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  • O surto da jogatina — como encara isso?
    A Sentinela — 1975 | 1.° de junho
    • e os católicos romanos não acham que os jogos de azar sejam imorais.”

      Mas o que acha você, leitor? É realmente cristão, é coerente com a Bíblia, incentivar uma atividade que causou problemas a tantas pessoas? Alguns aparentemente acham que a legalização se justifica. Esperam que, pela legalização da jogatina, as atividades ilegais deixem de existir.

      Será que isto tem acontecido?

      PREJUDICA A JOGATINA ILEGAL?

      Há pouco tempo atrás, um relatório da Fundação Nacional de Ciência (dos E. U. A.) observou: “As loterias estaduais tiveram um impacto muito limitado na jogatina ilegal . . . O jogo legal não agrada suficientemente aos apostadores do jogo ilegal para desviá-los deste.”

      Jogadores informados sabem que as loterias estaduais retribuem apenas pouco de cada dólar apostado, em comparação com a renda do dólar apostado ilegalmente. Até mesmo as OTB de Nova Iorque tiraram muito pouco negócio importante dos agenciadores ilegais de apostas. Os grandes apostadores continuam com tais, por causa das vantagens que oferecem. Por exemplo, os ganhos são livres de impostos, os agenciadores fornecem crédito e há tipos de apostas, tais como as acumuladas, os números, e assim por diante, que as operações legais não oferecem.

      Também, o que talvez surpreenda a muitos, é que a grande maioria das apostas ilegais ali são feitas no futebol americano, no basquete e em outros esportes. E ali não há apostas legais para tais competições. Em resultado, a legalização das loterias e das OTB tem tido o efeito de incentivar as pessoas a procurar tais atrativos ilegais de apostas. Isto foi o que verificou um recente estudo do Departamento de Polícia de Nova Iorque.

      Este estudo calculou que as apostas ilegais aumentaram em 62 por cento em 1972. O Chefe de Polícia Paul F. Delise explicou: “Criou-se um ambiente de jogatina. Visto que é agora possível apostar legalmente nos cavalos, milhares de pessoas, que nunca antes nem mesmo teriam pensado em apostas no futebol [americano], no basquete ou no basebol, apostam agora com os agenciadores de apostas.”

      VERDADEIRO SURTO

      Cerca de 200.000 pessoas apostam agora diariamente nas mais de 120 casas novas de OTB na cidade de Nova Iorque. Ali apostam cerca de 23 por cento dos adultos da cidade. Em 1973, apostaram cerca de 691 milhões de dólares, calculando-se para 1974 a soma de 800 milhões. No entanto, aproximadamente duas vezes esta quantia é apostada ilegalmente na cidade! Alguns redatores de esportes calculam que mais da metade dos aficionados do futebol americano apostam nos jogos.

      “As apostas tornaram-se tão comuns, que são a regra, não a exceção”, lamenta Ruth Spirito, do Conselho Comunitário do Nordeste de Bronx, de Nova Iorque. O mesmo acontece em outros países onde a jogatina foi legalizada. “O nível das apostas”, observou o jornal Daily Mail de Londres, “é agora tão elevado, que constitui uma ameaça social”.

      É a jogatina realmente uma ameaça? Quais são as suas conseqüências?

  • O que a jogatina faz às pessoas
    A Sentinela — 1975 | 1.° de junho
    • O que a jogatina faz às pessoas

      CERTO postalista nova-iorquino nunca antes havia apostado. Daí, abriu na vizinhança uma casa de apostas turfísticas. Uma aposta levava a outra. Recentemente, quando sua esposa telefonou para Jogadores Anônimos, o homem devia 5.000 dólares e acabava de sair correndo para apostar seus últimos 16 dólares, deixando atrás uma geladeira vazia e dois filhos famintos.

      As experiências muitas vezes são grotescas. O dono duma próspera firma de confecções foi consultar um psiquiatra por causa de sua compulsão de apostar. Para compreender melhor o caso, o psiquiatra acompanhou o homem ao hipódromo. Observou fascinado o homem ganhar dinheiro em sete dentre nove corridas. Intrigado, o psiquiatra decidiu experimentar. Em pouco tempo também tornou-se jogador inveterado, e, com o tempo, perdeu a sua clientela.

      Talvez diga que isto é incrível. “É, típico”, respondeu um ex-jogador ao saber desta experiência. “Tenho visto muitos casos semelhantes.”

      COMPULSÃO INSIDIOSA

      Esta compulsão de apostar começa dum modo aparentemente inocente. “Vejo entrar as senhoras”, explicou um vendedor de bilhetes numa casa de apostas de OTB. “No começo, apostam 2 ou 4 dólares. Depois passam para vinte e trinta. Depois de alguns meses, apostam 50 a 60 dólares por corrida. Quantas tenho visto assim? Só na minha loja — pelo menos 20.”

      É assombroso o número dos que ficam profundamente envolvidos nas apostas. “Metade dos fregueses [de OTB] apostam seis dias por semana”, afirma um membro de Jogadores Anônimos. Muitos perderam o domínio de si mesmos e lamentam que começaram. Uma dona-de-casa de Brooklyn chorou, dizendo: “Eu gostaria de não ser apostadora regular.” E um jovem lamentou: “Tenho perdido tanto, ultimamente, . . . mas não consigo parar; está no meu sangue.”

      Muitos empresários de destaque também se tornaram jogadores inveterados. O periódico Dun’s Review, no seu artigo sobre “O Vício Oculto dos Executivos”, concluiu que a jogatina é “uma das mais sérias ameaças para os E. U. A. — ainda mais do que o alcoolismo e o vício das drogas”.

      É verdade que nem todos os que começam tornam-se jogadores inveterados. De fato, muitos consideram os jogos de azar como ‘diversão inofensiva’. Mas, são realmente isso? Em que resulta muitas vezes tal “diversão”? Talvez fique surpreso de saber quantos lares são afetados pelas conseqüências tristes.

      Segundo cálculos do Instituto Nacional de Saúde Mental nos Estados Unidos, há só ali 10 milhões de jogadores inveterados! E tais pessoas jogam ou apostam ao ponto de entrarem em sérias dificuldades financeiras e pessoais, causando indizível sofrimento às suas famílias. Iguais aos viciados em drogas e aos alcoólatras, esses jogadores parecem não poder cessar, não importa quantas vezes jurem fazer isso. “Não há dúvida de que é um vício”, diz um promotor público adjunto, que conhece a jogatina.

      Os que não jogam ou apostam talvez achem difícil de compreender tal vício ou compulsão. Contudo, é real. O Dr. Robert Custer, chefe do pessoal do Hospital V. A. de Cleveland, Divisão de Brecksville, tem tratado muitos de tais jogadores. “São homens muito desesperados quando chegam para cá”, observou ele. “Quando o JI [jogador inveterado] pede ajuda, ele está tão amedrontado e confuso, que está quase num estado de pânico. Quando começa a parar de jogar, fica tão desesperado, que se pensa que a vida dele está em perigo.”

      O que induz as pessoas a criar tal compulsão pelo jogo de azar?

      DESEJO DESMORALIZADOR

      Um grande fator parece ser o desejo de ganhar dinheiro fácil. Naturalmente, ninguém quer ser pobre; todos desejamos ter suficiência. Mas, na jogatina, oferece-se a perspectiva de enormes prêmios sem trabalhar — simplesmente por acaso ou ‘boa sorte’ existe a possibilidade de se ficar rico depressa. A perspectiva é atraente. E, muitas vezes, o que engoda o jogador é a chamada “sorte do principiante”.

      Assim, num caso típico, um homem de Ontário, Canadá, teve uma série notável de ganhos na sua primeira visita a um hipódromo, transformando seus 4 dólares em 1.000 dólares. “Ele devia ter parado ali”, disse a esposa dele. “Mas, não conseguiu isso.” Por que não?

      Porque apostar parecia ser um modo muito fácil de ganhar dinheiro. O ganho induziu-o a prosseguir, incitando nele o desejo de ganhar mais. E o resultado? “Ele começou a mudar”, disse sua esposa. “Era como se fosse duas pessoas diferentes.” Com o tempo, perdeu 60.000 dólares nas apostas, e arruinou a vida de sua família.

      Uma vez que o desejo se arraiga, ganhar muito raras vezes o satisfaz. Assim como as traças são atraídas a uma lâmpada acesa, os jogadores ficam tantalizados pela perspectiva de um “golpe de sorte” ainda maior. Assim, certo professor de quase quarenta anos acumulou dívidas de jogo no montante de 20.000 dólares. Mas, numa maré de sorte incomum de quatro dias ganhou 25.000 dólares. Pagou as suas dívidas? Ele admitiu: “Comecei a pensar quão facilmente podia dobrar os 25.000 dólares. Comecei a apostar nos cavalos na segunda-feira, e no fim da semana, tudo havia desaparecido.”

      A jogatina pode ter este efeito dum modo insidioso, consumindo a fibra moral da pessoa. Quase invariavelmente, os jogadores inveterados tornam-se com o tempo trapaceiros e inescrupulosos. Recentemente, um homem escolheu quatro cavalos no que era conhecido como aposta “superfecta” e ganhou 111.000 dólares numa aposta de 3 dólares. No entanto, negou-se a ir ao escritório de Jerome T. Paul, funcionário de OTB, para tirar o retrato. Por quê? “Ele devia mais de 111.000 dólares”, explicou Paul, “e não tencionava pagá-los”.

      Pessoas de todas as rodas da vida ficam afetadas. Um rabino ortodoxo, que havia acumulado uma dívida de apostas no total de 100.000 dólares, explicou: “Eu não tinha nenhum senso de responsabilidade para com a minha família ou a minha congregação. Programava um enterro para cedo, a fim de poder ir ao hipódromo. Entre os páreos, eu fazia anotações para meu sermão.”

      Sim, a jogatina faz essas coisas às pessoas — amiúde as torna gananciosas, desonestas e quase incrivelmente inconsideradas para com os outros. Destrói também o autodomínio. Portanto, a jogatina claramente se choca com preceitos bíblicos básicos, que condenam os “gananciosos” e exortam ao autodomínio e ao amor ao próximo. — 1 Cor. 6:9, 10; Gál. 5:22, 23; Mat. 22:39.

      OUTRO FATOR VICIADOR

      Aparentemente, porém, há mais envolvido em causar a compulsão do jogo. Os médicos que investigaram o problema acharam-no complexo e admitem que realmente não o entendem. Contudo, alguns acham que a excitação e a emoção envolvidas nos jogos de azar contribuem para o vício.

      Assim, o Dr. William H. Boyd, que gastou nove anos estudando o problema, chegou à conclusão: “O ingrediente no alcoolismo é o álcool e o ingrediente no vício das drogas são as próprias drogas. Mas o ingrediente na jogatina é a emoção.” O Dr. Robert Custer aparentemente concorda. “A ‘droga’ que procuram”, diz ele, “é a de estarem envolvidos na ação excitante do jogo”.

      A ação excitante do jogo começa com a aposta e continua até o resultado. Há alegria quando se ganha e ansiedade quando se perde, e há emoção durante todo este processo. Daí, conforme observa o Dr. Boyd, “o jogador tem de voltar e começar de novo, por causa da emoção”. E é um fato que o anseio da excitação do jogo é tão grande, que se pode ouvir apostadores dizer: “Não é o dinheiro que se deve que faz a gente desesperada, mas a idéia de acordar e não ter dinheiro para apostar.”

      Deveras, talvez seja difícil de compreender como algo sem qualquer ingrediente tangível — tal como a heroína do viciado em drogas — pode causar um vício. Mas até mesmo no vício das drogas há mais envolvido do que apenas o vício físico ligado a algo químico. A mente também é de algum modo afetada, causando vício mental. Isto se evidencia em que o vício das drogas continua mesmo depois de a própria droga ter deixado o corpo do viciado. Assim, falando sobre a jogatina, o Dr. Custer faz este paralelo: “A demanda psicológica é a essência do alcoolismo e do vício das drogas, assim como é com a jogatina inveterada.”

      Mas, não importa como a jogatina aja para desmoralizar as pessoas, quer pelo amor ao dinheiro, quer pela emoção que acompanha o jogo ou a aposta, deve ser lembrado que consegue insidiosamente dominar as pessoas. Portanto, quão sábio é evitar a jogatina! Não se deixe tentar a experimentá-la só porque a atual sociedade permissiva a legalizou. Muitos começaram a apostar apenas um pouco — só ‘de brincadeira’ — mas logo ficaram “fisgados”, muitas vezes com resultados trágicos.

      ESFORÇOS DE SE LIDAR COM ISSO

      Fazem-se agora esforços reais de ajudar os jogadores inveterados a desistir. Jogadores Anônimos é uma organização mundial estabelecida para este fim, com cerca de 200 capítulos e 3.000 membros só nos Estados Unidos. Empenha-se em dar às pessoas motivação suficiente para abandonar o vício. Mas, amiúde falha. Isto é evidente nas confissões dum motorista de táxi, chamado Victor, numa reunião de Jogadores Anônimos em Nova Iorque.

      “Levantei-me e confessei que não podia parar de apostar”, disse ele, “e trabalhava em dois turnos por dia para sustentar meu vício. Eu lhes disse que era tão degradado, que assim que saísse da reunião, provavelmente andaria quatro horas de carro até Bowie, em Maryland, para apostar nos cavalos. Quando terminei, esperavam-me três membros. ‘Oi, Vic’, disseram, ‘tem lugar para nós no carro?’”

      Simplesmente dar-se conta da degradação e até mesmo desejar evitar a dor e as conseqüências que causa amiúde não é motivação suficiente para vencer a jogatina inveterada. Mas há um modo de se livrar do vício. Deixemos que alguém que desceu às profundezas da jogatina inveterada, mas se restabeleceu, nos fale sobre isso.

  • Eu era jogador inveterado
    A Sentinela — 1975 | 1.° de junho
    • Eu era jogador inveterado

      A história da luta bem sucedida de um homem para libertar-se, depois de dezessete anos como jogador inveterado.

      ÀS VEZES ainda sinto o impulso de jogar, assim como quando passo por uma casa de apostas turfísticas fora do hipódromo. Multidões de gente talvez saíssem à rua, com programas de corridas na mão. Antes de me dar conta, penso: “Será que ainda consigo acertar em vencedores?” A idéia simplesmente me surge na mente. Eu a combato — olhando para o outro lado e acelerando o passo.

      Durante mais de dezessete anos, eu era jogador inveterado. As apostas controlavam minha vida. Eu simplesmente tinha de apostar. Isto era mais importante para mim do que comer, beber, dormir, o sexo — tudo!

      COMO ERA A MINHA VIDA

      Durante aqueles anos, ficava noites acordado, calculando as probabilidades dos cavalos — escolhendo os em que ia apostar no dia seguinte. Ou eu trabalhava às noites a fim de estar livre para passar os dias no hipódromo. Eu solicitava, tomava emprestado ou roubava dinheiro para jogar. Tudo o que possuíamos de valor estava em alguma loja de penhor.

      Depois de receber o ordenado, eu ia ao hipódromo. “Vou apostar 10 dólares e ver se posso aumentá-los”, dizia para mim mesmo. O cavalo perdia e eu dizia: “Tenho de recuperar meu dinheiro; tenho de estar quites.” Assim eu perdi vez após vez meu ordenado.

      Isto significava que não havia dinheiro para alimento, roupa ou aluguel. Muitas vezes eu passava fome, mas assim também minha esposa e minhas duas filhas. Tínhamos pouca roupa para usar e muitas vezes fomos despejados pelo senhorio por não pagar o aluguel. Ou nós nos mudávamos para evitar os agiotas.

      Quase que cada jogador que eu conhecia estava pagando a algum agiota — amiúde a vários deles. Credores legítimos não emprestam dinheiro aos muito endividados. Mas estes prestamistas do submundo o fazem.

      Eu costumava ir a um agiota, e talvez apanhasse 25 dólares. Pelo empréstimo de 25 dólares, tinha de pagar de volta 30. Os pagamentos podiam ser 6 dólares por semana, durante cinco semanas. Quando a pessoa não podia pagar durante certa semana, aplicava-se a ele o que se chamava de “vigorish”, cerca de 2 dólares num empréstimo de 25. Mas estes dois dólares não eram aplicados ao principal. Podia-se pagar 2 dólares de “vigorish” por semana indefinidamente e ainda dever o principal restante. Naturalmente, 2 dólares talvez não pareçam muita coisa agora, mas eram algo na década dos 1920 e 1930.

      Aqueles agiotas podiam ser duros. Tinham os seus capangas. Lembro-me dum amigo meu que foi espancado terrivelmente por não poder pagar. De modo que eu muitas vezes vivia em medo. Quando a situação realmente ficava desesperada, arrumávamos a mala e partíamos. Felizmente, ninguém da minha família nem eu fomos alguma vez feridos fisicamente.

      JOGATINA EM TODA A PARTE

      Talvez seja difícil de crer quanta jogatina há. Onde quer que eu trabalhasse, usualmente em restaurantes e bares, tudo o que se ouvia falar era sobre os “cavalos”. Mas havia também outros jogos de azar.

      Havia suntuosos locais do submundo em toda a área de Nova Iorque. Mas era preciso ter contatos e “aprovação” para entrar. Ali havia roleta, jogos de pôquer, jogos de dados — todas as espécies de jogos de azar. Eu costumava visitá-los. Mas, na maior parte apostava nos cavalos.

      Muitas vezes eu ia ao hipódromo, mas ainda mais vezes apostava com os agenciadores locais. Isto era mais emocionante, porque se conseguia mais excitação. Refiro-me a que os agenciadores de apostas oferecem todas as espécies de possibilidades complexas de apostas nos cavalos; apostar nos cavalos em diversos prados em acumuladas, “back to back”, “round robin”, números, e assim por diante. As apostas legais não ofereciam isso ali. Este é um dos motivos pelo qual não são tão atraentes para os apostadores sofisticados.

      Apostar em número é uma atração especialmente grande. Eu apostava neles seis dias por semana. Os números de cada dia compunham-se de três algarismos, como, por exemplo, 8-3-9. O primeiro algarismo era obtido por se tomar último algarismo de dólar dos pagamentos totais do totalizador de apostas depois dos primeiros três páreos do dia. Se o pagamento foi de US$ 359,73 depois daqueles páreos, o primeiro algarismo era 9. Daí, depois do quinto e do sétimo páreo, o total dos pagamentos segundo o totalizador de apostas era usado do mesmo modo para os últimos dois algarismos.

      Muitas vezes eu fazia minhas apostas num intermediário que trabalhava para um agenciador. Por muito tempo, meu intermediário constante para os números era nosso leiteiro. Usualmente, eu apostava 50 centavos, entregando-lhe cada manhã o dinheiro e o papelete com os números. Lembro-me de certa vez acertar o número inteiro direto, 8-3-9, recebendo o prêmio de 300 dólares — uma porção de dinheiro por 50 centavos!

      O TIPO DE COMPANHEIROS

      Nós jogadores falávamos a mesma língua, tendo o mesmo interesse predominante, com a emoção e as dificuldades acompanhantes. Mas, faltava lamentavelmente a genuína preocupação de um para com o outro. Por exemplo, tome aquele leiteiro.

      Eu confiava nele, visto que já o conhecia por muito tempo e ele sempre pagava quando eu ganhava. Assim, depois de ter ganho aqueles 300 dólares, não suspeitava dele quando me convidou para a sua casa, para um grande jogo de dados. Foi só depois de eu ter perdido a maior parte do meu dinheiro que me dei conta de que o jogo era viciado. Eu havia sido feito o “pato”. Mas, não há muito que se possa fazer — é difícil de provar.

      No entanto, isto não foi nem de perto a única vez que “amigos” me defraudaram. Certa vez entreguei a um colega de trabalho dinheiro e uma lista de cavalos em que apostar. Ele trabalhava num turno dividido e ia ver o agenciador de apostas naquela tarde. Mais tarde eu soube dos resultados dos páreos e fiquei assombrado de haver acertado em quatro vencedores! Naturalmente, quando meu “amigo” voltou naquela noitinha, eu estava emocionado e queria os meus ganhos. Mas ele deu alguma desculpa quanto a por que não fizera as apostas. Não pude provar nada, mas estou certo de que ele embolsou os ganhos.

      Os jogadores são realmente uma turma trapaceira! Muitos agenciadores de pequena monta sumiram com o dinheiro que eu havia ganho. Mas a verdade é que eu não era melhor. Muitas vezes tomava emprestado e nunca pagava de volta, e até mesmo roubava dinheiro diretamente. Quando penso em algumas daquelas coisas, fico triste.

      ENGODO E EMOÇÃO

      Eu me dava conta de que aquilo que fazia era errado. Mas fui escravizado pelo vício, sendo especialmente cativado pelo engodo do dinheiro fácil. Foi realmente isto o que me fez começar a apostar em cavalos.

      Eu já havia jogado antes, jogando dados como jovem nas ruas de Filadélfia, e mais tarde pôquer a bordo dum navio, quando fugi para o mar, à idade de dezessete anos. Mas foi só em 1928, o ano em que me casei, que fiquei interessado em cavalos.

      Naquele tempo, eu trabalhava numa lanchonete na Rua 49, esquina com a Avenida Lexington, em Nova Iorque. Fiquei fascinado com o júbilo dos apostadores em cavalos com os seus ganhos. Mais tarde fiquei sabendo que nunca mencionavam suas perdas. Pensei: “É melhor eu ganhar algum deste dinheiro fácil.”

      Notei que os apostadores obtinham sua informação sobre cavalos do jornal Daily Mirror. Assim, certo dia, selecionei ali dois cavalos e apostei neles. Ainda me lembro dos nomes deles: Buck Hero e Sunflower. Com a “sorte de principiante”, ganhei com ambos!

      Eu havia escolhido vencedores, e por isso podia falar como entendido com os outros apostadores. “Que pena que não apostou numa acumulada”, disse um deles. “Aí teria realmente ganho uma bolada.” Logo eu experimentava todas as possibilidades de apostas. Estudava realmente os cavalos e passava a fazer as minhas próprias escolhas.

      Ocasionalmente, eu ia ao hipódromo e ganhava muito. Sentia-me mesmo emocionado e orgulhoso. Pagava algumas dívidas, mas no dia seguinte eu voltava ao prado ‘para ganhar uma bolada realmente grande’ — e usualmente perdia tudo.

      Contudo, continuávamos a jogar, sempre pensando em conseguir aquela sorte grande. Eu fora criado num orfanato católico, onde aprendi a orar. Assim, muitas vezes eu orava pedindo vencedores — em desespero orando ocasionalmente até ao Diabo.

      Acho que parte do engodo fascinante da jogatina é a enorme expectativa do resultado. Para prolongar a emoção, muitas vezes eu pedia que alguém verificasse os resultados dos páreos no jornal e depois fazia à pessoa perguntas tais como: “Tem o vencedor do segundo páreo dez letras no seu nome? Quanto peso carregava? Quanto pagava? Quem era o jóquei?”

      Depois da primeira ou segunda pergunta, eu já sabia pelas respostas quando havia apostado num vencedor. Daí, finalmente, perguntava se o cavalo de tal e tal nome — aquele em que havia apostado — havia vencido. Minha emoção era enorme ao ouvir que havia.

      ESFORÇOS PARA ACERTAR EM VENCEDORES

      A escolha de cavalos era um processo complexo. Às vezes levava horas para escolher um bom cavalo em que apostar. Muitas vezes eu decidia que certo páreo não tinha boas possibilidades de aposta. Mas, o que acontecia então?

      Naquela noite, eu sonhava a respeito de determinado cavalo como vencedor e apostava nele no dia seguinte. Ou eu ia ao hipódromo e notava que Straw Hat (Chapéu de Palha) estava correndo e que eu, inconscientemente, usava um chapéu de palha. Assim, naturalmente, apostava em Straw Hat. Lembro-me de que certa vez uma lata de abacaxi caiu da prateleira e pegou meu irmão na cabeça. Verificando

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