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Quando morre alguém que amamos . . .Despertai! — 1985 | 8 de novembro
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Quando morre alguém que amamos . . .
Ricardo e Mariana já estavam casados e eram felizes por 18 anos, e tinham um filho. Mas, já por cerca de um ano Ricardo sentia dores no ombro. Em meados de 1981, elas se intensificaram, e ele foi lentamente ficando paralisado. Uma cirurgia de emergência revelou a existência dum tumor canceroso bem no alto da espinha dorsal. Meses depois, em 2 de fevereiro de 1982, Ricardo morreu, aos 48 anos. “Isso foi difícil de aceitar”, explica Mariana. “Por longo tempo, tinha a impressão de que ele entraria por aquela porta a qualquer momento.”
SERÁ que o leitor, ou alguém que conhece, já passou por uma experiência parecida? Quando morre alguém que amamos, podem aflorar sentimentos e atitudes que jamais tivemos antes. Talvez fique imaginando se alguma vez voltará a sentir-se normal. Ou, como Mariana, talvez tenha dificuldades de aceitar a situação, mesmo que já tenha passado algum tempo.
Todavia, poderá recuperar-se — não esquecer-se, mas recuperar-se. ‘Mas, como?’, talvez pergunte. Bem, antes de podermos responder, é útil saber mais a respeito de como as pessoas se sentem quando perdem um ente querido. Recentemente, Despertai! entrevistou diversas pessoas que perderam entes queridos. Os comentários delas acham-se nesta série de artigos. Pode ser confortador saber que outros sentiram a mesma coisa que talvez sinta. E, compreender como eles lidaram com seus sentimentos pode ser-lhe de grande ajuda.
Relembra Mariana, ao explicar como se sentiu logo depois da morte de Ricardo: “Eu falava sem cessar sobre ele. Era um meio de mantê-lo vivo. Por todo o primeiro ano, estava em estado de choque. Há tantas coisas que se precisa fazer para pôr seus assuntos em ordem. A gente fica tão envolvida com estas coisas que não tem tempo para tratar da parte emocional.
“Acabei hospitalizada, com pressão alta. Por fim, quando estava no hospital, longe das pressões de casa e de tudo o mais, então consegui encarar o que tinha acontecido comigo. Era como dizer: ‘O que farei daqui para a frente?’”
Trata-se de uma reação incomum? Não, realmente. Quando se fica sabendo que um ente querido morreu, é um tanto comum entrar num estado de choque psicológico. Como disseram outros que passaram por isso: “Ouve-se o que nos dizem; contudo, não se ouve tudo. A mente fica parcialmente focalizada na realidade presente e parcialmente distante.”
Este choque poderá agir quase que como um analgésico. Como assim? Explica o livro Death and Grief in the Family (A Morte e o Pesar na Família): “É uma espécie de proteção que permite que nos conscientizemos gradualmente da enormidade do ocorrido.” Tal abalo poderá ajudá-lo a amainar o pleno impacto emocional de sua perda. Como Stella, uma viúva de Nova Iorque, explicou: “A gente fica pasma. Não se sente nada.”
“Deve Haver Algum Engano!”
Junto com esse torpor inicial, não é incomum experimentar várias formas de negação. “Deve haver algum engano!”, é uma frase muito ouvida nas primeiras horas de pesar. Para alguns, a perda é difícil de aceitar, especialmente se as pessoas não estavam com o ente querido por ocasião de sua morte. Relembra Stella: “Não presenciei a morte de meu marido; isto aconteceu no hospital. De forma que foi muito difícil acreditar que ele estava morto. Ele saiu para ir à mercearia, naquele dia, e era como se fosse voltar.”
Sabe que seu ente querido morreu, todavia, seus hábitos e suas recordações podem negá-lo. Por exemplo, explica Lynn Caine em seu livro Widow (Viúva): “Quando acontecia algo de engraçado, eu dizia para mim mesma: ‘Oh, espere só até eu poder contar isso a Martin, hoje à noite! Ele jamais vai acreditar!’ Houve vezes em que, lá no escritório, eu estendia a mão para o telefone, para ligar para ele, a fim de batermos um papo. Sempre caía na realidade, antes de conseguir discar.”
Outros fazem coisas parecidas, tais como pôr sempre o número errado de pratos para o jantar, ou procurar pegar no supermercado os alimentos favoritos da pessoa que se foi. Alguns têm até sonhos vívidos com o ente falecido, ou imaginam vê-lo na rua. Não é incomum que os que continuam vivos receiem estar ficando malucos. Mas, estas são reações comuns a tal mudança drástica na vida.
Por fim, porém, a dor se torna real, talvez fazendo aflorar outros sentimentos que a pessoa não estava preparada a enfrentar.
“Ele nos Abandonou!”
“Meus filhos ficavam transtornados e diziam: ‘Ele nos abandonou!’”, explicou Corina, cujo marido morreu há uns dois anos. “Eu lhes dizia: ‘Ele não abandonou vocês. Não pôde de forma alguma controlar o que lhe aconteceu.’ Daí, porém, pensava comigo mesma: ‘Eu digo isso a eles, mas sinto a mesma coisa!’” Sim, não importa quão surpreendente isto pareça ser, o pesar é muitas vezes acompanhado pela ira.
Talvez seja ira contra médicos e enfermeiras, achando que deviam ter feito mais para cuidar do falecido. Ou ira contra amigos e parentes que, segundo parece, dizem ou fazem coisas erradas. Alguns ficam irados com a pessoa que se foi, por não ter cuidado bem de sua saúde. Como recorda Stella: “Lembro-me de ficar irada com meu marido porque sabia que as coisas podiam ter sido diferentes. Ele estava muito doente, mas ignorara os avisos dos médicos.”
E, às vezes, fica-se irado com a pessoa falecida por causa das cargas que a morte dele ou dela traz aos que continuam vivos. Explica Corina: “Não estou acostumada a assumir todas as responsabilidades de cuidar da casa e da família. Não se pode chamar outras pessoas para resolver cada coisinha. Às vezes isso me deixa irada.”
No rastro da ira amiúde vem outro sentimento — o de culpa.
‘Ele não Teria Morrido, se Eu Tivesse . . .’
Alguns se sentem culpados por ficarem irados — isto é, podem condenar a si mesmos por sentirem ira. Outros se culpam pela morte de seu ente querido. “Ele não teria morrido”, convencem-se, “se eu o tivesse obrigado a ir ao médico antes”, ou, “se eu o tivesse levado a outro médico”, ou ainda, “se eu o tivesse obrigado a cuidar melhor de sua saúde”.
Para outros, a culpa vai mais além, especialmente se seu ente querido morreu subitamente, de forma inesperada. Começam a lembrar os tempos em que ficaram irados ou discutiram com a pessoa falecida. Ou talvez julguem que realmente não mantinham o relacionamento que deviam ter mantido com o falecido. Deixam-se atormentar por idéias tais como: ‘Eu deveria ter — ou, não deveria ter — feito isto ou aquilo.’
Miguel, um rapaz de seus 20 e poucos anos, lembra-se: “Nunca tive um bom relacionamento com meu pai. Foi somente nos últimos anos que realmente passei a conversar com ele. Agora [desde que o pai dele morreu] há tantas coisas que acho que devia ter feito ou dito.” Naturalmente, constatar que agora não existe mais jeito de reparar isso somente poderá aumentar a frustração e a culpa da pessoa.
Embora seja muito aflitivo perder o cônjuge, um genitor, um irmão, ou uma irmã, o que alguns consideram ser a perda mais trágica de todas é a morte dum filho.
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Os sentimentos dos paisDespertai! — 1985 | 8 de novembro
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Os sentimentos dos pais
GENI levou seus seis filhos — cinco moças e um menino — para umas férias em que visitariam alguns amigos no norte do estado de Nova Iorque. Certo dia, as moças resolveram ir à cidade. O filho dela, Jimmy, e outro garoto perguntaram se poderiam dar uma longa caminhada. Recomendou-se que os meninos tivessem muito cuidado e voltassem no começo da tarde.
Em fins da tarde, os meninos ainda não tinham retornado. “Quanto mais as horas passavam, mais preocupada eu ficava”, relembra Geni. “Imaginei que um deles talvez se tivesse machucado e o outro não quisesse deixá-lo sozinho.” As buscas prosseguiram pela noite toda. Bem cedo, na manhã seguinte, eles foram encontrados, e confirmaram-se os piores receios de todos — os garotos caíram dum precipício e morreram. Embora já se tenham passado dez anos, Geni explica: “Jamais me esquecerei do instante em que aquele policial entrou na casa. Seu rosto estava extremamente pálido. Eu sabia o que ele iria me dizer, mesmo antes de proferir uma palavra sequer.”
E os seus sentimentos? Vão além dos sentimentos comuns que acompanham outras perdas. Como Geni explica: “Eu dei à luz Jimmy. Ele só tinha 12 anos quando morreu. Tinha toda uma vida pela frente. Já sofri outras perdas na vida. Mas o sentimento é diferente quando se é pai ou mãe, e seu filho morre.”
A perda dum filho tem sido descrita como “a pior das perdas”. Por quê? Explica o livro Death and Grief in the Family: “A morte dum filho é algo tão inesperado. É contra a ordem natural das coisas, é desnatural. . . . Um genitor sempre espera cuidar de seus filhos, mantê-los seguros, e criá-los para se tornarem adultos normais e saudáveis. Quando um filho morre, é como se arrancassem o tapete de debaixo de nossos pés.”
Em certos sentidos, é uma situação especialmente difícil para a mãe. Afinal de contas, como explicou Geni, morreu algo que procedeu de dentro dela. Assim, a Bíblia reconhece o amargo pesar que uma mãe pode sentir. (2 Reis 4:27) Naturalmente, é algo difícil também para o pai desolado. Ele também sente a dor, a ferida. (Compare com Gênesis 42:36-38 e; 2 Samuel 18:33.) Mas, amiúde, ele se restringe de expressar abertamente suas emoções, por receio de não parecer varonil. Talvez fique sentido, também, quando outros expressam mais preocupação com os sentimentos da esposa do que com os dele.
Às vezes, um genitor desolado passa a ter um sentimento especial de culpa. Talvez surjam idéias tais como: ‘Poderia tê-lo amado mais?’, ‘Será que não deveria ter-lhe dito mais vezes que o amava?’, e: ‘Poderia tê-lo acariciado ao colo mais vezes.’ Ou, como Geni se expressou: “Gostaria de ter gasto mais tempo com Jimmy.”
É natural que os pais sintam-se responsáveis por seu filho. Mas, às vezes, pais que sofrem tal perda se culpam, achando que deixaram de fazer algo que poderia ter impedido a morte do filho. Por exemplo, a Bíblia descreve a reação do patriarca Jacó quando foi levado a crer que José, seu filho jovem, tinha sido morto por um animal selvagem. O próprio Jacó tinha mandado José verificar como passavam seus irmãos. Assim, ele talvez fosse afligido por sentimentos de culpa, tais como: ‘Por que fui mandar José sozinho? Por que o mandei a uma área cheia de animais selvagens?’ Assim, os “filhos e todas as . . . filhas [de Jacó] se levantavam para consolá-lo, mas ele se negava a ser consolado”. — Gênesis 37:33-35.
Como se não bastasse a perda dum filho, alguns ainda sofrem outra perda — a perda de amigos. Os amigos talvez se mantenham realmente distantes. Por quê? Geni observou: “Muita gente se afasta por não saber o que dizer.”
Quando Morre um Bebê
Juanita sabia o que era perder um bebê. Ao atingir seus 20 e poucos anos, já tinha tido cinco abortos involuntários. Ela agora estava grávida de novo. Assim quando um acidente de carro obrigou-a a hospitalizar-se, ficou compreensivelmente preocupada. Duas semanas depois entrou nos trabalhos de parto — prematuramente. Pouco depois, nasceu a pequenina Vanessa — pesando apenas cerca de 900 gramas. “Fiquei tão excitada”, lembra-se. “Por fim conseguia ser mãe!”
Mas a felicidade dela durou pouco. Quatro dias depois, Vanessa morreu. Relembra Juanita: “Eu me senti completamente vazia. Arrancaram de mim a minha maternidade. Eu me sentia incompleta. Era doloroso voltar para casa, e ir ao quarto que tínhamos preparado para Vanessa, e olhar as roupinhas que eu tinha comprado para ela. Nos dois meses seguintes, eu revivia o dia do nascimento dela. Não queria ter nada que ver com mais ninguém.”
Trata-se duma reação extremada? Talvez seja difícil para outros compreenderem, mas aqueles que, como Juanita, já passaram por isso, explicam que sentiram tanto pesar pelo seu bebê como sentiriam por alguém que tivesse vivido algum tempo. Muito antes de o bebê nascer, explicam, ele já é amado pelos pais. Quando tal bebê morre, a sua perda é de uma pessoa real. Desvanecem-se as esperanças dos pais de cuidar de alguém que se movimentava no ventre da mãe.
Depois de tal perda, é compreensível que a mãe recém-desolada se sinta desconfortável perto de outras senhoras grávidas, e de mães com seus filhinhos. Relembra Juanita: “Não tolerava ver uma mulher grávida. Ora, houve ocasiões em que saí rapidamente duma loja, no meio das compras, só porque vi uma mulher grávida.”
Daí, existem outros sentimentos — tais como o temor (‘Será que algum dia terei um bebê normal?’) ou de embaraço (‘O que vou dizer aos amigos e parentes?’), ou de ira. Recorda Beatriz, cuja filha morreu dois dias e meio depois de nascer: “Houve ocasiões quando pensei: ‘Por que eu? Por que meu filhinho?’” E, às vezes, a pessoa se sente humilhada. Explica Juanita: “Lá estavam mães que deixavam o hospital com seus bebês, e tudo que eu tinha era um bichinho de pelúcia que meu marido tinha comprado. Sentia-me humilhada.”
Se já perdeu um ente querido, pode ser útil saber que aquilo que sente é normal, que outros já passaram pela mesma coisa e tiveram sentimentos similares.
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