-
O que há por trás dos problemas do dólar?Despertai! — 1972 | 22 de fevereiro
-
-
Isso realmente cria empregos. Mas, tais empregos não produzem riqueza econômica, nada de verdadeiro valor para o gênero humano. Melhoraram o solo, as casas, as árvores, os parques, as escolas ou os hospitais? Se o dinheiro usado na produção bélica fosse usado para tais coisas, então haveria benefícios econômicos reais e duradouros.
Do ponto de vista de longo alcance, portanto, os gastos bélicos por parte de todas as nações não aumentam sua riqueza, mas a drenam. E, no caso dos EUA, enormes gastos militares no ultramar são a principal razão de estarem indo à falência em suas contas internacionais.
Acontecimento Ominoso
Ultimamente, tem havido outro acontecimento ominoso do ponto de vista dos EUA. As enormes reservas que certa vez possuíam em suas transações comerciais com outras nações estão desaparecendo.
Nos tempos recentes, as importações aumentam em índice mais rápido do que as exportações. Outros países conseguem agora produzir muitos dos itens que apenas os EUA produziam com eficiência algumas décadas. E muitos destes países produzem-nos a um custo muito inferior.
Devido à inflação, os preços dos produtos norte-americanos sobem rapidamente. Isto os torna mais custosos no comércio mundial. Os estrangeiros preferem comprar de outras nações que produzem os itens de igual qualidade, porém de menor preço.
Os consumidores estadunidenses também agravam o problema. Por causa do alto preço dos itens estadunidenses, compram cada vez mais os produtos feitos no estrangeiro. Este ano, dois de cada cinco pares de sapatos vendidos nos EUA são importados. Seis de cada dez televisões são agora importadas, como o são nove de cada dez rádios. Automóveis estrangeiros, tais como o Volkswagen da Alemanha, e o Toyota e o Datsun, do Japão, estão sendo espalhados pelo país, reduzindo a produção local.
Assim, itens estrangeiros estão engolindo os mercados em toda a parte. Estão prejudicando as vendas dos EUA a outros países, bem como as suas vendas internas. Se continuar a tendência, os EUA logo terão déficit, mesmo que sejam eliminadas todas as despesas militares no ultramar.
Desequilíbrio Leva à Crise
Os déficits no balanço de pagamentos dos EUA continuam a aumentar com o passar dos anos. No entanto, pela pressão política ou outras, as autoridades estadunidenses convenceram outras nações a não converter seus dólares em ouro. Avisaram que qualquer ‘corrida’ em busca de seu ouro produziria uma crise para todas as nações do Fundo, visto que estão intimamente relacionadas.
Todavia, chega a ocasião em que até o banqueiro bondoso não tem muito ou nada a escolher. Tem de dizer ao cliente de empréstimos: ‘Nada Mais!’ Isso aconteceu na primavera setentrional de 1971. Esta ação drástica foi provocada por uma situação surgida em 1970 e no início de 1971.
Em 1970 os EUA sofreram uma recessão. Entre as várias coisas feitas para tentar sair desta recessão, acha-se a redução das taxas de juros. Isto usualmente estimula os negócios, visto que torna o dinheiro mais barato de se tomar emprestado. Aqueles que desejam comprar carros, construir casas, ou expandir os negócios, provavelmente farão empréstimos e usarão o dinheiro quando as taxas de juros são mais baixas.
No entanto, com taxas de juros mais baixas, os que têm dinheiro a investir obtêm menores lucros. Assim, muitos levaram o dinheiro dos investimentos norte-americanos e o colocaram nos investimentos europeus, onde as taxas de juros eram mais altas.
Na primavera setentrional de 1971, os dólares inundaram a Europa. Não só os investidores procuravam taxas maiores de juros, mas, devido à debilidade do dólar, os especuladores desejavam livrar-se dos dólares e comprar as moedas européias mais fortes, em especial o marco alemão. Achavam que tais moedas mais fortes subiriam de valor e eles lucrariam.
Não obstante, quando tal dinheiro é derramado num país, essa nação tem mais a gastar e a emprestar, o que açula a inflação. Assim, ao passo que os déficits norte-americanos já eram bastante ruins, no decorrer dos anos, este fluxo de dólares para a Europa, especialmente para a Alemanha, era só o que faltava. Os bancos centrais de vários países europeus subitamente disseram: ‘Nada Mais!’ Recusaram-se temporariamente a aceitar quaisquer outros dólares. Daí, permitiram que suas moedas ‘flutuassem’ para cima nos mercados financeiros.
Isto significava que não iriam aderir ao acordo do Fundo Monetário, de permitir que suas moedas flutuassem apenas 1 por cento. Permitiram que sua moeda procurasse seu próprio nível, segundo a lei da oferta e procura. Visto que a procura de dólares era pouca e a procura de moedas européias era grande, o valor de tais moedas subiu vários pontos percentualmente.
Para todos os fins práticos, isto significava uma desvalorização do dólar. Visto que os EUA não fariam isso eles próprios, as outras nações fizeram isso por eles, por revalorizarem suas moedas. O resultado foi o mesmo. Agora, custa mais dólares para se comprar os mesmos produtos e serviços estrangeiros.
-
-
Pode o problema ser resolvido?Despertai! — 1972 | 22 de fevereiro
-
-
Pode o problema ser resolvido?
PODEM os déficits do balanço de pagamentos dos EUA serem eliminados?
O que reserva o futuro para os sistemas monetários do mundo?
Para eliminar o déficit os EUA precisam fazer mudanças fundamentais em seu modo de vida. Isso teria de incluir sérias reduções nos gastos militares. Significaria reduzir concentrações de tropas por todo o mundo, ou, pelo menos, conseguir que outros países as custeassem. Ambas as coisas são difíceis de serem feitas.
Uma sugestão, em maio de 1971, de que os mais de 300.000 soldados dos EUA e seus 200.000 dependentes, na Europa, fossem reduzidos para economizar dinheiro, suscitou tamanhos clamores por parte da administração. As considerações políticas venceram. Apesar do amplo escoamento de dólares, as tropas e seus dependentes permaneceriam, pelo presente.
Uma área em que as reduções estão sendo feitas é a Ásia e o Pacífico. Soldados estão sendo retirados de muitas áreas ali, inclusive do Vietnam.
Um Dilema
Em adição aos cortes militares maiores, os EUA teriam de reduzir a inflação, de forma a não deixar continuarem a aumentar os preços. Preços menores tornariam seus produtos mais competitivos no comércio mundial.
Mas, fazer isso não raro resulta numa redução do ritmo dos negócios, com maior desemprego. Foi isso que aconteceu em 1970, quando se fez a tentativa de reduzir a inflação galopante. As taxas de juros foram aumentadas, para tornar mais difícil a obtenção de dinheiro. Certos gastos foram cortados, por parte do governo e do comércio. Tudo isso ajudou a trazer uma recessão e alta taxa de desemprego. Nenhum partido político em poder deseja isto.
Por isso, os EUA se acham num dilema. A fim de reduzir o fluxo de dólar e diminuir o déficit, têm de eliminar a inflação no país. Mas, tal coisa reduz a economia e deixa irados a milhões de norte-americanos. É por isso que uma recessão é considerada maior mal, politicamente, do que deixar irados os outros países. Tais países não votam nas eleições norte-americanas.
Por outro lado, estimular os negócios estadunidenses para evitar ou corrigir a recessão usualmente estimula a inflação. Reduzem-se as taxas de juros de forma que mais dinheiro seja emprestado e usado. Aumentam os gastos governamentais e do comércio. Com dinheiro mais fácil de ser obtido, as pessoas gastam mais. Assim, a procura de mais itens é criada, exigindo maior produção, que, por sua vez, significa mais empregos. Mas, daí os preços tendem a aumentar, tornando os produtos estadunidenses mais custosos, menos competitivos no comércio mundial.
Havendo maior prosperidade, as pessoas de usual gastam mais dinheiro em tudo, inclusive em produtos estrangeiros. E é mais provável que gozem férias no exterior. Tudo isto agrava o balanço de pagamentos. É por causa deste dilema que o Presidente da Reserva Federal, Arthur Burns, observou que a situação financeira dos EUA é tão frágil que ele duvidava que pudesse sobreviver a outro vertiginoso surto econômico agora mesmo.
As Perspectivas
Quais são as perspectivas de que algo seja feito para fazer cessar os déficits? Algumas autoridades governamentais tendem a ser otimistas.
No entanto, muitos economistas particulares não o são. O Dr. Roy Reierson, principal economista do “Bankers Trust”, declara: “Os EUA têm de reduzir o déficit de seu balanço de pagamentos de modo que a reserva de dólares venha quase a se igualar à procura de dólares por parte dos detentores particulares e oficiais. Os EUA não têm feito isto, e há pouca possibilidade de que venham a fazê-lo.”
Certo economista observou que, no passado, sucessivos secretários do tesouro dos EUA prometeram acabar com os déficits, dentro de poucos anos, mas jamais cumpriram suas promessas. Ao invés, os déficits cresceram rapidamente. Assim, o problema básico de se conseguir um equilíbrio exeqüível entre as nações ocidentais e os EUA permanece insolúvel no momento atual.
Por causa disto, Myers’ Finance Review, do Canadá, avisa: “O mundo se aproxima duma crise monetária que engolfará toda moeda existente.” E certo banqueiro europeu afirma: “Talvez terminemos na pior desordem financeira desde a década de 1930.”
Deveras, o respeitado economista francês Jacques Rueff, ao passo que demonstra simpatia para com os problemas do dólar dos EUA, declarou: “Temo que já esteja fora de controle, e que o balanço de pagamentos só seja restaurado por uma consolidação forçada — isto é, a falência — como se deu em 1931.”
Mesmo que melhoras temporárias sejam feitas, o que dizer das perspectivas a longo prazo? Poderia tomar de novo conta do mundo uma desordem financeira semelhante à Grande Depressão da década de 1930?
Em realidade, é quase certa uma desordem ainda maior! Qualquer sistema alicerçado nos interesses egoístas semeia as sementes de sua própria destruição. Se lhe concederem tempo, o atual sistema econômico mundial, baseado em interesses
-