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Preconceito — um problema de todosDespertai! — 1985 | 22 de maio
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Preconceito — um problema de todos
“POR que não vem até aqui amanhã?”, perguntou a prospectiva patroa. “Estou certa de poder arranjar-lhe um serviço.” Ivone pôs o fone no gancho, confiante de que tal emprego era dela. Trabalhar num escritório seria ótima mudança de ritmo para ela, deixando de ser uma empregada doméstica como era desde que abandonara a faculdade.
No dia seguinte, ao chegar ao seu novo emprego, Ivone procurou a senhora com quem falara ao telefone e se apresentou. Mas, quando a senhora ouviu de novo o “esquisito” nome de família de Ivone, desta feita relacionando-o com suas óbvias feições orientais, ficou boquiaberta. “Ela nervosamente começou a usar de rodeios” — relembra Ivone — “e por fim me disse que não havia nenhuma vaga”. Mas Ivone sabia por que teria de voltar a folhear os anúncios de “precisa-se”: o preconceito racial.
É um Problema de Quem?
Falar sobre preconceito deixa compreensivelmente a maioria de nós um pouco desconfortável. Poucos tópicos são tão controversiais — ou emocionais. Sem embargo, não pode ser posto de lado ou se dar de ombros como se fosse um problema dos outros. Os bias infetam quase toda esfera dos relacionamentos humanos. Mitos milenares da superioridade masculina condenam muitas mulheres a salários baixos e mínimas oportunidades de trabalho. Diferenças religiosas acirram a violência na Irlanda. Os canadenses de língua francesa colidem com seus concidadãos de língua inglesa. Na Índia, embora o sistema de castas esteja proscrito, os hindus de casta se recusam a andar do mesmo lado da rua que os “Intocáveis”. Os níveis sociais europeus, baseados na riqueza e no prestígio tradicional, colocam as classes superiores contra as pessoas comuns. Mesmo em países como o Brasil, onde pretos e brancos se misturam livremente, há observadores que relatam uma corrente oculta de hostilidade racial.
Exacerbado orgulho cultural ergue barreiras até entre membros da mesma raça, conforme ilustrado pela experiência de Kalu e Dupe. Embora ambos fossem nigerianos, a mãe de Dupe (da tribo ioruba) proibiu-a de casar-se com alguém da tribo igbo. O pai de Kalu rejeitava igualmente a Dupe, dizendo: “Se se casar com uma moça ioruba, não se considere mais meu filho.”
Por conseguinte, o preconceito é mais do que uma questão de raça ou do que um conflito de preto contra branco. Trata-se duma reação aparentemente universal a diferentes línguas, culturas e níveis sociais. E, quer irrompa em violência, quer fique “cozinhando” quase ao ponto de estourar, o preconceito pode ter dolorosas conseqüências: pobreza, fustigamento, e perda da dignidade humana para suas vítimas, e dores de culpa e uma consciência afligida para a maioria dos preconceituosos. Onde existe preconceito, existe também um clima de medo, de incerteza e de ansiedade. Áreas inteiras são declaradas proibidas devido à tensão racial. A desconfiança e incompreensão desnecessárias envenenam amizades em potencial.
O preconceito, portanto, verdadeiramente é “um problema de todos”. Mas, de onde provém o preconceito? Por que falharam os melhores esforços do homem para erradicá-lo? A fim de penetrar mais a fundo nestas questões, focalizemos nossa atenção numa forma ampla de preconceito: o preconceito racial.
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Como opera o preconceitoDespertai! — 1985 | 22 de maio
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Como opera o preconceito
Um pesquisador perguntou a um senhor qual era a opinião dele sobre certo grupo étnico. “Eles são temperamentais e se irritam facilmente”, respondeu ele. “Isso está no sangue.”
“Chegou a conhecer algum deles . . . pessoalmente?”, indagou o pesquisador.
‘Sim, um. Era o presidente da turma, no ginásio.’
‘Será que este “presidente da turma” se enquadrava na imagem que fazia deles?’
“Não”, admitiu, “ele era calmo e agradável”.
‘Então, “ser temperamental e irritar-se facilmente” não poderiam estar “no sangue dele”, poderiam?’
Depois de certa pausa, o senhor respondeu: “Ele era uma exceção à regra.”
TER preconceito (“prejulgar”) é julgar outros sem lhes conceder o benefício de um julgamento justo. Alguém inteiramente estranho é assim sumariamente declarado “preguiçoso”, “mal-intencionado” ou “perigoso” sem qualquer evidência, apenas por uma idéia preconcebida. Isto acontece porque a pessoa que tem prevenção não vê indivíduos, e sim grupos. Para ela, os membros de certo grupo étnico são “todos iguais”, clones, sem nenhuma individualidade. E, como no exemplo acima, o preconceituoso não raro defenderá seus bias até um amargo fim, mesmo quando os fatos demonstram que ele está errado. Como observou a revista Psychology Today (Psicologia Atual), os preconceituosos “tendem a observar e lembrar-se dos modos em que [uma] pessoa parece enquadrar-se no estereótipo, ao passo que resistem à evidência que contradiz o estereótipo”.
O preconceito alimenta a si mesmo. As pessoas colocadas num molde desfavorável perdem, com tanta freqüência, seu amor-próprio que realmente vivem de acordo com o pouco que se espera delas. Ou o resultado é aquilo que a Bíblia diz, em Eclesiastes 7:7: “Pois a mera opressão pode fazer o sábio agir como doido.” As vítimas da opressão podem ser consumidas pelo ressentimento. Podem tornar-se tão sensíveis às prevenções que, às vezes, sua reação é exagerada, e vêem preconceito até onde ele realmente não existe. Qualquer pessoa de outra raça é encarada, ou com indevida suspeição, ou como inimigo em potencial. O preconceito, portanto, não é monopólio de nenhuma raça ou nacionalidade.
Uma vez o preconceito se arraígue no modo de pensar duma pessoa, ela pode verificar que passa a desgostar quase que de todos os grupos étnicos. Pediu-se certa vez que alguns universitários expressassem seus sentimentos sobre 32 nações e raças reais, além de 3 grupos fictícios (“danierenses”, “pirineenses” e “wallonianos”). Estranho como pareça, os estudantes preconceituosos contra os grupos étnicos reais achavam igualmente repulsivos os “danierenses”, “pirineenses” e “wallonianos”.
Preconceito — Como Se Manifesta?
Uma pessoa preconcebida não é necessariamente hostil. Nem é, necessariamente, como o senhor que declara, de modo hipócrita, que ‘alguns de seus melhores amigos’ eram deste ou daquele grupo, mas que sentia repulsa diante da idéia de ter tais pessoas como vizinhos — ou como parentes, mesmo que por afinidade. Há vários graus de prevenção. O indivíduo preconceituoso pode deveras ter amigos de outra raça, mas revelar, de forma muito sutil, sentimentos persistentes de superioridade. Talvez prove a paciência deles por tecer comentários de mau gosto, de conotações raciais. Ou, em vez de tratá-los como a iguais, talvez assuma um ar de condescendência, agindo como se, por fazer deles seus amigos, estivesse fazendo-lhes um favor.
Outra forma de alguém demonstrar preconceito é exigir de certas pessoas um padrão mais elevado de consecução, embora lhes preste menor reconhecimento. E, se tais pessoas falham, talvez esteja inclinado a atribuir a falha a motivos raciais. Ou talvez condene, em certa raça, uma conduta que tolera na sua própria raça. Todavia, tal pessoa ficaria tremendamente ressentida diante de qualquer sugestão de que ela tem preconceito, tão completo é o engano de si mesma. Como disse certa vez o salmista: “Porque agiu de modo demasiadamente macio para consigo mesmo aos seus próprios olhos para descobrir seu erro, de modo a odiá-lo.” — Salmo 36:2.
“Quando Chegam aos Quatro Anos”
Por que, porém, as pessoas se tornam preconceituosas? Quão cedo na vida se adquire o preconceito? Em sua obra clássica, intitulada The Nature of Prejudice (A Natureza do Preconceito), o psicólogo social Gordon W. Allport observou a tendência da mente humana de “pensar com o auxílio de categorias”. Isto se evidencia até nas criancinhas. Logo aprendem a diferençar os homens das mulheres, os cães dos gatos, as árvores das flores — e até o “preto” do “branco”. Contrário à noção de que as criancinhas são “imunes à cor”, os pesquisadores concordam que as crianças pequeninas expostas a uma variedade de raças logo começarão a observar “as diferenças nos atributos físicos, tais como a cor da pele, as feições do rosto, os tipos de cabelo, etc. As crianças . . . geralmente atingem plena consciência dos grupos raciais quando chegam aos quatro anos.” — Revista Parents (Pais), julho de 1981.
Mas, será que simplesmente observar tais diferenças torna preconcebidas as crianças? Não necessariamente. Recente estudo comunicado em Child Development (Desenvolvimento Infantil), porém, afirmava que “crianças de 5 anos chegam ao jardim de infância sentindo nítidas preferências para interagir com coleguinhas da mesma cor”. Ainda mais perturbadora foi a observação de que “a tendência das crianças de selecionar companheiros de folguedos da mesma cor aumenta no ano do jardim de infância”. (O grifo é nosso.) Outros pesquisadores concluíram similarmente que as criancinhas amiúde se dão conta não só da raça, mas também das implicações raciais. Uma menininha de quatro anos, chamada Joana, certa vez fez esta declaração de gelar a espinha: “A gente branca pode subir. Os pretinhos têm que descer.”
Os pesquisadores ficam intrigados como é que as crianças desenvolvem tais bias. Suspeita-se fortemente, porém, da influência dos pais da criança. Na verdade, poucos pais talvez mandem diretamente que seus filhos não brinquem com crianças de outra raça. Todavia, se a criança nota que seus pais têm prevenção para com alguém de outra raça, ou não se sentem à vontade com ele, ela poderia similarmente assumir atitudes negativas. As diferenças culturais, a influência dos coleguinhas e dos veículos informativos, e outros fatores, podem então combinar-se para reforçar tal preconceito.
Experiências Ruins
No caso de alguns, porém, o preconceito parece ser uma reação exagerada diante de uma experiência ruim. Certa jovem alemã acompanhou o marido num projeto de trabalho na África. Ali, ela teve problemas. Achou que algumas das pessoas tinham preconceito contra ela, não só por ser mulher, mas também por ser européia. As atitudes de alguns também chocaram suas sensibilidades de formação européia. Repisar na mente os problemas causados por alguns resultou em ela passar a não gostar de todas as pessoas de cor!
O mesmo se deu com um estudante das Índias Ocidentais que morava nos Estados Unidos há uns 20 anos. Embora se vestisse bem e fosse cortês, recusaram-se a servi-lo num restaurante, dizendo-lhe: “Aqui não servimos gente como você.” Nunca tendo provado antes a discriminação racial, e não estando cônscio das tensões raciais então existentes, tentou exigir ser servido — o que resultou em ser imediatamente preso! Embora o prefeito da cidade mandasse soltá-lo, e censurasse a polícia, este incidente o deixou amargurado. Anos depois, ainda nutria animosidade contra os brancos.
Em outros casos, conforme indicado em The Nature of Prejudice, rebaixar os outros parece gratificar a insaciável fome do homem por status. É ‘pensar mais de si mesmo do que é necessário’. (Romanos 12:3) Mitos sobre superioridade racial podem também ser cultivados, de modo a “justificar” a opressão contra certo grupo. À guisa de exemplo, durante os anos de tráfico de escravos, de triste memória, nos Estados Unidos, bem como no Brasil, era popular serem os negros declarados mentalmente inferiores, ou subumanos. Estas crenças eram tão comuns que até mesmo o presidente norte-americano, Thomas Jefferson, acerbo críticoa da escravidão, certa vez expressou “suspeita” de que “os negros . . . são inferiores aos brancos nos dotes tanto mentais como físicos”. Embora a ciência tenha provado que tais idéias não têm substância, ainda assim prevalece o racismo.
Por quê? O motivo mais fundamental é indicado com precisão na Bíblia, embora seja despercebido pelos pesquisadores: “É por isso que, assim como por intermédio de um só homem entrou o pecado no mundo, e a morte por intermédio do pecado, e assim a morte se espalhou a todos os homens, porque todos tinham pecado.” (Romanos 5:12) O pecado herdado distorceu o modo de pensar do homem, e seus conceitos sobre as coisas. Em vez de ficar intrigado ou deleitar-se com as diferenças, o homem reage com medo e insegurança. E mesmo do coraçãozinho imperfeito duma criança podem emanar espantosa série de “raciocínios iníquos” que se convertem em destrutivos preconceitos. (Mateus 15:19) É possível, então, vencer-se o preconceito?
[Nota(s) de rodapé]
a Jefferson foi o autor da Declaração de Independência americana, que declarava que “todos os homens são criados iguais”. Certa vez chamou a escravidão de “um aglomerado de horrores”, mas, ele mesmo era senhor de escravos.
[Destaque na página 14]
Repisar na mente os problemas causados por alguns resultou em ela passar a não gostar de todas as pessoas de outra cor!
[Foto na página 13]
O preconceito pode mover as pessoas a suspeitar umas das outras.
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Pode-se vencer o preconceito!Despertai! — 1985 | 22 de maio
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Pode-se vencer o preconceito!
OS PRECONCEITOS, segundo o sociólogo Frederick Samuels, “tornam-se parte básica da estrutura da personalidade do indivíduo . . . Envolvem seu respeito próprio, a imagem que forma de si mesmo . . . Seria tão difícil abandonar certas atitudes e imagens grupais como seria despojar-se de um braço ou uma perna”.
Muitos, porém, imaginam que, se fosse possível fazer que as raças trabalhassem juntas e se conhecessem, o preconceito de alguma forma desapareceria. Infelizmente isto funciona mais em teoria do que na prática. Às vezes, a integração se vira contra si e amplia as hostilidades raciais. Por outro lado, considere uma escola integrada na parte sul dos Estados Unidos. Ali, estudantes pretos e brancos trabalham juntos em relativa paz. Será o fim do preconceito? Os autores da obra Desegregated Schools: Appraisals of an American Experiment (Escolas Dessegregadas: Avaliações duma Experiência Americana) observam que os estudantes ainda preferem sentar-se na companhia de membros de sua própria raça e ter atividades sociais quase que exclusivamente com estes. “Segregação informal”, é como a chamam os pesquisadores.
Por conseguinte, a harmonia racial não raro é pouco mais do que coexistência pacífica. Se as diferentes raças hão, algum dia, de aprender a amar e compreender umas às outras, será preciso fazer mais do que simplesmente pô-las em contato. Mas, será preciso o quê? As Nações Unidas fizeram tíbia tentativa ao patrocinar a “Segunda Conferência Mundial de Combate ao Racismo e à Discriminação Racial”. (1-13 de agosto de 1983) Mas, segundo esperado, tudo que resultou dela foram mais teorias e retórica altissonante.
Novas Perspectivas Sobre Raça e Nacionalidade
As pessoas não irão abandonar suas arraigadas atitudes e preconceitos a menos que tenham poderosos motivos para isso. E, para muitos milhares, esta motivação foi cultivada através do estudo da Bíblia. Ela pode atingir os corações e mover à ação, como nenhum outro livro no mundo consegue fazê-lo. “Porque a palavra de Deus é viva e exerce poder.” (Hebreus 4:12) Suponha, por exemplo, que o leitor fosse alguém que nutria animosidade para com certa raça ou nacionalidade. Se começasse a estudar a Bíblia, logo compreenderia que ela ensina que “Deus não vai pela aparência externa dum homem”, “mas, em cada nação, o homem que o teme e que faz a justiça lhe é aceitável”. — Gálatas 2:6; Atos 10:34, 35.
Ao aceitar que Deus “fez de um só homem toda nação dos homens”, isso irá seguramente fazê-lo reavaliar seus conceitos para com as pessoas de outras raças. (Atos 17:26) Como pode alguém considerar inferiores as pessoas de diferente cor da pele, textura de cabelos e formato dos olhos e nariz — características de diferentes raças — se cultivou uma amizade com Deus, que criou de um só homem toda a nação dos homens?
Na verdade, as diferentes raças parecem ter destacados traços de personalidade — bons e ruins. A Bíblia, contudo, acautela: “Que guardes estas coisas sem preconceito, não fazendo nada por parcialidade.” (1 Timóteo 5:21) O cristão, assim, deixa que cada um “prove . . . quais são as suas próprias obras”, em vez de julgar o valor dum homem pela sua cor ou raça. — Gálatas 6:4.
O apóstolo Paulo, por exemplo, observou que os habitantes de Creta tinham a reputação detestável de serem “mentirosos, feras prejudiciais, glutões desempregados”. (Tito 1:12) Isto não significa, porém, que tais características eram um tanto inerentes ou que existiam em todos os cretenses. Pois Paulo instruiu Tito a procurar ali em Creta alguns homens que estivessem acima disso e a designar tais a posições responsáveis na congregação. — Tito 1:5.
Admitidamente, às vezes a pessoa se sente tentada a concluir que certas características étnicas “estão no sangue”. Certo grupo racial, por exemplo, talvez tenha vários membros ociosos e desempregados. ‘São preguiçosos mesmo’, alguns concluem precipitadamente. O cristão, porém, sente compaixão pelas pessoas. Compreende que muitas pessoas são “esfoladas e empurradas dum lado para o outro” por este mundo perverso e indiferente. (Mateus 9:36) Ora, em muitos países, os bias raciais e as condições econômicas impedem que certas pessoas obtenham empregos adequados! Assim, o que não raro parece preguiça resulta ser desesperança e desespero. Tais pessoas precisam de ajuda espiritual e de compreensão — e não de duras críticas.
Isto traz-nos à mente o conselho do apóstolo Paulo de fazermos tudo com “humildade mental, considerando os outros superiores a” nós. (Filipenses 2:3) Aceitar este conselho pode exigir uma mudança radical no modo de pensar da pessoa. Como se deu no primeiro século, alguns se julgam “superiores” por terem formação secular ou elevado padrão social. Todavia, Paulo lembrou aos cristãos do primeiro século que “Deus escolheu as coisas tolas do mundo . . . e as coisas menosprezadas”. (1 Coríntios 1:26-28) Estes humildes possuíam uma humildade e sinceridade que, aos olhos de Deus, os tornavam “superiores”. Pode uma pessoa ser preconceituosa se adotar este conceito piedoso sobre os outros?
Colocar-se do Lado Oposto
Por outro lado, talvez tenha sido por longo tempo vítima de preconceito e compreenda que poucas pessoas, deveras, tentarão livrar-se de suas prevenções. A Bíblia pode ajudá-lo a avaliar como é fútil esperar que haja justiça na ordem social distorcida da atualidade. “Aquilo que foi feito torto não pode ser endireitado”, disse Salomão. (Eclesiastes 1:15) Deus, portanto, prometeu erradicar por fim todas as injustiças, e ter ciência disso pode constituir verdadeira fonte de conforto para o leitor! — Salmo 37:1-11; 72:12-14.
Por enquanto, porém, talvez precise encontrar meios de enfrentar o preconceito. Em resposta à prevenção, alguns desenvolvem seus próprios preconceitos, concluindo que todas as pessoas de outra raça têm bias. Tornam-se sensíveis demais, ofendendo-se diante da observação mais inocente. A Bíblia, contudo, avisa em Eclesiastes 7:9: “Não te precipites no teu espírito em ficar ofendido.” Aprenda a conceder aos outros uma margem de confiança e se poupará de muita irritação.
Lembre-se, também, de que Jesus amiúde sofreu rejeição por parte de seus concidadãos judeus. Mesmo assim, incentivou seus discípulos a dirigir-se de modo otimista às pessoas. “Onde quer que entrardes numa casa”, disse Cristo, “dizei primeiro: ‘Haja paz nesta casa’”. (Lucas 10:5, 6) Por certo, é melhor dirigir-se às pessoas na expectativa e com o desejo de ter paz do que armar-se emocionalmente para uma disputa.
Que fazer, porém, se for vítima de injustiça, como o casal nigeriano cujo prospectivo senhorio, na Inglaterra, voltou atrás em sua promessa de alugar-lhes um apartamento? (As pessoas se queixaram de que não queriam vizinhos de cor.) Que afronta para a dignidade duma pessoa! A Bíblia, todavia, acautela quanto a “forçar um ao outro a um confronto”. (Gálatas 5:26; nota de rodapé da Tradução do Novo Mundo, ed. 1984, em inglês, Bíblia de Referências) Isso usualmente serve apenas para arraigar ainda mais os bias e os ódios. E a resposta irada geralmente apenas agrava uma situação já ruim.
Jesus forneceu o seguinte conselho: “Não resistais àquele que é iníquo; mas, a quem te esbofetear a face direita [agir de modo insultante para com a pessoa], oferece-lhe também a outra.” Paulo acrescenta: “Não retribuais a ninguém mal por mal. . . . Se possível, no que depender de vós, sede pacíficos para com todos os homens. . . . Não te deixes vencer pelo mal, porém, persiste em vencer o mal com o bem.” (Mateus 5:39-44; Romanos 12:17-21) Retribuir ao ódio com bondade exige verdadeira força moral. Mas, por recusar-se a deixar que a prevenção o encha de ressentimento, coloca-se acima disso.
Buscar a Vantagem dos Outros
Uma senhora recém-casada, da Jamaica, aprendeu ainda outra lição sobre vencer o preconceito. Quando a família do seu marido africano colocou-a mais ou menos no ostracismo, ela passou a encarar as coisas do ponto de vista deles. Recorda ela: “Vi que o dedo do preconceito podia também ser apontado para mim. Não queria usar as roupas do estilo deles, não gostava da comida deles e não fazia nenhum esforço de aprender sua língua. Assim, decidi tentar aprender algumas expressões no idioma deles. Sempre que eu dizia alguma coisa na língua deles, respondiam com entusiasmo: ‘Ah, agora está-se tornando um dos nossos!’”
Sim, nada se perde, e muito se ganha, por honrar os aspectos saudáveis das culturas de outros povos. Assim, se provém dum país em que as pessoas tendem a ser espirituosas, faça ajustes caso se mude para um país em que as pessoas tendem a ser reservadas. A Bíblia diz, de modo apropriado: “Que cada um persista em buscar, não a sua própria vantagem, mas a da outra pessoa.” (1 Coríntios 10:23, 24, 31-33) Lembre-se de que, com freqüência, na raiz do preconceito estão o egoísmo e a intolerância.
Vencido o Preconceito!
Por conseguinte, a Bíblia está repleta de conselhos práticos que podem ajudar os indivíduos tanto a vencer como a enfrentar o preconceito. Nem sempre é fácil fazê-lo, mesmo para cristãos devotados. Considere o que aconteceu algum tempo atrás durante um intervalo de um congresso das Testemunhas de Jeová. Uma senhora, que levava uma bandeja, chocou-se contra uma cadeira e derramou seu refresco sobre as pernas de outra senhora. Isto poderia parecer insignificante, exceto por um fator: Uma das senhoras era de cor, e a outra era branca.
A troca de palavras breves, porém iradas, que se seguiu revelou a animosidade racial acumulada. Sob circunstâncias comuns, não seria nem o caso de se pensar em pedir desculpas! Com a ajuda dum observador, lembrou-se a estas duas senhoras que elas eram cristãs. Elas sabiam que ter preconceitos raciais era errado, e não poderiam continuar no favor de Deus se não fizessem as pazes. (1 João 4:20) Foi deveras tocante observar estas duas senhoras abraçarem-se chorando e pedirem desculpas uma à outra. Mais importante, esqueceram o incidente e passaram a conversar como duas velhas amigas.
As Testemunhas de Jeová têm feito, assim, grandes progressos para eliminar os preconceitos. Verifique isso por si mesmo. Há literalmente milhões delas que dão testemunho vivo de que a Palavra de Deus tem deveras poder — poder suficiente para vencer até mesmo o preconceito.
[Destaque na página 16]
Como pode alguém considerar inferiores as pessoas de diferentes raças quando Deus “fez de um só homem toda nação dos homens”?
[Destaque na página 18]
Retribuir ao ódio com bondade exige verdadeira força moral.
[Destaque na página 18]
Por recusar-se a deixar que a prevenção o encha de ressentimento, coloca-se acima disso.
[Foto na página 17]
Estudar a Bíblia obriga a pessoa a reavaliar seus sentimentos para com as pessoas de diferentes raças.
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Quão eficaz é o evangelismo de porta em porta?Despertai! — 1985 | 22 de maio
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Quão eficaz é o evangelismo de porta em porta?
“O interesse pelo evangelismo aumenta explosivamente nas igrejas americanas”, afirma a revista Christianity Today (Cristianismo Atual). Mas, que tipo de evangelismo está sendo promovido?
Ultimamente, muitas igrejas protestantes têm promovido o “evangelismo da amizade”, isto é, os membros das igrejas testemunham a seus amigos, vizinhos, e membros da família. Afirmando que tal método é muito mais eficaz do que a visita aos lares de estranhos, certo grupo eclesiástico aponta uma pesquisa que fez dentre 14.000 membros de igrejas. “De 75 a 90 por cento deles afirmam que devem sua fé cristã a um amigo ou parente.” O testemunho de porta em porta, diz o informe, é tido como ineficaz pela maioria das igrejas. Ademais, “a ampla maioria dos cristãos jamais se sentiria confortável de dar este tipo de testemunho”.
Mas, pode-se realmente declarar ineficaz o método de pregação de porta em porta? As Escrituras indicam que os cristãos primitivos, em vez de limitar sua pregação aos amigos e parentes, obtiveram esplêndidos resultados ao pregar de povoado em povoado, e de casa em casa. — Lucas 8:1; Atos 2:41; 4:4; 5:14, 42; 20:20, 21.
Hoje em dia, as Testemunhas de Jeová utilizam os mesmos métodos apostólicos. O sociólogo inglês, Bryan Wilson, analisou o crescimento das Testemunhas de Jeová no Japão, e concluiu: “A maioria [58,3 por cento] dos que se tornaram Testemunhas declara que tiveram seu interesse despertado inicialmente por receberem em casa a visita dum publicador.” O ministério de porta em porta é eficaz, embora talvez não seja “confortável” para “a ampla maioria dos cristãos”.
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