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O que lhes dá coragem?A Sentinela — 1981 | 15 de fevereiro
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sua relação pessoal, íntima, com Jeová por meio da oração. Além disso, compreendem que nada, que Jeová não permita, lhes acontecerá. — Veja Romanos 8:28.
Deriva-se verdadeiro consolo de saber que “Jeová não abandonará seu povo”. (Sal. 94:14) Meros homens não podem deter os propósitos de Deus ou eliminar os que o amam. Confiança nas promessas de Jeová, completa fé nele e manter uma relação pessoal, íntima, com o Altíssimo — estes são fatores básicos que dão coragem às pessoas piedosas. E esta coragem os sustém em tempos de muita adversidade e perseguição, como se evidencia na narrativa que segue.
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Sobrevivi à “marcha da morte”A Sentinela — 1981 | 15 de fevereiro
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Sobrevivi à “marcha da morte”
Conforme narrado por Louis Piéchota
MEUS pais chegaram ao norte da França junto com muitos outros mineiros poloneses, em 1922. Eram, como a maioria destes imigrantes, bons católicos. Entretanto, quando eu tinha cerca de 11 anos, meu pai e minha mãe se retiraram da Igreja Católica e se tornaram Testemunhas de Jeová, ou Zloty Wiek (“os da Idade de Ouro”), como os poloneses católicos os chamaram com desprezo. Isso ocorreu em 1928. Assim, tive a alegria de partilhar com outros as “boas novas”, delineadas nas Escrituras Sagradas, desde os dias da minha juventude.
Pouco antes do irrompimento da Segunda Guerra Mundial, provei pela primeira vez o serviço de pioneiro, ou pregação por tempo integral. Meus companheiros e eu — todos os cinco de origem polonesa — divulgamos a mensagem do Reino em pequenas cidades e povoados ao longo da costa da Normandia. Naquele tempo, usávamos fonógrafos e gravações de discursos bíblicos em francês.
Após o início das hostilidades, em 1939, e a febre da guerra começar a aumentar, pessoas hostis do povoado de Arques la Bataille denunciaram-nos à polícia. Os habitantes do povoado haviam tomado nossos fonógrafos por câmaras fotográficas. Uma vez que tínhamos sotaque estrangeiro, a polícia pensou que éramos espiões alemães, e assim nos prendeu e encarcerou na vizinha cidade portuária de Dieppe. Após 24 dias de detenção, desfilamos algemados uns aos outros pelas ruas e fomos levados ao edifício do tribunal. A multidão hostil queria lançar-nos na baía. Mas, o juiz compreendeu logo que éramos inocentes e nos absolveu.
SOB PROSCRIÇÃO
Logo depois de a obra das Testemunhas de Jeová ser proscrita, em outubro de 1939, foi novamente preso e sentenciado a seis meses, acusado de pregar ilegalmente o reino de Deus. De início, passei o tempo na solitária, na cadeia de Béthune, sem nada para ler. Várias semanas depois, quando pensei que enlouqueceria, o guarda da prisão me trouxe uma Bíblia. Como agradeci a Jeová! Memorizei centenas de versículos e diversos capítulos inteiros. Estas passagens foram para mim uma ajuda fortalecedora para os dias à frente. De fato, mesmo agora posso citar textos que decorei na cadeia de Béthune.
Em fevereiro de 1940, foi transferido de Béthune para o campo Le Vernet, no sul da França, onde as autoridades francesas internavam os estrangeiros supostamente “perigosos”.
Na primavera de 1941, certa comissão alemã veio ao campo e me requisitou. Enviaram-me de volta à minha cidade natal, na zona ocupada do norte da França, para trabalhar nas minas de carvão. Naturalmente, usei minha recém-encontrada liberdade para pregar as boas novas do reino de Deus. Mas, quando certa Testemunha novata foi presa e imprudentemente contou à polícia francesa que eu lhe fornecera literatura bíblica, fui novamente preso e sentenciado a 40 dias na cadeia de Béthune.
Após minha soltura, continuei a dar testemunho. Ao fazê-lo na cidadezinha mineira de Calonne-Ricouart, foi preso pela quarta vez e enviado de volta à cadeia de Béthune. Ali, alemães vieram prender-me, porque eu me recusara a trabalhar horas extras e domingos na mina de carvão para sustentar o esforço de guerra nazista.
PRISIONEIRO NA BÉLGICA, NA HOLANDA E NA ALEMANHA
Os alemães me transferiram para a penitenciária de Loos, perto de Lille, e, poucas semanas depois, para a prisão de Saint-Gilles, em Bruxelas, na Bélgica.
Depois disso, fiquei preso na cidadela de Huy, perto de Liège, na Bélgica, antes de ser finalmente enviado para o campo de concentração de S’Hertogenbosch ou Vught, nos Países-Baixos. Ali, tornei-me uma cifra — 7045 — e recebi uniforme do campo com o triângulo roxo que me identificava como Bibelforscher, ou Testemunha de Jeová. Fui designado para o Bloco 17-A.
Foi realmente difícil acostumar-me a marchar de pés desnudos, em tamancos holandeses. Meus pés ficaram esfolados devido a bolhas estouradas. Ao menor passo em falso, arriscava-me a ser chutado nos tornozelos por um guarda das SS. Logo a sola dos pés engrossou e pude marchar tão rapidamente quanto os demais.
Havia mais 15 Testemunhas nesse campo. Foi-nos oferecida libertação imediata, contanto que assinássemos um papel renunciando à nossa fé. Nenhum de nós sucumbiu.
Deste campo de concentração, nos Países-Baixos, fomos finalmente transferidos para a Alemanha. Levados como gado para dentro de pequenos vagões de carga, 80 em cada um, fomos forçados a ficar em pé três dias e três noites, sem alimento, água ou providências sanitárias. Finalmente, o trem chegou a Oranienburg, cerca de 30 quilômetros ao norte de Berlim. Tivemos então de marchar a passos acelerados por 10 quilômetros até as fábricas de aviões da Heinkel, com cães das SS mordendo nossos calcanhares caso diminuíssemos o passo. Nós, Testemunhas, conseguimos ficar juntos.
Pouco depois, fomos todos transferidos para o campo de concentração vizinho de Sachsenhausen. Ali, meu triângulo roxo foi acompanhado de novo número: 98827.
A VIDA EM SACHSENHAUSEN
Ao entrarmos em Sachsenhausen, percebi a completa ironia do lema que o chefe das SS, Himmler, ordenara que fosse exibido em enormes letras dentro do campo. Dizia: “Arbeit macht frei” (O trabalho liberta). Que hipocrisia! Naturalmente, tínhamos uma liberdade da qual os nazistas nunca souberam, a liberdade que a verdade cristã dá. (João 8:31, 32) Em
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