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Sobrevivi à “marcha da morte”A Sentinela — 1981 | 15 de fevereiro
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SOB PROSCRIÇÃO
Logo depois de a obra das Testemunhas de Jeová ser proscrita, em outubro de 1939, foi novamente preso e sentenciado a seis meses, acusado de pregar ilegalmente o reino de Deus. De início, passei o tempo na solitária, na cadeia de Béthune, sem nada para ler. Várias semanas depois, quando pensei que enlouqueceria, o guarda da prisão me trouxe uma Bíblia. Como agradeci a Jeová! Memorizei centenas de versículos e diversos capítulos inteiros. Estas passagens foram para mim uma ajuda fortalecedora para os dias à frente. De fato, mesmo agora posso citar textos que decorei na cadeia de Béthune.
Em fevereiro de 1940, foi transferido de Béthune para o campo Le Vernet, no sul da França, onde as autoridades francesas internavam os estrangeiros supostamente “perigosos”.
Na primavera de 1941, certa comissão alemã veio ao campo e me requisitou. Enviaram-me de volta à minha cidade natal, na zona ocupada do norte da França, para trabalhar nas minas de carvão. Naturalmente, usei minha recém-encontrada liberdade para pregar as boas novas do reino de Deus. Mas, quando certa Testemunha novata foi presa e imprudentemente contou à polícia francesa que eu lhe fornecera literatura bíblica, fui novamente preso e sentenciado a 40 dias na cadeia de Béthune.
Após minha soltura, continuei a dar testemunho. Ao fazê-lo na cidadezinha mineira de Calonne-Ricouart, foi preso pela quarta vez e enviado de volta à cadeia de Béthune. Ali, alemães vieram prender-me, porque eu me recusara a trabalhar horas extras e domingos na mina de carvão para sustentar o esforço de guerra nazista.
PRISIONEIRO NA BÉLGICA, NA HOLANDA E NA ALEMANHA
Os alemães me transferiram para a penitenciária de Loos, perto de Lille, e, poucas semanas depois, para a prisão de Saint-Gilles, em Bruxelas, na Bélgica.
Depois disso, fiquei preso na cidadela de Huy, perto de Liège, na Bélgica, antes de ser finalmente enviado para o campo de concentração de S’Hertogenbosch ou Vught, nos Países-Baixos. Ali, tornei-me uma cifra — 7045 — e recebi uniforme do campo com o triângulo roxo que me identificava como Bibelforscher, ou Testemunha de Jeová. Fui designado para o Bloco 17-A.
Foi realmente difícil acostumar-me a marchar de pés desnudos, em tamancos holandeses. Meus pés ficaram esfolados devido a bolhas estouradas. Ao menor passo em falso, arriscava-me a ser chutado nos tornozelos por um guarda das SS. Logo a sola dos pés engrossou e pude marchar tão rapidamente quanto os demais.
Havia mais 15 Testemunhas nesse campo. Foi-nos oferecida libertação imediata, contanto que assinássemos um papel renunciando à nossa fé. Nenhum de nós sucumbiu.
Deste campo de concentração, nos Países-Baixos, fomos finalmente transferidos para a Alemanha. Levados como gado para dentro de pequenos vagões de carga, 80 em cada um, fomos forçados a ficar em pé três dias e três noites, sem alimento, água ou providências sanitárias. Finalmente, o trem chegou a Oranienburg, cerca de 30 quilômetros ao norte de Berlim. Tivemos então de marchar a passos acelerados por 10 quilômetros até as fábricas de aviões da Heinkel, com cães das SS mordendo nossos calcanhares caso diminuíssemos o passo. Nós, Testemunhas, conseguimos ficar juntos.
Pouco depois, fomos todos transferidos para o campo de concentração vizinho de Sachsenhausen. Ali, meu triângulo roxo foi acompanhado de novo número: 98827.
A VIDA EM SACHSENHAUSEN
Ao entrarmos em Sachsenhausen, percebi a completa ironia do lema que o chefe das SS, Himmler, ordenara que fosse exibido em enormes letras dentro do campo. Dizia: “Arbeit macht frei” (O trabalho liberta). Que hipocrisia! Naturalmente, tínhamos uma liberdade da qual os nazistas nunca souberam, a liberdade que a verdade cristã dá. (João 8:31, 32) Em todos os outros aspectos, a vida em Sachsenhausen pode ser resumida como trabalho escravo, morte vagarosa por inanição, humilhação e degradação.
Os nazistas estavam determinados a forçar as Testemunhas de Jeová a transigir ou então matá-las. Mataram a muitas. Mas isto constituiu derrota moral para os nazistas, e vitória da fé e integridade para as Testemunhas que morreram.
Quanto ao restante de nós, longe de sermos vencidos, não permitimos que as condições degradantes nos impedissem de respeitar elevados valores espirituais. Tome o caso do irmão Kurt Pape. Recebeu ordem de juntar-se a um Kommando (grupo de trabalho) que trabalhava numa fábrica de armas. Recusou-se, dizendo que travara a batalha cristã sem armas carnais durante 16 anos e não iria macular sua integridade agora. Naturalmente, ao recusar, arriscou a vida. Surpreendentemente, o comandante do campo permitiu-lhe fazer outro serviço. Noutra ocasião, o irmão Pape repreendeu-me severamente por ter tirado alguns pães da padaria do campo, onde eu fora designado a trabalhar. Fiz isso para que os irmãos tivessem um pouco mais para comer, mas ele me disse que era preferível passar fome a trazer vitupério sobre o nome de Jeová por ser apanhado como ladrão. Isto me impressionou muito. Nas tardes de domingo, eu servia de intérprete para o irmão Pape, que tivera êxito em suscitar interesse na mensagem do Reino entre um grupo de prisioneiros russos e ucranianos. Sim, o irmão Pape foi excelente exemplo. Infelizmente, foi morto durante um ataque aéreo dos Aliados, pouco antes de nossa libertação.
A “MARCHA DA MORTE”
Por volta de abril de 1945, os Aliados ocidentais exerciam pressão sobre a área de Berlim pelo lado oeste, e os russos avançavam pelo leste. Os líderes nazistas estudaram diversos meios de liquidar os ocupantes dos campos de concentração. Mas, exterminar centenas de milhares de pessoas e desfazer-se dos corpos em poucos dias, sem deixar atrás qualquer vestígio dos seus crimes horrendos, mostrou-se difícil demais para estes homens diabólicos. Assim, resolveram eliminar os doentes e fazer os demais marcharem até o porto marítimo mais próximo, onde seriam amontoados em navios, que seriam levados ao mar aberto e afundados, enviando os prisioneiros para um túmulo aquoso.
De Sachsenhausen, devíamos marchar uns 250 quilômetros até Lübeck. A partida foi programada para a noite de 20-21 de abril de 1945. Os prisioneiros deviam ser primeiro reunidos por ordem de nacionalidade. Por isso, quão gratos ficamos a Jeová, quando todas as Testemunhas prisioneiras receberam a ordem de se reunirem na alfaiataria! Havia 230 de nós, provenientes de seis países diferentes. As Testemunhas doentes, na enfermaria, cujos ocupantes seriam mortos antes da evacuação, foram recolhidas por irmãos, que arriscaram a vida, e levadas a alfaiataria.
Entre os outros prisioneiros reinava uma confusão indescritível. Ocorreu muito roubo. Quanto a nós, realizamos uma “assembléia” e fortalecemo-nos uns aos outros espiritualmente. Entretanto, logo chegou a nossa vez de iniciar a longa marcha, supostamente para um campo de reagrupamento, mas, na realidade, para uma morte aquosa planejada. As diversas nacionalidades partiram em grupos de 600 prisioneiros — primeiro os tchecos, depois os poloneses, e assim por diante — cerca de 26.000 ao todo. O grupo das Testemunhas de Jeová foi o último a partir. As SS deram-nos uma carroça para puxar. Descobri, mais tarde, que ela continha parte do despojo que as SS haviam roubado dos prisioneiros. Sabiam que as Testemunhas de Jeová não tirariam nada dela. Tal carroça resultou ser uma bênção, pois os doentes e os idosos podiam sentar-se em cima dela e descansar um pouco durante a marcha. Quando um deles se sentia forte de novo, descia e caminhava, e outra Testemunha, fraca demais para nos acompanhar, tomava seu lugar, e assim por diante, durante as duas semanas em que a “marcha da morte” durou.
Era em todos os sentidos uma “marcha da morte”, não só porque nosso destino era um túmulo aquoso, mas a morte rondava o caminho. Aquele que não conseguisse manter-se de pé era cruelmente morto por uma bala das SS. Cerca de 10.700 perderam a vida desse modo, antes de a marcha terminar. Contudo, pelo amor e pela solidariedade cristãos, nenhuma Testemunha foi deixada à beira do caminho para ser morta pelas SS.
Os primeiros 50 quilômetros foram um pesadelo. Os russos estavam tão próximos, que podíamos ouvir os canhões. Nossos opressores SS estavam com medo de cair nas mãos dos soviéticos. Por isso, esta primeira etapa, de Sachsenhausen a Neuruppin, acabou sendo uma marcha forçada que durou 36 horas.
Eu começara carregando alguns parcos pertences. Mas, ao ficar cada vez mais cansado, lancei fora uma coisa após outra, até não restar nada senão um cobertor em que me enrolar à noite. Dormimos na maioria das noites ao ar livre, apenas com pequenos ramos e folhas para nos proteger do chão úmido. Certa noite, contudo, pude dormir num celeiro. Imagine minha surpresa ao achar, escondido no meio da palha, um livro Vindicação (uma publicação da Torre de Vigia)! Na manhã seguinte, nossos hospedeiros nos deram algo para comer. Mas isso foi algo incomum. Depois, durante dias consecutivos, não tivemos nada para comer ou beber, exceto algumas plantas que podíamos obter e usar para fazer chá de erva à noite, quando parávamos para dormir. Lembro-me de ver alguns prisioneiros, que não eram Testemunhas, lançarem-se sobre a carcaça dum cavalo, que fora morto perto da estrada, e devorarem a carne apesar das coronhadas que os guardas das SS lhes infligiam.
Todo este tempo, os russos avançavam de um lado e os americanos do outro. Por volta de 25 de abril, a situação estava tão confusa, que os guardas das SS não sabiam mais onde estavam as tropas soviéticas ou as americanas. Por conseguinte, ordenaram que a coluna inteira dos prisioneiros acampasse num bosque, durante quatro dias. Nesse ínterim, comemos urtigas, raízes e casca de árvore. Este atraso mostrou ser providencial, pois, caso nos fizessem continuar marchando, teríamos chegado a Lübeck antes de o exército alemão entrar em colapso, e teríamos acabado no fundo da baía de Lübeck.
A ÚLTIMA NOITE
Em 29 de abril, as SS resolveram levar os prisioneiros para Lübeck. Esperavam que chegássemos lá antes de as forças russas e americanas se juntarem. A marcha prosseguiu por vários dias, e por volta dessa ocasião nos aproximávamos de Schwerin, cidade localizada a uns 50 quilômetros de Lübeck. Novamente, as SS ordenaram que nos escondêssemos na floresta. Esta acabou sendo nossa última noite de cativeiro. Mas, que noite!
Os russos e os americanos estavam cercando o restante das forças alemãs, e os obuses, de ambos os lados, zuniam sobre nossa cabeça. Certo oficial das SS aconselhou-nos a caminhar desprotegidos até as linhas americanas, a cerca de seis quilômetros de distância. Mas, estávamos desconfiados disso, e, após orarmos a Jeová, pedindo orientação, finalmente resolvemos passar a noite na floresta. Descobrimos, mais tarde, que os prisioneiros que haviam aceito a proposta deste oficial e tentado atravessar até as linhas americanas foram mortos pelas SS. Cerca de 1.000 deles morreram naquela noite. Quão gratos ficamos pela proteção de Jeová!
Entretanto, aquela última noite na floresta de Crivitz não foi nada pacífica. Quando o combate chegou mais próximo, os guardas das SS entraram em pânico. Alguns escapuliram no meio da noite, enquanto outros esconderam suas armas e uniformes, vestindo a roupa listrada tirada de prisioneiros mortos. Os que foram reconhecidos foram mortos pelos prisioneiros que encontraram as armas deixadas atrás. A confusão era indescritível! Homens corriam para lá e para cá, e balas e granadas voavam por toda parte. Mas nós, Testemunhas, permanecemos juntas e agüentamos a tempestade sob a mão protetora de Jeová até a manhã seguinte.
Expressamos nossa gratidão a Jeová numa Resolução adotada em 3 de maio de 1945. Havíamos marchado uns 200 quilômetros em 12 dias. Dos 26.000 prisioneiros que deixaram o campo de concentração de Sachsenhausen, naquela “marcha da morte”, dificilmente sobreviveram mais do que 15.000. Todavia, cada uma das 230 Testemunhas que deixou o campo passou por essa provação com vida. Que libertação maravilhosa!
PROSSEGUINDO NA MARCHA
Em 5 de maio de 1945, fiz contato com as forças americanas, e em 21 de maio cheguei de volta ao lar em Harnes, no norte da França. Eu sobrevivera à “marcha da morte”, e certamente partilhava dos sentimentos de Davi, expressos no Salmo 23:4: “Ainda que eu ande pelo vale da sombra tenebrosa, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo; tua vara e teu bastão são as coisas que me consolam.”
A “marcha da morte” de Sachsenhausen resultou ser apenas uma etapa na jornada através do atual sistema de coisas rumo ao alvo da vida. Muitas foram minhas alegrias de partilhar as “boas novas” desde então. Assim como Jeová permitiu que eu sobrevivesse a essa terrível marcha, oro para que, junto com minha esposa e meus três filhos, eu possa prosseguir andando na estreita estrada para a vida, evitando armadilhas à direita e à esquerda — Mat 7:13, 14; Isa 30:20, 21.
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O “campo de sangue”A Sentinela — 1981 | 15 de fevereiro
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O “campo de sangue”
O nome “Campo de Sangue”, em aramaico Acéldama, foi aplicado pelos judeus ao lote de terreno comprado com “o salário da injustiça” pago a Judas Iscariotes por ter traído Cristo Jesus. (Atos 1:18, 19) Pelo menos desde o quarto século E.C. tem sido identificado com Hakk-ed-Dumm, do lado meridional do Vale de Hinom, na “Colina do Mau Conselho”, que é um terreno plano a pouca distância colina acima. Conforme salientam as Notas de Barnes Sobre o Novo Testamento (em inglês), a declaração de Atos 1:18, de que Judas “comprou um campo”, não significa que ele fizesse o contrato e o pagamento, mas, antes, que ele proveu os meios ou foi a causa da compra do campo. O registro de Mateus 27:3-10 mostra que os sacerdotes usaram as trinta moedas de prata lançadas no templo por Judas para fazer a compra, e que este “Campo de Sangue” havia sido antes disso o campo dum oleiro, sendo comprado por eles “para enterrar os estranhos”. O local sugerido tem sido usado como cemitério desde os primeiros séculos.
O cumprimento da profecia registrada por Mateus baseia-se no “que fora falado por intermédio de Jeremias, o profeta”. Jeremias, às vezes, era colocado em primeiro lugar no “livro dos profetas”, e esta parte das profecias, portanto, não só incluía os escritos de Jeremias, mas também os de Zacarias. (Veja Lucas 24:44) A citação feita por Mateus parece ter sido tirada principalmente de Zacarias 11:12, 13, mas parafraseada por Mateus e aplicada à situação que a cumpria, o que ocorreu sob a inspiração do espírito de Deus. Como “campo do oleiro”, o terreno teria sido considerado esgotado e de pouco valor, valendo apenas o preço dum escravo. — Tirado de Ajuda ao Entendimento da Bíblia, em inglês, p. 48.
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