Anuário das Testemunhas de Jeová
Jamaica e as ilhas Caimã (continuação)
[Seriado com base no Yearbook de 1985]
Expandir o Testemunho
Em 1908, realizou-se pela primeira vez uma assembléia fora de Kingston. Foi na pequena cidade praiana de Annotto Bay, a oito quilômetros de Camberwell, o lugar de nascimento da obra de pregação do Reino na Jamaica. Esta assembléia teve um auge na assistência de cerca de 350.
Os quatro anos que se seguiram foram assinalados por esforços intensos de disseminar a Palavra pela página impressa e por discursos públicos. O clero também intensificou sua pressão para desanimar as pessoas de ler as publicações da Sociedade. Isto resultou no cancelamento de pedidos e em solicitações de que fosse devolvido o dinheiro das publicações previamente adquiridas, mas os irmãos não se desanimaram. Eles até mesmo avançaram para campos estrangeiros. Dois peregrinos foram designados para a Costa Rica e Barbados, a fim de organizar congregações naqueles países. Por volta desta época, a filial da Jamaica também supervisionava a obra no Panamá.
A Visita do Irmão Russell
Charles Taze Russell, o primeiro presidente da Watch Tower Bible and Tract Society, fez uma visita de três dias a Jamaica em fevereiro de 1913. Planejou-se uma assembléia para coincidir com a visita. No primeiro dia cerca de 600 irmãos e irmãs, bem como pessoas interessadas de toda a ilha, vieram ouvir o irmão Russell. A revista Watch Tower noticiou o congresso e declarou: “Alguns destes queridos irmãos gastaram quase tudo que possuíam para comparecer à assembléia. Nós os consideramos uma companhia muito interessante, bastante fervorosa a favor do Senhor e da Verdade.”
Típica do zelo e da determinação dos Estudantes da Bíblia era a irmã Eveline Prendergast, que caminhou 58 quilômetros por estradas poeirentas desde Camberwell para assistir à assembléia. Esse zelo era também evidente no entoar animado de cânticos pelos irmãos jamaicanos. Disse o presidente da Sociedade: “Seu entoar de cânticos era excelente.”
O discurso público da assembléia atraiu tamanha multidão que tiveram de ser usados dois auditórios, um para o público e o outro para os Estudantes da Bíblia. No prédio para o público estavam apinhadas 1.800 pessoas, e mais de 2.000 não puderam entrar! Na assistência havia também vários clérigos, alguns dos quais comentaram o quanto o povo queria ouvir a mensagem. Um ministro episcopal observou que o segredo do interesse jazia em a mensagem ser um “Evangelho de Esperança”.
A imprensa também deu muita publicidade favorável à assembléia. Declarou The Watch Tower, de 15 de março de 1913, páginas 94, 95: “Os jornais, comentando sobre as pessoas incluídas na assembléia, mencionaram sua limpeza, ordem, etc.; e que não usavam nem fumo nem bebidas alcoólicas, e de que não necessitavam da atenção da polícia. . . . Referiram-se também a que não se mencionaram nem dinheiro nem coletas em conexão com esta assembléia.” Aquela assembléia de 1913 subsistiu na memória dos que foram privilegiados de comparecer a ela.
Provas e Julgamentos Durante a Primeira Guerra Mundial
Semelhantes aos irmãos em outras partes, os na Jamaica aguardavam ansiosamente o ano de 1914 e o fim dos “Tempos dos Gentios”. Igualmente, ficaram desapontados de que sua expectativa dum fim antecipado do sistema de Satanás não se realizou. Depois do falecimento do irmão Russell, em outubro de 1916, sobreveio-lhes verdadeira prova de fé. Muitos abandonaram a organização e começaram a exercer pressão sobre os leais. A pressão se intensificou com a visita de Paul S. L. Johnson, dos Estados Unidos. Ele abandonara a verdade e viera a apoiar os desleais. Os que tinham fé de que Jeová continuaria a usar o instrumento até então usado por ele — a Sociedade Watch Tower — permaneceram constantes e mantiveram a luz da verdade brilhando durante aqueles tempos provadores.
O peneiramento naqueles anos fez com que muitos deixassem de se associar com a organização. Por fim, eles se dividiram em pequenos grupos, e atualmente não se ouve mais falar neles. Podem ser comparados a um ramo que é arrancado duma árvore. Parece verde por um pouco, mas finalmente murcha e morre.
Não houve pressões externas sobre os Estudantes da Bíblia durante a Primeira Guerra Mundial. Na ocasião, a Jamaica era uma colônia britânica, e, embora a Grã-Bretanha estivesse em guerra, não houve conscrição ou recrutamento. Assim, a questão da neutralidade não apresentou quaisquer problemas. Foram as pressões internas que provaram os irmãos severamente e diminuíram o passo da obra de evangelização. Mas a exibição do Fotodrama da Criação, composto de slides (diapositivos) bíblicos em cores e filmes sincronizados com discos fonográficos, ajudou grandemente a manter vivo o interesse na mensagem do Reino naquele tempo. As exibições atraíram grandes audiências.
Distribuição Ampla do Folheto “Milhões”
No ano de 1920 deu-se ampla distribuição ao folheto Milhões Que Agora Vivem Jamais Morrerão. Esse título tornou-se cativante lema, que muitos jamaicanos ainda se lembram. A assistência à Comemoração para a ilha naquele ano foi de apenas 44, indício do afastamento da verdade ocorrido durante o refinamento que se deu após o fim dos Tempos dos Gentios. Os que permaneceram constantes, porém, não ficaram desanimados, mas continuaram a fazer bastante na obra do Senhor, e, em 1921, a assistência à Comemoração saltou para 132. — 1 Coríntios 15:58.
Visitas de Peregrinos, Fortalecedoras da Fé
Uma visita do peregrino George Young contribuiu muito para a obra de fortalecimento da fé dos leais. Sua visita à bela cidade de Porto Antônio, na costa norte, resultou num poderoso testemunho. Depois de um dos discursos do irmão Young, certo proeminente católico e membro da Assembléia Legislativa comentou: “Não me importa quem me ouça. Esta noite ouvi coisas que jamais soube constarem da Bíblia. Aprecio a mensagem. “
Quando o irmão Young visitou Mandeville, fresca cidade de veraneio na parte central da ilha, 365 pessoas vieram ouvi-lo. Entre elas estava outro membro da Assembléia Legislativa, que acolheu o irmão Young e disse à assistência: “Ficarão surpresos de me ver no palco. Muitos imaginam que eu nunca me preocupo com assuntos bíblicos. Estão enganados. É a doutrina do tormento eterno com a idéia de queimar e tostar que me afugentou das igrejas!” Visitas e reuniões nesta e em outras cidades lançaram a base para o aumento em anos posteriores.
Sem Oposição do Governo
Desde fins do século 19, quando a verdade começou a ser pregada neste país, não havia nenhuma interferência governamental com a obra de pregação. Não obstante, quando a resolução denominada Acusação, adotada em Columbus, Ohio, EUA, na assembléia de 20-28 de julho de 1924, recebeu ampla distribuição na Jamaica, o clero, segundo se relata, veladamente procurou influenciar o governo a “parar a obra dos Estudantes da Bíblia”. Longe de se afugentar e parar, o pequeno grupo de Testemunhas continuou a levar avante a pregação do Reino. Eles caminhavam muitos quilômetros e também viajavam de burro, de mula e de bicicleta para levar a mensagem a pessoas das áreas rurais. Um irmão relatou que saía de casa às 6 horas da manhã para rodar de bicicleta aos territórios rurais. Carregando as publicações que distribuía numa ampla área, ele voltava para casa cerca de 12 horas depois.
Testemunho em Grupo, de Ônibus
No fim da década de 20 a congregação em Kingston adquiriu um ônibus a fim de que um grupo pudesse trabalhar os territórios rurais aos domingos. Por meio dele, semeou-se em territórios tanto próximos como distantes tremenda quantidade de sementes do Reino. Em 1929, por exemplo, foram distribuídos 23.447 livros e folhetos em toda a extensão da ilha pelo pequeno grupo de Testemunhas leais. Alguns dos irmãos e irmãs que viajavam naquele ônibus ainda estão vivos e ativos. Guardam vívidas lembranças daquelas viagens de testemunho.
O irmão Charles Crawford lembra-se daqueles dias, dizendo que os irmãos e irmãs às vezes tinham de levantar-se às 3 horas da madrugada de domingo. O ônibus partia às 4 horas e viajava até 130 quilômetros. Os publicadores saltavam nas cidades ao longo do itinerário. Visto que alguns publicadores chegavam à sua designação antes do nascer do sol, tinham de esperar horas até que os moradores acordassem. “Passamos agradáveis momentos juntos”, relembra o irmão Crawford, “às vezes colocando todas as publicações que tínhamos”. O ônibus, disse ele, tornou-se uma cena tão familiar nos povoados rurais que alguns deram-lhe o nome de União. Talvez isso se devesse ao espírito unido e aos esforços unidos dos que viajavam nele. O irmão Crawford externou sua profunda satisfação de viver para ver hoje congregações prósperas nos povoados que costumava visitar para semear a semente do Reino com a ajuda daquele ônibus. Ele tem agora 82 anos e trabalha como pioneiro numa pequena comunidade rural.
Testemunho com o Fonógrafo e a Máquina de Transcrição
O trabalho entrou numa nova fase em 1933, com a introdução do fonógrafo portátil, da máquina de transcrição e do carro-sonante. Estes instrumentos vieram a calhar neste país. Aqui as pessoas se juntam rapidamente quando ouvem música, de modo que o som do fonógrafo era o sinal para muitos se juntarem na porta do vizinho a fim de ouvir a mensagem do Reino. O som mais potente da máquina de transcrição induzia as pessoas a fluir dos sertões e a vir para as estradas principais para ver e ouvir.
Havia três destas máquinas e carros em operação. Um carro-sonante era operado por uma irmã, Amy Foote, que morava em Spanish Town — a primeira capital da Jamaica, quando sob domínio da Espanha. A irmã Foote recordou-se, pouco antes de morrer, de que escrevera a J. F. Rutherford, então presidente da Watch Tower Society, indagando se era permitido que uma mulher operasse o carro-sonante. Ela recebeu permissão e saiu entusiasticamente para as cidades e os povoados, dirigindo ela mesma seu velho Ford e proclamando publicamente as boas novas. A irmã Foote fez um enorme trabalho e arou o campo para ulterior semeadura e colheita!
Outro carro-sonante era operado por Robert Logan, irmão zeloso que também era médico. Ele ainda é lembrado por milhares em Kingston e em outras cidadezinhas por sua pregação pública e pela máquina de transcrição. Seu zelo era tanto que cada um de seus pacientes tinha de receber um testemunho cabal antes do exame médico. Até mesmo as Testemunhas tinham de receber um lembrete do que criam, antes de seu próprio checkup médico.
O terceiro carro-sonante era operado pelo irmão P. H. Davidson, o superintendente da filial. O som penetrante da aparelhagem suscitou o furor do clero, de modo que, em 1936, às instâncias deste, o governo proscreveu seu uso em lugares públicos. Esta proscrição foi suspensa em 1938, porém, e a mensagem do Reino de novo começou a ressoar das colinas e a percorrer os vales, até o lares das pessoas.
A Identidade da “Grande Multidão” Atiça o Zelo
Em 1935, alcançou-se outro marco na história do povo de Jeová quando, na assembléia de Washington, DC, EUA, a “grande multidão” de Revelação 7 foi explicitamente identificada como classe terrestre a ser ajuntada antes do Armagedom. Este novo entendimento serviu de estímulo para maior atividade, e os registros mostram um aumento constante nos louvadores de Jeová na Jamaica. O número cresceu de 100, em 1914, para 390, em 1938, e, por volta de 1939, os que convidavam outros a juntar-se a eles em tornar-se louvadores de Jeová atingiu 543.
Sim, o serviço estava ficando melhor organizado, e o arranjo de estudos bíblicos domiciliares começava a tomar forma. O ajuntamento da “grande multidão” havia começado, e essa classe empreendia grande parte da pregação do Reino. Com efeito, demonstravam tanto zelo e destemor como os do restante ungido.
Incentivados Pela Visita de Thomas Banks
Em 1936, Thomas E. Banks, peregrino procedente dos Estados Unidos, visitou a Jamaica. Comentando a visita, o irmão Davidson escreveu numa carta ao irmão Rutherford, datada de 4 de maio de 1936: “Devo agradecer-lhe pessoalmente por ter feito arranjos, como presidente, de enviar o irmão Banks para visitar a Jamaica. Sua visita trouxe Brooklyn para a Jamaica e satisfez um desejo de há muito de ver as coisas aqui funcionarem como em Brooklyn, haja visto que nosso lar de Betel, os estudos, a obra de serviço, as visitas a classes, os congressos e o testemunho público foram todos aprimorados pelo exemplo e pelas sugestões do irmão Banks.”
Programou-se uma assembléia em Kingston em conexão com a visita do irmão Banks, com um auge na assistência de 2.000.
O Papa Recebe Uma Carta
Típico desse zelo foi o demonstrado pelo irmão Ronald Feurtado. Procedia duma família católica devota, e ele mesmo tinha sido católico zeloso. Após aprender a verdade, achou ser sua responsabilidade dar um testemunho ao papa e expor os falsos ensinos da hierarquia católica. Ele fez isso por carta. O Vaticano devolveu a carta a Jamaica, enviando-a ao chefe da Igreja Católica na ilha. Este, por sua vez, relatou o assunto ao governador da Jamaica, visto que o irmão Feurtado era funcionário público. O governador então convocou o irmão Feurtado e solicitou que escrevesse uma carta de desculpas ao papa. Ele recusou-se cortesmente a fazer isso, visto que estava convencido de que aquilo que escrevera era a verdade. O irmão Fuertado foi punido por se lhe vetar a promoção, mas faleceu fiel e feliz de ter dado testemunho tanto ao papa como ao governador.
[Continua no próximo número.]