas para o estudo bíblico semanal. A celebração da Comemoração em 1963 teve a excelente assistência de 45. Depois houve uma mudança nos acontecimentos. Foi ordenado que os dois pioneiros deixassem as ilhas. Contudo, as sementes da verdade tinham sido semeadas e tinham tomado raiz.

AVENTURAS EM VIAGEM

A Assembléia “Boas Novas Eternas” em Milão, Itália, em 1963, é especialmente recordada por várias razões. Foi o primeiro congresso internacional a que assistiram congressistas portugueses, sendo todo o programa apresentado pelos irmãos portugueses na sua própria língua. A viagem de ida e volta, de 4.000 km, também foi inesquecível. Para a maioria dos irmãos, era a sua primeira viagem ao estrangeiro. Para fazer a viagem, alguns compraram o seu primeiro carro depois de tirarem a carteira de habilitação. Um irmão teve problemas com a embreagem e com a caixa de câmbio, partindo-se sucessivamente cada mudança. Foi mesmo um espetáculo vê-lo finalmente a guiar de marcha à ré até à cidade, com apenas aquela mudança a funcionar.

O irmão Américo Campos, de Almada, relata o que aconteceu com a sua caravana de três carros: “Em Barcelona, Espanha, roubaram a dois irmãos todo o seu dinheiro assim como os passaportes. Na viagem de regresso descobrimos que os ladrões franceses eram mais experientes do que os seus colegas espanhóis. Enquanto dormíamos profundamente, assaltaram os nossos carros e levaram tudo. Eles até entraram nas nossas tendas, levando o nosso dinheiro e lembranças. Fomos materialmente limpos mas tínhamos recebido tanto em sentido espiritual no congresso, que de uma maneira positiva, comentamos na veracidade das palavras de Jesus em Mateus 6:19: “Parai de armazenar para vós tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem consomem, e onde ladrões arrombam e furtam.”

CONTINUA A PERSEGUIÇÃO ESTIMULADA PELA IGREJA

A publicidade adversa contra as Testemunhas começou a surgir mais freqüentemente nos jornais. Durante o verão de 1963 foi transmitido de Lisboa uma série de cinco programas de televisão acerca das Testemunhas. Um padre católico romano conduziu as discussões, e ele deleitou-se em desvirtuar grandemente o povo de Jeová.

Na noite de 22 de agosto de 1963, cinco agentes da PSP (Polícia de Segurança Pública) com pistolas na mão irromperam numa casa particular na cidade de Aveiro, na costa norte, interrompendo a reunião local. Todos foram detidos e levados para a esquadra [delegacia] da polícia. Às quatro horas da manhã as crianças foram libertas. Os outros tiveram de esperar até às sete e meia da noite seguinte. Eles foram formalmente acusados de estarem a realizar uma reunião ilegal. Desta maneira surgiu o cenário do segundo julgamento das Testemunhas em Portugal. A evidência mostrava que a privatividade de uma casa tinha sido violada. O juiz adiou cerca de um mês antes de declarar que todas as 10 Testemunhas eram culpadas. O irmão António Beirão e a sua esposa foram considerados responsáveis pela reunião, e embora tivessem dois filhos pequenos, foram sentenciados a um mês de prisão.

OS PRISIONEIROS TESTEMUNHAM EM ANGOLA

Entretanto, em Angola, o campo penal de trabalho foi afetado pelo Concílio Ecumênico Católico em 1963. Os representantes das seitas da cristandade pediram ao administrador do campo permissão para realizar dias especiais de oração ecumênica. Os prisioneiros mais qualificados para representarem cada religião foram convidados a participar nestas sessões de oração. O irmão Mancoca, convidado para representar as Testemunhas de Jeová, recusou. Contudo, ele aproveitou a oportunidade para tornar clara a posição das Testemunhas em não se envolverem em reuniões ecumênicas.

Os assim chamados amigáveis líderes da cristandade encaravam o irmão Mancoca como sendo muito audacioso e procuraram vingar-se. Usando o administrador do campo, eles fizeram uma tentativa para o silenciar. As autoridades do campo proibiram-no expressamente de manter conversas religiosas com os seus companheiros prisioneiros ou empenhar-se em qualquer atividade religiosa fosse qual fosse, sob pena de morte. Eles disseram-lhe que os seus ‘seguidores seriam desterrados para colônias penais nas ilhas de Cabo Verde se ele desobedecesse às ordens’. O irmão Mancoca escreveu uma carta para o administrador do campo, declarando delicadamente que não obedeceria a tais ordens e que na realidade elas eram contrárias à Constituição Portuguesa, que garante liberdade religiosa.

A reação à sua carta foi imediata. Eles separaram Mancoca de todos os outros prisioneiros e conservaram-no a uma distância de uns 60 metros de maneira que ele não pudesse falar com ninguém. Os guardas do campo intensificaram a sua vigilância para se certificarem de que não estava a praticar a sua religião ou a ler a Bíblia. Apesar destas dificuldades, Mancoca conseguiu traduzir o folheto “Estas Boas Novas do Reino” para o dialeto umbundu.

Tornou-se evidente que os grupos isolados em Luanda precisavam de ajuda, assim em março de 1963, Manuel da Silva, sua esposa e dois filhos, mudaram-se para Angola a convite da Sociedade. Uma vez que ambos eram pioneiros especiais, a obra foi rapidamente organizada e produziu resultados excelentes. Então, a 14 de outubro de 1963, em Luanda, Manuel da Silva e Manuel Acácio Santos foram apreendidos e encarcerados. No mês seguinte a PIDE prendeu o irmão que tinha estado a cuidar da obra em Luanda, Manuel Gonçalves Vieira. O chefe da polícia disse-lhe: “A obra das Testemunhas de Jeová foi proscrita em toda a Angola.”

Agora a polícia apresentou um ultimato a Vieira: Assinar uma declaração prometendo renunciar a todas as atividades relacionadas com as Testemunhas de Jeová ou ir para a prisão. Ao recusar a intimidação, foi posto numa cela solitária durante dois meses, apesar do fato de sua esposa estar à espera do seu terceiro filho dentro de algumas semanas. Por esta altura Manuel da Silva também tinha sido colocado numa cela solitária por ter pregado as boas novas a companheiros prisioneiros.

Finalmente, a 23 de janeiro de 1964, os três irmãos foram informados de que seriam deportados para Portugal.

ATIVIDADES POLICIAIS

Entretanto, em Lisboa, o irmão Joaquim Martins, que tinha sido uma fiel Testemunha desde 1939, era agora um homem de negócios bem sucedido, dirigindo várias lojas de limpeza a seco. Em fevereiro de 1964 ele teve visitas inesperadas! Agentes da PIDE remexeram tudo na sua casa e nas lojas num esforço de encontrar publicações produzidas pela Sociedade. Eles confiscaram a sua literatura incluindo uma preciosa biblioteca que datava de 1925.

Numa das lojas ele possuía um grande tanque para usar em batismos secretos, e durante os anos muitos irmãos foram aí batizados. Mais tarde o irmão Martins vendeu o seu negócio e tornou-se um pioneiro, morrendo fielmente em 1979.

Durante 1964 várias edições da revista Despertai!, assim como também cartas de todo o mundo, ajudaram cidadãos de destaque em Portugal a saber exatamente o que estava a acontecer no seu próprio país.

Nos Açores o irmão Manuel Leal decidiu que seria bom colocar exemplares da Despertai! nas mãos das autoridades locais. Ele deu exemplares ao governador de distrito, às autoridades policiais, etc. Alguns dias mais tarde a PSP convocou-o para estar presente a um interrogatório. Depois de o interrogarem exaustivamente, a polícia ordenou-lhe que revelasse os nomes e endereços de onde tinha deixado as revistas. Leal recusou, dizendo que ele não daria informações que resultasse em pessoas inocentes serem alvos de perseguição. O subchefe começou a escrever um relatório acerca do interrogatório mas ficou embaraçado quando ele teve de declarar que a razão por que Leal não dava os nomes e endereços era porque então a polícia iria perseguir estas pessoas. Frustrado, ele rasgou a folha de papel e deixou a sala.

O trabalho foi por fim entregue a um secretário com a ajuda do subchefe. Ambos ficaram confusos. Finalmente, quando a declaração ficou completa, o irmão Leal não a assinou porque esta deturpava os fatos. Leal relata: “Quando tentei explicar as nossas crenças e usei o nome de Jeová, o subchefe gritou: ‘Não use esse nome! Se o disser outra vez ordeno que seja encarcerado!’ Eu respondi que tinha de usar o nome para defender a mim próprio, e que de qualquer maneira, este mesmo nome se encontrava no missal católico, que prontamente lhes mostrei, para o desgosto deles. Foi dado um excelente testemunho.”

INTENSIFICA-SE A OPOSIÇÃO DO GOVERNO

As autoridades estavam a endurecer os seus corações. Durante outubro de 1964 um boletim extremamente preconceituoso foi distribuído pelo ministro do interior, dizendo:

“Deve ser rigorosamente entendido que a seita ‘Testemunhas de Jeová’ não é uma seita religiosa, porque os seus objectivos são puramente materiais: extinção dos governos, das autoridades e das igrejas e de cultos existentes de modo a preparar o caminho para a instalação da Teocracia Universal. O uso da Bíblia não é mais do que uma mera técnica de propaganda e defesa perante as autoridades de um movimento com ambiciosos objectivos políticos (o grifo é deles).”

Armados com o apoio deste boletim governamental, a polícia começou a organizar diariamente buscas nas casas dos irmãos por todo o país.

Num esforço para esclarecer a nossa posição e com a ajuda do Departamento de Estado dos Estados Unidos, planejou-se que uma delegação estrangeira de três Testemunhas fosse falar com o Dr. Franco Nogueira, então Ministro dos Negócios Estrangeiros. A delegação estrangeira, composta pelos irmãos Philip Rees, Richard Abrahamson e Domenick Piccone, viajou até Lisboa e a 25 de fevereiro de 1965, explicou a nossa posição de estrita neutralidade. O Dr. Nogueira prometeu investigar a situação, pois ele declarou que não existia uma razão aparente para negar liberdade religiosa às Testemunhas de Jeová. Contudo a única resposta recebida foi um constante aumento da interferência da polícia.

Apesar dos tempos difíceis, a organização estava a crescer. Foi alcançado em abril de 1965 um novo auge de 2.839 publicadores, com quatro circuitos organizados para cuidarem das muitas novas congregações que surgiam.

MÉTODOS DA POLÍCIA

A razão por que muitos consideravam Portugal um estado totalitário pode ser facilmente vista pela estrutura diversificada das suas agências de cumprimento da lei. Existiam a Polícia de Segurança Pública (PSP); a Guarda Nacional Republicana (GNR); a Polícia Militar (PM); a Polícia de Viação e Trânsito (PVT); a Polícia Judiciária (PJ); e a Polícia Internacional e Defesa do Estado (PIDE), que era comumente conhecida como a polícia secreta. Os nossos irmãos receberam tratamento cruel da GNR e da PIDE. O público em geral temia especialmente a PIDE, que dependia muito dum sistema de informador pago. Consta que foi modelada segundo a Gestapo nazista com a ajuda de agentes da Gestapo durante a Segunda Guerra Mundial.

Por causa da neutralidade das Testemunhas, um número de irmãos jovens recebeu tratamento brutal às mãos da PIDE. Luís António de Silva Canilhas, do Laranjeiro, Almada, diz o que lhe aconteceu depois de duas horas de interrogatório a 9 de julho de 1965:

“Tendo fechado todas as janelas e portas, eles começaram a bater-me em todas as partes do meu corpo. Um soco no estômago atirou-me para o chão. Um outro deixou-me com um olho negro. Como eu estava a coxear de uma perna, não podia levantar-me, então eles agarraram-me pelas orelhas e de novo começaram a bater-me. Estes homens não tinham a aparência de humanos, pois tratavam-me como um cão.”

Também era dado tratamento vergonhoso a pessoas mais idosas. Em julho, um superintendente de Lisboa, Manuel Vaz, de 72 anos de idade, foi convocado para interrogatório na sede da PIDE. Durante cinco horas ele foi rudemente insultado e interrogado. “A verdadeira religião é a religião católica”, disse um agente da PIDE para o irmão Vaz. “Ela tem preservado a Bíblia e está a seguir Jesus Cristo e os apóstolos. Não é para si, um homem ignorante, ensinar a Bíblia. É apenas para aqueles que estão autorizados. Mas você gostaria de que a sua religião fosse livre, não gostaria? Isso nunca acontecerá! Não, nunca!”

À medida que o verão de 1965 se aproximava, uns quatrocentos irmãos preparavam-se para a longa viagem, a fim de assistirem à Assembléia “Palavra da Verdade” em Basiléia, Suíça. À última hora, a PIDE decidiu interferir com os planos para o congresso. Apenas um dia antes da data da partida, a polícia disse aos 50 irmãos que tinham recebido autorização para viajar, que a autorização tinha sido cancelada. Para grande desgosto da polícia, um autocarro [ônibus] cheio de irmãos já tinha partido. Um telefonema urgente para a fronteira não teve êxito. O autocarro estava bem dentro da Espanha!

Em novembro de 1965, no Rossio ao Sul do Tejo, três agentes da polícia convergiram para um grupo de 17 irmãos reunidos para o estudo da Sentinela, dissolvendo a reunião e confiscando todas as Bíblias e literatura. Eles revistaram os irmãos e levaram-nos para a esquadra da polícia entre acessos de ridicularização e linguagem difamatória de uma multidão de espectadores curiosos, que agora assumia características de turba.

Naquela noite os irmãos foram informados de que seriam libertos sob a fiança de 2.000 escudos cada um (Cr$ 49.000,00). Apenas sete podiam conseguir esta soma. Então as autoridades policiais soltaram todos com exceção de António Manuel Cordeiro e Tiago Jesus da Silva, que foram considerados os organizadores da reunião. A sua fiança foi estabelecida como 20.000 escudos cada um (Cr$ 490.000,00), uma soma exorbitante para o cidadão médio, cujo salário mensal era apenas de 1.700 escudos (Cr$ 42.000,00). Eles foram mantidos incomunicáveis durante vários dias e depois mantidos na prisão durante três meses até as acusações serem finalmente retiradas.

No mesmo dia em que a polícia dissolveu a reunião no Rossio ao Sul do Tejo, agentes da PIDE na cidade universitária de Coimbra visitaram o Salão do Reino local. Depois de terem ouvido durante uns vinte minutos, eles suspenderam a reunião; depois confiscaram todas as Bíblias e literatura produzidas pela Sociedade. Quando o superintendente perguntou se podiam guardar as suas cópias pessoais da Bíblia, a polícia respondeu: “Não, não permitimos isso. Temos de as levar porque as vossas Bíblias estão sublinhadas, o que significa que essas referências particulares receberam uma interpretação diferente”!

MANOBRANDO OS OPOSITORES

Se a intensidade da atividade da polícia estava a aumentar, também o estava a habilidade dos irmãos em lidar com estas situações delicadas. Isto é ilustrado pela experiência de um publicador de 17 anos de idade, que relata:

“Por causa de problemas inevitáveis cheguei ao Salão 15 minutos mais tarde. Notei imediatamente algo estranho: Um homem estava a andar de um lado para o outro em frente do Salão. Pensei imediatamente que devia ser um agente da PIDE. Eu também comecei a andar de um lado para o outro, mas na direção oposta. Passamos um pelo outro várias vezes. Finalmente, depois de 15 minutos, o homem aproximou-se de mim e segredou: ‘Eu tive a impressão que você era um deles, mas vejo que não é. Está a fazer a mesma coisa que eu, não é verdade? Com confiança respondi: ‘Evidentemente, apenas desculpe-me por ter chegado atrasado.’ Ele respondeu: ‘Não tem problema, se não se importar, vigie este lugar enquanto eu vou jantar. Voltarei em breve!’ Eu respondi: ‘Não se preocupe, eu cuidarei das coisas.’ Depois de ter esperado alguns minutos, entrei no Salão. Quando expliquei aos irmãos o que tinha acontecido, todos saímos rapidamente!”

CRESCIMENTO NA ILHA DA MADEIRA

Os irmãos também estavam a sofrer oposição na ilha da Madeira, mas a obra estava a progredir bem. Durante 1966 um irmão na Madeira desfrutou a experiência, sem igual, de ter um polícia a acompanhá-lo de porta em porta. Ele tinha sido detido enquanto se empenhava no ministério de casa em casa e na esquadra da polícia surgiram dúvidas quanto a se a sua missão pelas casas era puramente bíblica. A polícia decidiu que a melhor maneira de resolver a questão era voltar às casas que ele tinha visitado e averiguar. Assim o irmão partiu, acompanhado pelo polícia. Em cada porta verificava-se o que tinha sido dito e era dado um testemunho adicional. Muitos moradores que não tinham ouvido pela primeira vez ficaram espantados por verem um polícia com o irmão, e desta vez prestaram muita atenção! Embora o polícia quisesse parar depois de um certo tempo, o irmão insistiu que continuassem a verificar todas as casas que ele tinha visitado. No fim o polícia estava bastante cansado e disse que daria certamente um relatório favorável acerca da persistência do nosso irmão e da capacidade de explicar a mensagem bíblica!

SALÕES DO REINO ENCERRADOS

Os Salões do Reino em todo o Portugal eram cada vez mais o alvo das batidas policiais. Estava a perder-se equipamento valioso. Todos os esforços para legalizar a organização não tinham produzido resultados tangíveis. Assim em 1966 chegou a época para uma apreciação realística das nossas circunstâncias. Vários fatores indicavam que a obra do Reino podia ser melhor realizada por se reunirem em pequenos grupos, em casas particulares. Apesar da recusa do governo em nos conceder reconhecimento legal, a nossa existência não podia ser negada. Em número cada vez maior as Testemunhas de Jeová estavam presentes, pregando com sucesso as boas novas.

Embora confiassem inteiramente na orientação do “escravo fiel e discreto”, este foi um tempo difícil para muitos irmãos. Alguns perguntavam a si mesmos como a organização iria avançar. Alguns questionavam como a congregação podia, na verdade, funcionar em pequenos grupos de estudo de livro de cerca de vinte publicadores. Sem dúvida que isto significava muito mais trabalho, uma vez que cada grupo teria de organizar o programa inteiro de cinco reuniões semanais. Muitos irmãos e irmãs tinham designações quer na Reunião de Serviço, quer na Escola do Ministério Teocrático, ou em ambas, cada semana! Contudo, a sua apreensão provou não ter fundamento, pois mais trabalho produziu mais espiritualidade e crescimento.

UM JULGAMENTO SIGNIFICATIVO

Em junho de 1966 realizou-se um julgamento no tribunal plenário de Lisboa. O julgamento que envolvia 49 membros da congregação do Feijó captou a atenção de Portugal inteiro. O caso iniciou-se um ano antes quando a polícia dissolveu uma reunião de umas setenta pessoas na casa de Afonso Mendes e prendeu os superintendentes, Arriaga Cardoso e José Fernandes Lourenço.

Depois de estarem 4 meses e 20 dias presos, os dois irmãos foram libertados sob fiança. Durante o tempo que passaram na prisão, foi-lhes negado todo o material de leitura, incluindo a Bíblia, e foram submetidos a horas de interrogatório. O Estado redigiu uma acusação contra os dois superintendentes e contra os outros 47 membros da congregação. Foi estabelecida a fiança de 2.000 escudos (Cr$ 49.000,00) cada um. O governo redigiu um sumário de culpa de 416 páginas. As Testemunhas foram acusadas de “um crime contra a segurança do Estado”. A acusação acrescentou: “Constituem um movimento político, vindo de países diversos para fins de desobediência, agitação e subversão das massas populares e, designadamente dos mancebos em idade militar.”

Quando chegou o dia do julgamento, irmãos de todas as partes do país apareceram para dar apoio moral. Foi até mesmo fretado um autocarro do Porto, no Norte. As autoridades policiais nunca tinham visto um espetáculo assim, com centenas de Testemunhas afluindo ao tribunal.

Relatando acerca do incidente, O Século de Lisboa, declarou: “Quem ontem chegasse ao Largo da Boa Hora (o largo do tribunal) deparava com um espetáculo surpreendente. . . . Tanto as janelas em redor dos segundo e terceiro pisos, como os corredores, que são muitos, estavam pejados de gente. No pátio o povo comprimia-se. . . . A ordem não foi alterada. Calculou-se em mais de 2.000 as pessoas presentes dentro e fora do edifício. Foi a primeira vez que se viu ali tão elevado número de pessoas. Eram, na maioria, simpatizantes com os réus e com a sua religião.”

O juiz António de Almeida Moura não perdeu tempo em dizer ao primeiro réu, Arriaga Cardoso, que as garantias constitucionais de liberdade de adoração não se aplicam a uma religião tal como a das Testemunhas de Jeová. O Diário Popular de Lisboa, de 24 de junho de 1966, relatou os seus comentários: “Não há liberdade de qualquer um inventar uma religião e fazer o que quiser em nome de Deus ou seja do que for. Tem de subordinar-se ao homem que rege as coisas cá na terra. . . . O principal de que se vêem acusados é a desobediência, de um modo geral, às leis da Nação.”

Quando o irmão Cardoso começou por pegar na sua Bíblia, tendo em mente ler Romanos 13:1, salientando a nossa necessidade de estar em sujeição às “autoridades superiores” na terra, quando as suas leis não colidem com as leis de Deus (Atos 5:29), o juiz interrompeu rapidamente, declarando, conforme relatava o jornal:

“Deixe a Bíblia. Para si é a Bíblia que conta; para o tribunal é a lei. A Bíblia não rege a actividade civil. Não a invoque; cada um a interpreta a seu modo conforme os seus interesses. A Bíblia não é a Constituição do Estado. O tribunal não tem que aceitar como Constituição Política da República Portuguesa a Bíblia interpretada por um senhor americano.”

No segundo dia do julgamento a defesa apresentou evidência considerável para provar que as Testemunhas de Jeová não aconselham nem encorajam alguém a infringir a lei de qualquer governo. Na sessão final a 7 de julho de 1966, o advogado de defesa, Dr. Vasco de Almeida e Silva, desmascarou corajosamente o sumário de culpa do governo como sendo destituído de fatos. Energicamente salientou que nem a mínima prova tinha sido apresentada para provar que as Testemunhas “constituem um movimento político” e encorajam “agitação e subversão das massas populares”.

Ele concluiu a sua corajosa defesa com um apelo poderoso para que o tribunal considerasse respeitosamente o conselho do instrutor da lei do primeiro século, Gamaliel. Citando-o, olhou para os juízes e rogou bondosamente: “Não vos metais com estes homens, mas deixai-os em paz; (porque, se este desígnio ou esta obra for de homens, será derrubada; mas se for de Deus, não podereis derrubá-los;) senão podereis talvez ser realmente achados como lutadores contra Deus.” — Atos 5:38, 39.

O procurador da república não apresentou uma única testemunha durante o inteiro julgamento de três dias, nem tentou reinterrogar qualquer dos réus ou testemunhas de defesa. Na verdade, ele apenas falou uma vez durante o julgamento, e então na conclusão, as suas únicas palavras foram: “Peço justiça.”

Dois dias mais tarde o Tribunal Plenário condenou todas as 49 Testemunhas a penas de prisão que variavam entre 45 dias e cinco meses e meio. Os advogados portugueses chamaram ao julgamento de “um simulacro”, “uma impostura”, “um erro judiciário”. Embora a decisão tivesse sido imediatamente apelada para o Supremo Tribunal, parecia mais claro que nunca que a batalha pela verdadeira adoração estava à frente.

A NECESSIDADE DE CAUTELA

Assim que o julgamento terminou chegou o tempo de partir para a França a fim de assistir à Assembléia de Distrito “Filhos da Liberdade de Deus”. A animosidade das autoridades contra as Testemunhas mais uma vez veio à superfície. Nesta altura cerca de cento e cinqüenta irmãos viram negado o seu pedido de passaporte coletivo, precisamente quando se preparavam para fazer a viagem.

Uma experiência interessante relacionada com o congresso de 1966 em França mostra como a proteção por vezes vem de maneiras invulgares. O superintendente de filial, Paul Hundertmark, tinha escrito um memorando à filial de Paris, explicando os seus preparativos de viagem por avião. Ele tencionava retirar do país alguns documentos importantes, levando-os consigo. Uma vez que o endereço da filial era secreto, ele usou o endereço de Manuel Almeida como remetente. Pouco tempo depois, a PIDE fez uma busca na casa de Manuel e procurou lá literatura, sem sucesso. O inspetor da polícia ameaçou Manuel com a perda do seu emprego, a menos que ele revelasse onde estava escondida a literatura. Para apoiar a ameaça pediu o endereço do patrão e escreveu-o num pedaço de papel que tinha na mão. No decurso da busca o inspetor deixou o papel em cima da mesa. Mais tarde, quando saiu da casa, esqueceu-se da anotação. Manuel retirou-a rapidamente e viu, no verso, uma mensagem estranha, que dizia simplesmente: “Correspondência. L. Pontes, Paris.” Isto nada significava para ele.

Uns dias mais tarde, o irmão Hundertmark visitou-o e o Manuel mostrou-lhe o papel. Ele percebeu imediatamente o que isso significava! A PIDE tinha interceptado o seu memorando anônimo para o superintendente da filial de Paris, L. Jontes (eles tinham escrito mal o nome), e obviamente eles sabiam todos os seus planos de viagem para Paris. Escusado será dizer, ele cancelou a sua viagem para o congresso e tanto o superintendente da filial como os documentos confidenciais estavam seguros uma vez mais.

O jornal de Lisboa, Diário da Manhã, de 14 de julho de 1966, publicou uma notícia de primeira página que verdadeiramente alertou os irmãos e lhes ensinou uma lição valiosa. Sem se saber como, uma carta confidencial dando instruções sobre a viagem ao congresso de distrito em França, caiu nas mãos das autoridades, sendo o seu inteiro conteúdo publicado no jornal. Agora os irmãos teriam de dar mais atenção ao conselho de Jesus, “mostrai-vos cautelosos como as serpentes, contudo, inocentes como as pombas”. (Mat. 10:16) Cerca de quatrocentos e trinta irmãos, contudo, conseguiram assistir ao congresso de distrito, e ainda recordam os primeiros dramas bíblicos, tais como o de José no Egito e a sua firme rejeição de sedução pela esposa de Potifar.

O valor destes dramas oportunos é demonstrado pela experiência de um irmão em Angola. Trabalhando como motorista de caminhão numa grande plantação, foi muitas vezes ridicularizado por recusar comer refeições preparadas com sangue e não ter prazer na companhia de prostitutas. Um dia depois de um jantar especial, com os trabalhadores presentes, ele deu um belo testemunho, expondo as artes mágicas como sendo contra a vontade de Deus. Isto irritou grandemente um espírita, que, junto com outros trabalhadores, decidiu pôr à prova a resistência do irmão a oportunidades sexuais. Depois de ele ter saído para trabalhar de noite, foi contratada uma prostituta para o seduzir. Ao voltar para o seu alojamento, ficou atônito ao encontrar uma mulher na sua cama. Quando ele lhe ordenou que saísse do quarto, houve um alarido de gargalhadas no quarto contíguo. Mas o truque deles tinha falhado.

A VERDADE EXPANDE-SE SOB PERSEGUIÇÃO

Em Angola, porém, a principal prova continuou a ser a perseguição violenta. Na colônia penal perto de Serpa Pinto, o irmão Mancoca enfrentou repetidas ofertas para assinar papéis, renunciando à sua fé. A pouca literatura que ele conseguiu obter foi novamente confiscada, mas o administrador do campo presenteou-o com duas ofertas para ler — livros escritos pelos opositores das Testemunhas. Recorda Mancoca: “Depois de me darem estes livros, encorajavam-me continuamente a seguir o exemplo destas pessoas que escreviam contra as Testemunhas. Foi-me prometida plena liberdade se cooperasse com as autoridades. Apesar de estar para ser liberto depois de cumprir uma pena de cinco anos, recusaram-se a libertar-me uma vez que eu não cooperava como eles desejavam.”

Como conseqüência, Mancoca foi transferido em 1966 para o isolado campo de trabalho de São Nicolau no distrito de Moçâmedes. Ele estremeceu quando encarou com o seu novo administrador do campo; não era outro senão o cabo que o tinha espancado quase até à morte em Luanda, em 1961, na primeira vez em que ele foi detido. Disseram a Mancoca que iria aprender em muito pouco tempo quem tinha razão, as Testemunhas ou o Estado. Recordando esses dias, Mancoca diz: “Também, aqui, apesar de constantes interrogatórios para me coagir a mudar de opinião, eu não cruzei simplesmente os braços à espera da liberdade. Sabia que a inatividade é sinônimo de morte. Eu ainda não estava morto, por isso continuaria a usar o meu fôlego de vida para louvar a Jeová.”

Mancoca procurava oportunidades para dar testemunho informal aos prisioneiros, usando de grande cautela. O ministério deste irmão fiel foi ricamente abençoado, uma vez que se formou um grupo de 12 pessoas interessadas. Por vezes alguns destes, os prisioneiros mais dignos de confiança, foram enviados em serviços a Moçâmedes e assim conseguiram trazer para o campo revistas preciosas, escondidas nos seus sapatos.

Os irmãos prosseguiram com a obra em Angola, sob as maiores dificuldades, com uma vigilância rigorosa por parte da polícia. Em 1967, em Moçâmedes, o irmão João Pedro Ginga e António Sequeira iam a andar na rua, tratando de assuntos da sua vida cotidiana, quando a polícia apareceu subitamente e deteve-os. Foram entregues a uma junta administrativa e condenados, sem julgamento, a dois anos de trabalhos forçados. Estes irmãos tinham ambos, já antes, cumprido penas de três anos de prisão.

Em resultado dos esforços zelosos dos irmãos em expandir a mensagem do Reino, grupos de prisioneiros em todos os campos de trabalhos forçados aprenderam a verdade. Os prisioneiros escreviam para Lisboa pedindo ajuda. Citamos parte de uma de tais cartas recebidas de Moçâmedes: “Temos pedido a Jeová que envie um irmão qualificado para nos ajudar. Muitos de nós estamos prontos para simbolizar a nossa dedicação. Apesar da oposição ser grande, temos sido mais do que protegidos. Alguma literatura foi recebida aqui no porto, com a ajuda de um polícia amigável. O poder de Deus para nos amparar é verdadeiramente grande.”

UMA ESTRATÉGIA DIFERENTE

Os inimigos da adoração pura nunca se cansam nas suas tentativas de difamar ou enlaçar os servos de Jeová. As autoridades portuguesas inventaram um plano audacioso, durante outubro de 1966, para instigar as Testemunhas de Jeová a apoiar uma manifestação em massa contra o governo. Logo no princípio do mês vários superintendentes em Lisboa receberam a seguinte nota, assinada em nome de um superintendente local:

“Irmão Jeová:

“Por causa da decisão das congregações dos Estados Unidos em apoiar a Nossa Grande Campanha de protesto contra o governo, pede-se que seja dada toda a publicidade possível a uma concentração de todas as Testemunhas de Jeová para aparecerem numa MANIFESTAÇÃO SILENCIOSA de protesto no Ministério do Interior, na Praça do Comércio (uma praça de Lisboa), no dia 15 do mês corrente, à uma hora da tarde (sábado).

Pelo nosso Deus Jeová, Silvério Silva.”

A filial enviou imediatamente uma nota, datada de 12 de outubro de 1966, às congregações de Lisboa, informando-as desta armadilha que foi montada.

Escusado será dizer que estes lobos em pele de ovelha viram o seu plano completamente frustrado. Nem uma só alma se apresentou para a manifestação. Dois irmãos foram enviados para observar a situação e viram policiais de choque e forças de intervenção militar preparados com canhões de água e tinta azul, à espera de se lançarem sobre eventuais manifestantes!

AUMENTAM AS DIFICULDADES NOS AÇORES

Entretanto, nos Açores o pioneiro Manuel Leal estava a falar com o seu vizinho em 12 de outubro de 1966, quando um agente da PIDE o deteve. Durante o percurso de automóvel até à delegacia da polícia, o agente pediu várias vezes a Manuel os nomes e moradas de indivíduos a quem ele tinha testemunhado. Para a maior consternação do polícia secreto, o pioneiro respondeu: “O seu pai!” Leal tinha de fato falado ao pai do agente várias vezes. Leal relata: “Bem, quando eu disse o nome do pai dele, ficou tão transtornado que me disse: ‘Nunca mencione o nome do meu pai outra vez!’ Durante o resto da viagem, não me fez mais perguntas.”

Na delegacia da polícia os agentes da PIDE falaram a Leal, usando a linguagem mais abusiva. Ordenaram-lhe que saísse da ilha Terceira. Qual foi a reação dele? “Expliquei-lhe que vivia nesta ilha há mais de dezesseis anos, que os meus filhos nasceram aqui e que não estava interessado em mudar-me. Ameaçaram-me com 80 dias de prisão se eu fosse encontrado a pregar outra vez. Disseram-me que para ficar na ilha teria de arranjar um cidadão local de boa posição que fosse meu fiador e assumisse a responsabilidade pela minha residência. Com isto ordenaram-me que voltasse para casa. Uma vez que tinham levado todos os meus pertences, incluindo o meu dinheiro, pedi-lhes pelo menos o dinheiro necessário para fazer uma viagem de 19 km para casa. O chefe da polícia recusou, ordenando-me que fizesse o caminho a pé.”

O irmão Leal conseguiu arranjar um cidadão influente que se ofereceu para ser seu fiador e assumir a responsabilidade pela sua residência apesar das ameaças da polícia. Agora com a aprovação implícita da polícia, o clero começou a incitar jovens do Grupo da Ação Católica para hostilizar as Testemunhas. Várias vezes em 1966 turbas apedrejaram os irmãos. Soltaram cães raivosos contra eles. Algumas Testemunhas eram empurradas e davam-lhes encontrões, enquanto os perseguidores iam no encalço de outros com enxadas erguidas como armas! Durante estes tempos difíceis os nossos irmãos não se sentiam tristes e pessimistas. Qual era a sua atitude? Leal relata: “O nosso espírito era o de 2 Coríntios 6:10, ‘como pesarosos, mas sempre alegres, como pobres, mas enriquecendo a muitos, como não tendo nada, e ainda assim possuindo todas as coisas’.”

O SUPREMO TRIBUNAL APRESENTA A SUA DECISÃO

Em 22 de fevereiro de 1967, o Supremo Tribunal expressou a sua decisão perante o apelo que nós tínhamos apresentado no caso do Feijó. Confirmou a decisão do Tribunal Plenário ao sentenciar 49 membros da congregação a penas de prisão. Todos os 49 tiveram os seus direitos políticos suspensos por um período de quatro anos. Dez pessoas interessadas, Testemunhas não batizadas, receberam penas suspensas. As penas de prisão variavam entre o mínimo dum mês e meio e cinco meses e meio. O tribunal também multou cada Testemunha numa quantia variando entre 1.350 escudos (Cr$ 32.900,00) e 5.000 escudos (Cr$ 122.500,00) e requerendo a cada um 1.000 escudos (Cr$ 24.500,00) de custas judiciais.

Por fim, um total de 24 Testemunhas foram presas, uma vez que um certo número de maridos não estavam na verdade e para evitar que as suas esposas fossem presas, quiseram pagar a multa necessária. A Testemunha mais nova tinha 20 anos de idade e a mais velha, 70. Em alguns casos tanto o marido como a esposa foram presos, criando assim um problema para os seus filhos. Vinte crianças, entre 15 meses e 16 anos de idade, foram separadas de seus pais cristãos. Outros irmãos e irmãs, contudo, manifestaram amor ao se oferecerem para cuidar destas crianças. Ora, foram oferecidos mais lares do que o necessário! Contribuições generosas também foram recebidas para cuidar destas crianças. Só dos Estados Unidos veio o equivalente a 130.000 escudos (Cr$ 3.220.000,00). Que maravilhosa evidência de cuidado e preocupação amorosa!

Em 18 de maio de 1967, as Testemunhas condenadas apresentaram-se no Tribunal Plenário para serem presas. As irmãs foram designadas para a prisão das Mónicas e os irmãos para a prisão do Limoeiro, ambas situadas a cerca de vinte minutos a pé desde o Tribunal. Seguiu-se um espetáculo verdadeiramente sem precedentes. Disseram aos irmãos para irem a pé até à prisão sem escolta e entregar-se. Imaginem! Aqui estavam estes “cidadãos perigosos”, maridos e esposas — condenados à prisão por serem um risco para “a segurança do Estado” — com plena liberdade para ir a pé para a prisão! O advogado que defendeu os nossos irmãos, Dr. Vasco de Almeida e Silva, despediu-se pessoalmente de cada um. Ele fez a seguinte observação: “Não houve gritos nem berrarias. Nenhumas explosões emocionais por parte das irmãs. Estavam admiravelmente calmas e dignas e comportaram-se como pensava ser próprio de verdadeiras Testemunhas do Deus Altíssimo. Pode ter a certeza de uma coisa: Haverá muito testemunho dado nessas prisões.” Nenhumas palavras podiam ser mais verdadeiras.

CONDUTA DÁ TESTEMUNHO

A diretora da prisão escolheu a pioneira especial Alda Vidal Antunes, de 55 anos, para um tratamento especial. Quando a diretora lhe ordenou que bordasse a toalha para o altar da igreja católica, a irmã Antunes delicadamente fez-lhe saber a sua razão para recusar, mas mencionou que aceitaria de bom grado outro trabalho. Por isto ela foi fechada numa capela durante várias horas; finalmente, foi transferida para a prisão de Tires, supervisionada por freiras católicas.

Quando a Testemunha chegou, a madre superiora tentou forçá-la a assistir à missa, mas ela recusou resolutamente. As freiras puseram-na então na solitária, em uma cela fria de cimento por mais de um mês. A conduta cristã da nossa irmã influenciou gradualmente outras prisioneiras a comportarem-se melhor, com muito menos gritos e pancadas nas portas da prisão. Em relação às Testemunhas de Jeová a madre superiora finalmente admitiu: “Sabe, esta gente acredita realmente na Bíblia. Toda a sua personalidade parece ser diferente. Quando olho para as pessoas da minha religião, vejo um contraste tão grande.”

Enquanto Afonso Costa Mendes, um irmão com quatro filhos, estava na prisão, o seu encarregado, que detestava grandemente as Testemunhas, viu uma oportunidade de ele ser despedido, por apresentar um relatório desfavorável sobre o seu trabalho. O irmão Mendes tinha quase trinta anos de serviço com os benefícios de reforma [aposentadoria] em jogo, mas ele sabia que o assunto tinha de ser deixado nas mãos de Jeová. As autoridades da prisão designaram-no para trabalhar com o assistente social que observava a boa conduta do irmão. Então, um dia perto do fim da sua pena, o assistente social chamou-o ao seu gabinete. Que surpresa ao encarar com o seu chefe do pessoal da fábrica, a quem tinham dito então que o nosso irmão era um excelente trabalhador, que merecia a máxima confiança de qualquer patrão! O assistente social recomendou que ele fosse readmitido, com todas as regalias, ao seu emprego anterior. Isto foi feito.

HOSTILIDADES CONTINUAM

Enquanto os irmãos estavam a cumprir as suas penas, as detenções continuavam em todo o Portugal e Angola. A 28 de fevereiro de 1967, em Luanda, Angola, um grupo de sete irmãos, enquanto se reunia numa casa particular, foi rodeado por sete agentes da PSP com espingardas e metralhadoras. Confiscaram toda a literatura, incluindo Bíblias e obrigaram o grupo a marchar até à esquadra da polícia para interrogatórios que duraram até às duas horas da manhã. O chefe da polícia deu o incidente por concluído ao dizer que tinha um bom conselho a dar ao grupo: “O meu aviso é que parem com esse assunto de estudar a Bíblia e usem o vosso tempo mais sensatamente, como por exemplo dedicando-se a seduzir raparigas. Se realmente querem saber algo acerca da Bíblia, então vão ter com o padre que sabe do que está a falar.”

Durante este tempo William Roberts e a sua esposa, Dorothy, tinham estado a fazer trabalho de missionário desde 1959 no Norte de Portugal. A polícia finalmente localizou-o na cidade mais católica do país, Braga, durante uma visita de circuito em abril de 1967. As autoridades confiscaram a sua autorização de residência e pouco depois este zeloso casal de evangelizadores deixou Portugal para servir na Irlanda.

RECEPÇÕES NA FRONTEIRA

A Assembléia de Distrito “Fazer Discípulos” para Portugal foi realizada no verão de 1967 em Marselha, França. No seu regresso a Portugal em nove autocarros [ônibus] fretados, os irmãos depararam com uma inesperada comissão especial de recepção. Agentes da PIDE junto com oficiais da alfândega confiscaram cerca de quarenta caixas de literatura nos primeiros seis autocarros que chegaram à fronteira perto de Elvas. Quando turistas perguntaram o que estava a ser confiscado nas dúzias de caixas empilhadas, mal podiam acreditar no que ouviam quando se lhes disse: “Bíblias e literatura bíblica.”

Um irmão sagaz, que falava com um turista que ia a caminho de Espanha, observou: “E isto não é tudo! Vêm para cá mais três autocarros com igual carga.” Esta pessoa absolutamente estranha sugeriu então: “Deixa-me sair daqui o mais depressa possível. Talvez possa fazer parar os outros autocarros e dizer-lhes o que está a acontecer.” Fiel à sua palavra, assim fez. A preciosa literatura foi armazenada temporariamente num quarto alugado em Badajoz, Espanha. Há evidência de que alguém denunciou às autoridades a literatura que os irmãos traziam de França.

Isabel Vargas, de Lisboa, uma irmã bem humorada e rechonchuda, diz-nos como, noutra ocasião, conseguiu guardar alguma da sua literatura: “A polícia entrou no nosso autocarro e disse-nos que lhes déssemos toda a literatura bíblica ou eles a tirariam de qualquer modo. Eles amontoaram-na no assento bem na minha frente. A minha Bíblia pessoal, que continha anotações feitas ao longo dos anos, estava em cima. Não pude mesmo resistir; quando eles voltaram a cabeça, sustive a respiração e rapidamente introduzi-a no decote do vestido. Seguiram-se vários outros livros. Passou despercebido eu ter ficado de repente mais gorda!”

Uma ação severa foi tomada contra a irmã Emília Afonso Gonçalves de Lisboa. Embora nascesse em Espanha e se casasse com um espanhol, o pai dela era português. Vivia em Lisboa há 40 anos. Então esta humilde viúva de 52 anos recebeu a notificação de sair do país dentro de 48 horas. O cônsul espanhol em Lisboa não conseguiu prolongar este curto período e mostrou-lhe a notificação oficial da PIDE que declarava explicitamente que ela estava a ser expulsa por pertencer à “seita das Testemunhas de Jeová”. A 16 de setembro de 1967, partiu para Espanha.

ATITUDE CORAJOSA

O povo de Jeová não tem nada a recear quando é chamado perante as autoridades. Em vez de se encolher e tremer, manifesta a atitude mencionada em Hebreus 13:6: “Para que tenhamos boa coragem e digamos: ‘Jeová é o meu ajudador; não terei medo. Que me pode fazer o homem?”’ Isto é ilustrado pela experiência do irmão Joaquim Freitas. Ele tinha sido católico e tinha um negócio onde empregava muitas pessoas. Quando recebeu uma intimação para aparecer na sede da PIDE tornou-se óbvio que as autoridades não sabiam como começar. O que aconteceu é relatado melhor pelo irmão Freitas:

“Eles foram extremamente educados e disseram que lamentavam muito terem de me chamar uma vez que o meu tempo era valioso. Visto que pareciam embaraçados em dizer por que queriam falar comigo, eu disse: ‘Sim, o meu tempo é valioso assim como é o vosso Os senhores devem certamente querer saber alguma coisa. Talvez queiram saber se sou uma das Testemunhas de Jeová. Bem, sou! Ora, há mais alguma coisa que gostariam de saber?’

“Esta aproximação franca quebrou o gelo, por assim dizer, e eles disseram-me quão má era a organização e porque eu a devia deixar e tornar-me de novo um bom católico. Então foi-me concedida permissão para falar. Disse-lhes que tinha sido criado como católico, e até tinha um amigo que era padre, a quem já tinha visto embriagado. Eu tinha sido imoral, como tantos outros, mas desde que começara a estudar a Bíblia com as Testemunhas, tinha limpo a minha vida e vivia agora como é próprio dum marido cristão — com uma só esposa. Assim: ‘Meus senhores, tenho uma pergunta a fazer: devo voltar a ser um católico ou continuar Testemunha de Jeová?’” Escusado será dizer que o mandaram embora imediatamente.

PROGRESSO EM CABO VERDE

Desde a expulsão do missionário em 1963, as coisas avançaram lentamente em Cabo Verde. Mas o ano de 1966 trouxe um visitante especial: um irmão que vivia nos Estados Unidos voltou as ilhas onde nascera, colocando muita literatura e dando testemunho do Reino nas ilhas de São Vicente e de Santo Antão.

Na ilha de Santiago o homem interessado, isolado, que tinha aprendido a verdade por ele próprio em 1958 ao ler o livro “Seja Deus Verdadeiro”, que tinha encontrado na casa de um fotógrafo amigo, continuava a corresponder-se com a filial de Lisboa. Em 1965 ele reuniu oito pessoas para celebrar a Comemoração. Ao escrever para a filial acerca desta feliz ocasião, declarava:

“Lamento informá-los que só seis dos oito presentes participaram dos emblemas. Isto aconteceu, sem dúvida, porque os outros dois são ainda imaturos.” Era evidente que eles precisavam de ajuda. Que alegria tiveram ao receber a primeira visita de um superintendente viajante em 1968! Na época da Comemoração três publicadores relatavam e reuniram-se um total de 31 pessoas. Desta vez ninguém participou dos emblemas.

ESCAPADELAS POR UM TRIZ

Durante o verão de 1968 estava para haver uma assembléia de distrito em França. Isto requereu vários meses de preparação, uma vez que todo o programa incluindo dramas tinha de ser traduzido, ensaiado e gravado. A família Ruas teve uma experiência a este respeito. Celeste diz o que aconteceu:

“Finalmente, acabamos por fazer a gravação do drama da filha de Jefté e esta foi deixada na nossa casa para o próximo ensaio. De manhã, às sete horas, tocou a campainha. Quando perguntamos: ‘Quem é?’ os visitantes identificaram-se como agentes da PIDE. Disse-lhes que esperassem um minuto até que me vestisse. Tendo já sido visitados várias vezes pela polícia, tínhamos pouca literatura em casa, mas lembrei-me imediatamente da gravação. Levei-a à pressa para a cozinha, levantei a parte de cima do fogão e meti a gravação por baixo, colocando a parte de cima no lugar.

“A polícia entrou e começou a busca à casa, de alto a baixo, chegando finalmente à cozinha. Estavam precisamente a acabar a busca quando a nossa filha Dina lá entrou, dizendo: ‘Mãe, vou fazer café’, e lá foi acender o fogão. O que é que eu podia fazer? Se eu dissesse alguma coisa, a gravação seria descoberta e apreendida. Eu já imaginava horas e horas de preparação a desfazerem-se em fumo! Felizmente a nossa filha acendeu o bico do lado oposto! O café foi feito e a polícia nunca encontrou a gravação.”

Alguns dias mais tarde os agentes da PIDE por pouco não apreenderam documentos de viagem para 100 delegados ao congresso. O irmão Diamantino Fernandes diz-nos o que aconteceu:

“Junto com a minha esposa e o superintendente de distrito fomos à casa do irmão Almeida para entregar a documentação completa e fundos para fretar dois autocarros. Tínhamos acabado de entrar no edifício onde ele era porteiro e de colocar os envelopes na mesa de entrada quando três agentes da PIDE subitamente apareceram para passar uma busca à casa do irmão Almeida. Dois agentes desceram com o irmão Almeida enquanto o terceiro começou a examinar os envelopes em cima da mesa. Sustivemos a respiração e oramos a Jeová para cegar os olhos dele. Sem uma palavra, ele voltou a pôr os envelopes em cima da mesa e desceu as escadas para se juntar aos colegas. Assim que ele ficou fora da vista, apanhamos os preciosos documentos e saímos. Mais uma vez a proteção de Jeová foi assim manifesta.”

As instruções de Jesus aos seus discípulos em Mateus 10:17: “Guardai-vos dos homens; pois eles vos entregarão”, mostram ser um conselho sábio, como se vê na seguinte experiência:

“Planejamos um ‘piquenique’ para a congregação num feriado, o dia das Mães, uma vez que seria uma boa ocasião para justificar um ajuntamento na mata de Monsanto. Nós colocamos irmãos de vigia em pontos estratégicos e os irmãos trouxeram os cestos de comida, vinho, uma bola e um giradiscos. Era perto do meio-dia. Tinha-se feito o discurso público e estávamos nos últimos parágrafos do estudo da Sentinela, quando os nossos vigias deram o sinal de perigo. Toda a gente se pôs em ação e dentro de alguns minutos foram abertos os cestos de comida, foi servido o vinho, o giradiscos tocava e os rapazes jogavam bola. Apareceu então um polícia. Depois de avaliar a situação, perguntou: ‘O que se passa aqui? Isto é alguma espécie de reunião religiosa?’ O irmão indicado para ser o porta-voz nestas ocasiões replicou: ‘Pode ver por si mesmo o que se passa aqui. Estamos num piquenique.’ Sem uma palavra o polícia foi-se embora.

“Como medida de precaução foi feito um anúncio para reunir toda a literatura e as Bíblias e pô-las num dos carros bem lá ao fundo da estrada. Assim que isto foi feito, o polícia voltou, acompanhado por 15 soldados da GNR com espingardas na mão. Minuciosamente procuraram nos cestos de comida mas não puderam encontrar nem uma única peça de literatura ou mesmo uma Bíblia. Com um sorriso amarelo, o sargento e os seus homens foram-se embora de mãos vazias, dizendo: ‘Está bem, desta vez vocês enganaram-nos, mas nós sabemos o que estavam a fazer!”

TEMPOS DE MUDANÇA

No princípio de setembro de 1968 o Presidente do Conselho, Salazar, teve um derrame cerebral. Foi formado um novo governo com o Professor Marcello Caetano empossado como Presidente do Conselho. Salazar ficou sem saber da mudança até à sua morte em 1970. A transição do poder foi consideravelmente mais pacífica do que muitos esperavam.

No princípio de 1969 observamos um abrandamento nítido na interferência da polícia. Quando a polícia prendia os irmãos, tratava-os com uma melhoria acentuada, com delicadeza e cortesia. Este fato foi trazido à atenção dum irmão por um agente da PIDE, que disse: “Não nota quão amavelmente vocês estão a ser tratados? Estão a ser maltratados de algum modo? Você não está sentado numa cadeira confortável?” Era, na verdade, encorajador ver um tratamento mais humano. Recebiam-se até mesmo informações que indicavam proteção da polícia, em vez de maus tratos.

Um desses relatos conta-nos o que aconteceu numa reunião em Lisboa, quando dois polícias tocaram à porta por volta das dez horas da noite. Quando a irmã respondeu, eles identificaram-se, dizendo que tinham vindo confirmar uma denúncia acerca de uma reunião que se estava a realizar. A irmã respondeu discretamente: “Bem, eu entendo perfeitamente que os senhores estão a cumprir o seu dever, mas o meu marido deu-me ordens rigorosas de nunca deixar entrar homens estranhos na sua ausência. Por isso, espero que os senhores compreendam a minha situação. Se os senhores quiserem, eu posso ir à esquadra [delegacia] amanhã logo de manhã para responder a quaisquer perguntas.” Os polícias aceitaram a proposta. Na manhã seguinte ela foi amavelmente cumprimentada pelos polícias. Desenrolou-se a seguinte conversa:

“Bom dia. Como decorreu a sua reunião a noite passada?”

“Muito bem, obrigada”, respondeu a irmã.

“Quantos estavam presentes?”

“Oh! realmente não sei, cerca de vinte e cinco.”

“Não, havia mais — 32 para ser exato, porque nós os contamos à medida que eles saíam do prédio”, disse o policial. Ele acrescentou: “Sabe, a senhora tem vizinhos bem maus naquele prédio. Estão sempre a arranjar complicações e queixas por tudo e por nada. A nossa visita na noite passada foi apenas uma visita de rotina por causa de uma queixa. Mas já sabemos há algum tempo que se fazem lá reuniões. Sugerimos que diga à sua gente que sejam o mais silenciosos possível ao entrarem no prédio, assim ninguém terá razão de queixa. Também seria bom usarem outras casas, de vez em quando.”

Outra alteração, sem precedentes, nos acontecimentos ocorreu em Vila Nova de Gaia, no outro lado do rio, em relação ao Porto. Duas irmãs estavam a fazer uma das suas últimas visitas antes do almoço quando uma dona-de-casa aceitou o livro Verdade. Dizendo às irmãs que esperassem até trazer o dinheiro, ela telefonou rapidamente à polícia. Quando a polícia chegou, trouxe a notícia inesperada, que também ela teria de ir à esquadra. Apesar dos seus protestos, uma vez que estava a fazer o almoço para o marido, que estava a chegar, a polícia insistiu.

Na esquadra foi feito um relatório completo do incidente tornando-se a dona-de-casa cada vez mais ansiosa. A polícia avisou-a de que isto era apenas o começo, porque se o caso fosse a tribunal, bem podia esperar perder muito mais do seu tempo. Muito perturbada, a senhora respondeu: “Caramba! A única razão porque telefonei foi porque o nosso padre disse que a melhor maneira de lidar com as Testemunhas de Jeová era chamar a polícia imediatamente. Se eu soubesse no que me ia meter, nunca tinha feito tal coisa!” Por sugestão da polícia ela retirou a acusação de muito bom grado.

PARIS — CONGRESSO DE 1969

O grande acontecimento de 1969 foi a Assembléia Internacional “Paz na Terra”, em Paris, França, de 5 a 10 de agosto, no Estádio Colombes. Todos estavam emocionados ao verem um total de 2.731 presentes na sessão portuguesa, que era mais que o triplo da assistência em Toulouse apenas um ano antes. Estávamos particularmente felizes por termos presentes representantes da Madeira, Açores, ilhas de Cabo Verde e da longínqua Angola. Para muitos foi o seu primeiro congresso.

O superintendente da filial teve uma experiência interessante neste congresso. Por razões de segurança as sessões portuguesas eram isoladas. Só podiam entrar os que tivessem um passe especial. Quando ele chegou com o irmão Knorr, que ia proferir um discurso, o vigia, não os reconhecendo, não os deixou entrar. Bem, pelo menos a segurança funcionava!

A IGREJA INTROMETE-SE NA POLÍTICA

Era evidente que certas facções da Igreja Católica estavam descontentes. A 27 de setembro de 1970, o Presidente do Conselho, Marcello Caetano, censurou publicamente o clero agitado, numa emissão de rádio e de TV com cobertura nacional. Tal como foi noticiado no jornal de Lisboa O Século, de 28 de setembro de 1970, ele declarou:

“Certas facções da Igreja Católica manifestam tendências que só servem para perturbar as autoridades civis. . . . Aqueles que governam não podem ficar indiferentes ao facto de que certos membros do clero, pretensiosamente, tiram partido do seu carácter sacerdotal e do respeito, que tradicionalmente inspiram, bem como de liberdade de adoração e de doutrinação, de que desfrutam, para empreenderem uma acção política que é anti-social e anti-patriótica.”

PROPOSTA DE LEI DA “LIBERDADE RELIGIOSA”

Especialmente interessante para as Testemunhas de Jeová era a intenção do governo de submeter à Câmara Corporativa, a 6 de outubro de 1970, uma proposta de lei intitulada “Liberdade Religiosa”. A lei iria ampliar o âmbito da liberdade religiosa. Qual foi a reação a esta proposta de lei? A Igreja Católica foi notoriamente crítica. Preocupados com a perda da sua posição favorecida, os bispos católicos declararam-se abertamente contra ela.

Particularmente desconcertante para a Igreja Católica foi o Artigo IV da proposta de lei, que reza: “(1) O Estado não tem religião própria e as suas relações com as respectivas organizações que representam diferentes grupos religiosos estão baseadas no princípio da separação. (2) As confissões religiosas têm o direito a tratamento igual.”

OS MODOS TOTALITÁRIOS RESISTEM ATÉ AO FIM

A mentalidade do estado totalitário, contudo, mantinha-se como se pode ver no seguinte despacho rotulado “Confidencial”, acerca das Testemunhas de Jeová e assinado pelo Ministro do Interior:

“(1) Por meio da Circular N.º S.I. — 981/70, Prec. 21088 da 1.a Sec./2.ª Divisão do Comando Geral, datada de 21 de outubro de 1970, foram compiladas instruções quanto à ilegalidade da seita em consideração e especialmente acerca da sua propaganda.

“(2) A imprensa publicou recentemente os termos da proposta de lei acerca da ‘Liberdade Religiosa’, que pela sua própria natureza podia levar a uma interpretação diferente quanto ao seu objectivo, especialmente por alguns mancebos que pretendem isentar-se do serviço militar.

“(3) Em vista do que está declarado na Cláusula 2, estes factos foram apresentados a Sua Excelência o Ministro do Interior que julgou bem formular o seguinte despacho:

“‘A proposta de lei da Liberdade Religiosa não altera de maneira nenhuma as condições impostas as Testemunhas de Jeová por razões de alto interesse nacional, e as suas actividades devem continuar a ser impedidas.’”

A PERSEGUIÇÃO CONTINUA EM ANGOLA

Entretanto, em Angola, tomou forma uma nova onda de perseguição. A 16 de março de 1970, em Nova Lisboa, sete pessoas interessadas, por estudarem a Bíblia, foram presas, junto com publicações da Sociedade. Todas as sete receberam sentenças de dois a cinco anos de prisão. Uma carta de um dos sete descreve como foram tratados: “A 10 de junho fomos transferidos para o distrito de Huila, Sá da Bandeira. Aqui ficamos por quatro dias, dormindo em tábuas sem cobertores e encerrados numa cela sem luz. A única comida que recebíamos era uma colher de sopa às quatro horas da tarde.”

Havia boa razão para crer que as autoridades coloniais angolanas pensavam que era tempo de “parar e destruir” a obra das Testemunhas. Finalmente tinha sido garantida liberdade ao irmão Mancoca em agosto de 1970, depois de cumprir mais de nove anos em campos de trabalho forçado; mas em abril de 1971, voltou para a prisão junto com mais outras trinta testemunhas fiéis.

A PERSEGUIÇÃO ESTIMULA O PROGRESSO

Apesar de uma nova ofensiva contra as Testemunhas de Jeová, em Angola, a mensagem do Reino de Deus continuou a atingir os corações daqueles corretamente dispostos para a vida eterna. Dentre os mais de cinco milhões de habitantes deste vasto território — maior do que a França, Alemanha e Itália juntas — centenas de pessoas vinham para aprender a verdade. Em 1971 houve um auge de 487 publicadores, um aumento de 88 por cento sobre a média do ano anterior e 1.311 assistiram à Comemoração.

Em 1961, logo no início das dificuldades, havia cerca de mil publicadores em Portugal; 10 anos mais tarde o maior auge de sempre era de 9.086 publicadores! A celebração da Comemoração no mesmo ano teve uma assistência máxima de 20.824 pessoas!

VENTOS DE MUDANÇA

A 15 de junho de 1971, a Assembléia Nacional, composta de 120 deputados, reuniu-se para discutir a proposta de lei acerca da liberdade religiosa. Jornais e revistas publicavam agora editoriais que muitos nunca sonharam que pudessem passar pela censura do governo. Por exemplo, apareceu o seguinte na principal revista semanal de atualidades do país, Vida Mundial, de 26 de março de 1971, sob o título “Catolicismo e Nacionalidade”:

“Determinadas afirmações que por ai se vão proferindo, em busca mais ou menos disfarçada de privilégios, (para a Igreja Católica) estão longe de se harmonizar com a situação real da Nação Portuguesa no seu aspecto religioso. Nós não somos uma nação católica. Somos uma nação em que a maioria se diz católica e somos, sobretudo, uma nação plurirracial e plurirreligiosa. E aqui não há volta a dar-lhes. . . . Não compete às autoridades civis, por mais que para isso sejam aliciadas, inclinar-se a favor de uma religião determinada. . . . Se se reconhece para uma religião, tem de se reconhecer para todos em nome dos mais sãos princípios da liberdade.”

DEPUTADOS RECEBEM TESTEMUNHO

Chegou o tempo de informar os legisladores da nação acerca das Testemunhas de Jeová. Foram planejadas entrevistas com 14 membros da Assembléia Nacional, conhecidos como sendo a favor da liberdade religiosa. Pela primeira vez, as Testemunhas de Jeová conseguiram falar com membros do corpo legislativo mais elevado do país. Em alguns casos foram convidadas para os lares destes deputados, tendo conversas amigáveis, que duravam horas. Foi entregue a cada deputado uma exposição de 12 páginas acerca das nossas crenças junto com várias publicações.

O irmão Armando Monteiro, no Porto, teve a oportunidade de falar com um deputado que tinha sido seu colega no liceu, Dr. Sá Carneiro. Ele tinha agora a reputação de ser o porta-voz da nação quanto a liberdades civis. Ele disse ao irmão Monteiro: “Vocês irão ter uma dura batalha para ganhar o reconhecimento, especialmente devido à guerra em Angola e ao vosso não-envolvimento em tais conflitos. Contudo, sou a favor da liberdade religiosa para todos e farei tudo ao meu alcance para fazer aprovar uma lei garantindo a liberdade religiosa.” E interessante notar, que este homem mais tarde se tornou o primeiro ministro do pais e como tal permaneceu até à sua morte em 1980.

A LEI DA LIBERDADE RELIGIOSA

Portugal atingiu um marco no capítulo das liberdades civis a 21 de agosto de 1971, quando foi aprovada a lei 4/71, garantindo liberdade religiosa. Esta lei requeria que uma religião, que procurasse obter reconhecimento, devia entregar uma petição formal assinada por 500 membros, para ser submetida, junto com informações muito pormemorizadas, quanto às crenças, reuniões, publicações e assim por diante.

No ano seguinte, para grande surpresa de todos, apareceu outra lei, requerendo que cada assinatura da petição fosse reconhecida pelo notário. Em novembro de 1972, um documento de cinco centímetros de espessura foi apresentado ao Ministro da Justiça. Assim as Testemunhas de Jeová tornaram-se o primeiro grupo religioso a procurar reconhecimento legal ao abrigo da nova lei. Pelas observações dos funcionários tornava-se evidente que tão cedo não seria de esperar resposta.

CANCELADA A ASSEMBLÉIA DE DISTRITO DE 1971

Uma vez que as assembléias continuavam a ser proibidas em Portugal, a viagem anual à França era o grande acontecimento do ano. Os 3.500 irmãos que esperavam ansiosamente a Assembléia de Distrito “Nome Divino”, em Toulouse, ficaram chocados ao saberem, apenas uma semana antes da partida, que esta tinha sido cancelada devido à ameaça de uma epidemia de cólera. Que se podia fazer? Os irmãos em Lisboa descobriram que se realizaria um congresso em Londres, Inglaterra, na mesma data. Foram feitos preparativos de última hora para voltar a negociar contratos com as companhias de autocarros. A última barreira foi vencida, quando o governo, em tempo recorde, emitiu autorizações de viagem para 10 autocarros fretados!

Depois da longa viagem os irmãos ficaram surpreendidos com a grandiosidade de Londres e com as voltas intermináveis que tiveram de dar até encontrar os recintos do congresso em Twickenham. Alguns, irremediavelmente perdidos, apenas podiam implorar num inglês macarrônico: “Eu, Testemunha de Jeová. Onde Twickenham?” A polícia britânica foi muitíssimo prestativa, e alguns dos nossos irmãos foram escoltados por eles até os recintos do congresso. Vários autocarros finalmente chegaram ao Betel de Mill Hill às primeiras horas da manhã. Os irmãos nunca esquecerão as calorosas boas-vindas que receberam, enquanto o Salão do Reino do Betel de Londres era apressadamente transformado em dormitório.

IRMÃOS SURDOS DETIDOS

Em outubro de 1971, um grupo zeloso de irmãos surdos realizava regularmente reuniões em Lisboa. Subitamente a polícia apareceu no Estudo de Livro de Congregação, mas ninguém respondeu, pois eles não podiam ouvir bater à porta. Perplexos, os polícias esperaram até que a reunião acabasse. Quando os irmãos saíram da casa, detiveram-nos Pareceu estranho aos policias que ninguém respondia às suas perguntas ou mesmo dizia uma única palavra!

Como os irmãos calmamente faziam movimentos e gestos mostrando que não podiam falar nem ouvir, a polícia ficava cada vez mais desconfiada. Era mesmo cômico ver os policias confusos, pois alguns pensavam que era um truque. Encontraram o dono da casa ali perto e levaram-no com os 17 irmãos surdos até à esquadra da polícia. A polícia fez testes para comprovar que os presos eram na verdade surdos-mudos. Quando as autoridades se convenceram, a queixa foi retirada.

CONTRACORRENTES SUTIS

Estranho como pareça, em vista da tendência para a liberdade religiosa, a primavera de 1972 trouxe rumores de um ressurgimento de medidas repressivas. Um Boletim da Guarda Nacional Republicana (GNR) chegou às nossas mãos através de um policial que mostrou interesse pela verdade. Era o “Boletim N.º 1441/3a do Quartel General da Guarda Republicana”, datado de 9 de março de 1972, e intitulado: “ACTIVIDADES DA SEITA DAS TESTEMUNHAS DE JEOVÁ.” Dizia em parte:

“Relativamente ao assunto em epígrafe, o Exmo. General e Comandante Geral encarrega-me de transmitir que devem ser intensificadas as diligências no sentido de detectar aquela actividade e proceder como se impõe. Esclarece-se que esta seita tem carácter subversivo e que a lei vigente permite a repressão da sua actividade.”

Assim, na noite da Comemoração, a 29 de março de 1972, aconteceu sem ser uma surpresa, que a polícia irrompeu em três lugares de reunião em Lisboa e levou todos para a esquadra. Contudo, eles não pediram fiança, e em breve libertaram todos os irmãos. Não se relataram outros incidentes indicando assim que a maioria nesta força policial especial não estavam inclinados a empreender uma campanha contra as Testemunhas de Jeová em escala nacional.

CHEFES DE POLÍCIA PRESTATIVOS

Na verdade, muitos policiais manifestavam uma atitude tolerante para com as Testemunhas. Duas irmãs relatam esta experiência: “No ministério de casa em casa, um homem zangado veio à porta em pijama. Nós saímos dali delicadamente e continuamos a testemunhar. Quando íamos sair do prédio o homem em pijama estava à nossa espera. Era policial e insistia que o acompanhássemos. Nós sugerimos-lhe que vestisse um casaco e asseguramos-lhe que não fugiríamos. Nos poucos minutos em que ele foi buscar o casaco, escondemos a nossa literatura num caixote de lixo que estava ali perto.

“Ao entrar na esquadra, o nosso captor gabava-se com ar arrogante: ‘Aqui estão duas Testemunhas que eu apanhei a pregar. Prenda-as!’ Que choque ele teve quando o chefe de polícia o repreendeu, dizendo: ‘Você devia ter vergonha de si próprio, um policial na rua em pijama. Vá para casa e vista-se decentemente!’ Com isso mandou-nos embora e nós voltamos para apanhar a nossa literatura.”

Noutra ocasião, dois irmãos, que foram detidos no ministério de campo, ao chegarem à esquadra da polícia, o policial todo orgulhoso disse: “Aqui estão mais duas Testemunhas. Ponha-as na prisão!” O chefe de polícia replicou: “Mas o que é que lhe deu? Não quero que tragam para aqui mais Testemunhas. Na próxima vez, vai-me trazer a minha própria mãe!” O chefe de polícia libertou os irmãos, sem mais demora.

DE VOLTA AOS TRIBUNAIS

Uma vez que o boletim de março de 1972, emitido pela Guarda Nacional Republicana (GNR) falhou em restringir as atividades das Testemunhas de Jeová, foi aprovada, em novembro de 1972, uma lei que se tornou um instrumento da Polícia de Segurança Pública (PSP) para fazer parar as nossas reuniões. Irrompeu uma onda de detenções contra os nossos irmãos em lugares tais como Gondomar, Torres Vedras, Parede, Lisboa e Funchal, na Madeira. Uma série de julgamentos resultou em que juízes corajosos apresentassem decisões absolvendo as Testemunhas e se declarassem corajosamente a favor da liberdade religiosa.

O julgamento no tribunal de Peso da Régua, numa província do Norte, um baluarte tradicional do catolicismo, era encarado com grande expectativa. Este território isolado só tinha sido aberto recentemente e aqui estava um grupo de 18 pessoas recém-interessadas, sob julgamento por estudarem a Bíblia numa casa particular. O irmão Agostinho Valente, o pioneiro especial que cuidava do grupo, conta o que aconteceu:

“Como resultado, foi dado o mais belo testemunho por duas senhoras interessadas de origem muito humilde. A atmosfera normalmente assustadora das austeras salas de tribunal não fez efeito nelas. Elas explicaram de uma maneira tão natural, clara e convicta a sua alegria em aprenderem tantas coisas maravilhosas da Bíblia que o próprio juiz ficou visivelmente impressionado.” Ele apresentou uma decisão favorável.

POSTA À PROVA A FÉ DE CRISTÃOS NEUTROS

O irmão Fernando Silva, do Porto, recorda vividamente a provação que enfrentou para manter a integridade ao recusar cumprir o serviço militar por razões de consciência cristã: “Fui detido em dezembro de 1972 e mantido na prisão durante 15 meses. Esforços repetidos, incluindo ‘persuasão’ física falharam em me fazer transigir. Fui transferido para a prisão da Trafaria, perto de Lisboa, e o meu ‘tratamento’ começou a incluir chicotadas. Finalmente, foi posto num avião e levado para Angola.

“Compreendi rapidamente que um futuro tenebroso me aguardava. Fui parar em Nova Lisboa sob as ordens de um capitão que era famoso pela crueldade. Agora os espancamentos tornaram-se uma parte regular da minha vida, aumentando em número e severidade. Eu estava a enfraquecer dia a dia, pois eles muitas vezes privavam-me de comida. Eu orava constantemente a Jeová e posso dizer que Ele não me abandonou. Quanto mais eles me batiam menos eu sentia. Soldados amigáveis traziam-me pão e fruta.

“Uma noite, o capitão veio à minha cela com um papel e uma caneta. Disse-me que escrevesse uma carta de despedida aos meus pais, uma vez que eu estava para ser executado. Suplicando a Jeová que me desse forças para suportar, escrevi a carta, acreditando que certamente ia morrer. Depois soube que foi um truque! Fui finalmente julgado num tribunal militar e sentenciado a dois anos e quatro meses de prisão.”

Um médico de uma família proeminente tomou sua posição na questão da neutralidade mesmo antes do seu batismo. O seu irmão tinha sido condecorado por bravura na guerra colonial, e era mesmo de esperar que ele também refletisse o mesmo espírito patriótico. Contudo, tendo tomado a sua decisão de não participar no conflito colonial em África, ele escolheu um momento apropriado numa reunião de família, para explicar a sua posição baseada na Bíblia. Incapaz de se resignar à decisão do seu filho, a sua mãe combinou uma entrevista no Distrito de Recrutamento Militar. O que aconteceu neste encontro é relatado melhor pelo próprio José Manuel Paiva:

“Desde o princípio, era óbvio que a minha mãe estava emocionalmente perturbada por causa de eu ser a ‘ovelha ranhosa’ da família, por isso perguntei se podia explicar a razão da minha decisão. Enquanto o oficial escutava atentamente, a minha mãe interrompeu a conversa, dizendo: ‘São essas Testemunhas de Jeová. Elas fizeram uma lavagem ao cérebro do meu filho. São uns fanáticos!’ Surpreendentemente, o oficial replicou: ‘Não, não acho que sejam fanáticos. Tenho estado a ouvir o seu filho a explicar as suas crenças. Ele sabe o que está a fazer e por que o faz. Claro, que não posso concordar com ele, pois sou oficial de carreira. Mas respeito estas pessoas. Tenho ouvido outras Testemunhas explicarem as suas razões de não participarem na guerra e tenho verificado que todos são capazes de explicar a sua fé dum modo inteligente. Os fanáticos são os que vão a Fátima (um santuário católico em Portugal), sem saberem por que e em que acreditam.”

“Então ele disse-me: ‘Você é médico, então porque não arranja um atestado assinado por dois colegas seus, dizendo que você tem uma doença qualquer? Juntaremos isso aos seus papéis e irá ficar isento do serviço militar.’ Agradeci-lhe a consideração, mas disse-lhe que não podia fazer tal coisa, pois seria falso. Para minha surpresa, ele olhou para a minha mãe e disse: ‘Ouviu isto? Fiz isto de propósito porque eu sabia que as Testemunhas de Jeová nem sequer mentem. Este é o calibre do seu filho. Devia estar orgulhosa de ter um filho assim!’” Este irmão serve agora como ancião.

CRESCIMENTO RÁPIDO

No fim do ano de serviço de 1972, a organização teocrática avançava vigorosamente. Houve seis auges consecutivos de publicadores com mais de mil batismos durante três anos seguidos. Mais de dez mil estudos bíblicos estavam a ser dirigidos, e um esplêndido total de 23.092 assistiram à Comemoração. Tendo Lisboa uma proporção de uma Testemunha para 226 habitantes, a filial encorajou os irmãos a mudarem de residência e a servirem onde a necessidade era maior.

Mesmo cidades grandes precisavam de ajuda. Um caso em questão era Setúbal com uma população de sessenta mil pessoas e situada apenas a 40 km ao sul de Lisboa. Em 1968, a congregação tinha apenas 27 publicadores. A filial designou para lá cinco pioneiros especiais, e em 1972 a congregação tinha crescido para um auge de 140 publicadores com 375 assistindo à Comemoração. Hoje Setúbal tem três congregações.

O CONGRESSO INTERNACIONAL DE 1973

À medida que o crescimento continuava, uma assistência recorde de 8.150 esteve presente nas sessões portuguesas da Assembléia “Vitória Divina” realizada na Feira Internacional de Bruxelas. Havia também milhares de irmãos espanhóis e belgas, atingindo um auge de assistência de um total de mais de cinqüenta mil. É espantoso como assistiram tantos delegados portugueses, pois a maioria não tinha passaporte, nem o governo iria emitir mais. Um “passaporte coletivo” especial foi emitido para as Testemunhas, que garantiram que o seu grupo de 25 viajantes voltaria para Portugal. Os preparativos de transporte incluíam quatro comboios [bens] especiais com 1.000 congressistas em cada um, seis aviões fretados e dezenas de autocarros. Era uma ocasião fortalecedora da fé para estes irmãos portugueses ao estarem unidos outra vez, vindos de lugares tão distantes como Moçambique, Angola, Cabo Verde, Madeira e Açores.

O amor fala e é ouvido em todas as línguas. Isto foi demonstrado uma vez mais pelos preparativos de alojamento feitos para o congresso de Bruxelas. Imaginem, uma congregação em Bruxelas que com 50 publicadores arranjou acomodações para 350 irmãos visitantes! Muitos irmãos ofereceram alegremente aos seus visitantes as suas próprias camas. Alguns tiveram tantas quantas 25 pessoas nos seus lares. Um irmão, que tinha 15 congressistas designados para a sua casa, quis fazer mais. Assim ele alugou todos os quartos de um pequeno hotel perto do local do congresso, para todo o período da assembléia, e disse ao irmão encarregado do departamento de hospedagem: “Pode designar estes quartos para os que têm verdadeira necessidade.”

A cena de despedida na estação do comboio foi um espetáculo para sempre inesquecível. O memorável momento da partida foi cheio de abraços e beijos, bem como ofertas de flores e recordações. Um policial estava tão comovido com esta demonstração de amor cristão que decidiu fazer ele mesmo uma oferta!

Que impacto teve este congresso nos nossos irmãos! A escolta da polícia guiando uma caravana de autocarros de congressistas causou a seguinte observação de um irmão: “Que diferença! Aqui a polícia está na nossa frente a guiar-nos. Em Portugal estão sempre atrás de nós a perseguir-nos.”

As palavras concludentes do irmão Knorr dirigidas à assembléia portuguesa foram estas: “Continuem a servir a Jeová fielmente. Não sabemos o que Jeová irá permitir. Quem sabe, talvez possam assistir ao vosso próximo congresso internacional em Portugal!”

UM GOLPE DE ESTADO

Dentro das fileiras do exército, foi planejada uma revolução relâmpago e executada a 25 de abril de 1974. Tinha-se desenvolvido um descontentamento devido à longa guerra colonial em África. Não se vislumbrava nenhuma vitória militar em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau. Em vista da inflexível orientação política do governo para com as colônias, os próprios militares decidiram que era tempo de acabar com a guerra.

A população, em geral, apoiou totalmente esta revolução quase sem derramamento de sangue. Foi motivo de espanto ver instituições poderosas, que dominavam o país com fortes garras, entrar em colapso dum dia para o outro. Centenas de agentes da PIDE foram detidos. Foi mesmo uma reviravolta ver os soldados levarem os agentes da PIDE na frente das armas!

PERÍODO DE TRANSIÇÃO

O novo regime depressa declarou liberdade de expressão e a restauração das liberdades civis. Pouco depois, o Ministério da Justiça informou ao nosso advogado que todos os processos pendentes contra as Testemunhas de Jeová tinham sido anulados.

Também ficamos a saber que o governo anterior tinha arquivado o nosso pedido de reconhecimento legal. Agora estávamos a ter contatos semanais com as autoridades, que se mostravam favoráveis a que a nossa obra fosse estabelecida legalmente.

O ÚLTIMO CONGRESSO REALIZADO NO ESTRANGEIRO

Durante o verão de 1974 um total de 12.102 portugueses assistiram à Assembléia de Distrito “Propósito Divino” em Toulouse, França. Nunca na história deste país tinha sido utilizada uma tão grande quantidade de meios de transporte para uma assembléia no estrangeiro. Um inspetor dos caminhos de ferro observou os irmãos a limparem um vagão e comentou: “Em todos os meus 25 anos de trabalho nos caminhos de ferro nunca vi tal cena. Isto é mesmo invulgar. Vocês são diferentes de quaisquer outras pessoas que viajam nestes comboios.’

Este foi o grandioso clímax daquilo que tinha sido uma viagem anual ao estrangeiro. Os irmãos fizeram todos os sacrifícios para assistir à assembléia de distrito e prestaram a maior atenção desde as palavras iniciais de boas-vindas até à última palavra da oração. Os esforços de todos os que serviram como nossos hospedeiros durante aqueles anos sempre serão uma recordação preciosa.

UMA OCASIÃO HISTÓRICA

A 18 de dezembro de 1974 as Testemunhas de Jeová obtiveram reconhecimento legal. Precisamente três dias depois, realizaram-se duas reuniões inesquecíveis com a presença dos irmãos N. H. Knorr e F. W. Franz, uma no Porto com 7.586 e a outra em Lisboa com 39.284.

O significado desta ocasião foi resumido pelo jornal de Lisboa Diário Popular de 26 de dezembro de 1974: “Ser uma Testemunha de Jeová até ao 25 de abril era perigoso e até subversivo. Mas os tempos mudaram. Agora é possível não só ser uma Testemunha em Portugal, mas também reunir-se publicamente. Isto aconteceu em Lisboa no Estádio da Tapadinha onde milhares se reuniram livremente. . . . O tema da paz sob o único ‘governo por Deus’ ecoou através dos altifalantes. E tudo isto teve lugar num estádio de futebol onde temos assistido a encontros bem menos edificantes.”

PROVIDO O ALIMENTO ESPIRITUAL

Durante os anos de proscrição, Jeová, através da sua organização, manteve-nos supridos com o alimento espiritual. Muitas filiais enviavam-nos regularmente pequenas embalagens de literatura, mas à medida que os anos passavam, cada vez mais destas embalagens iam sendo confiscadas. Irmãos que vinham passar as suas férias em Portugal trouxeram ao longo dos anos quantidades valiosas de publicações. Reconhecemos com gratidão o espírito corajoso demonstrado por estes irmãos e agradecemos a todos os que tão espontaneamente participaram nesta atividade. — 2 Tim. 1:7.

DEPÓSITOS SOB PROSCRIÇÃO

À medida que a organização crescia precisávamos de locais onde trabalhar, e em várias cidades encontramos locais convenientes. Um de tais lugares foi alcunhado “o buraco”. Como não tinha acesso à luz natural, teve de ser feito um buraco na parede para entrar ar. Um irmão trabalhou fielmente neste lugar durante oito anos. Ele recorda: “Sempre tive uma aversão especial a ratazanas e mosquitos. Infelizmente, ‘o buraco’ tinha de ambos em abundância. A princípio eu tinha de saltar por cima das ratazanas quando entrava no ‘buraco’ e elas corriam à procura de abrigo. Depois de se acostumarem à minha presença, passavam por mim vagarosamente quando eu trabalhava. Era estranho, mas nestas circunstâncias especiais era capaz de as suportar.”

Usando os nossos irmãos que trabalhavam com firmas comerciais, nós conseguimos importar uma edição especial de A Sentinela, e os funcionários da alfândega estavam obviamente “cegos” para o que estavam a autorizar. Isto foi conseguido durante uns anos até que as nossas necessidades se tornaram demasiado grandes. Mesmo durante a crise do papel, no princípio da década de 70, Jeová manobrou os assuntos de tal modo que toneladas de papel de jornal chegavam às nossas mãos.

Durante anos, um número de anciãos fiéis trabalhou arduamente durante horas depois de um dia inteiro de trabalho secular, para assegurarem que as publicações essenciais estivessem disponíveis a tempo. Os registros mostram que se produziram mais de um milhão e quatrocentos mil livros através das tipografias comerciais, junto com milhões de folhetos, revistas e tratados. A proteção e a bênção de Jeová eram tão evidentes.

Contudo, uma vez que a obra era legalmente reconhecida, podíamos importar literatura da sede. Que emoção foi receber o nosso primeiro container de 14 toneladas em 1975 trazendo o novo lançamento de 416 páginas, Aproximou-se o Reino de Deus de Mil Anos!

ARRANQUE PARA EXPANSÃO

Tendo liberdade de adoração, tomamos providências para modernizar a organização em todos os níveis. Encontramos um edifício que nos podia servir para uma filial, no Estoril, um subúrbio de Lisboa. O dono de um moderno edifício de três andares estava hesitante em alugar às Testemunhas. Foram removidas todas as dúvidas depois de ele consultar o seu advogado, que disse: “Não podia ter melhores inquilinos. As Testemunhas de Jeová cuidarão do local como se lhes pertencesse.” Compramos este edifício em 1976 e fizemos uma ampliação em 1977, com espaço para armazenamento de literatura, bem como uma pequena gráfica offset.

Um novo privilégio que os irmãos aceitaram alegremente foi organizar as suas primeiras assembléias de circuito e congressos de distrito. Isto não foi um desafio pequeno pois os circuitos não possuíam qualquer equipamento — nem mesmo um tacho ou uma panela. A filial organizou uma série de reuniões para garantir a uniformização na construção de todo o equipamento para os 12 circuitos. Uma cafetaria e equipamento sonoro compatíveis foram então reunidos para funcionamento suave nos congressos de distrito. Todo este equipamento estava pronto para ser usado durante o verão de 1975 quando os primeiros três congressos de distrito se realizaram em Portugal com uma assistência total de 34.529 ao discurso público.

REABRINDO SALÕES DO REINO

Em janeiro de 1975 a filial informou as congregações que podiam abrir Salões do Reino. Eles aproveitaram a oportunidade com grande alegria e antes do fim do ano tinham sido abertos mais de cem salões. Uma vez que os imóveis são caros, a única solução era alugar salões. Em muitos casos o Salão do Reino é um dos mais belos auditórios da comunidade local. Quão louvável é ver Salões do Reino, em muitos casos com tapetes, cortinados ou outros elementos decorativos que os irmãos nem sequer tinham possibilidades de adquirir para as suas próprias casas! Os aluguéis estavam a tornar-se exorbitantes, sendo em alguns casos mais de 600 dólares mensais. Para vencer este problema, na maior parte das cidades quatro ou cinco congregações usam o mesmo salão.

TIMOR

Timor é uma ilha das Índias Orientais, a norte da Austrália. A metade leste da ilha tornou-se um território de Portugal no princípio do século 16. Em 1975, o povo timorense exigiu a Portugal a independência. Nesta altura, a sede da Sociedade pediu à filial em Portugal que procurasse um casal de pioneiros especiais experientes que pudesse ir para a capital de Timor, Dili, e desenvolver algum interesse que tinha sido encontrado ali por um irmão visitante australiano.

O irmão Gabriel Santos e a sua esposa aceitaram alegremente a designação missionária. Chegaram a Dili em abril de 1975, mas o seu ministério ali mostrou ser curto. No princípio de agosto daquele ano rebentou uma guerra civil entre dois partidos rivais. O irmão Santos descreve o que aconteceu:

“Precisamente dois dias antes do tiroteio começar, eu tinha comprado um suprimento de comida para duas semanas, mal sabendo que em breve seríamos virtuais prisioneiros no nosso apartamento. Quando as balas começaram a atingir o nosso edifício, compreendemos que afligir-nos não resolveria os assuntos e assim oramos a Jeová, colocando a nossa vida nas suas mãos. Cerca de duas semanas depois, com os suprimentos de comida quase esgotados, estávamos sós no edifício, pois as outras sete famílias tinham fugido para o campo de refugiados. Precisamente quando estávamos a pensar no que fazer, o comandante de um barco bateu à nossa porta. Tínhamos estado a estudar a Bíblia com a sua esposa e agora ele tinha vindo debaixo de fogo cerrado para nos tirar dali. Por alguma razão, quando íamos a fugir para o campo de refugiados, o tiroteio parou pela primeira vez em duas semanas. Estranho como pareça, assim que nós entramos no campo, começou outra vez. Depois de termos passado três dias no campo, este comandante levou-nos a um navio norueguês que nos transportou, junto com outros 1.157 refugiados, até Darwin, Austrália. Tendo sentido a mão protetora de Jeová, estamos mais ansiosos que nunca de continuar a servi-lo fielmente.”

Estes pioneiros colocaram 567 livros em apenas três meses e alguns dos que começaram a assistir às reuniões em Dili foram finalmente batizados depois de voltarem para Portugal. A Indonésia agora administra este território e resta saber o que os desenvolvimentos futuros trarão.

UM SINAL DE MAIORES COISAS POR VIR

No fim do ano de serviço de 1975, foi interessante olhar para trás e ver quantos acontecimentos notáveis ocorreram em apenas um ano de liberdade religiosa. Houve auges de publicadores por nove meses consecutivos, resultando num auge de 16.183 publicadores. Isto foi um aumento de 23 por cento da média do ano anterior. Foram batizados 3.925 no total e a assistência à Comemoração subiu para 41.416! Tudo apontava para ainda maior expansão.

A LIBERDADE TRAZ NOVAS PROVAS

Em 1974 a revolução trouxe grandes mudanças à sociedade portuguesa. Seguiu-se um período de instabilidade com forças radicais agitando a população. Organizaram-se “comissões de moradores” junto com “comissões de trabalhadores” que freqüentemente despediam pessoal, simulando julgamentos em tribunais improvisados. Nas ruas apareciam cartazes e grandes pinturas de parede com as figuras de Stalin, Lenine, Marx e Mao. O martelo e a foice tornaram-se vulgares com jornais comunistas à venda.

Ironicamente, a opressão altamente condenada, praticada pelo regime de direita, derrubado, tornou-se agora instrumento dos poderes de esquerda. Isto pode ser visto numa experiência relatada pelo irmão Olegário Virgíneo: “O governo convidou todos a trabalhar num certo domingo como uma demonstração voluntária de apoio em massa. Todos os cidadãos foram exortados a irem para os campos, fábricas, escritórios num ‘dia festivo de trabalho, celebrando a vitória das forças armadas’. Uma vez que eu decidi não ser voluntário, recebi um telefonema naquele mesmo domingo, tentando intimidar-me a comparecer ou então teria de enfrentar sérias dificuldades. Ao ir trabalhar no dia seguinte, vi uma efígie pendurada numa grande árvore à entrada da fábrica com as palavras ‘Jeovás para a forca’.

“Então foi convocado um plenário de todos os trabalhadores. Estavam presentes cerca de 400 quando eu foi convocado perante esta audiência e havia uma mesa cheia com 17 membros da comissão sentados como juízes. Quando comecei a defender a minha neutralidade com respeito à causa revolucionária, membros comunistas interromperam, atacando as minhas crenças religiosas. Acusavam as Testemunhas de Jeová de serem assassinos por recusarem as transfusões de sangue e de sermos antipatrióticos; exigiam o meu despedimento. Outros membros não partilhavam deste ponto de vista. Um falou, dizendo que a reunião não fora convocada para julgar as convicções religiosas de uma pessoa mas para considerar o mérito de um empregado. Foi apresentado um relatório favorável em relação ao meu serviço e a sessão concluiu com a minha permanência como empregado devido à minha conduta exemplar. É interessante notar que o homem responsável por erigir a efígie mais tarde suicidou-se.”

OUTRA ESPÉCIE DE PROVA

Durante este tempo tornou-se comum as pessoas mostrarem reverência para com os dirigentes revolucionários mortos, tais como Salvador Allende, por se observar cinco minutos de silêncio. Numa dessas ocasiões envolvendo a morte de um soldado português, eis o que aconteceu a Mário Neto:

“Uma vez que não participei nesta cerimônia, os colegas comunistas aproveitaram a ocasião para me acusar. No dia do plenário, 250 empregados reuniram-se no auditório. Na longa mesa sentavam-se nove juízes, representando seções diferentes do pessoal do escritório. Eu expus as seguintes condições para a minha defesa, que foram aceitas: (1) Não seria interrompido enquanto falasse; (2) qualquer pessoa podia fazer perguntas na conclusão da minha defesa; (3) ser-me-ia permitido usar a Bíblia.

“Uma vez que a acusação envolvia reverência para com os mortos, eu pude explicar o que a Bíblia mostra ser a condição dos mortos. Salientei a esperança do Reino como única solução para os problemas da humanidade descontente e explorada. Esta reunião durou três horas e eu considero-a como sendo o mais importante discurso público que tive o privilégio de fazer. Depois da sessão, colegas de escritório aproximaram-se de mim e fizeram comentários favoráveis. Por exemplo, um comunista disse: ‘Sempre tive medo da morte e especialmente do que os mortos me podem fazer. O que você explicou faz sentido e eu quero agradecer-lhe muito.’ Uma mulher católica disse: ‘Parabéns! Senti que estava na presença de um verdadeiro cristão, assim como um São Paulo moderno. Você defendeu-se brilhantemente. Foi um privilégio ouvi-lo falar.’ A decisão unânime, anunciada uma semana mais tarde, foi de manter os meus serviços na empresa.”

ABRE-SE UMA PORTA LARGA

A obra estava agora a crescer rapidamente. No período de três anos de 1975-1977 formava-se em média uma nova congregação por semana! Considere estas cifras: no período de dois anos de 1976-1977 mais de cento e dez mil Bíblias foram distribuídas fazendo das Testemunhas de Jeová os maiores distribuidores de Bíblias em Portugal! Durante este mesmo período a filial enviou para as congregações mais de um milhão de livros! O auge de publicadores em 1977 foi de 20.335 e a assistência à Comemoração alcançou o auge de todos os tempos de 47.787.

Durante este período organizamos uma campanha em grande escala para levar as boas novas a todo o território não designado. Dezenas de pioneiros especiais temporários saíram de carro, em grupos A filial recebia chamadas telefônicas, pedindo o envio expresso de remessas adicionais de 1.000 livros! Sim, era comum um grupo de quatro pioneiros num carro colocar mais de dois mil livros por mês. Estava a ser dado um poderoso testemunho!

PIONEIROS PARA A GUINÉ-BISSAU

Guiné-Bissau está situada na costa ocidental de África, entre o Senegal e a Guiné, e tem uma população de quinhentos e trinta mil. É uma das novas repúblicas de África, declarando a independência unilateral em 1973 e adquirindo-a no sentido completo depois da revolução de Portugal em 1974 Grande parte da população é da religião muçulmana.

Durante anos vários publicadores visitaram esta terra e fizeram o que puderam para lançar as sementes da verdade do Reino. Contudo, em abril de 1976 viu-se o começo da atividade organizada por dois pioneiros especiais enviados de Portugal. Eles realizaram um trabalho verdadeiramente espantoso nos 14 meses seguintes, conforme relatado por Manuel Silvestre: “As pessoas manifestam uma atitude receptiva para com a verdade e entre o meu companheiro e eu estão agora a ser dirigidos um total de 67 estudos bíblicos”.

Eles fizeram planos para pregarem em cidades afastadas, durante a visita do superintendente de circuito em maio de 1977. O relatório do irmão Rodrigo Guerreiro mostra os resultados: “Podia-se alugar um carro apenas por um curto período, assim carregamo-lo com toda a literatura que podíamos. Junto com os dois pioneiros especiais e a minha esposa, partimos para Mansôa, Bafatá e Nova Lamego. Achamos ser uma experiência vulgar colocar cinco ou seis livros a um morador. Em apenas dois dias e meio distribuímos um total de 774 livros e Bíblias.”

Estavam-se a fazer planos para enviar mais pregadores das boas novas, mas a igreja católica não estava feliz com a presença dos pioneiros. Um dia, um padre disse ao irmão Manuel Silvestre num tom sarcástico: “Dificultamo-vos a vida em Portugal porque vocês não lutavam em África, por isso é melhor prepararem-se para oposição à vossa obra aqui!”

Pouco depois os dois pioneiros especiais receberam uma notificação para sair do país dentro de 48 horas sob o pretexto de que “as suas atividades afetavam a segurança interna do Estado”. Em setembro de 1977, tivemos uma entrevista com o embaixador em Lisboa num esforço de determinar o que é que os pioneiros expulsos tinham feito para afetar a segurança interna do Estado, mas ele não deu explicações.

O tempo dirá o que Jeová tem guardado para este país, mas enquanto os pioneiros especiais lá serviram, deram pessoalmente testemunho a muitos ministros do governo, incluindo o presidente.

PROGRESSO EM CABO VERDE

Em 1968, Cabo Verde tinha três publicadores. Em 1974, o ano em que as colônias de Portugal obtiveram a independência, houve um auge de 14 publicadores. O arquipélago estava sob o domínio do seu sétimo ano consecutivo de seca. Em contraste, grandes bênçãos espirituais estavam no horizonte.

Quatro pioneiros especiais de Portugal foram designados para duas ilhas diferentes. Eles fizeram um trabalho esplêndido e no fim do ano de serviço de 1976 houve um auge de 60 publicadores ou um aumento de 130 por cento sobre o ano anterior. Mais de três mil Bíblias e livros foram colocados naquele ano por um grupo zeloso que incluía então 10 pioneiros. A Comemoração teve uma assistência recorde de 130 pessoas.

Um acontecimento verdadeiramente notável foi o primeiro congresso de distrito em grande escala, realizado na capital, Praia, em 1977. Os irmãos alugaram o cinema principal para o congresso de quatro dias e apresentaram três dramas bíblicos completos. Um total de 284 assistiram ao discurso público.

Deu-se um acontecimento inesperado em janeiro de 1978 quando os quatro pioneiros especiais portugueses foram expulsos como personae non gratae. Esta ação só serviu para estimular os irmãos para maior atividade. Em 1982 tivemos um total de 21 pioneiros no campo em Cabo Verde e um auge de 147 publicadores. A assistência à Comemoração em 1982 atingiu 470. A pregação do Reino está agora a fazer-se em cinco ilhas. Na verdade, ainda se pode esperar deste território uma colheita maior.

AS BOAS NOVAS ESPALHAM-SE NO ARQUIPÉLAGO DOS AÇORES

Um constante fluxo de emigração tem marcado a história recente destes ilhéus. Ao mesmo tempo, uma constante afluência de pessoas semelhantes a ovelhas tem sido ajuntada em união, ‘como um rebanho num redil’, em congregações do povo de Jeová. A voz destes louvadores do Reino já atingiu todas as ilhas. — Miq. 2:12.

Considere este exemplo: A congregação em Santa Cruz das Flores foi formada em 1975. O irmão José Lima voltou dos Estados Unidos para a sua ilha natal, com o propósito de trazer as boas novas aos seus parentes e conterrâneos. Quando o superintendente de circuito os visitou, foi oferecida uma elegante sala de banquetes para o discurso público e assistiram 33 pessoas. Depois da reunião o dono comentou: “A propósito, esta sala é vossa uma vez por mês, grátis, para qualquer reunião especial.”

Em dezembro de 1981 houve um auge de 12 publicadores nesta pequena ilha, e nesse ano 50 pessoas assistiram à Comemoração. Acabaram recentemente de construir um bonito Salão do Reino.

O terremoto de 1.º de janeiro de 1980, trouxe a destruição de grande parte da ilha Terceira, matando 56 pessoas e ficando 15.000 sem lar. Felizmente, nenhum irmão perdeu a vida, apesar de muitas das suas casas ficarem danificadas. O Salão do Reino na cidade principal, Angra do Heroísmo, foi o único edifício religioso que não ficou danificado e foi usado para oferecer acomodações temporárias para os nossos irmãos. A filial em Portugal enviou mais de quinhentos quilos de comida e outros artigos de emergência, junto com os primeiros carregamentos enviados pelo governo. Um superintendente de distrito enviado para investigar a situação, relatou: “O espírito de queixa e desalento, que atingiu tantas vítimas do terremoto, não estava presente entre os nossos irmãos. A preocupação genuína demonstrada por irmãos que foram enviados imediatamente de outras ilhas para avaliarem a situação de cada um foi uma fonte de grande encorajamento.”

De ano para ano, nestas ilhas do Médio-Atlântico, aumenta o louvor a Jeová, cantado presentemente por um auge de 303 publicadores leais.

MADEIRA AVANÇA

O alvo de 100 publicadores do Reino nesta ilha foi atingido no princípio da década de 70 depois de quase vinte anos de pregação. Ninguém podia imaginar que dentro de poucos anos, o auge excedesse 300 publicadores das boas novas. O auge de publicadores é agora de 396 e, em 1981, pela primeira vez, a assistência à Comemoração excedeu mil pessoas.

Em 1973, o chefe de um conjunto musical atuava nos hotéis luxuosos do Funchal, cidade capital da Madeira. Ele relata a sua experiência: “Eu era mundano ao extremo, embebedava-me freqüentemente e levava uma vida imoral. Depois da minha mulher me deixar, um ex-músico do meu conjunto começou a falar-me da sua recém-encontrada esperança, baseada na Bíblia. Enquanto eu lia as primeiras publicações que ele me deu, vi que a esperança do Reino era também a minha esperança. Depois do segundo estudo bíblico, foi ao Salão do Reino mas sentia-me deslocado com o meu cabelo desgrenhado e minha barba desleixada. Mesmo quando melhorei a minha aparência eu sabia que teria de fazer outras mudanças, se quisesse agradar a Deus.

“Tinha um desejo ardente de dizer aos outros o que estava a aprender, mas, tinha um contrato para tocar nos Açores. Antes de partir, apanhei cerca de setenta exemplares de revistas atrasadas para estudar. Depois de as ler todas, queria passá-las a outros. Assim, depois de tocar até às 3 horas da manhã, fui de porta em porta, pondo uma revista por baixo de cada porta com uma nota pessoal a acompanhar cada revista. No fim do meu segundo mês de estudo bíblico dediquei a minha vida a Jeová.

“A minha mãe, que era uma católica ferrenha, estava espantada de ver a minha nova maneira de viver. Um dia, ela disse-me: “Eu tinha orado a Deus muitas vezes para te livrar dessa vida desregrada. Como estou feliz de ver que Jeová é esse Deus e que ele respondeu as minhas orações.’ Depois de estudar seis meses, a minha mãe de 73 anos de idade foi batizada.” Hoje o irmão João Vieira serve como ancião.

Muitos irmãos mal podiam acreditar no que ouviam quando foi anunciado que o Estádio dos Barreiros estava contratado para o Congresso de Distrito “Lealdade ao Reino” de 1981. A Câmara do Funchal fez uma generosa oferta de madeira avaliada em 2.000 dólares para uso no congresso. A imprensa, rádio e televisão deram uma publicidade excelente. A assistência ao discurso público foi um recorde de 832.

ACONTECIMENTOS EMPOLGANTES EM ANGOLA

Janeiro de 1974 trouxe notícias excitantes a Angola. O Ministro do Ultramar anunciou que a lei da liberdade religiosa, aprovada em Portugal, se aplicava às colônias. Então, desenrolou-se uma seqüência de acontecimentos que tiveram um impacto tremendo na obra do Reino. Por volta de março de 1975 os irmãos entregaram todos os papéis necessários para o reconhecimento legal com os nomes e moradas de 500 publicadores. Uma vez que tinha sido restaurado o direito de liberdade de reunião, eles não perderam tempo em aproveitar a oportunidade para realizar a sua primeira assembléia de circuito pública. Onde? No melhor pavilhão de desportos de Luanda, Cidadela Desportiva, nos fins de semana de 16 e 23 de março.

O que aconteceu é ternamente recordado por Octacílio Figueiredo: “A primeira assembléia foi restrita a publicadores e aos que se reuniam regularmente. Estávamos emocionados de ver 2.888 assistirem ao discurso público. Uma vez que tudo se desenrolava ordeiramente, avançamos com a segunda assembléia. Desta vez convidamos todas as pessoas interessadas. É difícil comunicar o mais absoluto assombro ao ver 7.713 para o segundo discurso público! Alguns dos presentes tinham passado mais de quinze anos em prisões coloniais e campos de trabalho. Lágrimas de alegria rolavam pelas faces deles quando entoavam o último cântico.” Que momento comovente na vida destes irmãos fiéis!

O irmão Luis Sabino conta uma experiência que teve lugar nesta assembléia de circuito: “Uma vez que estavam a surgir grandes conflitos entre os três movimentos políticos que tinham lutado contra os portugueses, foram destacados polícias para proteger a assembléia. Na semana anterior irrompeu um distúrbio neste mesmo pavilhão durante um comício político. Um policial fez questão de entrar no pavilhão para ouvir o que se estava a dizer, pois ele tinha ouvido tantas coisas contraditórias acerca das Testemunhas. Ficou tão impressionado que se apressou a ir a casa buscar a esposa e os filhos. Como resultado, foi iniciado um estudo bíblico com ele e a família.”

A 5 de setembro de 1975 o Boletim Oficial do Governo declarou as Testemunhas de Jeová uma “religião autorizada”. A correspondência revelava a presença de centenas de pessoas interessadas em cada distrito. Quando um superintendente de circuito fez uma visita a um grupo isolado, numa zona remota, como ele ficou surpreendido ao ter a presença de 583 pessoas para o discurso público!

A OBRA PROSCRITA EM ANGOLA

Estalou a guerra civil nesta terra, que tão desesperadamente procurava a independência. Embora a data de 11 de novembro de 1975 marcasse oficialmente o fim do governo colonial e a fundação da nova república, seguiu-se um período difícil com muitos problemas internos. Subitamente, a 14 de março de 1978, as Testemunhas de Jeová foram proscritas. Elas continuam, contudo, a levar uma vida exemplar e a orar para que os que estão em altos postos governamentais examinem os fatos. Estes falam por si e vindicam plenamente as Testemunhas de Jeová como sendo um povo amante da paz. As Testemunhas em Angola estão determinadas a ‘continuar a levar uma vida calma e sossegada, com plena devoção piedosa e seriedade’. — 1 Tim. 2:1, 2.

O PRIMEIRO CONGRESSO INTERNACIONAL EM PORTUGAL

Entretanto, voltando a Portugal, foi anunciado que Lisboa seria o local de um congresso internacional, “Fé Vitoriosa”, em 1978. Isto causou imensa expectativa. Em vez de serem convidados noutro país, os irmãos iam ter o privilégio, pela primeira vez, de serem os hospedeiros.

O local ideal para este congresso provou ser o Estádio do Restelo, de onde se vislumbra o rio Tejo e a maior ponte suspensa da Europa. Vieram delegados de mais de doze países e o auge de assistência foi de 37.567, com um total de 1.130 batismos. Cerca de seis mil congressistas participaram no serviço de campo, muitos deram testemunho na rua pela primeira vez. Eles convergiram para as estações dos autocarros e dos caminhos de ferro, parques públicos e mercados, distribuindo 250.000 convites e 25.000 revistas.

Por esta altura, um irmão filipino estava num petroleiro que se aproximava de Portugal. Ele tinha querido, desesperadamente, assistir a um congresso internacional mas ali estava ele no mar. No entanto, ele persistia em orar acerca do assunto. Quando o petroleiro subia o rio Tejo, ele focou os binóculos para a costa. Eis que ele viu um enorme cartaz anunciando o discurso público do congresso internacional em Lisboa! Estava previsto que o petroleiro fizesse escala no porto apenas por algumas horas, mas, surpreendentemente, o comandante anunciou que uma pequena reparação os forçava a ficar vários dias. O nosso irmão deu graças a Jeová por estar entre os felizes delegados ao congresso .

Este congresso resultou num encontro feliz. Anos antes Maria e Elisa eram amigas íntimas. Maria, porém, emigrou para a Holanda. Entretanto Elisa tornou-se uma Testemunha. Em julho de 1974 ela estava preparada para assistir ao congresso de distrito em França quando alguém tocou a campainha. Era Maria, que vinha da Holanda para passar alguns dias de férias com ela. Ao reparar nas malas, Maria perguntou: “Onde vais?”

“Vamos a Toulouse assistir a uma assembléia.”

“Ora, tu nunca costumavas viajar para parte nenhuma — afinal de contas, que espécie de assembléia é essa?”

“É uma assembléia das Testemunhas de Jeová.”

“Oh, não — como te podes associar com tal grupo terrível?”

Maria, irritada, partiu rapidamente. Mas agora onde podia ir passar as suas férias? Uma coisa era certa; não na casa de uma Testemunha! Ela visitou outra amiga e ao ser convidada para entrar, novamente reparou em malas por toda a parte. Hesitante, perguntou: “Onde vais com todas estas malas?”

A resposta foi: “Vou para França amanhã!”

“Espero que não seja Toulouse!”

“Exatamente! Vou assistir a um congresso das Testemunhas de Jeová, mas como soubeste?”

“Isso não te interessa — isto é assustador — vou-me já embora.”

Passaram-se anos, e nenhuma das duas irmãs soube uma palavra de Maria. Então, justamente antes do congresso internacional, Elisa recebeu uma carta de Maria, pedindo perdão pelas suas palavras ásperas e maneiras descorteses. Fazia apenas um pedido: “Podias arranjar uma cama para a tua irmã na tua casa durante a assembléia internacional em Lisboa?” Imagine a alegria destas amigas íntimas de outrora — agora unidas como irmãs pela sua fé vitoriosa!

Noticiando acerca do congresso, a revista de atualidades Opção de 10 a 16 de agosto de 1978 declarou: “Para quem já esteve em Fátima em dias de romagem, a realidade é bem diferente. . . . O ambiente religioso é diverso. Aqui o misticismo desaparece para dar lugar à realização de uma reunião de crentes que, em conjunto e de comum acordo, resolveram debater um problema, uma fé, uma atitude espiritual. O comportamento dos presentes, uns para com os outros, caracteriza-se por uma relação de entreajuda.”

BÊNÇÃOS ADICIONAIS

Em setembro de 1981, a filial lançou o anúncio de que os irmãos podiam de novo ter assinaturas pessoais das revistas Sentinela e Despertai!. Estas tinham estado suspensas desde o irrompimento da perseguição em 1961.

Em fevereiro de 1982, o recém-construído Salão de Assembléias de Lisboa foi dedicado pelo irmão F. W. Franz. A ocasião foi como uma reunião de família, pois ele foi o primeiro membro do Corpo Governante a visitar Portugal depois da segunda guerra mundial em 1947. Este belo edifício com 1.315 lugares sentados, foi construído pelos irmãos e serve a nove circuitos na área da Grande Lisboa.

RESULTADOS ATRAVÉS DO PODER DE DEUS

Lá em 1947, quando o primeiro relatório de serviço de campo foi enviado para Brooklyn, ninguém concebia a amplitude da presente organização teocrática em Portugal. Irmãos e irmãs zelosos, demasiado numerosos para mencionar por nome neste relatório, estribaram-se no Seu poder para pregarem as boas novas em cada recanto do território. Pioneiros têm ido para a Madeira, Açores, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Angola, Timor e Macau. Como o apóstolo Paulo disse, “segundo o seu poder que opera em nós”, Deus tem feito “mais do que superabundantemente além de todas as coisas que peçamos ou concebamos”, e um testemunho magnífico tem sido dado. — Efé. 3:20.

Alguns dos primeiros pioneiros estão ainda ativos nas suas designações. As fileiras dos pioneiros especiais tem aumentado para 202. Como se sentem? A irmã Maria José Henriques, que tem servido como pioneira especial há mais de 20 anos, diz: “Tenho 60 anos, mas ainda sinto a mesma alegria no serviço e o mesmo desejo de ajudar outros. Tem sido meu o privilégio de ajudar 89 até ao batismo e deixar muitos outros bem encaminhados para a dedicação quando mudava para novas designações. Agradeço a Jeová todo o seu cuidado e benignidade imerecida.”

Outra irmã, Graciete Andrade, que tem servido como pioneira especial há 18 anos, comenta: “Tem sido emocionante ajudar 106 pessoas a aprenderem a verdade, bem como lançar as bases para três congregações. Ver homens maduros tomarem a liderança nas congregações como anciãos e saber que tive o privilégio de os ajudar, traz-me profunda satisfação.”

A obra continua a crescer e o auge do ano de serviço de 1982 subiu para 22.515 publicadores do Reino em 393 congregações e grupos isolados. Embora a proporção geral seja de uma Testemunha para 413 habitantes, ainda há muito trabalho para ser feito, pois 10 por cento da população vive em território não designado. A assistência à última Comemoração foi de 58.003 o que revela um esplêndido potencial para crescimento futuro.

A organização de Jeová tem guiado e dirigido a obra em Portugal em tempos de dificuldades e de rápida expansão. O próprio Jeová, o Grande Pastor do seu rebanho, verdadeiramente está a cumprir a sua grandiosa promessa conforme relatado em Jeremias 23:3: “E eu mesmo reunirei o restante das minhas ovelhas dentre todas as terras às quais eu as dispersara e vou trazê-las de volta à sua pastagem, e certamente se tornarão fecundas e se tornarão muitas.” Os nossos irmãos portugueses avançam felizes para a parte final da obra de pregar o Reino, ajudando muitas mais pessoas semelhantes a ovelhas a aproveitarem-se deste dia de salvação.

[Foto na página 138]

Virgílio Ferguson designado em 1926 para cuidar dos interesses do Reino em Portugal, e João Feliciano, que voltou para sua terra natal em 1929 a fim de espalhar as boas novas.

[Foto na página 143]

Quando jovem, Eliseu Garrido interessou-se pela verdade e ajudou a tomar a liderança da obra em Portugal.

[Fotos na página 146]

Delmira M. S. Figueiredo e Deolinda P. Costa, irmãs zelosas que organizaram o grupo de estudo da Bíblia em Almada.

[Foto na página 151]

John Cooke foi a primeira Testemunha missionária em Portugal e ele desempenhou um papel chave em organizar a obra. Vemo-lo aqui com a sua esposa, Kathleen.

[Foto na página 153]

O apartamento do rés-do-chão deste edifício em Lisboa serviu como o primeiro Salão do Reino em Portugal.

[Foto na página 159]

A casa onde foram proferidos os primeiros discursos públicos nos Açores quando A. Nunes voltou para o Pico, a sua ilha natal.

[Foto na página 167]

António Manuel Cordeiro, que se tornou um dos primeiros pioneiros auxiliares em Portugal, e a sua esposa, Odete, ambos servindo ainda como pioneiros.

[Foto na página 169]

Um dos “piqueniques” realizados visando fortalecimento espiritual.

[Foto na página 191]

D. Piccone, o primeiro superintendente de circuito de tempo integral em Portugal, e a sua esposa, Elsa (casal à esquerda), e Joaquim Martins, um zeloso pregador das boas novas, e a sua família.

[Foto na página 240]

Filial em Estoril

[Foto na página 254]

Salão de Assembléias em Lisboa.

[Tabela na página 233]

(Para o texto formatado, veja a publicação)

22a

1982

20

1978

18

16

14

12

10

8

6

1968

4

2

1958

1948

1938

0

[Notas de rodapé 232]

a milhares de publicadores

[Mapas na página 136]

(Para o texto formatado, veja a publicação)

Portugal

Monção

Bragança

Braga

Peso da Régua

Lousã

Porto

Gondomar

Vila Nova de Gaia

Aveiro

Guarda

Coimbra

Caldas da Rainha

Torres Vedras

Lisboa

Estoril

Almada

Parede

Setúbal

Faro

ESPANHA

OCEANO ATLÂNTICO

Açores

FLORES

Santa Cruz

GRACIOSA

TERCEIRA

Angra do Heroísmo

SÃO MIGUEL

PICO

Ponta Delgada

Santa Maria

I. Madeira

PORTO SANTO

MADEIRA

Funchal

OCEANO ATLÂNTICO

Açores

EUROPA

I. Madeira

EUROPA

ÁFRICA

[Mapas na página 176]

Para o texto formatado, veja publicação)

Macau

ÁSIA

MACAU

AUSTRÁLIA

OCEANO ÍNDICO

CHINA

Macau

Taipa

Coloane

MAR DE MACAU

[Mapas na página 177]

(Para o texto formatado, veja a publicação)

OCEANO ATLÂNTICO

ÁFRICA

I. CABO VERDE

GUINÉ-BISSAU

ANGOLA

ÁSIA

OCEANO ÍNDICO

I. Cabo Verde

SANTO ANTÃO

SÃO VICENTE

SANTO CRUZ

SAL

BOA VISTA

MAIO

SÃO TIAGO

Praia

FOGO

BRAVA

Angola

Luanda

Nova Lisboa

Moçâmedes

ZAIRE

ZÂMBIA

NAMÍBIA

OCEANO ATLÂNTICO

Guiné-Bissau

Nova Lamego

Bafatá

SENEGAL

OCEANO ATLÂNTICO

GUINÉ

[Mapas na página 239]

(Para o texto formatado, veja a publicação)

Timor

TIMOR

Dili

MAR DE TIMOR

INDONÉSIA

AUSTRÁLIA

OCEANO ÍNDICO

ÁSIA

ÁFRICA

OCEANO ÍNDICO

OCEANO PACÍFICO

TIMOR

AUSTRÁLIA

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