A inflação aperta o cerco
“PRECISAMOS reconhecer que estamos em guerra . . . contra a inflação”, declarou a revista Business Week, dos EUA. Acrescentava: “Estamos, ademais, perdendo essa guerra.”
A “guerra” contra a inflação estava sendo perdida no sentido de que, não importam as medidas tomadas até agora, a inflação apertava seu cerco contra a economia mundial.
Como resultado disso, existe falta de confiança no dinheiro — isto é, no papel-moeda. Pode-se deduzir isto pelo preço do ouro. Historicamente, o ouro tem sido a “moeda” de último recurso, de máximo valor em tempos difíceis. Assim, é uma espécie de “barômetro” das condições econômicas. Há menos de 10 anos atrás, o preço do ouro era de US$ 35 a onça. Mas, em 1980, ultrapassou os US$ 870 a onça! Isto representa grande medida de confiança perdida no papel-moeda, e é indício de quão selvagem tem sido a inflação.
Durante todo o século 19, os preços eram relativamente estáveis. Mas, depois da Primeira Guerra Mundial, tornaram-se mais instáveis. Daí, após a Segunda Guerra Mundial, a inflação tornou-se parte da vida diária. Nos anos recentes, ficou mais pronunciada do que nunca, de modo que até mesmo nas recessões persiste a inflação.
Em certo mês de 1979, a inflação nos EUA registrou uma alta de 12 por cento sobre o ano anterior, 15 por cento no Japão, 18 por cento na Grã-Bretanha, e mais de 10 por cento na França. A República Federal da Alemanha, que possui uma das economias mais estáveis, apresentou um salto de 10 por cento naquele mês.
As Filipinas relatam que, desde 1966, o preço dos alimentos, das roupas e dos combustíveis mais do que quadruplicou. O preço do alimento básico do Japão, o arroz, aumentou mais de 500 por cento em duas décadas. O Brasil admitiu que sua inflação em 1979 foi de 77%, quase o dobro da de 1978, de 40%. Neste país, a revista Administração e Serviços comentou, “68 milhões de brasileiros não conseguem nem mesmo pensar em comprar um simples ferro elétrico”, por terem de gastar seu dinheiro nas necessidades básicas.
Alguns países africanos tiveram taxas de inflação de mais de 100 por cento em apenas um ano. A taxa de Israel estava próxima a esta, no ano passado, e desde a sua fundação, a mais de 30 anos, o índice de preços do consumidor subiu ali mais de 5.000 por cento!
Os trabalhadores cujos salários apenas mantêm o mesmo passo que a inflação estão sendo prejudicados de dois modos.
A situação nos EUA demonstra o que pode acontecer com o passar dos anos por causa da inflação. O dólar que valia 100 centavos, em 1898, agora só vale 12 centavos.
No entanto, não aumentaram também os salários? Sim, aumentaram. E, para muitos trabalhadores, os aumentos salariais têm sido maiores do que a taxa de inflação, de modo que seu padrão de vida melhorou.
Isto não aconteceu com muitos outros trabalhadores, porém. Nos EUA, à guisa de exemplo, cerca de metade de todos os trabalhadores verificam que a inflação cresce mais rápido que seus salários, o que significa um declínio em seus padrões de vida
Ademais, muita gente pobre e pessoas com rendas fixas ficaram muito para trás. Observe apenas um exemplo disto, de um professor aposentado da cidade de Nova Iorque, que disse:
“Minha atual aposentadoria municipal anual, é de US$ 4.439 [uns Cr$ 222.000,00; abaixo do nível considerado de pobreza, nos EUA]. Termos dificuldade em ir vivendo, malgrado nossos esforços heróicos de economizar, estamos certos, não os surpreende.
“Não temos carro. Não temos casa própria. Alugamos o mesmo apartamento pequeno em que já moramos por mais de 35 anos. Não tiramos férias. Não viajamos. Não comemos fora. Só fazemos compras regulares nas liquidações, e somente das necessidades mais importantes.
“Não fumamos. Nunca tomamos muita bebida alcoólica — nem sequer uma cerveja ocasional. Não temos ido ao teatro, nem mesmo a um cinema da vizinhança, desde minha aposentadoria, há mais de 21 anos atrás.
“Não recebemos convidados. Não gastamos dinheiro com presentes para amigos ou parentes. Contentamo-nos com um ocasional cartão postal desejando-lhes tudo de bom nas ocasiões importantes. Não compramos mais regularmente um jornal.
“Eu e minha esposa já temos uns setenta e poucos anos. Nenhum dos dois goza de boa saúde nem é capaz de trabalhar fora.”
Os trabalhadores cujos salários apenas mantêm o mesmo passo que a inflação também são prejudicados. Por quê? Porque a inflação assola de dois modos. Não só os preços avolumantes reduzem o valor do dinheiro arduamente ganho, mas também os aumentos correspondentes de salários colocam os trabalhadores nas faixas mais altas de contribuintes, expondo-os a maiores cargas tributárias. O resultado é a perda líquida do poder aquisitivo.
Também, a inflação amiúde castiga as pessoas econômicas que depositam dinheiro em cadernetas de poupança. Em certo país, os juros pagos pelos bancos eram apenas a metade da taxa de inflação. Assim, no fim do ano, a conta bancária, inclusive os juros, valia menos do que no começo do ano. O que agravava as coisas era que os juros eram tributáveis.
As pessoas contraem dívidas cada vez maiores.
Os apertos financeiros resultaram em enorme aumento das dívidas pessoais de todos os tipos. Uma razão disso é que as pessoas não desejam poupar dinheiro antes de comprar as coisas desejadas. Assim, contraem dívidas para obtê-las.
Mas, outra causa crescente desta dívida é que, devido ao implacável aumento inflacionário, há mais pessoas agora que pedem empréstimos apenas para manter o que possuem. E o Americana Annual (Livro do Ano da E. A.) de 1979 também observou: “Aqueles que, outrora, só raramente contraiam empréstimos, e apenas para itens de etiqueta cara, às vezes verificaram que seus empréstimos estavam custeando, ao invés, suas necessidades básicas.”
Daí, há aqueles que não vêem nenhum futuro à frente e assim adotam a atitude de ‘comamos, bebamos e festejemos’, tentando gozar tudo que possam antes que seja tarde demais. Como disse uma de tais pessoas: “Tenho uma atitude da espécie que estamos às vésperas do dia do juízo final.” Outros até mesmo contraem grandes empréstimos, sem nenhuma intenção de pagá-los, a que eqüivale a roubo.
A revista U. S. News & World Report chamou esta tendência de contrair dívidas de “onda sísmica” que “lança novo susto diante dos economistas”. Disse, também: “Nunca antes as pessoas dependeram tanto de dinheiro emprestado.” Qualquer grave retrocesso econômico levaria milhões destas pessoas à falência.
Por que existe hoje tanta inflação?
O que provoca o tipo de inflação que grassa tanto em todo o mundo hodierno? As autoridades não concordam em todo aspecto do problema. A maioria delas, porém, deveras concorda que um dos principais culpados é gastar mais do que se ganha, e contrair dívidas para financiar tais gastos. Como veiculou o Times de Londres: “O que é inflação, afinal de contas? . . . É o termo do economista para o consumo excessivo; para se viver além de suas rendas; para se tirar mais de suas reservas do que se põe nelas.”
Quando os governos gastam mais do que recebem de impostos, precisam “criar” dinheiro para recompor tal déficit. A revista Harper’s expressou-se da seguinte forma: “As dívidas resultantes dos gastos governamentais não cobertos pelos impostos são pagas por se criarem dólares novinhos em folha.” The Wall Street Journal também comentou:
“Sem comparação, a maior parte da crescente pressão sobre os preços, . . . tem sido a inflação no sentido literal. Isto é, é causada pela enorme expansão das reservas monetárias resultantes de anos de excessivos déficits governamentais, financiados pela criação de dinheiro e crédito, o moderno equivalente de . . . operar as máquinas impressoras.”
Exemplo desta fonte inflacionária é a dívida interna dos EUA. O governo, nos últimos 18 anos, apresentou déficits em 17 deles. Ao passo que foram precisos 167 anos para que a dívida atingisse os primeiros US$ 100 bilhões, ela agora aumenta nesse total a cada ano! Espera-se que o total ultrapasse em breve um bilhão de dólares. E os juros desta dívida são de cerca de US$ 60 bilhões por ano agora, o terceiro dentre os maiores gastos governamentais. Tudo isto significa mais dinheiro à procura de bens e serviços, empurrando os preços para o alto, como que num leilão.
O que agrava a situação é o problema do petróleo. Apenas um punhado de nações produzem mais petróleo do que utilizam. Tais nações se agruparam na OPEP, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo. Aumentaram o preço do petróleo para mais de 10 vezes do que custava a uma década. Visto que tantas coisas — gasolina, óleo de aquecimento, plásticos, produtos químicos e outros — se baseiam no petróleo, seus preços sobem concordemente.
Graças a estes fatores, há nações que agora se acham tão afundadas em dívidas que só conseguem manter-se economicamente vivas por injeções maciças de crédito. Alguns destes países não podem sequer pagar o serviço de suas dívidas, à base de seus próprios recursos, quanto mais as próprias dívidas.
Alguns economistas se perguntam se a inflação já não está além de poder ser sanada.
Como pode a inflação ser sanada? Vários economistas se perguntam se a inflação já não está além de poder ser sanada. Comparam-na a um heroinômano que já foi longe demais, exigindo cada vez mais heroína para sentir efeitos cada vez menores. Caso continue, tal tóxico o matará. Se o largar, as conseqüências de ter sido toxicômano ainda podem abreviar-lhe a vida.
Para acabar com a inflação, é preciso reduzir drasticamente os gastos excessivos dos governos, das empresas e dos indivíduos. Mas isto significaria que as pessoas comprariam menos, de modo que as firmas produziriam menos. Isto lançaria muita gente no desemprego, daí ocorreria grave recessão ou depressão. O sistema econômico do mundo está agora sintonizado com um estado tão alto de produção resultante dos gastos excessivos que há observadores que afirmam já ser tarde demais para reduzi-la drasticamente, sem que se cause tantos danos quanto os causados pela própria inflação.
[Foto na página 7]
1898 1979
$ 1 = $ 0,12
O Dólar dos EUA se Desvaloriza.