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  • Vazamento de óleo — isso jamais acontecerá aqui!
    Despertai! — 1989 | 22 de setembro
    • Vazamento de óleo — isso jamais acontecerá aqui!

      ‘UM VAZAMENTO DE ÓLEO no estreito de Príncipe William? Jamais. Isso jamais acontecerá! O estreito é bem largo e muito fundo. Não existem riscos à navegação.’

      Era isso que o povo foi levado a crer. Infelizmente, na sexta-feira, 24 de março, quatro minutos depois da meia-noite, o Exxon Valdez, um superpetroleiro que transportava 200.000 toneladas de petróleo bruto, desviou-se uns dois quilômetros de seu curso, bateu com o fundo em rochas do recife Bligh, e abriram-se enormes rombos em seu casco. Mais de 42.000 toneladas de óleo bruto se derramaram pelas águas não poluídas do panorâmico estreito de Príncipe William, pouco abaixo de Valdez, no Alasca.

      Quando aconteceu essa catástrofe, comandava o navio um terceiro oficial, não-autorizado, e a Guarda Costeira, que devia supostamente monitorar, pelo radar, o curso do Exxon Valdez, não conseguiu fazê-lo. E quando aconteceu o vazamento, tanto a “Alyeska Pipeline Service Company” como a “Exxon Corporation” não puderam seguir seu plano de contingência para controlar os vazamentos de óleo.

      Convocaram-se mergulhadores de águas profundas para inspecionar os danos causados ao encalhado Exxon Valdez. Um dos mergulhadores relata:

      “Ao irmos de barco até o petroleiro, vimos que o óleo já atingia vários centímetros de profundidade nas águas. Não conseguíamos sequer ver a água no rasto de nosso barco. Uma vez no superpetroleiro, a primeira preocupação que se teve foi com a segurança. Achava-se o navio em condições estáveis, ou viraria por cima de nós? Ele pousava sobre o recife Bligh, próximo duma ponta que mergulhava na água por centenas de metros de fundo. Se virasse com a maré-cheia, ele afundaria até bem no leito oceânico, talvez se rompendo e liberando o restante de seu óleo — 160.000 toneladas de óleo.

      “Inspecionamos quase todo metro quadrado do navio: o casco, o interior dos tanques, a armação. Enquanto isso, o óleo vazava com força. Ele não se misturava com a água, mas jorrava para a superfície. Quando entramos nos tanques, as bolhas de ar que provocávamos agitavam os bolsões de óleo, forçavam-no a sair, e isso borbulhava em nossas viseiras da máscara de mergulho. Nós não estávamos ali para fazer consertos, apenas para avaliar os danos.”

      A promessa da Alyeska era chegar ao vazamento com barreiras flutuantes de contenção e bombas de sucção do óleo, em questão de cinco horas. Nada foi feito durante dez horas, e muito pouco nos três dias seguintes. Haviam passado os três dias de calmaria, quando as barreiras e as bombas de sucção poderiam ter limitado os danos. Na segunda-feira, ventos de 110 quilômetros horários assolavam o estreito de Príncipe William e agitavam o óleo, transformando-o numa mistura espumante de óleo e de água chamada mousse.

      Todos começaram a lançar a culpa em outrem. As autoridades alasquenses, os moradores de Valdez, e a Guarda Costeira, culpavam tanto a Alyeska como a Exxon de procrastinação e de terem deixado passar os três primeiros dias de tempo bom. Alguns culpavam a Guarda Costeira pela redução dos custos, o que fez com que “ela substituísse seu radar em Valdez por uma unidade menos potente que deixou de avisar o malfadado petroleiro de que ele estava indo em direção ao recife”. A Exxon lançou a culpa no estado e na Guarda Costeira por negarem permissão de usar dispersantes para dissolver a mancha de óleo.

      Em dois meses, a mancha de óleo já havia percorrido 800 quilômetros a partir do recife Bligh, diluindo-se por cerca de 1.600 quilômetros da faixa litorânea, e recoberto 2.600 quilômetros quadrados de lindas águas do estreito de Príncipe William. Não parou até passar o Parque Nacional dos Fiordes Kenai, rodear a ponta da península Kenai, e dar a volta para a enseada de Cook. Também avançou mais para o sul, para poluir o Parque Nacional Katmai e a ilha de Kodiak.

      Foram contratadas milhares de pessoas para limpar as praias sujas. Entrevistou-se um senhor que trabalhava na limpeza, e ele descreveu os métodos usados, e os resultados obtidos:

      “Os trabalhadores começam às 4:30 da manhã e trabalham até às 10 horas da noite, com mangueiras de alta pressão, alguns utilizando água do mar, fria, e alguns usando vapor quente, misturado com água do mar. Estes fortes jatos são dirigidos às praias cascalhadas, empurrando a água para o subsolo. O óleo, que se acha de meio a um metro abaixo, vem para a superfície. Daí, a água das mangueiras empurra o óleo para o oceano, onde ele é retido pelas barreiras flutuantes até virem as bombas de sucção, e o sugarem. Elas sugam cerca de 30.000 a 60.000 litros por dia, de uma seção da praia com 200 metros de largura.

      “Por um período de duas semanas, eles fazem isso, vez após vez, sugando cada vez a mesma quantidade de óleo. Daí, eles fazem com que pessoas, com panos absorventes, sentem-se na praia e limpem cada rocha individualmente. A praia parece limpa, mas se você enfiar a mão entre as rochas e na areia por uns 10 centímetros, a sua mão volta coberta desta substância pegajosa e negra. Isto depois de duas semanas de limpeza. Retorne três dias depois, e de uns 8 a 16 centímetros de óleo retornou. A maré seguinte o devolverá ao mar.”

      Em vão? Talvez, mas esse trabalho é bem pago. Um trabalhador ganha US$ 250 por dia e afirma: “Calculo que ganharei uns US$ 10.000 com isso, facilmente.” Outro trabalhador ganhou cerca de US$ 2.000 por uma semana de sete dias de trabalho, de 12 horas por dia. “Nós limpamos duas praias hoje”, disse ele, “mas, com a vinda da maré, estou seguro de que amanhã estas praias estarão do mesmo jeito”. Algumas áreas de praias no estreito de Príncipe William estão soterradas por um metro de sujeira oleosa.

      Uma vez que o Exxon Valdez apresentou buracos no casco e deixou vazar 42.000 toneladas de óleo no estreito de Príncipe William, o que teria ajudado a enfrentar tal desastre? A pronta ação, com barreiras flutuantes e bombas de sucção nos primeiros três dias, quando o mar estava calmo, poderia ter contido o vazamento o suficiente para mantê-lo no estreito, não permitindo que entrasse no golfo do Alasca.

      Teria sido útil o uso de dispersantes? Parece que não. Os dispersantes não funcionam em águas tranqüilas, o mar precisa estar agitado para misturá-los e distribuir as substâncias químicas, de modo que possam operar. Elas teriam sido inúteis nos primeiros três dias de calmaria, e, no quarto dia, quando poderiam ter ajudado, nas águas de mar agitado, os ventos tempestuosos mantiveram em terra os aviões necessários para espalhar tais substâncias químicas. De qualquer forma, seu emprego é controversial. Um artigo no Anchorage Daily News explica:

      “Os dispersantes funcionam dum modo bem parecido a detergentes. Quando aspergidos sobre a superfície duma mancha de óleo, e agitados pelo mar, os dispersantes rompem o óleo em partículas cada vez menores e as fazem espalhar-se pela água. Os ambientalistas não apreciam os dispersantes porque, dizem eles, as substâncias químicas simplesmente espalham o óleo por toda camada de água, representando uma ameaça para formas de vida, desde as da superfície até as do leito oceânico.” Mesmo assim, substâncias químicas dispersantes são menos eficazes na água fria, “dificilmente funcionam no óleo bruto da baía de Prudhoe”, e “são quase que inúteis mais de um dia depois de o óleo ter sido derramado”.

      Ademais, os próprios dispersantes são tóxicos. Faz-se a afirmação de que os utilizados no gigantesco vazamento do superpetroleiro Torrey Canyon, ao largo da costa da França, em 1967, provocaram maior toxidez que o óleo. “Extinguiu-se tanto a vida vegetal como a animal.”

      Pete Wuerpel, diretor das comunicações de emergência do Alasca, confirma aquilo que já tinha sido declarado pelo supracitado trabalhador de praia: “O óleo não fica parado. Não se dispersa. Mesmo o óleo agora existente em algumas das praias será levado pelas ondas e pelas marés para outras praias. É um desastre contínuo. Limpar as praias é um empreendimento que nos deixa atônitos, quando consideramos a profundeza em que o óleo já penetrou. Pode-se limpar a superfície, mas as ondas e as marés farão com que o óleo se filtre de novo até o topo. Até que ponto se precisa chegar para reconhecer a ineficácia dos esforços humanos?”

      Wuerpel conclui que a tecnologia do homem não pode ainda enfrentar maciços vazamentos de óleo. Ele diz que, neste ponto, tal tarefa precisa ser deixada para a natureza. Outros concordam. A bióloga marinha Karen Coburn declarou: “O fato é que nós não temos a habilidade de recuperar mais de cerca de 10 por cento do óleo dum grande vazamento, mesmo sob a melhor das circunstâncias.” Um relato diz: “A natureza poderia levar uma década, talvez até mais, para remover das águas do primevo estreito de Príncipe William os últimos vestígios do maior vazamento de óleo da América do Norte”, isto segundo cientistas que estudam os vazamentos de óleo.

      Duas semanas depois do acidente, uma manchete do Anchorage Daily News dizia: “Perdeu-se a Batalha Para Limpar o Vazamento de Óleo. Equipes Obtêm Pequenas Vitórias, mas Peritos Afirmam que a Recuperação do Estreito Depende da Natureza.” Prosseguia: “O pessoal da Administração Nacional Oceanográfica e Atmosférica tem sempre dito que não se pode vencer tal guerra.” Eles têm monitorado cada um dos grandes vazamentos de óleo da última década, inclusive o vazamento de 250.000 toneladas do superpetroleiro Amoco Cadiz, ocorrido ao largo da costa francesa, em 1978. Seu veredicto é: “Em nenhum deles os humanos chegaram sequer perto de eliminar o óleo.”

  • Vazamento de óleo — o que fez aos animais
    Despertai! — 1989 | 22 de setembro
    • Vazamento de óleo — o que fez aos animais

      O TRIBUTO que a vida selvagem pagou pelo vazamento de óleo, em seus primeiros meses, foi trágico. Um despacho noticioso especial do Alasca para The New York Times declarava: “As baixas são evidentes nas ilhas próximas de Valdez, onde milhares de focas estão dando agora à luz filhotes em praias contaminadas, até as longínquas paragens do Parque Nacional Katmai, na península do Alasca, a 500 quilômetros a sudoeste daqui, onde águias-de-cabeça-branca, ursos-pardos e leões-marinhos lutam contra um habitat tóxico. O tributo ecológico do vazamento até agora inclui mais de 20.000 aves de 30 espécies, 700 lontras do Pacífico e 20 águias-de-cabeça-branca.” Os totais reais podem ser cinco vezes maiores, segundo os biólogos que fazem o cômputo geral. A maioria das vítimas jamais são encontradas.

      No Parque Nacional Katmai acha-se a maior concentração de ursos-pardos do mundo. As autoridades se preocupam com estes enormes animais, alguns atingindo os 3 metros de altura, e pesando 540 quilos. Eles têm rondado as praias, comendo aves e peixes untados de petróleo. “O que acontecerá com estes animais quando o óleo penetrar em sua cadeia alimentar?”, perguntam-se as autoridades. Estão morrendo águias que se alimentam dos peixes e aves mortos. As autoridades esperam mortes entre os ursos, “à medida que o óleo tóxico se acumular em seu organismo”.

      Similares preocupações são sentidas no Parque Nacional dos Fiordes Kenai, onde o óleo já atingiu 90 por cento de sua costa leste, de 390 quilômetros de extensão. Disse um biólogo do estado, ali lotado: “Agora mesmo, ainda encontro lontras-marinhas mortas na praia. As águias-de-cabeça-branca se alimentam delas, de modo que também estou encontrando águias-de-cabeça-branca. Aqui estou eu, um cientista que possui um Ph.D. [doutorado em filosofia], e, quando observo estas aves besuntadas de petróleo tentando alçar vôo, começo a chorar.”

      Centenas de outros talvez chorem, e milhares talvez sintam vontade de chorar. Pessoas preocupadas empenham-se em remover o óleo das aves e das lontras, muitas das quais acabam morrendo mesmo. Para aqueles que se preocupam com a preservação da vida selvagem, isso é um trabalho de cortar o coração.

      Calculou-se que o total de lontras-marinhas existentes no estreito de Príncipe William estava entre 10.000 e 15.000. Um biólogo receava que elas enfrentavam a extinção total. Outro concordava que elas “serão totalmente extintas”. Tais cálculos talvez se tenham provado pessimistas demais; já bastariam outros cálculos de perda de um terço. Em certos lugares que não foram atingidos pelo óleo, as lontras são abundantes; nas áreas poluídas pelo óleo, poucas são vistas. A verdade é que ninguém sabe quantos milhares delas pereceram. Quando as lontras-marinhas morrem num vazamento de óleo, elas afundam. Não é possível fazer uma contagem, apenas estimativas, baseadas em alguns exemplares vistos.

      A maioria fica comovida com a morte de milhares de aves e animais nos vazamentos de óleo, mas raramente as pessoas pensam nas diminutas e microscópicas vítimas que atingem os milhões, até mesmo quadrilhões. Elas também são importantes, e não são esquecidas por seu Criador. “Quantos são os teus trabalhos, ó Jeová! A todos eles fizeste em sabedoria. A terra está cheia das tuas produções. Quanto a este mar, tão grande e largo, há ali inúmeras coisas que se movem, criaturas viventes, tanto pequenas como grandes.” — Salmo 104:24, 25.

      A vaza oleosa dispersa na água com o tempo afunda. Ali, envenena microorganismos, os zooplânctons, que são o começo da cadeia alimentar de uma rica variedade de vida selvagem. Assim sendo, as substâncias químicas tóxicas ascendem a escada da vida, chegando por fim ao próprio homem.

      O homem não está acima de tudo. Ele é uma parte do todo, e tem uma responsabilidade para com o todo. É uma responsabilidade que lhe foi confiada por Deus, seu Criador. “Estou designando-o responsável pelos peixes, pelas aves, e por todos os animais selvagens”, disse Jeová ao primeiro homem. O homem foi feito à imagem de Deus, tendo os atributos de Deus — sabedoria, poder, justiça e amor. Tais qualidades o equipavam a exercer amoroso domínio sobre a Terra e suas plantas e animais. A Terra e sua plenitude foram colocadas sob sua responsabilidade, não para serem exploradas e devastadas, mas para serem cuidadas e preservadas. (Gênesis 1:26-28; 2:15, Today’s English Version) Jeová Deus se importa com sua criação. Será que nós nos importamos? Deveríamos, pois ele declara que vai “arruinar os que arruínam a terra”. — Revelação (Apocalipse) 11:18.

      [Quadro/Foto na página 10]

      Preocupação de Deus com os Animais

      Deus se preocupa:

      “Pardais. . . nem mesmo um deles cairá ao chão sem o conhecimento de vosso Pai.” — Mateus 10:29.

      Ele exige consideração para com eles:

      Por ‘seis dias deves fazer teu trabalho, mas no sétimo deves desistir, para que teu touro e teu jumento descansem’. — Êxodo 23:12.

      “Não deves açaimar o touro quando debulha.” — Deuteronômio 25:4.

      “Não deves arar com junta de touro e de jumento.” — Deuteronômio 22:10.

      “Se vires o jumento de alguém que te odeia deitado sob a sua carga,. . . sem falta deves conseguir soltá-lo.” — Êxodo 23:5.

      “Quem de vós, quando o seu. . . touro cai num poço, não o puxa imediatamente para fora, no dia de sábado?” — Lucas 14:5.

      Ele faz provisões para a sobrevivência das espécies:

      “Caso haja um ninho de pássaro diante de ti no caminho . . . não deves tomar a mãe junto com a ninhada.” — Deuteronômio 22:6.

      Ele provê alimento:

      “O sábado da terra tem de servir-vos de alimento,. . . e para o animal selvático que há na tua terra.” — Levítico 25:6, 7.

      “Abres a tua mão — eles se fartam com coisas boas.” — Salmo 104:28.

      “Observai atentamente as aves do céu,. . . vosso Pai celestial as alimenta.” — Mateus 6:26.

      Ele provê a sabedoria necessária para a sobrevivência:

      “São instintivamente sábias:. . . Preparam seu alimento no verão.” — Provérbios 30:24, 25.

      Ele exige que se mostre o devido respeito:

      “Não deves cozinhar o cabritinho no leite de sua mãe.” — Êxodo 23:19.

      [Crédito]

      Foto do Anchorage Times/Al Grillo

      [Fotos nas páginas 8, 9]

      Extrema esquerda: Filhote de foca vulgar, de três dias.

      Esquerda: Mergulhão-do-norte de bico amarelo.

      [Crédito]

      Foto do Anchorage Times/Al Grillo

      Embaixo: Leões-marinhos.

      Estreito de Príncipe William.

  • Vazamento de óleo — o que fez às pessoas
    Despertai! — 1989 | 22 de setembro
    • Vazamento de óleo — o que fez às pessoas

      VALDEZ presenciou uma explosão populacional desde o vazamento de óleo, em 24 de março de 1989. A cidadezinha passou de 2.800 para mais de 10.000 habitantes. A Exxon contratou milhares, pagando altos salários, para minimizar os danos ao meio ambiente causados pelo vazamento de óleo. O influxo de milhares de pessoas causa distúrbios sociais e econômicos que não são facilmente absorvidos pelos moradores permanentes nesta cidadezinha antes tranqüila.

      Pete Wuerpel, diretor das comunicações de emergência do Alasca, sublinha algumas das mudanças trazidas pela tremenda enchente de pessoas que procuram os empregos que pagam muito bem. Numa entrevista, Wuerpel disse:

      “A longo prazo, o impacto sobre Valdez poderá ser mais grave do que se possa calcular agora. A tremenda onda de pessoas que chegaram a Valdez sobrecarregou seus serviços públicos. Nas sete semanas depois do vazamento, a companhia telefônica passou de 60 troncos para mais de 170. Os esgotos, a energia elétrica, o porto só para barcos pequenos, a lixeira da cidade, o sistema rodoviário municipal — nada disso foi feito para suportar a demanda atual. Em abril, o trânsito passou de 3.000 para 9.600 veículos. O volume de movimento no aeroporto, normalmente de 20 vôos diários, atingiu um auge de 680. O impacto é absolutamente inacreditável em termos da capacidade da cidadezinha de suportá-lo.

      “A crise provocada pela explosão populacional foi eclipsada pela ênfase ao vazamento de óleo e à poluição das praias, às aves e lontras-marinhas mortas, aos viveiros ameaçados e à perda dos moluscos. Houve um desarranjo da economia, a escala de salários ficou desequilibrada, as lojas procuram obter empregados confiáveis. Os preços crescentes pesam no bolso dos que recebem salários fixos.

      “Nada disso é dito para rebaixar as calamidades do vazamento de óleo, mas para pôr em melhor perspectiva a tragédia total e o efeito que ela tem tido sobre as pessoas. Na minha opinião, a perturbação que isto causou à vida dos moradores de Valdez tem sido eclipsada pela publicidade mais dramática que se dá à destruição de milhares de aves e de animais.”

      Entrevistaram-se algumas pessoas que já moram em Valdez há muito tempo. Como é que a explosão populacional em sua cidadezinha as atinge?

      Um funcionário da companhia telefônica expressou seus conceitos, como segue:

      “Já faz agora dois meses desde o vazamento, e em Valdez prevalece o caos total. Milhares de pessoas ainda estão afluindo para obter empregos de altos salários. Todo tipo de pessoas. Algumas são foragidas da lei, e elas são apanhadas. Prostitutas chegam para praticar seu comércio. A cidade não é mais das crianças. Os pais as observam atentamente, e com certeza deviam fazê-lo. Alguns filhos são negligenciados, ambos os genitores trabalhando longas horas para a Exxon. A mania do dinheiro infectou a muitos.

      “Os preços subiram vertiginosamente. Dobram da noite para o dia, e, numa semana, dobram de novo. Tem uma casa para alugar? Poderá conseguir US$ 500 por noite. Alguns quartos rendem quase tanto. Poderá até alugar espaço para colocar um sofá. As casas são alugadas por US$ 5.000 ou US$ 6.000 por mês — uma notícia dizia que uma casa fora alugada por US$ 13.000. Carros têm sido alugados por US$ 250 por dia.

      “Os salários pagos pela Exxon tornaram-se astronômicos. As demais empresas não podem competir com isso. Os empregados delas se demitem para trabalhar para a Exxon. Os novos trabalhadores ficam por algum tempo, então eles também vão trabalhar no vazamento. É duro para os restaurantes. Eles ficam abertos 24 horas por dia, servem a milhares de pessoas, e alguns tiveram de mudar sua equipe de trabalho quatro ou cinco vezes nos últimos dois meses — eles os perdem para os salários horários inflados da Exxon. A metade dos funcionários do hospital pediram demissão.”

      A atração de todo esse dinheiro — é muito compreensível a tentação no caso de alguém com pouco dinheiro e com muitas contas a pagar! Quão fácil é raciocinar: ‘Bem, posso trabalhar no domingo, e ganhar de US$ 30 a US$ 50 por hora, trabalhar 12 horas, e ganhar em dobro, por ser domingo. Posso acabar de pagar meu carro, liquidar todas as minhas contas!’ Mas você estará deixando de lado sua família, e os valores espirituais podem ir por água abaixo. ‘Mas só irei fazer isso por pouco tempo, temporariamente, para conseguir me equilibrar!’, diz para si mesmo. Talvez sim, talvez não.

      Mais sinistras são algumas das emoções suscitadas pelas frustrações. Uma pessoa disse:

      “Muitos centralizam sua raiva na Exxon, e afloram extremos radicais de comportamento. Há uma perturbação no sistema de valores, uma distorção dele. Têm-se pessoas que, devido à sua frustração e à sua ira, gravitam em direção a uma conduta que, normalmente, elas desprezariam. Estão iradas com aquilo que o vazamento de óleo fez ao lindo estreito de Príncipe William, e a milhares de aves, lontras, focas e outros tipos de vida selvagem, que há muito constituem seu motivo de orgulho.

      “Tal ira levou alguns a fazer com que os carros da Alyeska saíssem da estrada. Têm surgido ameaças de bombas. Até mesmo ameaças de morte têm sido feitas em Valdez contra o presidente da Exxon. Foram contratados centenas de policiais extras.”

      Um professor substituto diz:

      “Muitas crianças têm-se aprontado sozinhas para a escola. Conheço uma menininha de cinco anos, que está no jardim de infância, que pula da cama sozinha, de manhã, porque sua mamãe e seu papai já saíram há muitas horas para trabalhar no combate ao vazamento do óleo. Ela prepara seu desjejum, vai para a escola, volta para casa, janta, e fica sozinha até que seus pais voltem, às nove ou dez horas da noite. O que isso lhe está causando, o que está dizendo a ela? O dinheiro cegou a alguns pais, e os filhos deles estão sofrendo. As crianças em idade escolar acham-se estressadas demais para aprender. Os professores não as forçam, mas lêem historinhas para elas, ou as deixam ficar brincando.”

      Uma dona-de-casa só encontra rudeza e ira:

      “A superlotação aumenta o stress e a frustração, que abrem caminho para a ira e para acessos de irritação. Quando os estoques eram limitados, algumas mulheres que compravam comestíveis tiveram de deixar que outras ficassem com seu pão ou leite. Nos restaurantes, os que chegavam depois avançavam na frente de outros e tomavam mesas que outros estavam esperando uma hora para ocupar.”

      Um senhor expressa suas preocupações sobre o que está acontecendo com as pessoas:

      “O impacto sobre a área tem sido muito grave, no sentido de que a população quase que triplicou. Passamos de uma cidadezinha de cerca de 2.800 pessoas para mais de 9.000 pessoas. Existe o problema de obter mercadorias, e até de apenas se movimentar pela cidade. O trânsito nesta cidadezinha tem ficado congestionado, o que torna a simples locomoção uma fonte de frustração e de stress.

      “As oportunidades de emprego mudaram dramaticamente. Ofertas de emprego que pagam de US$ 20 a US$ 50 por hora tornaram difícil manter um equilíbrio em suas prioridades. É desafiador impedir que o materialismo sobrepuje as responsabilidades familiares e os valores espirituais. Eu e minha esposa também temos recebido muitos telefonemas de amigos, de lugares tão distantes quanto os estados de Flórida e Nova Iorque, e até do Texas e de Oregon. Eles telefonam para saber quais as oportunidades de trabalho aqui.

      “Sabemos que a economia está em dificuldades em toda a parte, atualmente, mas temos recomendado que eles não venham para cá. Eles são Testemunhas de Jeová, assim como nós, e tentamos manter acima de tudo as nossas prioridades espirituais, assistindo às reuniões e conversando com outros sobre o Reino de Deus. Achamos que isso é melhor também para eles, e não é fácil fazer isso sob as atuais condições estressantes em Valdez. O materialismo sufoca a espiritualidade, e ele grassa por aqui.

      “Quão verídicas são as palavras da Bíblia, em 1 Timóteo 6:10: ‘O amor ao dinheiro é raiz de toda sorte de coisas prejudiciais, e alguns, por procurarem alcançar este amor, foram desviados da fé e se traspassaram todo com muitas dores.’”

      Estas entrevistas foram realizadas dois meses depois do vazamento de óleo. Predisse-se que, por volta da presente época, o trabalho de limpeza do meio ambiente já teria terminado — 15 de setembro era a data projetada. Quando se concluir o trabalho de limpeza do vazamento de óleo, e quando acabarem os milhares de empregos e secar o dilúvio de dólares, os que moram ali há muito tempo e que mantiveram intatos os seus valores espirituais farão os ajustes necessários.

      Mas talvez leve anos até que Valdez venha, de novo, a ser a cidadezinha pacata que era antes.

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