Uma “geração de paz” ou efêmera paz mundial?
A DÉTENTE mundial, ou descontraimento das relações internacionais tensas, acha-se agora em processo. Por quanto tempo durará? Será que trará uma “geração de paz” numa “nova ordem mundial”, como alguns prevêem?
Apesar de todas as razões urgentes para se buscar a paz mundial, apesar de todo o esforço árduo concentrado nas negociações, apesar de toda a determinação e de todos os desejos dos líderes mundiais, e apesar de toda a inteligência de seus conselheiros, a vindoura paz mundial que modelam será de curta duração. Por quê?
Por dois motivos básicos, ambos poderosos.
Um é porque não resolverá — com efeito, não pode resolver — os problemas humanos que perturbam a paz. Os líderes mundiais ou despercebem ou preferem ignorar o seguinte fato: A guerra não é causada pelas bombas, nem pelos navios de guerra ou pelas balas. A guerra é causada por pessoas. Qualquer arranjo de paz que as nações façam jamais removerá o egoísmo humano. E esta é obviamente a raiz de toda desunião, de todos os choques violentos e de toda a guerra.
Em realidade, o vindouro arranjo de paz se funda principalmente numa base egoísta. Não associa a paz com a confiança e crédito mútuos? Todavia, disse o Dr. Henry Kissinger, principal negociador dos acordos entre os EUA e a Rússia: “Advogamos tais acordos, não à base de confiança, mas à base dos esclarecidos interesses próprios de ambos os lados.” “Esclarecidos interesses próprios” é apenas uma forma polida de se dizer “egoísmo astuto”.
Sublinhando a falta de confiança mútua, a revista Time, ao discutir o recente pacto de limitação de armas, disse: “Ambos os lados, segundo se espera, farão pesados gastos em satélites de observação para detectar qualquer tapeação da outra parte.”
Não associa a paz com a calma e o livramento do medo? Mas, a vindoura paz internacional se baseia no que é chamado de “equilíbrio de terror” como principal meio de se impedir a guerra. A idéia é que cada lado retenha tamanho poder que, mesmo se atacado de surpresa, ainda possa retaliar com uma chuva devastadora de bombas de hidrogênio. Supostamente isto impedirá qualquer tentativa duma guerra total.
Mas, é bem parecido a duas pessoas que concordam em dançar juntas ao passo que cada uma segura um revólver junto ao coração da outra — com o dedo no gatilho. Que calma e paz mental genuínas poderiam existir sob tais circunstâncias?
O Que Dizer Destes Problemas?
Ademais, muito embora as pessoas conseguissem tirar da mente a possibilidade sempre real da destruição nuclear — todavia, quanta paz poderiam ter se continua o crime avassalador? Que significado teria qualquer arranjo de paz mundial se as pessoas ainda tivessem medo de sair às ruas de noite, ou até mesmo se sentissem inseguras dentro de seus próprios lares, com portas trancadas?
Mesmo que as principais brechas internacionais fossem sanadas, o que dizer da desunião interna de cada nação?
Será que uma paz política mundial fecharia a brecha entre os grupos religiosos, como na Irlanda, em que o conflito entre católicos e protestantes já resultou na morte de mais de 540 homens, mulheres e crianças, além de indizíveis danos à propriedade, nos últimos três anos e meio?
Será que eliminaria a desunião e o ódio raciais constatados entre árabes e judeus, ou a rivalidade tribal, tal como a existente no país africano de Burundi? Em Burundi, o ódio entre as tribos tutsi e hutu, em questão de meses, resultou no brutal massacre de calculadamente 120.000 homens, mulheres e crianças — mais do dobro do total de mortos em combate dos EUA nos onze anos da guerra do Vietnam!
E, o que dizer de toda a corrupção, tapeação e fraude na vida política e comercial que assola as nações já por séculos? O que dizer dos abusos de poder e de autoridade que produzem injustiças, desigualdades e reais opressões? Quão pacífica poderá vir a ser a terra enquanto continuarem tais coisas, mesmo numa escala local?
Mas, dissemos que há dois motivos poderosos e básicos pelos quais o vindouro arranjo de paz será efêmero. Qual é o segundo? E que esperança isso nos deixa?
[Foto na página 13]
Mesmo que se alcance um acordo internacional de paz mundial, quão pacífica pode ser realmente a terra enquanto continuarem a existir a desunião, o egoísmo, a corrupção e a injustiça em cada nação?