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  • Mantivemos nossa integridade por cinco décadas
    A Sentinela — 1981 | 1.° de julho
    • república. Mas, a população estava dividida sobre a questão, e o ódio político ardia debaixo da superfície. Em julho de 1936, irrompeu a terrível guerra civil, e, estando na Catalunha, encontrávamo-nos do lado republicano e anticlerical do país. Todavia, apesar das hostilidades, prosseguimos com nossa atividade de pregação de casa em casa.

      Certo dia, enquanto testemunhávamos em Horta, nos arredores de Barcelona, fomos apanhados por um miliciano comunista e levados ao comando local para interrogatório. Nessa ocasião, eu tinha 18 anos e meu irmão 14. Levamos um sermão do oficial local, o qual confiscou nossas publicações e nos avisou para não desperdiçarmos nosso tempo pregando. Disse-me que eu devia estar na frente lutando com os camaradas. Esta foi nossa primeira prova real dos efeitos da guerra civil. Sendo jovens, ficamos chocados com esta experiência, mas sabíamos que tínhamos de continuar pregando as “boas novas”.

      Nessa época — no ano de 1936 — não tínhamos um conceito claro sobre a neutralidade cristã como temos hoje. (João 15:19) Este assunto só foi esclarecido na Sentinela, em espanhol, em março de 1940. Tudo o que eu sabia era que, como cristão, eu não podia matar. — Êxo. 20:13.

      Em 1937, aos 19 anos, fui convocado para o serviço militar junto ao exército republicano. De início, para evitar participar neste conflito fratricida, passei a me esconder. Após cerca de oito meses fui descoberto e julgado pelo Tribunal de Espionagem e Alta Traição. Tal era o clima de tempo de guerra, que meus pais estavam convencidos de que eu seria executado. Aconteceu que fui sentenciado a 30 anos de prisão. No entanto, após alguns meses de prisão fui liberto e enviado à frente, na província de Lérida. Desenvolviam-se coisas lá para uma grande batalha.

      Minha primeira designação foi num escritório, o que significava que eu não tinha de usar uma arma. A situação logo mudou quando a nossa companhia foi mandada para a frente de batalha, perto duma pequena cidade chamada Serós, às margens do rio Segre. Assim como o resto das tropas, encontrava-me agora debaixo de fogo. Em certa ocasião, enquanto me abrigava das balas numa depressão rasa no solo, havia, em cada um dos meus lados, um sargento gritando comigo para que eu agarrasse um rifle e começasse a atirar. Não fiz caso da ordem. Poucos minutos depois, ambos jaziam ali mortos.

      Por fim, nossa companhia se retirou, e, após cerca de três semanas de marcha, fui capturado por tropas italianas da Brigada Littorio, que lutavam junto ao exército nacional de Franco. Como prisioneiro, tive certo descanso da pressão de participar na guerra. Era agora o início de 1939, e fui designado para um campo de concentração em Deusto, na Biscaia, no norte da Espanha. Mas, meus problemas não acabaram aí. Na hora das refeições, tínhamos todos que ficar de pé, cantar hinos fascistas e erguer o braço em saudação fascista. Eu simplesmente permanecia sentado, nos fundos, e continuava comendo discretamente. Felizmente, eu sou um tanto pequeno em estatura, e, assim, passava despercebido. Mais tarde, fui transferido para trabalhar num batalhão disciplinar. Ali, fui mandado fazer a saudação fascista juntamente com os outros. Por motivo de consciência, neguei-me a participar no que considerava ser um ato de idolatria. Os outros prisioneiros pensavam que eu estava louco. Com a Espanha envolvida numa guerra civil, minha atitude era o mesmo que suicídio.

      Fui chamado na frente de todos e mandado fazer a saudação fascista. Neguei-me. Certo oficial golpeou-me e tentou erguer meu braço à força, mas fracassou. Amarraram então um pesado saco de areia em minhas costas, e fizeram-me correr em círculos enquanto açoitavam minhas pernas com uma cinta. Por fim, perdi as forças e desmaiei, e fui levado para a solitária. Para fortalecer meu espírito, comecei a rabiscar textos bíblicos na parede da cela. Vieram dois guardas e tentaram persuadir-me a saudar. Minha obstinada recusa de fazer uma coisa tão “simples” aturdia-os, especialmente visto que eu seria liberto em breve. Finalmente, fui levado perante um grupo de oficiais e médicos do exército, os quais resolveram enviar-me ao hospital para examinarem minha sanidade mental. Fui liberto algumas semanas depois, em abril de 1939. Tais experiências angustiantes então já haviam passado e eu mantivera minha integridade o melhor que pude.

      DIFICULDADES APÓS A GUERRA

      A guerra civil da Espanha terminou em 1.º de abril de 1939, mas as feridas abertas, causadas, continuaram a inflamar o ódio durante anos após isso. O temor de represálias, vingança e denúncias anônimas reinava em toda parte. Prevalecia um clima de terror, agravado pelas devastações da guerra e pela escassez de alimentos.

      Em meio a este cenário, voltei a Barcelona e descobri que as reuniões do povo de Jeová haviam sido suspensas e sua obra de pregação havia parado. Sem demora, Paco e eu cooperamos com outros para conseguir restabelecer reuniões no lar de Paquita Arbeca. (Heb. 10:24, 25) Realizávamos as reuniões aos domingos, baseando nossos estudos na Bíblia, em exemplares antigos da Sentinela e em livros tais como Governo, Libertação e Riquezas. Nossa atividade de pregação ficou restrita a contatos informais.

      Devido ao irrompimento da guerra em 1936, nossas ligações com a Sociedade Torre de Vigia em Brooklyn, Nova Iorque, foram cortadas. Embora a guerra tivesse acabado, não podíamos comunicar-nos com a Sociedade. Por que não? Porque toda a correspondência passava pela censura e as pessoas eram obrigadas a escrever frases patrióticas nos envelopes. Assim, pareceu-nos melhor evitar escrever cartas.

      Em 1946, a imprensa espanhola incluiu um despacho noticioso sobre a Assembléia Teocrática Nações Alegres das Testemunhas de Jeová, realizada em Cleveland, Ohio, E.U.A. Isto reacendeu nossas esperanças. Nessa época já não se exigiam mais as frases nas correspondências. Escrevemos ansiosamente à Sociedade para pedir mais informações. Que alegria foi, quando, algumas semanas depois, recebemos uma carta e um pacote de revistas! Finalmente, verdades bíblicas recentes afluíam ao nosso campo ressequido.

      CASAMENTO SOB UMA DITADURA CATÓLICA

      O ano de 1946 foi um ano feliz para Paco e para mim, por outra razão. Eu tinha quase 29 anos e Paco 25, e ambos estávamos namorando moças catalãs, Carmen e María, que também estudavam a Bíblia e assistiam às reuniões. Meu irmão e eu estávamos bem cônscios da necessidade de nos casarmos “somente no Senhor”, e por isso exercêramos paciência. (1 Cor. 7:39) Todos os quatro queríamos casar-nos no mesmo dia. Havia somente um problema. A única cerimônia de casamento realmente disponível naqueles dias era a católica. A questão era: como poderíamos evitar o ritual católico? Por fim, encontramos um sacerdote que, por consideração, estava disposto a permitir uma cerimônia simples na sua igreja, sem aparatos religiosos. Só para se disfarçar, no dia do casamento ele ficou de fora, deixando o assunto nas mãos do sacristão. Assim, em outubro de 1946, casei-me com María Royo e Paco casou-se com Carmen Parera.

      MISSIONÁRIO DE GILEADE MOSTRA-NOS COMO PREGAR

      Em dezembro de 1947, John Cooke, que recebera treinamento missionário em Gileade, chegou a Barcelona. Realmente, antes da sua chegada, nossas reuniões assemelhavam-se mais a debates mordazes. Mas, ele nos mostrou como se deve conduzir uma reunião cristã, e os que não apreciaram isso saíram logo. — 1 Cor. 14:33.

      Então veio o verdadeiro desafio. O irmão Cooke nos disse que devíamos começar a pregar de casa em casa, se é que algum dia a Espanha havia de ser coberta com as “boas novas”. “Deve estar fora de si, irmão Cooke!” dissemos-lhe. “Não se pode pregar desse modo aqui na Espanha de Franco. Talvez em Londres, ou Nova Iorque, mas não aqui!” Quando notou que não estávamos dispostos a ceder, o que fez ele? Saiu sozinho e nos mostrou que podia ser feito. Isto nos envergonhou, induzindo-nos a agir. Se ele, um estrangeiro, com seu forte sotaque, estava disposto a pregar ao nosso povo, nós também estávamos. Ele nos ensinou a pregar discretamente, não visitando todos os apartamentos dum edifício, mas, antes, ziguezagueando em torno do território, de modo a não sermos pegos pela polícia.

      Muitos, em toda Barcelona, aceitaram nossa mensagem, e logo o nosso grupo tornou-se uma congregação. Com o tempo, pudemos formar diversas congregações na cidade. Com esta excelente expansão, Paco e eu resolvemos então ‘levantar acampamento’ e mudar-nos para as cidades vizinhas de Hospitalet e Prat de Llobregat, e outras cidades costeiras, para dar mais ímpeto à obra de testemunho nestes lugares. Agora, quando olhamos para trás, é realmente gratificante ver que há 52 grandes congregações na cidade de Barcelona, 9 em Hospitalet e várias outras nas cidades que se estendem ao longo da costa, onde pudemos servir quais anciãos Naturalmente, não atribuímos a nós o crédito por este aumento, mas ficamos contentes por termos tido parte nele. — 1 Cor. 3:5-9.

      BÊNÇÃOS NA FAMÍLIA

      O dia 10 de junho de 1951 foi uma data “histórica” para a nossa família. Nesse dia, nós cinco — Carmen, Maria, Paco e eu mesmo, bem como nossa mãe — fomos batizados num pequeno tanque no quintal do irmão Brunet. As circunstâncias nos fizeram esperar muitos anos por esta ocasião alegre.

      Durante os anos difíceis da década de 1950, Maria e eu tivemos três bênçãos notáveis — o nascimento dos nossos três filhos, David, Francisco (Paquito) e Isabel. Isto trouxe sobre nós a enorme responsabilidade de educá-los ‘no caminho em que devem andar’, sabendo que, com toda probabilidade, quando mais velhos, não se desviariam dele — Pro. 22:6.

      MOLESTAMENTO DA POLÍCIA

      Em 1955, e coincidindo com a visita do irmão F. W. Franz, foram feitos arranjos para a realização duma assembléia secreta na floresta, na montanha Tibidabo, que dá vista para Barcelona. Nossas assembléias eram realizadas geralmente no estilo de piquenique, no caso de a polícia nos sobrevir de surpresa. Neste caso, o “piquenique” ficou maior, com uma assistência de mais de 500 pessoas. Outro fator inconveniente foi que houve uma batida da polícia na casa dum irmão, na semana anterior, quando foi confiscado um exemplar do suplemento do informante que anunciava os arranjos para esta assembléia María e eu estávamos presentes ao “piquenique” com nossos dois filhinhos, David e Paquito.

      O programa estava em andamento e tudo parecia normal, até que vimos repentinamente quatro homens correndo montanha acima, um deles carregando uma pistola. Mandaram que não nos movêssemos. Sim, é verdade, eram policiais à paisana. Pensando terem realmente conseguido dar um golpe, colocaram-nos a todos — homens, mulheres e crianças — dentro de caminhões que estavam à espera e que nos levaram à chefatura de polícia para identificação e interrogatório. Imagine o desgosto de alguns deles quando compreenderam que haviam apanhado famílias inofensivas, que se haviam reunido para estudar a Bíblia, em vez de um grupo político clandestino. Embora isso tudo não tenha resultado em nada, esta experiência serviu para fortalecer nossa integridade e nos ajudou a apreciar a proteção de Jeová. — Sal. 34:7.

      ATINGIDOS POR UMA TRAGÉDIA

      Por volta de 1963, nossos filhos, David, Paquito e Isabel, tinham 13, 11 e 9 anos respectivamente e progrediam bem na verdade. Era uma alegria para nós vê-los participar no serviço de campo e deleitar-se conosco nas reuniões de estudo da Bíblia que assistíamos em lares particulares.

      Então, certo dia, em março daquele ano, Paquito voltou da escola queixando-se de severas dores de cabeça. Dentro de três horas morreu de meningite.

      Ficamos tão profundamente afetados por esta terrível perda, que não sei como conseguimos fazer os arranjos para o funeral, pois mesmo nisto tivemos de contender com a Igreja Católica. Obviamente, queríamos um funeral civil e, para isso, tínhamos de obter a autorização do sacerdote paroquial local. Esta barreira foi vencida com um documento que provava que éramos Testemunhas de Jeová.

      Mais de mil irmãos, amigos e colegas comerciais apareceram em casa. Imagine a agitação que isto causou na vizinhança. O trânsito ficou obstruído, e as pessoas na rua perguntavam quem era a pessoa importante que havia morrido. Essa pessoa muito importante era o nosso querido filho, Paquito. Somente o conhecimento da esperança da ressurreição nos sustentou durante este período dificílimo. (João 5:28, 29; 11:23-25) Como pais amorosos, María e eu ansiamos o dia em que veremos novamente nosso menino e poderemos continuar a educá-lo, mas no novo sistema de coisas que Deus prometeu para esta terra — 2 Ped. 3:13; Isa 25:8, 9.

      Duas semanas após o funeral, foi chamado à chefatura de polícia e interrogado por duas horas. Seus agentes haviam espionado o ajuntamento no funeral, e era evidente que o compadecimento em massa das Testemunhas provocou sua reação. Suas perguntas eram uma tentativa de obter informações sobre os irmãos que dirigiam a obra na Espanha naquele tempo. Eu estava cônscio de suas táticas e resolvido a não dizer nada que pudesse implicar alguém mais. Disse-lhes diretamente que eu não era um Judas. Embora me ameaçassem de pesada multa, não tinham nenhuma acusação provada contra mim, e seu blefe fracassou.

      LIBERDADE HÁ MUITO ESPERADA

      Em 1967, o governo espanhol aprovou a Lei de Liberdade Religiosa, que garantia maior liberdade às religiões não-católicas. Perguntamo-nos se esta lei beneficiaria as Testemunhas e lhes concederia o reconhecimento legal. Que nossa posição quanto à pregação de casa em casa e à neutralidade cristã era um obstáculo para as autoridades políticas e eclesiásticas pareceu evidente quando a nossa inscrição no registro oficial de religiões não-católicas foi adiada até julho de 1970.

      Paco e eu esperáramos mais de 30 anos por este dia. Podíamos praticar agora a nossa religião dentro da lei, sem medo. Imagine o prazer que sentimos ao assistir à inauguração do primeiro Salão do Reino de Barcelona, em fevereiro de 1971. Nosso coração encheu-se de alegria naquele dia, ao juntarmos nossas vozes cantando cânticos do Reino, algo que as Testemunhas de Jeová não puderam fazer na Espanha durante muitos anos.

      A INTEGRIDADE E SUAS MUITAS BÊNÇÃOS

      Ao olhar para trás, para as quase cinco décadas no serviço de Jeová, tenho de admitir que sua benevolência e bênção têm-nos acompanhado, ao passo que procuramos andar no caminho da integridade. (Sal. 26:1-3) Abençoou a María e a mim com filhos leais que têm continuado nos caminhos da verdade. Até hoje, somos uma família feliz e unida, com um forte laço de amizade. Nosso filho David foi mandado para a prisão em 1972 por causa de sua posição como cristão neutro. Essa foi sua primeira separação da família, e foi uma experiência angustiante para todos nós. Mas, compreendíamos o motivo, e fortaleceu-nos vê-lo manter sua integridade cristã durante os três anos de prisão. Quando foi solto, em 1976, teve o privilégio adicional de servir em Betel, a sede da Sociedade Torre de Vigia aqui em Barcelona. Casou-se mais tarde com uma cristã dedicada, que também serviu ali com ele por algum tempo. Recentemente, tivemos a feliz bênção de nos tornarmos os avós do primeiro filho deles, Jonatan.

      Em 1976, nossa filha, Isabel, começou a testemunhar como pioneira (proclamadora do Reino por tempo integral). Agora, ela acompanha o marido no serviço de circuito, visitando congregações aqui na Catalunha.

      No decorrer dos anos, Jeová nos sustentou através de muitas provas difíceis. E, na verdade, somos pessoas bem comuns, com as mesmas fraquezas de todos os humanos. Não obstante, nossas experiências como família nos ensinaram a nos estribar pacientemente em Jeová e esperar a execução da sua vontade. Estamos decididos a continuar sustentando a resolução de Davi, expressa no Salmo 26:11, 12: “Quanto a mim, andarei na minha integridade. Oh! redime-me e mostra-me favor. Meu próprio pé certamente ficará posto em lugar plano; bendirei a Jeová no meio das multidões congregadas.”

  • “Tal pai, tal filho” — não no caso de Asa!
    A Sentinela — 1981 | 1.° de julho
    • “Tal pai, tal filho” — não no caso de Asa!

      COMO é seu pai? Ou, se você for mulher, como é sua mãe?

      Um provérbio comum em português é: “Tal pai, tal filho.” A mesma idéia é transmitida no provérbio alemão: Der Apfel fällt nicht weit vom Stamm. (A maçã não cai longe do tronco.) Estes ditos se originam do fato de que os filhos geralmente possuem características

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