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Cubanos procuram um novo larDespertai! — 1981 | 8 de julho
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Cubanos procuram um novo lar
NO COMEÇO de 1980, um grupo de cubanos num caminhão forçou a entrada na embaixada peruana em Havana. Procuravam obter asilo, de modo que pudessem por fim deixar o país. Pouco depois, o governo cubano anunciou que qualquer um que quisesse ir para o Peru estaria livre para partir.
Em dois dias, mais de 10.000 pessoas superlotaram a área da embaixada na esperança de deixar Cuba. Em poucas semanas, o assunto se transformou em notícia internacional, à medida que dezenas de milhares mais recebiam a permissão de partirem. Apenas para os Estados Unidos foram cerca de 120.000 pessoas.
O problema dos refugiados cubanos não é novo. Por anos, muitas centenas de milhares foram para outros países. Entre os países que deram permissão para que entrassem estão a Bolívia, a Colômbia, a Costa Rica, o Equador, a Espanha, os Estados Unidos, o Peru e a Venezuela. Outros países também disseram que acolheriam tais refugiados.
Por Que Partiram?
Por que tais refugiados deixaram Cuba? As razões variavam grandemente. Alguns pensavam que poderiam encontrar um modo de vida melhor em outro país. Outros se meteram em dificuldades porque não concordavam com a política do regime no poder, e fugiram do país para escapar dos problemas que se seguiram.
Também, em 1980, o governo cubano decidiu aproveitar a oportunidade para se livrar, em larga escala, de muitos a quem considerava indesejáveis. Por exemplo, depois que começou o fluxo de refugiados, tiraram criminosos das prisões e os forçaram a entrar nos barcos de refugiados para que saíssem do país. Outros, considerados politicamente perigosos, passaram pela mesma experiência. Alguns conhecidos homossexuais também foram forçados a partir.
Outro Tipo de Refugiados
Dentre os refugiados que deixaram Cuba em 1980, contudo, havia cerca de 3.000 que foram forçados a sair por uma razão diferente. O jornal News-Times de York, Nebrasca, E.U.A., fala a respeito disso, dizendo: “Dentre os muito noticiados grupos de criminosos e homossexuais que chegaram aos Estados Unidos na ponte marítima de Cuba, existe outro grupo, menos noticiado, cujo único crime é que continuaram a adorar a Deus do seu próprio modo, apesar do fato de sua seita ter sido declarada ilegal cinco anos atrás.”
O News-Times identificou tal grupo como sendo as Testemunhas de Jeová. Acrescentou: “As Testemunhas de Jeová já sofreram antes sob ditaduras por se recusarem a portar armas e tomar parte no governo no poder, coisas que sua fé as impede de fazer. Na Alemanha de Hitler, as Testemunhas foram mandadas às câmaras de gás junto com judeus e outros ‘indesejáveis’.”
Mas, quais eram, exatamente, as circunstâncias que os forçaram a sair de Cuba? Que condições suportaram? O que deixaram para trás? Permitiremos que os próprios refugiados cubanos contem sua história.
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Refugiados cubanos contam a sua históriaDespertai! — 1981 | 8 de julho
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Refugiados cubanos contam a sua história
TÍPICO das Testemunhas de Jeová que foram obrigadas a deixar Cuba era José Tunidor. Ele conta o seguinte:
“Em dezembro de 1978 a polícia veio à minha casa e fui levado sem nenhuma explicação. Colocaram-me na prisão junto com outra Testemunha de Jeová, Ernesto Alfonso. Ele também não sabia por que tinha sido colocado ali.
“Mais tarde, levaram-me de volta à minha casa a fim de inspecioná-la. Apreenderam as publicações que explicam a Bíblia, que eu possuía. Levaram também a minha máquina de escrever. De volta à prisão, fiquei sabendo que também apreenderam os livros e a máquina de escrever do Ernesto. Por quê? Fomos acusados de anti-sociais simplesmente porque críamos na Bíblia e falávamos a respeito de suas verdades a outros. Fomos acusados de ser perigosos e o tribunal nos sentenciou a três anos de prisão.”
Tunidor foi enviado a uma prisão em Aguica, perto de Colón, na província de Matanzas. Ali trabalhou na prisão até que foi transferido para o campo, para cortar cana-de-açúcar. Daí foi expulso do país. Foi levado a La Cabaña, famosa prisão em Havana, e então a um lugar perto de Porto Mariel, onde foi posto num navio que rumou para os Estados Unidos.
Embora muitas Testemunhas de Jeová fossem obrigadas a sair do país enquanto eram prisioneiras, outras foram apanhadas em suas casas e deportadas. Não podiam levar consigo nenhum de seus pertences e, às vezes, não podiam nem mesmo dizer adeus aos seus parentes. Herminio Arroyo relata:
“A polícia veio à nossa casa por volta das três horas da madrugada, enquanto dormíamos. Traziam documentos de extradição e nos mandaram trocar de roupa. Fomos levados imediatamente ao escritório de imigração e despidos, para a apreensão de quaisquer valores. Por volta das 18 horas daquele mesmo dia nós e mais outros 300 fomos colocados num navio camaroeiro para iniciar nossa viagem aos Estados Unidos.”
Muitas outras Testemunhas de Jeová passaram por experiências semelhantes, as autoridades comparecendo em suas casas ao amanhecer ou antes disso, para forçá-las a deixar o país. Tinham que partir, literalmente, apenas com a roupa do corpo. Até mesmo alianças, bem como outros bens, foram tomados delas.
É compreensível que um governo queira se livrar de criminosos e pessoas indesejáveis. Mas, por que a pressa em pôr para fora do país este grupo sincero de cristãos? Quais são os antecedentes desta situação?
Começa a Perseguição
Em 1962, o governo cubano cortou a importação de publicações bíblicas feitas pelas Testemunhas de Jeová. O Estado decretou que tais publicações eram “prejudiciais, reacionárias e pró-imperialistas”. Naturalmente, os que conhecem o trabalho das Testemunhas de Jeová sabem que isto não poderia ser verdade. As Testemunhas de Jeová em Cuba constituem a mesma classe de pessoas decentes e honestas que têm mundialmente um bom registro de comportamento.
Contudo, a perseguição continuou a aumentar. Luis Alcantur, um dos refugiados que agora está nos Estados Unidos, relembra: “Em novembro de 1965, um ataque maciço foi desfechado contra as Testemunhas de Jeová em Cuba, especialmente, naquela época, contra os jovens em idade de prestarem serviço militar. Centenas de tais jovens cristãos foram parar em vários campos de concentração, a maioria deles na província de Camagüey.”
A respeito dos primeiros anos na prisão, Alcantur diz: “Ficamos sem comida por 12 dias consecutivos. Davam-nos água apenas uma vez por dia. Tivemos que ficar de pé, à mercê do sol, da chuva, dos mosquitos e dos borrachudos. No 11.º dia jogaram-nos numa cisterna cheia de água.”
Naquela época, Alcantur tinha 19 anos. Foi preso por ter-se recusado a prestar serviço militar devido a ser objetor de consciência.
Outro refugiado, Alberto Sanchez, fala a respeito do tratamento que recebeu: “Visto que não cedíamos na nossa fé, fomos surrados, jogaram água gelada em cima de nós de noite e alguns foram amarrados e arrastados com uma canga de boi em volta do pescoço. Em certa ocasião apontaram um revólver para minha cabeça e me mandaram marchar, caso contrário atirariam. Em duas ocasiões prepararam pelotões de fuzilamento e nos ordenaram ficar diante deles. A ordem para atirar chegou a ser dada, mas não atiraram.
“Algumas Testemunhas foram obrigadas a morar em alojamentos onde existiam apenas homossexuais. Mas, depois que falaram com eles e explicaram sua posição cristã, baseada na Bíblia, as Testemunhas foram respeitadas. Isto contribuiu apenas para aumentar o ódio expresso pelos militares para com as Testemunhas.”
Em outros campos, muitas outras Testemunhas foram horrivelmente injuriadas. Foram deixadas famintas, suportaram a nudez, ficaram à mercê de mosquitos, sofreram o frio da noite no inverno, foram mantidas na solitária e viviam sob constante ameaça de morte. Uma Testemunha, Ursulo Brito, ficou pendurado ao teto pelos pés, por algum tempo.
A Perseguição Aumenta
Em 1968, o governo intensificou sua perseguição. As Testemunhas de Jeová foram constantemente atacadas na imprensa, no rádio e na televisão, sendo mal representadas quais assassinas, subversivas e fanáticas. Muitas outras acusações vis e falsas foram feitas. Em resultado, as condições se tornaram muito tensas, mesmo nos locais de trabalho. Muitas Testemunhas perderam bons empregos e não tinham para onde apelar. Foram obrigadas a aceitar empregos que ninguém mais queria e com salários bem baixos.
Acrescentando ao ataque sistemático, o governo decretou novas leis, impondo sentenças de prisão contra qualquer pai, mãe ou mestre que instruísse as crianças no que foi chamado de “falta de respeito para com as organizações ou os símbolos patrióticos”. As Testemunhas de Jeová não ensinam tal “falta de respeito”. Mas o governo interpretou como sendo desrespeitoso seu ensino do que a Bíblia diz, a saber: “É a Jeová, teu Deus, que tens de adorar e é somente a ele que tens de prestar serviço sagrado”, e, também: “Filhinhos, guardai-vos dos ídolos.” — Mat. 4:10; 1 João 5:21.
De modo que muitos pais e mães foram presos por seguirem as instruções da Palavra de Deus de ‘educar o rapaz segundo o caminho que é para ele’ por inculcar no jovem os princípios da adoração verdadeira. (Pro. 22:6; Efé. 6:4) Por exemplo, uma das filhas de Herminio Arroyo relembra: “Quando os filhos se recusavam a saudar a bandeira, eram maltratados por colegas e os professores muitas vezes chamavam as autoridades, o que resultava em os pais receberem uma sentença de três a seis meses de prisão.”
Vasculhando as Casas
Em numerosas ocasiões, as autoridades fizeram repentinas batidas nos lares dos irmãos. Procuravam alguma coisa para incriminar as Testemunhas. Por exemplo, Luis Alcantur fala a respeito duma de tais buscas:
“Em 30 de março de 1977, agentes de segurança do Estado vieram à minha casa às 5 horas da tarde. Naquela época eles usavam o método de entrar e dar busca, muitos deles entrando ao mesmo tempo na casa. Daí, um deles colocava objetos tais como armas ou drogas em algum lugar. Outro agente fingia encontrá-los. Deste modo nos acusavam falsamente.
“A busca em minha casa naquela ocasião terminou por volta das onze da noite. Levaram tanto quanto queriam, incluindo itens de natureza pessoal, tais como um barbeador elétrico, roupas e dinheiro. Também levaram minha máquina de escrever e publicações bíblicas. Fui acusado de possuir um documento contra-revolucionário, mas este jamais apareceu durante meu julgamento.”
Atacadas Apesar da Constituição
Assim, torna-se claro que nas duas décadas passadas o governo de Cuba tentou esmagar as Testemunhas de Jeová. O refugiado Cristo Leon chamou-o de “um sistemático ataque do governo cubano contra a nossa adoração”. As Testemunhas de Jeová foram proscritas, proibidas de importar ou imprimir publicações, seu escritório-filial foi fechado, seus locais de reunião para adoração foram lacrados, seu ministério público foi declarado ilegal e milhares de sentenças de prisão foram expedidas.
Esta investida de 20 anos viola claramente a constituição da República de Cuba. Tal constituição “garante” a liberdade de religião. O artigo 54 estipula claramente: “O estado socialista, que baseia sua atividade e educa o povo no conceito científico e materialista do universo, reconhece e garante a liberdade de consciência, e o direito de cada um professar qualquer religião e praticar, dentro dos limites do respeito à lei, a crença de sua preferência.”
Os que conhecem as Testemunhas de Jeová sabem que tal respeito à lei é parte de suas crenças religiosas. Na verdade, são conhecidas mundialmente por seu respeito à lei. Assim, certamente se lhes deveria dar permissão de ‘professar sua religião e praticá-la’, conforme têm permissão de fazer na maioria dos outros países.
Contra Outras Religiões?
As medidas do governo cubano contra as Testemunhas de Jeová levantam esta questão: Será que o governo persegue também outras religiões?
Existem em Cuba muitas igrejas católicas. Suas portas estão abertas ao público. O mesmo acontece com as igrejas protestantes. Mas os locais de reuniões das Testemunhas de Jeová estão fechados por decreto governamental. Por que tal parcialidade?
Por algum tempo, é verdade, alguns dos outros grupos religiosos sofreram pressão governamental. Mas eles logo cederam e se permitiram ser usados politicamente. As Testemunhas de Jeová, porém, não podem fazer isto, pois violaria sua fé. Assim, tiveram que suportar o impacto da violência durante todos esses anos.
Mesmo assim, uma pergunta ainda permanece sem resposta. Por que seguem as Testemunhas de Jeová um modo religioso de vida que lhes causa tanto sofrimento num país como Cuba? E como é possível para elas suportarem tanta dureza por um período tão longo de tempo, e, no ínterim, sempre se apegando fielmente às suas crenças?
[Destaque na página 5]
“Fomos acusados de ser anti-sociais simplesmente porque críamos na Bíblia e falávamos a respeito de suas verdades a outros.”
[Destaque na página 6]
Tiveram que partir, literalmente, apenas com a roupa do corpo. Até mesmo alianças, bem como outros bens, foram tomados.
[Destaque na página 7]
Muitos pais e mães foram presos por seguirem as instruções da Palavra de Deus de ‘educar o rapaz segundo o caminho que é para ele’.
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Um registro de fidelidadeDespertai! — 1981 | 8 de julho
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Um registro de fidelidade
CUBA não é o único país onde as Testemunhas de Jeová são perseguidas. Foram proscritas na União Soviética, na China e em outros países comunistas. Foram também perseguidas na Argentina, nos anos recentes. No Malaui, várias horríveis ondas de perseguição se agitaram contra elas por vários anos. Durante a Segunda Guerra Mundial foram feitos esforços para exterminá-las na Alemanha nazista e muitas Testemunhas morreram nos campos de concentração.
Contudo, a perseguição contra as Testemunhas de Jeová não é algo recente. Nem tampouco são novas as acusações de serem sediciosas ou anti-sociais. Outros servos fiéis de Deus, a Bíblia nos informa, sofreram a mesma perseguição e também foram acusados falsamente. — João 19:12; Atos 16:19-21.
Neutralidade
O que alguns países não foram capazes de entender é que as Testemunhas de Jeová são neutras em assuntos políticos. Nunca interferem ou prejudicam o sistema político no país onde vivem. Alguns países, entendendo mal isso, pensam que as Testemunhas são subversivas porque não vão à guerra ou porque não fazem o que elas, Testemunhas, consideram ser atos de adoração para com símbolos patrióticos.
Mas, serem subversivas é algo impossível para elas. Tal coisa seria contrária aos seus altos princípios bíblicos. De fato, se aqueles que duvidam disso fossem investigar cuidadosa e imparcialmente, descobririam que as Testemunhas de Jeová jamais tentaram uma revolta contra qualquer governo. Nunca conspiraram contra algum governo nem incitaram outros a fazê-lo. Ao contrário, censurariam fortemente qualquer de seus membros que violasse a lei do país onde vivem a respeito do comportamento moral, o pagamento de impostos e outras responsabilidades cívicas. Esta é a razão porque se encontram entre os cidadãos mais acatadores da lei em cada país.
As Testemunhas de Jeová não crêem que as guerras solucionarão os problemas da humanidade. Não crêem nisso porque a Bíblia, a Palavra de Deus, diz que as guerras não resolverão os problemas da Terra. Pelo contrário, a promessa de Deus é de que haverá um tempo em que “não levantará espada nação contra nação, nem aprenderão mais a guerra”. (Isa. 2:4) Mesmo agora, as Testemunhas de Jeová obedecem ao princípio básico dessa profecia. Vivem em consonância com o conselho do apóstolo Paulo em Romanos 12:18: “No que depender de vós, sede pacíficos para com todos os homens.”
Isto não é nada novo. Por exemplo, o livro History of Christianity (História do Cristianismo), de Edward Gibbon, fala a respeito dos cristãos do primeiro século: “Negaram-se a tomar qualquer parte ativa na administração civil ou na defesa militar do império . . . era impossível que os cristãos, sem renunciarem ao mais sagrado dever, pudessem assumir o caráter de soldados, de magistrados ou de príncipes.”
Dessemelhante de muitos outros países, contudo, Cuba não tem legislação para isentar os que conscienciosamente objetam ao serviço militar. Portanto, os jovens cristãos em Cuba sofreram bastante por manterem fidelidade aos princípios da Palavra de Deus. Os muitos milhares de Testemunhas de Jeová ainda em Cuba continuam a sofrer devido à sua fidelidade às leis de Deus.
Contudo, os governos tais como o de Cuba deveriam perguntar a si mesmos: O que aconteceria realmente se todas as pessoas fielmente evitassem a guerra, como fazem as Testemunhas de Jeová? A resposta óbvia é que a guerra desapareceria para sempre, conforme já desapareceu entre milhões de Testemunhas de Jeová em escala internacional e como vai desaparecer completamente de toda a terra na nova ordem de justiça, de Deus. — João 13:34, 35; 2 Ped. 3:13.
Granjeando Respeito na Prisão
A prisão das Testemunhas de Jeová exigiu delas mostrar sua integridade a Deus. Elas fizeram isto e ao mesmo tempo partilharam sua esperança com outros detentos.
Por exemplo, Samuel Izquierdo conta o que aconteceu quando foi preso por não participar em serviço militar: “Eu lhes disse que minha consciência não me permitia submeter às suas ordens políticas e que não poderia aceitar treinamento militar. O oficial que cuidava do meu caso gritou com raiva para que eu fosse trancafiado numa cela.
“A cela era construída de madeira e media 1,20 metro de cada lado por 1,50 metro de altura. Isto fazia com que fosse impossível para mim ficar em pé, ereto. Também, espalharam excremento humano em todo o chão da cela e me trancaram lá dentro, nu e descalço. O mau cheiro era horrível.”
Mas esta Testemunha conta como foi capaz de manter sua integridade sob tais condições: “Consegui ter sempre comigo uma pequena Bíblia, a parte das Escrituras Gregas. Embora a encontrassem quando me inspecionavam, nunca deram qualquer importância ao livrinho, como a chamavam. Já desde o primeiro dia em que me encontrei no meio dos outros prisioneiros comecei a falar-lhes a respeito da esperança da nova ordem de Deus, que a Bíblia sustenta. Mais de 10 prisioneiros se juntaram a mim. Eu lia a Bíblia para eles e, conforme diziam, dava-lhes conforto espiritual. Isto ajudou a me manter espiritualmente forte. E os prisioneiros me respeitavam como ministro religioso. Naquela prisão, os soldados finalmente me consideraram inofensivo e pararam de me castigar.”
Reunindo-se
A Bíblia ordena que os cristãos ‘não devem deixar de se ajuntar’. (Heb. 10:24, 25) Embora a lei cubana proíba as Testemunhas de Jeová de se reunirem abertamente, não pode impedi-las de fazerem isso de outros modos. Até mesmo nas prisões elas encontram meios de se reunirem.
Eduardo Aboud declara: “Dava muita alegria podermos reunir-nos secretamente em algum lugar no campo, para realizarmos considerações bíblicas. Cada dia, um de nós colaborava com um texto das Escrituras para ser comentado. Falávamos também a respeito do que passamos e sobre os vários testes de nossa fé que todos tivemos que confrontar e vencer. Em seguida estudávamos como suportar as dificuldades que provavelmente surgiriam no dia seguinte.
“Todos nós, também, tínhamos a oportunidade de falar a respeito do propósito de Deus aos outros detentos que não eram Testemunhas. Havia uma Testemunha em cada alojamento no campo; de modo que cada um considerava seu alojamento como seu ‘território’ no qual pregar. Deste modo, me foi possível dirigir semanalmente dois estudos bíblicos usando as coisas que aprendera anteriormente, visto que naquela prisão faltava-nos qualquer material impresso, inclusive a Bíblia. Não obstante, cada mês apresentávamos excelente atividade em falar as verdades bíblicas a outros.”
Do lado de fora das prisões, as reuniões formais das Testemunhas de Jeová estavam proibidas. Houve Salões do Reino que até mesmo foram atacados por grupos ou turbas. Homens, mulheres e crianças foram espancados. Era inútil pedir audiências às autoridades provinciais ou aos representantes do Ministério do Interior. A resposta era sempre a mesma: “Cumprimos ordens de Havana.”
Proibida a Atividade Pública
Além de fechar os Salões do Reino, foi feito esforço para impedir que as Testemunhas de Jeová realizassem seu ministério público nos lares de outros. Cada semana, milhares de Testemunhas foram presas quando se empenhavam no ministério público. Eram multadas ou encarceradas por algum tempo.
Contudo, as Testemunhas de Jeová em Cuba atualmente obedecem à ordem de Deus de falar aos outros as boas coisas que aprenderam de sua Palavra. (Mat. 24:14; 28:19, 20; Atos 20:20) Elas realizam este ministério de várias maneiras. E respondem atualmente exatamente assim como fizeram os cristãos do primeiro século aos quais se ordenou que “em nenhuma parte fizessem qualquer pronunciação, nem ensinassem à base do nome de Jesus”. Tais primitivos cristãos declararam, quando diante das autoridades: “Se é justo, à vista de Deus, escutar antes a vós do que a Deus, julgai-o vós mesmos. Mas, quanto a nós, não podemos parar de falar das coisas que vimos e ouvimos.” Também declararam: “Temos de obedecer a Deus como governante antes que aos homens.” — Atos 4:18-20; 5:29
Devido ao comportamento fiel das Testemunhas de Jeová, o nome e o propósito de Jeová Deus se tornaram amplamente conhecidos através de Cuba, conforme informam os refugiados. Isto tem sido de grande benefício para muitas pessoas que querem ouvir a verdade. Nas prisões, um grande testemunho a favor do propósito de Deus foi dado.
Observe o que diz o refugiado Luis Garcia: “Nas prisões de Cuba, nem o trabalho nem o nome das Testemunhas de Jeová eram conhecidos até o momento em que aquelas Testemunhas enviadas às prisões começaram a chegar. Com o tempo, mais e mais Testemunhas foram presas. Em resultado, o testemunho foi surpreendente, tanto fora como dentro das prisões. Pronunciar as palavras ‘Testemunhas de Jeová’ em qualquer prisão em Cuba era símbolo de coragem, bravura, firmeza, fidelidade e integridade em todos os sentidos.”
Muitos detentos beneficiaram-se da mensagem e do comportamento das Testemunhas. Um grande número de tais prisioneiros aprenderam a respeito de Deus e de seus propósitos e mudaram sua vida de modo a se tornarem servos de Deus. Um exemplo é o dum homem que estava preso por roubo antes de ter aprendido a Bíblia. Escreveu o seguinte para aquele que lhe ensinara, na prisão:
“Meu prezado irmão: Meus mais profundos votos são de que, quando você ler estas linhas, esteja bem física e espiritualmente, em companhia de sua querida família. Posso-lhe dizer que estou bem. Espiritualmente sinto-me forte e otimista, visto que a cada dia minha fé aumenta mais e mais. À medida que os dias passam, entendo melhor as coisas. Percebo com grande prazer que o espírito santo de Deus opera em mim. Apesar de estar sozinho neste lugar, foi-me possível colocar o nome de Jeová na mais alta posição, visto que tento aplicar todos os Seus ensinos na minha vida.
“No curto período em que estivemos juntos, apeguei-me muito a você, apesar de minha idade e apesar do fato de que eu fazia, em grande medida, parte deste mundo. Nunca fui tratado da maneira como fui tratado por você, porque, uma vez que até então todas minhas associações anteriores haviam sido com mundanos, mais cedo ou mais tarde eles mostravam sua verdadeira natureza. Contudo, em sua pessoa sempre encontrei amor, sinceridade e bondade.
“Você tem sido para mim um pai espiritual e me ajudou muito. Outra coisa que está me ajudando e que será útil para mim no futuro é seu exemplo qual servo de Deus. Você não apenas me ensinou o que está escrito na Bíblia no que concerne a doutrinas, mas nos seus tratos você me ensinou, pelo exemplo, o caminho correto a seguir.
“Ainda não sou espiritualmente maduro. Ainda me falta muito conhecimento. Mas, mesmo com tal desvantagem, estou pronto para defender a verdade, porque a verdade não pode ser escondida. Às vezes falo menos do que gostaria de expressar, mas mesmo com poucas palavras sou capaz de defender a verdade.
“Embora sinta-me triste depois que você foi solto, tornei-me muito ativo em falar a verdade aos outros. Isto preenche o vazio.
“Sou muito feliz por conhecer os caminhos de Deus e conhecer seu propósito. Fiz minha dedicação de servi-lo em cada ocasião e em qualquer lugar onde me encontre, mesmo ao possível custo de minha vida. (Lucas 9:62; Atos 20:24) Embora distante de você, não esqueci seus ensinamentos. (Assinado) Seu irmão e filho na fé.”
Certamente, qualquer governo que observar sinceramente os servos de Deus pode ver os muitos benefícios que produzem. Os que se tornam Testemunhas de Jeová passam a ser os melhores cidadãos. Cuidam melhor de suas famílias, de seus filhos e de suas próprias propriedades e das dos outros. As Testemunhas de Jeová dão alta prioridade à honestidade e à moralidade.
De Que Gostariam
Naturalmente, em cada país, onde as Testemunhas vivem, elas gostariam de contar com a compreensão da parte do governo. Gostariam de pôr em execução sua adoração religiosa dum modo livre e feliz. E na maioria dos países podem fazer isso.
Elas não têm, contudo, tal liberdade em Cuba. No entanto, este desejo foi expresso ao governo de Castro num apelo enviado em 16 de dezembro de 1978. No final do documento foi declarado: “Oramos em seu favor e em favor das outras autoridades do Governo Revolucionário, de modo que possam razoavelmente entender a nossa posição e, se esta for a vontade de Deus e sua decisão, que possamos receber uma resposta urgente. Na Bíblia somos exortados a fazer isso em 1 Timóteo 2:1, 2, que diz: ‘Exorto, portanto, em primeiro lugar, a que se façam súplicas, orações, intercessões e se dêem agradecimentos com respeito a toda sorte de homens, com respeito a reis e a todos os em altos postos, a fim de que continuemos a levar uma vida calma e sossegada, com plena devoção piedosa e seriedade.’”
Contudo, mesmo que tal petição continue a não ser atendida, as Testemunhas de Jeová em Cuba continuarão a servir ao Todo-Poderoso Deus fielmente, não importa quem se oponha. “Se Deus é por nós, quem será contra nós?”, diz a Bíblia. (Rom. 8:31) Confiam em que Jeová resolverá sua situação no seu devido tempo e modo.
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