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O isolamento pode ser perigosoA Sentinela — 1981 | 15 de junho
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O isolamento pode ser perigoso
“AVISO: O isolamento pode ser perigoso à sua saúde.” Avisos similares são geralmente reservados para sérios perigos ao bem-estar da pessoa, bem como para ameaças que as substâncias químicas e as drogas representam. Mas, recentes descobertas indicam que pode haver justificativa para se dar este aviso àqueles que, devido às circunstâncias ou por livre escolha, levam uma vida de isolamento.
Por exemplo, o choque da perda de um cônjuge pode ser muito prejudicial. A revista Time relata que “a proporção de mortes por causas coronárias entre viúvas de 25 a 34 anos é cinco vezes a das mulheres casadas, na mesma faixa etária. Os divorciados, de todas as idades, têm duas vezes mais probabilidade de contrair câncer pulmonar ou sofrer um ataque cardíaco do que os casados”
No entanto, a solidão produzida pelo isolamento também faz vítimas entre adultos que nunca se casaram. Um estudo feito pelo Dr. James Lynch, da Universidade de Maryland, revela que a proporção de mortes por moléstias cardíacas é de duas a cinco vezes mais alta entre pessoas solteiras. Este estudo indica que a probabilidade de um solteirão passar algum tempo numa instituição psiquiátrica é 23 vezes maior do que a dum homem casado, e a da mulher solteira é 10 vezes maior do que a duma mulher casada. É bem evidente que este doutor não examinou os registros daqueles que vivem em estrita harmonia com a inspirada Bíblia Sagrada, tais como as Testemunhas cristãs de Jeová. As estatísticas sobre estas seriam bem diferentes. Segundo as estatísticas do Dr. Lynch, a solidão devido ao isolamento pode causar angústia mental e emocional, o que constitui uma ameaça à vida.
A experiência dos chamados centros de consolo aos aflitos, nas grandes cidades, reflete a seriedade do problema. Considere a cidade metropolitana de Toronto, no Canadá, com uma população de mais de dois milhões. Em apenas um dos diversos destes centros foram recebidos cerca de 33.000 telefonemas no espaço de um ano. Isto representa uma chamada a cada 16 minutos. Cerca de 75 por cento dos telefonemas eram dos que sofriam com o isolamento, “os feridos ambulantes”, como certo médico os chamou. Seis por cento deles eram suicidas. O Star de Toronto falou deles como pessoas que sofriam duma “doença invisível”, que já atingiu proporções epidêmicas. O Dr. Vello Sermat definiu isso como “um sentimento de extrema desolação, como se estivessem totalmente separados das outras pessoas. . .. Uma falta de vínculos humanos”. Muitos dos que sofrem de isolamento são os idosos, inclusive viúvas e viúvos.
Infelizmente, os idosos que vivem a sós são amiúde vítimas do crime. Em diversas cidades grandes, estes desafortunados são obrigados a continuar morando em comunidades em rápida deterioração, onde jovens delinqüentes os consideram alvos fáceis. Roubos, espancamentos brutais, estupro e torturas têm sido a sorte de alguns destes solitários e antigos cidadãos. O medo faz com que estes idosos se isolem ainda mais. Talvez coloquem trancas nas portas e fechem as janelas com tábuas, e mandem entregar em casa suas encomendas de alimentos e outras necessidades.
Os jovens também sofrem os perigos duma vida solitária. Alguns imaginam poder criar um novo estilo de vida que não dependa da convencional solidariedade do passado. Esperam ter um modo de vida mais feliz. Mas, tem sido isso realmente satisfatório? O Star de Toronto relata que o índice de suicídios de mais rápido aumento na província de Ontário encontra-se na faixa de idade entre 20 e 30 anos. Depois, há os que compreendem tarde demais que se tornaram vítimas de pessoas mal intencionadas. Conforme certa jovem de 26 anos disse: “Ele me dizia que era louco por mim, . . . mandava-me flores . . . pagava-me jantares . . . e depois contou-me a verdade. Ele vivia com outra mulher.”
Problemas do Isolamento
Até mesmo os ‘solteiros modernos’ começam a perceber que não se pode negar facilmente o que é natural na vida. Apesar das aparências, há uma crescente conscientização entre os jovens, de que se deseja e necessita realmente de constância no companheirismo, para se ter uma vida satisfatória. Num artigo intitulado: “A Sós na Multidão — Aparecem as Falhas no Sonho dos Solteiros”, o semanário Macleanˈs, do Canadá, observou: “Mais mulheres — e alguns homens — admitem estar cansados, frustrados e entediados com o sexo casual.” O sexo em si mesmo não tem sido a resposta. Falta algo: Amor e compromisso genuínos. Com o rápido passar dos anos, muitos se confrontam com o problema de como encontrar um cônjuge adequado. O resumo do isolamento em que se colocaram tem sido: amor livre nos anos 60, amuados nos anos 70 e hoje sofrendo dores.
É evidente que algo ocorre com os processos de raciocínio daquele que se isola por livre escolha ou por força das circunstâncias. O que muitas vezes ocorre é que, contrário ao conselho dado na Bíblia, ele tem um conceito elevado demais sobre si mesmo, passando até mesmo a ter pena de si. Começa a criticar as faltas dos outros e a salientar demais suas falhas contra ele, atribuindo às vezes más intenções. Espera que os outros sejam amigáveis, do contrário considera-os como tendo falhado consigo. Temos o exemplo duma jovem casada, com dois filhos. Durante certo tempo, esta mãe afastou-se da companhia das pessoas a quem conhecia bem. Quando uma amiga mencionou não tê-la visto ultimamente, ela respondeu: “Fiz isso para ver se alguém percebia ou se importava.”
Portanto, há indícios claros de que a falha entre as pessoas em geral, quanto a criar sólidos relacionamentos humanos, pode pôr em perigo a saúde duma pessoa. Mas, o que se pode fazer quando as circunstâncias parecem estar fora do nosso controle? Como se pode ajustar a mudanças indesejáveis na vida?
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Não se isoleA Sentinela — 1981 | 15 de junho
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Não se isole
NA MAIORIA das situações, o isolamento é desnatural. O isolamento permanente é anticristão. Jeová Deus, embora completo em si mesmo e sem necessidade de companheirismo, achou apropriado cercar-se de miríades de filhos espirituais. (Jó 38:4-7; Dan. 7:10) Esta foi uma expressão ativa do seu amor. Induzido pelo mesmo amor, criou mais tarde um filho terrestre, Adão. Tanto os filhos celestiais como os terrestres foram dotados duma faculdade de comunicação maravilhosamente projetada. (1 Cor. 13:1) Deus não criou estes seres inteligentes simplesmente para receber deles alguma coisa, mas, antes, para dar de si. Deleitou-se com tais filhos, e eles se agradaram de estar com ele e de usufruir a companhia uns dos outros. — Veja Provérbios 8:30, 31.
O Altíssimo concluiu também que não seria bom que Adão continuasse sozinho, e, portanto, proveu-lhe uma companheira. (Gên. 2:18) O cumprimento da ordem de Jeová ao primeiro casal, de encher a terra, produziria uma família humana comunicativa, mundial. (Gên. 1:28) É bem evidente que os humanos não foram projetados para sofrer os efeitos adversos do isolamento!
Não é de admirar, pois, que a maioria das referências feitas na Bíblia a formas de isolamento se relacionem com aspectos negativos. (Sal. 25:16; 102:7) O banimento de Caim por ter assassinado seu irmão foi ser ele isolado do resto da família humana. Considerou isto como uma punição, algo difícil de suportar. — Gên. 4:11-14.
O Remédio
Mas, o que se pode fazer quando se sente só, não amado ou indesejado? Em vez de sentir pena de si mesmo, esperando que outros façam algo, na esperança de receber, deve tomar a iniciativa de expressar ativamente amor a outros, imitando a Deus e a Cristo. Ao isolar-se, quer de propósito quer não, a pessoa está agindo contrário ao propósito divino para com a humanidade. Não é de admirar que o isolamento cause problemas! Portanto, o remédio é fazer o que o Criador tem em mente para nós. Ele deseja que usufruamos o companheirismo de outros humanos. Certa mulher, que antes era solitária, chegou a reconhecer este ponto. Ela disse: ‘Por fim, comecei a compreender isso. Portanto, levantei-me, parei de pensar em mim e comecei a trabalhar arduamente. Tenho trabalhado arduamente desde então.’
O que podemos aprender desta experiência? Ninguém precisa ser solitário. Há algo de positivo que se pode fazer a respeito. Pode-se praticar o cristianismo básico. Afinal de contas, pode alguém ser cristão e isolacionista ao mesmo tempo? Não, pois, amar ao próximo exige fazer-lhe o bem, imitar ativamente o Criador. (Mat. 22:37-39; 7:12) E fazer dádivas generosas aos necessitados resulta em alegria. Este ato de dar acaba com a infelicidade que amiúde caracteriza uma vida solitária.
Prevenção
Naturalmente, exige esforço para tornar-se ativo em participar com outros, não se permitindo ficar desanimado por sentir-se inadequado. Visto não ser fácil vencer a solidão, faremos bem em evitar tornar-nos vítimas deste mal. Por isso, mesmo que outros talvez nos desapontem, precisamos precaver-nos para não nos afastarmos das pessoas. A Bíblia diz: “Nenhum de nós vive para si mesmo.” (Rom. 14:7; Almeida, atualizada) Uma vez que a pessoa se isola, corre o perigo de pensar de modo insensato, até mesmo tolo, para seu prejuízo. Certo provérbio bíblico expressa isso da seguinte forma: “Quem se isola procurará o seu próprio desejo egoísta; estourará contra toda a sabedoria prática.” — Pro. 18:1.
Tome o caso duma jovem esposa que tomou por hábito assistir a filmes pornográficos na televisão, tarde da noite. Sujeita a essa influência corrupta, logo deixou de orar, ler as Escrituras e assistir às reuniões cristãs. Em pouco tempo ela sentiu que seu marido era inadequado e começou a sentir pena de si mesma. Aventurou-se num proceder que alguns meses antes ela teria rejeitado depressa como tolice. Induzida pelos desejos errados, abandonou o marido e a filhinha para conviver com outro homem. Encontrou realmente felicidade? Não. Mais tarde ela admitiu a uma amiga que seu novo “marido” a havia espancado, e que estava infeliz sem a filha. Esta mulher causou dano a si mesma, ao marido, à filha e aos concristãos, e lançou grande vitupério sobre o Criador — tudo porque se isolou.
O Isolamento É Anticristão
O isolamento é realmente anticristão. É divisório, abafa as obras cristãs zelosas e limita a comunicação. Quando isolada dos outros, a pessoa começa a ficar deprimida e a entregar-se a dúvidas quanto a pessoas fidedignas, até mesmo a respeito de Deus e das Escrituras. O discípulo Judas mostrou que, nos seus dias, alguns deixaram de reconhecer que até mesmo anjos se prejudicaram quando abandonaram a associação com Deus e com os anjos fiéis para satisfazer seus desejos errados. — Jud. 6, 8, 10, 20-22.
O inteiro espírito da Bíblia opõe-se ao isolamento e aos seus efeitos indesejáveis — inatividade, falta de comunicação e deixar de expressar amor. As Escrituras ensinam e incentivam ação positiva, usando para isso muitas palavras de ação. Somos incentivados a ‘fazer aos outros’, a ‘ir fazer discípulos’, a ‘pedir e dar-se-nos-á’, a ‘persistir em bater’ para obter resposta, a ‘amar ao próximo’, a ‘reunir-nos com outros cristãos’, a ‘seguir o proceder da hospitalidade’. Todos estes são antídotos contra a indiferença, a comiseração de si, o sentimento de se ser indesejado ou inútil. O cristianismo exige que se demonstre compaixão por se ter pena dos outros, fazendo alguém sentir-se desejado e útil, em vez de sentir-se inútil. Podemos estar certos de que, quando damos de todo o coração, receberemos generosamente de nosso Pai celestial. (Mat. 6:1-4) O dar granjeia a estima dos outros, dissipando sentimentos de solidão.
Naturalmente, há ocasiões em que precisamos ficar a sós. Mesmo Jesus Cristo, embora ocupado em ajudar outros, reservava tempo para ficar sozinho. Ao saber da morte de João, o Batizador, ele foi “para um lugar solitário, para isolamento”. (Mat. 14:13) Para os que geralmente estão na companhia de outros, o isolamento pode ser uma mudança revigorante e uma excelente oportunidade para reflexão. O Filho de Deus disse certa vez aos seus discípulos: “‘Vinde, vós mesmos, em particular, a um lugar solitário, e descansai um pouco.’ Porque havia muitos que vinham e iam, e não tinham folga nem para tomar uma refeição.” (Mar. 6:31; 3:20) Isolamento era exatamente o que eles precisavam naquela ocasião.
Quando gastamos tempo em isolamento para meditação objetiva, podemos fortalecer nossa fé. Tal meditação pode servir para nos achegar mais a Deus. Pode induzir-nos a nos expressarmos apreciativamente em oração, aumentando assim nossa relação pessoal com o Todo-poderoso. Mas, tais ocasiões são temporárias. Nunca desejaremos nos isolar ao ponto de levar uma vida de monge. — Veja João 17:15.
De fato, temos bons motivos para evitar levar uma vida de isolamento. É deveras prejudicial. O isolamento pode afetar adversamente a atividade, a associação e a comunicação cristãs. Portanto, tire pleno proveito das provisões espirituais de Deus. Leia a sua Palavra diariamente. Não negligencie a oração. Mantenha a mente cheia de pensamentos salutares. Mantenha associação regular com os que têm semelhante fé preciosa. Mantenha-se ocupado na obra compensadora de ensinar a Palavra de Deus, e de outras maneiras satisfazer as necessidades de outras pessoas. O apego a Jeová e à sua Palavra, e a sujeição à influência de seu espírito ‘impedirão que seja quer inativo quer infrutífero no que se refere ao conhecimento exato de nosso Senhor Jesus Cristo’. (2 Ped. 1:5-8) Não se isole.
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