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O problema carcerário — qual é a solução?Despertai! — 1977 | 22 de setembro
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O problema carcerário — qual é a solução?
NO DIA 16 de agosto do ano passado, recebi um telefonema em meu escritório, em Brooklyn, Nova Iorque. Reconheci a voz dum velho amigo, que dizia: “Gostaria de proferir alguns discursos na prisão de Angola, lá na Luisiana?”
“Se eu gostaria? É claro que sim, gostaria muito!” Fiquei contente de ter essa oportunidade.
Há cerca de um ano, tinha lido a respeito de um programa de reabilitação de grande êxito, naquela prisão, e queria observá-lo em primeira mão.a Foram feitos arranjos para que eu chegasse até lá de avião, em 4 de novembro de 1976.
Nutro profundo interesse pelas prisões e pelos esforços de reabilitar os presidiários. Isto se deve, em grande parte, a que eu passei cerca de dois anos atrás das grades, na década de 1940. Não estava detido por algum crime, mas porque minha consciência não me permitia tomar armas para a guerra.
Faz muito tempo que as prisões apresentam problemas — a superpopulação talvez seja o maior, atualmente. Notei a seguinte notícia no Post de Denver, EUA, ano passado: “A construção de prisões ameaça tornar-se a indústria de maior crescimento da década de 70. . . . 524 novas instalações ou anexos estão agora sendo planejados.” — 25 de abril de 1976.
Mas, será que construir mais prisões equacionará o problema? Será que o melhor meio de lidar com malfeitores é mandá-los para a cadeia?
Interessei-me pelo debate, que está sendo travado nos últimos anos, quanto a qual deve ser a verdadeira finalidade das prisões.
Castigo ou Reabilitação?
A questão debatida é: Devem às prisões ser primariamente locais de castigo para os malfeitores, ou locais de reabilitação? Breve exame da história, contudo, revela que há alternativas inteiramente diversas.
Nos tempos antigos, não existiam prisões, conforme as conhecemos. Naquele tempo, os malfeitores eram executados, ou então recebiam castigo físico, isto é, punição corporal. Isso podia incluir o açoite, ser marcados a ferro quente ou aleijados, após o que o malfeitor era solto.
Daí, nos séculos dezoito e dezenove, a pena de morte passou a ser aplicada a menos crimes, e o castigo físico foi gradualmente abolido. Foi quando aumentou o costume de mandar os malfeitores para a prisão. Estas eram locais infestados de insetos nocivos, sujos, superlotados, onde o alimento era escasso e os reclusos trabalhavam longas horas. Muitos morriam devido às terríveis condições. O castigo era a finalidade primária de tais prisões.
Nos tempos mais recentes, ocorreu uma mudança de atitudes. No século passado, propôs-se a idéia de que a principal finalidade das prisões devia ser reformar ou reabilitar os reclusos. Nos EUA, já em 1970, a Força-Tarefa Sobre a Reabilitação dos Presos, do ex-presidente Nixon, concluiu que os programas de reabilitação de presos deveriam tornar-se modalidade central de futuras diretrizes carcerárias.
Mas, recentemente, os esforços de reabilitação têm sofrido críticas. Esta súbita mudança de ponto de vista me interessava.
Que Dizer da Reabilitação?
Certa manchete em The National Observer, de 4 de Janeiro de 1975, dizia: “Depois de 150 Anos de Tentativas de Reabilitar Criminosos, até mesmo os Reformadores Admitem que . . . A REFORMA É UM FRACASSO.”
Comentou Science: “A desilusão com a ‘reabilitação’, pelo menos em suas formas atuais, tem sido tão profunda que tem feito com que muitos cientistas sociais e penalogistas de destaque abandonassem filosofias prezadas, em questão de alguns anos.” — 23 de maio de 1975.
Concluiu Newsweek: “O crescente consenso entre os profissionais carcerários parece ser que . . . a função essencial dum sistema carcerário tem de ser o castigo pelo confinamento do criminoso e a proteção da sociedade das más ações dele.” — 10 de fevereiro de 1975.
Como morador da cidade de Nova Iorque, estou inteiramente a favor duma ênfase renovada sobre a proteção da sociedade contra os criminosos. O prefeito de Wilmington, Delaware, Thomas Maloney, infelizmente foi exato, ao dizer: “Os cidadãos são agora prisioneiros em seus lares, tendo correntes, fechaduras, barras e grades, enquanto os criminosos estão do lado de fora, andando às soltas.”
Muitos aplaudiriam a mudança da preocupação primária para que fosse sobre os direitos que têm as pessoas acatadoras da lei que são vítimas do crime. Parece claro que o fracasso em tornar os malfeitores responsáveis pelos seus atos só os tem tornado criminosos mais empedernidos. Naturalmente, isto suscita uma grande questão: É possível castigar o crescente número de malfeitores por meio de sentenças de prisão?
O Problema de Onde Colocá-los
A realidade é que os esforços de esmagar o crime já inundaram as prisões dos Estados Unidos. De Janeiro de 1973 a Janeiro de 1977, a população apenas das prisões federais e estaduais nos cita aumentou 45 por cento, passando de 195.000 para 283.000! Noticia The Wall Street Journal: “A maioria dos estados já colocam os detentos em cada cantinho das prisões existentes. Os reclusos dormem em prateleiras sobre os vasos sanitários, nos banheiros e nos ginásios esportivos.” — 20 de julho de 1976.
Além das grandes prisões federais e estaduais, há milhares de prisões dos condados e das cidades. O Times de Nova Iorque, de junho de 1976, disse que 60.000 homens e mulheres cumpriam penas nas oito prisões da cidade de Nova Iorque, cada ano. E certo criminologia diz que mais de dois milhões de pessoas passam anualmente pelas prisões dos Estados Unidos!
O problema se torna sobrepujante quando se considera que mais de 10 milhões de crimes graves são denunciados à polícia cada ano — bem mais de 30 milhões nos últimos três anos! Simplesmente não há instalações suficientes para segurar todos os malfeitores, até mesmo os que as autoridades conseguem prender. E o custo para os contribuintes já e assustador.
Fiquei atônito de ler a notícia do Times de Nova Iorque, em setembro de 1976, de que custa “cerca de US$ 12.000 (Cr$ 180.000,00) para cada preso, por ano, simplesmente para sua custódia nas prisões de Nova Iorque”. A essa taxa, atinge-se uma conta de Cr$ 45 bilhões anuais, apenas para manter os 250.000 detentos nas prisões federais e estaduais! E, para a construção de novas prisões, os custos de construção alegadamente poderão atingir até Cr$ 600.000,00 para cada detento!
O problema carcerário é deveras enorme, em especial tendo-se em vista a predição de um perito carcerário de que, em meados de 1980, poderia haver 400.000 detentos nas prisões federais e estaduais. Qual é a solução?
A Reabilitação É Desejável
Encaremos isso de frente. Todos nós ficaríamos contentes de ver os criminosos se reformarem e se tornaram cidadãos úteis e acatadores da lei. E tais mudanças, no nível individual, não são impossíveis, apesar do fracasso da maioria dos programas de reabilitação. Acontece apenas que, conforme disse recentemente Norman Carlson, diretor do Departamento de Prisões dos EUA: “A reabilitação tem sido muito divulgada como conceito. . . . estamos agora cônscios de que não podemos reabilitar ninguém — só podemos fornecer-lhes a oportunidade para isso.”
Estou pessoalmente convencido de que fornecer as oportunidades corretas servirá para motivar certos criminosos a mudar. Digo isto porque, como detento na prisão federal de Ashland, Kentucky, eu vi como o coração dum preso podia ser tocado, e toda a sua vida ser transformada.
Assim, eu aguardava minha viagem de novembro, e ver, em primeira mão, o que estava sendo realizado ali, na prisão de Angola, Luisiana. É a segunda maior prisão estadual dos Estados Unidos, sendo um complexo de cerca de 7.300 hectares. Uma notícia de jornal de 1975 declara que foi construída para 2.600 detentos, mas aloja 4.409.
Logo chegou a quinta-feira, 4 de novembro, e eu estava viajando para lá.
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Um programa de reabilitação bem sucedidoDespertai! — 1977 | 22 de setembro
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Um programa de reabilitação bem sucedido
O AVIÃO aterrou em Baton Rouge, Luisiana, na noite de quinta-feira. Meu amigo me recebeu, e fomos de carro para a casa dele na cidade próxima de New Roads. Nessa noite, conversamos longamente sobre o que se passava na prisão de Angola.
Meu amigo faz parte de um grupo de seis cristãos que dirigem um programa regular de instrução dentro daquela prisão. Em rodízio, um deles se dirige cada semana para lá, a fim de dirigir reuniões com os presos. Em média, cerca de quarenta detentos comparecem a elas.
“Em realidade, o programa teve início de dentro para fora” explicou meu amigo. No início de 1973, dois presos, que liam publicações das Testemunhas de Jeová, escreveram uma carta pedindo que alguém os visitasse. No ínterim, estes presos conversaram com outros detentos e os interessaram nas coisas que estavam aprendendo.
Foi em outubro de 1973 que se realizou na prisão a primeira reunião, com dezoito detentos. Com o tempo, as reuniões foram dirigidas cada quarta-feira e domingo. O número de detentos que assistiam a elas continuou aumentando até que, certa ocasião, cerca de sessenta ou mais compareciam a elas. O que foi que suscitou tão amplo interesse?
O Programa de Instrução
Meu amigo explicou que as reuniões eram, e ainda são, dirigidas basicamente da mesma forma que são em qualquer Salão do Reino das Testemunhas de Jeová. Aos domingos, há um discurso bíblico de uma hora, proferido usualmente por um convidado de uma congregação próxima. Depois deste há um estudo bíblico baseado num número recente da revista A Sentinela.
Nas noites de quarta-feira realiza-se a Escola Teocrática, um curso de instrução bíblica destinado a aumentar o conhecimento bíblico do estudante, bem como aprimorar suas habilidades oratórias. Também, uma Reunião de Serviço considera o melhor meio de se transmitir a mensagem da Bíblia aos co-presidiários de Angola.
Fiquei surpreso de saber quão ativos são tais detentos em falar a outros sobre sua fé bíblica recém-adquirida. Em alguns meses, eles dirigiram estudos bíblicos semanais com mais de cinqüenta co-presidiários. E, apenas no ano passado, dentro da prisão, distribuíram cerca de 5.000 exemplares de A Sentinela, Despertai! e livros encadernados que explicam os propósitos de Deus.
O entusiasmo dos primeiros detentos foi transmitido àqueles com quem dirigiam estudos, e isto contribuiu para o êxito do programa.
Satisfazer os Requisitos
As reuniões são realizadas numa sala do Prédio Educacional da prisão que, segundo me informaram, parece-se muito com uma sala de aula. Mas, para freqüentá-la, o nome do presidiário tem de ser colocado numa lista de ‘chamada’. Isso permite que deixe seu local de confinamento no enorme complexo carcerário e se reúna neste ponto central com o grupo do qual faz parte na ‘chamada’.
Fiquei surpreso de saber que as Testemunhas exercem controle sobre quem comparece às suas reuniões lá dentro da prisão. Não é qualquer um que pode assistir a elas, e há motivos para isso. Comumente, os detentos se juntam a algum grupo na esperança de que, ao fazer isso, sejam ajudados a sair mais cedo da prisão. Assim, como é que as Testemunhas de Jeová determinam se certo detento é sincero, e, assim, habilita-se a comparecer às reuniões?
Primeiro, dirige-se com ele um estudo bíblico pessoal. Apenas se ele mostra genuíno interesse é que é colocado na lista de ‘chamada’. Mas, se perder mais de quatro reuniões num mês, sem bons motivos, tal como doença, notificam-se às autoridades presidiárias, e seu nome é retirado da lista de ‘chamada’. Daí, só poderá assistir de novo às reuniões por provar seu genuíno interesse por certo período de tempo.
Êxito Inicial
Eu sabia do êxito inicial deste programa, tendo ouvido falar nele no relatório sobre as assembléias de distrito que foi publicado no número de 15 de janeiro de 1975 de A Sentinela. Dizia este:
“Uma cena tocante aconteceu na assembléia de Baton Rouge, na Luisiana, EUA. As Testemunhas de Jeová haviam realizado durante meses estudos bíblicos com presos da Penitenciária Estadual de Luisiana, em Angola, nos Estados Unidos. Muitos destes homens progrediram em conhecimento bíblico e surpreenderam as autoridades penitenciárias com a mudança radical na sua conduta. Concedeu-se assim permissão a oito deles para serem levados à assembléia de Baton Rouge. Foi um momento emocionante quando estes homens, com correntes nos pés e algemas, desceram dos carros e foram levados para dentro, para se sentarem com os outros a serem batizados naquele dia.”
Bem, deve lembrar-se de que, para ser batizado como uma das Testemunhas de Jeová, uma pessoa tem de satisfazer elevadas habilitações bíblicas. E as pessoas são peneiradas para certificar-nos de que realmente se habilitem. A pessoa tem de responder pelo menos a oitenta perguntas bíblias básicas, inclusive, por exemplo, as seguintes:
“Que é o reino de Deus”? “Qual é o propósito de Deus para com a terra?” “Qual é a única base bíblica para um divórcio que livra a pessoa para um novo casamento?” “Por que se deve evitar o mentir?” “Qual é o conceito cristão sobre a bebedice?” “Que diz a Bíblia sobre a fornicação, o adultério e as relações sexuais com outra pessoa do mesmo sexo, e outra conduta desenfreada? Pode ser batizada a pessoa que pratica tais coisas?”
A resposta para esta última pergunta é Não. Mas, como está a par, mesmo aqueles que não estão por trás das grades praticam comumente tais erros, e consideram que tudo está bem. Mas, esses oito presidiários adotaram um padrão moral superior, e estavam vivendo segundo o mesmo. Logo começou a haver outros.
Já no início do outono setentrional de 1974, outros oito presidiários se habilitaram para o batismo. Meu amigo me disse: “Pensávamos em que ótimo seria realizarmos um batismo lá dentro da prisão, com visitantes externos.” Tentou-se aproveitar a oportunidade, e as autoridades carcerárias, tão impressionadas com os resultados do programa de instrução, concederam tal permissão. Em 5 de outubro de 1974, realizou-se esta assembléia especial. Observe a descrição de Despertai!:
“Os que chegavam de fora criaram uma vista incomum. Ao todo, 337 pessoas se ajuntaram nos portões da prisão. Era uma multidão de homens, mulheres e crianças bem vestidos, tanto brancos como negros. Alguns tinham vindo até de 1.100 quilômetros de distância.
“À medida que seus nomes eram ticados numa lista, eram admitidos pelos portões. Ônibus os conduziam por mais de três quilômetros para dentro do enorme complexo carcerário. Saltando deles, entravam pelos portões de ferro para um grande auditório.”
Eu tinha lido esse relatório em Despertai!, e interessou-me grandemente. Mas, tinha ouvido pouca coisa sobre outros resultados do programa de reabilitação. Assim, ao nos pormos à vontade depois do jantar, eu me tornei um ouvinte atento enquanto meu anfitrião me fornecia tais informações.
Notável Crescimento
“Essa assembléia de outubro deu verdadeiro ímpeto ao nosso programa”, explicou meu amigo. “Os cerca de cem presidiários presentes ficaram realmente impressionados com o amor e o calor humano demonstrados pelas centenas de visitantes.”
Como resultado disso, muitos desses detentos solicitaram estudos bíblicos e fizeram excelente progresso. “Logo depois”, continuou meu amigo, “vários outros fizeram as mudanças necessárias em sua vida que os habilitava para o batismo. Por conseguinte, fizeram-se planos para outra assembléia, uma ainda maior. De novo as autoridades carcerárias a aprovaram, desta vez tornando disponível o Estádio de Rodeio da prisão. Assim, no começo da manhã de sábado, 26 de abril de 1975, centenas de carros lotados de Testemunhas convergiram para Angola.”
Desta vez, os carros penetraram lá dentro da prisão. No portão de inspeção, a única pergunta feita era: “Carregam alguma arma?” Daí, os carros iam direto ao estádio de rodeio. Ao todo, havia 2.602 visitantes! O destaque da reunião foi o batismo de outros doze detentos, inclusive um assassino da ala dos condenados à morte, que foi trazido acorrentado para ser batizado. Ele já estudava há um ano com as Testemunhas, bem ali, na ala dos condenados à morte.
As autoridades carcerárias ficaram contentes com o modo como esta assembléia de um só dia terminou tão bem, assim como com seu excelente efeito sobre os presidiários. Assim, receberam muito bem os planos para outra assembléia de um dia no outono setentrional. Desta feita, no sábado, 29 de novembro de 1975; 3.200 visitantes estavam presentes! E outros oito detentos foram batizados.
“Sábado que vem será nossa próxima assembléia especial na prisão”, dizia meu amigo. “Estamos muito contentes de que pôde vir assistir a ela.”
Eu agora estava mais ansioso do que nunca de visitar a prisão. Era surpreendente — trinta e seis presidiários já batizados, e outros seis que seriam batizados no sábado! No dia seguinte, sexta-feira, meu amigo iria levar-me a Angola para conhecer e entrevistar algumas autoridades.
Vendo-o por Mim Mesmo
Partindo após o almoço, fomos de carro por cerca de uma hora e meia pela área de pântano, e atravessamos o Rio Mississípi numa balsa. Daí, seguindo por colinas ondulantes, finalmente chegamos ao portão principal da prisão. Obviamente, os guardas conheciam meu colega, trocando breves cumprimentos com ele. Deixaram-nos então penetrar na prisão.
Ao guiarmos em direção ao Estádio de Rodeio, a área me fazia lembrar uma grande plantação. Havia uma cerca recém-construída, de ambos os lados da estrada. Havia campos que estiveram sendo cultivados. Os detentos, segundo soube, produzem grande parte de seus alimentos. Por fim, chegamos à área de segurança máxima. Depois de passarmos por uma série de portões, entramos no Estádio de Rodeio, pela parte de trás.
Estava sendo construído um palco, numa das pontas do local. Havia vários detentos que são Testemunhas dando os retoques finais no palco, o que incluía pintá-lo e acarpetar o piso. Foi um prazer conhecê-los. Os quatorze rapazes eram calorosos, amigáveis e extrovertidos. Soube que tinham obtido permissão especial das autoridades para aprontar o local para a assembléia no dia seguinte.
Ervin St. Amand, um detento que tem assumido certa liderança no programa de instrução na prisão, tinha feito arranjos para que entrevistássemos algumas autoridades carcerárias. Assim, fomos cumprir nossos compromissos. Parecia-me esquisito que Ervin não pudesse ir de carro conosco, mas esse era um regulamento da prisão, que obedecemos com prazer. Ele caminhava rapidamente, apesar de sua perna mecânica (pois perdera a verdadeira numa tentativa de fuga, feita anos antes), e nos encontrou lá adiante.
Depois de estacionarmos o carro, passamos por outros detentos. Não pude deixar de notar a diferença entre esses e os outros que acabávamos de deixar. Alguns estavam deitados, de modo desligado, no chão, enquanto que outros simplesmente pareciam olhar para o espaço. Pareciam resignados à sua sorte, sem grandes esperanças para o futuro. Que contraste!
Elogios das Autoridades
Chegando ao prédio da administração, fomos levados ao gabinete do Major Richard A. Wall (desde então promovido a Tenente-Coronel): Sendo extrovertido, ele estava obviamente contente com nosso programa de instrução. Ele gastou muitos anos no sistema carcerário, estando a par da ineficiência de tantos esforços de reabilitação. Todavia, não economizou palavras ao elogiar o valor de nosso programa.
Eu estava familiarizado com a história passada de Ervin — ele tinha sido verdadeiro causador de problemas, e ruim mesmo! Assim, perguntei diretamente a Wall: “O Sr. confia nesse homem?”
“Confio implicitamente em St. Amand”, respondeu logo. E acrescentou: “Gosto de sua organização porque os senhores cuidam de sua própria gente. Se alguém começa a agir errado, tentam ajudá-lo. Mas, se ele persistir num proceder errado, os senhores o lançam fora de sua organização. Podemos confiar que os senhores farão aquilo que dizem.”
Era evidente que os detentos que são Testemunhas haviam causado uma impressão duradoura nesta autoridade. Mas, tínhamos de seguir caminho.
Nossa próxima parada era a lavanderia da prisão, onde me foi apresentado Lawrence Watts, supervisor da lavanderia. Ele tinha concordado em patrocinar nosso programa dentro da prisão, lá por volta de 1973. Ele me disse: “O bom exemplo dos presidiários que os senhores ajudaram tem sido um tanto contagiante. Acho que, como resultado, a conduta geral dos presos melhorou. Sei que melhorou!”
Ele deixou claro para nós que apreciava aquilo que nós fazíamos em Angola. Depois duma conversa muitíssimo agradável, fomos embora e voltamos de carro ao campo de rodeio, para despedir-nos dos presos. Dissemos-lhes que os veríamos no dia seguinte, e fomos para casa.
A Assembléia
Na manhã seguinte, fazia frio. Chegamos ao Estádio de Rodeio às 7,30, duas horas antes de o programa começar. Queria conhecer os seis rapazes que seriam batizados. Ao conversar com eles, fiquei impressionado com sua sinceridade e seu apreço pela Palavra de Deus.
O tempo passou rapidamente, e começou o programa. Às 10 horas, falei sobre o tema “A Vontade de Deus ou a Vontade Própria, Qual?” Seguiu-se o discurso do batismo, após o que os rapazes foram batizados num tanque erguido perto do palco, à vista dos 1.970 visitantes. Houve uma explosão de aplausos à medida que cada detento saía da água. Jamais esquecerei o rosto de certo homem, com água escorrendo e com grande sorriso que facilmente lhe dizia: “Este é o dia mais feliz da minha vida!”
Depois do batismo, houve um intervalo de duas horas. A congregação “New Roads” fizera arranjos de alimentos para todos, disponível a uma taxa simbólica. Voluntários da assistência ajudaram a servi-los. Não se permitiu que os detentos comessem junto com as pessoas de fora; foram servidos numa área próxima do palco.
Tive livre acesso ao local interior em que os presidiários estavam reunidos, e apreciei conversar com alguns que se interessavam na obra das Testemunhas de Jeová. Um deles me disse: “Os senhores não precisam pregar os fundamentos de sua religião. Tudo que precisam fazer é tornar-se amigo duma pessoa, e, no devido tempo, os senhores a ganham por causa de sua conduta e amabilidade.”
As duas horas se passaram rapidamente, e era tempo de reiniciar o programa. O discurso público se intitulava “O Reino de Deus É Uma Realidade Viva”. Depois dele, fez-se um resumo da lição de A Sentinela, apresentado pelos detentos já batizados. E que trabalho esplêndido fizeram!
Às 16 horas chegara o tempo para o cântico e a oração finais. Uma amiga minha, que é Testemunha já por muitos anos, expressou os sentimentos de muitos de nós quando ela disse: “Sentimos ali um calor humano e um amor em maior grau do que em qualquer assembléia a que já havíamos assistido.”
The Angolite, uma publicação carcerária da Penitenciária Estadual de Luisiana, comentou: “Esta foi a quarta de tais assembléias que as Testemunhas realizaram em Angola, e planejam-se outras no futuro, visto que as Testemunhas continuam seus esforços de tocar no coração de cada vez mais presidiários. O seu esforço representa o maior e o mais coerente já feito por qualquer grupo religioso, no sentido de tentarem persuadir e ajudar os presos aqui a procurar o aprimoramento pessoal é uma vida mais significativa.” — Novembro-Dezembro de 1976.
Programa Ímpar?
Para dizer o mínimo, fiquei profundamente impressionado com aquilo que vi e senti. Quando retornei a vi Nova Iorque, comecei a verificar indícios e a escrever cartas para ver o que poderia encontrar quanto a programas similares nas prisões. E posso dizer-lhe que aquilo que se processa em Angola é ímpar apenas em seu tamanho e seu maior êxito. Citarei apenas alguns exemplos:
Toda quarta-feira, um ancião dentre as Testemunhas de Jeová visita o Instituto Correcional Chillicothe, em Ohio. Ele dirige um estudo bíblico ao qual comparecem, em média, de oito a quatorze detentos. Dois já foram batizados, e outros dois estão pensando em batizar-se.
Quatro reuniões semanais são dirigidas pelas Testemunhas de Jeová no Instituto Correcional London, em Ohio, onde há 1.700 presidiários. Tais reuniões já são realizadas agora por cerca de dois anos, e três detentos já foram batizados. Outro detento, pronto para o batismo, foi solto no primeiro dia do ano.
Um programa muito bem sucedido funciona no Instituto Correcional de Ohio do Sul, em Lucasville, Ohio. Começou no outono setentrional de 1972. A assistência média às reuniões tem sido de cerca de 22 pessoas, havendo 33 comparecido a uma recente reunião especial. Em abril de 1975 e em março de 1976, sete detentos foram batizados em uma grande tina de água, comprada para ocasiões especiais.
Excelente programa começou em fins de 1973 na Prisão Estadual de Maryland. Logo depois se dirigiam muitos estudos bíblicos com os detentos, e, com o tempo, anciãos dentre as Testemunhas de Jeová dirigiam reuniões regulares. Até agora, oito homens já foram batizados (usando-se a banheira do hospital da prisão).
Na Ilha Rikers, cidade de Nova Iorque, oito anciãos fazem visitas semanais para dirigir estudos bíblicos com detentos. Também, outras cadeias da cidade estão sendo visitadas.
Significa isso que a solução para os tremendos problemas carcerários e criminais é este programa de instrução dirigido pelas Testemunhas de Jeová? De forma alguma! Admitidamente, sua contribuição para equacionar tal problema é mínima. Todavia, creio que elas fornecem um indício da verdadeira solução.
[Destaque na página 6]
“As reuniões são realizadas numa sala do Prédio Educacional da prisão.”
[Destaque na página 7]
“A única pergunta feita era: ‘Carregam alguma arma?’”
[Destaque na página 8]
“Podemos confiar que os senhores farão aquilo que dizem.”
[Foto na página 9]
Os seis candidatos ao batismo estão em pé, à frente do orador, sendo vista parte da assistência, ao fundo, pouco antes de seu batismo.
[Foto na página 10]
Com água ainda escorrendo, um detento irradia felicidade, depois de seu batismo.
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Qual é a solução?Despertai! — 1977 | 22 de setembro
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Qual é a solução?
PELO menos para um número limitado de detentos, a instrução bíblica fornecida dentro da prisão tem sido a solução. As saudáveis informações que obtiverem mudaram radicalmente sua vida, e não apenas superficialmente.
Nos últimos três anos, 42 detentos da prisão de Angola, Luisiana, foram batizados. Destes, quatorze já foram soltos. Eu estava curioso de saber como passavam; assim, verifiquei isso. Apenas um retornou à atividade criminosa.
Os outros se ajustavam muito bem. Pelo menos um deles serve numa congregação como servo ministerial. Todavia, conforme admitido, este programa de instrução bíblica dentro da prisão não é a solução para o problema em geral. Simplesmente oferece uma oportunidade que ajudará os detentos que desejem aproveitar-se dela.
A Bíblia, contudo, fornece orientação específica sobre o ajuste dos criminosos. Caso seja aplicada, há bons motivos de se crer que o problema carcerário e criminal seja grandemente minorado.
Compensação às Vítimas
A lei de Deus para o antigo Israel não continha provisões para sentenças carcerárias. O castigo básico para os crimes contra a propriedade, tais como o roubo ou a fraude, era a compensação às vítimas.
No entanto, pouquíssima ajuda; se é que alguma, é dada agora às vítimas do crime. Em geral não se restitui o dinheiro roubado delas, nem há compensação por quaisquer danos recebidos, quer à sua pessoa quer à sua propriedade. Todavia, a Bíblia mostra que os malfeitores deviam tornar-se responsáveis por seus atos. Como?
A lei de Deus fornecida ao antigo Israel estipulava que a pessoa que roubasse um touro ou uma ovelha tinha de pagar à vítima dois touros ou duas ovelhas. E, caso matasse o animal, tinha de pagar ainda mais do que dois animais. Caso não pudesse fazê-lo, tinha de servir como trabalhador contratado até ter pago o que devia à sua vítima. — Êxo. 22:1-9.
O valor de tornar os criminosos responsáveis por seus atos deve ser evidente. Primeiro, a vítima era ressarcida de suas perdas, e de um pouco mais pelas dificuldades que enfrentou. Em segundo lugar, isso ensinava ao violador da lei uma lição que poderia beneficiá-lo. E, em terceiro lugar, não sobrecarregava a comunidade com o custo de manutenção de prisões.
Em escala limitada, experimenta-se agora tal arranjo. O Journal de Milwaukee, de 19 de dezembro de 1975, relata:
“Ao invés de pagar sua dívida para com a sociedade por permanecer atrás das grades, Ray retornou à comunidade e trabalha para compensar suas vítimas. Ray é um dos 87 assaltantes, falsários e outros criminosos que foram soltos e entregues ao Centro de Restituição, estabelecido pelo Departamento Correcional de Minnesota. Os condenados já restituíram um total de US$ 15.000 (Cr$ 225.000,00) às suas vítimas desde que o programa começou, há três anos atrás.”
E um despacho da UPI, de 6 de fevereiro de 1977, observa:
“O Governo gasta US$ 2 milhões (Cr$ 30 milhões) para ajudar a avaliar um conceito em que os criminosos, ao invés de serem mandados para a prisão, recebem ordens de compensar suas vítimas por meio do trabalho. . .. O conceito tem sido experimentado em várias áreas, com resultados promissores.”
Algo mais, porém, é necessário, além de fazer com que os criminosos compensem as vítimas de suas perdas.
Pena Capital
A lei de Deus fornecida ao antigo Israel também estipulava a pena de morte para amplo leque de ofensas, incluindo-se, para exemplificar, o assassínio, o sequestro, o incesto e a bestialidade. (Núm. 35:30, 31; Êxo. 21:16; Lev. 18:6-23, 29) As execuções eram feitas usualmente por apedrejamento, e eram públicas. — Deu. 17:5.
A pena capital era então grande fator dissuasivo contra o crime. E, se for aplicada rápida e coerentemente, poderia ajudar a impedir o crime hoje, assim minorando grandemente o problema carcerário. Na verdade, muitos que se recusam a aceitar a sabedoria de Deus sobre tal assunto clamam que isso é “crueldade”. Todavia, onde seus métodos nos levaram? Perpetra-se maior crueldade do que nunca, não para com os criminosos, mas para com suas vítimas.
Novamente, precisamos admitir que o problema do crime não será eliminado pelo homem, apesar da imposição da pena de morte, ou de quaisquer outras tentativas de equacioná-lo. Mas, há uma solução completa e satisfatória.
A Solução Certa
James Q. Wilson, professor de administração pública na Universidade de Harvard, em seu livro Thinking About Crime (Pensando no Crime), mostrou o que é necessário. “Existem pessoas iníquas”, comentou em seu último parágrafo. “Nada dá certo, a não ser separá-las das pessoas inocentes.”
É verdade. Mas, quem pode julgar quem é iníquo e quem é inocente, e então separar permanentemente os iníquos, mas não para colocá-los atrás das grades? O Deus Onipotente pode, e seu propósito seguro e fazê-lo. Sua Palavra nos promete: “Pois os retos são os que residirão na terra e os insculpes são os que remanescerão nela. Quanto aos iníquos, serão decepados da própria terra.” — Pro. 2:21, 22.
Depois disso, as pessoas serão governadas pela leis de Deus. Tais leis serão postas em vigor por um governo amoroso, porém firme, aquele em favor do qual os cristãos foram ensinados a orar — o reino de Deus sob Cristo. Que ótimo será viver então sem qualquer necessidade de prisões, quando será possível confiar em todos na terra como se confia num amigo! (Mat. 6:9, 10) — Contribuído.
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Do bicho-da-seda ao quimonoDespertai! — 1977 | 22 de setembro
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Do bicho-da-seda ao quimono
Do correspondente de “Despertai!” no Japão
MIME uma lagarta e o que acontece? Isso depende da espécie de lagarta. Se for uma do bicho-da-seda, exigirá tratamento de primeira classe desde o dia em que nasce. Mas, os resultados bem que compensam os esforços.
Um bicho-da-seda é o estágio médio, ou larval, do desenvolvimento da mariposa chamada Bombyx mori. Sua vida começa quando uma mariposa adulta deposita de 300 a 500 ovos. Estes não se desenvolverão além disso, contudo, até que a temperatura seja exatamente correta.
No Japão, os sericicultores colocam os ovos num armazém refrigerado até maio seguinte. A eclosão deles é então escalonada. Em três ou cinco ocasiões nos seguintes cinco meses, trazem-se os ovos para um compartimento com a temperatura de cerca de 18 graus centígrados. Depois disso, aumenta-se gradualmente a temperatura a cada dia até que atinge 25° C. Nesse ponto, o bicho-da-seda aparece.
Semanas de Banquete
Os operários então transportam os bichos-da-seda recém-nascidos para uma sala especial de alimentação. Aqui, várias bandejas, cada uma contendo muitos bichos-da-seda, são ajustadas umas sobre as outras em armações, com um espaço de cerca de 60 centímetros entre si. Um auxiliar coloca uma camada de gaze ou de junco trançado na bandeja e, duas vezes por dia, espalha folhas de amoreira sobre ela. Sentindo isto, o bicho-da-seda se contorce e atravessa com esforços a cobertura e começa a comer vorazmente.
Esta festa dura cerca de 20 dias. E, que transformação ocorre então! Ao nascer, os filhotes têm apenas uns 2 milímetros de comprimento. Mas, depois de semanas de banquete, atingem até 89 milímetros, tendo consumido mais de vinte vezes o seu próprio peso em alimento. O corpo dum bicho-da-seda maduro pode chegar a ter 25,4 milímetros de espessura, e está cheio de seda líquida.
Tendo terminado de empanturrar-se, os bichos-da-seda erguem a parte dianteira de seus corpos no ar e começam a
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