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  • Países-Baixos
  • Anuário das Testemunhas de Jeová de 1986
  • Subtítulos
  • ÉPOCA PARA UM DESPERTAR ESPIRITUAL
  • MELHOR ORGANIZAÇÃO ESTIMULA O CRESCIMENTO
  • TRABALHADORES DE TEMPO INTEGRAL NO CAMPO
  • PROVAS DE LEALDADE RESULTAM NUM PENEIRAMENTO
  • TRABALHADORES DISPOSTOS RESPONDEM À CONVOCAÇÃO
  • TOMAR POSIÇÃO A FAVOR DA VERDADE
  • MORADIA PARA OS PIONEIROS
  • RÁPIDO PROGRESSO RESULTA EM AÇÃO JUDICIAL
  • ‘ENVIA TEU PÃO SOBRE AS ÁGUAS’
  • DIFICULDADES NÃO IMPEDEM A OBRA
  • INTRÉPIDO TESTEMUNHO COM OS FONÓGRAFOS
  • CRESCENTE PRESSÃO SOBRE PIONEIROS ALEMÃES
  • AS REUNIÕES NAQUELA ÉPOCA ERAM MUITO DIFERENTES
  • ORDEM TEOCRÁTICA FORTALECE A ORGANIZAÇÃO
  • FORMAM-SE AS NUVENS DE GUERRA
  • AÇÃO CATÓLICA SAI PELA CULATRA
  • LIBERTADOS DA ESCRAVIDÃO
  • IRROMPE A GUERRA
  • INVADIDOS BETEL E UM LAR DE PIONEIROS
  • PROTEGIDO O ALIMENTO ESPIRITUAL
  • REUNIÕES E PREGAÇÃO PROSSEGUEM DURANTE A GUERRA
  • O CERCO FICA APERTADO
  • ORIENTAÇÃO OPORTUNA PARA OS IRMÃOS NO CAMPO
  • PÕE-SE EM PRÁTICA OS ARRANJOS ÀS OCULTAS
  • ONDA DE PRISÕES E INTERROGATÓRIOS
  • O TRATAMENTO FICA MAIS BRUTAL
  • ALGUNS OBTÊM CERTO ALÍVIO
  • O MONSTRO NAZISTA ATACA VIOLENTAMENTE
  • DESCALÇO NA NEVE
  • AJUDA DIVINA PARA SUPORTAR TORTURA CRUEL
  • PROSSEGUE A PREGAÇÃO SOB CIRCUNSTÂNCIAS PERIGOSAS
  • SATANÁS ATACA DE FORMAS NÃO PREVISTAS
  • CÂNTICOS NA PRISÃO
  • SUAS CONSCIÊNCIAS NÃO FALARAM ALTO
  • A FORÇA QUE TORNA POSSÍVEL PERSEVERAR
  • “O REGOZIJO DE JEOVÁ É O VOSSO BALUARTE”
  • PREGAÇÃO APESAR DE CONFINAMENTO
  • SURGE AOS POUCOS A APOSTASIA
  • UM GRUPO ESPECIAL, É PROVADO SEVERAMENTE
  • ENFRENTAR A ESCASSEZ DE ALIMENTOS
  • ELE ABRAÇOU A VERDADE SOB GRANDE ADVERSIDADE
  • ESFORÇOS DESESPERADOS DUM INIMIGO VENCIDO
  • A FOME COLHE UM PESADO TRIBUTO
  • LIVRAMENTO DOS CAMPOS
  • RECONSTRUÇÃO NO PERÍODO DO APÓS-GUERRA
  • A PRIMEIRA ASSEMBLÉIA DO APÓS-GUERRA
  • AGENTES DE SATANÁS DESENCADEIAM OUTRO ATAQUE
  • ATENÇÃO AMOROSA DA SEDE ACELERA A OBRA
  • RÁPIDA SUCESSÃO DE MARCOS TEOCRÁTICOS
  • SURGE O MATERIALISMO
  • PROBLEMAS NA FRENTE JURÍDICA
  • NOVOS INSTRUMENTOS PARA O CAMPO
  • ÉPOCA DE GRANDE REGOZIJO
  • AJUSTES NA SUPERVISÃO DA FILIAL
  • FORTALECIMENTO DA ORGANIZAÇÃO
  • CONSELHO PARA TORNAR MAIS FRUTÍFERO O NOSSO TRABALHO
  • SERVOS FIÉIS RECEBEM SUA RECOMPENSA
  • AMPLIADAS AS DEPENDÊNCIAS DA FILIAL PARA SUPRIR AS CRESCENTES NECESSIDADES
  • UMA CLARA DISTINÇÃO
Anuário das Testemunhas de Jeová de 1986
yb86 pp. 110-185

Países-Baixos

EXISTEM poucas nações que precisam estar constantemente alertas para impedir que o mar inunde grande parte de suas terras. Mas nos Países-Baixos é isto o que acontece. O mar do Norte fica além das dunas naturais e dos diques feitos pelo homem, a oeste e ao norte. Contudo, em mais de uma ocasião esse mar cobriu vastas áreas daquilo que atualmente é o solo mais fértil.

Outra característica deste país é sugerida pelo nome Holanda. Devido às florestas que outrora se estendiam por trás das dunas a oeste, essa parte do país era conhecida como Houtland (Terra Coberta de Bosques), que foi mudado para Holanda. Embora os Países-Baixos sejam um dos países mais densamente povoados do mundo, ainda há algumas florestas razoavelmente grandes nas regiões central e oriental. Há também muitos lagos espalhados pelas regiões ocidental e setentrional do país. Sim, há água em abundância, e devido a isso a Holanda sempre é associada a diques, moinhos de vento e tamancos.

Por séculos os Países-Baixos têm estado notavelmente ligados à navegação. No século 17, os holandeses tornaram-se a maior potência comercial e naval dos mares. Tinham colônias ao redor do globo. Era pelo mar que os holandeses traziam riquezas de suas colônias e então as transportavam em barcos fluviais para o coração da Europa. Em conseqüência da guerra no século 18, os holandeses perderam o controle dos mares para os ingleses. Mas, perto do fim do século seguinte, abriu-se ao povo holandês uma nova oportunidade.

ÉPOCA PARA UM DESPERTAR ESPIRITUAL

Em 1891, Charles Taze Russell viajou pela Europa para ver o que se podia fazer “para promover a divulgação da Verdade” ali. Visitou Roterdã, Amsterdã e Haia. O que despontava para os holandeses não era algum novo empreendimento comercial. Era a oportunidade de aprender os propósitos do Criador do céu e da terra junto com o privilégio de ser suas testemunhas. Mas, onde se achariam trabalhadores para dar atenção a esta parte do campo?

Na virada do século, um jovem luterano, Heinrich Brinkhoff, mudou-se para a cidade de Haarlem, nos Países-Baixos, para fazer uma obra missionária. Era zeloso, mas faltava-lhe conhecimento exato. Logo juntou-se aos Batistas do Sétimo dia; mas, ainda estava sondando. Também começou a ler literatura bíblica editada pela Sociedade Torre de Vigia e pela Associação Internacional dos Estudantes da Bíblia. Seu interesse nela cresceu a ponto de os batistas não mais o quererem. Ele estava ansioso de partilhar com outros o que aprendia. Portanto, traduziu e depois distribuiu pessoalmente o primeiro volume de Estudos das Escrituras, bem como o pequeno livro Alimento Para os Cristãos Refletivos e alguns tratados, todos editados pela Sociedade Torre de Vigia. Com o tempo, essas sementes da verdade começaram a germinar.

Logo juntaram-se a ele a idosa irmã Kropff, em Roterdã, e Frits Peters, um jovem em Amsterdã. Nessa época Ruurd Hallema começou a distribuir algumas destas publicações ao visitar seus pais na província de Frisia. Foi assim que J. Andringa obteve um dos livros. A matéria era como suave melodia para os seus ouvidos. Ele já estava em rixa com sua igreja, e então, quando seu ministro, durante os ofícios dominicais, orou pela vitória dos Aliados na guerra mundial em andamento, Andringa rompeu com a igreja e empreendeu uma vida de serviço ao verdadeiro Deus.

Durante os anos de guerra formou-se um pequeno grupo de Estudantes da Bíblia em Roterdã e outro grupo em Amsterdã. Em 1918, eles até mesmo tomaram a iniciativa de editar três números de A Torre de Vigia em holandês, mas o interesse demonstrado naquela época era evidentemente muito limitado.

MELHOR ORGANIZAÇÃO ESTIMULA O CRESCIMENTO

Em 1920, J. F. Rutherford, o então presidente da Sociedade Torre de Vigia (dos EUA), visitou a Europa e estabeleceu o Escritório Central Europeu da Sociedade, na Suíça. Os Países-Baixos passaram a estar sob a supervisão deste. O irmão Rutherford solicitou a Adriaan Block, que tinha uma próspera clínica dentária em Mulhouse, França, a regressar à Holanda para assumir a supervisão das congregações ali. Ele fez isto em 1921. No ano seguinte foram feitos arranjos para uma filial no coração de Amsterdã. Havia alguns problemas entre os irmãos nos Países-Baixos, mas, com arranjos organizacionais aprimorados, o progresso tornou-se evidente. A energia deles foi canalizada para a pregação das boas novas do Reino, e essa mensagem espalhou-se por todo o país como nunca antes.

A obra do Reino aqui recebeu impulso adicional quando o irmão Rutherford pessoalmente visitou Amsterdã, em 1923. No grande auditório do Diamond Exchange, ele proferiu o emocionante discurso “Milhões Que Agora Vivem Jamais Morrerão”. Com a colaboração do pioneiro da rádio holandesa, Willem Vogt, este discurso foi transmitido ao vivo de Diamond Exchange de modo que pôde ser ouvido pelas pessoas em todo o país. Esta foi a primeira vez que se fez tal coisa nos Países-Baixos.

Naquela ocasião estava na assistência Arnold Werner, de 19 anos. Fazia esforço sincero de conhecer mais acerca de Deus por freqüentar o catecismo na Igreja Reformada. Mas não obtinha respostas satisfatórias às suas perguntas. Na mesma época, seu irmão mais velho, Tom, obtinha respostas diretamente da Bíblia em resultado de seu contato com os Estudantes Internacionais da Bíblia, como então eram conhecidas as Testemunhas de Jeová. Para Arnold, aquele discurso no Diamond Exchange foi o principal ponto decisivo em sua vida.

TRABALHADORES DE TEMPO INTEGRAL NO CAMPO

No ano seguinte, Tom Werner e Otto Lehmann começaram a devotar seu tempo integral à distribuição de publicações bíblicas. O irmão Block, também, fez diversas viagens da filial para proferir discursos que eram muito estimulantes para os grupos de estudo. Naquele ano, numa assembléia nacional de um dia, em abril, Arnold Werner estava entre os que se apresentaram para o batismo em água.

Qual jovem interessado nos esportes, Arnold havia investido num bom barco a vela. Mas, logo após sua imersão vendeu o barco e usou grande parte da renda para financiar viagens a povoados ao longo da rede ferroviária para distribuir uma resolução intitulada “Um Desafio aos Líderes do Mundo”. Esta resolução conclamava todos a reconhecer e aceitar o Reino de Deus, e expunha a infidelidade da cristandade em endossar um substituto, a Liga das Nações. Arnold, pessoalmente, distribuiu dezenas de milhares de exemplares desta resolução.

Com o tempo, Arnold juntou-se a seu irmão Tom, e, visto que se mudavam com freqüência através do país, moravam numa casa móvel construída num caminhão Ford-bigode. Juntos distribuíram a pungente exposição da cristandade apresentada na resolução “Acusação”. Destemidamente, foram às regiões onde a Igreja Católica Romana até então reinara soberana. Na cidade de Helmond, um grupo de mulheres que gritava histericamente ajuntou-se no meio da rua e clamou: “Nossa Santa Igreja está sendo acusada!” Mas, os irmãos prosseguiram calmamente com o seu trabalho.

Logo foram interpelados por um sacerdote, que disse: “O que esse panfleto contém não é a verdade. Vocês devem parar imediatamente a distribuição.” Mas os dois irmãos responderam: “Senhor, estamos convencidos de que o que esta resolução contém baseia-se naquilo que a Bíblia ensina sobre este assunto. Consideramos ser nosso dever tornar conhecidas estas verdades às pessoas. Mas, cessaremos imediatamente a distribuição se nos mostrar, à base da Bíblia, que o que esta resolução contém não é verdade.” “Ótimo”, replicou ele, bastante aliviado. “Apresentem-se a mim no presbitério esta tarde por volta das duas horas.” Eram então cerca de 11 horas da manhã. “Muito bem”, disseram os irmãos e prosseguiram com o seu trabalho.

Mas, quando o clérigo viu que continuavam a distribuição, ordenou exaltadamente: “Sim, mas vocês têm de parar esta distribuição imediatamente.” A isso os irmãos responderam: “Senhor, neste momento ainda estamos convencidos de que o que esta resolução contém é a verdade, e até que se prove o contrário, vamos fazer a nossa obrigação.” A isso o sacerdote respondeu: “Oh, neste caso venham comigo imediatamente!” Naturalmente, ele não pôde refutar nada na resolução, de modo que os irmãos prosseguiram com o trabalho até cobrirem toda a cidade.

PROVAS DE LEALDADE RESULTAM NUM PENEIRAMENTO

Jeová habilita seus servos a compreenderem Seus propósitos de maneira progressiva. Conforme declarado em Provérbios 4:18: “A vereda dos justos é como a luz clara que clareia mais e mais até o dia estar firmemente estabelecido.” Os propósitos de Jeová não mudam, mas o entendimento de seus servos sobre quando e como estes se darão talvez precise de ajuste, à medida que a luz brilha mais claramente. Tais mudanças podem resultar em duras provas de lealdade. Isso aconteceu em 1925. Naquela época alguns desviaram-se da congregação. Inicialmente associavam-se uns com os outros qual grupo fracamente unido e depois seguiram seus caminhos independentes. Alguns chegaram a ponto de dizer: “Se aquilo que esperamos não vier em 1925, então atirarei minha Bíblia no fogo.” Obviamente perderam de vista as verdadeiras questões, estavam-se cansando no serviço de Deus e estavam mais preocupados com obterem logo sua própria recompensa do que em ajudar outros a se beneficiarem das amorosas provisões de Deus.

A questão crucial que confrontou todos os irmãos nos Países-Baixos, como aos servos de Jeová em toda a terra, foi: Quem honrará a Jeová? Responder a essa pergunta de forma pessoal e positiva provou ser fator vital em demonstrar lealdade a Jeová e à sua organização visível.

Em 1927, Arnold Werner foi nomeado servo da filial, substituindo Adriaan Block. Uma mudança assim pode ser uma prova para a pessoa. Por vários anos, porém, o irmão Block evidentemente dedicou leal cooperação ao homem que o substituíra. Mas, com o tempo, a lealdade do irmão Block desvaneceu-se. Em resultado, a congregação que ele presidia entrou em colapso, e muitos que se associavam com ela tornaram-se efetivamente opositores do povo de Jeová durante a Segunda Guerra Mundial.

TRABALHADORES DISPOSTOS RESPONDEM À CONVOCAÇÃO

No começo de 1927, fez-se uma convocação para mais proclamadores de tempo integral das boas novas — colportores, como eram chamados então. Logo havia oito nos Países-Baixos. E como aumentou a distribuição de publicações bíblicas! Dobrou naquele ano, e duplicou de novo em 1928. Muitas sementes da verdade do Reino estavam sendo plantadas.

Alguns desses zelosos trabalhadores vieram da França. Numa assembléia ali, os irmãos de língua polonesa foram informados da necessidade de voluntários para levar as boas novas aos mineiros de língua polonesa na região sul dos Países-Baixos. André Kowalski e seu companheiro reuniram seus pertences e mudaram-se para a província de Limburgo, no fim de 1927. Não só encontraram muitos interessados, mas André foi recompensado com uma boa esposa, uma zelosa irmã pioneira que viera ajudá-los em sua designação.

Este território estivera por muito tempo em completa servidão à Igreja Católica Romana. Assim, à medida que aumentava o interesse nas boas novas, a oposição também aumentava. Quase que diariamente os irmãos eram ordenados a parar seu trabalho, e amiúde eram arrastados às delegacias de polícia e detidos por horas. Num domingo de manhã, quando faziam visitas num povoado, o povo informou o clero. A polícia, chefiada pelo burgomestre, cercou os irmãos, prendeu-os e levou-os à Prefeitura. Naturalmente, os irmãos não haviam violado a lei, de modo que foram soltos logo. Entrementes, uma grande multidão de curiosos se reunira para ver qual seria o resultado. Assim que os irmãos saíram do prédio, gritaram para a multidão: “Senhoras e senhores, ainda estamos aqui.” Daí ofereceram-lhes publicações bíblicas e rapidamente colocaram tudo o que tinham.

TOMAR POSIÇÃO A FAVOR DA VERDADE

Naqueles dias eram raros as revisitas e os estudos bíblicos. Portanto, qualquer um que abraçasse a verdadeira adoração tinha de mostrar iniciativa pessoal e ser alguém que buscava realmente a verdade. Ulrich Kress, minerador, era assim. Em 1930, depois duma breve palestra na sala de espera dum consultório médico, August Lach convidou Ulrich a visitá-lo em sua casa. Ulrich foi, e depois de ler um exemplar da revista A Idade de Ouro (agora Despertai!), voltou na noite seguinte, desta vez com muitas perguntas. Ficou pasmado com as respostas que recebia à base da Bíblia. Antes de Ulrich partir, perguntou: “O que o senhor faz no domingo?” August respondeu: “Não tenho tempo no domingo. De manhã vou de casa em casa para distribuir A Idade de Ouro e de tarde assisto a uma reunião bíblica.” Ulrich queria ir com ele.

As instruções que ele recebeu no domingo de manhã foram mais ou menos assim: ‘Aqui estão algumas revistas e folhetos, e o preço é tanto. Você trabalha do lado esquerdo da rua, e eu farei o lado direito. Se chegar ao fim antes de mim, então trabalhe vindo em meu encontro. Se não tiver campainha na porta, simplesmente bata.’ Só isso.

Depois de trabalharem umas duas horas, o grupo reuniu-se numa esquina, onde trocavam experiências. Pareciam estar se divertindo muito. Um deles contou que havia recebido uma vassourada. Ulrich não podia entender como experiências assim podiam deixá-los felizes. Mas a alegria deles infundiu-lhe coragem. — Mat. 5:10-12.

As assembléias naqueles dias eram pequenas quando comparadas às de hoje. Setenta compareceram em Haia, em 1929. Durante a visita do irmão Rutherford, em 1933, havia apenas 165 presentes. Mas cada assembléia era aguardada com vivo interesse pelos irmãos.

MORADIA PARA OS PIONEIROS

No começo da década de 30, o Escritório Central Europeu instou com homens e mulheres jovens através da Europa a porem sua fé à prova por se mudarem para países onde a necessidade era maior. Os Países-Baixos eram um ‘osso duro de roer’, em sentido religioso. Mas, os holandeses tinham a reputação de serem hospitaleiros para com os refugiados e os estranhos, de modo que pioneiros de países próximos foram trabalhar nos Países-Baixos. Muitos vieram da Alemanha. Vários da Holanda juntaram-se a eles no serviço de tempo integral. Alguns abandonaram casas confortáveis e empregos que pagavam bem. Alguns eram bem novos no serviço de Jeová. Max Henning, da Alemanha, nem batizado era quando atendeu à convocação para trabalhadores. Mas todos estavam dispostos a trabalhar arduamente como pioneiros.

Para ajudar esses trabalhadores de tempo integral, a filial alugou locais que pudessem servir qual residência de pioneiros. Seis pioneiros moravam numa mesma casa, em Tilburg; nove, em Amsterdã. Mais tarde, estabeleceram-se lares de pioneiros em Eindhoven, Heemstede e Leersum. Entendia-se que cada pioneiro depositaria no fundo tudo o que recebiam das colocações de literatura. Todos participavam dos deveres relacionados com manter uma casa. Um irmão que sabia consertar sapatos fazia isso, outro cortava o cabelo, e assim por diante. Se sobrasse algum dinheiro no fim do mês depois de serem cobertas as despesas, este era dividido entre os pioneiros. Usualmente, não era mais do que alguns centavos.

Em fins de 1931, foi utilizado um barco alugado pela Sociedade para incrementar a pregação. Chamava-se Almina e ficava atracado no canal na cidade de Zwolle. Este lar móvel fornecia boa moradia aos pioneiros ao trabalharem nas cidades e povoados ao longo dos canais. Mas havia um problema: Os pioneiros designados àquele barco sabiam tanto sobre operar barcos quanto viajar para a lua. Portanto, quando Ferdinand Holtorf revelou que fora marinheiro, foi prontamente designado para o Almina e encaminhado às pressas a Zwolle

O Almina era um bom barco, mas tinha suas desvantagens. Não tinha motor, e nem velas. Como poderiam fazer a coisa andar? ‘Bem, há um irmão forte a bordo?’ Então o problema estava resolvido. Ele seria o “cavalo”, e com uma corda poderia puxar o barco à medida que andava pela margem do canal. Assim partiram! O grupo fez um bom trabalho, usando aquele barco como centro de operações, ao passo que davam testemunho no interior em direção ao nordeste. Emmen foi uma das cidades em que pregaram. Ninguém, naquela época, tinha a mínima idéia de que uns 50 anos mais tarde esta cidade abrigaria uma moderna filial e gráfica da Sociedade Torre de Vigia!

RÁPIDO PROGRESSO RESULTA EM AÇÃO JUDICIAL

Ao passo que a intensidade da pregação aumentava, o mesmo acontecia com a oposição do clero, em algumas regiões. Foi assim nos subúrbios de Tilburg. Quando uma localidade era trabalhada dois dias seguidos, os publicadores eram expulsos por turbas que atiravam pedras e empunhavam forcados. Para fazer face às despesas de modo a poderem permanecer naquela região e dar um testemunho cabal, amiúde era necessário que os pioneiros se mudassem para um território mais amistoso em outra parte do país, onde pudessem colocar muitas publicações, por um ou dois meses, antes de continuarem seu trabalho na região de Tilburg.

Tamanha foi a pressão contra os que moravam no lar de pioneiros em Tilburg que o fornecimento de luz, água e gás foi cortado. Houve até mesmo tentativas de incendiar a casa. E fez-se a ameaça de que se a obra das Testemunhas prosseguisse naquela parte do país, todos os que tinham vindo de países estrangeiros para pregar seriam deportados. De fato, certa noite o irmão Sonnenschein não voltou para casa, como de costume. Quando se recorreu à polícia em Tilburg, disseram que as Testemunhas estavam causando inquietação entre o povo e que provavelmente aquele que faltava tinha sido expulso do país. E foi isso o que aconteceu. As autoridades locais decidiram que nosso irmão devia ser entregue às autoridades nazistas na Alemanha. Em resultado, ele foi enviado a um campo de concentração. Adotou-se a mesma ação contra os irmãos Lange, Gädeke e Backes. Por fim, o lar em Tilburg foi abandonado e os pioneiros foram transferidos para outras designações.

Houve uma rápida reação da parte dos juristas no país e da imprensa. Het Volk de 10 de abril de 1934 citou o parecer de diversos juristas nesta questão. Disse um advogado: “A situação de completa falta de direitos da parte do estrangeiro . . . leva a honrada tradição do direito de asilo dos Países-Baixos ao descrédito em outros países.” No Parlamento, instou-se com o Ministro da Justiça a que usasse sua influência para destituir as autoridades policiais locais do poder de expulsão.

Durante esta época, a Lei do Fechamento de Lojas foi também aplicada às Testemunhas de Jeová, de modo que foram proibidas de oferecer literatura bíblica por uma contribuição em lugares públicos aos domingos. Um recurso ao Ministério de Assuntos Econômicos não trouxe nenhuma reparação. Apesar de tais golpes, a mensagem do Reino continuou a espalhar-se.

‘ENVIA TEU PÃO SOBRE AS ÁGUAS’

Em meados de 1934, os pioneiros deixaram quatro folhetos com uma senhora perto de Roterdã. Mais tarde naquele dia, ao voltar dum jogo de futebol, o filho dela, Jan, encontrou os folhetos sobre a mesa. Embora seus pais fossem religiosos devotos, Jan estava perdendo o interesse na religião. Até mesmo começara a experimentar o comunismo. Mas, ao ler os folhetos, discerniu que estes continham a verdade. Os pioneiros não retornaram. Naqueles dias um princípio aplicado à pregação era: “Envia teu pão sobre a superfície das águas, pois no decorrer de muitos dias o acharás de novo.” (Ecl. 11:1) Eles disseminavam generosamente a mensagem do Reino, mesmo se os resultados não fossem logo evidentes. Mas Jan não esperou por “muitos dias” para agir à base do que aprendia. Falou a todos que quisessem ouvir. Sua namorada juntou-se a ele na pregação, e juntos ainda servem a Jeová.

Ao norte, em Groningen, Ferdinand Holtorf foi informado pela filial que devia contatar certo senhor na zona rural que pedia grandes quantidades de folhetos para colocar. Depois de muita procura, Tjeerd de Bruijn foi localizado. Conforme se constatou, ele obtivera três folhetos da própria esposa de Ferdinand um ano antes, mas depois mudou-se. Sentiu-se impelido a partilhar com outros as maravilhosas verdades que aprendera. Tjeerd fazia serviço pesado num dique, além de ter que viajar duas horas de bicicleta para chegar ali, e outras duas horas para voltar à noitinha. Ele também tinha trabalho a fazer na horta após retornar a casa. Mas o apreço pela verdade moveu-o a juntar-se a Ferdinand na pregação depois disso, algumas vezes até a meia-noite.

Especialmente em regiões rurais onde a Igreja Reformada Calvinista exercia forte domínio, os pioneiros tiveram de dar atenção especial à sua roupa para poderem testemunhar eficazmente. As pessoas nessas regiões criam ser uma grande virtude vestir-se de preto, e achavam que se devia cobrir o corpo tanto quanto possível. As pioneiras da Alemanha estavam acostumadas a vestir-se dum modo que não era apreciado por tais pessoas. Amiúde eram repelidas com comentários como: ‘Vocês, de roupas e meias claras, de cabelo curto, vão querer ensinar-nos algo sobre Deus?’ Mas as pioneiras observaram que Jopie de Jong, pioneiro local que pertencera à Igreja Reformada Calvinista e que compreendia aquelas pessoas, tinha mais êxito. Ah, sim, mas ele usava uma elegante calça listrada e um distinto chapéu-de-coco ao se empenhar no ministério de campo! Assim, começaram a vestir-se dum modo que pudessem ser mais aceitáveis ao público.

DIFICULDADES NÃO IMPEDEM A OBRA

Os pioneiros não se esquivaram de uma vida dura. Durante períodos especiais de testemunho não era incomum dedicarem até 100 horas por semana ao ministério de campo. No fim da primavera e no começo do outono, iniciavam o testemunho nas zonas rurais às 7 da manhã e tomavam o desjejum andando. Em vez de pararem para o almoço, comiam alguma coisa ao viajarem entre as casas. Por fim, às 9 da noite rumavam para casa, depois de 14 horas de pregação. Não era incomum distribuírem 400, sim, até 800 folhetos numa semana assim.

Mas a situação econômica no país piorou em meados da década de 30. Havia muito desemprego, e era mais difícil para as pessoas contribuírem pelas publicações.

Acontecimentos na Alemanha também influíam — a princípio indiretamente. Quando Arthur Winkler e sua esposa, Käthe, cruzaram a fronteira da Alemanha para trabalhar de pioneiros nos Países-Baixos, trouxeram notícias dos horrores dos campos de concentração. Isto fez os irmãos holandeses refletirem seriamente sobre a possibilidade de eles também virem algum dia a sofrer tais provações.

As autoridades holandesas exerciam bastante cautela para não ofenderem Adolfo Hitler. Em outubro de 1934, quando as Testemunhas em 50 países enviaram telegramas de protesto pelo tratamento desumano infligido por Hitler às Testemunhas de Jeová na Alemanha, muitos agentes do correio nos Países-Baixos recusaram-se a aceitar tais telegramas. Contudo, as pessoas continuavam a abraçar a verdade, e algumas tornaram-se verdadeiras colunas espirituais.

INTRÉPIDO TESTEMUNHO COM OS FONÓGRAFOS

Logo foi introduzido outro instrumento para uso na pregação — o fonógrafo. Todos os publicadores estavam ansiosos de usá-lo. Kasper Keim, pioneiro alemão que trabalhava em Enschede em 1938, ficou feliz de ter um “Arão” para falar por ele visto que era “vagaroso de boca e vagaroso de língua” ao tentar falar holandês. (Veja Êxodo 4:10, 14-16.) Ele pediu à irmã Albrecht que o ajudasse a apresentar seu “Arão”, e ela sugeriu: ‘Quando chegar a uma porta, pergunte a quem lhe atender: “A senhora ou o senhor dispõe de cinco minutos?” Se disserem sim, então toque os discos.’ Na manhã seguinte Kasper confiantemente tocou a primeira campainha. Quando apareceu uma senhora, ele disse resolutamente: “Madame, a senhora dispõe de cinco minutos!” Numa porta após outra, os moradores espantados simplesmente ficavam parados e escutavam.

Apesar da difícil situação econômica, os publicadores queriam ter fonógrafos para usar. No norte do país, Tjeerd de Bruijn vendeu prontamente sua cabra a fim de comprar um fonógrafo. Daí ele esperava às saídas de igrejas e proporcionava aos paroquianos outro sermão à medida que saíam.

Em Soest, a irmã J. de Bree levava seu fonógrafo a um cruzamento movimentado, punha-o no chão e tocava os discos, amiúde para até 30 pessoas. Quando os pioneiros sediados em Deventer testemunhavam nos portos ao longo do rio Ijssel, eles almoçavam onde se ajuntavam grupos. Enquanto comiam, tocavam os discos para outros ouvirem. Às vezes tantos quantos 25 escutavam e depois faziam perguntas. Foi também utilizada uma casa-reboque especialmente construída, aparelhada com um alto-falante retrátil. Assim, a atividade de pregação prosseguia com crescente intensidade.

CRESCENTE PRESSÃO SOBRE PIONEIROS ALEMÃES

À medida que a perseguição contra as Testemunhas aumentava na Alemanha, mais delas cruzavam a fronteira para os Países-Baixos. Os irmãos holandeses ajudaram a fornecer moradia, mas eram cuidadosos de não divulgar informações sobre elas a estranhos.

Mas, algumas autoridades eram pró-nazistas. Portanto, em outubro de 1937, pouco depois de Karl Kemena atravessar a fronteira, ele foi preso em Ootmarsum às instâncias do burgomestre. Karl ficou na prisão de Almelo por três meses, até que autoridades mais amistosas intervieram. Mas, usou bem o tempo para estudar o idioma holandês e assim estava preparado para participar na pregação ao ser solto. No ano seguinte ele foi detido em outra localidade mas, depois de alguns meses na prisão, foi novamente solto.

O país temia a guerra. Em 15 de março de 1938, o Primeiro-Ministro, Dr. H. Colijn, falou sobre ela pelo rádio, dizendo: “Concluirei com o rogo de que o Deus Todo-poderoso proteja nossa parte do mundo e assim também nossa pátria dum novo Armagedom.” Nessa mesma época os irmãos distribuíam o folheto Armagedom, que explicava o que a Bíblia diz sobre este assunto. Em algumas regiões os pioneiros não podiam atender a demanda.

Mas a Gestapo alemã procurava agarrar as Testemunhas alemãs que estavam nos Países-Baixos. Infiltraram um agente chamado Hilgers nas fileiras dos irmãos. Mas, sua disposição logo o traiu como não sendo Testemunha, e não pôde causar muito dano.

Contudo, maquinava-se mais dificuldades. Em 23 de julho, o burgomestre de Leersum notificou a filial da Sociedade: “De acordo com a carta que recebi hoje do Procurador-Geral, na qualidade de Chefe de Polícia em Amsterdã, é meu dever informar-lhes que os senhores e todos os seus co-membros da Sociedade Torre de Vigia devem cessar de realizar qualquer serviço de colportor no futuro, de outra forma os estrangeiros serão deportados.” Acontece que isto se destinava a aplicar-se a todos os que eram “de nacionalidade não neerlandesa”, não somente em Leersum mas em todo o país. O resultado, porém, foi só de incerteza temporária entre os pioneiros alemães. Destituídos do privilégio de pregar de casa em casa, concentraram-se em revisitas, e assim o mal transformou-se em bênção.

AS REUNIÕES NAQUELA ÉPOCA ERAM MUITO DIFERENTES

As reuniões congregacionais sempre foram fortalecedoras para o povo de Jeová. Mas, às vezes, havia práticas que indicavam a necessidade de melhor organização e mais crescimento espiritual. Por exemplo, às vezes durante o Estudo da Sentinela servia-se café. E o ar nem sempre estava livre da fumaça de cigarro.

A respeito da primeira Comemoração a que assistiu, Cornelis Dortland recorda-se de que uma mesa era posta com 50 pratos, cada qual com seu próprio pedaço de pão, e 50 copos cheios de vinho. Ele diz: “Desde aquela primeira Comemoração, tenho visto com fé e paciência como Jeová tem ensinado seu povo. Vi muitos que se deixaram purificar e ser disciplinados por Ele; e os que se julgavam importantes demais desvaneceram.”

É de interesse também o comentário equilibrado de Ferdinand Holtorf, que tem agora uma bagagem de 54 anos de serviço teocrático: “Sempre que nós, os mais antigos, nos reunimos e contamos nossas experiências dos tempos idos, ficamos muito comovidos pela forma maravilhosa com que Jeová tem conduzido seu povo, em preparação para maiores bênçãos por vir. Sentimo-nos orgulhosos de que, apesar de nossos erros e fraquezas, Jeová mesmo assim sempre nos usou para servir ao seu propósito e nos permitiu desfrutar maravilhosas experiências. Podemos repassar estas a outros a fim de encorajar a todos a enfrentar as provações ardentes muito maiores por vir.”

ORDEM TEOCRÁTICA FORTALECE A ORGANIZAÇÃO

Quando começou o ano de serviço de 1939, os irmãos nos Países-Baixos, bem como em outros países, estavam estudando artigos da Sentinela sobre a organização teocrática. Este estudo ajudou-os a reconhecer mais claramente seu relacionamento para com Jeová Deus e Jesus Cristo. Deixou claro como o arranjo teocrático deve afetar o funcionamento das congregações. Reconhecia que em algumas congregações tinha havido luta e contenda, mas então mostrou que o cumprimento de Isaías 60:17 “tem de significar que vem tempo quando haverá paz na organização do Senhor por toda a terra”. Os que estavam inclinados noutro sentido, os mais interessados em seu próprio nome do que em honrar o nome de Deus, logo se revelaram.

Em Eindhoven, a congregação foi dissolvida. Na Limburgo Meridional, o grupo de 17 publicadores foi reduzido a 10. Mas os que permaneceram eram leais. Diny Langenberg, que se associava com a congregação Deventer, relembra que haviam votado localmente em Willy Martens para servo de congregação. Mas foram notificados pela Sociedade que Albert van Duren estava sendo designado. Sabiamente, o irmão Martens aconselhou: “O que a Sociedade faz é bom; nós acataremos e daremos ao irmão van Duren nosso pleno apoio.” Fazer isso resultou em bênçãos para o grupo.

A restauração da ordem teocrática uniu os irmãos. Até 1939, os pioneiros haviam feito a maior parte da pregação. Mas agora, à medida que o número dos publicadores de congregação aumentava, os publicadores faziam cerca da metade do trabalho. Por aprenderem a cooperar com os arranjos teocráticos, os irmãos estavam sendo fortificados para os anos turbulentos bem à frente.

FORMAM-SE AS NUVENS DE GUERRA

Quando Hitler fez a anexação da Áustria, em 1938, alguns estavam inclinados a pensar que este era seu grande objetivo na vida e que agora ele se daria por satisfeito. Mas ele não parou ali. Em 15 de março de 1939, as tropas de Hitler marcharam sobre Praga, Tchecoslováquia. Percebendo que a Gestapo logo estaria às suas portas, os irmãos em Praga imediatamente começaram a desmontar seu equipamento de impressão. Quando a Gestapo chegou em 30 de março, todo esse equipamento estava fora do país. Por fim, deu-se um jeito para que três impressoras entrassem nos Países-Baixos.

A comunicação com a gráfica na Suíça tornava-se mais difícil, de modo que a chegada do equipamento de impressão foi muito oportuna. Fizeram-se prontamente arranjos para estabelecer nossa própria gráfica num local alugado na cidade de Haarlem. Os irmãos estavam ansiosos de dar à mensagem do Reino uma distribuição tão ampla quanto possível.

Nessa época foram introduzidas as marchas informativas. Os publicadores portavam cartazes na frente e nas costas, e erguiam outros por cima da cabeça. Neles apareciam perguntas diretas, tais como: “Fascismo ou Liberdade — Qual a Sua Escolha?” Aos transeuntes oferecia-se o folheto Fascismo ou Liberdade. Outros publicadores punham letreiros iluminados nas janelas de suas casas, com dizeres tais como: “O Reino de Deus Domina — Está Próximo o Fim do Mundo?” e “Qual a Sua Escolha — A Teocracia ou a Ditadura?”.

O pânico da guerra estava deixando todo mundo nervoso. As autoridades estavam preocupadas, temendo ofender Hitler. Mas, quando os exércitos dele marcharam sobre a Polônia e quando a França e a Inglaterra foram lançadas na guerra, mais pessoas começaram a escutar as Testemunhas de Jeová. A mensagem contida no livro Inimigos e no folheto Fascismo ou Liberdade, que estavam sendo distribuídos na ocasião, era cortante. Em resultado, as publicações foram confiscadas, e seus distribuidores foram presos. Amiúde a acusação era que tinham ‘insultado um “estadista amigável”’, quer dizer, Hitler, que instilara grande medo no coração de muitos em posições de responsabilidade.

AÇÃO CATÓLICA SAI PELA CULATRA

A Ação Católica tirou partido deste período de comoção pública para tentar desferir um tremendo golpe nas Testemunhas de Jeová. A distribuição dos folhetos Encare os Fatos e Cura, com suas vigorosas exposições da hierarquia católica, suscitou a ira do clero. Arnold Werner, servo da filial, foi intimado a comparecer ao tribunal de Haarlem para responder à acusação de insultar um grupo da população holandesa. A intimação judicial continha uma lista impressionante de citações destes folhetos que se alegava serem de natureza criminosa. Deu-se destaque especial a trechos que acusavam a hierarquia católica romana de extorquir dinheiro das pessoas por afirmar livrar os mortos dum lugar onde não estão — o purgatório, cuja existência, dizia-se, a Igreja não podia provar.

Para o julgamento em 5 de outubro de 1939, a Ação Católica enviou seu eminente “Padre” Henri de Greeve. Ele devia comparecer no tribunal como principal testemunha da hierarquia. No banco, ele declarou que estava presente qual representante do sacerdócio católico holandês e que todos os sacerdotes e demais clérigos foram muito insultados pelo conteúdo do folheto Cura. Ele lamentou: “Minha maior queixa é que um leigo possa ter a impressão de que nós sacerdotes somos apenas um bando de vilões e vigaristas.” O promotor público exigiu uma multa de 300 florins ou três semanas de prisão para Werner.

A seguir, Arnold Werner ocupou o banco. Utilizando a tradução católica Petrus Canisius, provou que aquilo que o folheto dizia sobre os ensinos católicos estava de acordo com a própria Bíblia católica. Ao declarar adicionalmente que as Testemunhas de Jeová eram amigos de católicos sinceros, de Greeve esbravejou. O advogado da Sociedade então perguntou a de Greeve se ele era membro da hierarquia. Ele respondeu que não. Ao se lhe perguntar se poderia provar as doutrinas do inferno de fogo e do purgatório, respondeu: “Não posso provar isso; apenas creio nisso.” Visto que o folheto afirmava que eles obtinham dinheiro fraudulentamente por coisas que não podiam provar, a acusação contra nosso irmão caiu. De Greeve saiu furioso do tribunal, um homem vencido. Para os irmãos, foi um dia de vitória e regozijo.

LIBERTADOS DA ESCRAVIDÃO

A pregação da mensagem do Reino prosseguia em meio à crescente pressão, e as pessoas eram libertadas da escravidão espiritual. Henk Toonstra estava no serviço de saúde do exército quando recebeu alguns folhetos da Sociedade que seu cunhado lhe mandou. Ao dar-se conta do que a Bíblia ensina, achou difícil continuar a carreira de soldado. Enviou algumas publicações a seu irmão mais velho Oeds, dizendo: “Sei que você tem mente aberta e bom conhecimento da Bíblia. Agora, não comece a rir de pena, mas leia estes folhetos com atenção e especialmente de forma crítica.” Oeds fez isto. Daí deixou que sua esposa os lesse. Ambos agradeceram fervorosamente a Deus por esta verdade recém-encontrada.

Entrementes, havia em Haia um jovem que constantemente entrava em contato com o mundo espiritual. Podia ler cartas em envelopes fechados, e muito mais. O que devia fazer e o que devia dizer eram sempre soprados ao seu ouvido. Ao aprender que estas eram vozes de demônios, as dificuldades pareciam aumentar-lhe. Ele tinha de tomar uma decisão. Pela primeira vez na vida orou em voz alta a Jeová, pedindo perdão por ter servido aos demônios e prometendo então fazer a vontade de Jeová. O irmão van de Eijkhoff recorda: “Eu havia tomado minha decisão, e daquele momento em diante as vozes cochichadoras desapareceram. Tudo estava agora calmo e pacífico e eu era novamente eu mesmo.” Mas a tensão no cenário internacional estava a ponto de estourar.

IRROMPE A GUERRA

Em janeiro de 1940, A Sentinela em holandês trazia matéria de estudo sobre a neutralidade cristã. Quão oportuno foi isso!

Embora a guerra parecesse iminente, parecia que as pessoas estavam-se acostumando a viver com esse perigo. O dia 9 de maio parecia ser simplesmente mais um dia de primavera, e as pessoas ocupavam-se nas suas atividades costumeiras. Mas, às 8,45 horas o Quartel General enviou um telex de alerta a todas as unidades militares. Já às 3,55 da madrugada de 10 de maio, havia guerra total junto à fronteira oriental. Mas, a capacidade de o exército holandês resistir às forças alemãs era limitada, e em quatro dias foi rompido o último foco de resistência. Começou uma era de ocupação opressiva; e para os nossos irmãos, uma época de intensa perseguição.

INVADIDOS BETEL E UM LAR DE PIONEIROS

Cedo no dia 10 de maio, com a guerra em andamento, o exército ordenou a prisão de todos os cidadãos alemães nos Países-Baixos. Naquela noite soldados holandeses invadiram o Lar de Betel em Heemstede com baionetas caladas. Ficaram embaraçados com a calma e amabilidade dos irmãos e das irmãs, que os convidaram a tomar café junto com eles. Não obstante, os irmãos alemães presentes foram presos. No começo daquele ano Arnold Werner havia sido isentado de seus deveres como servo da filial devido a circunstâncias familiares, e Arthur Winkler fora nomeado. Agora, tanto o irmão Winkler como Fritz Hartstang foram detidos, se bem que apenas por um tempo relativamente curto.

Na manhã seguinte, os que restaram no escritório adotaram medidas de precaução. Nomes e endereços, bem como outras informações que os inimigos poderiam usar para impedir a obra do Reino, foram guardados num esconderijo cuidadosamente escolhido. Enviou-se às congregações que ainda podiam ser alcançadas tanta literatura quanto possível. Adotou-se um novo sistema de se manter registros, usando-se números em vez de nomes.

Naquela mesma manhã, um destacamento de soldados fez uma batida no lar de pioneiros em Leersum. Embora houvesse ali apenas pioneiros holandeses e não houvesse mais cidadãos alemães, todos foram embarcados num caminhão do exército e levados para interrogatório. Depois de o burgomestre obsequiosamente identificar os pioneiros naquela noite, foram levados de volta para o lar de pioneiros, para o desgosto dos vizinhos que se tinham jubilado com a partida deles.

PROTEGIDO O ALIMENTO ESPIRITUAL

Bem pouco antes de começar a guerra, havia chegado à estação de carga em Roterdã uma remessa de 100.000 folhetos, junto com um número da revista Consolação (sucessora de A Idade de Ouro). Quando a cidade foi bombardeada em 14 de maio, a estação de carga pegou fogo. Mas quando as chamas se debelaram, a carga inteira estava no meio dos escombros, ilesa. Mais tarde, o transportador colocou toda a carga num caminhão e dirigiu-se para a filial da Sociedade. Na chegada ele estava visivelmente pálido e trêmulo ao perguntar: “O que há nestas caixas? A estação de carga em Roterdã pegou fogo, mas apesar disso todas estas foram salvas! Além disso, acabo de vir de Roterdã sem ser parado uma vez sequer pelas patrulhas militares. Contudo, à minha frente e atrás de mim, durante toda a viagem, todos os carros, veículos e pedestres foram parados. Mas eu passei direto.” A conclusão dos irmãos foi simples: “É uma mensagem que as pessoas precisam receber.” O motorista aceitou com prazer exemplares pessoais. Daí, tão rápido quanto possível, o restante do carregamento foi distribuído às congregações.

Outra remessa apanhada no turbilhão da guerra estava estocada num depósito em Papendrecht, situada em Alblasserwaard, que é cercada de água. Todas as saídas de lá envolviam atravessar alguma ponte ou usar uma barca, todas as quais eram vistoriadas pela SS. Paul Jansen e mais dois irmãos partiram para apanhar as caixas. Puseram as publicações numa carroça alugada. À medida que amarravam a lona, o coração de Paul batia disparado. Medo? Certamente eles estavam com medo. Mas também tinham fé — um pouquinho mais do que o medo que sentiam. Ao se aproximarem da barca, o grupo conversava cada vez menos. Então a carroça foi empurrada e colocada na barca. Todos sabiam que a única maneira de sair dessa era depender inteiramente de Jeová. Cada um orou silenciosa mas fervorosamente a Jeová. Logo as publicações estavam a salvo nas mãos das congregações. Esta foi uma nova lição para os irmãos — uma que envolvia fé, confiança em Jeová — uma lição do poder da oração, uma lição de coragem cristã. Tais evidências do cuidado de Jeová, junto com o fato de o alimento espiritual contido em A Sentinela continuar a chegar aos irmãos a tempo, eram deveras fortalecedoras da fé.

REUNIÕES E PREGAÇÃO PROSSEGUEM DURANTE A GUERRA

A guerra transtornou todo tipo de atividades da vida diária. No começo havia alguma confusão entre as Testemunhas. Mas, as reuniões congregacionais foram uma das primeiras coisas reorganizadas. Os irmãos necessitavam de alimento espiritual em base regular. Não era sábio reunir-se agora em grandes grupos, de modo que as congregações foram divididas em grupos de até dez pessoas que se reuniam em lares particulares. E os locais de reunião eram mudados de um lugar para outro a fim de despistar o inimigo. Então, com um pouquinho de encorajamento, a pregação prosseguiu.

Os irmãos trabalharam corajosamente. Os lares de pioneiros, tanto em terra firme como nos barcos da Sociedade, continuaram a funcionar. Durante o verão de 1940, as pessoas por todo o país foram alcançadas com a mensagem do Reino, e colocaram-se muitas publicações. Nesta época, quando inteiras populações estavam sendo expulsas de seus lares em conseqüência da guerra, quão oportuno era distribuir a mensagem acalentadora contida no folheto Refugiados!

Depois das medidas iniciais de precaução, a filial continuou a operar. Os irmãos que foram presos no começo da guerra logo foram soltos. As forças de ocupação ainda estavam atarefadas demais com outros problemas para interferir. Mas isso não durou muito.

O CERCO FICA APERTADO

Em 29 de maio de 1940, o Comissário do Reich, Seyss-Inquart, anunciou que a organização das Testemunhas de Jeová estava proscrita. Mas, apenas um breve comunicado sobre isso apareceu na imprensa. Por um tempo, nada se fez para fazer vigorar esse decreto. Não obstante, parecia certo que logo se fariam batidas nas dependências da Sociedade.

Os irmãos instaram com Arthur Winkler para trabalhar às ocultas de modo a não cair nas mãos da Gestapo mais cedo do que fosse impossível evitar. Discretamente ele mudava de um lugar para outro durante os meses seguintes — com freqüência não muito longe do nariz dos agentes nazistas.

Antes do fim de junho, três agentes da Gestapo visitaram a filial. Quando Helen Hartstang desceu as escadas às 9,00 horas, ela os viu conversar com Arnold Werner, que na época trabalhava na tradução. “Bom dia, senhores”, disse ela, e, tentando agir de forma tão natural quanto possível, passou pela cozinha para a garagem. Apanhou a bicicleta e pedalou mais de 4 quilômetros, até a gráfica, para avisar os irmãos alemães que ali trabalhavam.

No ínterim, a Gestapo vasculhou o escritório. Também perguntaram onde estava R. A. Winkler. Mas, ficou claro que não mais se encontrava ali o que procuravam. Eles murmuraram ao alcance dos ouvidos do irmão Werner: “Chegamos tarde demais!” Depois dirigiram-se para a gráfica. Mas os irmãos alemães já tinham sumido. Apesar de o número de outubro de Consolação estar sendo impresso, a Gestapo partiu sem fechar a gráfica. Mas, voltaram ao escritório da Sociedade três dias depois.

Desta vez ficaram por três dias, atendendo ao telefone e abrindo a porta para todos os visitantes. Sempre que os irmãos que trabalhavam às ocultas telefonavam para o escritório, ficava-lhes evidente que as coisas estavam pretas. A fumaça de cigarro alertava os visitantes quanto ao perigo, e eles rapidamente se retiravam depois de perguntarem por alguém que sabiam não morar ali. Por fim, em 6 de julho, tanto o escritório como a gráfica foram lacrados. O equipamento de impressão recebido da Tchecoslováquia estivera em uso por menos de um ano, mas fora bem usado para produzir um bom estoque de publicações.

ORIENTAÇÃO OPORTUNA PARA OS IRMÃOS NO CAMPO

A fim de fortalecer os irmãos para o que pudesse sobrevir, o número de junho de 1940 da Sentinela em holandês continha um artigo sobre a perseguição das Testemunhas de Jeová na Alemanha, a tortura empregada e as sentenças de morte promulgadas. Em 15 de junho, antes de o escritório da filial ser lacrado, uma carta circular a todos os publicadores considerara a cautela que Jesus empregou sob várias circunstâncias. Recomendava que se refreassem de adicional distribuição de casa em casa do livro Inimigos e do folheto Aviso, embora continuassem a usar livremente as demais publicações.

Dez dias depois foi enviada outra carta, esta para todos os servos de circuito e de congregação. Ela anunciava uma medida de precaução no manejo de futuros números do Informante (atual Nosso Ministério do Reino) para diminuir o perigo de quaisquer destes virem a cair nas mãos do inimigo. A partir de então todos os exemplares seriam recolhidos no fim de cada reunião onde fossem usados. Quando todo ele fosse estudado, o servo de congregação poria um exemplar no seu arquivo e destruiria os demais.

Para cuidar das necessidades espirituais dos irmãos, contrataram-se então gráficas comerciais. Os irmãos não deixaram de ser supridos. Henk Toonstra recorda-se: “Nós ainda rememoramos aqueles dias com profundo sentimento. Como nos regozijávamos quando A Sentinela aparecia sempre na hora, mesmo que sob um novo disfarce! Quanto nos deleitávamos com as explanações de profecias e sua aplicação à nossa época!”

PÕE-SE EM PRÁTICA OS ARRANJOS ÀS OCULTAS

Em meados de 1940, adotaram-se medidas adicionais para fortalecer a organização. Em agosto, uma carta às congregações disse claramente que não mais se devia enviar correspondência ao escritório pelo correio. Os servos de congregação se certificariam de que a correspondência chegasse aos irmãos responsáveis.

Dali em diante, os publicadores conheciam a identidade apenas do servo de estudo que servia seu pequeno grupo. Endereços de outros servos na congregação lhes eram desconhecidos. E estes outros irmãos eles conheciam apenas por seus apelidos. Inventou-se todo tipo de nomes camuflados — “Bep Grandalhão”, “Koos Negro”, “Gerrit Louro”, “Remie” e “Velho Truus”.

Continuaram a ser iniciados estudos bíblicos com pessoas interessadas. Mas, como salvaguarda contra a infiltração de espiões, ninguém devia trazer algum recém-interessado para o estudo de congregação sem a aprovação do servo da congregação. Nos meses seguintes, a sabedoria deste arranjo foi comprovada repetidas vezes. Era imperativo que os publicadores freqüentassem seu próprio estudo e nem sequer tentassem descobrir onde quaisquer outros grupos se reuniam. Ninguém devia divulgar o endereço de seu estudo, mesmo para o amigo de maior confiança. Qualquer um que violasse esta regra poderia perder o privilégio de assistir às reuniões.

Ao participarem no ministério de campo, os publicadores anotavam cuidadosamente todas as pessoas que demonstravam hostilidade para com a obra das Testemunhas de Jeová. Tais nomes e endereços eram guardados com os cartões de território, e se tomavam precauções especiais ao se visitar tais pessoas no futuro, se é que eram visitadas.

Em vez de haver uma diminuição na obra, o espírito de Jeová sobre seus servos resultou num notável aumento. O relatório para o ano de serviço que terminou em agosto de 1940 indicou 501 publicadores, um aumento de 58 por cento! A colocação de literatura subiu quase 100 por cento, e as horas devotadas ao ministério de campo cresceram 77 por cento. O proceder adotado pelas Testemunhas estava realmente trazendo honra ao nome de Jeová.

Em setembro de 1940, foi necessário estabelecer um serviço de correio para levar publicações e correspondência através do país. Wilhelmina Bakker, batizada apenas três meses antes, foi uma das primeiras a participar neste trabalho. (Ela ainda é pioneira, atualmente casada com Max Henning.) Sua primeira designação foi levar uma mala de publicações para o pessoal do Lichtdrager (casa flutuante em que moravam os pioneiros) na cidade de Sneek. Mas, ao chegar à cidade, descobriu que o grupo fora obrigado a fugir, e o barco não mais estava ali. Era tarde demais para voltar a Amsterdã naquela noite, e não havia Testemunhas na cidade, de modo que ela teve de pernoitar num hotel. “Ainda posso ver o rosto espantado do porteiro ao cortesmente carregar a mala ao meu quarto, visto que estava pesada como chumbo”, disse Wilhelmina recentemente.

ONDA DE PRISÕES E INTERROGATÓRIOS

Em setembro começou uma onda de prisões. Em 12 de setembro de 1940, Arnold Werner foi preso por dois oficiais da SS e levado direto para a prisão de Scheveningen. Foi-lhe dado lápis e papel, e dito que ‘escrevesse tudo sobre a atividade das Testemunhas de Jeová, sobre as congregações nos Países-Baixos, seus líderes, e especialmente sobre os suprimentos de publicações’. ‘Então poderá ir para casa’, acrescentaram. O irmão Werner não revelou nada que pudesse prejudicar a obra do povo de Jeová, e não foi enviado para casa.

Alguns dias depois, Herman Tollenaar foi detido pela Gestapo quando foi receber o último pagamento referente ao lar de pioneiros em Leersum, que fora vendido. Diversos pioneiros daquele lar foram também apanhados. Em outubro, um superintendente de circuito, Eliza de Vries, foi preso ao servir uma congregação na Frísia. Na província de Groningen, Evert Dost, que dormia como uma pedra, encontrou dois da Gestapo ao lado de sua cama ao acordar numa manhã. Eles sugeriram que se vestisse e os acompanhasse. Rapidamente, todos os prisioneiros no norte foram colocados num ônibus e levados para a prisão de Scheveningen, onde havia vários outros irmãos.

Então vieram os interrogatórios — às vezes por horas a fio, mas sem maus-tratos físicos a esta altura. Parece que apenas procuravam reunir informações a fim de acabar com a organização. Mas, logo foram empregadas outras táticas.

O TRATAMENTO FICA MAIS BRUTAL

Em 18 de outubro, a casa de Steve Heiwegen na cidade de Harskamp foi vasculhada pela Gestapo. Steve era um homem esforçado que cuidava bem dos interesses do Reino e de sua jovem família. Naquela noite eles retornaram, prenderam-no e o levaram para Arnhem. Ele foi tratado mais brutalmente do que os em Scheveningen. A Gestapo ameaçou: “Se não nos disser onde está Winkler, então traremos para cá sua esposa e seus filhos e os despedaçaremos diante de seus próprios olhos, e você será espancado até a morte. Imundo Estudante da Bíblia, onde estão os outros? Se não nos disser, atiraremos em você.” Estas ameaças foram acompanhadas de golpes. Ele foi colocado sobre um caixão e permaneceu ali por um dia e uma noite sem nada para comer ou beber. Foi também obrigado a fazer flexão de joelhos centenas de vezes.

Quando isto não surtiu os resultados desejados, foi trazido um homem que parecia ser muito bondoso. Parecia quase chorar de compaixão ao dizer: “Conte tudo. Esses alemães são capazes de fazer quase de tudo. Não adianta resistir. Já tivemos mais do seu tipo aqui. Eles nos disseram tudo o que sabiam, e agora estão de volta às suas famílias, esposa e filhos. Venha comigo. Conheço bem os alemães; vou interceder por você.” Steve não respondeu. “Nisso ele ficou tão furioso”, relembra Steve, “que de repente desfechou um murro direto no meu rosto, chutou-me diversas vezes, sacou um revólver do bolso de seu paletó e começou a praguejar como louco em alemão. Deu-me 10 segundos, encostou o revólver nas minhas têmporas e disse que se eu não dissesse nada até ele contar até dez, ele puxaria o gatilho. Ele começou a contar bem devagar — um, dois, três, quatro, . . . cinco, . . . seis, . . . sete, . . . oito, . . . nove . . . Pausou (o suficiente para eu proferir uma oração), desferiu-me um forte soco, e daí me jogou num pequeno quarto escuro. Steve ficou aturdido com esta experiência, mas por um tempo não aconteceu mais nada.

Entrementes, os irmãos que ainda estavam livres viram que tinham de ser mais cautelosos. O inimigo sabia que as Testemunhas estavam dispostas e ansiosas de ajudar qualquer pessoa a aprender os ensinos da Bíblia, fazendo isso mesmo ao risco de sua própria segurança. Alguns opositores simularam interesse num esforço de introduzirem-se na organização. Era preciso discernimento a fim de identificar os que realmente queriam aprender a verdade. Os arranjos já instituídos para impedir a infiltração de espiões nos grupos de estudo de congregação mostraram ser de verdadeira proteção.

ALGUNS OBTÊM CERTO ALÍVIO

Durante o mês de dezembro não houve novas detenções, e a maior parte das Testemunhas presas foram soltas. A maioria atarefou-se prontamente no ministério público outra vez. Mas, para Arnold Werner, seu retorno à associação e atividade plenas com a congregação demorou um pouco mais.

Lá na Prisão de Scheveningen, Carl Hultman ficou sozinho quando os demais foram libertados. E Herman Tollenaar foi levado para o campo de concentração em Oranienburgo, Alemanha, para jamais retornar vivo.

O MONSTRO NAZISTA ATACA VIOLENTAMENTE

Janeiro de 1941 foi um mês de frio rigoroso, e parecia como se o monstro nazista tivesse caído num profundo sono hibernal. Mas, durante uns dias mais amenos em fevereiro, o monstro acordou e atacou violentamente para apanhar presa. Os irmãos estavam atarefados no serviço de campo, mas em geral não era ali que eram presos. Os nazistas obtiveram nomes e endereços, evidentemente em resultado de traição.

Em 10 de fevereiro, Wim Laros estava em casa em Delft com a filha de quatro anos enquanto sua esposa estava no serviço de campo. Ela não foi presa; ele sim. Ao ser levado pela polícia, deixou sua filha com os vizinhos. Ao chegar à prisão em Haia, Wim descobriu que pelo menos mais dez na área também foram apanhados.

Quase ao mesmo tempo, 250 quilômetros a nordeste, na pequena cidade de Dronrijp, a Gestapo investiu contra um local em que havia literatura escondida, confiscando toda ela. Gosse Wulder escapou por um triz das garras deles e foi para o leste, para a cidade de Groningen. No caminho encontrou Klaas de Vries, servo da congregação de Groningen, viajando de bicicleta com um carregamento de publicações. Seguiram juntos para a casa de Tjeerd de Bruijn, que, vieram a saber, acabara de ser preso. Pouco depois de ali chegarem, o policial local apareceu na porta dos fundos, e estes dois irmãos também foram presos. Mais tarde naquela noite, quando a Gestapo estava prestes a libertá-los, o policial que os prendera, ansioso de agradar os nazistas, falou abertamente: “Este aqui, Testemunha de Jeová, é Klaas de Vries, do barco Lichtdrager, a quem vocês procuram há muito tempo.” Nisso, o oficial da Gestapo virou um virtual demônio.

Foi chamado o chefe da Gestapo, Könings, e começou o interrogatório. Mas, com a ajuda de Jeová, Klaas não revelou coisa alguma. Finalmente foi levado para uma solitária, onde ficou 12 dias a pão e água. Quando isso terminou, foi trazido para mais interrogatório. Com um revólver apontado para ele e sob ameaça de morte, foram-lhe concedidos dois minutos para revelar o paradeiro de Arthur Winkler, da gráfica e do Lichtdrager, bem como outras informações vitais. A única coisa que Klaas dizia era: “De mim vocês não saberão nada. Já disse tudo o que tinha a dizer e se quiserem saber mais terão de tentar isso com outra pessoa, visto que não me tornarei um traidor.” Ele foi ameaçado três vezes com o revólver, mas seu “Não!” permaneceu “Não!”. Por fim a Gestapo desistiu, e Klaas foi levado para a prisão de Leeuwarden, onde encontrou-se novamente com Gosse Wulder.

Até mesmo assinantes das revistas da Sociedade foram levados para interrogatório. Em muitos casos, tanto o marido como a esposa eram interrogados.

A tática do inimigo era cortar todo o alimento espiritual, se possível. Portanto, recusavam-se exemplares da Bíblia às Testemunhas detidas na prisão. A única literatura permitida era a que as autoridades carcerárias aprovavam. De modo que os irmãos tinham de viver à base do que podiam lembrar de seus anteriores estudos pessoal e congregacional. O valor de bons hábitos de estudo ficou bem claro em tais circunstâncias provadoras. Mas, aquilo pelo que passavam os irmãos nessa ocasião era apenas o começo.

DESCALÇO NA NEVE

A Gestapo travava uma guerra total contra a organização das Testemunhas de Jeová. Moviam uma caça encarniçada aos irmãos da liderança. Ao norte, Eliza de Vries, um superintendente de circuito que já estivera na prisão uma vez, foi preso novamente. Em Haia, o inimigo estava no encalço implacável de Erwin Klose. Certo dia em fevereiro chegaram bem perto.

Ele nos conta: “Antes de dormir naquela noite, deixei minhas roupas de tal forma que pudesse me vestir em dois minutos em caso de emergência. Costumava conversar com as crianças toda noite, ensaiando para uma emergência. Então surgiu o momento. A Gestapo planejara uma batida a todos os irmãos conhecidos. Às cinco da manhã escutou-se bater à porta com força e persistência. A irmã veio ao meu quarto avisar-me. Então todo o treinamento foi proveitoso. Peguei um menino, o de nove anos, e o coloquei na minha cama ‘aquecida’. Não tive tempo de me vestir. Agarrei a minha pasta, meti toda a minha roupa dentro, pus meu chapéu e meu sobretudo, e pulei pela janela dos fundos na neve. Não havia tempo para calçar os sapatos. Felizmente, Jeová os obscureceu para não pensarem em pôr uma guarda no quintal dos fundos. Corri para a casa de algumas pessoas com quem havia estudado — lembre-se, isto por volta das 5,30 da manhã, na escuridão do inverno. Quando bati na porta, o marido olhou para fora, não disse uma palavra, desceu as escadas e acolheu-me em casa. Todos os três naquela família com o tempo tornaram-se Testemunhas.”

AJUDA DIVINA PARA SUPORTAR TORTURA CRUEL

Nos seus esforços determinados de arrancar informações das Testemunhas, a Gestapo amiúde recorria à tortura cruel. Por exemplo, na sede da Gestapo em Groningen, Cor de Vreede foi submetido à brutalidade impiedosa às instâncias do chefe da Gestapo, Könings. Cor estava determinado a não dizer nada que fosse prejudicial à organização. “Bateram em mim, chutaram-me com suas botas — em meu estômago, minhas pernas e meus joelhos”, relembra ele. “Principalmente Könings fez isso. Ele afirmava que eu conhecia os a quem ele procurava, mas que me recusava a dizer. Jeová fortaleceu-me. Não senti dor alguma; apenas minha cabeça ficou terrivelmente inchada e minhas pernas apresentavam muitas marcas roxas.” Por fim eles desistiram. Cor e mais três irmãos presos na mesma época foram mantidos na prisão de Assen.

As prisões ocorriam agora com maior freqüência. De 18 a 21 de março, um grande número foi apanhado. Vinte e dois destes por fim foram enviados a campos de concentração ou passaram longos períodos em outros lugares de detenção. Alguns não retornaram vivos.

PROSSEGUE A PREGAÇÃO SOB CIRCUNSTÂNCIAS PERIGOSAS

Em face da oposição intensificada, as Testemunhas adotaram precauções de segurança ainda mais rigorosas. Durante os feriados nacional-socialistas e em outras ocasiões quando membros do Partido Nazista exibiam a bandeira nazista, os publicadores anotavam os endereços de todos estes e acrescentavam-nos à sua lista dos que eram hostis. O número da placa de carros pertencentes à Gestapo e a outros policiais eram também anotados, e os publicadores não visitavam nenhuma casa com tal carro estacionado em frente.

Apesar desse cuidado, os irmãos não raro se confrontavam com um morador que teria prazer em delatar uma Testemunha. Se a situação fosse detectada em tempo, o publicador inventava uma história conveniente, tal como: ‘Estou procurando um certo sr. Bartels. Eu tinha certeza de que ele morava por aqui. Tenho um recado urgente para ele.’ Ou, o publicador talvez portasse algumas revistas seculares e oferecesse assinaturas para elas. Amiúde isto dava certo. Também, ao fazer visitas em prédios de vários andares, os publicadores trabalhavam do andar de cima para baixo. Assim, se encontrassem alguém que se opusesse ferrenhamente, a pessoa não poderia facilmente bloquear a saída do publicador.

Quando se encontravam pessoas interessadas, os endereços eram cuidadosamente anotados, mas utilizando-se um sistema codificado conhecido apenas ao grupo de estudo. Por exemplo, um grupo talvez acrescentasse 11 a cada número de casa; portanto, 43 tornava-se 54.

Para proteger outros no grupo de estudo, não se permitia que fumantes assistissem às reuniões, embora pudessem ter estudos, com a presença de até mesmo outros fumantes. Raciocinava-se que aos que não eram fiéis em aplicar os princípios bíblicos que salientavam que fumar não era cristão, não se podiam confiar informações das quais dependiam a vida de outros.

Desenvolveu-se um vocabulário especial entre os irmãos a fim de poderem comunicar-se sem atrair a atenção do inimigo. A Sociedade veio a ser conhecida como “Mãe”. Um folheto era “leite”; A Sentinela, “pão integral”; uma resolução pungente, “pão de centeio”. Quando a esposa queria informar ao marido num campo de concentração que Joãozinho se batizara e já participava no serviço de campo, ela escrevia: “Joãozinho recebeu seu diploma de natação e é agora membro do clube de excursionistas.” Tais medidas de segurança eram adotadas a fim de evitar prisões desnecessárias e realizar o ministério com o menor empecilho possível.

SATANÁS ATACA DE FORMAS NÃO PREVISTAS

Os irmãos contavam com a possibilidade de prisão e interrogatório. Mas, foram também confrontados por outras provas de integridade. “Uma vez preso, não há mais nada que se possa fazer a respeito”, diz Jan ter Schegget, que passou por esta experiência. “Fora o problema da comida, interrogatórios, e de vez em quando espancamentos e tortura, tudo isso é um tanto suportável. Mas, quando se é solto, então surge a grande prova de se empenhar novamente e prosseguir servindo a Jeová. Para muitos este foi o ponto difícil. Na prisão permaneceram fiéis, mas depois . . .? Satanás sabe disso.”

Assim, quando Steve Heiwegen foi solto da prisão, outras provas o aguardavam. Ele havia suportado ameaças e espancamentos da Gestapo. Mas, exigiu muita fé e coragem empreender novamente o ministério de campo, especialmente ao descobrir que outros se tornaram temerosos. Ele venceu esta batalha. Contudo, havia mais.

Certo dia um irmão o visitou, um amigo de longa data por quem Steve nutria muito respeito. À medida que falava, esse irmão estava tenso e nervoso. Steve dificilmente podia crer no que ouvia! Fazendo citações mal aplicadas das publicações da Sociedade, ele argumentava que a pregação havia cessado e que a Sociedade não servia mais a nenhum fim útil e poderia muito bem ser dissolvida. Caluniou os irmãos da filial da Sociedade e disse que os que instavam os publicadores a pregar os estavam desencaminhando, enquanto eles próprios ficavam bem fora da zona de perigo. Ao perceber que Steve não concordava com a calúnia, ele mandou uma ex-pioneira visitá-lo. Empregando astúcia feminina e uma porção de lisonja, ela fez o máximo para quebrantar a fé e a lealdade de Steve. Mas isso também falhou.

O próximo golpe veio quando o servo de congregação caiu na maldade. Entregou-se à imoralidade, envolveu-se em roubo e fraude, e começou a afrontar os irmãos fiéis. Felizmente, os anjos certificaram-se de que ele fosse removido. Por volta da mesma época, um superintendente de circuito mostrou-se desleal. Pressionado pela Gestapo, delatou grande parte de seu pequeno circuito. Assim o Diabo infligiu um golpe após outro ao povo do Senhor. Quão vital é os irmãos terem uma forte relação pessoal com Jeová, apreciarem Sua organização visível e não permitirem que a conduta errada e a atitude desagradável de desleais os desviem da verdade!

CÂNTICOS NA PRISÃO

O grito de alarme: “Wim, a polícia!”, acordou Willem Kettelarij. Enquanto a polícia vasculhava um dos quartos embaixo, Willem vestiu-se, pegou duas caixas de livros, escapuliu pela janela e foi à casa de outro irmão. Naquela batida, 17 foram presos em toda a cidade e apinhados na cadeia local. Quando as coisas se acalmaram, Willem alugou uma bicicleta e passou a transferir os suprimentos de literatura da casa duma família de Testemunhas para um local mais seguro.

O caminho que tomou o fez passar em frente à prisão onde estavam detidas as 17 Testemunhas. À medida que se aproximava da prisão podia ouvir vozes cantando, sim, com verdadeiro fervor. Daí ele reconheceu a melodia. Um frio lhe desceu a espinha. Os 17 irmãos e irmãs presos entoavam alegremente cânticos, como que instando com ele a prosseguir na luta e a não afrouxar a mão! Aqueles cânticos ainda fazem correr lágrimas de alegria no rosto de Willem quando rememora aquele momentoso sábado, 44 anos atrás.

SUAS CONSCIÊNCIAS NÃO FALARAM ALTO

A maioria das prisões de Testemunhas nos Países-Baixos foram feitas, não pela Gestapo, mas pela polícia holandesa. Ao se intensificar a perseguição, a Sociedade imprimiu um panfleto explicando a obra das Testemunhas de Jeová à luz da Bíblia. Este foi enviado a todas as delegacias guarnecidas pela polícia holandesa. Mas, como um todo, suas consciências não reagiram. Seus corações não os motivaram a fazer o bem aos irmãos de Cristo ungidos pelo espírito e a seus companheiros. (Mat. 25:42-45) Posteriormente, comentando acerca do tratamento dispensado às Testemunhas de Jeová naquele período, uma obra sobre história disse: “É incompreensível que os policiais holandeses repetidas vezes colocassem na cadeia estas pessoas e as enviassem para os alemães como gado para a matança.” O que lhes sucedeu?

A título de exemplo, na terça-feira, 8 de julho, a estação ferroviária de Utrecht foi o palco dum espetáculo de partir o coração. De todas as partes do país procederam pequenos grupos de irmãos. De manhã cedo eles foram trazidos em caminhões descobertos para a estação ferroviária. Quarenta e quatro Testemunhas, junto com outros prisioneiros, foram acondicionadas num vagão e logo estavam a caminho de Sachsenhausen, o campo de concentração nazista perto de Berlim.

Mas, enquanto aquele trem avançava para o leste, um pequeno grupo já se havia reunido numa barraca na praia de Scheveningen. Sem dar na vista, consideraram o assunto do batismo cristão, e então, sob o disfarce dum jogo de bola, entraram na água e foram batizados. Apesar da ferocidade dos ataques inimigos, o número de publicadores do Reino aumentou 27 por cento naquele ano.

A FORÇA QUE TORNA POSSÍVEL PERSEVERAR

Quando o ano de serviço de 1942 começava, a filial ficava em Amsterdã e a impressão era também feita ali. O servo da filial, irmão Winkler, até então conseguira iludir a Gestapo, mas espancaram perversamente outros irmãos em seus decididos esforços para capturá-lo. Em 21 de outubro, a Gestapo fez uma verificação de rotina na gráfica em Eikelenboom, no setor antigo de Amsterdã, quando imprimia-se A Sentinela. Ali devem ter descoberto onde era estocada a literatura. Momentos depois irromperam no prédio usado pelos irmãos. E ali encontraram o irmão Winkler.

Eles pularam de alegria e exultaram: “Ha! Ha! Pegamos Winkler.” Com ele estavam Alois Stuhlmiller e a mensageira Wilhelmina Bakker. Todos foram presos e tudo foi confiscado.

Por mais de uma semana a Gestapo tentou fazer com que o irmão Winkler cooperasse com eles por revelar informações. Disseram-lhe que era inútil lutar por uma causa perdida. Afiançaram-lhe que não se informaria aos delatados quem o fizera, e que eles não seriam espancados mas advertidos com firmeza a corrigir seus caminhos e a trabalhar pela causa do führer. Prometeram que ele poderia melhorar sua sorte na vida. Mas, em 1.º de novembro, quando levado novamente para interrogatório, o irmão Winkler disse-lhes francamente que não deviam esperar que ele cooperasse. Nisso, um deles fechou as cortinas e ligou o rádio no volume máximo. Daí teve início o impiedoso espancamento.

Espancaram o irmão Winkler até ficar inconsciente. Ao se recobrar, disseram em tom de escárnio: “Ora, não esperávamos que fosse tão desarrazoado. Alguém que se mostrou bom organizador e inteligente, alguém que era tão bom lutador por uma causa perdida, devia ter mais senso. Precisamos de pessoas como você. Pense só em como poderia melhorar sua sorte na vida. Diga-nos onde está sua esposa, e damos-lhe a nossa palavra de honra que ela não será espancada. Se for esperto e concordar conosco, poderá trocar sua prisão por uma mansão e sua condição de vergonha e vitupério por uma de honra, dinheiro e prestígio.” O irmão Winkler não deu nenhuma resposta. Então começou o segundo round.

Primeiro foi o Obersturmführer Barbie, e quando ele se cansou o Oberscharführer Engelsman assumiu a vez. Por fim o irmão Winkler perdeu novamente os sentidos. Isto prosseguiu desde as 13,00 horas até a meia-noite. Relembrar as promessas de Jeová de ajudar seus servos deu ao irmão Winkler força para perseverar. À 1,00 hora ele foi entregue ao guarda da prisão. Com os dentes rebentados, o maxilar inferior deslocado e o corpo em carne viva ele foi levado a uma cela escura. ‘Sabe por que o estou trazendo aqui?’, perguntou o guarda. ‘Porque não puderam extrair nada de você. Eles pensam que este tipo de tratamento o quebrantará. Mas, deixarei que tenha claridade e lhe darei algo quente para comer.’ O irmão Winkler agradeceu a Jeová pela vitória.

Passaram-se os dias. Aos poucos o irmão Winkler se recuperou, mas estava exausto. Ao pensar no próximo interrogatório, em 10 de novembro, ele se perguntava o que aconteceria e buscou a orientação de Jeová por meio de oração.

“A esta altura senti grande necessidade de alimento espiritual”, relembrou depois o irmão Winkler. “Alguns dias depois, este mesmo guarda amigável da prisão veio e perguntou se podia fazer algo por mim.” Evidentemente o irmão Winkler confiou até certo ponto no guarda, porque lhe pediu que procurasse uma Bíblia para ele com a irmã Winkler. “Sim”, disse o guarda, “escreva um bilhete. Vou trazer-lhe um lápis e um pedaço de papel.”

“Jamais esquecerei o dia 10 de novembro de 1941”, continua o irmão Winkler. “A porta de minha cela abriu-se de repente e alguém atirou uma Bíblia de bolso na cela; e antes de eu perceber o que estava acontecendo, a porta bateu novamente. Que ocasião feliz! A Gestapo não me permitiu ter de jeito nenhum qualquer material de leitura, e agora, pela benignidade imerecida de Jeová, eu tinha uma Bíblia para ler. Que alegria era desfrutar diariamente das agradáveis palavras de verdade de Sua Palavra! Embora toda leitura tivesse de ser feita secretamente, sentia-me ficar mais forte espiritualmente.”

Finalmente, ele foi enviado para o campo de concentração de Vught, e então para Sachsenhausen. Ali foi afligido com uma enfermidade após outra. Normalmente ele teria sido envenenado com gás e cremado, como se fez com outros. Mas, devido aos cuidados bondosos dum médico sueco, Arthur Winkler viveu o suficiente para poder ver a marcha para a liberdade.

“O REGOZIJO DE JEOVÁ É O VOSSO BALUARTE”

A vida nos campos de concentração era uma experiência terrível. Contudo, havia ocasiões de alegria que os que suportavam a perseguição não queriam perder por nada. Havia a alegria de agüentar interrogatório, mostrar-se fiel a Jeová e não revelar nada que pudesse prejudicar os irmãos. (Mat. 10:22; Luc. 6:22, 23) Havia a alegria de ver o portador dum triângulo roxo (que identificava as Testemunhas de Jeová nos campos) simplesmente sorrir, fazer um sinal com a cabeça ou acenar. Havia momentos preciosos em que até mesmo se trocavam alguns pensamentos da Palavra de Deus, em harmonia com Hebreus 10:24, 25.

Quando os irmãos holandeses chegaram aos campos, encontraram uma comunidade de irmãos alemães que já haviam passado até oito anos ali. Que alegria era poder relatar o conteúdo de publicações recentemente estudadas! Quanto mais a pessoa tivesse estudado, tanto mais podia dar. Quanto mais dava, mais feliz era. Quanto mais feliz era, melhor podia agüentar a vida no campo. Como diz Neemias 8:10: “O regozijo de Jeová é o vosso baluarte.”

PREGAÇÃO APESAR DE CONFINAMENTO

Quando encerradas na prisão ou num campo de concentração, as Testemunhas de Jeová faziam ali sua pregação do Reino de Deus. Piet van der Molen, que se associa atualmente com a congregação Hengelo, é prova viva disso. Ao ser preso e enviado ao campo de concentração de Amersfoort, ele não era Testemunha. No campo ele observou triângulos de cores específicas nos uniformes dos prisioneiros. O preto designava o portador como negociante do mercado negro. O vermelho indicava ofensa política. Piet se achava perto de alguém que usava um triângulo roxo. Piet queria saber quem era o homem e por que fora colocado no campo. Ao saber que o homem era Testemunha de Jeová e estava confinado por pregar a mensagem da Bíblia de casa em casa, Piet ficou intrigado. Escutou ao passo que a Testemunha explicou suas crenças. Não demorou e Piet tornou-se Testemunha também.

O irmão van de Eijkhoff foi interrogado primeiro pela Gestapo, maltratado brutalmente e daí lançado numa cela com mais quatro prisioneiros. Ele aproveitou a oportunidade para dar-lhes testemunho por uma semana. Certo dia, ele ouviu uma rajada de xingamentos. Era o chefe da Gestapo, Engelsman. A porta da cela abriu-se de repente, e Engelsman gritou aos guardas: “Como podem ser tão estúpidos e colocar esta Testemunha de Jeová cabeçuda junto com pessoas comuns? Ele fará delas Testemunhas também.” Assim, os quatro foram levados para outra cela.

Mas os nomes daqueles quatro prisioneiros ainda estavam na porta da cela. De modo que ao meio-dia eram metidas pela abertura quatro caçarolas extras de comida. Vinham quatro pães redondos, quatro porções de manteiga, quatro pedaços de queijo e quatro saquinhos de açúcar a mais. Isto prosseguiu por alguns dias. Quando o irmão van de Eijkhoff foi colocado num trem para ser levado para um dos campos de concentração, ele tinha um verdadeiro suprimento de alimento extra para partilhar com alguns irmãos surpresos. Chegaram a ver que Jeová provê misericordiosamente para os em extrema necessidade. Deveras, tanto na prisão como fora, podia-se observar evidência de que o espírito de Deus estava operando.

A prisão de Arthur Winkler não deteve a obra do Reino nos Países-Baixos. A responsabilidade recaiu sobre os ombros de Willem Reijntjes. Ele entrou na verdade em 1939 e estava agora com apenas 28 anos de idade. Mas, o espírito de Jeová podia fortalecê-lo. Embora a maior parte do suprimento de papel da Sociedade tivesse sido confiscada, e centenas de gráficas fossem fechadas pelos nazistas, Jeová dirigiu os assuntos de modo que a Sociedade tivesse sempre o papel necessário, e sempre havia gráficas dispostas a fazer serviços para a Sociedade.

Até o fim do ano de serviço de 1942, houve um aumento de 51 por cento no número de publicadores, e naquele mesmo ano 763 foram imersos em símbolo de sua dedicação. Até mesmo o capanga nazista Engelsman admitiu certa vez: “Quanto mais se persegue as Testemunhas tanto mais elas crescem.” Entravam mais na organização de Jeová do que o número que os nazistas conseguiam prender e enviar para os campos. A bênção de Jeová estava sobre o seu povo. A obra que faziam não era de homens, mas de Deus. — Veja Atos 5:38, 39.

SURGE AOS POUCOS A APOSTASIA

Agora, além da brutalidade nazista, as pressões da apostasia se voltavam contra as pessoas no campo holandês. Em 1942, o servo de congregação em Haia reuniu todos os dirigentes de estudo e tentou persuadi-los a aceitar seus conceitos apóstatas.

Os apóstatas de Haia, denominados pelos irmãos fiéis de “Nova Luz” (porque um dos apóstatas afirmava terem recebido sua luz diretamente do céu), estavam ativos em corromper a fé de outros. Comparavam o incentivo da Sociedade para pregar — que podia resultar em se ser enviado a um campo de concentração — a oferecer-se crianças a Moloque. Referiam-se a Isaías 26:20, afirmando que já chegara o tempo para encerrar a pregação e ficar parado. Seu grande argumento era que a obra de testemunho havia terminado.

Alguns caíram vítimas de sua influência. Havia os que não foram capazes de agüentar os maus-tratos nos campos de concentração e que obtiveram livramento por renunciarem sua fé. (Contraste com Hebreus 11:35.) Da mesma forma, os que tinham ambições pessoais que não podiam realizar dentro da organização eram vulneráveis ao pensamento apóstata. No começo da guerra, a congregação Gouda era a maior do país. Ali foram presos muitos fiéis. Mas, em 1943, a maioria dos que restaram ficaram sujeitos à influência dos apóstatas. Não obstante, o número dos verdadeiros adoradores no país continuou a crescer.

Apesar de detenções, prisões, deportações a campos de concentração e morte às mãos do inimigo, o número dos publicadores do Reino aumentou cerca de 115 por cento em dois anos, alcançando um novo auge de 1.379 em 1943. Por certo, a obra não tinha terminado. Jeová abençoava seus servos com crescimento até mesmo sob as circunstâncias mais provadoras.

UM GRUPO ESPECIAL, É PROVADO SEVERAMENTE

Os publicadores do Reino de origem judaica foram severamente provados, tanto por causa de sua fé como por serem judeus. Por frisar que era judeu, e usar de discernimento quanto a quando mencionar que era Testemunha, um destes publicadores foi livrado repetidas vezes de circunstâncias que o teriam levado à prisão e possível morte.

Numa noite, quando Rachel Sacksioni estava a caminho de casa, viajando no bagageiro traseiro da bicicleta dum irmão, a polícia holandesa os interceptou porque a lanterna traseira não estava funcionando. Ao perceberem que Rachel era judia, instaram: “Rápido; continuem pedalando.” Alguns policiais locais estavam bem dispostos de ajudar deste jeito.

Para Rachel, dar testemunho envolvia em geral andar na escuridão, às vezes por horas a fio, para evitar ser descoberta. Não podia viajar no bonde porque os espiões estavam constantemente à espreita de judeus. Por fim, em 10 de maio de 1944, ela foi presa no serviço de campo. Primeiro, foi enviada ao campo de concentração holandês em Westerbork. Dois dias depois foi relacionada para ir para Auschwitz, um campo nazista de exterminação de judeus. Ela já tinha sido metida num dos vagões de gado para ser levada quando se chamou seu nome. Inexplicavelmente, seu destino fora mudado para Bergen-Belsen. De lá foi mandada para Beendorff, daí para Malmo, na Suécia, e com o tempo retornou para os Países-Baixos — mui grata de estar viva.

Quando reiniciou o testemunho público depois da guerra, suas provações não haviam passado totalmente. Às vezes se deparava com membros do movimento nacional-socialista, pessoas que lhe diziam abertamente terem apoiado Hitler. Ela admite: “Eu tinha de fazer um esforço árduo para permanecer amigável para com tais pessoas. Foram pessoas desse tipo que me causaram grande dose de sofrimento, bem como a muitos outros. [Dois filhos de Raquel morreram enquanto ela estava nos campos de concentração.] Agora eu tinha de falar-lhes acerca do Reino de Deus e da esperança estendida até mesmo a elas. Amiúde tinha de refletir no que diz Deuteronômio 32:35 e lembrar a mim mesma que Jeová vê o coração. E Jeová recompensa a pessoa por fazer isso; disto eu tenho experiência.” Ela iniciou um estudo bíblico domiciliar com uma mãe e três filhas, enquanto o marido dessa senhora estava preso por ser nazista. Ao ir para a casa delas, podia ouvir os vizinhos dizer: “Vejam, aquela judia está fazendo uma visita àqueles nacional-socialistas.” Com o tempo, a mãe e as três filhas dedicaram sua vida a Jeová.

ENFRENTAR A ESCASSEZ DE ALIMENTOS

Retrocedamos ao inverno de 1943-1944. O frio, especialmente no mês de janeiro, era cortante. Começava-se realmente a sentir-se o aperto da escassez de alimentos. Muitos da população se esforçavam a suplementar suas escassas rações por obterem alimento dos da zona rural. Perto do fim do ano as pessoas comiam até mesmo bulbos de tulipa e sementes de espinafre.

Nossos irmãos também sentiam as dores da fome. Precisavam de alimento a fim de prosseguirem no serviço de campo. Os pioneiros e os servos de circuito que trabalhavam às ocultas deparavam-se com problemas especiais, visto que não podiam obter cartões de racionamento da forma costumeira. Daí, havia os doentes e as irmãs que não tinham rendimentos porque seus maridos estavam nos campos de concentração. Muitos irmãos e irmãs ofereceram seus objetos de valor para serem vendidos a fim de suprir alimento para os irmãos necessitados. Quando se conseguia arroz, era reservado para os que haviam contraído disenteria. Também, faziam-se arranjos especiais para se trazer alimento da zona rural para os irmãos nas cidades.

Mas, grande parte da produção de alimento do país ficava ao leste e ao norte do rio Ijssel, servido apenas por três pontes. As províncias setentrionais, Frísia e Groningen, podiam ser alcançadas através de diques. Mas, todos estes pontos estavam bem guardados por tropas da SS. O Serviço de Controle Central (CCD) estava ativo em toda parte para vedar a entrada ilegal de alimento nas cidades. Não obstante, os irmãos amorosamente vieram em auxílio uns dos outros.

Numa viagem para levar suprimentos de alimentos necessários, Gerrit Bohmermann e mais alguns irmãos seguiam em direção sul para Amsterdã. Ao entrarem na cidade de Alkmaar em suas bicicletas de carga com carregamentos cobertos de lona, repentinamente se depararam com um ponto de fiscalização, na feira. “Não havia escolha senão confiar inteiramente em Jeová”, diz Gerrit. Viajando na frente dos demais, ele pedalou resolutamente em direção a um fiscal e, sem diminuir muito o passo, clamou bem alto: “Wo ist Amsterdam?” (Qual o caminho para Amsterdã?) O fiscal saiu do caminho e apontou para a frente, bradando: “Gerade aus!” (Em frente!) “Danke schön!” (Muito obrigado!), foi a resposta de Gerrit ao prosseguir em plena velocidade enquanto uma multidão estupefata observava.

“Como você conseguiu isso?”, perguntou um dos irmãos ao pedalarem rápido. “Se Jeová está conosco, quem pode ser contra nós?”, exultou um outro. “Parem de falar!”, exortaram os demais, não desejando pôr Jeová à prova sem necessidade. Uma vez em casa, os terrores da viagem foram esquecidos — esquecidos devido aos rostos radiantes dos irmãos, esquecidos também devido ao zelo desses irmãos no serviço de Jeová.

Numa ocasião os irmãos, dispostos a arriscar sua liberdade para ajudar outros, tiveram êxito em trazer a Amsterdã a carga toda dum barco — 11.850 quilos — de batatas. O irmão de Haan atracou o barco no lado oposto à igreja de S. Nicolau. Ali as batatas foram ensacadas em lotes de 15 quilos e daí transportadas em carrinhos de mão através de um dos setores mais ocupados da cidade para um depósito temporário. No ínterim, o superintendente da cidade ia de bicicleta de um lado para outro ao longo do percurso para ficar de olho no perigo. Quando interceptados pela polícia, os irmãos diziam a verdade sobre como haviam obtido as batatas. Impressionados por sua franqueza, as autoridades não interferiam, mas cada um simplesmente pedia um saco para sua família. Os suprimentos foram levados do depósito para as casas dos irmãos. Naqueles dias difíceis, pessoas continuavam a tomar sua posição a favor da verdade.

ELE ABRAÇOU A VERDADE SOB GRANDE ADVERSIDADE

Todos os dias, Marinus de Boer, de 17 anos, estava ansioso de chegar ao seu local de trabalho como carpinteiro, não tanto devido ao serviço, mas porque gostava de estar com seu amigo Maarten Schroot. Maarten conseguira interessar Marinus na verdade e providenciara para ele ter um estudo bíblico, assistir às reuniões e até mesmo participar no serviço de campo. Mas, havia muito mais a aprender, e diariamente consideravam como aplicar os princípios bíblicos às várias situações que podiam confrontar um cristão naqueles tempos difíceis.

Mas, certo dia em 1944, Maarten não foi trabalhar. Assim que anoiteceu, Marinus verificou e constatou que seu amigo fora preso numa batida policial na noite anterior. Indo para sua própria casa, ficou surpreso de encontrar ali dois estranhos — um deles um ex-irmão que se tornara traidor, o outro um agente da Gestapo. Marinus foi preso.

Por alguns dias Marinus ficou preso junto com os irmãos. Daí foi colocado por seis semanas entre criminosos calejados de toda sorte. Sob tais circunstâncias aprendeu muito sobre o que significa confiar plenamente em Jeová quando se está só. Após ser interrogado pela Gestapo, foi lançado novamente junto aos irmãos. Ele precisava de encorajamento e apoio, mas, em vez disse, o aguardava uma surpresa.

Ele recorda: “Foi um tanto desapontador. Assim que entrei, descarregaram uma rajada de perguntas, querendo saber se eu tinha delatado nomes e coisas assim. Alguns se dirigiram a mim e disseram que não me era necessário manter a fidelidade visto que ainda não era Testemunha batizada. Outros, observando isto, disseram-me que quer eu fosse batizado, quer não, eu definitivamente devia ser fiel. Depois de tudo isso, não tinha idéia alguma quanto ao que era direito e o que era errado. Exausto e abatido, sentei-me num canto para pensar. Logo um irmão sentou-se junto de mim, colocou seu braço ao redor do meu ombro, e perguntou: ‘Podemos ler a Bíblia?’ Com voz suave, ele leu um versículo aqui e outro ali. Era um sermão diretamente da Bíblia, e eu me senti feliz. Quando ele viu que fiquei animado, saiu da mesma forma amigável com que veio.” Com tal espécie de ajuda e estudo da Palavra de Deus — apesar do ambiente duro, da imaturidade de algumas Testemunhas e da deslealdade de uns poucos que certa vez eram irmãos — Marinus finalmente dedicou-se e foi batizado no próprio campo de concentração. Atualmente ele é superintendente viajante. Apropriadamente, serviu como superintendente do congresso da assembléia “Mantenedores da Integridade”, de agosto de 1985, em Utrecht — à qual compareceram mais de 40.000 pessoas.

ESFORÇOS DESESPERADOS DUM INIMIGO VENCIDO

À medida que os ocupantes nazistas sentiam aproximar-se sua derrota, tornavam-se mais desesperados em sua perseguição. Assim, quando Jan van der Berg, um pioneiro com 20 anos de idade, recusou trabalhar num projeto militar, o comandante avisou que Jan seria fuzilado em cinco minutos se não mudasse de idéia. Jan foi obrigado a cavar sua própria sepultura e a ficar seminu em frente dela. Depois de mais ameaças, seguidas de barulho dum fuzilamento real, ele foi espancado. Mas, depois Jan disse: “Senti levemente os golpes, mas não senti absolutamente nenhuma dor.” A seguir, fizeram com que realizasse toda espécie de ginástica.

Em outubro e novembro de 1944, o Diabo fez o que pôde para infundir medo no coração dos irmãos. Em 11 de outubro, três Testemunhas foram presas no leste do país. Quando recusaram fazer trabalho que violaria a consciência cristã, ordenou-se prontamente sua execução. Os três foram levados ao jardim da casa do burgomestre onde ficava a sede da Gestapo, e foram abatidos com metralhadora. Foram enterrados ali mesmo no jardim.

Em 10 de novembro, Bernard Polman foi preso na cidade de Zelhem. Quando recusou fazer trabalho de natureza militar, foi espancado brutalmente. Suas duas irmãs carnais o visitaram na prisão, ficaram chocadas com o que viram e perguntaram se havia algo que poderiam fazer por ele. Ele instou com elas a irem para casa e começarem a estudar a Bíblia. Depois de submeterem Bernard a mais brutalidade, a SS crivou o corpo dele de balas duma forma horrenda. Daí, encarando seu cadáver como indigno de um cemitério, enterraram-no na base dum dique próximo a cidade de Babberich.

A FOME COLHE UM PESADO TRIBUTO

O inverno de 1944-1945 foi um tempo de fome. Dezenas de milhares morreram, às vezes em plena rua. Especuladores no câmbio negro obtiveram o controle de boa parte do alimento restante, e os preços centuplicaram. O pão custava 210 vezes o preço normal; batatas, 70 vezes. Milhares de pessoas, já fracas de fome, saíam em busca de alimento. A maior parte desta busca era feita por mulheres, porque a constante procura dos nazistas de homens para usarem em trabalho escravo tornava perigoso para eles saírem. Alguns fazendeiros relataram tantas quantas 250 visitas por dia destes que desesperadamente procuravam alimento.

Nossos irmãos procuraram arduamente prosseguir com a pregação e não ser desviados quer pela luta pela sobrevivência, quer por pensamentos de libertação pelos exércitos Aliados. Embora precisassem cuidar de si mesmos e de suas famílias, sabiam que era imperativo buscar primeiro os interesses do Reino. Os arranjos elaborados pelos nossos irmãos a fim de fazer chegar alimento às Testemunhas que moravam nas grandes cidades contribuiu muito para aliviar o sofrimento entre elas nesta ocasião.

LIVRAMENTO DOS CAMPOS

Na primavera de 1945, os exércitos Aliados tanto do leste como do oeste convergiram para a Alemanha. Em 11 de abril, os portões de Buchenwald foram abertos. Em 19 de abril, juntamente com milhares de outros prisioneiros, 213 irmãos e 17 irmãs foram evacuados de Sachsenhausen num esforço dos nazistas de mantê-los longe das mãos dos russos. Embora vastos números de outros prisioneiros morressem ou fossem mortos durante o trajeto, Jeová preservou maravilhosamente seus servos de dano. Devido à honestidade das Testemunhas, um guarda da SS confiou-lhes uma carroça que enchera de despojo. Por meio desta, os muito doentes, inclusive o irmão Winkler, foram ajudados a fazer a travessia com segurança. Em 28 de abril, Ravensbrück foi evacuado — incluindo algumas Testemunhas holandesas. Em 29 de abril, os portões de Dachau, também, foram abertos.

Logo, por todos os meios de transporte, os irmãos dos Países-Baixos começaram a vir para casa, um a um. Alguns que estavam muito doentes foram mantidos por algum tempo em casas de saúde na Suíça e na Suécia. Outros, devido à prevalência de doenças contagiosas, foram retidos em acampamentos nos Países-Baixos próximos da fronteira alemã. Quando se soube que algumas Testemunhas estavam entre os ex-prisioneiros alojados temporariamente num prédio em Eindhoven, os irmãos locais ajuntaram-se do lado de fora para recepcioná-los entoando cânticos do Reino!

Quando Marinus de Boer se aproximava de sua casa em Roterdã, seu coração batia cada vez mais rápido. Ele não tinha nenhuma notícia de sua mãe e de suas irmãs desde o dia que fora preso. Perguntava-se: ‘Estão ainda vivas? Como se sentem por eu ter estado no campo devido à minha fé? Como reagirão quando eu tentar compartilhar a verdade com elas?’ A medida que Marinus se aproximava de casa, um vizinho o viu e correu tão rápido quanto pôde para contar à mãe de Marinus. Ofegante, gritou: “Ele ainda está vivo!” Quando Marinus chegou mais perto, magro e fraco, sua mãe por fim compreendeu por que o vizinho estava excitado. E quão radiante ficou Marinus ao saber que sua mãe e suas irmãs tinham todas abraçado a verdade logo depois que ele foi preso! Cenas como esta, cheias de emoção, ocorreram em muitos lares naqueles dias.

RECONSTRUÇÃO NO PERÍODO DO APÓS-GUERRA

Durante a ocupação alemã, os irmãos ligados ao escritório da Sociedade haviam enviado 76 cartas por mensageiros para ajudar e encorajar seus conservos. Então, assim que acabou a guerra, enviou-se a todas as congregações uma cópia mimeografada do Informante (atualmente Nosso Ministério do Reino). As palavras iniciais foram: “O texto para o ano de 1945 é uma ordem: ‘Ide e fazei discípulos de pessoas de todas as nações.” Os irmãos reagiram maravilhosamente às instruções para atividade coordenada. O número de batismos para aquele mês eqüivalia a cerca de 10 por cento de todos os publicadores no país.

Uma das primeiras tarefas que requeriam atenção era fundir os pequenos grupos de estudo em congregações com reuniões às quais grupos maiores pudessem comparecer. Embora o número de congregações tivesse aumentado somente em 3 durante os anos de guerra, o total de publicadores havia ascendido de cerca de 500 no verão de 1940 para um novo auge de 3.125 em agosto de 1945.

Alguns achavam que o Armagedom estava bem próximo, mas então ouviram dizer que havia muito trabalho a ser feito. Ficaram sabendo da Escola de Gileade para treinamento de missionários e de grandes congressos realizados em outros países. Foram fortalecidos por numerosos relatos de integridade mantida nos campos de concentração. Souberam do notável aumento dos proclamadores do Reino mesmo nos Países-Baixos. Com o tempo também receberam as emocionantes novas de que a Sociedade havia programado uma assembléia nacional de um dia a ser realizada em 5 de agosto, em Amsterdã. Eles apenas podiam imaginar vagamente o que isso seria. Mas, os irmãos de todas as partes do país estavam determinados a estar presentes.

A PRIMEIRA ASSEMBLÉIA DO APÓS-GUERRA

Tornou-se evidente que cerca de 2.000 estariam em Amsterdã na noite anterior à assembléia e necessitariam de hospedagem. Os hotéis estavam fora de cogitação. Todos teriam de ser acomodados nos lares dos irmãos. Por toda a cidade, podia-se ver Testemunhas carregando fardos de feno para as suas casas, para espalhar no assoalho. Para uma curta estadia, isto serviria bem.

Mas, a viagem para Amsterdã não era assim tão fácil. Em muitas regiões não dispunham nem de linhas de trem nem de ônibus. Vastos números nem sequer possuíam bicicleta, e não poucos estavam ainda fracos demais para pedalá-la, caso possuíssem uma. Da província setentrional da Frísia, os irmãos vieram num caminhão que fora usado para ajuntar latões de leite dos fazendeiros para a fábrica de laticínios. De Apeldoorn, alguns começaram sua viagem de bicicleta e terminaram de barco. Os irmãos em Zutphen encontraram um senhor disposto a encher de bancos seu caminhão de mudanças a fim de transportá-los. As Testemunhas em Harskamp viajaram num caminhão normalmente utilizado para transportar gado. Da distante Limburgo, muitos viajaram de carona.

É muito difícil descrever os sentimentos dos que assistiram a esta assembléia. Riram e choraram. Cantaram e agradeceram a Jeová por sua bondade. Alguns encontraram entes amados que pensavam estarem mortos. Outros que esperavam encontrar entes queridos procuraram em vão. Foi um dia que jamais será esquecido! Naquela noite, 4.000 escutaram com arrebatada atenção ao discurso público.

Nesta época era evidente que muitos não retornariam com vida dos campos de concentração. Um total de 426 haviam sido detidos e presos — não incluindo os libertados em uma semana ou menos. Destes 426, havia 117 que morreram em resultado direto de maus-tratos. Lembre-se, havia somente cerca de 500 Testemunhas em todos os Países-Baixos na época da invasão nazista. De modo que uma grande proporção havia passado pessoalmente por tal perseguição.

AGENTES DE SATANÁS DESENCADEIAM OUTRO ATAQUE

O ataque de Satanás por meio de seu bando nazista obviamente saíra pela culatra. Embora fosse brutal, grande proporção dos irmãos permaneceu leal. Ademais, houve um aumento seis vezes mais de Testemunhas, e um grande segmento da população agora respeitava as Testemunhas devido à sua posição corajosa. Mas, Satanás tinha outro grupo de soldados prontos para atacar.

Começando no próprio mês da assembléia, uma quase inacreditável série de artigos deturpando e caluniando as Testemunhas de Jeová apareceu em quase todos os jornais com tendências religiosas no país. Como seria de esperar, até mesmo pessoas bem-intencionadas, sinceras, foram influenciadas por esta campanha difamatória.

Em 10 de novembro, o “Padre” Henri de Greeve estava de novo à frente da batalha contra as Testemunhas. Irritado pelo fato de as autoridades governamentais concederem às Testemunhas papel para impressão, disse num programa de rádio: “Posso assegurar às senhoras e aos senhores da Torre de Vigia que estamos determinados a oferecer resistência e que não toleraremos esta santimoniosa provocação à luta. E se esta linguagem injuriosa mesmo assim persistir, então tentaremos mobilizar todas as nossas associações de jovens católicos; estudantes católicos, membros da Ação Católica, cooperativas dos Fazendeiros Católicos, associações da classe média, associações dos trabalhadores . . . a crivar o governo de petições, moções e reuniões de protesto até que as bocas destes agitadores santimoniosos sejam caladas e o papel utilizado para linguagem ofensiva seja negado.” Isto lançou a Ação Católica contra as Testemunhas numa grande escala. Mas, não foram os únicos.

O clero protestante acrescentou avidamente sua voz. Além de usar a imprensa religiosa, os ministros protestantes através do país lançaram uma campanha de discursos nas igrejas e perante agremiações sobre as Testemunhas de Jeová. A princípio as Testemunhas assistiam a tais reuniões e no fim suscitavam perguntas. Isto amiúde levava a um debate. Mas, os métodos empregados pelo clero nestas ocasiões deixaram claro que não estavam interessados em que as pessoas ouvissem a verdade. Percebendo que o Diabo procurava desviá-los por debates insensatos com pessoas que não amavam a justiça, as Testemunhas logo reconheceram que deviam empregar seu tempo no ministério de campo, localizando e ajudando pessoas que realmente queriam escutar.

ATENÇÃO AMOROSA DA SEDE ACELERA A OBRA

Em fins de 1945, N. H. Knorr, então presidente da Sociedade Torre de Vigia (dos EUA), e seu secretário, M. G. Henschel, visitaram a Europa para dar atenção à tarefa de reconstrução. Viajando de Bruxelas de trem, fizeram uma viagem indireta devido aos estragos da guerra para poderem chegar a Amsterdã. Em 4 de dezembro fez-se uma reunião com irmãos da filial, superintendentes de circuito e irmãos das congregações de Amsterdã. Foram considerados muitos problemas e dadas respostas.

Em resultado desta reunião, foi introduzida uma nova modalidade da atividade congregacional — as reuniões públicas. Não havia então muitos irmãos que pudessem proferir discursos públicos, mas deu-se um início, e os irmãos depois disso esforçaram-se em preparar-se para participar.

Também, em resultado dos assuntos considerados naquela reunião, receberam-se suprimentos de socorros naquele inverno e na primavera seguinte. Chegaram 137 pacotes de alimentos da Dinamarca, ajudando a preencher as necessidades mais prementes. Adicionalmente, foram enviadas 34 toneladas de roupas como doação dos irmãos em países mais prósperos. Tais expressões de preocupação amorosa foram profundamente apreciadas pelas Testemunhas holandesas. Ao distribuí-las, deu-se atenção primária às necessidades dos pioneiros, de modo que pudessem continuar a devotar seus esforços principais à obra de pregação.

Durante este período, o escritório da filial foi mudado duas vezes, e finalmente foram utilizadas instalações adequadas na Rua Koningslaan, n.º 1, em Amsterdã. Aqui pelo menos era possível que a pequena família de Betel morasse e trabalhasse no mesmo local.

RÁPIDA SUCESSÃO DE MARCOS TEOCRÁTICOS

Quando a família da filial mal acabara de estabelecer-se em suas novas instalações, começou outro capítulo da história teocrática nos Países-Baixos. Foi enviado o primeiro estudante holandês para a Escola Bíblica de Gileade da Torre de Vigia. Desde aquela época, formados de Gileade, procedentes dos Países-Baixos, foram enviados para servir na Indonésia, Iriã Barat (Nova Guiné ocidental), Irã, Bélgica, Luxemburgo, Islândia, Turquia, Antilhas Holandesas, Chile, Equador, Surinã, Quênia e África do Sul. Outros, embora não treinados em Gileade, foram para a Irlanda.

No primeiro ano completo de serviço do após-guerra houve um aumento de 64 por cento no número médio de publicadores do Reino. E os pioneiros mais do que duplicaram, de 50 para 101. Naquele ano, também, pela primeira vez, reservou-se um prédio para uso regular qual Salão do Reino.

Daí, o ano de serviço de 1947 teve bom início com uma excelente assembléia de dois dias em Haia, na qual um dos destaques foi a imersão de 525 novos irmãos e irmãs. Naquele ano foi instituída a Escola do Ministério Teocrático nas congregações, e fizeram-se arranjos para que superintendentes de circuito visitassem as congregações para animá-las e fornecer treinamento adicional no ministério de campo.

SURGE O MATERIALISMO

Lá na primeira assembléia do após-guerra, em 5 de agosto de 1945, o irmão Winkler havia dado uma séria advertência. Acautelou que, agora que tinham maior liberdade, confrontavam-se com um novo perigo. O laço do materialismo e a tentação de dar atenção principal aos cuidados da vida cotidiana poderiam absorvê-los. O resultado seria uma diminuição em seu serviço a Deus.

Apenas três anos depois, fez-se o seguinte comentário no relatório anual dos Países-Baixos: “Parece que alguns irmãos tiraram falsas conclusões dos comentários feitos no artigo ‘Amor do Homem Para com o Homem’, da Sentinela, acerca do ‘óbulo da viúva’ (pars. 35-37). Há indícios de que alguns estão iludindo a si próprios na crença de que as poucas horas que fazem todo mês são como o óbulo da viúva, e que isto está perfeitamente correto, e que ninguém tem qualquer direito de trazer à atenção deles o afrouxamento de suas mãos (anteriormente costumavam fazer mais no serviço do Senhor). Esquecem-se que o óbulo da viúva representava tudo que ela podia dar.” Deveras, visto que a prosperidade do após-guerra abriu oportunidades materiais, alguns de nossos irmãos perderam de vista o fato de que o materialismo também é um laço usado por Satanás para desviar os servos de Jeová do serviço do Reino.

PROBLEMAS NA FRENTE JURÍDICA

Em 1949, vários municípios colocaram obstáculos legais diante dos pés dos portadores das boas novas de algo melhor. Instaurou-se um processo verbal contra um irmão que portava um cartaz e distribuía convites, na premissa de que fazer isso era violação das posturas municipais. Dois meses depois uma irmã que participava no ministério de casa em casa foi acusada de vender publicações aos domingos. Qual foi o resultado?

O tribunal de recursos sustentou a decisão do tribunal de menor alçada proibindo a distribuição de material de propaganda nas ruas como sendo contra a ordem pública e a segurança do tráfego. Mas, naturalmente, não havia nenhuma lei contra falar às pessoas nas ruas. Obtivemos ganho de causa no segundo caso mencionado. O tribunal decidiu que a acusada tinha meramente disseminado suas crenças religiosas.

Quando diminuíram os processos envolvendo a pregação pública, o departamento legal da filial concentrou-se em procurar obter reconhecimento legal das Testemunhas de Jeová quais ministros. A lei fornecia isenção do serviço militar para ministros religiosos e para pessoas que estudavam para o ministério. Mas, a dificuldade era que o nome da organização religiosa tinha de constar da relação mantida pelo Ministério da Defesa, e as Testemunhas de Jeová não estavam incluídas nessa lista. Depois de repetidos esforços infrutíferos da parte dos irmãos para provar que todos os publicadores eram ministros, o irmão Knorr apontou-lhes corretamente que, em vista da lei existente, eles não tinham uma base legal em que se firmar. Precisavam manter em foco a verdadeira questão — a neutralidade cristã. Por fim, depois de muitos anos, os Ministros da Defesa e da Justiça instituíram um arranjo interino sob o qual se concedia a uma testemunha ativa e batizada de Jeová um “adiamento” do serviço se os anciãos fornecessem uma carta devidamente autenticada.

NOVOS INSTRUMENTOS PARA O CAMPO

A organização de Jeová continuou a fazer generosas provisões para a edificação espiritual. Progressivamente, tornaram-se disponíveis publicações em rica variedade para estudo congregacional e para uso no ministério de campo. A revista Despertai! começou a ser publicada em holandês a partir do número de 8 de dezembro de 1951. O uso dela no campo serviu de estímulo para a colocação de A Sentinela também. Até aquele tempo havia a impressão máxima de 19.200 exemplares de A Sentinela. Atualmente, a média de impressão das edições de A Sentinela em holandês é de 186.450 exemplares, e de Despertai! a média é de 171.100.

Em 1954, o campo holandês recebeu o livro “Seja Deus Verdadeiro”, que por muitos anos serviu de base para estudos bíblicos domiciliares. Mais tarde, houve excelentes publicações tais como ‘Seja Feita a Tua Vontade na Terra’, que era um excelente estudo das profecias “carnudas” do livro de Daniel. Outras publicações forneceram emocionantes estudos de livros bíblicos tais como Ezequiel, Ageu, Zacarias, Revelação e grande parte de Isaías. Tais publicações têm contribuído grandemente para a espiritualidade aumentada entre os irmãos.

ÉPOCA DE GRANDE REGOZIJO

Antes da assembléia de Amsterdã em 1961, o superintendente da filial e seu ajudante foram convidados a assistir à assembléia em Londres e à reunião ali para os superintendentes de filiais da Europa. Um dos pontos altos da palestra foi o trabalho a ser realizado em conexão com a Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, visando torná-la disponível em mais idiomas além do inglês. O holandês seria incluído. Quão emocionante foi isso! Que excelente efeito teria a distribuição de tal tradução bíblica exata, em linguagem moderna, no campo holandês!

Logo uma tradutora holandesa estava a caminho de Brooklyn, Nova Iorque, onde ela e outros tradutores — para o alemão, francês, espanhol, português e italiano — trabalharam e pesquisaram em associação com a Comissão da Tradução do Novo Mundo da Bíblia. Na assembléia internacional em 1963, as Escrituras Gregas Cristãs foram lançadas em holandês. E seis anos depois, em Nürnberg, foi feito o anúncio alvissareiro de que em apenas mais algumas semanas estaria concluída toda a Tradução do Novo Mundo em holandês. Esta chegou aos Países-Baixos em setembro de 1969. Que época de regozijo!

AJUSTES NA SUPERVISÃO DA FILIAL

Devido às duras provações sofridas pelo irmão Winkler às mãos da Gestapo e nos campos de concentração, ser-lhe-ia muito difícil continuar a assumir a responsabilidade de supervisionar a obra do Reino nos Países-Baixos. O irmão Knorr discerniu isto, e assim fizeram-se arranjos para que Henri F. Zinser, formado da Escola de Gileade em 1946, fosse o superintendente da filial. Ele serviu por um período relativamente curto e daí, em agosto de 1947, foi substituído pelo primeiro holandês formado em Gileade. É lamentável dizer, porém, que ele não continuou a seguir os passos da organização de Jeová.

A nomeação de Paul Kushnir para superintender a filial, em setembro de 1950, resultou numa melhor organização e num contato mais íntimo entre o escritório e os que trabalhavam arduamente no campo. Por 15 anos ele continuou a cuidar bem desta designação, até que responsabilidades familiares que ele poderia cuidar melhor fora de Betel tornaram necessário um ajuste. Depois disso, Robert Engelkamp foi o superintendente da filial até 1976. Naquela época, assim como se deu com as filiais ao redor do mundo, foram feitos arranjos para que as responsabilidades de supervisão fossem compartilhadas por uma comissão de irmãos maduros. Há agora seis de tais irmãos nos Países-Baixos, com Paul Kushnir servindo qual coordenador da Comissão de Filial.

FORTALECIMENTO DA ORGANIZAÇÃO

Jeová fortalecia sua organização visível de várias maneiras. Para unificar o trabalho, fizeram-se arranjos para que superintendentes de filiais se reunissem em Nova Iorque por ocasião da assembléia internacional, em 1953. Deu-se atenção especial ao ministério de campo, à pregação da mensagem do Reino em toda a terra em testemunho antes de vir o fim. Instituíram-se mudanças na programação dos superintendentes de circuito a fim de se dar maior atenção à obra no campo, em vez de gastarem uma porção de tempo tentando resolver dificuldades entre pessoas que não estavam realmente interessadas em pôr os interesses do Reino em primeiro lugar. Em muitas ocasiões desde então, conforme exigido pelas circunstâncias, tem havido outras de tais reuniões de superintendentes de filiais de todo o globo, e provê-se treinamento especializado para eles na Escola de Gileade. Sempre se dá ênfase à pregação das boas novas e a cuidar bem do bem-estar espiritual dos irmãos.

Em 1954, tornaram-se disponíveis filmes da Sociedade para uso no campo holandês. Estes ajudaram os irmãos a obter uma visão mais clara da organização e até que ponto a atividade dela produz frutos em todas as partes da terra. Excelentes livros tratando de assuntos organizacionais, de “Lâmpada Para o Meu Pé É a Tua Palavra” a Organizados Para Efetuar o Nosso Ministério, tornaram possível que todos cooperassem mais plenamente com a organização, entendendo como se faz o trabalho e que oportunidades existem para as pessoas participarem.

Tem havido também novas publicações para uso em conexão com a Escola do Ministério Teocrático nas congregações. “Equipado para Toda Boa Obra”, Qualificados Para Ser Ministros, “Toda a Escritura É Inspirada por Deus e Proveitosa” e o Manual da Escola do Ministério Teocrático estão entre estas. Quão valiosas têm sido em ajudar cada publicador do Reino a ficar mais familiarizado com a própria Bíblia e a ser capaz de explicar os ensinamentos dela a outros, quer em base pessoal ao participar no ministério de campo, quer da tribuna pública, no caso dos irmãos!

Atenção especial tem sido dada também ao treinamento dos anciãos, tanto aos que servem regularmente com determinada congregação como aos cujas designações exigem que viajem. Repetidas vezes se reuniram para cursos de recordação e atualização para instrução na Escola do Ministério do Reino, analisando conselhos das Escrituras pertinentes às suas designações especiais e recebendo conselho prático da parte do Corpo Governante quanto ao seu trabalho.

CONSELHO PARA TORNAR MAIS FRUTÍFERO O NOSSO TRABALHO

Quando Wilfred Gooch, da filial de Londres, visitou os Países-Baixos como superintendente de zona, em 1965, ele considerou francamente alguns aspectos do trabalho que requeriam atenção. Umas 2.000 pessoas batizadas haviam abandonado as fileiras dos proclamadores do Reino nos cinco anos anteriores. Ele instou com os irmãos no escritório a não serem vagos ao considerarem este assunto com os irmãos no campo, mas a se certificarem de que entendessem qual era o problema e o que fazer para ajudar estas pessoas. Frisou também o valor do “serviço de pioneiro de férias” (conhecido agora como serviço de pioneiro auxiliar), e houve uma excelente reação da parte dos irmãos. No mês de abril seguinte houve um aumento de 66 por cento, com um novo auge de 1.130 partilhando as alegrias desta atividade incrementada.

Nas assembléias de distrito em 1968, foi apresentado um novo instrumento para uso no campo — o livro A Verdade Que Conduz à Vida Eterna. Os irmãos ficaram animados com isso. Mas, para alguns parecia que o método de estudo era radical. Achavam difícil acostumar-se à idéia de parar com o estudo depois de seis meses se não fosse de fato frutífero. Mas, seguir as instruções da Sociedade trouxe resultados alentadores.

Ano após ano houve aumento no número de louvadores de Jeová. Quando os publicadores alcançaram o marco dos 15.000, o irmão Winkler chorou e disse: “Quão grato sou a Jeová que ainda estou vivo para ver 15.000 publicadores neste país! Foi mais de 30 anos atrás que nós, pioneiros alemães, sentamo-nos à beira da estrada e choramos de desânimo, porque ninguém queria ouvir a nossa pregação. Mas, Jeová nos deu a força para prosseguir com vigor. E agora posso chorar de alegria.” Em 1976, o número de publicadores atingiu o auge de 29.723. Nos anos seguintes, alguns ficaram cansados e afastaram-se do serviço de Jeová, mas a grande maioria continuou a apegar-se ao precioso privilégio de ser testemunhas ativas de Jeová, o legítimo Soberano do universo.

SERVOS FIÉIS RECEBEM SUA RECOMPENSA

Lá em 1931, Fritz Hartstang veio aos Países-Baixos como pioneiro. Mais tarde, qual membro da família de Betel, foi encarregado do departamento de serviço no escritório da filial. Mas, em 1962, submeteu-se a uma séria operação do estômago. O câncer desenvolveu-se e aos poucos exauriu sua vitalidade até ele falecer em 5 de abril de 1964. Aqueles meses finais foram muito provadores para ele, à medida que via a necessidade de resignar-se das responsabilidades, uma após outra, que lhe tinham sido fonte de grande alegria. Mas, certamente sentiu a bênção de Jeová, e as Escrituras asseguram aos que têm a esperança celestial e que morrem fiéis neste tempo que “as coisas que fizeram os acompanham”. (Rev. 14:13) Sua esposa, Helen, aos 82 anos de vida, ainda serve em Betel — um excelente exemplo de perseverança.

Os mais idosos na família de Betel também se lembram bem de Mathilde Stuhlmiller. Ela sofreu muitos anos devido a graves problemas de saúde, mas manteve um ponto de vista otimista, acalentando a perspectiva de servir eternamente a Jeová em perfeita saúde no paraíso na terra. Quase até a morte, em 1969, continuou trabalhando, mesmo acamada, em serviços do departamento de tradução.

Arthur Winkler sempre será lembrado como um irmão que não se poupou na obra do Senhor. (1 Cor. 15:58) Apesar da severidade de suas experiências nos campos de concentração, continuou a servir por muitíssimos anos. Mas, daí, foi acometido duma grave enfermidade acompanhada de grande dor. O irmão Knorr o visitou durante aquele tempo e o consolou com o lembrete de que sua recompensa celestial estava provavelmente próxima e que isto significaria a realização de algo para o qual Arthur trabalhara por muitos anos. Ele finalmente cerrou seus olhos em 22 de junho de 1972. E sua fiel esposa Kathe, que era notável em sua espiritualidade e em seu zelo pelo ministério de campo, recebeu sua recompensa celestial em abril de 1982.

Incentivados por esses excelentes exemplos, é agora o privilégio dos mais jovens, muitos deles das “outras ovelhas” do Senhor, prosseguir com a obra do Reino, até o fim deste velho sistema. — João 10:16.

AMPLIADAS AS DEPENDÊNCIAS DA FILIAL PARA SUPRIR AS CRESCENTES NECESSIDADES

De 1946 em diante, as dependências da filial em Amsterdã estiveram situadas na Rua Koningslaan, n.º 1. Mas, em 1960, estas não mais eram adequadas, apesar das modificações feitas. Portanto, construísse um excelente novo prédio em Amsterdã, tomando em consideração o crescimento adicional. Em 1964, o lar de Betel já estava em uso, e uma pequena gráfica começou a operar em 1967. Foram feitos acréscimos adicionais em 1972 e 1977.

Quando esse último anexo foi dedicado por Lloyd Barry, membro do Corpo Governante, ele mencionou que os planos para ampliar as operações gráficas nos Países-Baixos já estavam adiantados. Seria instalada uma grande rotativa para que as revistas A Sentinela e Despertai! pudessem ser impressas localmente, aliviando assim a gráfica sobrecarregada na Inglaterra. Mas, isso exigiria dependências maiores.

Em 1978, começou-se uma extensiva busca de um local adequado. Não se encontrou nada até 1980, de modo que se fez uma petição diretamente ao escritório do Planejamento Urbano e Rural. Numa entrevista, uma autoridade ouviu atentamente o que as Testemunhas tinham em mente e disse: “As Testemunhas de Jeová realizaram um trabalho ímpar no nosso país durante a Segunda Guerra Mundial, e isso infelizmente é com demasiada freqüência esquecido. Providenciarei que seu centro se situe numa das três provincial setentrionais da Holanda.” Dentro de dois dias localizou-se um excelente terreno em Emmen.

O prédio pronto foi dedicado em outubro de 1983. Na fábrica há uma rotativa off-set M.A.N. convertida que produz 17.000 revistas por hora. Acima da sala da rotativa funciona um moderno sistema de fotocomposição eletrônica desenvolvido por dedicadas Testemunhas na sede mundial. Com este equipamento estamos melhor aparelhados para fornecer publicações para todas as Testemunhas nos Países-Baixos, bem como para as na parte flamenga da Bélgica e as no Surinã. Quão gratos somos a Jeová e à sua organização que tudo isto tornou-se realidade!

UMA CLARA DISTINÇÃO

Foi uma longa caminhada até este ponto. Oitenta anos atrás os primeiros nos Países-Baixos abraçaram a verdade. Aplicaram-se corajosamente à obra do Senhor em face de indiferença, oposição e obstáculos aparentemente insuperáveis. Houve ocasiões de provas ardentes, de perseguição cruel, de traição da parte de falsos irmãos, e de apatia devido ao materialismo. Muitos ingressaram na organização de Jeová durante estes anos. Alguns foram removidos por não se conformarem às normas cristãs. Muitos desistiram por não serem capazes de perseverar na corrida cristã, e por serem desviados pelos engodos do mundo — sim, mesmo alguns que anteriormente haviam suportado a cruel perseguição nazista. Tem sido um longo tempo, esses 80 anos, mas a distinção “entre o que serve a Deus e o que não c serviu” ficou clara. — Mal. 3:18.

[Foto na página 123]

Grupo zeloso em frente ao lar de pioneiros em Leersum.

[Foto na página 139]

Fritz e Helen Hartstang vieram da Alemanha para servir quais pioneiros.

[Foto na página 147]

O barco “Lichtdrager’ servia de casa móvel para os pioneiros.

[Foto na página 155]

Arthur e Kathe Winkler não se pouparam no serviço de Jeová.

[Foto na página 184]

Dependências da filial recentemente construídas em Emmen.

[Mapa na página 115]

(Para o texto formatado, veja a publicação)

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