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A tremenda influência da Bíblia — em campos despercebidos por muitosDespertai! — 1982 | 8 de setembro
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que a Bíblia é um livro “que tem poder de vencer todos os que se opõem a ela”. Não resta dúvida de que é em razão de outros também terem chegado a compreender a tremenda influência que a Bíblia pode ter sobre as atitudes das pessoas que alguns homens poderosos odiaram a Bíblia e perseguiram os que a amaram e a seguiram. É de surpreender que isso aconteceu também no campo da própria religião, conforme o mostrarão os artigos que se seguem.
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A atitude da Igreja Católica no passado para com a BíbliaDespertai! — 1982 | 8 de setembro
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A atitude da Igreja Católica no passado para com a Bíblia
APARECE a seguinte declaração interessante no livro A Guide to Catholic Reading (Guia Para Leitura Católica): “A maioria dos católicos leigos da geração mais antiga concordará que a leitura da Bíblia, sem a devida supervisão, era malvista pela maioria dos sacerdotes e das freiras católicas. Felizmente, a situação mudou radicalmente, e hoje os católicos são instados, exortados e incentivados por todos os lados a ler o Livro dos Livros.”
Inegavelmente, a atitude da Igreja Católica para com a Bíblia “mudou radicalmente” nas últimas décadas. Mais traduções populares católicas da Bíblia em línguas modernas têm aparecido nos últimos 30 anos do que durante os séculos precedentes. Mas o que são 30 anos na história de uma igreja que afirma que data do tempo dos apóstolos? Quais têm sido os antecedentes da Igreja Católica no decorrer dos séculos? Mostrou ela amor pela Bíblia, tornando-a disponível aos católicos e incentivando-os a lê-la? Ou demonstrou ódio aos que amaram a Bíblia?
Antes e Depois de Carlos Magno
Com toda justiça, é preciso dizer que a Igreja de Roma inicialmente favoreceu a tradução das Escrituras Sagradas para a língua vernácula. Não se deve esquecer que a língua comum dos cristãos primitivos era o grego. Continuou a ser assim por diversos séculos depois de surgir a apostasia com a morte dos apóstolos. Pode-se ver a evidência disso pelo fato de que no Primeiro Concílio Ecumênico, realizado em Nicéia, em 325 E.C., as sessões foram realizadas não em latim, mas em grego, e o famoso Credo Niceno, considerado a “base fundamental” da fé católica, foi redigido em grego.
A rivalidade entre Roma e Bizâncio (Constantinopla), no tocante a qual seria a capital religiosa da Igreja, desenvolveu-se no quarto século E.C., e a língua entrou nessa rivalidade. A parte oriental da igreja, sob o patriarca de Constantinopla, usava o grego na sua liturgia, e possuía a Bíblia inteira em grego (a tradução Septuaginta [ou Versão dos Setenta] das Escrituras Hebraicas e as Escrituras Gregas Cristãs). Todavia, a língua comum falada no ocidente não era o grego, mas o latim. Existiam várias versões das Escrituras no “latim antigo”, mas nenhuma destas predominava como tradução comum. Portanto, perto do fim do quarto século, Dâmaso, bispo de Roma, encarregou um erudito de nome Jerônimo de produzir tal versão comum da Bíblia em latim.
Jerônimo não usou o latim clássico, mas o latim vulgar — a língua comum do povo. Com o tempo, sua tradução chegou a ser conhecida por Vulgata (editio vulgata, edição comum ou popular). Tornou-se a Bíblia comum da Igreja Católica por mais de mil anos, permanecendo assim muito tempo depois de ter-se tornado o latim uma língua morta. Mas o fato importante e que a Vulgata latina era originalmente uma Bíblia em língua comum.
Com a desintegração do Império Romano e do sistema secular de escolas, que prevalecia nos tempos romanos, o clero superior da Igreja Católica a bem dizer monopolizou o campo da educação. Negligenciou lastimavelmente essa oportunidade, e isso resultou na difundida ignorância que se tornou característica da Era do Obscurantismo.
Perto do fim do oitavo século, o Imperador Carlos Magno deplorou a crassa ignorância do povo e do clero inferior no seu domínio. Ele tem sido chamado o “criador da educação medieval”. Convocou para a sua corte sábios como o teólogo inglês Alcuíno, que revisou o texto corrompido da Vulgata de Jerônimo. Carlos Magno ordenou a criação de scriptoria, ou salas para escrever, em mosteiros, para se copiar manuscritos. Seus esforços de promover a educação beneficiaram principalmente o clero e a nobreza, pois esses manuscritos eram em latim, que, naquele tempo, estava sendo substituído por línguas vernáculas entre o povo comum da Europa.
Migalhas Para o Povo Comum
É verdade que, sob a influência de Carlos Magno, o Concílio de Tours, França, realizado em 813, decretou que as homílias, ou sermões, para o povo comum deviam ser traduzidas para a língua local. Mas não se emitiu tal decreto para a tradução da própria Bíblia para o povo. Como desculpa, a Catholic Encyclopœdia declara:
“Os livros só existiam em forma de manuscritos e, sendo dispendiosos, estavam além dos recursos da maioria das pessoas. Além disso, mesmo que fosse possível o povo possuir livros, não os poderia ler, visto que naquelas épocas primitivas, a educação era privilégio de poucos. De fato, quase ninguém sabia ler, fora a classe do clero e dos monges.” Mas de quem era a culpa por permanecerem analfabetas as massas do povo? E por que esperou a Igreja Católica Romana até o Rei Carlos Magno promover a educação, mesmo entre o clero inferior?
Ao contrário de favorecer a educação entre as massas e traduções da Bíblia para línguas locais, a Igreja Católica incentivou a produção de ‘livros dos ignorantes’: Bíblias em gravuras (como a Bíblia pauperum, ou a Bíblia dos pobres), histórias da Bíblia, peças teatrais de milagres, estátuas e obras de talha, pinturas murais e vitrais nas igrejas sobre temas bíblicos. Essas eram as migalhas que o clero católico deixava cair da rica mesa do conhecimento bíblico que guardava para si e para poucos reis e nobres privilegiados.
Conseqüências Imprevistas
A campanha de educação de Carlos Magno teve conseqüências imprevistas para a Igreja Católica Romana. Após a morte de Carlos Magno — ao se difundir a educação entre o clero inferior e a nobreza, e manuscritos da Bíblia circularem em latim — os sacerdotes, os monges, os reis, as rainhas, os senhores medievais e as damas nobres começaram a fazer perguntas sobre a doutrina católica, em comparação com a Bíblia. Exigiram também a Bíblia em língua vernácula, e a Igreja Romana permitiu naquela época que trechos das Escrituras fossem traduzidos para o clero e para a nobreza.
Alguns dos que leram a bíblia — até mesmo alguns dentre o clero — se tornaram dissidentes da pré-Reforma. Mencionando-se apenas alguns, Bérenger de Tours (morreu em 1088), Pedro de Bruys (morreu em 1140) e Henrique de Lausanne ou de Cluny (morreu na prisão depois de 1148) eram todos sacerdotes franceses que colocaram a Bíblia acima dos dogmas católicos e sofreram por isso.
Outrossim, à medida que o povo comum ouvia sermões nas suas línguas nativas e via temas bíblicos ilustrados nas Bíblias em gravuras (escritas em latim) e em várias obras de arte sacra, aguçava-se-lhes o apetite por conhecimento bíblico. Traduções “não-autorizadas” de partes da Bíblia começaram a circular, e grupos dissidentes, como os valdenses, começaram a pregar as verdades da Bíblia na França, na Itália, na Espanha e em outros países europeus. Isto era algo que Roma não esperava. Assim, a partir dos séculos 12 e 13, a atitude da Igreja Católica para com a Bíblia mudou radicalmente. Para Roma, ela se tornou um livro perigoso, conforme o mostrarão os seguintes fatos históricos.
[Foto na página 4]
Jerônimo foi encarregado por Dâmaso, bispo de Roma, de traduzir a Bíblia para o Latim do povo comum.
[Foto na página 5]
O programa educacional de Carlos Magno beneficiou principalmente o clero e a nobreza.
[Foto na página 6]
Quando dissidentes começaram a pregar a Bíblia, a atitude da Igreja para com ela mudou.
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Antecedentes de oposição à educação bíblicaDespertai! — 1982 | 8 de setembro
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Antecedentes de oposição à educação bíblica
1179 O papa Alexandre III proibiu os valdenses de pregar, os quais faziam pregação com uma tradução em língua comum de partes da Bíblia.
1184 No Sínodo de Verona, Itália, o papa Lúcio III, com o apoio do Imperador Frederico I Barba-Roxa do Sacro Império Romano, decretou a excomunhão e a entrega às autoridades civis para punição (geralmente serem queimados) de todos os “heréticos” amantes da Bíblia que persistissem em pregar ou até mesmo em pensar de modo contrário ao dogma católico.
1199 O papa Inocêncio III condenou a tradução para o francês dos Salmos, dos Evangelhos e das cartas de Paulo, e proibiu as reuniões realizadas na diocese de Metz, França, para o “repreensível propósito” de estudar as Escrituras. Quaisquer cópias dessas traduções vernáculas que pudessem ser encontradas eram queimadas pelos monges cistercienses.
1211 Por ordem do papa Inocêncio III, o bispo Berkam, de Metz, organizou uma cruzada contra todos os que liam a Bíblia em língua vernácula, e quaisquer dessas Bíblias encontradas eram devidamente queimadas.
1215 O Quarto Concílio de Latrão foi realizado, e os três primeiros cânones foram dirigidos contra os hereges que ousavam “assumir a responsabilidade de pregar”. O Dictionnaire de Théologie Catholique reconhece que essa medida tinha por alvo principalmente os valdenses que pregavam usando a Bíblia em língua comum.
1229 O cânone 14 do Concílio de Toulouse, França, declara: “Proibimos aos leigos a posse de qualquer cópia dos livros do Velho e do Novo Testamento, exceto o Saltério, e os trechos deles contidos no Breviário, ou nas Horas da Bendita Virgem; e proibimos com o máximo rigor até mesmo estas obras em língua comum.”
1246 O cânone 36 do Concílio de Béziers, França, estipula: “Deverão cuidar de que todos os meios justos e legais sejam usados para impedir que os leigos possuam livros teológicos, mesmo em latim, e o clero de possui-los em língua comum.”
1559 “O [papa] Paulo IV colocou uma série inteira de Bíblias latinas entre a Bíblia prohibita (livros proibidos); acrescentou que não se pode imprimir nenhuma Bíblia em língua vernácula, tampouco possuí-la sem a permissão da Cúria Romana. Isto representava uma proibição de ler a Bíblia em qualquer língua comum.” — Dictionnaire de Théologie Catholique, Volume 15, coluna 2738.
1564 A quarta regra do índex (de livros proibidos), publicado pelo papa Pio IV, declarava: “A experiência tem mostrado que, se se permitir indiscriminadamente a leitura da Bíblia na língua comum, mais dano será causado com isso do que bem, devido a irreflexão dos homens.”
1590 O papa Sisto V estipulou que ninguém podia ler a Bíblia em língua comum sem “permissão especial da Sé apostólica”.
1664 O papa Alexandre VII pôs todas as Bíblias em língua vernácula no índex de livros proibidos.
1836 O papa Gregório XVI emitiu um aviso a todos os católicos de que a quarta regra do índex, publicado em 1564 pelo Pio IV, ainda vigorava.
1897 Na sua Constituição Apostólica Officiorum, o papa Leão XIII passou as seguintes restrições sobre o uso de Bíblias em língua comum: “Todas as versões em língua nativa, mesmo as publicadas pelos católicos, são absolutamente proibidas, a menos que tenham sido aprovadas pela Sé apostólica ou editadas sob a supervisão de bispos, com notas explanatórias dos Padres da Igreja e escritores católicos eruditos. . . . Todas as versões dos Livros Sagrados feitas por qualquer escritor não-católico e em qualquer língua comum, são proibidas, especialmente as publicadas por sociedades bíblicas que foram condenadas pelo Pontífice de Roma em diversas ocasiões.”
1955 Resumindo as razões da oposição da Igreja Católica à educação bíblica, o autor católico francês Daniel-Rops escreveu, com o devido “Nihil Obstat” e o “Imprimatur” das autoridades eclesiásticas: “Devolvendo ao Livro [à Bíblia] sua supremacia e seu renome, Lutero e outros ‘reformadores’ cometeram o inexpiável erro de separá-los da Tradição que salvaguardou seu texto e contribuiu muito para seu entendimento. Uma vez que a Bíblia se tornou a única fonte de fé e de vida espiritual para o homem, ela proveu os meios de se passar sem a Igreja . . . A Igreja Católica . . . reagiu com as medidas protetivas tomadas no Concílio de Trento [1545-1563], que, entre outras coisas, proibiu os fiéis de ler versões das Escrituras Sagradas em línguas comuns, a não ser que fossem aprovadas pela Igreja e contivessem comentários em harmonia com a Tradição Católica. . . . Tornou-se comum ouvir as pessoas repetir que ‘o católico não deve ler a Bíblia’.” — Qu’est-ce que la Bible. (O Que É a Bíblia?)
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Como o protestantismo destrói o respeito pela BíbliaDespertai! — 1982 | 8 de setembro
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Como o protestantismo destrói o respeito pela Bíblia
A OPOSIÇÃO, de há séculos, da Igreja Católica à leitura da Bíblia por parte do povo comum em qualquer língua vernácula tem levado muitos católicos sinceros a pensar que a Bíblia é um “Livro protestante”. E, naturalmente, os próprios protestantes consideram que sua religião é 100 por cento baseada na Bíblia. Certa autoridade declara: “Não é erro dizer que a própria base [do protestantismo] ainda é a Bíblia, que contém a Palavra de Deus, ou que é o livro da Igreja, do lar e do indivíduo, que é o livro que o protestante consulta para obter conselho prático sobre sua vida moral, sua vida social e seu conceito sobre o homem, sua natureza, seu destino e sua relação com Deus.”a
Certo artigo erudito sobre a história do protestantismo traz um subtítulo “O Papel da Bíblia”, e declara: “O fator comum no protestantismo tem sido a aceitação da supremacia da Bíblia sobre as igrejas; a crença de que ministérios eclesiásticos, ou hierarquias, haviam de ser testados em confronto com a Bíblia como sendo a palavra de Deus; a doutrina de que todas as coisas necessárias para a salvação haviam de ser encontradas na Escritura Sagrada.” — Encyclopœdia Britannica, 1979.
Assim, o protestante mediano sente-se geralmente mais achegado à Bíblia do que o católico mediano, que sabe que se espera dele que dê à tradição da Igreja o mesmo crédito que às Escrituras Sagradas. Mas será que é verdade que a Bíblia é a “própria base” das doutrinas do protestantismo, e será que o protestante mediano (quer seja clérigo, quer leigo) ainda recorre à Bíblia “em busca de conselho prático sobre sua vida moral”?
Exagerada a Afirmação de Que se Apega à Bíblia
Os fatos mostram que desde os primórdios da Reforma, tem sido grandemente exagerada a afirmação de que o protestantismo se apega estritamente à Bíblia. Embora o nome de Lutero esteja indelevelmente ligado à sua tradução da Bíblia, na sua teologia ele colocou o “critério individual” acima daquilo que está claramente escrito na Bíblia. Nos seus empenhos de provar a “justificação pela graça por meio da fé”, Lutero valorizou os livros bíblicos de Romanos e de Gálatas e desvalorizou livros canônicos tais como de Hebreus, de Tiago, de Judas e de Revelação (Apocalipse), criando assim o que tem sido chamado de “cânon dentro do cânon”.
Similarmente, João Calvino honrou a Bíblia da boca para fora, mas na sua principal obra, Instituição da Religião Cristã, ele apresentou doutrinas antibíblicas tais como da Trindade (Tomo I), de que o homem não nasceu com livre-arbítrio (Tomo II), da predestinação absoluta (Tomo III) e do batismo de bebês (Tomo IV). Teve também parte na responsabilidade pela prisão e conseqüente morte na fogueira de Miguel Servet, outro reformador, que não tinha, porém, o conceito de Calvino sobre a Trindade. Era isso um reconhecimento “da supremacia da Bíblia”, como, por exemplo, seu conselho dado em Romanos 12:17-21, contra revidar? Dificilmente!
Outrossim, os reformadores e as igrejas protestantes que estes formaram continuaram a aceitar os credos formulados por anteriores concílios ecumênicos da Igreja Católica, como os credos niceno e atanasiano, que apresentaram doutrinas antibíblicas tais como da Trindade e do inferno de fogo. O protestantismo produziu sua própria safra de credos, entre outros a Confissão de Augsburgo pelos luteranos, a Segunda Confissão helvética das igrejas reformadas e os Trinta e Nove Artigos anglicanos e episcopais, todos os quais exigem que se creia em doutrinas antibíblicas como a da Trindade. Mais recentemente, o Conselho Mundial das Igrejas Protestantes publicou como sendo “fundamental” para se tornar membro a necessidade de confessar Jesus “como Deus”. Assim, desde seu próprio início até o dia atual, há grande exagero na afirmação de que o protestantismo se apega doutrinalmente à Bíblia. — Veja João 17:3; 1 Coríntios 8:6; Atos 3:23 e Salmo 146:4, onde a Bíblia mostra claramente que não Jesus, mas seu Pai é o “único Deus verdadeiro”, e que a alma não sobrevive quando uma pessoa morre.
O Protestantismo e a Alta Crítica
A própria natureza do protestantismo, nascido da rebelião contra a tradição e a autoridade do papa de Roma, o tornou mais vulnerável do que a Igreja Católica conservadora ao racionalismo e aos aspectos negativos da crítica da Bíblia. Será sem dúvida útil explicar aqui o que significa crítica da Bíblia. Ela divide-se em dois ramos: A baixa crítica é a investigação erudita dos manuscritos da Bíblia, de sua origem, sua preservação e seu valor relativo em relação aos originais, que não estão mais disponíveis. Isto é às vezes chamado de crítica textual. A alta crítica é o estudo da autoria, da data da escrita e da exatidão histórica da Bíblia, à luz da arqueologia e da história.
A baixa crítica tem feito muito para promover erudição bíblica, cortando as interpolações e produzindo fidedignos textos padrões, que provêm a base de traduções melhores da Bíblia. Por outro lado, a alta crítica abriu as comportas de uma enxurrada de obras pseudo-eruditas, cujo efeito tem sido o de destruir a confiança das pessoas na Bíblia.
Comentando a vulnerabilidade do protestantismo ao racionalismo e à destrutiva alta crítica, a Encyclopœdia Britannica (1979) escreve:
“A questão da crítica bíblica foi levantada pela primeira vez nas universidades alemãs; i.e., se um homem podia ser um cristão, e até um bom cristão, mesmo considerando algumas partes da Bíblia como não sendo verdadeiras. Isto se tornou a grande questão para o protestantismo, se não também para toda a cristandade, no século 19. . . . O protestantismo alemão mostrou finalmente elasticidade, ou vistas largas, em face do novo conhecimento, que foi tão influente no desenvolvimento das igrejas cristãs quanto os critérios originais da Reforma. Devendo em parte a este exemplo alemão, as igrejas protestantes da principal tradição — luterana, reformada, anglicana, congregacional, metodista e muitas comunidades batistas — ajustarem se com relativa facilidade (do ponto de vista intelectual) aos avanços da ciência, à idéia da evolução e ao progresso na antropologia ou religião comparativa”
Classificando certos trechos da Bíblia como lendas, muitos membros do clero protestante lançarem dúvidas sobre a Bíblia inteira. De fato, no prefácio, sob o título “A Bíblia: Sua Importância e Sua Autoridade”, a obra protestante de 12 volumes, Interpreter’s Bible (A Bíblia do Intérprete), chega até a declarar. “Segue-se desta breve investigação que não seria nem no mínimo contrário à própria Escritura, mas antes em harmonia com ela, tampouco seria contrário a qualquer essencial da fé cristã, se deixássemos totalmente de falar das Escrituras como sendo a Palavra de Deus.”
Tais declarações destroem a influência da Bíblia na vida das pessoas com até mais eficácia do que a bula papal que proibia a leitura da Bíblia.
Os Fundamentalistas — Não São Verdadeiros Amigos da Bíblia
Um ramo do protestantismo, porém, tem resistido ao ataque da alta crítica. Chama-se fundamentalismo. Tem sido definido como ‘um movimento militantemente conservador, que surgiu em princípios do século 20, em oposição às tendências modernistas, e salienta como sendo fundamental ao cristianismo a interpretação literal e absoluta inerrância das Escrituras’.
Os fundamentalistas estão certos em afirmar que a Bíblia é inspirada por Deus, e é elogiável a sua luta contra a destrutiva alta crítica e teorias pseudocientíficas como a evolução. Mas, será que realmente elevam a Bíblia na mente das pessoas razoáveis ao sustentarem que tudo o que está escrito na Bíblia deve ser tomado literalmente? Estão promovendo os interesses da Bíblia ao dizerem que a terra foi criada em seis dias de vinte e quatro horas, visto que a própria Bíblia emprega a palavra “dia” para designar períodos de tempo de extensões variadas? — Compare Gênesis capítulo 1 com Gênesis 2:4 e 5:1; também 2 Pedro 3:8.
Outrossim, são os fundamentalistas verdadeiros amigos da Bíblia quando, ao passo que afirmam apegar-se estritamente às Escrituras, ensinam doutrinas antibíblicas como a Trindade (compare com Deuteronômio 6:4; João 14:28), a imortalidade da alma (Ezequiel 18:4) e o inferno de fogo (Jeremias 7:31; Romanos 6:23)? Mediante suas interpretações literais da Bíblia e seu ensinamento de doutrinas como estas que desonram a Deus, os protestantes fundamentalistas minam o poder da Bíblia na mente de muitas pessoas.
O Protestantismo e a Mundanalidade
Jesus disse a seus discípulos: “Se fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; mas, porque não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos odeia.” (João 15:19, Versão da Imprensa Bíblica Brasileira) Contudo, é um fato patente que as principais igrejas protestantes tomam parte ativa nos sistemas políticos deste mundo, algumas delas sendo até mesmo “religiões estatais”. Certa obra de referência declara: “É possível falar da contribuição do protestantismo ao nacionalismo moderno. . . . Todos, exceto os radicais, tinham tendências a dar importância à lealdade ao estado existente, e os protestantes muitas vezes proviam uma base ideológica para cada novo estado, à medida que se reconhecia como tal — como foi o caso na Prússia ou nos Estados Unidos.” — Encyclopœdia Britannica.
No início deste artigo, citou-se um escritor protestante que disse que a Bíblia é “o livro que o protestante consulta para obter conselho prático sobre sua vida moral”. Pode-se ainda dizer que é assim, quando um clérigo após outro, das principais igrejas protestantes, fazem declarações que aprovam o sexo pré-nupcial, o adultério, o homossexualismo e o aborto? Um artigo no diário francês Le Monde, intitulado “Muitas Igrejas Abrem o Rol de Homossexuais” e, baseado numa notícia publicada em Genebra, na Suíça, pelo Conselho Mundial das Igrejas, revelava que diversas das grandes igrejas protestantes até mesmo toleravam ministros homossexuais. Contudo, a Bíblia declara: “Não sejais iludidos: Nem os sexualmente imorais, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os varões prostituídos, nem os ofensores homossexuais . . . herdarão o reino de Deus.” — 1 Coríntios 6:9, 10, New International Version.
Assim, embora o protestantismo não tenha antecedentes de ódio à Bíblia e aos que a lêem nos idiomas comuns, como no caso da Igreja Católica através dos séculos, contudo, por meio de sua crença nas doutrinas antibíblicas, sua aceitação da alta crítica e de teorias pseudocientíficas, sua mundanalidade e sua aceitação da moral permissiva, o protestantismo é grandemente responsável de destruir a influência da Bíblia na vida de milhões de pessoas.
Contudo, apesar da oposição de há séculos do catolicismo à leitura da Bíblia por parte do povo comum e do fato de o protestantismo minar a Palavra de Deus de modo mais sutil, não obstante devastador, a Bíblia ainda é um livro para com qual raramente as pessoas são indiferentes. Amam-na ou a odeiam. Examinaremos no artigo concludente desta série de artigos qual é precisamente o motivo disto e como influi em você.
[Nota(s) de rodapé]
a Histoire du Protestantisme, de J. Boisset, página 6.
[Foto na página 9]
Para apoiar suas idéias, Lutero valorizou certos livros da Bíblia e desvalorizou outros.
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O motivo por que a Bíblia é amada ou odiadaDespertai! — 1982 | 8 de setembro
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O motivo por que a Bíblia é amada ou odiada
QUALQUER livro que teve tão profundo impacto na história, na arte, na língua e nas idéias não pode deixar de impor respeito. Um livro pelo qual houve pessoas dispostas a morrer, porque persistiram em traduzi-lo e em distribuí-lo, certamente merece ser considerado.
O próprio fato de a Bíblia não só ser amada, mas também odiada, indica que é um livro diferente. Muitas pessoas de língua inglesa gostam de Shakespeare, muitos alemães gostam de Goethe e muitas pessoas de língua espanhola gostam de ler Cervantes. Mas as obras literárias desses autores não suscitam ódio; as pessoas não morrem por lerem Shakespeare, Goethe ou Cervantes. Os governos não baixam leis, e as autoridades religiosas não publicam bulas ou decretos contra os livros escritos por tais autores, tampouco fazem isso contra livros religiosos tais como os Vedas e o Alcorão. Então, por que suscitou a Bíblia tão fortes sentimentos — a favor e contra — por um período de séculos?
Por Que É um Livro Odiado
Napoleão tinha razão em dizer que a Bíblia tem o “poder de vencer todos os que se opõem a ela”. A própria existência dela hoje, apesar de todos os esforços envidados para destruí-la, é um milagre.
A própria Bíblia diz: “A Palavra que Deus fala é viva e ativa; corta mais aguçadamente do que uma espada de dois gumes: ela penetra . . . no mais íntimo do ser humano: examina os próprios pensamentos e motivos do coração do homem.” (Hebreus 4:12, Phillips) Sim, “a Palavra que Deus fala”, e que está registrada por escrito na Bíblia, é viva Leva irresistivelmente ao cumprimento de tudo o que Deus predisse. Ao assim fazer, influi profundamente na vida dos homens e das mulheres, induzindo muitos a colocar a lealdade a Deus acima de toda outra coisa. Esse é o motivo pelo qual muitíssimos ditadores políticos e regimes totalitários a odeiam, a banem e perseguem os que vivem em harmonia com ela.
Os líderes religiosos da igreja católica e de algumas igrejas ortodoxas também se opuseram fortemente à distribuição da Bíblia, procurando suprimir a leitura dela nas línguas comuns. Por quê? Porque as pessoas que leram a Palavra de Deus se libertaram das tradições e dos dogmas que desonram a Deus e que não se encontram em parte alguma da Bíblia, sendo também contrários aos seus ensinamentos.
Não Tenha Opinião Errônea da Bíblia
Não cometa o erro de julgar a Bíblia à base dos que a citam. Jesus, falando aos líderes religiosos dos seus dias, que não tinham fé, disse: “Invalidastes a Palavra de Deus por causa da vossa tradição. Hipócritas! Bem profetizou Isaías a vosso respeito, quando disse: Este povo me honra com os lábios, mas o coração está longe de mim. Em vão me prestam culto, pois o que ensinam são mandamentos humanos.” — Mateus 15:6-9, A Bíblia de Jerusalém.
Hoje, os eclesiásticos da cristandade ainda honram a Bíblia da boca para fora, tal como o recém-manifesto entusiasmo da Igreja Católica por novas traduções da Bíblia e a relativamente recente autorização concedida aos católicos para ler a Bíblia Mas, a igreja ainda ensina doutrinas baseadas nas tradições, que ‘invalidam a palavra de Deus’.
Os protestantes ainda gostam de afirmar que a Bíblia é a “própria base” de sua religião, mas eles também acreditam em muitas doutrinas que não se encontram na Bíblia. Outrossim, grande número de seus ministros considera boa parte da Bíblia como sendo mito, e milhões de protestantes — inclusive alguns clérigos — lançaram água abaixo as elevadas normas morais da Bíblia
Similarmente, é impossível julgar a Bíblia à base de como os católicos e os protestantes têm agido através dos séculos. Tanto estes como aqueles usaram, às vezes, métodos inquisitoriais uns contra os outros, e derramaram o sangue uns dos outros em guerras religiosas. A violência na Irlanda hoje mostra que tais religiões não são realmente baseadas na Bíblia. — Compare com Isaías 2:4.
Descubra o Que a Bíblia Realmente Ensina
Tanto pelos seus ensinos como pelos seus atos, o catolicismo e o protestantismo representaram mal a Bíblia. Portanto, uma pessoa honesta precisa pôr de lado quaisquer preconceitos que tenha e descobrir por si mesma o que a Bíblia é afinal, e por que é um livro tão notável.
A Bíblia não ensina a doutrina da Trindade. O Criador não é três pessoas em um só deus, mas um só Deus Todo-poderoso. (1 Coríntios 8:4, 6; Deuteronômio 6:4) Seu nome pessoal é Jeová, às vezes transcrito Iahweh. (Êxodo 6:3; Salmo 83:18, Versão Almeida; BJ) Jesus é filho de Jeová e se sujeita à chefia dele. (2 João 3; 1 Coríntios 11:3) O Pai, Jeová, oferece-nos a vida eterna por meio de seu Filho. (João 3:16) A escolha posta diante de
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