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Página doisDespertai! — 1989 | 8 de abril
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Página dois
O Holocausto — essa palavra evoca recordações da matança sistemática de milhões de judeus sob o regime nazista de Hitler, na Alemanha, de 1933 a 1945. Mas também suscita muitas perguntas:
Será que realmente aconteceu?
Deve o Holocausto ser considerado apenas uma tragédia judaica?
Por que suscitar de novo este assunto, mais de 40 anos depois do fim da II Guerra Mundial?
Houve quaisquer objetores de consciência para com as diretrizes de Hitler?
Por que Deus permitiu que acontecesse o Holocausto?
Que esperança existe para os milhões de pessoas que foram assassinadas, ou que se viram forçadas a trabalhar até morrer ou morreram de fome, durante aquela época tenebrosa? É sua morte a palavra final quanto a elas, ou será que algum dia viverão de novo?
Nossa série de abertura considerará tais perguntas.
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Holocausto — por que deve importar-se?Despertai! — 1989 | 8 de abril
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Holocausto — por que deve importar-se?
‘SERÁ que o Holocausto realmente aconteceu? É algo importante? Por que deveria importar-me com isso?’, alguns talvez perguntem.
Um motivo pelo qual a humanidade deve importar-se é para ter certeza de que a História não se repita. Primo Levi, sobrevivente dum campo de concentração, expressou suas dúvidas de que a mentalidade dos campos de concentração tenha realmente desaparecido. Perguntou ele: “Quanto dela está de volta, ou está retornando? O que pode cada um de nós fazer, de modo que, neste mundo prenhe de ameaças, pelo menos esta ameaça seja anulada?”
Assim, Levi expressou a preocupação de muitos, que ficam imaginando se este tipo de horror poderia acontecer outra vez. Qual a resposta da história recente? A história de atrocidades, de genocídios, de torturas, de esquadrões da morte, e de pessoas “desaparecidas” e “liquidadas” desde 1945, em vários países, é prova de que ainda está bem viva e ativa a mentalidade que justificou os campos de concentração.
E para aqueles que sobreviveram — filhos, parentes e amigos dos mortos — a realidade histórica deveras importa. A História baseia-se em eventos reais e em pessoas reais. Tem importância se Jesus era um mito? Ou se Napoleão ou Maomé, o profeta do Islão, eram reais ou personagens fictícios? Naturalmente que importa. Tais homens mudaram o curso da História.
Semelhantemente, o Holocausto talvez tenha sido o golpe mais devastador contra o ego da humanidade civilizada, em toda a história. Como expressou Primo Levi: “Nunca antes tantas vidas foram extinguidas num tempo tão curto, e com uma combinação tão lúcida de engenhosidade tecnológica, fanatismo e crueldade.” Mas há aqueles que duvidam que isto tenha acontecido. Eles questionam se o Holocausto é um fato histórico.
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Holocausto — sim, realmente aconteceu!Despertai! — 1989 | 8 de abril
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Holocausto — sim, realmente aconteceu!
SURPREENDENTEMENTE existe uma pequena minoria de pessoas que alegam que o Holocausto, conforme apresentado na história moderna, não ocorreu. Richard Harwood, em sua publicação Did Six Million Really Die? The Truth at Last (Morreram Realmente Seis Milhões? Por fim, a Verdade), declara: “A alegação de que 6 milhões de judeus morreram durante a Segunda Guerra Mundial, como resultado direto da política oficial alemã de extermínio, é totalmente infundada.”
Assim, suscitam-se as perguntas: Ordenaram os nazistas o extermínio dos judeus durante a II Guerra Mundial? Será que realmente morreram de quatro a seis milhões de judeus nos campos de concentração? Existiram mesmo coisas tais como câmaras de gás? Ou são distorções da história alemã?
Certos historiadores revisionistas têm alegado que tais eventos jamais ocorreram. Argumentam que, no máximo, morreram apenas alguns milhares de judeus e que a maioria foi removida para outros países.
Recente processo judicial no Canadá deu destaque a esta controvérsia. Um alemão que emigrou para o Canadá foi processado por “editar, com conhecimento de causa, informações falsas que provavelmente prejudicariam a tolerância social ou racial”, por negar que o Holocausto tenha alguma vez acontecido, noticiou o jornal The Globe and Mail, de Toronto, Canadá. O resultado foi uma sentença de 15 meses, e a proibição da publicação de seus conceitos revisionistas sobre o Holocausto.
Na Alemanha Ocidental, uma lei antidifamatória recebeu emendas, em 1985, de modo a permitir que até mesmo pessoas não-judias movam processos contra “qualquer indivíduo que insulte, calunie, injurie ou menospreze pessoas que ‘perderam a vida como vítimas do governo nacional-socialista ou de outras formas de governo tirânico ou despótico’”. O efeito desta lei é que ela “torna a negação do assassinato de judeus nos campos de concentração, durante a ditadura nazista, um crime sujeito a penalidades legais”, declarou o jornal Hamburger Abendblatt.
A negação do Holocausto é comumente chamada de “mentira de Auschwitz”. Auschwitz (agora Oswiecim) era o infame campo de concentração na Polônia onde os nazistas cometeram genocídio (assassinato em massa). De acordo com a mídia da Alemanha Ocidental, extremistas da direita têm tentado ocultar ou negar tais eventos, daí surgindo a expressão “mentira de Auschwitz”.
Emigração ou Extermínio?
A existência, atualmente, de milhões de judeus de origem européia prova que os nazistas não tiveram êxito em destruir os judeus europeus. Que muitos judeus escaparam da tentativa de aniquilá-los nos campos de concentração é confirmado pelo historiador William L. Shirer, que escreveu, em seu livro 20th Century Journey — The Nightmare Years 1930-1940 (A Jornada do Século 20 — Os Anos de Pesadelo 1930-1940): “Nem todos os judeus austríacos pereceram nos campos e prisões nazistas. Permitiu-se que muitos judeus comprassem sua fuga do cativeiro e fossem para o exterior. Geralmente, isso lhes custava sua fortuna. . . . Talvez quase a metade dos 180.000 judeus de Viena tenham conseguido comprar sua liberdade antes de iniciar-se o Holocausto.” Esta política passou especialmente a vigorar na década de 30.
No entanto, Shirer explica que, embora fosse estabelecido, sob Reinhard Heydrich, um Escritório de Emigração Judaica, “este se tornaria mais tarde uma agência, não de emigração, mas de extermínio, e organizaria a matança sistemática de mais de quatro milhões de judeus”. Esta “solução final” foi dirigida por Karl Adolf Eichmann, que foi por fim executado em Israel por seus crimes de guerra.
Os campos de concentração não foram o único meio de eliminação daqueles que os nazistas julgavam ser de raças subumanas e inferiores. Havia também os temidos Einsatzgruppen (Grupos de Ação Especial), esquadrões de extermínio que iam no rastro do exército invasor “e cujo único objetivo era a matança em massa de judeus. . . . Os Einsatzgruppen, movimentando-se logo atrás da linha de frente que ia avançando, de modo que poucos conseguissem escapar de sua rede, brutalmente mataram a bala, a baioneta, queimaram vivos, torturaram, espancaram até a morte, ou enterraram vivos quase meio milhão de judeus, nos primeiros seis meses da campanha”. — Hitler’s Samurai — The Waffen-SS in Action (Os Samurais de Hitler — As Tropas de Assalto-SS em Ação), de Bruce Quarrie.
É difícil crer neste total? Representa uma média de menos de um assassinato por dia para cada membro do grupo de 3.000 pessoas. Quando tais grupos de ação especial chegaram aos territórios soviéticos, alguns índices parciais de mortes dão um total de “mais de 900.000, contando-se apenas cerca de dois terços do total de vítimas judias em operações móveis”. — The Destruction of the European Jews (A Destruição dos Judeus Europeus), de Raul Hilberg.
O Comandante Confessa
Que testemunho existe dos próprios participantes nas execuções feitas em campos de concentração? Rudolf Höss, antigo comandante do campo de Auschwitz, queixou-se: ‘Creia-me, nem sempre era agradável ver aqueles montões de cadáveres e sentir sempre aquele cheiro de algo queimando.’ Também demonstrou “surpreso, sua desaprovação de que os Destacamentos Especiais Judaicos (Sonderkommandos) estivessem dispostos, em troca duma breve extensão de suas próprias vidas, a ajudar a matar membros de sua própria raça nas câmaras de gás”. (The Face of the Third Reich [A Face do Terceiro Reich], de Joachim C. Fest, página 285.) Fest, autor alemão, acrescenta: “Parte do orgulho unilateral de perfeccionista, sentido pelo perito, revela-se na declaração de Höss: ‘Pela vontade do Reichsführer das SS [Heinrich Himmler], Auschwitz tornou-se o maior centro de extermínio humano de todos os tempos’, ou quando ele aponta, com a satisfação do planejador bem-sucedido, que as câmaras de gás de seu próprio campo tinham uma capacidade dez vezes superior às de Treblinka.”
Em sua autobiografia, Höss escreveu: “Sem o saber, eu era um simples dente na cadeia da grande engrenagem de extermínio do Terceiro Reich.” “O Reichsführer das SS [Himmler] mandou vários líderes de alta categoria do Partido, e oficiais das SS, a Auschwitz, de modo que eles pudessem ver por si mesmos o processo de extermínio dos judeus. Todos eles ficaram profundamente impressionados com aquilo que viram.”a
No entanto, eles foram, pelo visto, influenciados pela diferença entre a frase “a solução final da questão judaica” e a medonha realidade das câmaras de gás. Quando lhe perguntaram como ele conseguira suportar aquilo, Höss respondeu: “Minha resposta invariável era que o pulso de ferro com que tínhamos de cumprir as ordens de Hitler só podia ser conseguido pela supressão de todas as emoções humanas.”
Assim, Höss, o fantoche sádico, admitiu abertamente que o Holocausto era uma realidade, e que ele era um de seus perpetradores, como comandante do campo de concentração de Auschwitz.
No livro Values and Violence in Auschwitz (Valores e Violência em Auschwitz), inicialmente editado em polonês, a tradutora Catherine Leach declara que 3.200.000 judeus poloneses perderam a vida devido a execuções em massa, a torturas, e ao trabalho escravo nos campos de concentração. Ela diz: “O holocausto dos judeus da Europa ocorreu no território polonês.”
Morte por Afogamento
No campo, a morte podia acontecer de vários modos — fome, doença, uma bala no pescoço, a câmara de gás, espancamentos, enforcamento, guilhotina e afogamento. O afogamento era algo especialmente refinado.
O escritor Terrence Des Pres explica: “A realidade é que os presos eram sistematicamente submetidos à imundície. Eles eram o alvo deliberado da agressão com excrementos. . . . Os presos nos campos nazistas eram virtualmente afogados nos próprios dejetos, e, com efeito, era comum morrer nos excrementos. Em Buchenwald, por exemplo, as privadas consistiam em buracos abertos de 8 metros de comprimento, 4 metros de profundidade, e 4 metros de largura. . . . Estes mesmos buracos, que sempre estavam transbordando, eram esvaziados à noite por presos que não usavam nada, senão pequenos baldes.” Uma testemunha ocular relembra: “O local era escorregadio e não tinha iluminação. Dos trinta homens destacados para esta tarefa, uma média de dez caíam dentro do buraco no decorrer do trabalho de cada noite. Não se permitia que os outros socorressem as vítimas. Quando terminava o trabalho, e o buraco ficava vazio, então, e só então, eles obtinham permissão de remover os cadáveres.”
Poder-se-iam citar muitos outros testemunhos para provar que o extermínio tornou-se parte da política nazista, à medida que cada vez mais países europeus eram ocupados. A bibliografia sobre este assunto é infinita, e os depoimentos de testemunhas oculares, junto com a evidência fotográfica, é estarrecedor. Mas, foi o Holocausto apenas uma experiência judaica? Quando os nazistas invadiram a Polônia, eram apenas os judeus que eles queriam liquidar?
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